Oito mulheres
Deixarei de discorrer nesta breve resenha a importância que a minha mãe e a minha irmã tiveram em toda a minha vida. Afinal de contas, não é preciso dizer que mãe é fundamental e irmã é uma bênção.
Tratarei aqui de citar apenas oito mulheres que de uma maneira ou outra participaram de alguns momentos cruciais da minha existência, dando-me atenção, cuidados, conselhos, carinho, afeto, companhia, amizade. Há uma legião de outras, anjos muitas delas, aqui não mencionadas, mas que nem por isso têm sua grandeza diminuída ou abalada nas minhas lembranças e das quais também me recordo com saudade.
Mirna
A minha primeira amiguinha, irmãzinha do coração. Dois anos mais velha, morava na rua dos fundos da minha casa.
Assim como a vida une, às vezes afasta. Fomos crescendo e nos distanciando um do outro, embora continuássemos a morar no mesmo lugar, nas mesmas casas. Na andança do tempo, cada um seguiu o seu caminho sem que eles tornassem a se cruzar.
Uma menina de quatorze, quinze anos, tem mentalidade mais adiantada – pelo menos naquela época – do que um piá da mesma idade. Como a Mirna estava um par de anos à minha frente, nossas diferenças de comportamento e aspirações, nessa fase, tornaram-se ainda mais acentuadas. Enquanto eu brincava com bolinhas de gude e jogava bete-ombro com a molecada na rua, a Mirna largava as bonecas para cultivar sonhos. Ela progredia para o ensino médio, eu continuava no ginásio (parte do fundamental de hoje).
Ao saber que ela estava para se casar, fiquei esperando pelo convite, achando que nosso distanciamento tinha sido coisa de momento ou de uma fase da vida. O convite não veio. Acho que fui acidentalmente esquecido e fiquei de fora do casamento. Triste. Por trás da janela eu a vi entrar no automóvel que a levaria à igreja, vestida de noiva e linda como todas as noivas são.
Jamais esse fato amargou as doces lembranças que eu tenho dela. A Mirna sempre esteve...
Continuar leitura
Oito mulheres
Deixarei de discorrer nesta breve resenha a importância que a minha mãe e a minha irmã tiveram em toda a minha vida. Afinal de contas, não é preciso dizer que mãe é fundamental e irmã é uma bênção.
Tratarei aqui de citar apenas oito mulheres que de uma maneira ou outra participaram de alguns momentos cruciais da minha existência, dando-me atenção, cuidados, conselhos, carinho, afeto, companhia, amizade. Há uma legião de outras, anjos muitas delas, aqui não mencionadas, mas que nem por isso têm sua grandeza diminuída ou abalada nas minhas lembranças e das quais também me recordo com saudade.
Mirna
A minha primeira amiguinha, irmãzinha do coração. Dois anos mais velha, morava na rua dos fundos da minha casa.
Assim como a vida une, às vezes afasta. Fomos crescendo e nos distanciando um do outro, embora continuássemos a morar no mesmo lugar, nas mesmas casas. Na andança do tempo, cada um seguiu o seu caminho sem que eles tornassem a se cruzar.
Uma menina de quatorze, quinze anos, tem mentalidade mais adiantada – pelo menos naquela época – do que um piá da mesma idade. Como a Mirna estava um par de anos à minha frente, nossas diferenças de comportamento e aspirações, nessa fase, tornaram-se ainda mais acentuadas. Enquanto eu brincava com bolinhas de gude e jogava bete-ombro com a molecada na rua, a Mirna largava as bonecas para cultivar sonhos. Ela progredia para o ensino médio, eu continuava no ginásio (parte do fundamental de hoje).
Ao saber que ela estava para se casar, fiquei esperando pelo convite, achando que nosso distanciamento tinha sido coisa de momento ou de uma fase da vida. O convite não veio. Acho que fui acidentalmente esquecido e fiquei de fora do casamento. Triste. Por trás da janela eu a vi entrar no automóvel que a levaria à igreja, vestida de noiva e linda como todas as noivas são.
Jamais esse fato amargou as doces lembranças que eu tenho dela. A Mirna sempre esteve presente no meu coração, por ter sido ao mesmo tempo minha cúmplice e álibi da parte mais saborosa da vida, a infância. Certamente a fração da existência em que somos verdadeiramente felizes, sem termos sequer consciência disso.
