Projeto: Vidas, vozes e saberes em um mundo em chamas
Entrevista de Maíra Rodrigues da Silva
Entrevistada por Bruno Oliveira
São Paulo, 18/12/2025
Entrevista nº: PCSH_HV1512
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
P1: Maíra, para começar, eu queria que você dissesse seu nome completo, a data e o local do seu nascimento?
R: Eu me chamo Maíra Rodrigues da Silva, eu nasci no dia 17/11/1991, em uma cidade chamada Pariquera-Açu, aqui em São Paulo.
P1: E qual que é a primeira memória que você tem da sua vida?
R: Essa é muito boa. Eu tenho uma primeira memória com três anos brincando de jun can jão com meu avô. Eu sou neta de Benedito Rodrigues da Silva, também chamado de Benedito Velho, no Quilombo, que era um ser, uma pessoa muito iluminada, muito sábia, e ele tinha um coração tão grande, assim, que cabia muita gente e muitas histórias. Então, até eu fico feliz por estar aqui, porque hoje eu quero falar como uma pessoa que conta histórias, como eu aprendi com o meu avô. E a gente tinha muitas brincadeiras no quilombo, tem muitas brincadeiras na infância. E tinha uma que a gente, não sei se as crianças da cidade também fazem, que é as pessoas adultas, cada um pega um pé, outra pega a mão e aí balança como se fosse uma rede. Então, balançava-se como uma rede e brincava, “Jun can jão, caiu caiu no chão, levanta a ceroula, seu porcalhão.” E eu tinha acho que uns três, seis anos e pouco, quando, essa é a minha primeira memória. E é com esse senhor que eu aprendo muita coisa e que eu me identifico com uma eterna curiosa, com uma eterna, enfim, uma pessoa que adora conhecimento, mas que foi com ele, que eu brinco que foi ele que abriu a caixa do universo para me entender um pouco mais das coisas, dos conhecimentos. Então, essa foi a minha primeira memória. Enfim, tem essa, mas tem uma outra que eu fecho o olho assim, eu lembro, a minha avó, a minha família, mora na frente do rio Ribeira, que é esse rio que...
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Entrevista de Maíra Rodrigues da Silva
Entrevistada por Bruno Oliveira
São Paulo, 18/12/2025
Entrevista nº: PCSH_HV1512
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
P1: Maíra, para começar, eu queria que você dissesse seu nome completo, a data e o local do seu nascimento?
R: Eu me chamo Maíra Rodrigues da Silva, eu nasci no dia 17/11/1991, em uma cidade chamada Pariquera-Açu, aqui em São Paulo.
P1: E qual que é a primeira memória que você tem da sua vida?
R: Essa é muito boa. Eu tenho uma primeira memória com três anos brincando de jun can jão com meu avô. Eu sou neta de Benedito Rodrigues da Silva, também chamado de Benedito Velho, no Quilombo, que era um ser, uma pessoa muito iluminada, muito sábia, e ele tinha um coração tão grande, assim, que cabia muita gente e muitas histórias. Então, até eu fico feliz por estar aqui, porque hoje eu quero falar como uma pessoa que conta histórias, como eu aprendi com o meu avô. E a gente tinha muitas brincadeiras no quilombo, tem muitas brincadeiras na infância. E tinha uma que a gente, não sei se as crianças da cidade também fazem, que é as pessoas adultas, cada um pega um pé, outra pega a mão e aí balança como se fosse uma rede. Então, balançava-se como uma rede e brincava, “Jun can jão, caiu caiu no chão, levanta a ceroula, seu porcalhão.” E eu tinha acho que uns três, seis anos e pouco, quando, essa é a minha primeira memória. E é com esse senhor que eu aprendo muita coisa e que eu me identifico com uma eterna curiosa, com uma eterna, enfim, uma pessoa que adora conhecimento, mas que foi com ele, que eu brinco que foi ele que abriu a caixa do universo para me entender um pouco mais das coisas, dos conhecimentos. Então, essa foi a minha primeira memória. Enfim, tem essa, mas tem uma outra que eu fecho o olho assim, eu lembro, a minha avó, a minha família, mora na frente do rio Ribeira, que é esse rio que vai banhar a minha região. E a gente sai correndo assim para a beira do rio, onde fica o porto, na casa. E aí ele vai falando: “esse é pé de quê?” A gente brincava de pé de quê? Aí ele falava: “esse é cana?” Aí eu falava: “não vô, isso daqui é o vá.” Aí ele falava assim: “isso é cana do brejo?” “Não, esse é cana.” E aí ele brincava uns trocadilhos. E assim, pra mim, saber se eu sabia mesmo as plantas. Mas é isso.
P1 : Me conta um pouco sobre os seus avós. Quem eles eram?
R: Sim, vou rememorar um pouco mais antes, contando um pouquinho da minha história, da minha... Bom, eu sou de um quilombo chamado Ivaporunduva, que fica na região do Vale do Ribeira, que pega um pouco de São Paulo e Paraná, uma das 60 comunidades, que a gente tem em média, identificadas, reconhecidas, comunidades quilombolas por ali. E é uma comunidade que remete lá no século XVI, século XVII, com a vinda de um povo, os meus ancestrais, e eu tenho alegria de sempre contar isso, graças aos estudos da antropologia e de muitos pesquisadores, que é um povo chamado de Bacongos. Que falava uma língua chamada Kikongo. Além desses povos, os Zambundos, outros povos que vieram nessa época da região de Congo Angola, vinham nessa diáspora e, pela proximidade que se tinha São Vicente ao porto de Iguape, então, eles paravam em São Vicente e depois desciam até Iguape, assim, margeando o Atlântico. E Iguape era o Pelourinho, onde esses, enfim, os antepassados, eles, como todo o processo de Pelourinho, enfim, tinha essa perca de uma memória. Mas como o Nego Bispo coloca, como a gente é contra-colonial, a gente mesmo assim se encontra e se reencontra. Então, foram para muitos povoados ali e o primeiro povoado nessa ideia de adentrar o continente da coisa dos metais preciosos, o Ivaporunduva foi o primeiro lugar, que depois vai se chamar, hoje o município se chama El Dorado, que foi o grande El Dorado. E uma das coisas interessantes dessa história, que a gente relembra sempre a história de São Paulo vinda do café, mas o Vale do Ribeira foi o primeiro coraçãozinho ali, depois da região da Vila de São Vicente, em que teve uma espécie de uma exploração muito singular, que era de ouro de aluvião. Então, esses meus antepassados, eles dominavam e sabiam explorar, faziam da arte, da metalurgia, para fundição de ouro. Iguape teve a primeira casa de fundição de ouro do Brasil. E dizia um historiador que passa em 1908, e aí esse registro tem lá no livro do tombo da igreja, que nas festas de reinado e congado, as mulheres purpurinavam o ouro sobre a pele. E eu, como sou uma cientista e estudo essa questão dos metais, dos impactos e dentro das ciências, eu falo que não é à toa que eu estudo ferro, que eu estudo metais, porque isso está muito relacionado à nossa cosmovisão. Então, eu venho desse povo que dominava a arte, não só a arte, mas o que eu vou chamar de ciência da metalurgia, da extração de ouro, e que não é esse garimpo como a gente vê hoje, com a questão do mercúrio e da contaminação. E é um processo muito interessante porque hoje eu faço o inverso, eu tento identificar os processos que impactam com esse garimpo, com essa extração que contamina e que mata pessoas, rios, florestas, animais. E os meus avós, nesse sentido, daquela época da construção de Ivaporunduva, então a gente está falando de um quilombo que foi liberto, que era um povo livre muito antes da escravização. A gente estima que no século XVIII eles já eram livres. E tinham esses festejos, possivelmente tinham reis, rainhas, e dominavam também a arte da produção. E daquele povoado, outros também se instalaram ali, por ter muitas fazendas e terem muitos conflitos. A gente tem um mapa, assim, do Instituto de Terras do Estado, que mostra no século XVIII, XIX, fazendas e quilombos, vivendo ali meio juntas, assim. Então, é um processo muito interessante. E aí, um dos lugares... Então, minha avó, ela vem... A família do meu pai é de uma árvore chamada Rodrigues, que era o nome dos primeiros escravizadores, os primeiros fazendeiros que tinham lá, era o irmão Rodrigues e Marinho, que levaram os primeiros escravizados para essa banda, que é um território Guarani. E aí, nessa confluência entre o povo Guarani, a sabedoria desse povo que é nômade, que passava ali, mas muito fincado também na região do Vale do Ribeira, tem muitos sambaquis, uma coisa de muito tempo. É que os quilombos, a gente costuma dizer que somos descendentes de pessoas negras, mas com essa confluência indígena é que a gente, enfim, aprende e reestrutura um marco civilizatório, não só na nossa região, mas no Brasil inteiro. Quando a gente pensa nos quilombos e a sua importância na construção dessa nação, porque graças a esses lugares é que a gente consegue depois ter a questão da lei aurea e toda a questão do fim da escravidão. Mas os meus avós, então, têm essa raizinha do Rodrigues e a minha avó, que é família Maciel, de uma outra região que, inclusive, chamava Jurumirim, que fica no município vizinho, que é Iporanga, mas que tem um nome do lado, assim, de um lugarzinho chamado Moçambique. Então, possivelmente, os antepassados da minha avó materna venham dali. Agora, da minha mãe, do meu pai, os lados paterno e materno do meu pai, eles são Rodrigues, que tem essa raizinha. E aí, o engraçado é que a família do meu avô, eles são chamados de velho. E eu me pergunto se um dia eu vou ser velha, porque o meu avô, ele era Benedito Velho, o pai dele era Nascimento Velho, e o avô depois era João Velho, e assim ia indo. Aí, o meu avô deu uma parada no velho. Eu me pergunto se eu vou ser, “essa é velha.” Mas enfim, o povo brinca assim: “daqui um tempo já podemos chamar você de Maíra velha.” Porque lá as pessoas eram velhas sem precisar ficar velhas. Mas enfim, os meus avós com quem eu mais convivi foram os meus avós maternos. E aí, minha avó e meu avô eram essas pessoas que viviam da agricultura, mas tinha uma singularidade. A minha família sempre traz uns rastros muito interessantes. O meu avô, pro lado dele, ele era canoeiro, então ele fazia função de levar pessoas e mercadorias entre Eldorado e os quilombos, numa época que não existia estrada. Eu vivi num tempo, eu brinco, e até tem um escrito que eu ainda uma hora vou publicar, que chama “Entre Mundos”, que é essa relação de ter sido uma pessoa que viveu entre o lampião e a luz elétrica. E hoje, trabalhar em São Paulo e toda essa loucura, assim. Enfim, andar pra lá e pra cá, mas é isso assim. Então, eu vivi ainda em um tempo que a luz elétrica não chegou. Então, posso te contar muitas histórias em que, de fato, a gente escuta os bichos, escuta a floresta. E, nessa época, era muito bom porque meu avô e minha avó contavam muita história do tempo em que, enfim, eles eram mais novos, e meu avô tinha, às vezes, a função... Meus avós. A gente tinha essa produção de roça, que é a roça de coivara. Então, você ia fazer um roçado, uma colheita, e sempre tinha festas. E aí, nessas festas era muito bonito. Então, tinha meriçania, amaruca, enfim, vários tipos de danças e cânticos que eles faziam para as pessoas que iam plantar ou colher. A forma de retribuir era um baile. Então, a minha avó sempre contava que se trabalhava cinco dias e sempre tinha uma festa. E acho bonitinha a história dos meus avós, que eles estavam cantando uma meriçania, que era como se fosse um trocadilho de versos também, muito presente em vários povos assim, aqui no Brasil, afro-brasileiros. E aí essa meriçania era bem assim… Eu sei que meu avô jogou uma pra minha avó, aí minha avó jogou uma pra ele. Eu lembro dessa que ela jogou, ela falou: “menino não se engane com esse seu belo carinho, eu não sou mamão maduro pra ser comida por bico de passarinho.” Enfim, e assim era a história desses dois. E viveram um casamento de 60 anos, assim, uma história muito bonita. Tiveram muitos afiliados. E meu avô também tinha uma função de ser capelão, porque não existia padre que conseguisse chegar no território da cidade, para você ter uma noção, do centro urbano. Até Ivaporunduva eram três dias, sete dias de subida de rio e três dias para descer o rio. Então, era muito distante e tal. Eu costumo dizer que quando a gente pensa em quilombos, a gente imagina sempre aquela referência do Quilombo de Palmares. Eu acho uma boa referência, os Kalungas são assim, ainda outros territórios, porque hoje, na nossa própria legislação, a gente tem os territórios quilombolas demarcados principalmente individualmente. Você tem uma terra coletiva, e daí você tem o nome, o registro daquela terra, demarcação, título, etc., como deveria ser. Que ainda é muito pouco nesse país, diga-se de passagem. Mas tem uma coisa que os quilombos, esse senso de liberdade, assim como Palmares, que você