Projeto de 30 anos Alunorte
Entrevista de Lucyanne Correa
Entrevistada por Lígia Scalise
Barcarena, 16 de julho de 2025
00:00:18
P1 - Obrigada por ter vindo. Eu vou pedir para você começar falando seu nome inteiro, sua data de nascimento, dia, mês e ano, e a cidade que você nasceu?
R - Meu nome é Lucyanne da Silva Correia, nasci em São Luís no dia 13 de agosto de 1985.
P1 - Os seus pais são de onde?
R - Os meus pais são de São Luiz, eles nasceram na zona rural de São Luís, mas eu nasci na capital mesmo, desde a infância, vivi lá até os meus 19, 20 anos, 19 anos, 29 a 20 anos.
P1 - Qual é o nome dos seus pais?
R - O meu pai, Fortunato da Purificação Correia, a minha mãe é Shirley, Shirley Portela Correia, e também, no caso, eu tenho duas mães, eu tenho uma que foi a minha genitora que já falecida, que foi a Maria Genilma.
P1 - Então, quando você nasceu… Te contaram como foi o dia do seu nascimento?
R - Não, que meu pai me fala que eu passei da hora, que eu nasci bem inchada e tudo, que eu não queria, eu já tinha preguiça pra nascer. Mas assim, nasci em hospital, hospital particular, meu pai já trabalhava na indústria, na época, então a minha família já tinha alguns acessos né? Então, eu nasci no hospital particular e tudo, foi um parto tranquilo. Quando eu nasci, a minha avó por parte de pai, ela tinha uns problemas de saúde, meu pai estava dando suporte para ela e aí eu morava na casa da minha avó paterna. Foi uma figura também… Que também foi uma mãe para mim. Foi ela que me alfabetizou, que… Assim, a minha lembrança de infância é muito da minha avó paterna também.
P1 - Como a sua avó se chama?
R - Ela se chamava Terezinha, Terezinha Correia. Foi uma mulher que também trabalhou na indústria. Ela trabalhou na indústria têxtil, criou vários filhos e…
00:01:56
P1 - E o nome Lucyanne?
R - Olha, depois de adulta eu descobri que meu pai teve uma namorada, muito jovem, com o nome de Luciana, eu...
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Entrevista de Lucyanne Correa
Entrevistada por Lígia Scalise
Barcarena, 16 de julho de 2025
00:00:18
P1 - Obrigada por ter vindo. Eu vou pedir para você começar falando seu nome inteiro, sua data de nascimento, dia, mês e ano, e a cidade que você nasceu?
R - Meu nome é Lucyanne da Silva Correia, nasci em São Luís no dia 13 de agosto de 1985.
P1 - Os seus pais são de onde?
R - Os meus pais são de São Luiz, eles nasceram na zona rural de São Luís, mas eu nasci na capital mesmo, desde a infância, vivi lá até os meus 19, 20 anos, 19 anos, 29 a 20 anos.
P1 - Qual é o nome dos seus pais?
R - O meu pai, Fortunato da Purificação Correia, a minha mãe é Shirley, Shirley Portela Correia, e também, no caso, eu tenho duas mães, eu tenho uma que foi a minha genitora que já falecida, que foi a Maria Genilma.
P1 - Então, quando você nasceu… Te contaram como foi o dia do seu nascimento?
R - Não, que meu pai me fala que eu passei da hora, que eu nasci bem inchada e tudo, que eu não queria, eu já tinha preguiça pra nascer. Mas assim, nasci em hospital, hospital particular, meu pai já trabalhava na indústria, na época, então a minha família já tinha alguns acessos né? Então, eu nasci no hospital particular e tudo, foi um parto tranquilo. Quando eu nasci, a minha avó por parte de pai, ela tinha uns problemas de saúde, meu pai estava dando suporte para ela e aí eu morava na casa da minha avó paterna. Foi uma figura também… Que também foi uma mãe para mim. Foi ela que me alfabetizou, que… Assim, a minha lembrança de infância é muito da minha avó paterna também.
P1 - Como a sua avó se chama?
R - Ela se chamava Terezinha, Terezinha Correia. Foi uma mulher que também trabalhou na indústria. Ela trabalhou na indústria têxtil, criou vários filhos e…
00:01:56
P1 - E o nome Lucyanne?
R - Olha, depois de adulta eu descobri que meu pai teve uma namorada, muito jovem, com o nome de Luciana, eu acredito que tenha sido essa uma inspiração, que ele devia gostar do nome por isso.
P1 - Você se emocionou quando pensou em quem?
R - Na minha avó.
P1 - Dona Terezinha?
R -Sim.
P1 - Como é que a sua avó era? Vamos então lembrar dessa avó, que parece que tem muito carinho aí.
00:02:57
P1 - Minha avó, ela é referência, assim, para mim, para as minhas primas, para a minha irmã, para os meus irmãos, que tiveram mais contato. E assim, eu fui alfabetizada por ela, porque no caso a minha mãe e o meu pai trabalhavam, a Shirley e o Fortunato, trabalhavam fora, então, muito das minhas lembranças de infância são com a minha avó, assim… Até meu pai brinca, que muito assim, às vezes, do meu jeito meio desbocado, meio despachada, que eu aprendi com ela, com a convivência com ela desde criança. E ela sempre está presente, em memória, nos nossos almoços de família, nos finais de semana. E é uma figura muito presente na nossa família.
P1 - Como ela se parecia?
R - Ela era branca, também baixinha, cabelo… Eu acho que eu era bem parecido com ela, né? Cabelo curto, calça que utilizava, que ela usava. Meio gordinha, usava óculos, e era sempre muito alegre, alegre e despachada, né? Brincava muito.
P1 - Ela era dona de casa?
R - Era dona de casa. Quando eu nasci, ela já tinha deixado de trabalhar fora e era dona de casa, já.
P1 - Quantos filhos teve, Dona Terezinha?
R - Filhos naturais, dela mesmo, dois. De criação, eu não sei quantos.
P1 - Ela adotava para ajudar?
