O cenário, a agitada e desvairada Pauliceia, as estreitas ruas do centro antigo, acenei para o Fusca vermelho com a plaquinha em cima do teto, “táxi”.
Entrei apressadamente, como tudo se fazia naquela época, década de 1990. Trabalhava no mercado de câmbio, compra, venda e troca de moedas, e a rotina de fechamento de operações diárias não permitia atrasos e muito menos a perda do horário de funcionamento dos bancos.
Eram tempos de mudanças diárias de valores, taxas de juros e tantos outros índices; qualquer vacilo significava perda financeira e, pior, possível perda de clientes.
Foi naquele momento, ao me dirigir ao motorista, que me dei conta da situação daquele ser humano...
Não falava, apontou para a boca semicerrada, que parecia costurada com uma espécie de fio de metal. Balbuciou algo e fez sinal de que ouvia o que eu falava. Disse-lhe então qual era o meu destino e que tinha pressa.
Ao longo do caminho, para minha surpresa, Sebastião mostrou-se um verdadeiro profissional do volante, dirigia com muita atenção e profissionalismo e, muito mais, possuía um número enorme de plaquinhas escritas, que manuseava com uma rapidez incrível, e foi assim que contou sua trágica história de vida.
Mesmo dirigindo sem deixar de prestar atenção ao trânsito, trocando marchas do Fusca 1.300, ia formando frases com as plaquinhas...
Muito pobre, tinha vindo do interior de Minas ainda menino, junto de pais e irmãos, de uma pequena e miserável cidadezinha do vale do Jequitinhonha, e aqui em São Paulo, desde que chegara, trabalhara com os mais diversos tipos de serviços, até que um dia foi assaltado e espancado violentamente por dois marginais, tendo ficado em estado de coma por mais de 3 meses.
Então, depois de acordar, passara por um período de recuperação, mas nunca mais pudera usar a mandíbula irremediavelmente destroçada e também parte da traqueia, razão pela qual tinha a boca...
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O cenário, a agitada e desvairada Pauliceia, as estreitas ruas do centro antigo, acenei para o Fusca vermelho com a plaquinha em cima do teto, “táxi”.
Entrei apressadamente, como tudo se fazia naquela época, década de 1990. Trabalhava no mercado de câmbio, compra, venda e troca de moedas, e a rotina de fechamento de operações diárias não permitia atrasos e muito menos a perda do horário de funcionamento dos bancos.
Eram tempos de mudanças diárias de valores, taxas de juros e tantos outros índices; qualquer vacilo significava perda financeira e, pior, possível perda de clientes.
Foi naquele momento, ao me dirigir ao motorista, que me dei conta da situação daquele ser humano...
Não falava, apontou para a boca semicerrada, que parecia costurada com uma espécie de fio de metal. Balbuciou algo e fez sinal de que ouvia o que eu falava. Disse-lhe então qual era o meu destino e que tinha pressa.
Ao longo do caminho, para minha surpresa, Sebastião mostrou-se um verdadeiro profissional do volante, dirigia com muita atenção e profissionalismo e, muito mais, possuía um número enorme de plaquinhas escritas, que manuseava com uma rapidez incrível, e foi assim que contou sua trágica história de vida.
Mesmo dirigindo sem deixar de prestar atenção ao trânsito, trocando marchas do Fusca 1.300, ia formando frases com as plaquinhas...
Muito pobre, tinha vindo do interior de Minas ainda menino, junto de pais e irmãos, de uma pequena e miserável cidadezinha do vale do Jequitinhonha, e aqui em São Paulo, desde que chegara, trabalhara com os mais diversos tipos de serviços, até que um dia foi assaltado e espancado violentamente por dois marginais, tendo ficado em estado de coma por mais de 3 meses.
Então, depois de acordar, passara por um período de recuperação, mas nunca mais pudera usar a mandíbula irremediavelmente destroçada e também parte da traqueia, razão pela qual tinha a boca “costurada” daquela forma. Estávamos nesse momento parados em um pequeno congestionamento e Sebastião, olhando fixamente meus olhos, levantou parte da camisa que vestia e mostrou-me o orifício por onde a alimentação pastosa que ingeria todos os dias era administrada...
Naquele dia, eu havia pensado em várias complicações da vida, em alguns contratempos que enfrentava, e nesse momento a única coisa que passava por meus pensamentos era uma vontade muito grande de chorar...
Sebastião, antes de terminar a corrida,” disse-me, com um brilho nos olhos, que a vida é assim mesmo e que devemos sempre agradecer por mais um dia que nos é permitido viver, apontando para o céu. Não lembro o que respondi, paguei o valor da corrida, disse-lhe que guardasse o troco, que não era por piedade, mas por sua presteza e excelente conduta na direção.
Em verdade, gostaria de ter lhe dado um grande abraço, ou quem sabe tê-lo convidado para um café e uma conversa mais longa, mas estávamos no frenesi do dia a dia paulistano, na efervescência do trabalho.
Abriu a porta com o auxílio daquela cordinha típica dos fusquinhas táxi, que não tinham o banco do passageiro da frente, desci com minha maleta e envelopes e segui meu caminho Sebastião agradeceu com um gesto de cabeça e seguiu o dele.
Meu dia foi outro, meus problemas deixaram de existir...
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