Zuza
Uma das filhas do Tartaruga, o estofador. Não me lembro exatamente do momento e da causa da queda. Vi a Zuza descendo a rua da sua casa num final de tarde, voltando do trabalho. Eu corria, não sei se empinando raia ou andando de patinete ou simplesmente corria. Ao chegar à esquina caí feio. Estendi-me no chão de saibro. Ralei-me todo e provavelmente bati a cabeça numa pedra solta.
Acho que perdi a consciência por um instante, pois quando dei por mim estava nos braços da Zuza, no quintal da minha casa. Nunca esqueci o gesto de carinho e solidariedade. Por isso fiquei com muita pena pelo triste fim que o destino lhe impôs.
Casou-se. Não podendo ter filhos, adotou um bebê que veio morrer algumas semanas depois. Desconfiavam que ela tivesse negligenciado nos cuidados com a criança por causa da bebida.
Entregou-se ainda mais ao vício e tentou o suicídio. Não morreu, mas teve de conviver com as sequelas provocadas pela soda cáustica até o fim dos seus dias, anos mais tarde.
Dona Graciula
Dona Ciúla, como era chamada, foi mãe de cinco filhos. Os dois meninos, José Luiz e Sérgio Augusto, foram meus colegas de escola e depois grandes amigos de infância, adolescência, e por mim considerados dessa forma até hoje, embora haja muito tempo que tenhamos perdido o contato. Três lindas e graciosas meninas, Regina Maria, Maria Lúcia e Ana Maria. Todas Marias, por devoção da mãe a Nossa Senhora, com certeza.
Admirava a educação que dona Ciúla transmitia aos filhos e também a fortaleza que era no papel de viga mestra do lar, sem qualquer desabono ao seu Licínio, homem pacato e silencioso. Sem que soubesse, ela educava os seus e a mim também. Quando passava uma ligeira reprimenda no Sérgio, o mais levado, eu registrava e aprendia a lição. Assim, posso dizer sem exagero que ela participou ativa e positivamente da formação do meu caráter e também da minha religiosidade. Ou melhor, da minha fé, que religioso de templos não sou, mas minha fé é inabalável.
Dona Mercedes
Mãe do meu grande e inesquecível amigo Antonio Strano Vieira, que nos deixou precocemente em 2011, e também da Maria Bernadete e do Júlio Cezar.
Dona Mercedes era mulher de casa cheia. Gostava de gente e a todos tratava com respeito, cortesia e generosidade. Amigos dos filhos eram seus amigos. Exceto eu, que não era amigo. Era seu filho também, pois assim ela me tratava e considerava.
Quando minha mãe faleceu, adotou-me no seu coração. Sentenciou: agora você é meu filho, pode contar comigo para o que precisar. Ganhou um filho de 17 anos.
Uma vez comentei com o Antoninho que eu não gostava de galinha. Acredito que exagerei um pouco ou não me expliquei direito. De fato, as penosas não fazem parte até hoje da minha dieta preferida. Ninguém irá me ver num restaurante pedindo ou me servindo de frango, salvo se não tiver alternativa. Entretanto vez ou outra vou àqueles de Santa Felicidade e degusto frango a passarinho. Para ser justo, confesso que antigamente, nas minhas andanças pelo interior do estado, quando almoçava ou jantava no restaurante do Grande Hotel de Guarapuava, fazia questão de pedir um espaguete com frango grelhado, que me foi apresentado por um colega de empresa numa das primeiras visitas àquela cidade. Não sei exatamente por que motivo, mas aquele macarrão com coxa desossada era imperdível. Em outro lugar, jamais pedi galinha.
O curioso é que me criei sem ojeriza ao prato. Todavia acredito que não me adaptei ao sabor do frango de granja, pois na mesa lá de casa eram servidas somente galinhas nascidas e criadas no nosso galinheiro. Às vezes minha mãe abatia uma e a preparava ao molho, servida com polenta. Prato de domingos eventuais. O gosto da carne de galinha de terreiro é bem diferente dos frangos crescidos à custa de ração e hormônios nas granjas. Além do mais, eu tinha o privilégio de ficar com as coxas. Não apreciava as outras partes. Peito sempre detestei e evito até hoje.
Um domingo, jantando da casa da dona Mercedes, o Antoninho deu com a língua nos dentes e comentou que frango não fazia parte da minha dieta, justamente o prato que estava sendo servido. Para meu constrangimento, a dona Mercedes foi depressa preparar um bife para mim. Daí em diante, sempre que eu jantava com eles, e tinha frango, ela me servia um suculento bife, por mais que eu me esforçasse em dizer que não era bem assim e que tudo não passara de um mal entendido entre eu e o Antoninho. Queria que ela não se preocupasse comigo, mas não tinha jeito. O meu bife sempre estava reservado.