R - É porque teve os filhos do segundo marido dela, do meu, do meu avô Brandão. E aí tinham os sobrinhos dele, que vinham do interior e moravam com ela. Então assim, eu não sei precisar quantos ele criou. E fora isso tinha a minha tia também, que era filha dela adotiva. Então, filhos dela mesma, eram três, meu tio que é meu padrinho, o irmão mais velho do meu pai e a irmã deles mais nova.
00:04:53
P1 - E essa avó, ela cuidava da criançada toda?
R - Sim.
P1 - Então, ela criava esse monte de criança?
R - É, foi. Até os netos também, nós finais de semana a gente estava sempre lá na casa dela, que era um quintal grande, com a árvore, então era algo assim… Foi uma infância muito boa nesse sentido.
P1 - E as casas eram perto? A sua casa, que você morara com seus pais, com a casa dela, era pertinho?
R - Uma parte sim, que na infância a gente se mudava muito de casa, porque a gente morava de aluguel. Mas, como eu saía da escola e ficava na casa dela para depois, no final do dia, para a minha casa. Então, a gente teve muito essa convivência.
P1 - E tinha avô? Quando você tinha sua avó por perto, também tinha o seu avô?
R - Tinha o meu avô, o vovô Brandão.
P1 - Estava trabalhando?
R - Estava, estava sempre trabalhando.
00:05:32
P1 - E me conta essa história de duas mães então, essa mãe biológica…
R - Isso, aí ela separou do meu pai, quando eu tinha seis anos ela foi embora para outro estado, e o meu pai já estava casado com a minha mãe, com a Shirley.
P1 - E foi uma escolha de quem, que você ficasse com o seu pai?
R - Foi deles dois. Ela era jovem ainda, tocou a vida dela de uma outra forma. E aí o meu pai estava com a minha mãe já, a Shirley, e aí ela tocou o barco, criou eu, minha irmã, depois teve mais o meu irmão também.
P1 - Como é que você lidou com isso enquanto pequena? Você lembra disso?
R - Muito pouco, assim, eu tenho lembranças assim da separação, na época. Depois meu pai teve alguns relacionamentos, mas que não duraram muito. Aí já com a Sheila, eu já lembro do dia que eu conheci ela, do dia que ela entrou em casa.
P1 - Essas mulheres. Então vão buscar essa memória, como é que foi esse encontro com a Shirley? Que parece também ser uma mãezona, né?
R - Bom, eu lembro quando meu pai me levou para conhecê-la, ela trabalhava num shopping pequeno, perto de casa, e eu lembro que eu tinha saído da escola, acho que era época de Páscoa, alguma coisa ou alguma festa, eu estava com… Quando eles pintam crianças na escola, né? Foi aí que eu a conheci e depois de um tempo, ela foi morar com a gente, né? E aí, depois de um tempo, também abriu mão de muita coisa da vida dela pra poder criar a gente e acompanhar eu, minha irmã e o meu irmão.
P1 - E ela era legal, ela era uma mãe presente?
R - Muito, muito presente, até hoje na vida da gente. Assim, é a pessoa que está ali dando todo apoio pra gente, me ajudou com a criação do meu filho também. Eu também tenho um filho, hoje ele tem 17 anos e ela também é mãe dele, é o quarto filho dela.
P1 - Os seus irmãos são filhos da mãe biológica que você teve ou da Shirley com seu pai?
R - Um é da mãe biológica, a minha irmã é da mãe biológica e o meu irmão é da Shirley.
P1 - Qual é o nome e a diferença de idades de vocês?
R - A minha irmã, a Luanda tem tem 36 anos, trabalha na hidro também, lá de Belém. E o meu irmão Fortunato tem 30 anos, e trabalha aqui em Barcarena, na região portuária.
00:08:26
P1 - Como que você era menina? Como que você era uma criança?
R - Acho que eu fui bem tranquila, assim, nunca dei muito trabalho pros meus pais. Depois de uma certa idade, passei a gostar um pouco de estudar. Como eu era mais velha, acho que eu fui bem mais responsável com relação aos meus irmãos, a nossa história de vida. Acho que eu tive bons amigos, sempre tive assim, eu sempre tive muita sorte com amizades, eu costumo dizer isso, que eu sempre tive excelentes amigos, pessoas que que estão na minha vida até hoje, desde desde a minha infância. Pessoas que, graças ao advento das redes sociais, eu ainda consigo ter muito contato com alguns amigos e… foi muito tranquilo minha infância.
P1 - Como que era essa casa? Você falou das casa da sua avó, que tinham um quintalzão, e as de vocês? Vocês mudaram de casas várias vezes, né?
R - Mas assim, a nossa casa também, a lembrança que eu tenho é que era sempre cheia, porque tinha os meus primos por parte da minha mãe, da Shirley, e aí todo final de semana sempre era a mesa cheia, com confusão entre os primos, e vários tipos de comida. Assim as lembranças que eu tenho é sempre casa cheia.
P1 - E você gostava?
R - Gostava, gostava bastante. Até hoje a gente tenta fazer isso, mas o cotidiano, a vida da gente hoje, não deixa mais.
P1 - Você falou que o seu pai trabalhava na indústria, o que ele fazia?
R - Sim, meu pai trabalhava numa refinaria similar a Alunorte, lá em São Luís. Ele começou a trabalhar lá, acho que em 1982, 1983. Trabalhou até 1999 nessa fábrica. Depois disso ele foi autônomo, a gente teve uma fábrica de picolé. E ele também, depois voltou a trabalhar em algumas empreiteiras, dentro dessa refinaria. E aí, em 2004, no final de setembro de 2004, ele veio pra cá trabalhar na Alunorte. E nessa época eu tinha terminado o meu curso técnico, que eu fiz no CEFET, lá de São Luís, e estava estagiando nessa mesma refinaria, eu tenho formação técnica em eletrotécnica, e daí eu fiz um estágio nessa mesma refinaria. E aí eu fiquei um ano morando com a minha avó materna, que é outra figura também que é muito importante pra mim, que também me ajudou muito nessa criação. Hoje ela mora com a gente, tem 97 anos, a gente trouxe ela de São Luís pra cá. E aí eu fiquei um ano ainda morando com essa minha avó, morando com ela lá. E aí meu pai, minha mãe e meus irmãos, que eram menores, vieram pra cá. E aí, em outubro de 2005, eu me mudei pra cá, pra Barcarena.