tinha muitos mocambos, lá também era assim. Então, meu avô, por exemplo, são de Ivaporunduva, mas foram morar no Jurumirim, depois foram morar no Sapatú, depois foram morar no Adelopes. E como ele tinha essa função de rezador, então, os filhos iam para onde ele ia. Até a década de 70, quando eles fixam uma casinha, e aí eles ficam mais Ivaporunduva, voltam, e ficam mais ali, sabe? Mas esses são os meus avós, assim. Em especial, a minha avó, eu costumo dizer também nessa estrutura do que a gente conhece, da construção de gênero, tem umas coisas diferentes, assim. Então, o matriarcado, ele é uma... algo muito importante nessas comunidades, porque as mulheres, elas são vistas, óbvio, o machismo, ele existe, ainda é uma luta muito grande que a gente também tem. Mas eu aprendi na minha avó o senso de força no sentido de ela era a mulher do ferro, ela era a mulher do facão, ela era a mulher que matava os animais quando precisava, ela era a mulher, assim, a comandante. E o meu avô era aquela pessoa que, do senso de coletividade, que agregava as pessoas, que contava histórias. Então, os meus avós para mim eram muito interessantes, essa relação que eles tinham. Então, aprendi com a minha avó também a arte da cura, dos remédios, algumas rezas e tal. E com o meu avô foi sempre esse lugar também de respeitar o tempo. Se eu fosse dizer, se meu avô tivesse uma grande energia que olhasse ele, seria o tempo, porque ele sabia certinho o equilíbrio entre viver num tempo e saber. Até minha mãe, minhas tias diziam, ai, seu avô tem esse costume, às vezes, de produzir, mas não saber o do amanhã. Porque pra ele não importava o estoque, essa relação capitalista, de ficar produzindo para depois. Não, ele dizia hoje vamos pensar no hoje e no amanhã. Aí amanhã a gente pensa no dia de amanhã e do depois. E tem um último caso do meu avô, que era assim. Eu era uma criança muito medrosa, assim, eu sou uma pessoa umbandista. E hoje eu entendo as vozesinhas, que às vezes nos cercam, mas na minha época, quando eu era criança, então eu ficava escutando barulho, muitos barulhos e, às vezes, tem aquela relação da chuva, porque a chuva lá era muito forte, como a região de floresta, então quando a chuva forma, ela forma de uma forma, assim, muito mais estrondosa do que, às vezes, na cidade, com a região de mata fechada. E, aí, meu avô sentava, colocava, falava, “Nha-nha.” Nha-nha são as crianças, nha-nha são as mais velhas. “Pega uma cadeira pra mim.” Aí, ele colocava a cadeirinha dele lá fora. “E meu chapéu.” E aí ele abanava assim, e de repente vinha aquele escuro no céu, que ia vir uma tempestade. E nós ficávamos. “Mas o que ele está fazendo ali a essa hora? Já não é hora de entrar?” E eu: vovô, o senhor não tem medo de ficar aí?” Uma vez eu perguntei. E aí ele disse assim: “você tem fé?” Aí eu falei: “fé?” Foi a primeira indagação do que eu entendi como que é fé. O que era fé pra mim. E fé estava nesse lugar de coragem, mas também de saber o tempo, entender o tempo, escutar o tempo. Então ele falou: “você está vendo aquela chuva lá? Ela não vai cair aqui agora.” E aí eu falava: “mas como? Está tudo escuro.” Ele falou assim: “esse é o aprendizado. Quando você observa o tempo e o que ele quer dizer…” Eu já sentei aqui várias vezes e observei quando é que a chuva cai e de onde que ela cai. Se ela vinha de lá… Aí eu falei: “a de lá cai.” Eu lembro certinho dessa conversa com ele. Acho que eu tinha, não sei, uns 10 anos, assim. E nesse dia também eu entendi o significado da fé, assim, que é o que me move. E nessa ancestralidade do meu avô, dos meus tataravós, eu sinto que é isso. Eu tô aqui, mas eu tô com milhares deles, sabe? E é ela que também me faz entender esse tempo. Então, hoje eu estudo, trabalho, principalmente com incidência com relação a mudanças climáticas, racismo ambiental, e eu fico muito observando o tempo e o quanto as pessoas não estão tendo tempo para olhar para o tempo, só quando o tempo realmente bate na bunda e a água chega, sabe? É muito curioso, assim, toda vez que eu vou andar de avião e eu vejo uma chuva, uma tempestade, eu falo, nossa, verdade, vovô, as pessoas precisam olhar mais para as nuvens, precisam olhar e entender mais o céu. Mas é isso. Ai, ai. Esses são os casos que eu lembro.
P1: Eu queria que você me contasse um pouco sobre... Primeira coisa, eu queria saber o nome da sua avó?
R: Ah, sim. A minha avó é Maria da Glória da Silva, mas a gente chama ela… eles chamam de minha Glorinha. E eu chamo de vó Glorinha. Vó Glorinha e Vô Benedito.
P1: E como era o nome dos seus pais e quem eram os seus pais?
R: Os meus pais são pessoas muito interessantes, assim. O meu pai, eu tive pouco contato de pai e filha, mas foi um pai de inspiração de movimento. E a minha mãe, que me criou um pouco mais só… Os dois ajudaram a fundar o movimento, então era isso. É como se a gente… A gente teve vários estágios na região, e no século passado, em 1900, a gente teve muitos tipos de intervenções no lugar. Então, uma coisa que depois eu vou estudar, que é a questão da mineração e do passivo ambiental e o que ela impactou, foi algo que chegou silencioso, numa época que não existia internet, que não existia telefone. Então, a gente nem sabia o que era algo que acontecia na região do Alto Ribeira, o rio, ele vem da região do alto, médio, onde estamos. E o baixo, que é a região da praia, Lagamar, enfim, Ilha Comprida, Cananéia. E a gente não tinha dimensão, então, o que acontecia lá em cima. Hoje, você pega um carro, com três horas e meia, quatro horas, você chega lá. Mas naquela época não se tinha. Então, o caminho era canoa, e dizia minha avó, meus avós, até minha mãe, minhas tias, viram isso, que a gente tinha canoas que passavam e os barcos a vapor. Então, você tinha, por exemplo, uma explicação, o chumbo, eram mais de 30 minas operando em cima e os barcos, algumas canoas e tal, passando. E como o rio era como se fosse a nossa rodovia, muita gente andando, todo mundo só sabia que em cima daquelas canoas ia um tal de chumbo, mas ninguém mais sabia. E chumbo era um monte de pedra, ia embora. Mas enfim, vou cortar aqui para voltar nos meus pais e depois eu explico qual é a relação que se tinha com essa história do chumbo. E aí, então, teve essa intervenção muito forte da mineração. E depois no final de 80, não, acho que no final de 70, a gente tem, então, um projeto que chega lá, uma conversa, um assunto que é a tal da barragem. E aí se dizia: “nossa, mas o que é isso? Eles vão fazer o que?” E aí vieram algumas pessoas de fora explicar e tal, o pessoal começou também a se assuntar, que ia ser um grande empreendimento hidrelétrico com três barramentos chamado Tijuco Alto. E aí esse barramento ia afundar, ia inundar muitas daquelas comunidades. E na nossa comunidade a gente estimava que só ia ficar a igrejinha, assim, a ponta da cruz para baixo. Então, nesse sentido, algumas pessoas começaram a se organizar e ir atrás e saber mais, e formaram um movimento chamado MOAB, que era o movimento dos ameaçados por barragem, que é um movimento bem regional, que surge junto com o movimento nacional, que é o MAB, eles já chegaram a fazer coisa junto, às vezes tem algumas militâncias que se faz junto até hoje. Mas é um movimento bem regional, e que foi encabeçado pela população quilombola, junto com os indígenas, com os caiçaras, porque nós estamos falando de um território, de um pulmão, principalmente, o Vale do Ribeira é um pulmão, a gente está falando aí de um terço do que a gente tem do resquício do bioma Mata Atlântica do Brasil. Então, toda a costa do Atlântico que tinha Mata Atlântica, até Minas Gerais, a gente está falando de um pedacinho desse... Mas também que é uma região que esses povos… Não é só a mata. Eu costumo dizer que nós fazemos floresta. Os povos tradicionais, os povos indígenas, os povos quilombolas, se produz floresta. A gente sabe desde muito tempo atrás que floresta... Ou melhor, quanto povo no território. Mas hoje em dia a ciência, muitos estudos vão mostrar que muita coisa é produzida mesmo. Então, essa ideia de restaurar, de produzir espécies e a biodiversidade, ela tem muito esse traçadinho. Enfim, então a gente está falando de um território que ia ser ameaçado de uma dimensão muito grande e que não se tinha, de fato, uma consulta. A gente não sabia o que ia acontecer, só chegava a plaquinha, “quer vender o seu sítio?” Para nós que estávamos ali nos quilombos, foi um combustível para ir atrás da questão fundiária. E aí, no mesmo período a gente tem a constituinte, em que agora a gente vê bastante Benedita da Silva falando, e o quanto que para a gente foi importante Benedita, a professora Zélia Amador lá em Belém, a Nilma, várias pessoas ativistas do movimento negro que se juntaram com o movimento do campo quilombola e que ajudaram a fincar um dos maiores artigos que a gente tem. Nem o próprio decreto indígena, ele até é um pouco mais frágil do que a gente tem no artigo 64 da constituição. Então, colocar na constituição que os quilombos tinham terra e que essa terra tinha que ser reconhecida e titulada foi muito importante. E é neste bojo que muitos dos… Meus pais, então voltando aos meus pais, eles vão ali para uma grande incidência, inclusive o meu pai, o Ditão, vários militantes ali, para a gente conseguir a construção do decreto que regulamenta como é que esse artigo ia ser pautado na constituição. Então, é isso assim, e eu nasço desse encontro dessas duas pessoas, que são da comunidade, e tenho muito orgulho de dizer. O meu compadre costuma dizer assim para mim, “sua mãe é aquela strike que quebrou uma barragem.” Porque por incrível que pareça, e que a gente acredita que nada é à toa, tudo é muito conectado, é um mundo mesmo, eu sou o que somos, porque depois de muita luta, foram 30 anos, entre a empresa indo, voltando, mudando de nome, aí foi para Companhia Baseada em Alumínio, CBA, não sei o quê. E aí, depois de 30 anos, eu, no dia 31 de agosto de 2017, quando eu vou defender o meu doutorado, que falava lá daquele chumbo, do problema que tinha causado, foi o dia que a grande maestosa, assim, pesquisadora, ativista, enfim, Suely Araújo, que trabalha hoje no Observatório do Clima, estava como diretora no Ibama, e ela assina, fala assim: “esse projeto já foi, já voltou, tem 30 anos, não, vamos cancelar esse projeto.” E outro dia fui falar no observatório, fui fazer uma reunião, com outras pessoas da rede, e aí eu falei: “não, a gente tem que ver essa questão da transição energética hoje, porque tem projetos antigos voltando, e a gente tem…” Por exemplo, esse era um projeto, hoje são 26 na bacia como um todo, que a gente ajuda, enquanto ativistas lá da região, monitoramos esses pedidos, e a gente fala: “nossa, essa transição energética custa o quê para os territórios?” E aí eu contei, “no caso do Vale do Ribeira aconteceu isso…” E ela falou: “você é do Vale do Ribeira? Pois você sabe que em 2017 eu assinei um negócio.” Eu dei um abraço com tanta fraternidade nela, foi um abraço mais ancestral que pode ter tido. Porque eu falei: “você não sabe quantos dos nossos tombaram, quantos dos nossos, enfim, lutaram para não construção dessa usina.” E eu acho que é isso, eu sigo sendo essa continuidade. A gente costuma dizer que o fruto não cai longe da árvore. Eu costumo dizer que eu tenho a minha raiz muito bem fincada no quilombo. Inclusive, essa semana eu fiz até uma tatuagem de lá. Eu falei, gente, eu vou materializar mesmo. E aí hoje eu moro em Campinas, mas que é um outro... Eu brinco que Campinas ficou com uma outra raizinha desses dois territórios negros ancestrais. E que é isso, eu continuo. Aí hoje a minha pequenininha, que chama Inza, que significa terra. Olha essa história, Inza significa terra. Quando o pai dela começou a buscar o nome dela, Inza Makaya. E a gente ficou assim, vamos colocar um nome africano. E ficamos buscando, mas a gente não sabe se na internet está certo, nos livros e tal. Ah, mas a cantiga fala Makaya, Makaya é um nome africano e tal. E aí, uma vez, um amigo nosso falou assim, o Kervi, que é do Congo, falou… A gente falou: “ah, o nome dela vai se chamar Inza Makaya, você conhece?” Aí ele falou: “nossa, Makaya é o sobrenome da minha mãe, e é Kikongo.” E assim, eu fui ligar que os meus antepassados eram Kikongo. Aí eu falo, o fruto não cai muito longe da árvore. E assim, a gente vai seguindo. Então, eu sou fruto desses dois grandes ativistas. Não só pela questão quilombola, sobretudo pela educação, que a minha mãe é uma pessoa muito ativa, da educação do campo, quilombola. E eu acho que a gente é continuidade, assim. Acho que é isso.
