Anos 80, São Paulo, Brasil, época de efervescência política e cultural, protestos e reivindicações por todos os lados. A sociedade passava por transformações importantes, norteando o rumo dos próximos anos que a levaria, ao tão desejado seleto grupo daqueles países que apitam no planeta. O sistema vigente, ainda era o de exceção, mas dava claros sinais de mudanças.
A cidade, apelidada de Sampa por uns, de Paulicéia Desvairada por outros, transpirava novidades para mim. Bibliotecas, museus, pinacotecas, praças e parques, vida noturna intensa, teatros, cinemas, shows, bares e restaurantes, etc. Muitas opções, eu ali, com meu sotaque carregado nos “erres” do interior, querendo aproveitar todas. Não poderia deixar passar em branco a oportunidade, pois certamente não teria outra tão cedo.
Estava na Diretoria Regional de São Paulo, da ECT- Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, os Correios como é conhecida hoje em dia, participando de um treinamento para mudança de cargo. Tentava passar de carteiro para Monitor, quase igual ir de soldado para Cabo no exército. Vindo do interior do Estado, diretamente da cidade de Rio Claro, conhecida como “Cidade Azul”. Buscava meu crescimento dentro da jovem ECT, uma empresa pública, recém criada em substituição a um obsoleto departamento. Igual uma borboleta, ela saía do casulo onde estivera por mais de 300 anos, alçando vôo com muita determinação
Ficava hospedado no Hotel Municipal, coração da cidade, quase no famoso cruzamento das avenidas Ipiranga com São João, fonte de inspiração para Caetano Veloso escrever Sampa. Um Edifício antigo, muito parecido com tantos outros ali próximos, ele remetia a uma São Paulo do inicio do século, insistindo em lutar contra as novas arquiteturas despontando aqui e ali, feitas de concreto, aço e vidro. As acomodações eram em quarto duplo e quase sempre tinha um novo colega, com quem dividir o quarto. Diferente do meu curso, o...
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Anos 80, São Paulo, Brasil, época de efervescência política e cultural, protestos e reivindicações por todos os lados. A sociedade passava por transformações importantes, norteando o rumo dos próximos anos que a levaria, ao tão desejado seleto grupo daqueles países que apitam no planeta. O sistema vigente, ainda era o de exceção, mas dava claros sinais de mudanças.
A cidade, apelidada de Sampa por uns, de Paulicéia Desvairada por outros, transpirava novidades para mim. Bibliotecas, museus, pinacotecas, praças e parques, vida noturna intensa, teatros, cinemas, shows, bares e restaurantes, etc. Muitas opções, eu ali, com meu sotaque carregado nos “erres” do interior, querendo aproveitar todas. Não poderia deixar passar em branco a oportunidade, pois certamente não teria outra tão cedo.
Estava na Diretoria Regional de São Paulo, da ECT- Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, os Correios como é conhecida hoje em dia, participando de um treinamento para mudança de cargo. Tentava passar de carteiro para Monitor, quase igual ir de soldado para Cabo no exército. Vindo do interior do Estado, diretamente da cidade de Rio Claro, conhecida como “Cidade Azul”. Buscava meu crescimento dentro da jovem ECT, uma empresa pública, recém criada em substituição a um obsoleto departamento. Igual uma borboleta, ela saía do casulo onde estivera por mais de 300 anos, alçando vôo com muita determinação
Ficava hospedado no Hotel Municipal, coração da cidade, quase no famoso cruzamento das avenidas Ipiranga com São João, fonte de inspiração para Caetano Veloso escrever Sampa. Um Edifício antigo, muito parecido com tantos outros ali próximos, ele remetia a uma São Paulo do inicio do século, insistindo em lutar contra as novas arquiteturas despontando aqui e ali, feitas de concreto, aço e vidro. As acomodações eram em quarto duplo e quase sempre tinha um novo colega, com quem dividir o quarto. Diferente do meu curso, o deles duravam um ou dois dias, com isso não houve oportunidade de conhecê-los melhor, apenas o essencial: nome, cidade de origem, cargo, local de trabalho
Lembro-me de um, sotaque carregado igual ao meu, seu nome não recordo, passados quase 30 anos. Era da cidade de Socorro/SP, iria trabalhar como carteiro. Depois disso, encontrei-o na sua unidade de trabalho uma vez, quando estava a serviço da Zona Postal de Campinas/SP, como era conhecida a atual Região de Vendas. Quando soube dele na última vez, não estava mais na empresa e trabalhava como taxista na cidade.
Chamou a minha atenção especificamente para esse colega, uma situação pela qual passamos juntos, quando hospedados no hotel Municipal. Certa noite, saindo para jantar em um restaurante próximo, aproveitamos uma promoção ou coisa do tipo e mandamos ver num rodízio de carnes com massas: picanha com lasanha, maminha com macarronada, salada de maionese, costela, pizza, ovinho de codorna, etc.
Saímos de lá, fomos dar uma volta pela cidade, para ajudar na digestão. Andar pelas ruas, uma quadra, outra quadra, uma avenida, olhar uma loja, outra loja, entrar numa galeria, andar de escada rolante no Mappin (praticamente, o Shopping daquela época). Depois de muito andar, nada da digestão melhorar, voltando ao hotel, ele foi deitar. Eu ainda andei mais um pouco. Embora não tivesse sido o mais guloso, o de pior digestão, com certeza.
Após curto passeio solitário, voltei e fui dormir. Daquele jeito mesmo, com um peso enorme no estomago. O pecado da gula deve ser o pior de todos, imaginei naquele instante. Chegando ao quarto, o colega dormindo, entrei na ponta dos pés para não acordá-lo, me preparei, deitei na cama e o sono chegou rapidamente.
Acordo de madrugada, me pego andando pela cama. Isto mesmo, sobre a cama, indo da cabeceira para os pés. Chegando ao final dela, pisei em falso na guarda, afundando o pé. A unha ficou presa, não acompanhando o movimento do colchão. Com a dor, óbvio, acordei, e acordando, perdi a noção de onde estava, dando o passo seguinte no vazio. O tombo veio na seqüência. Cai fazendo enorme barulho, pois o assoalho, antigo, feito de madeira, propaga o som facilmente.
Nesse momento a luz é acesa, vejo o colega, encostado no canto, braços abertos, mãos apoiadas nas paredes. Assustado, diz:
- Cê tá loco, sô!
Calmamente, disse-lhe para ficar tranqüilo, pois embora tivesse crises de sonambulismo, eram sem gravidade.
Ele retrucou:
- Cuidado pra não sair pela janela uma hora dessas!
E aquilo ficou martelando na minha cabeça por muito tempo. O hotel possuía uma “marquise”, “beiral”, ou sei lá como chama, sob as janelas, em toda a extensão da fachada, por onde uma pessoa podia facilmente caminhar. De tanto ver no cinema cenas clássicas de sonâmbulos, caminhando tranquilamente com as mãos para frente, de olhos fechados, sem nenhum problema, foi difícil não associar a possibilidade de ocorrer comigo. Acordar uma noite, tendo a Avenida São João aos meus pés, o povão todo embaixo, só torcendo.
Passei o restante dos dias de hospedagem, com as janelas devidamente trancadas.
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