P1 - A gente vai chegar lá, aí você já pulou a história, vamos voltar um pouquinho. Então, é muito curioso que a sua mãe biológica foi viver a vida dela, mas a sua avó estava ali por perto? R - Não. Foi a minha avó da Shirley, a avó materna da Shirley. Eu não fiquei com contato da família… Não.
P1 - Então agora, a partir de agora, a gente fala sempre da família da Shirley, né?
R - É isso, sempre a família da Shirley.
00:12:00
P1 - Quando você era pequena, você tinha um sonho?
R - Tinha alguns, assim, a gente sempre tem, né? Mas eu tinha um sonho de viajar. Tinha muito sonho de poder viajar. Tinha o sonho de independência, mesmo. Acho que a maior parte era isso, a questão da independência.
P1 - O que você queria ser quando crescesse? Talvez no trabalho.
R - Eu pensava muito, assim, como eu tinha amigos que eram artistas, que eram do ballet, era teatro, tudo. Eu pensava muito em jornalismo, até acho que os meus 14 anos.
P1 - Era o que você queria?
R - Era, eu pensava que eu queria, né? Só que a realidade muitas vezes vai levando a gente. E aí eu fui fazer o curso técnico, e aí mudei completamente de área. Eu não tinha dificuldade com essa área e tinha um exemplo em casa, que era o meu pai também, que era formação técnica. Então, daí eu entrei nessa área e não saí mais.
P1 - E a Shirley trabalhava com o quê?
R - Com comércio, ela trabalhava com comércio.
P1 - Empreendedora?
R - Era, trabalhou no comércio, trabalhou como recepcionista, atendimento ao público em geral. Assim, foram as experiências dela.
P1 - E aí, quando você ainda era uma menina, como era a relação financeira da sua casa? Passava perto? Era tranquilo? Como que era essa parte?
R - Olha, nunca foi assim… Nunca foi fácil, mas a gente nunca passou por muitas dificuldades. Meus pais sempre davam um jeito, assim, nunca faltou nada pra mim e pros meus irmãos. A gente nunca teve assim, brinquedos de… Lançamentos de brinquedo ou roupas. Mas a gente era pobre, tipo assim, mas não era aquela pobreza e tudo, mas nunca faltou nada, nunca faltou comida, nunca faltou diversão. Foi uma coisa que meu pai sempre, meu pai e minha mãe sempre passaram pra gente, e que era sagrado, quando saia o pagamento dele, a gente ia pra praia. A gente sempre… A prioridade era ter aquele momento de qualidade em família e tudo. Então, antes de pagar as contas, sempre ele tinha aquele reservado, que a gente ia duas vezes no mês, a gente estava na praia, fazendo um almoço em família. Então a gente sempre tinha esses momentos assim. Então, pra mim foi, foi referência, foi bem tranquila com relação a isso.
P1 - Que praia vocês iam?
R - Lá em São Luís, na época, a gente ia muito na praia do Olho D'Água, que se falava, e tinha Praia do Caolho, tinha a Praia do Panaquatira, que era uma praia mais afastada, e a Praia do Araçagy.
00:14:33
P1 - Como é que vocês iam?
R - A gente tinha um Fiatzinho branco, botava tudo. Às vezes, a gente ia pra restaurante normal, principalmente à noite, e às vezes, quando a gente ia de dia, botava tudo dentro do carro, ia pra praia, para as praias que eram mais afastadas, tinha a Praia do Panaquatira, a Praia do Araçagy, que não tinha muito acesso ao restaurante, meu pai gostava muito dessa praia, então colocava tudo dentro do carro e a gente levava o nosso almoço, levava tapete, o guarda sol, tudo, fazia o nosso piquenique na praia. E a gente gostava muito também de ir à noite. Só que à noite a gente saía pra Avenida Litorânea, para fazer passeio, tinha um parquinho de criança, tinha, às vezes, um trenzinho, que ficava levando as crianças. E aí, a gente sempre tinha esses momentos.
P1 - Nossa! Deve ter sido gostoso, né ?
R - Praia é algo que até hoje renova, né? Assim, hoje quando a gente está num momento mais… Eu gosto muito de voltar lá em São Luís e caminhar bastante na praia.
00:15:49
P1 - O que você gostava de fazer quando você estava em casa? Do que você gostava de brincar?
R - A gente brincava muito de tabuleiro, assim, era muita confusão, a gente gostava de confusão mesmo, de jogo de tabuleiro e ficava implicando muito um com o outro. Mas jogo de tabuleiro, na rua também gostava de brincar de taco. A gente brincava muito de taco na rua, nas ruas que a gente morava. E acho que era mais esse tipo de brincadeira que a gente…
P1 - Você tinha algum brinquedo que você ganhou, que foi muito importante para você em algum momento?
R - De tabuleiro, eu lembro que o que a gente tinha, que foi algo que marcou muito esses momentos, a gente quando criança, era o detetive, um que a gente gostava muito, que a gente passava horas brincando. E da minha infância mesmo, da minha primeira infância, eu lembro que eu tinha umas bonequinhas assim, que chamava Chuquinha. Eu tinha várias delas, que era uma boneca bem pequenininha, que ela só tinha um tufo de cabelo. Aí tinha uma que vinha numa banheira e tudo. Não tinha Barbie, né? Era o meu sonho ter a casa da Barbie e tudo. Não tinha essa condição, mas tinha umas coleções de bonequinhas cheirosinhas da Chuquinha. Essas eu lembro.
00:17:10
P1 - E essa escola, como que era? Você ia a pé, você ia com a galera?
R - Eu estudei até minha terceira série primária, que era o ensino fundamental hoje, eu estudei em escola particular e da terceira série até meu ensino médio eu estudei em uma única escola, uma escola pública lá no bairro que eu morava, uma escola bem grande, que foram essas amizades que eu digo que eu tenho até hoje, que a gente quando pode a gente sempre se fala. E eu ia a pé, que ficava no bairro que eu morava, a gente ia a pé pra escola, eu e meus irmãos e os meus amigos, a gente sempre ia se encontrando no meio do caminho e descendo pra escola.