P1 – Você contou o nome deles?
R - É José Rodrigues da Silva, vulgo Zé Rodrigues. E a minha mãe é Maria José da Silva, vulgo Zezé. É muito parecido. Inclusive o nome.
P1: E você tem irmãos?
R: Tenho. Eu tenho um irmão. Então, por parte de pai, tem os meus irmãos que moram na comunidade. E eu tenho mais contato, assim, no dia a dia com o irmão que mora lá na minha região também, que já foi, já voltou. E a gente tem esse costume de dizer que a gente… Uma vez, em 2022, quando a primeira vez o censo identifica as comunidades quilombolas no Brasil, a gente não estava apenas falando sobre colocar no mapa quantos quilombos tem no Brasil. Mas a gente estava falando em ser enxergado, em ser visto quanto sujeito, sabe? Em mostrar, não em quantidade territorial, mas entender a importância que são essas comunidades. E aí eu fiz uma fala nesse censo para um jornal, que eu falei, o quilombo está onde eu estou. Onde eu estou, o quilombo vai estar. Então, a gente tem dois processos, às vezes, que fazem a gente estar ou não no território. Um processo espontâneo, de autonomia, que é vou estudar, vou trabalhar. Porque o quilombola, ele tem direito a ser pesquisador, ele tem direito a ser pescador, ele tem direito a ser cientista, ele tem direito a ser professor, ele é um sujeito também, um cidadão. E todos os direitos, não é porque a gente nasce sobre uma outra construção de matriz, sobre uma outra cosmovisão, que a gente não tem o direito de acessar os mesmos espaços que todos os cidadãos desse país. E aí, eu, quanto cientista, costumo dizer que é isso, assim. O que me move hoje é muito essa relação mesmo da produção do conhecimento, da incidência que se faz com esse conhecimento. Porque eu costume, até estava falando, nossa, eu queria ser só pesquisadora. Eu queria ser só uma coisa. Mas não dá, eu tenho que fazer as coisas, porque como é que fica, diante de um PL da devastação, diante de tantas barbaridades que a gente tem. Então, faz parte da nossa função também, o Fábio Gomes dizia no seu livro, “Mocambos e quilombos: Uma história do campesinato negro no Brasil,” não existe quilombo de luta, quilombo sem luta. Todo quilombola é de luta. E é isso. E nessa relação do território, do corpo-território, o meu irmão é isso, ele mora na cidade, mas ele já voltou. Aí tem outros processos que fazem com que muitos quilombolas, em sua maioria hoje, estejam na cidade, que daí já o processo de especulação, que daí já tem a ver com êxito que é forçado, com êxito que tem a ver mesmo com a retirada desses territórios, com a invasão desses territórios, com a grilagem de terra. E está aí a grande mãe Bernadette que fincou na sua memória, fincou a sua memória em dizer que Palmares segue sendo atacado de novo, todos os quilombos seguem sendo atacados todos os dias, assim como as terras indígenas. E é isso. Então, eu tenho esse irmão. Tenho um irmão, então, por parte de pai, que é o Rodrigo, que é vereador. A nossa raizinha lá, a gente tem uma relação política muito forte, ainda mais por ser uma área de não convergência com a política local. A gente está falando do município onde mora a família Bolsonaro, uma parte da família Bolsonaro. Então, quando você é chamado, que você pesa 10 arrobas, 7 arrobas, não 6 arrobas. Mas arroba significa que você é um boi, que você é um cavalo. Isso significa que somos pessoas... Eu falei assim, nossa, se ele está falando, deve ser, arroba, deve ser em peso, no sentido… Que é isso, a gente é um povo... Podemos ser até pequenos, uma comunidade ter 300 pessoas, 500 pessoas, 100 pessoas, mas somos um povo muito pesado. Divergindo do que a gente acredita, é que por isso que a gente também tem que estar em todos os espaços. Tem que estar no judiciário, tem que estar no setor executivo, tem que estar no legislativo, tem que estar na academia, tem que estar na roça produzindo porque, afinal, esse é o grande motim, o grande coração que tem que ser sustentado, porque são esses que estão produzindo, quem tá na roça. Eu, assim, falo que sou coadjuvante, mas eu respeito e eu todos os dias bato palma para aqueles que vão estar no território produzindo e fazendo essa manutenção um pouco mais corpo a corpo. Mas eu acho que todos nós somos necessários, assim, então é isso. E a gente costuma dizer também que é engraçado, eu tenho meus irmãos e tal, mas somos todos parentes. Se você chegar lá e falar: “A Maíra, filha de fulano, sobrinha de ciclano, tal.” A gente tem, por exemplo, o Ditão, que é um grande líder da nossa luta quilombola, que também é do meu território. E aí, o Dito, quando se apresenta, ele fala: “Essa aqui é a minha sobrinha-neta.” Mas é assim, é um pouco isso.
P1: Eu queria que você contasse… Eu ia perguntar se tem, mas eu sei que tem. Eu queria que você contasse de alguma comida, alguma tradição que lembre a sua infância?
R: Nossa, a comida que mais me lembra a infância… Que é isso, eu venho de uma região que o sol é propício, e eu sempre falo, toda vez que vou falar sobre quilombos e tal, eu falo, e essa relação também com o clima, eu falo, gente, olhem que bonito que é. Assim, em sua maioria, a gente está em um contexto geográfico, quando você olha para o globo terrestre, a gente está sobre os trópicos. Óbvio que a gente tem muitos quilômetros que estão no trópico para cima, que já está ali na linha do Equador e tal. Mas assim, essa relação e essa sabedoria que a gente tem de plantar, de ter se acertado nessa floresta tropical, enfim. Tem a ver muito com essa relação mesmo climática. Então, que bom que deu certo. Poderíamos nós ter sido um povo mais do sul de África e ter também estado aqui, mas deu certo. E aí, na minha região em especial, a gente sempre produziu de tudo um pouco. Meus avós sempre diziam que pra lá a gente antigamente só precisava mesmo de um recursinho pra comprar o fósforo, o querosene, enfim, mas o resto tudo se dava. Mas ainda assim tinha muita coisa que o pessoal fazia pra iluminar, que dava certo. Porque quando estava no mato, fósforo lá era artigo de luxo, então tudo dava-se certo. Mas, ao longo do tempo, então a gente teve uma época de extrema produção de arroz na região, um pouquinho ali na época do chumbo, no início do século passado também. E o arroz exportado até para o Japão, tem muitas histórias, muita gente vendeu muito arroz. Mas é uma região que deu bom… Assim, hoje, infelizmente, tem o lado da produção dentro de um sistema agrícola, que hoje é reconhecido pelo IFAM, que é a nossa famosa Roça de Coivara, então você tem a produção de um pouquinho de tudo e, em especial, da banana. Mas ela também, infelizmente, é uma monocultura na região. Mas deu certo essa questão do clima com a banana. Então, a banana é a nossa rainha. Eu aprendi, cresci… E que bom, porque o potássio, ele é muito joia, sabe? Para a memória, para o corpo, tudo que a gente possa imaginar. Essa é uma substância muito interessante, que ajuda nos músculos e tal, a gente fala da câimbra, brincando assim. Porque depois eu fui… Que eu sou meio assim curiosa, e eu sempre tenho câimbra. Eu falava assim pro médico, “mas eu sinto muita câimbra, eu nasci comendo banana e tal.” Daí ele falou: “não, não, não, isso daí é uma falácia, porque câimbra tem a ver com um monte de coisa e tal.” Mas enfim. Então, quando eu era criança, eu adorava banana frita. Mas são tantas. Eu vou falar banana porque a banana dá pra fazer muita coisa. Mas banana frita, sem dúvida, é a comida, é o prato mais delicioso. E tem que ser a banana… Tem vários tipos, mas eu gosto da banana frita, ela quando está verde, pica em rodelinhas, e assim, ela fica crocante por fora, fofinha por dentro, é uma delícia. Mas fora isso tem o cará, tem inhame. Mas assim, dentre as raízes, vou até falar pra você como se fosse uma árvore. Dentre as raízes, tubérculos dessa turma, eu gosto do cará. O cará era maravilhoso. Inclusive esses dias eu fiquei muito me sentindo, porque eu costumo dizer que pra mim, me sentir rica é quando nasce alguma coisa na minha semi-horta na cidade. Aí eu falo assim, agora sim. Então outra vez minha avó me deu um pedaço de cará, eu comi, joguei um pedaço na terra, enterrei. Passou-se dois anos e eu consegui arrancar o cará, era deste tamanho assim a raiz. Essa é uma raiz muito gostosa, e aí tem do branco, tem do amarelo, tem muitos tipos de espécies. Eu costumo dizer que é isso, os quilombos eles guardam um patrimônio genético extremamente sofisticado, assim como, por exemplo, a gente tem, no Brasil como um todo, os povos tradicionais, nos territórios indígenas e tal. Mas nessa região a gente tem identificado só de espécies de arroz, mais de 20 espécies, mais de 15 espécies de feijão, enfim, tem vários tipos. E dentre as raízes tem bastante também. Então, do cará, esse amarelinho, a gente fazia como? Pegava no pilão, colocava o cará… Quer dizer, cozinhava, arrancou, tirava lá a casca, igual a mandioca e tal, aí colocava no pilão, socava. E é uma diferença, porque na Bahia, se eu não me engano, inverte, o cará que a gente chama aqui, eles chamam de inhame e vice-versa. Aí socava, colocava um pouquinho de manteiga, assim. Meu Deus do céu, aquele era o mais gostoso. Essa é uma das comidas, assim… E que delícia, assim, quando você come aquela comida que tem gosto de... Que as pessoas, às vezes, a gente tem um paladar tão judiado nesse São Paulo, tão tristinho, porque a gente tem tantos temperos artificiais que, às vezes, come, vai para o norte, come açaí e fica... Vai comer uma raiz diferente e já fica... Porque é isso, viciou-se o paladar de um jeito, uma tristeza. Mas quando você tem essa... consegue degustar mesmo assim, sabe? Esse gosto mesmo que vem da terra é outra coisa. Nutre a alma, sabe? Esse tempinho assim de chuva, de verão, com… Meu Deus, não tem uma pessoa que não tem uma memória no tempo de chuva de verão, um cheirinho de café ou de chá, um bolinho de vó. Eu costumo sempre dizer, a conexão mais linda que a gente tem, eu acho que com a natureza, é na infância por conta do cheiro da terra molhada, assim. E esse tempinho, assim, de verão com a chuvinha, de todo mundo entrava para dentro, começava a acender o fogo, todo mundo ficava no pé do fogo. E aí colocava o cará para cozinhar ou fazer uma banana frita no fogão de lenha, aquilo ali… O pé do fogo é o fogão de lenha. Nossa, aquilo ali é a memória mais afetiva e gostosa que eu tenho assim da vida. Quando eu falei do jan can jão, meu avô fazia assim na beira do fogão de lenha. Enfim, depois a banana frita… Aí subindo para a parte do corpinho da árvore, tem o palmito, que é outro maravilhoso. Que o palmito a gente planta muito palmito pupunha. Tem o juçara, mas hoje como tem a questão do manejo da juçara, a gente deixa a juçara no lugarzinho dela para os tucanos do que hoje corta. Mas aí tem o pupunha, tem o real. E aí essa do corpinho da árvore é o palmito. Esse daí é o outro senhor maravilhoso que eu falo, é um rei. Comer um palmitinho que você mesmo corta lá e cozinha, refoga ele, você fazer um bolinho assim, um pastelzinho de farinha de milho, põe o recheio do palmito. Isso daí não tem... E depois na parte assim, das folhas, são várias. Mas do lado do fruto é a banana, essa é a rainha. E aí a banana a gente tem pacovan, a gente tem maranhão, a gente tem, enfim, zinca, vários tipos de banana, banana d'água, são muito boas. E eu não sei ao certo, eu sei que foi em década de 70, 80 que alguns fazendeiros trouxeram essa coisa das bananas e não sei todas as origens, mas são muitas espécies. E nessa época de verão é a época mais gostosinha para tomar o café, depois desse período da tarde de chuva, sabe? Mas é isso.