Janete
Belinha, Janete e Sandra. Três irmãs morenas que moravam pertinho da casa da minha irmã.
Tornei-me amigo da Janete. Pegávamos o mesmo ônibus no ano em que eu almoçava na casa da Glacy todos os dias. Ela era noiva do herdeiro de uma das mais importantes fábricas e lojas de móveis da cidade, na época. Do ponto até a casa dela era um bom pedaço, que vencíamos sempre com agradável e alegre conversa. Muitas vezes ainda voltávamos para o centro da cidade juntos, após o almoço.
A Janete, de certa forma, cuidava de mim. Era observadora e me dava conselhos nas entrelinhas. Foi assim quando uma mulher de trinta, que dividia o mesmo transporte conosco e descia no mesmo ponto, fazia ferver meus hormônios de 19 ou 20 anos, metida num vestido saco branco. Seu corpo bem esculpido e o contorno da calcinha atrevida sob o vestido sem combinação punha-me à beira de um ataque de nervos. Mesmo na presença do marido, a gostosa me provocava de todas as maneiras. Fazia pose, contorcia-se no corredor e deitava sobre mim olhares de fogo. Derretia-se toda e me deixava louco. A Janete discretamente me advertiu:
- Você é muito paquerador. Cuidado!
Nem respondi. Entendi o que ela queria dizer. Deixei a mulher do vestido saco para lá. Ela que cuidasse do esposo. Ou ele dela, não sei...
Em outra ocasião, ela foi explícita e definitiva. Nascido e criado em bairro de imigrantes alemães e também convivendo com alguns descendentes de poloneses e italianos, adquiri desde cedo o costume de usar invariavelmente, no inverno e no verão, uma camiseta por baixo da camisa. Era comum ao povo dessas etnias. Todos usavam. Sem camiseta, sentia-me pelado.
Um dia de muito calor, a Janete não aguentou. Lascou na bucha:
- João Carlos, não use camiseta. Um calor desses, não precisa! Além disso, é feio.
Atendi prontamente à ordem. Nunca mais usei camisetas debaixo de camisas. Nem no inverno, sob neve.
Tia Zina e Anair
Tia Zina era irmã do meu pai e nossa vizinha de muro. Anair, sua filha adotiva, minha prima do coração.
Depois que minha mãe faleceu, elas prontificaram-se a lavar minhas camisas. Toda segunda-feira eu entregava a elas camisas sujas e as recebia, no dia seguinte, lavadas e passadas com perfeição. Dava até pena de usá-las de novo.
Foi assim durante alguns anos. Não poupavam capricho e acho que nunca as agradeci da forma que mereciam. Ingrato.
Lola
Com bem mais idade do que eu, recebia-me contente na sua alcova de viúva nova. Frequentei bastante a sua casa. Tornou-se minha confidente em certos assuntos.
- Lola, estou apaixonado e ela não me quer - queixei-me uma noite.
Na cama macia e perfumada de brancos lençóis, sussurrou com os lábios no meu ouvido:
- Diga a ela que você é muito gostoso.
- Não posso dizer uma coisa dessas a moça de família, Lola. Além do mais, essa é uma opinião particular sua em razão do nosso sincronismo carnal.
- Então me dá o telefone ou endereço que eu mesma digo...
- NÃO!!!
Fazia tempo que não a via. Num finalzinho de tarde, fui à casa dela. Morava de aluguel em uma casinha confortável num terreno com várias outras. Um vizinho me avisou.
- A Lola mudou-se. Juntou os trapos com os de um guarda. Sei onde é, levo você até lá.
Poucos quarteirões depois, chegamos.
- Espere aqui, vou ver se o homem não está em casa.
Fiquei aguardando do outro lado da rua. Após alguns minutos, o rapaz voltou.
- Hoje não dá. Ele está em casa. Nem pude dizer a ela que você está aqui. Volte outro dia.
Nunca voltei. Não seria direito. Apenas desejei que as coisas dessem certo para ela, e que ela encontrasse felicidade duradoura junto ao novo companheiro. A Lola merecia.
_______
Na ilustração, Gabrielle et Jean de Pierre-Auguste Renoir (França, 1841-1919).
Recolher