P1 - Você foi uma menina já ali na pré-adolescência que ficava bastante na rua, que era obediente, voltava pra casa, tinha que trabalhar, não tinha?
R - Eu sempre voltava direto pra casa. Às vezes, eu ia pra casa de uma amiga minha, a gente ficava à tarde, porque ela tomava conta de uma sobrinha dela. E às vezes a gente ia estudar, eu ficava na casa dela, mas minha mãe sabia onde eu estava, que as nossas mães eram amigas. Mas depois de uma certa idade, eu ia geralmente pra casa mesmo. Porque tinha a fábrica de picolé também. Aí, depois das atividades da escola, acabava trabalhando um pouco na fábrica também, com minha mãe e meu pai. Mas foi bem... Eu não tinha muito essa de ficar fora de casa, não. Nunca tive isso.
00:18:42
P1 - Qual que era a sua preocupação quando você era menina? Quando você era adolescente? Era se formar? Era trabalhar pra ganhar seu dinheiro?
R - Minha preocupação era a independência, ter uma condição igual ou melhor do que a que meus pais me ofereciam. Até para conseguir tocar a vida de uma forma mais tranquila, não ficar contando tudo como a gente contava.
P1 - E eles eram rígidos com estudos, assim, com vocês?
R - Chegou um momento que meu pai passou a ser, eu lembro muito que teve… Quando eu completei 15 anos, a gente estava numa situação que não estava tão fácil, ele estava voltando a trabalhar em empresas, estava deixando um pouco o lado da aventura de ser autônomo. E aí, eu estava meio relaxando um pouco nos estudos e ele teve uma conversa comigo que eu nunca esqueci dessa conversa, né? Das minhas expectativas e tudo, foi uma conversa um pouco mais rígida. E aí, no semestre seguinte, eu passei numa prova pro curso técnico, né? Justamente pensando nessa questão da independência, da necessidade, daquilo que eu queria mesmo.
00:19:57
P1 - Como é que você se sentiu nessa conversa?
R - Assim, foi uma mudança, foi uma virada de chave na minha cabeça, entender que o meu futuro ia depender de mim, tudo ia ser consequência das minhas ações. E foram, a partir daquela conversa.
P1 - Talvez seja um marco, quando você deixa de ser uma adolescente, uma menininha, e passa…
R - E passo a entender que a vida tem algumas responsabilidades ali que…
P1 - Eu acho que também tem um papel da irmã mais velha, não tem? Ser exemplo para os irmãos?
R - Sim, sim. Tanto é que depois que eu comecei nesse técnico, minha irmã também, depois seguiu o mesmo caminho, né? Começou a fazer um técnico também. E aí a gente sempre foi se virando. A gente sempre… Desde muito nova também, a gente começou a trabalhar com 18 anos. Estagiar, né? E trabalhar com 18 anos. Tanto eu quanto minha irmã.
00:20:47
P1 - Como que vocês eram? Vocês eram amigas?
R - Nós somos muito amigas. Somos muito amigas, assim, a gente às vezes não se fala todo dia, mas sabe o que está acontecendo uma com a outra, assim. Todos os dias.
P1 - Você cuidava dela?
R - Sim, a gente cuida uma da outra.
P1 - Então não tinha muito esse papel de você ser mais velha e só você fazer, né?
R - Não, não. A gente sempre... É porque a nossa diferença é só três anos, né? Então a gente sempre teve muito essa parceria.
P1 - Você passava roupa pra ela, ela passava roupa pra você?
R - É. Brigava também, em algumas coisas a gente implicava um pouco uma com a outra, mas sempre nessa questão de cuidado, né? Eu acho que as nossas brigas são mais pelo cuidado exagerado uma com a outra, né? A implicância que a gente tem uma com a outra, de achar que às vezes não é assim, que é assado, e aquele cuidado que a gente tem, principalmente com a saúde uma da outra.
00:21:32
P1 - E na época da adolescência, o que que marcou pra você?
R - Na minha adolescência? Acho que as amizades é algo que a gente leva, são momentos assim, que… Principalmente quando eu passei para fazer o curso técnico também, tiveram amizades que são amizades que estão até hoje, que a gente de vez em quando se reúne, consegue conversar. E aí, aqueles momentos que a gente começa a ter aquela independência de poder ir num barzinho, ir numa festa, numa calorada na escola, numa festinha de forró. E tudo isso aí foram momentos que marcaram bastante. Viagens também com a turma, né, pra visita técnica. Isso são momentos assim que marcaram, da minha adolescência.
P1 - Você teve festa de 15 anos?
R - Não, não tive. Não, na minha festa de 15 anos eu saí, no meu aniversário de 15 anos eu saí com os meus pais para um show que eu gostava, a gente foi para uma casa assim de show. Esse foi meus 15 anos.
P1 - E de formatura?
R - De formatura, eu tive na minha infância e depois agora adulta, eu não tive festa, mas tive a cerimônia de formatura de engenheira, quando eu me formei em engenharia.
00:22:58
P1 E esse curso técnico, você queria fazer curso técnico de que?
R - Eletrotécnica.
P1 - Foi uma escolha sua? Quero estudar isso.
R - Foi, foi.
P1 - Não era diferente das outras meninas da sua geração?
R - Foi, foi bem diferente, tiveram… Mas na minha turma ainda conseguia assim, acho que uma turma de 40 pessoas, a gente ainda chegou a ser oito mulheres. Então, assim, já tinha um pouco daquela virada de chave. Mas que seguiram carreira, eu acho que fomos três, três ou quatro, que seguiram carreira dessa área.
P1 - E por que você escolheu essa área?
R - Referência do meu pai, meu pai tinha curso de eletromecânica, e aí entre mecânica e elétrica, eu preferi ir para a elétrica.
P1 - E o que te parecia ser assim, que era interessante?