P1: E tem alguma tradição também que tenha sido marcante na sua infância lá no Quilombo?
R: Ah, temos as festas. Então lá são muitas, na comunidade e em outras ali de vizinha, a gente tem a festa de São Sebastião, que eu acho que é o abre o ano. E nesse sincretismo que a gente tem de São Sebastião com Oxossi, é muito bonito, porque o bonito das festas é essa relação coletiva, mesmo comunitária, de que nada é meu e tudo é coletivo. Então, o comer junto, o fazer junto. Começa o plantar junto, depois tem o cozinhar junto, e aí tem o comer junto. Isso é de uma grandiosidade muito grande, é de algo muito fantástico que a gente não vê isso. Malemá a gente consegue numa empresa, numa organização, às vezes, tomar um café coletivo. Por isso eu falei tanto do tempo. O tempo, assim, está fazendo com que a gente entre num ritmo tão maluco que até degustar, comer, conversar, isso tudo é dito como perda de tempo. Mas que diacho é esse que tem que perder o tempo, se a gente deveria aproveitar o tempo. Quando a gente vê tá com dor, tá ficando velho, tá doente. E lá, nesses festejos, é muito bonito porque você faz lá a celebração. Primeiro, dependendo da festa, tem a pedida das prendas, porque além do café coletivo que às vezes tem, tem bingo. E ali no bingo também, quando tem festejos com bingo, as pessoas dão as prendas que a gente fala. E aí passa assim de casa em casa, um dá uma galinha, outro dá um... Enfim, alguma lembrancinha, assim vai juntando para a hora do bingo ter lá as coisas para as pessoas ganharem. E aí o café. Mas o café ele me marca assim, porque o café é a coisa mais fantástica, quem gosta e que se conecta à natureza e entende o que é comer um inhame, comer um taioba, comer um… Aí quando vai, tem as feiras de semente, por exemplo, que acontece em agosto lá nas feiras de sementes, de troca de sementes, das comunidades quilombolas, o cafezão é a coisa que mais marca o pessoal de fora. Fala, meu Deus, quantos tipos de inhame. E nesses cafés tradicionais tem muito isso. Então tem o São Sebastião, depois, no meio do ano tem todas aquelas festas, Santo Antônio, São Pedro, São João. E aí sobe na minha comunidade, tem um levantado mastro para cada um desses santos. Enfim, tem o divino, tem várias coisas que acontecem, mas na minha comunidade, a padroeira de lá é a minha Nossa Senhora do Rosário, dos homens pretos. Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos faz parte de uma grande irmandade, por isso que eu falo que os quilombos eles são esse alicerce da importância para a gente pensar a abolição da escravidão, porque eles estão acontecendo no tempo e no espaço em diferentes regiões do Brasil, numa era que a comunicação era outra comunicação, mas se tinha um alinhamento. Então, você tinha estratégias de construção de quilombos, quilombos que eram nômades, quilombos que ajudavam a construir outros quilombos, que duraram 60 anos, que duraram 100 anos, como Palmares, enfim. Isso é importante de se dizer porque, enfim, eram nessas construções, nessas irmandades, nessas relações, que meio que costurava essa grande força para que a gente tivesse essa abolição, tivesse tudo o que aconteceu. Inclusive, a gente tem um panorama de que um pouco antes da abolição, muita coisa acontece ali para genocídio mesmo desses territórios, para que isso não ganhe força depois, próxima à abolição, e que essa conquista por direitos ela diminua cada vez mais. Então, ao mesmo tempo que você tem a abolição e tal, aí uma lei de terras um pouco antes, em 1850, faz com que a gente já comece a demarcar quem vai ter terra ou não ter terra nesse país, legalmente. Então, toda as grilagens que a gente vê hoje é uma coisa que vem desde lá de trás. E aí, nesse sentido, a Nossa Senhora do Rosário, as Irmandades do Rosário, elas eram muito potentes, porque você vai ter Igreja do Rosário aqui em São Paulo, você vai ter Igreja do Rosário em vários lugares, se comunicando e articulando esses espaços. E é muito doido, porque a Nossa Senhora do Rosário, que se eu não bem me engano, é de uma... não sei se é do sul de Portugal, mas ela é de Portugal, essa Santa vem de lá. E ela é acolhida nesse berço das comunidades e assim como outras santas importantes para várias outras tradições, por exemplo, o Jongo, que também era feito, dançado nas épocas dos santos católicos. Isso é muito interessante, como que... Aí, sem ser Nossa Senhora do Rosário lá, a gente tem outros festejos, outras comunidades, tem São Pedro, depende ali do santo que tá nessa, o padroeiro da comunidade. Isso é muito importante, porque eu costumo dizer, eu falo, nossa, eu fui entender a minha religião. Entender assim, é como a gente costuma dizer, você tem a sua tradição, e você tem a sua religião. Hoje eu coloco muito nesse lugar. Em África, tem muitos povos que fazem isso, podem até ser islâmicos e tal, mas a sua tradição não vão deixar de cultuar. Então, eu costumo dizer que no Quilombo também. A minha tradição vem dessa irmandade, ela vem dessa religião, dessa igreja. Mas eu já sou umbandista, então é isso, são vários tipos de relação. Mas o interessante é o quanto que isso, ao longo do tempo, a gente vai entendendo, tirando essa nuvem do cristianismo e entendendo o que virou um pouco sincrético e colocando o peso em cada coisa. Então, se eu escutava a natureza e eu achava aquilo, para o resto da humanidade, um pouco estranho e ser uma pessoa esquizofrênica no sentido de esquisito, você escutar as coisas da natureza, hoje eu entendo que são vozes, o que a natureza diz. Eu digo que escutar a natureza é você escutar o canto de um pássaro e entender que vai fazer sol. Você escutar o canto de um sapo e entender que vai chover. Então, isso é escutar a natureza. E até escutar os seres que não estão visivelmente nesse campo, assim. Então, isso é muito interessante, porque eu falo assim, eu posso ser uma cientista, mas eu escuto a natureza. É um pouco isso.
P1: Me conta como que era o Quilombo quando você era criança? Como que você descreveria ele?
R - Nossa, eu descreveria... Na minha imaginação, é isso, o Quilombo era um lugar tão grandão. É engraçado a noção de espaço. Porque pra gente, e ele é. A gente está falando de uma região, um município, por exemplo, o quarto município maior do estado é Eldorado. Então, só em Eldorado você andaria muitos e muitos municípios, aqui na grande São Paulo, por exemplo. E o Quilombo, ele tinha a vilinha, ele tem a vilinha até hoje, onde fica lá a igreja, o espaço, o salão comunitário e tal, a pousada. Mas, quando eu era menor, eu costumava imaginar que, quando a gente é criança, o nosso campo de visão periférica é menor, depois que começa a ficar grandão, começa a ficar menor. Mas, quando eu era criança, era muito amplo e você via poucas coisas. Então assim, lugares muito especiais para mim, a igreja, o ribeirão. E a minha avó, ela morava um pouco afastada, a minha mãe, morava um pouco afastada da vilinha. Então, quando a gente tinha reza, era o dia mais legal, porque aí havia outras crianças. Quando eu estudei lá, porque é isso, minha mãe é professora, então ela não era, numa época em que as escolas do campo, até hoje a gente tem uma luta pra se ter essas escolas mais consolidadas. Então, minha mãe já deu aula em vários outros lugares e eu já fui pra muito, morei em muitos lugares ali próximos e, às vezes, morava nos quilombos, às vezes, saía. Mas quando eu me recordo de criança, o Ribeirão era uma das coisas mais gostosas, porque é o lugar de nadar e tal. A roça também, porque na roça tinha um córrego de quitina, que é um córrego que corta a roça, a lavoura, dos meus tios, da minha mãe, e brincar lá no córrego de quitina também era bom. Quando meu tio fez uma bica, uma vez a gente ficava brincando lá na bica. E andar pelo mato. Eu sou uma pessoa assim, que quem me conhece na cidade, no espaço, hoje, que eu também frequento, que é a Casa de Cultura Fazenda Roseira, lá em Campinas, o povo fala: “lá vai Maíra do Mato.” Que lá tem nascentes, e eu cuido também, ajudo a olhar essas nascentes lá. E aí eu falo, gente, se vocês soubessem como eu sou muito do mato mesmo. Porque nem todo mundo que é no quilombo gosta de ficar brecado no mato, mas a gente sabe viver no mato, então eu adoro. Aí quando ia visitar um parente e tal, e pegava uma estradinha, ia, pegava o caminho das cortesilhas, pegava o caminho do Bocó. E aquilo era uma diversão, olhar aquelas montanhas. Só que tinha uma coisa engraçada nessa relação, que é o quanto eu também, na minha geração, já tinha em contato com a TV, essa dimensão do que era São Paulo, por exemplo. Então, na minha infância, eu brincava muito nas árvores e tal, mas eu ficava... Olha só como são as influências. Eu imaginava, vou brincar aqui em São Paulo. Então, eu tinha um pé de amora bem grandão, que em cima tinha um pé de maracujá e eu brincava que era o edifício de São Paulo. E ali eu brincava que ia a vários lugares de São Paulo, assim. Na minha cabeça, São Paulo era uma coisa da modernidade, era o acesso a essa relação mesmo da cidade, assim, no nosso imaginário da TV. Estou falando de uma TV preta e branca ainda. E aí eu ficava nesse imaginário. Mas aí tinha uma hora que eu ficava assim, olha só como é que você constrói a ideia do que é… O nego Bispo vai falar, da cosmofobia. Porque, para as pessoas da cidade nessa época, talvez o mato ficou naquele lugar. “Meu Deus, que perigo, a selva, o grande mato, o grande…” E para nós o oposto também. “Nossa, viver na cidade é miséria, pobreza, não vamos ter acesso a nada, não vamos conseguir trabalho, vamos ter que morar numa moradia mal estruturada.” Que são as realidades, os opostos, que se constroem nesse imaginário de que cidade é só a favela, esse lugar de vulnerabilidade e não de potência. E o quilombo é esse lugar de mato e não de várias riquezas e várias ciências. Enfim, então era um pouco isso. E tem um lugar também muito especial, que é a beira do rio, na frente da casa da minha avó. Então, como o rio enchia, e é uma região de várzea, o médio ribeiro tem uma extensão do rio um pouco maior, e é umas várzeas. Então, eu ia lá, esperava a época de cheia, e ele sempre fazia umas lagoas do lado do rio, e eu ficava lá. Será que essa terra também tem boto? porque eu tinha um avô que tinha acesso a uma tia minha, foi embora, e conseguiu, foi estudar… É isso, eu tenho essa aspas na minha vida, que é, as mulheres da minha família foram estudar em colégio de freiras em Santos. Na verdade, estudar, mas ficavam trabalhando em casa de família e tiveram acesso, fazer aí até o magistério, algumas e tal. E aí, uma das tias, que é a tia Cida, enfim, vai embora, depois, na época da ditadura, luta contra a ditadura, vem aqui para São Paulo, vai ser a primeira mulher a estudar quilombola, a ter acesso ao ensino superior. Ela é assistente social. Está aqui nessa articulação, cutuca aquele povo ali da PUC e tal, vai para o norte, vai trabalhar com os povos indígenas lá em São Gabriel da Cachoeira e tal. E ela, como ela era essa tia que, enfim, a cosmopolita que andou… E hoje ela está no quilombo, voltou, depois de um tempo. Mas ela trazia para nós o nosso computador, que era a Barça. Então, eu e meu avô adorávamos ver, meu avô que era um senhor que aprendeu a ler na casca de palmito, uma história muito bonita, eu já contei em vários meios também de comunicação. Mas ele aprendeu a escrever, a ler, ter a leitura. Então, ele mostrava os lugares. Eu, nessa dos lugares, ia imaginando onde eram os cantos e tal. Até me perdi, porque eu tinha falado isso. Mas enfim, nessa relação dos lugares… Ah, lembrei. Porque aí tinha a história do boto, no norte. Então, eu ia pra essa lagoa, lá perto do rio, assim: “nossa, se eu achasse o boto? O boto, você está aí também? Só que a gente tem uma história de uma mitologia muito singular, que isso eu não posso deixar de contar pra você, que é o Neguinho D'água. Tem uns mitos que é muito lindo. Os ancestrais de África, chamados de Bacongos, eles tinham sua mitologia de Lunga, que era um grande ser da água. Quando esses ancestrais, eles vêm pro Atlântico, dizia, aí tem uma pesquisadora que vai fazer essa tese na USP e ela vai contar um pouco dessas mitologias. Os mesmos mitos que tinham no Ribeira, muito similares, eram do rio Cuanza também. Então, a gente acredita que eles vieram, os seres mitológicos vieram pelo Atlântico, atrás dos navios, e vieram junto com o seu povo. Isso é muito lindo, é fantástico. Então, o Neguinho D'água, que era um ser mitológico que muitos já viram, meu avô já viu. Eu mesma fiquei procurando o boto, mas não achei o Neguinho D'água. Mas, enfim, esse ser, ele é o mesmo ser que está em África. Isso nos faz uma coisa, nos demonstra uma coisa muito séria, que não existe fronteira entre esse mundo, entre o mundo que a gente vive da terra e o mundo espiritual quando você tem uma ancestralidade, quando você tem uma tradição. Da mesma forma que os indígenas vão falar da importância dos pássaros, das plantas e como se ancestralizar determinados seres, para nós também. Então, o Neguinho D'água é um ser como se fosse um saci, mas ele é um ser arteiro para aquelas pessoas que fazem arte. E ali eu ficava na beira do rio. Só que eu ficava meio com receio, porque eu falava assim: “ah, será que… Às vezes minha avó falava: “Maíra, vem tomar banho.” Aí eu não tomava, eu era meio rebelde quando eu era criança, ficava no pé da árvore até sete horas da noite. Aí eu descia assim: aí, tenho que ir embora, tenho que tomar banho. Aí eu era meio rebeldinha, aí eu falava: “meu Deus, e se o Neguinho D'água vier? É melhor eu ir.” Aí chegava no final do dia, eu ia embora, porque eu ficava com medo de encontrar ele. Enfim, e eu tinha um tio muito arteiro que já viu ele. Então eu já falava: “não, não, não, não, eu não vou ver esse ser não.” Mas era isso assim. Então, a beira do rio ali era especial, muito especial. E é onde eu estudo, eu estudo rio, eu estudo várzea. E eu fui parar e seguir estudando, trabalhando na beira do rio. Enfim.
