O recheio da torta de sardinha. Nessa noite, a fome não era grande. Era antiga. Abri a lata de sardinha como quem abre uma gaveta esquecida do tempo. O cheiro do óleo misturado ao sal atravessou a cozinha pequena e bateu direto numa parte de mim que eu nem lembrava que existia. Coloquei o arroz branco no prato ainda fumegando. Cortei o tomate em cubos desajeitados, a cebola fina, quase transparente, e dividi o ovo cozido com o garfo até virar uma espécie de farofa úmida de lembranças. Misturei tudo devagar. A colher girando no prato parecia mexer não os ingredientes, mas os anos. E então aconteceu. A cozinha desapareceu. No lugar dela surgiu a nossa antiga casa na Vila Missionária. O piso frio, o rádio tocando baixo algum hino. O vento entrando pela janela com cheiro de roupa secando no varal e eu sentado ali junto a mesa, ouvindo as vozes da família atravessando os cômodos como música de fundo de tudo que acontecia. A panela de pressão sobre o fogão. A forma de alumínio repousando na mesa. E dentro dela, a torta de sardinha. Aquela torta. A massa simples. O recheio úmido de tomate, cebola, sardinha e ovo cozido. Comida de afeto. Comida de quem fazia muito nascer do pouco. Comida que não pedia luxo porque já carregava abundância no afeto. Lembrei da minha mãe preparando tudo com calma, havia uma dignidade ancestral naquela cozinha. Um conhecimento silencioso de transformar escassez, o silêncio, o simples em aconchego. Cada garfada da mistura no meu prato parecia reconstruir pedaços da memória demolida pelo tempo. Comer, nesse instante virou ritual. E percebi que certas receitas não pertencem aos livros... pertencem às pessoas que sobreviveram antes de nós. Ali, sozinho diante daquele prato simples, entendi que memória também é tempero. E que existem ancestralidades escondidas dentro de casa gesto , de cada alimento, uma cebola cortada, dentro de um arroz recém-pronto, dentro do cheiro humilde de uma sardinha em lata. Terminei a...
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O recheio da torta de sardinha. Nessa noite, a fome não era grande. Era antiga. Abri a lata de sardinha como quem abre uma gaveta esquecida do tempo. O cheiro do óleo misturado ao sal atravessou a cozinha pequena e bateu direto numa parte de mim que eu nem lembrava que existia. Coloquei o arroz branco no prato ainda fumegando. Cortei o tomate em cubos desajeitados, a cebola fina, quase transparente, e dividi o ovo cozido com o garfo até virar uma espécie de farofa úmida de lembranças. Misturei tudo devagar. A colher girando no prato parecia mexer não os ingredientes, mas os anos. E então aconteceu. A cozinha desapareceu. No lugar dela surgiu a nossa antiga casa na Vila Missionária. O piso frio, o rádio tocando baixo algum hino. O vento entrando pela janela com cheiro de roupa secando no varal e eu sentado ali junto a mesa, ouvindo as vozes da família atravessando os cômodos como música de fundo de tudo que acontecia. A panela de pressão sobre o fogão. A forma de alumínio repousando na mesa. E dentro dela, a torta de sardinha. Aquela torta. A massa simples. O recheio úmido de tomate, cebola, sardinha e ovo cozido. Comida de afeto. Comida de quem fazia muito nascer do pouco. Comida que não pedia luxo porque já carregava abundância no afeto. Lembrei da minha mãe preparando tudo com calma, havia uma dignidade ancestral naquela cozinha. Um conhecimento silencioso de transformar escassez, o silêncio, o simples em aconchego. Cada garfada da mistura no meu prato parecia reconstruir pedaços da memória demolida pelo tempo. Comer, nesse instante virou ritual. E percebi que certas receitas não pertencem aos livros... pertencem às pessoas que sobreviveram antes de nós. Ali, sozinho diante daquele prato simples, entendi que memória também é tempero. E que existem ancestralidades escondidas dentro de casa gesto , de cada alimento, uma cebola cortada, dentro de um arroz recém-pronto, dentro do cheiro humilde de uma sardinha em lata. Terminei a refeição devagar, como quem não quer acordar de um sonho. No fundo do prato restava apenas um pouco de azeite misturado aos grãos de arroz. Mas dentro de mim, a Vila Missionária inteira permanecia acesa. Fava Seugirdor
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