R - A referência da indústria, muito assim do que meu pai falava de indústria. Tinha muitos livros em casa também, eu sempre tive essa curiosidade. E meu pai sempre me ensinava também em casa tudo que ele ia fazer. Nunca teve aquela diferença, ah, isso aqui é coisa de mulher, de homem, não. Qualquer manutenção que eu ia ter em casa, meu pai sempre mostrava pra mim, pra minha irmã. Então, assim, não foi algo que eu pensava que eu não fosse capaz de fazer. Esse tipo de limitação eu nunca tive em casa. Meu pai e minha mãe sempre mostraram que a gente era capaz de fazer tudo.
00:24:39
P1 - E te interessava?
R - Sim.
P1 - Você lembra de alguma coisa que ele te ensinou a arrumar? Alguma manutenção que você achou incrível?
R - Ele sempre abria, ele sempre mostrava a questão dos eletrodomésticos em casa, era um ferro, alguma coisa que tinha um probleminha de mau contato, ele sempre explicava para a gente, mostrava, mas não era algo que assustasse a gente, era bem tranquilo.
P1 - E você era boa de números na escola?
R - Era. Eu nunca tive dificuldade com disciplinas técnicas, matemática, física.
00:25:12
P1 - E aí você falou que você tinha amigos que faziam teatro, balé, né?
R - Sim.
P1 - Você chegou a ir por esses caminhos também?
R - Não, não. Só acompanhava mesmo, assim, como até hoje, às vezes, quando eu tenho oportunidade, eu vou, vejo uma aula de uma professora de balé, assim, eu acompanho um pouco a carreira dela, né, a vida dela, mas nunca segui, não. Nunca me interessei em estar fazendo, não.
P1 - Você gostava de fazer o quê? Tipo, quando você não estava estudando, era esporte, era ver filme, era ouvir música?
R - Não, eu sou muito de documentário, filme e música, nunca fui do esporte, não. Já tentei, mas... Eu gosto de assistir, gostava de assistir, de ver confusão, mas... Sou uma pessoa mais caseira nesse sentido de estar vendo filme, revendo filme, série, maratonando, jogando videogame. Sou mais desse estilo mesmo.
00:26:11
P1 - Tem algum filme que pra você era importante, que você viu várias vezes?
R - Da minha adolescência? Não, eu assistia vários filmes. Eu lembro que a última maratona que eu fiz na minha adolescência, até antes de vir para cá, foi o Senhor dos Anéis. Sentou em casa eu, minha irmã e a gente ficou, acho que... assistindo, não sei nem quantas horas ou dias, não tenho essa lembrança, a gente assistindo o Senhor dos Anéis. E é algo que eu e ela a gente faz até hoje. Às vezes, eu vou para o apartamento dela, a gente se tranca e passo o dia inteiro assistindo algum filme. Outro dia a gente tirou o dia para assistir filmes espíritas, aí a gente fez uma sequência de vários filmes. Então, até hoje a gente faz isso, eu e ela.
P1 - E com o seu irmão?
R - O meu irmão é mais documentário. A gente é bem viciado em documentário lá em casa. Quando a gente senta pra assistir e aí fica discutindo, é mais nesse sentido. Com ele a gente também já para muito pra assistir documentário.
P1 - Os três tem um perfil parecido de gostar de ficar em casa?
R Sim, nós três temos. Gostar de ficar em casa, no máximo ir ao cinema. Até pela idade, pra ir num lugar tem que ter cadeira já pra gente ficar sentada. E sem muito barulho também. A gente nunca foi muito de show, acho que nós três fomos em poucos shows, em poucas baladas assim na vida, foram bem escolhidas. É o que a gente gosta mesmo.
00:27:16
P1 - Como que era o ano novo de vocês, da família, Natal, Ano Novo?
R - Ano Novo, quando a gente ainda morava lá em São Luís, era sempre na praia. Meus pais também botavam tudo dentro do carro e a gente ia pra Litorânea ver os fogos. Natal a gente sempre passou em família, sempre passou em casa, com jantar tradicional, às vezes minha vizinha. Quando eu era menor, alguns eu passava na casa do meu tio, do irmão do meu pai, mas geralmente era em casa mesmo.
P1 - Vocês cozinhavam?
R - Até hoje, eu e a minha mãe, a gente faz o jantar, e a minha irmã faz a sobremesa. É a confusão, que ela sempre tem que fazer a sobremesa, e eu e minha mãe a gente prepara o jantar.
P1 - E a vozinha ficou com vocês até quando?
R - A vovó, ela ficou até novembro de 2004, foi quando meu pai veio pra cá. Eu ainda estava lá em São Luís.
00:28:22
P1 - Então, você passou bastante tempo, né? Juventude perto dela também?
R - Passei, passei. Passei. E aí, nessa época eu já me mudei pra casa da minha outra avó, que foi quando o meu pai veio pra cá, mudei para a casa da vovó Lucília. E aí, hoje a vovó mora com a gente, né? Como eu te falei, ela tem 97 anos também, é uma senhora super lúcida também, é outra referência que a gente tem. Uma pessoa que teve uma história de vida, assim, de bastante batalha, criou cinco filhos. E hoje tá, assim, é um alívio ela estar com a gente, e a gente sabe que ela ainda tem alguns anos aí de vida, porque ela é uma pessoa muito lúcida, muito tranquila e muito ativa também.
P1 - E a sua avó, Terezinha, ela estava como até ela falecer?
R - Ela tinha diabetes. A gente costuma dizer que… ela mesmo dizia que ela ia morrer pela boca, que ela não seguia a dieta, ela fazia tudo. Então, quando ela partiu, ela já estava com sequelas do glaucoma, que é por causa da diabetes. Foi jovem ainda, tinha acho que setenta... Nem sei, setenta e seis anos, eu acho. Setenta e oito anos.
00:30:10
P1 - E aí, você falou que seu pai veio pra cá. Ele veio fazer o que, exatamente?
R - O meu pai, ele veio trabalhar aqui na Alunorte.
P1 - Já era Alunorte?
R - Já. Era Alunorte, ainda. Ainda era o uniformezinho marrom, na época que ele veio. E aí, ele veio pra cá trabalhar na área da calcinação.
P1 - Foi em 1994?
R - Não, em 2004. Ele trabalhou lá em São Luís até 1999, aí ficou de 1999 até 2004, meados de 2004, trabalhando por lá.
P1 - E como é que chegou essa novidade para vocês? O pai vai se mudar para Barcarena.