P1 - E como é que se deu esse momento da escola pra você? Como é que foi?
R - Olha, a escola, ela foi muito doida, porque como eu sou filha de uma professora, e uma professora muito atuante. Inclusive, estava ontem aqui em alguma manifestação, porque ela adora uma manifestação, adora participar de alguma atividade política da educação. E eu, por ser filha da minha mãe, que era uma professora, eu tive assim… Deixa eu contar aqui para vocês. Eu estudei, que eu tenha lembrado, em 11 escolas. Eu morei em 9 cidades e eu tive umas 12 redes de apoio ao longo da vida. Porque eu sou filha de uma professora, a minha mãe, Maria José, ela é uma quilombola, que é uma militante, ativista pela causa dos quilombos da educação, mas que também, enfim, ela teve que para poder exercer sua profissão e com muito gosto, hoje ela conta sempre, que tem filhos que ela já deu aula e que vem conversar com ela e tal. Então, ela deu aula em muitos lugares e cada lugarzinho que ela passou, então, o primeiro lugar que ela deu aula foi no Pedro Cubas, que é um quilombo, lá em Eldorada. E aí, eu já dormi na casa de Seu Antônio Jorge, aí no outro quilombo lá, já fiquei na casa de não sei quem. E eu fui realmente sendo criada pelos quilombos, porque minha mãe tinha uma atuação dentro do movimento muito forte. É tão bonito, há uns anos atrás, pelo Instituto Peregrino, que eu trabalho, a gente faz um curso hoje para jovens negros que estão na universidade, sobre racismo ambiental. E aí eu tive contato com três alunas do Vale de Jequitinhonha. E quando elas falaram do garimpo, elas falaram dessa relação das tecnologias e tal, aquilo me cortou de um lugar, e a gente estava falando dos problemas do Vale de Jequitinhonha com relação ao lítio, e a gente teve problemas ao chumbo. E me lembrou da minha mãe, quando ela ia com o pessoal do Vale do Ribeira, a gente estava falando do Vale do Jequitinhonha, que era, na época, o vale mais pobre do Brasil, e o Vale do Ribeira, o segundo vale mais pobre do Brasil. Então, essa relação de pobreza, de miséria, entre aspas, onde o Estado não chega, mas que as comunidades desempenham muita riqueza. E aí eu lembrei e falei, nossa, que bonito, numa geração anterior, nosso povo se conectou. Talvez em África, uma diáspora também. Aí esses dois vales se conectaram numa época e agora eu, com esses novos antepassados, eu fiquei tão feliz, assim, dessa reconexão. E é cíclico, quando a gente fala que é cíclico, a ancestralidade, ela gira assim. E às vezes, lá no Calunga, eu vou ter uma pessoa que eu vou encontrar lá em Brasília, eu vou encontrar na universidade, e a gente se encontra, sabe? Eu acredito muito nessa relação ancestral. Enfim, mas dizendo isso, para falar, como que era a sua pergunta? Das escolas. Então assim, ser filha desta mulher que andava muito me fez também aprender muita coisa. E acho que por onde eu passei… Então eu estudei no Quilombo, eu estudei no Distrito, eu estudei em outras cidades. Então, cada vez que eu estudava, que eu tinha acesso a uma escola, era muito diferente. Então, Registro, que era a capitalzinha da região, foi um outro tipo de preconceito. E sobreviver e ser uma criança negra nesses lugares é muito complicado, porque eu costumo dizer que a gente tem nosso povo, nosso território, nossos territórios ali muito unidos. Mas, fora dessa bolha, a gente está falando de uma região que tem muito racismo. A gente viveu quatro anos de muito preconceito, por conta de um governo em que aquele espírito, ele vivia lá, essa forma, essa questão da misoginia, a questão da homofobia, do racismo, tudo isso, isso que a gente vê como uma onda que parece que vai e volta no mundo, ali era muito presente, assim. Então, viver e confrontar isso nos lugares onde estudei. Então, na minha trajetória mesmo, quanto estudante no ensino fundamental, eu já tive que chamar minha mãe, porque o professor não explicava, não explicava e eu falava assim, mas eu levantava a mão e nada. Aí, várias vezes, eu tive essas questões da escola. E a escola, por incrível que pareça, para uma criança negra, ela vai ser o lugar mais violento e é onde a gente vai aprender que a gente é negro mesmo, sem dúvida. Eu brinquei que no Brasil, é fora do Brasil, aprendi na Turquia, a primeira vez que eu saí para fora, eu falei, meu Deus, entendi, eu sou negra mesmo e é isso que é o racismo mesmo. E aqui é na escola, assim, esse lugar. E o quanto que a escola tem esse poder, de acolher, de ensinar, de fazer pessoas com cabeças mais amplas, mais acolhedoras, assim, de entendimento de que, enfim, a gente pode viver num país com diversidade mesmo. E o quanto que a escola pode ser o lugar de violência psíquica da infância que vai ressoar depois na vida adulta. Então, a minha educação foi essa, assim, de passar por diferentes escolas, de aprender diferentes coisas, mas, sobretudo, de ser filha de uma professora, de ser filha de um território. Eu acho mais bonito ter aprendido, e é muito engraçado, que quando eu volto para o território em alguma ação, alguma atividade, que vão estar as pessoas mais velhas, “Maíra, Maíra, Maíra…” Todo mundo criou eu. Eu sou cria coletiva de muito aprendizado, assim, de muitos territórios. E eu fico muito feliz e eu acho que eles um pouco orgulhosos quando eles veem e falam, nossa, nossa menininha. Eu tenho alguns vídeos, assim, que na Ecône… A gente teve o MOAB, tem o MOAB, tem hoje a entidade jurídica que ajuda na regulação fundiária do Vale do Ribeira. E lá a gente tem um projeto, eu sou assessora lá, colaboradora da equipe, não fico no território, mas colaboro com algumas pautas de mineração, de impactos e tal, barragem. E a gente tem um projeto com a Universidade do Texas que faz o acervo, que junta o acervo dessa luta, dessa história. Aí esses dias as meninas acharam um videozinho… Primeiro, a minha cara era igual a da minha filha, daí eu falei: “olha lá gente, viu como a Inza parece comigo?” E a outra coisa era, eu no colinho da minha mãe, assim. E aí a moça, “você quer falar, Maíra?” E eu com vergonha, “não, não quero falar.” Porque eu era muito faladeira, por isso que eu continuei falando. Então, eu tenho uma escola de luta que é, sem dúvida, incrível. Que me fez ser hoje, eu falo que eu fui, talvez, sem ter essa dimensão de projeto, mas eu sou fruto de um projeto coletivo, em que a gente tinha esperança em que esses jovens acessassem outros espaços. E eu acho que tem dado certo e eu continuo ajudando a potencializar outros jovens para que isso dê certo em outros territórios também. Acho que é isso.
P1: Sabe o que eu estava pensando, até quando eu fiz essa pergunta, eu lembrei de outra que eu queria ter feito antes, mas você retomou ela. Quando você era pequena, seus pais militantes, eu queria entender se, de alguma forma, você se envolvia nessa questão da barragem no seu dia a dia. Se era uma questão presente.