R - Eu estava chegando do meu estágio, eu lembro que a gente tinha uma cozinha assim bem grande, aí eu tava chegando, era por volta de duas horas da tarde, aí ele me olhou e disse assim: eu vou embora para o Pará. E aí, eu fiquei... Eu nunca tinha tido a experiência de estar longe dele, né? Dele e da minha mãe. Então, assim, foi um choque pra mim. Mas depois tudo se resolveu. Tanto que, imediatamente assim, eu terminei o estágio, minha mãe estava lá já, me esperando pra me trazer pra cá.
P1 - Então, seu pai veio sozinho primeiro?
R - Veio, ele passou três meses aqui, aí na sequência minha mãe veio com meus irmãos.
00:31:08
P1 - Quando ele veio pra cá, o que ele dava de notícias de como era a cidade, como era o trabalho? Vocês falavam como, por telefone?
R - Nessa época eu ainda não tinha celular, estava começando, assim, a ter mais acesso. Quando eu falava com eles, ele falava um pouco da cidade, e aí eu ficava pensando, meu Deus, eu vou ter que me mudar pro interior, eu vou ter que morar no interior. Eu tinha muito esse receio, né? E algo que marcou muito, assim, tanto eu quanto meus irmãos, quando a minha mãe trouxe, eles falam que com eles foi a mesma coisa, é que quando eu vim, quando eu cheguei em Belém, aí eu vim de ônibus pra Vila dos Cabanos. E a nossa mãe, pra tranquilizar, ela dizia assim: não, é perto, é meia hora, em meia hora a gente chega em casa, não precisa se preocupar. E na época, a Alça, a Alça Viária, ela era muito menos povoada do que ela é hoje. Hoje, pelo menos, a cada cinco quilômetros, a gente encontra um povoado e tudo, uma vila menor. E na época não tinha nada. Era entrando na floresta, literalmente. Aí, eu falei: mãe, a senhora me enganou, mãe, é no meio da floresta. Só que eu tive a grata surpresa de chegar aqui e ser uma cidade muito gostosa de se viver, muito tranquila. A gente se adaptou muito fácil.
00:32:48
P1 - Vocês vieram de avião de São Luís para Belém?
R - É, eles vieram de avião. E na época eu vim de ônibus, a primeira vez que eu vim para cá eu vim de ônibus, de São Luís para cá.
P1 - Também uma longa viagem?
R - É uma longa viagem. Mas tranquila, período da noite a gente não...
P1 - Mas eu fico imaginando você tão jovem deixando os amigos lá, vindo para uma cidade nova, não sei se a temperatura era parecida. Como que era?
R - Eu passei um ano me adaptando, pensando… Eu tenho muito disso, eu tive essa sorte de muitas mudanças significativas que eu passei na minha vida não foram de uma hora pra outra. Eu tive esse tempo de me adaptar, de trabalhar a ideia na minha mente. Então, aí quando eu me mudei pra cá, eu me mudei já no... Lá eu não consegui logo um trabalho, quando eu terminei o estágio eu não tive nenhuma promessa de emprego. Tentei, assim, vi que não ia conseguir tão fácil, tão rápido. E aqui eu sabia que ia ter muito mais oportunidade. Tanto é que tô aqui até hoje. Mas eu vi muito nessa de começar a trabalhar, de poder estudar logo também, que eu sabia que aqui tinham escolas que tinham mais cursos do que... Faculdade que tinham mais cursos do que os que tinham lá em São Luís ainda na época que estava começando algumas coisas aqui, era bem mais preparado do que lá.
P1 - Aqui em Barcarena?
R -Não, em Belém. É porque eu sabia também que tinha essa oportunidade de... Que era perto de Belém, que eu ia ter a oportunidade de estudar em Belém.
00:34:29
P1 - E você deixou pra trás algum namorado?
R - Não. Tava só. Só as amizades mesmo. Que acabei não deixando pra trás, que com o tempo… São pessoas que até hoje eu consigo visitar, conversar. no dia a dia.
P1 - Mas imagina, se despedir da sua avó...
R - É, da minha avó, da minha família, foi um pouco mais difícil, teve muito choro e tudo, mas foi algo que eu queria, que eu já estava preparada pra mudança.
00:34:59
P1 - E aí, vocês vieram de mala e cuia, com tudo?
R - Foi, foi. Eu vim, tinha pouca coisa lá, botei na mala e vim com a minha mãe.
P1 - E tinha promessa, então, de trabalho? Como é que era isso, na época?
R - Não, mas aqui a Alunorte, ela estava passando pelas expansões. Então, estava na expansão 2 e ainda tinham várias empreiteiras trabalhando na montagem aqui. E aí, no dia que eu cheguei aqui… Eu cheguei no dia da festa de 10 anos da Alunorte. Nesse dia que eu cheguei, a minha mãe chegou, me deixou em casa, a gente chegou de manhã, aqui na vila. E aí, ela, meus irmãos, se arrumaram com meu pai e foram pra essa festa, que foi lá no Cabana Clube. A festa de 10 anos da Alunorte. Eu fiquei em casa descansando.
P1 - Por quê? Não queria ir?
R - Não, não queria ir. Eu estava cansada e acho que os convites também, tinha alguma coisa de convite, tudo, que era para os dependentes. Eu não lembro direito. Mas eu fiquei em casa nesse dia e também estava muito cansada. E aí, foi no último, acho que foi 30 ou 31 de outubro, se eu não me engano, esse dia que eu cheguei. E aí, em dezembro, eu comecei a trabalhar numa empreiteira, que trabalhava na montagem da área 49C, lá do porto. Estava terminando, finalizando a expansão, e aí estava na montagem da área 49 aqui no porto.
00:36:29
P1 - Você entrou como Alunorte?
R - Não, eu entrei numa empreiteira.
P1 - Uma terceirizada?
R - Uma terceirizada, isso. Trabalhei numa terceirizada, aí eu trabalhei até maio, eu acho, mais ou menos, nessa empresa, na montagem lá da área 49. E eu saí de lá porque eu recebi uma ligação, que meu currículo já tinha vindo pra cá, e eu recebi uma ligação para fazer uma entrevista pra vir trabalhar na Alunorte, como eletricista, eletricista instrumentista.
00:37:00
P1 - E aí?
R - E aí, eu lembro bem do dia que eu recebi a ligação, eu tava no almoço, tava almoçando com o pessoal da empresa, lá no Conde, num restaurantezinho pequeno, que a gente gostava de almoçar lá. Aí, eu lembro que... A gente almoçando e uma borboleta parou assim… Eu não tenho nada de misticismo, mas uma borboleta parou, eu espantava ela e a borboleta vinha. E foi algo que marcou, porque na sequência eu recebi a ligação. Foi uma cena que gravou. “Ah, é a Luciane? É aqui da Alunorte, a gente está te chamando para vir fazer uma entrevista para uma vaga de manutenção.” E aí eu vim e comecei a trabalhar aqui no dia 16 de junho de 2006. Eu cheguei aqui em outubro de 2005 e comecei a trabalhar na Alunorte em junho de 2006.
P1 - E já era algo que você queria?
R - Já, já. Quando eu vim pra cá, a intenção era vir trabalhar nas indústrias aqui.
P1 - Era na Alunorte?
R - Na Alunorte.
P1 - Seu pai falava bem?
R - Super bem, ele é apaixonado pela Alunorte até hoje. Pelo processo, Bayer, é algo que ele fala muito, assim. Ele gosta muito daqui.
00:38:13
P1 - E quando você chegou na Vila dos Cabanos, como que era a sua vida? Como é que começou a ser, né?
R - Aqui na vila a gente acaba fazendo amizade com todo mundo. E aí, eu tive muito apoio. Quando eu estava saindo, eu tinha 20 anos, então estava começando a vida adulta, e aí as amizades que a minha mãe fez, me deram muito apoio também. Eu lembro que uma amizade que marcou muito quando a gente chegou aqui foi da Yara e do Flávio, eles são pessoas que sempre acolhem. Acolhiam, né? Acho que até hoje acolhem quem chega aqui na vila. Eles moram ali na frente do Cabana Clube. O Flávio trabalhou aqui acho que até dois anos atrás, na área de HSE. E aí, ela me apresentou muita coisa aqui na vila, levava a gente pra alguns passeios, igarapé, pro próprio clube, às vezes tinha, nessa época ainda tinha muita festinha lá no Cabana Clube, eu dormia na casa dela, porque ela morava na frente do clube, aí eu ia pro clube, pras festas e conseguia ir dormir na casa dela, ela me dava a chave. Então, assim, eu senti que a vila era um lugar muito acolhedor, logo que eu cheguei aqui. Nós sentimos isso. Até hoje a gente tem. Círculo de amizades onde a gente acaba se apoiando muito.
P1 - Imagino que a juventude deve ter sido boa aqui, né? Tinha caripi?
R - Tinha. Não, eu fiz algumas amizades aqui, principalmente, teve um pessoal que eu conheci que era do CEPAS, do Centro Espírita, às vezes, tinha reunião. E aí, eu acabei fazendo algumas amizades que eram de lá. E aí, a gente ia pro Caripi de bicicleta. Ainda não tinha essa estrada que tem hoje, então a gente ia ali por trás de onde é a Prisma, eles chamavam de ramal, e a gente ia até a fazendinha de bicicleta. Tinha também o Igarapé lá do Cupuaçu, que a gente também ia de bicicleta pra lá. Então, assim, era muito tranquilo. Eu ainda consegui pegar uma fase muito tranquila aqui da vila. A gente conseguiu ter essas amizades que conseguia ter essas aventuras.
00: 40:22
P1 - E você se sentia segura de andar por aí?
R - Sim, eu chegava em casa às vezes uma hora da manhã, andando de bicicleta. Eu ainda consegui pegar um... Hoje eu já não ficaria tranquila com meu filho fazendo isso, meu filho de 17 anos. Mas eu ainda consegui pegar uma fase bem tranquila aqui da vila nesse sentido.
P1 - Como é que foi seu começo de carreira na Alunorte, então?
R - Eu entrei aqui na manutenção da área vermelha. Na época que eu entrei ainda era uma gerência só de manutenção da área da digestão e da clarificação. Meus primeiros trabalhos foram na área dos moinhos, e na área 4. Não tinha nenhuma mulher ainda na manutenção, quando eu comecei, não tinha infraestrutura ainda para receber mulheres. E aí, acho que dois meses depois começou a entrar, entrou a Dionete, na digestão. Eu já conhecia ela da área, porque ela já trabalhava aqui dentro em terceirizado. E aí, entrou a Jill, depois foi entrando mais operadoras, teve uma turma que entrou, entraram algumas operadoras para as áreas mesmo operacionais.
00:41:39
P1 - Como é que você se sentia sendo uma das primeiras mulheres a desbravar tudo isso?
R - Olha, assim, o meu pai tinha me preparado bastante já pra isso. E lá no meu estágio, eu já tinha tido contato com mulheres, já tinha mulheres trabalhando nas áreas, tanto que no meu estágio eu tinha uma tutora, que me ensinou muito, que me deu muito apoio. Então, eu vim muito preparada pro que eu ia encontrar, para o que eu ia receber aqui, apesar de, às vezes, não ter muita gente preparada para receber, mas eu estava preparada para o que eu ia encontrar aqui. Eu tinha sido preparada para o que eu ia encontrar aqui, tanto que eu consegui ficar. Eu fiquei como eletricista por cinco anos, na área vermelha. Trabalhava muito com instrumentação. O pessoal até brinca comigo, às vezes, quando eu passo na área, eles ficam passando rádio brincando que eu… Uma das principais atividades que eu fazia era calibração de balanças da área 2. E aí, o pessoal já tinha o dia certo que eu ouvir só a minha voz no rádio procurando confusão com o pessoal da operação, da sala de controle, do porto, porque eu tinha que estar coordenando a calibração porque era material que vinha do porto, para passar, para chegar nos moinhos, e a gente checar se estava chegando a pesagem correta nos moinhos. E até hoje o pessoal brinca ainda comigo, “Ah, Lu tu te lembra e tal?” Ou então passa, “Fulano, passa tanto, libera a correia.” Então, eles ficavam muito brincando, que era uma voz feminina no rádio e tudo. Então, tem até hoje essa implicância, às vezes, quando eu passo pela área. E aí, eu fiquei cinco anos. Tive a oportunidade de trabalhar no turno também. Eu sempre digo que eu tenho sorte. Eu tive a sorte de ter bons supervisores, pessoas que me prepararam. Eu lembro que o Marinaldo, que ele tá até hoje aqui como supervisor, ele tomou a decisão de me colocar no turno, uma eletricista no turno. Isso também, o pessoal dizia, não, não faz isso, tá doida, ela vai viver te ligando. Aí, ele muito tranquilo, “Não, eu sei quem eu tô colocando.” Então, foi uma pessoa que conseguiu me dar muita autonomia aqui, que me desenvolveu bastante. Eu sempre tive gestores que me ajudaram muito a me desenvolver aqui dentro.