R: Não sei se você vai perguntar nas próximas, mas tem um... Mas já vou puxar um gancho que é assim, às vezes me perguntam, como é que você se interessou e quis ser pesquisadora, quis, enfim, se formar como ensino superior, mas seguir um caminho? E tem uma história muito interessante que é onde eu derivo e ando hoje, que é entre esse mundo da importância do conhecimento tradicional, das tradições, sobretudo das tecnologias hoje para pensar enfrentamento de crises, então pensar alimentação, pensar a questão do clima mesmo, a importância dessas comunidades, desses territórios e da ciência, a importância dos dados, a importância da gente ter a produção do conhecimento, sobretudo desse conhecimento que não fique só num quadradinho dentro de um centro de pesquisa, mas que ele seja na sua profundidade mesmo do que é ciência, de ter ciência, ou seja, que essa ciência se confluem para a gente ter uma potência de enfrentamento às crises que a gente vive hoje. E como eu cheguei nesse lugar, assim? Tem algumas partes, assim, da minha vida e, primeiro, eu costumo dizer, isso que eu disse, do movimento ter me formado, e de eu ter consciência, principalmente ter consciência política e ser um ser político entendendo a sua amplitude que você é um cidadão de direitos, que você tem deveres, mas que você tem direitos. E direitos esses que podem ser diferentes, de uma criança, de um jovem, de um adulto, na cidade, num contexto de um povo tradicional, de um povo indígena, etc. E, quando eu era pequena, eu ia com os meus pais, assim, com a comunidade. Às vezes, com a comunidade. A gente teve um grupo de mulheres lá, muito atuante, um grupo muito importante para a região, de incidência, inclusive, porque são essas mulheres, quando eu disse do matriarcado, que vão fazer incidência política. Às vezes sai lá a carinha dos homens, mas essas mulheres que estão também muito à frente. E é interessante porque eu ia com Nhá Jarda, finada Nhá Jarda, ia com tantas, com tia Laura, ia com um monte de gente assim, e eu ficava olhando. Eu era muito tímida e o fato de estudar nessas escolas racistas, era muito difícil sobreviver e conseguir aprender a expressar, mas era no movimento que eu conseguia falar. E ali, quando foi em 1999, se eu não me engano, bem me engano, acho que em 1999, 1998, teve a caravana da cidadania, que era um processo, as caravanas que a gente passava nos territórios e ia falar com outro território vizinho. Pense, numa era que não tinha essa digital. Quais eram os nossos problemas, o que a gente precisaria para melhorar. E eu tinha acho que uns sete anos, sete, oito anos. E eu ia falar assim. Eu nunca esqueço, um dia eu fui em Iguape, que é perto, mas na época era longe para a gente. E aí eu fui falar, pequenininha, essa é uma das primeiras memórias políticas que eu tenho, assim. Eu falei: “olha, lá na nossa comunidade…” E tem uma figura lá, querida, a Neuza, que é amiga de mãe, enfim, amiga de todos os quilombos, Neuzinha, que é professor, ela ia, me carregava também pra lá e pra cá, quando eu não estava com a minha mãe, eu estava com ela. E aí, ela dizia, ela falava: “vai Maíra, conta aí como que é a na nossa comunidade.” Eu falei, tal, tal, tal. Ou seja, a gente vai sendo criado desde pequena a ser esse ser político. E aí, teve uma bela fase em que a gente teve muitas audiências públicas, em que Tijuco Alto ganhou, tem um impacto muito grande, a questão da barragem, e nós tivemos uma audiência pública em Eldorado. Isso deve ter sido em 2006, 2005, por aí. E eu fui participar, num ginásio da cidade, a cidade tinha um ginásio municipal. E foram lá os membros da empresa e estavam lá os membros da sociedade civil, das comunidades e tal. Muitos apoiadores da causa socioambiental, a gente tem grandes organizações hoje no Brasil que discutem a questão ambiental e climática, e que na época eram super apoiadores dessa causa. E aí eu lembro que o Zé estava na mesa também. Tem um vídeo, que se chama audiência pública Eldorado, acho que Tijuco Alto, uma coisa assim. Nesse vídeo eu até mostro o Zé Rodrigues saindo da mesa e tal. E tem um engenheiro que ele vira assim e fala: “mas vocês têm que entender que vocês precisam do desenvolvimento, porque o que vocês têm, o conhecimento de vocês é só um conhecimento popular, conhecimento tradicional.” Eu nunca esqueci dessa frase. E aí ele fala: “vocês precisam de conhecimento, vocês precisam de tecnologia, e uma grande barragem, uma grande hidrelétrica pode trazer para vocês que não tem esse conhecimento técnico.” Aquela frase, ela levou... Ah, se eu fosse quem eu sou hoje! Eu sou escorpiana, viu? E, assim, obrigado, engenheiro, na sua ignorância, porque eu também, na minha, consegui me acertar. Então, assim, eu sou essa pessoa que eu sempre, enfim, depois na escola e aí… É isso, né? Quando tinha as oportunidades, eu agarrava. Então, teve um cursinho de digitação. “Ai, meu Deus, tem um curso de digitação ali. Vou fazer.” Uma era, assim, que eu falo, gente, eu atravessei, eu não sou tão mais velha, mas ao mesmo tempo, com 34 anos, o que eu tive de acesso lá no Quilombo, no Vale do Ribeira, e as jovens da minha idade tiveram aqui em São Paulo, é muito diferente. Então, um cursinho de auxiliar administrativo, fiz contabilidade, fiz. Tudo que tinha, fiz, o curso do Estado em registro de espanhol. “Si, hablo mui bem espanhol.” E assim, com algumas oportunidades e outras com muita luta. Então, o primeiro ano que eu fiz graduação com a minha mãe, por exemplo, a gente fazia banana chips pra mim conseguir pagar o ônibus e pagar o resto da faculdade, que a prefeitura dava uma bolsa ali, eu trabalhava na APAE e, ao mesmo tempo, tinha, enfim, o ISA, o Instituto Social e Ambiental também ajudava numa bolsa ali. Enfim, eu consegui pagar o primeiro ano de faculdade até antes de eu tomar a decisão de ir tentar a Universidade Pública, enfim, de ir embora. E é isso. Então, esse movimento, ele foi a minha escola. E entender a importância desse conhecimento, pra mim, foi o que sempre me moveu. Então, eu fui fazer biologia porque eu gostava da... Enfim, falava de estudo da vida, gostei. Embora eu sempre tirava notas baixas em biologia, e eu também ficava assim, nossa gente, que situação. Mas eu, a minha mãe, quando eu já era adolescente, ela fez biologia também, ela fez o magistério lá em Santos, voltou para dar aula nos territórios, mas depois fez biologia na região. E aí, eu gostava muito disso. E eu falava, embora a gente não se enquadre nessa classificação binominal de Lineu, mas eu gostava das classificações. Eu sou uma pessoa que gosta de entender e, embora eu não sou das caixinhas, para mim elas todas se misturam, eu detesto caixinhas, mas eu gostava dessa ideia da gente entender a natureza e os processos. E tanto que hoje eu falo muito isso, da importância da gente, eu vou para a geologia e falo desses processos geológicos, geossistemicos, o quanto que eles também são muito similares aos processos do que a gente vai chamar de cosmovisão, de cosmopercepção, porque são cíclicos, assim, quando a gente entende o ciclo da água e toda a sua dimensão, em escalas, e a importância do ciclo das rochas, em escalas também de anos, milhões de anos, a gente também entende a relação da energia de um rio que perpassa o seu corpo e que tem a ver com seu ori. O seu ori tem a ver com aquela água, você tem a ver com aquela folha, até porque nessa relação cíclica da matéria e energia, eu acho muito bonito, depois de muito tempo a ciência vai realmente comprovar que a mesma vibração que se tem os elétrons e que se tem entre a camada eletromagnética da Terra, o mesmo tipo de vibração, é o mesmo tipo de vibração que vive no nosso coração. Isso é fantástico, porque não nos separa. Então, essa relação do que é biofísico, biótico, a gente também faz parte. A gente também é mineral, a gente também é biológico. Então, a gente tem que entender esses ciclos e respeitar esses tipos de conhecimento. Então, quando o engenheiro falou lá que não tinha técnica, e eu vou falar quantas técnicas tem aqui, a gente está há centenas de anos, milhares de anos pensando em África e o quanto que essas técnicas, elas são importantes e até a relação de construir ciência, porque que a gente… E aí, óbvio, você vai ter ali uma infinidade de teorias e aprofundamentos conceituais do que é ciência. Mas pra mim o mais importante e o que me faz construir uma outra ciência é ter ciência. Porque não adianta você construir um pensamento técnico-científico se você não tem ciência e ter a consciência do que você está fazendo. Essa ideia de por muito tempo, “ai, porque você tem que ser um ser neutro na pesquisa.” Não existe, tudo é viesado. Da onde você nasce, a cultura que você nasce é que vai moldar o seu pensamento, a sua consciência. Então, você vê o outro como uma parte é porque talvez o seu modo, a sua cultura, a sua forma de construção de ver o mundo foi diferente. Então, eu costumo muito dizer que hoje, e pra mim essa filosofia do Nego Bispo, que é esse lugar que ele vai dizer da confluência, é extremamente importante porque se um rio conflui, se todos os corpos d'água confluem para um rio e um rio vai confluir para o mar, todos os rios vão confluir para esse mar, que depois vai ter toda essa relação de sistema de pressão, de temperatura, de massa, e que vai fazer com que tudo isso seja cíclico de novo. Então, se a natureza consegue fazer isso, por que a nossa consciência não? Então, eu acho que, enfim, aí eu mergulhei na ciência por conta disso, sabe?
P1: Eu queria que você contasse um pouco sobre a sua pesquisa?
R: Ah, sim. Por conta, vou resgatar o que eu falei para você da questão do chumbo, mas enfim, vou contar em etapas. Também ser pesquisadora e ser cientista não é um lugar, e eu gosto muito de dizer hoje nas redes sociais, eu tenho um arroba que chama uma cientista quilombola, é na verdade uma forma ousada de se colocar neste lugar de construção também, de divulgação científica, mas sobretudo de distorção, de reconstrução do que se é distorcido como cientista. Se por muito tempo a gente achou que filosofia só se tinha com Sócrates, Platão e lá lá lá lá, a gente vai entender o berço filosófico que é o Egito para a Grécia e toda a construção que a gente tem de filosofia hoje. Se a gente tem, por exemplo, enfim, diferentes formas de tecnologias de produção, de conservação de alimentos, enfim, uma infinidade de coisas que a indústria hoje faz, está muito olhando para essas comunidades, para esses saberes e até mesmo essas chamadas biotecnologias. Até a asa da abelha é estudada para você ter algumas dimensões espaciais, enfim, de construção de tecnologia. Mas, de fato, então, esse ser cientista, ele é uma construção, porque nada é dado. Eu costumo dizer que eu não entrei na universidade e ela disse, “bem-vinda à universidade.” Eu tive que bater o pé, bater na porta, entrar e puxar a porta pra mim entrar. Eu, assim, desejo e tenho construído muita coisa e ajudado nessa construção, que muitas pessoas já tem feito muito tempo atrás, de pensar a educação um pouco mais equitativa, igualitária, e a minha contribuição, eu desejo que ela seja enfim, traga resultados que não façam com que os jovens, meninas, negras, periféricas, meninos, enfim, todos os corpos, pessoas, tenham que passar pelo que eu passei. Então, assim, eu fui para uma cidade sem conhecer direito, enfim, no início não tive muito acolhimento, eu só tinha uma e ou outra referência, eu poderia ter ido arrumar um trabalho como muitos dos meus já foram e que vão, passam por diferentes tipos de abusos. Não que eu também não passei por alguns, em algumas dimensões. Mas ter voltado extremamente traumatizada. E eu a todo momento eu falava, não vou me deixar levar, eu vou conseguir superar essas dificuldades porque eu quero estudar e eu quero me formar e eu quero, enfim, poder ajudar o meu território de alguma forma. Então, o primeiro passo que eu acho que é importante dizer é o quanto a universidade tem que ser universal. Ela tem que ser, quando a gente fala da universidade pública, é essa universalidade. Ela tem que ter acesso. Como que pode a gente ter um vestibular tão feito de uma forma que poucos entram e ela ser pública quando a maioria que entra ali vem de uma formação privada. E que mesmo hoje com o sistema de cotas a gente vê quanta dificuldade a gente tem de acessar então as graduações dentro do sistema de ensino universitário. E quando sem dizer, e é pra esse lugar que eu olho, que eu miro, que é o lugar da pesquisa, que é o lugar da docência, que é esse lugar mais disputado ainda, quando a gente vê os corpos que estão lecionando nesses espaços, que não são mulheres, a sua maioria, não são pessoas negras, nem indígenas. E são poucas pessoas negras ali dando aula como docentes. Mas, é olhando para esse lugar que eu, de fato, então, vejo a universidade como o primeiro ponto de partida. Então, fazer um cursinho através de um programa de extensão universitária e da importância do programa de extensão universitária, que era o PCQ, que era o programa de comunidades quilombolas que ficou anos atuando no Vale do Ribeira, e que hoje, enfim, não tem mais o programa. Eu espero um dia, quem sabe, volte. Mas o PCQ foi importante, foram três meses de cursinho. E eu tive essa dimensão, um pouquinho, do nossa, que legal. Eu lembro que a primeira aula foi de Geografia e o Clayton, que depois foi virar um grande colega, assim, um parceiro. Faz tempo que eu não o vejo, mas a gente chamava de Clayton Jesus. E aí ele dizia assim, na primeira aula, ele falou assim: “vamos entender as paisagens.” Que é uma das primeiras aulas de geografia. Ele falou: “vocês estão vendo esse rio? Até onde o olhar de vocês acompanha, isso aqui é a paisagem. O que constrói essa paisagem?” E aquilo ali para mim foi fantástico. Eu falei, nossa, quanta coisa se tem na paisagem. E assim, entender essa relação também, da geografia do lugar. Eu sempre fui uma mulher que eu gosto muito de caminho, sou muito andarilha, e eu gosto muito de entender os mapas e tal. E hoje trabalho com cartografia também, eu gosto de a gente se encontrar, a gente se ver. E se o outro não vê, deixa eu mostrar onde eu sou, de onde eu venho. Então, por isso que uma das ferramentas que eu mais trabalho nas organizações é a questão da cartografia também. Enfim, dessa forma, foi uma inspiração. Tipo, então, um belo dia, eu tinha feito um ano de graduação já na região, na universidade particular, e eu falei: “nossa, mas eu quero estudar para ser pesquisadora.” E assim, vendo a situação do movimento, vendo a situação, várias situações que a gente passava lá, eu falei: “nossa, eu posso estudar isso, eu posso estudar aquilo.” E eu lembro que quando eu estudei lá, na disciplina de metodologia científica, na universidade que eu fazia na região, a gente foi visitar os três mangues, e aí eu fiquei, “meu Deus, tem esse mangue, tem esse aqui, e esse mangue é poluído, esse daqui não sei o quê, aqui joga um esgoto.” Em Cananéia isso. Aí eu ficava assim, meu, eu preciso, eu quero fazer pesquisa, eu quero. E aí fui, com uma mãozinha na frente e outra atrás. E como eu costumo dizer, com R$300,00, que isso daí vai virar até música de paródia. Com R$300,00 reais, era o que ela tinha. E aí, é isso, eu cheguei com muita dificuldade. Então o primeiro mês foi horroroso, eu tinha um contato, e aí eu me conectei a esse pessoal da extensão novamente, fui lá, bati na porta, falei: “tudo bem, eu sou lá daquele território, eu era aquela criança…” E por incrível que pareça, as primeiras atividades que eles fizeram de extensão, eu tinha nove anos, oito anos, e a minha tia foi aprender a fazer doce de banana, umas coisas de banana, com essa galera da Faculdade de Engenharia de Alimentos, que era, na época, o professor Celso Lopes, que coordenava esse programa, e aí ele falou: “meu Deus!” Eu falei: é, aquele lá desse tamanhinho, agora eu quero...” Eu costumo dizer, já nesse meu processo agora de finalizar meu doutorado, que eu sou uma “Unicampers”, e aí eu falo, a Unicamp foi uma mãe pra mim, ela nem sabe as pessoas boas que existem nessas instituições, porque a gente tem que colocar na balança, que existem coisas muito boas, pessoas boas que fazem uma instituição, uma instituição é feita de pessoas. E aí, depende da escolha política de cada um, mas existem pessoas muito boas. E que deram acesso a esse, enfim, a esse programa. Enfim, e aí, conheci uma galera, eles falaram: “tem isso, tem aquilo, você pode acompanhar, aqui tem o Movimento Negro, aqui tem a Fazenda Roseira, a Casa de Cultura Tainã.” E foi nisso que eu fui me fazendo minha rede gigante, até conseguir entrar na incubadora tecnológica de cooperativas populares, que foi outra mãezinha, assim, outro lugar que eu aprendi a escrever, que eu aprendi a fazer projeto, que eu aprendi a incubadora, teve curso de extensão. Hoje, muita coisa que eu brinco, que eu falo, ah, meu currículo, tem uma ligação de cinco anos trabalhando numa incubadora. Eu aprendi, eu falei assim, nossa, meu primeiro artigo que eu fiz no mestrado, artigo, da minha área de conhecimento. Eu falo, nossa, aprendi a escrever na incubadora, porque minhas duas primeiras publicações foi num livro, numa época em que eu estava na graduação ainda. Então, nesse processo, eu fiz o quê? Eu entrei na incubadora, aí depois eu consegui a bolsa do Prouni, fiz cursinho, meio que ficava dividido em vários... Eu pegava seis ônibus, por cinco anos, eu peguei seis ônibus por dia, por quatro anos em especial. E aí foi uma coisa meio doida, assim. Então, fazendo Prouni em uma universidade particular, às vezes eu ia lá fazer disciplina com um aluno especial, covalidava na outra universidade. Porque eu queria conhecer. Então, fiz disciplina, sei lá, pedologia na geografia. Nossa, eu queria muito saber do solo. Então, eu fui fazer pedologia e assim… E as pessoas falavam: “nossa, como que você fala de racismo ambiental, mudanças climáticas, fala de comunidades tradicionais, fala sobre ciência, metais pesados e cosmovisão?” Eu falo: pois é, eu aprendi tudo isso porque eu nunca me deixei barrar qual é o limite de ter conhecimento. Eu gosto muito assim, sou uma pessoa que me empolga, o que me dá alegria é saber das coisas. E é tão engraçado que não me limito só a esse conhecimento assim, quando eu estou lendo ali com relação a... Enfim, esses dias meus eu estava escrevendo a área que eu estudo, e a questão da contaminação e tal. Aí eu falei assim, nossa, mas é muito doido porque quando eu vou conversar com a minha avó, eu também fico, “vó, e aquele corvo de quitina, tem o nome de quitina por quê?” E aí eu fico, acho que eu assisti também muita TV Cultura, eu ficava muito, “por que Zequinha?” E aí, eu fico nessa curiosidade eterna. E eu acho que a gente tem que ser assim, a gente tem que ser curioso, a gente não pode limitar a nossa cabeça e pôr ela em caixa, sabe? Eu acho que a gente tem que tomar atenção com os tipos de conhecimento que se coloca, você é graduado nisso. Não, você pode fazer o que você, enfim, o céu é o limite, desde que a gente tenha sempre os pezinhos no chão, o céu é o limite. Desde que a gente tenha consciência, consciência política, inclusive, a gente pode compartilhar, saber os limites, inclusive, desses compartilhamentos quando a gente está, por exemplo, na academia. Mas foi isso, do ProUni, aí eu fiz a minha graduação em Biologia. E depois eu fiz um curso de especialização em educação no campo, fui escrever pela primeira vez na universidade o termo agricultura quilombola, que depois virou um texto que até eu dei para o pessoal do IFAM na época que eles estavam fazendo o levantamento, os estudos para construir o sistema, o SAT, que é o sistema… Ai meu Deus, agora eu esqueci. Mas é isso, o sistema agrícola quilombola. E aí eu falei: nossa, como que pode, a gente acha que é uma coisinha só que a gente está lá estudando. “E a agricultura quilombola, mãe, o que a senhora acha? E agricultura quilombola, tia, o que você acha?” Isso dá subsídio para coisas gigantes, a gente está falando de um patrimônio cultural do Brasil. Como outros sistemas agrícolas que tem. Enfim… Aí nesse meio tempo, e aí vem a questão do chumbo que eu disse lá atrás, estar na Unicamp e descobrir que existia um grupo, do professor Bernardino Figueiredo, que cuidava dessa área, desse laboratório, que foi um importante pesquisador, que ajudou a fundar o Instituto de Geociências, e que tinha um coração muito grande, porque eu acho que é aquilo que eu falei, são pessoas que estão nesse lugar, assim como em todas as instituições. Quando a gente fala do racismo institucional, a gente tem que lembrar que é institucional e existem pessoas nessa instituição. Então, numa universidade, e ele ter a coragem, dentro da geologia ambiental e médica, de olhar para algum território e dizer: “nossa, aqui tem uma questão, essa metalúrgica, tá por 50 anos, sem nenhuma forma de tratamento, jogando o rejeito do chumbo, direto no rio. E aqui moram pessoas.” Então, nessa coragem, um dia eu... E é engraçado, eu agora estou aprendendo a dirigir e eu super tinha medo. Eu falei, nossa, já fui até o Emirado sozinha, sozinha no mundo, eu, do outro lado do mundo. Eu tenho que aprender a dirigir. Mas eu vejo que a minha coragem, ela começa nesses pequenos passos, de sair, enfim, de não ter medo, e que a gente tem, mas vai com ele mesmo. Eu brinco que eu sou uma eterna positivista barata, porque se você tem medo, vá com ele mesmo, porque o que a gente tem é a nossa fé, a nossa coragem, vamos embora! E aí, engraçado que eu bati na portinha dele e eu disse: “oi professor, tudo bem? Eu me chamo Maíra, eu trabalho aqui do lado, eu estudo numa universidade particular aqui da cidade, e eu já li muitos estudos seu, inclusive falando que tinha um rejeito de chumbo aí na bacia, na Calha do Ribeira.” E aí ele tinha orientado um tal de Moraes, que agora eu não lembro o nome dele, a gente brinca, sobrenomes na academia. E esse era o Moraes. Porque eu falo, gente, vamos olhar o nome, porque às vezes é a fulana, a gente costuma dizer o fulano. E aí ele falou assim… E eu vi que Moraes disse que a concentração maior do que ficou de rejeito, porque o metal pesado afunda, sedimenta no fundo, ficou entre nossos municípios de Iporanga e Eldorado, e nós estamos ali. Ali tem muitas comunidades quilombolas, muitas comunidades tradicionais. E aí ele falou assim: “oi, prazer, não sei o que…” A primeira coisa que ele disse, foi: “é, e vocês tem alguns problemas de saúde, assim, problemas reprodutivos, vocês tem incidência com câncer?” E aí ele foi contando, o chumbo não tem a ver com câncer, mas o arsênio tem, que é um outro metalóide, uma substância também tóxica e tal. E aí eu fui e falei pra ele, falei: “é, a gente tem vários problemas cognitivos de aprendizado, não sei o que.” Ele falou: “está certo menina, eu gostei muito da sua empolgação, eu aqui não vou conseguir te acolher, porque a gente não tem esse processo de estágio para fora, mas eu vou te dar uma indicação de um lugar.” E foi a fala assim… Eu falo, às vezes a gente só precisa de um acolhimento e precisa do quê? De uma ajuda, de um caminho, de você indicar uma pessoa, de você indicar um lugar e às vezes esse acolhimento que vai mudar a vida de uma pessoa. E esse homem mudou a minha vida. Muitas outras pessoas mudaram, mas, em especial… Enfim, eu tenho carinho por muita gente dentro daquela universidade, mas o Bernardino, ele falou assim: “eu vou indicar você aqui para trabalhar com esse pesquisador, já que você tem que fazer estágio, lá eles recebem o estágio da sua universidade.” E aí eu fui pro Instituto Agronômico de Campinas, que é um instituto reconhecido há mais de 100 anos pela questão agrícola, enfim, várias coisas mais relacionadas ao agro e tal, mas que tinha um laboratório de ciências do solo. Eu sempre falo dele, e quando isso aqui for gravado eu vou mandar pra ele, que eu chamava ele de professor Teixeira. Ele falava: “menina, eu não sou professor, eu só sou pesquisadora aqui.” “Mas todos que você ensina são maestros, são professores.” E assim, o Teixeira, um belo dia, falou: “então vamos, já que você já aprendeu aqui no laboratório como é que funciona a questão do solo, da fertilidade do solo, vamos para o Vale e você vai, a gente vai fazer essa coleta.” E a gente desenvolveu um método que conseguia identificar os lugares que já, o rio já tinha pego a cheia, e os lugares que não. Fizemos questionários, fizemos um método muito, inclusive que hoje eu adoro esse método, que eu falo, gente, uma das coisas mais interessantes foi o meu TCC. E a gente descobriu que o chumbo, o zinco, que eram elementos que estavam associados ali a esse rejeito, estavam na mandioca. E algumas mandiocas, a gente foi estudar a roça de mandioca e esses lugares que tinham sido contaminados. E aí você vai ver dentro da legislação que a gente tinha lá o índice de prevenção, assim, ou seja, e o primeiro lugar que eu vou estudar é a roça, justo a roça da minha avó, e fazer análise desses metais. Daí eu vou para o laboratório de análise química de resíduos e aí para a química, que é a área que eu fico, eu navego um pouco ali, para a química do solo e ver que eu estava manipulando o solo e que aquelas plantas também eram plantas que eu poderia ter comido e aquilo foi uma das coisas mais… Realmente que eu tive coragem na vida, sabe? Mas, ao mesmo tempo, eu falei, vamos ver. Vamos ver, porque se a gente não sabe. E eu estou falando assim, isso foi em 2014, e aí eu faço o meu TCC sobre essa questão, demonstro quanto essas áreas estavam impactadas depois de 50 anos. Não, mais, porque o beneficiamento e descarte do resíduo foi por 50 anos, até 1995. Aí eu tô falando de…. Então, é uma coisa muito maluca. E aí, enfim, pra fechar, eu vou... Nessa época, foi uma época muito bonita, eu recebi até um diploma ao mérito, eu fiquei tão... Achei… Que eu tinha um grande companheiro, que é o Celso, um outro Celso lá na Unicamp, que me ajudava. E foram muitas pessoas, para ser quem eu sou hoje, eu tive que bater na porta de muita gente. “Ai, como é que interpreta miligramas por quilo? Como é que a gente converte miligramas?” E aí foram pessoas que foram me ajudando. Eu não sou química, mas aí eu tive que aprender um pouquinho de cada coisa. E aí o Celso me ajudou, outros me ajudaram a fazer o TCC e tal. E assim eu ganhei o diploma mérito Zumbi dos Palmares da Câmara Municipal de Campinas, por colaboração com a comunidade negra e incentivo à pesquisa, na época. Então foi muito bonito. Depois eu fui fazer então esse curso de especialização em educação no campo, mas ainda mirando essa questão da contaminação. E aí em 2015 eu entro no mestrado com a ideia de fazer um método de descontaminação dessas áreas. Aí eu vou estudar uma planta, uma leguminosa que é utilizada em vários sistemas agrícolas, assim, agroecologia, vários tipos de produção que é uma leguminosa que a gente chama de adubo verde, que é o feijão de porco. E o feijão de porco foi uma história muito interessante, que eu vou estudar em duas regiões. A região onde se tinha a primeira mina, chamava Mina de Furnas, de 1918, onde extraiam esse material, antes de se ter a metalúrgica. E aí… Só para fazer um contexto, essa é uma região que vai estar numa ativa muito grande na questão da extração, justamente pela Primeira e Segunda Guerra. Então, além daquela história do arroz, o Vale guarda muitas coisas. Isso que eu não vou nem abrir a caixinha de Rubens Paiva e da família Paiva, de tipo, as tias terem trabalhado na casa, os parentes terem trabalhado na casa da família Paiva, em Santos. Enfim, tem muita história. Mas o fato é que essa região é muito interessante, sabe? E nessa, eu fui olhar no mestrado, então, um método de descontaminação. Mas não era só isso, assim, o título da minha dissertação é “Avaliação de Canavalia Ensiformis em Neossolos Flúvicos na região do Vale do Ribeira.” E não era só sobre fitorremediação que é essa técnica, era mostrar o quanto que determinadas atividades se tem hoje, elas são extremamente depreciativas. A gente acabou de aprovar na Câmara Técnica do Conama, por exemplo, agora, uma incidência de mais de dois anos de pessoas que estavam atuando, eu estive ali no começo, agora participei em setembro deste ano, de um seminário para aprovação desta resolução, dentro do Conama, que é um órgão deliberativo extremamente importante para a gente ter algumas resoluções. E eu trouxe esses estudos, tanto do meu... eu fui convidada para falar quanto pesquisadora sobre racismo ambiental a partir desses estudos. E aí eu falei sobre isso, eu trouxe a importância dessas resoluções, de ter estudado tanto essas normativas e mostrando, olha, essas normativas não olham para qualquer território, olha, só ver quanto que tá ali, qual que é a contaminação que se tem nesse lugar, não vai fazer que aquela pessoa seja indenizada. Então, assim, trouxe a questão de Brumadinho, que eu estudo hoje. E pra mim é um luxo estar aqui falando e uma alegria imensa da gente ter conseguido essa benção, essa luta de incidência de muita gente aguerrida, porque são esses exemplos que eu trago concretos, que é a importância da gente não passar um PL, porque eu estou falando de uma era que não tinha licenciamento ambiental. E mesmo com o licenciamento ambiental, que é o outro grande impacto que eu estudo hoje, que é Brumadinho, você tem mesmo nesse sentido um rompimento de uma barragem. De uma barragem que era a montante que a gente já sabia que possivelmente já tinha indícios que ela ia romper estruturalmente e mesmo assim a gente teve o rompimento. Então, da importância desses estudos, eu costumo dizer que eu vou ser meia perita ali, CSI das comunidades. Eu brinco assim. Com muito orgulho, com muita dedicação e nada sozinha, eu trabalho com grandes laboratórios. Hoje, bom, enfim, aí fiz o mestrado, defendi, publiquei, gostei da coisa, falei, nossa, vou continuar nesse caminho. Então, teve o Instituto de Geociências, o Instituto de Biologia, a professora Sara Adam, o Alfredo Borges, enfim, pessoas, o Bernardino, que teve também depois na minha banca, pessoas incríveis que me orientaram. E aí, depois de alguns anos, eu volto para o doutorado e volto assim. Enfim, casei, tive filho, falei assim, vou viver a vida e vou tentando aqui me estruturar a pesquisa junto com a minha vida. A minha vida não é a pesquisa, a pesquisa ela se encaixa na minha vida, como uma das coisas que eu faço. E, enfim, aí em 2019 eu grávida, depois de tentar, assim, um ano tentar engravidar porque tinha endometriose, que é uma doença relacionada ao chumbo. Enfim, toda a questão que a gente não tem... E aí depois eu vou... Só um PS aqui, uma coisa importante. Em 2016, eu vou achar um trabalho, dessa equipe do Bernardino e junto com o professor Capitani, Eduardo Capitani, que vai mostrar, comparando o sangue das crianças de diversas comunidades, porque a gente está dentro de uma faixa geológica que também tem arsênio natural, não sei o que, ele queria identificar se o que a gente comia poderia estar contaminado naturalmente ou não, etc. Mas aí ele vai mostrar, comparando com as crianças que estavam morando perto da mina, inclusive, esse é um tema muito delicado que é sobre divulgação científica, o quanto que minha mãe, que era professora na época, não soube que esse sangue estava indo para pesquisa, enfim. Mas que são coisas que a gente vai incentivando que a pesquisa, ela seja um pouco mais transparente nesse sentido. E que, enfim, mostrava que crianças daquela faixa, e eu era uma das crianças estudando ali, tinham metais no corpo, e o quanto esse metal poderia ter vindo do rio também. Além da história do engenheiro, isso foi um dos combustíveis para mim seguir, porque de verdade eu costumo dizer que a contaminação ambiental e de mineração, desses metais especiais, ela é um genocídio. A gente chama que é uma condenação de gerações. O que você tem no território Yanomami hoje não se trata só das pessoas que estão vivendo hoje, se trata dos seus descendentes. Então, toda essa história que a gente… E aí Davi Kopenawa fala muito bem nesse sentido, que é uma destruição, quando você destrói quem sustenta, esse céu… O que está em cima, como diz a teoria da relatividade, ela também está embaixo. Então, se você destrói a base, você destrói tudo que vem depois. E eu costumo dizer que o céu e a terra são espelhos. Dentro dos ciclos, dos minerais, geoquímicos, tudo passa por uma grande relação entre terra e atmosfera, água, terra, atmosfera. E aí, não é porque eu tenho elementos químicos na Terra, que esses elementos têm que ser recursos toda vez. É óbvio que a gente precisa minimamente utilizar a natureza com respeito. Mas é isso, a resposta que a gente tem da natureza quando não tem respeito, ela é muito grave e ela não vai ser grave para mim, ela vai ser grave para muitos outros. Então, eu fui uma dessas crianças que possivelmente tem metais no corpo. Enfim, como todo mundo, mas dessa forma, infelizmente. E as crianças que moravam perto da mina, então, muitas não sobreviveram, muitos bairros não sobreviveram. A gente está falando de gente que nasceu sem membros, ou que nasceu sem, enfim, com muitas doenças. Enfim, e aí, desse trabalho, eu lembro que eu fui a primeira. Enfim, isso é um mérito, mas, ao mesmo tempo, eu falo que acaba sendo um desmérito por conta dessa questão que ser primeira é muito ruim, porque a universidade já tinha 45 anos, e ser primeira mestre quilombola da Unicamp, foi uma coisa, assim, que era importante para ser dita, e eu costumo dizer para poder as pessoas entenderem a importância de ter uma universidade indígena hoje, por exemplo, e uma universidade quilombola, etc. Mas, ao mesmo tempo, enfim, foi esse caminho, esse trilhar, que aí eu vou, depois de alguns anos, grávida, prestar o doutorado. E aí a minha filha nasce em janeiro de 2020, o nome dela é Inza Makaya, que significa terra e floresta no Kikongo. E que depois a gente entra a pandemia, eu passo os dois primeiros anos com Inza. E aí eu inventei e me aproximei num grupo muito gente boa, que é o CRIAB, e que eu não tinha a dimensão do trabalho que ia ser fazer uma pesquisa do tamanho que eu faço, e por isso que eu estou no meu quinto ano tentando fechar essa pesquisa agora, com pandemia, com criança e com tudo. Porque eram três laboratórios, três grandes lugares, mas foram muitos laboratórios, também muita gente envolvida, para mostrar dentro de uma área, de uma zona ripária, que a gente chama de zona quente, que é uma região uma das mais impactadas em Brumadinho, qual era a relação cíclica também entre a contaminação, desde o fundo do rio, então eu vou estudar a geoquímica do rio, do solo, a questão da qualidade do ambiente, que é a toxicologia, e por fim, a ecologia, através dessa relação também cosmológica. Então, essa tese ela está saindo assim como se fosse o todo, sabe? Além da gente falar de meio físico e biótico, vamos falar que o rio também é sujeito. Enfim, e aguardem que aí uma hora vocês vão poder ler também. Mas eu acho que é isso. Obrigada.
P1: Eu queria saber como foi pra você se tornar mãe?
R: Ah, sim. Olha, me tornar mãe foi uma coisa que, assim, uma escolha muito engraçada, porque duas coisas aconteceram. Primeiro que eu venho de uma família matriarcal, são muitas mulheres e, como eu te disse, eu fui criada por muitas mulheres. E aí, quando eu era mais nova, eu tinha muita inspiração dessa Tia Cida, e é isso, minha mãe me criou como mãe solteira, de alguma maneira, e eu tinha muita inspiração na Tia Cida, que era essa que foi, que, enfim, desbravou o mundo e que ajudou muitas pessoas. E eu falava assim, não, eu vou ser uma pessoa assim, acho que um dia eu vou ter que ir embora e vou ajudar outros povos. E de fato, acabo sendo. Mas, eu não tinha pensado, assim, na vida ainda, acho que ter filhos e tal. Mas aí chegou um momento na vida em que eu falei assim, gente, a situação... eu tenho uma mentalidade que eu brinco que é mentalidade de guerrilheira. Embora eu seja pesquisadora, cientista, enfim, ativista e tal. Mas eu costumo dizer que eu sou meio Antônio Conselheiro, sabe? Eu já digo, gente, vem aí, se atentem. Então, foi uma época na minha vida em que eu falei, nossa, eu acho que seria legal educar alguém, estar mais pertinho de alguém. Enfim, aí me bateu essa sensação, esse momento. Só que aí no momento em que eu quis gestar, foi isso, eu descobri que tinha endometriose. Eu já sabia que tinha endometriose e eu não poderia engravidar. E eu passei um ano assim, em tratamentos e tentativas e tal. E foi muito bonito, que foi uma fase que eu tinha terminado o mestrado, estava tentando o doutorado, mas não sei muito, enfim, estava tentando, mas não assim, ah, preciso entrar no doutorado. E eu estava na Fazenda Roseira, que é esse espaço, outro espaço cultural que é um segundo quilombo, um quilombo urbano que me acolhe, onde tem a comunidade João Dito Ribeiro, um lugar muito especial na minha vida, de mulheres também. E a gente tinha um processo de racismo ambiental lá também, que era um condomínio, uma especulação muito intenso, e que estava fazendo movimentações de massa no chão, porque construíram um empreendimento muito grande, uma obra obviamente de engenharia boa, ok, mas que movimentou alguma coisa ali, porque começou a surgir do lado uma nascente. E essa nascente já estava passando na estrada, e a gente falou, nossa, mas aqui é o nosso caminho, então vamos ajeitar a nascente para ela cair para cá e tal. E eu acho engraçado, porque eu estava com endometriose, sem, uma expectativa muito baixa de engravidar, mas queria ter um bebê. E eu mexia com aquela nascente, eu falava assim, nossa, Mamãe Oxum, vamos trabalhar aqui nessa energia. E eu sou uma pessoa muito das águas, assim. Embora eu não seja filha das águas. Eu brinco assim, dentro da religião de matriz africana, Oxum, não está assim, nesse lugar, mas eu venho de água. E o rio é uma coisa ancestral mesmo. Então, com muito carinho, muito respeito a essa energia, eu fui cuidando das nascentes. E tinha uma outra nascente que forma um córrego que dá, faz um rio, etc. E, sim, depois de um tempo, a Iza Makaya chegou, assim, como um presente para mim. E aí o nome dela também foi, assim, um mistério que a gente conseguiu ali entender que fazia totalmente sentido, que era o nome dos meus ancestrais, vinha dessa mesma língua, dos meus ancestrais. Então, é muito bonito, assim. E, ao mesmo tempo, ter uma filha fazendo uma tese. Eu falo que eu pari duas coisas. Uma eu já pari há cinco anos, a outra eu vou parir logo mais. É isso.
P1: Eu queria saber qual o legado que você deixa para o futuro?
R: Nossa senhora, que pergunta difícil. Ah, eu sou uma eterna inspiradora, assim, sonhadora. E, quem sabe, inspiradora. Mas eu acho que é muito o legado que eu quero deixar daqui a um tempo, é muito Sankofa. É sempre olhar atrás pra gente reconectar essas raízes. E mesmo quando a gente é de um território, a gente tá conectado e passam-se coisas ou eventos ou situações nacionais como estamos vivendo, com uma devastação dessa ambiental, climática, a gente não esquecer que a gente tem raiz. E que a história do passado, ela constrói o presente, mas ela também, o presente nos molda para pensar o futuro. Então, é sempre pensar, não viver sonhando num amanhã, mas é pensar que outros devem ocupar esse amanhã. Então, é isso que eu quero deixar.
P1: Como foi contar essa história hoje no Museu da Pessoa?
R - Pra mim foi uma honra, uma gratidão muito... Eu sou uma pessoinha que eu sempre me coloco nesse... Poxa, eu tenho só 34 anos, tudo bem que já vivi um pouquinho de tudo, e quero ter mais 34. Eu sempre falo, nossa, eu não quero ser mártir. Já deu essa parte de nossas mulheres morrerem mártires, morrerem novas. Eu quero ser senhorinha, contar as histórias do meu avô senhorinha, viu? Mas eu fico honrada de ser um corpo jovem, uma mulher e uma mulher nega contando a sua história e que eu espero que essa história ela não precise ficar só para passar no futuro, mas que esse presente dessas novas gerações, desses jovens que se tem dúvida sobre ocupar espaços e transformar os lugares onde eles estão, que nunca tenham dúvida assim, que a fé, a coragem. A fé e a coragem, como dizia o meu avô. Então, eu espero que isso possa inspirar, que possa ajudar, que possa construir novos imaginários e que a gente possa entender que essa cosmofobia... É que eu não tenho mais tempo, senão eu ia ler até um poema que eu fiz sobre cosmofobia. Mas que a gente consiga, de fato, entender que nós somos natureza. É isso, gente. Obrigada.
Eu agradeço muito.
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