00:43:52
P1 - Qual que era o desafio de estar no turno?
R - De estar no turno? Era que tinha que tomar conta sozinha da área, assim, desarme, tinha que analisar rápido, reconectar rápido, fazer um diagnóstico rápido para poder solucionar problemas. Então, parte de instrumentação tem muito isso, tem que ter aquela análise, tem que ser uma pessoa bem dinâmica para estar na instrumentação no turno.
P1 - E é em horários que não tem outra pessoa para você pedir ajuda?
R - É. Não, não tem. Às vezes, tem colega de outra área, mas ele sempre vai estar ocupado e tudo. Então, o pessoal falava pra ele, ah, não faz isso que ela vai viver te ligando, vai viver. E eu não liguei muito pra ele, não, nesse período que eu fiquei, assim.
P1 - Quais eram seus horários de trabalho no turno?
R - Era a tabela francesa que trabalha aqui, que trabalha 2 de 7, 2 de 15, 2 de 23. E aí, foi uma época também que eu consegui me desenvolver bastante, aprendendo o processo também. Consegui ter muito contato com o time da operação, mais ainda do que eu já tinha, para aprender um pouco mais do processo.
00:44:58
P1 - Você falou que você teve bons líderes, né?
R - Sim.
P1 - Os seus pares, eles também te respeitavam? Você se sentia...
R - Respeitavam, são pessoas que eu tenho amizade até hoje. Hoje eu vejo muito como líderes também. Às vezes em alguns encontros de liderança eu tinha a oportunidade de a gente estar junto. A gente cresceu junto e sempre tive esse respeito, essa parceria com eles.
P1 - Você não teve que lutar para se colocar como uma mulher que sabia o que estava falando?
R - Poucas vezes. Poucas vezes eu precisei, mas não foi algo que me prejudicou ou que me marcou. Acho que muito da minha postura também, da forma como eu sempre me posicionei, então nunca…
P1 - Como é que é essa forma?
R - Não, já teve vezes de eu bater na mesa, assim, pra poder me ouvirem e tudo, porque não estavam querendo me ouvir. Mas eu sempre, tecnicamente, eu sempre me prevaleci da minha postura técnica. Então, eu acho que isso vale muito. Principalmente por estar como mulher na manutenção, eu acho que são características que a gente precisa ter, a curiosidade, pra poder ter todo o conhecimento técnico que a gente precisa. Porque quando você fala tecnicamente, eu acho que muito pouco se questiona da nossa capacidade.
00:46:27
P1 - Porque o que é exato é exato, né?
R - Isso.
P1 - O que você sabe, você sabe.
R - Isso. E você voltava pra casa e pensava o que, Lu? Quero continuar, quero crescer, como é que era?
R - Eu sempre, quando eu entrei também, uma vez eu lembro que eu cheguei a comentar que eu não ia ficar para sempre naquela função, naquele cargo. Tanto que com dois anos mais ou menos que eu estava trabalhando aqui eu engravidei. Também nessa época não tinha aquele preparo para ter uma mulher grávida na área. Tanto é que tinham pessoas que ficavam muito preocupadas assim: “Lucyanne, o que você faz na área?” Só que eu não me expunha a riscos. Mas ia todo dia para a minha oficina, fazia algumas inspeções, fazia algumas atividades, não ficava só em funções administrativas. E na época também eu comecei a tirar férias, nessa época eu comecei a tirar férias do planejador da área. E aí, depois, quando eu voltei da licença maternidade, eu continuei trabalhando como eletricista. Foi nessa época que eu passei a ir para o turno, porque quando a gente volta... Aí, eu voltei com aquele receio, assim, passei muito tempo afastada, passei quatro meses... Cinco meses, né? Que era os quatro meses de licença e mais um mês. Passei cinco meses fora da planta, eu preciso mostrar que eu quero continuar trabalhando, que eu não quero parar de trabalhar. E aí, a gente volta com mais vontade, volta com mais garra, de mostrar resultado.
00:47:53
P1 - Quando é que o seu filho nasceu?
R - Meu filho nasceu em 2008.
P1 - Como ele chama?
R - Ian, Ian Tales.
P1 - E foi um relacionamento que você teve aqui em Barcarena?
R - Foi, foi um relacionamento que eu tive aqui, conheci ele aqui na Alunorte. E hoje o Ian tem 17 anos.
00:48:11
P1 - Foi um susto quando você engravidou?
R - Mais ou menos, mais ou menos. Mas assim, foi bem tranquilo, assim, porque é algo que a gente sempre quer, ter um filho. E meu filho, assim, foi o melhor momento que eu podia ter tido filho na minha vida. Porque hoje, com os problemas de saúde que eu tenho e tudo, eu não poderia ter filho depois dos 30. Não conseguiria ter tido filho depois dos 30. E é o melhor amigo que eu tenho, assim, é um parceiro pra tudo. Hoje é a pessoa que tá comigo sempre, que me escuta sempre, que cuida também.
P1 - Quem te ajudou com o nascimento do seu filho? Seus pais?
R - Foram meus pais.
P1 - Então você continuou morando com eles?
R - Continuei. Continuei morando com eles. E a minha mãe, como eu falei, é a mãe dele também, é o amor da vida dele também. E a minha irmã, meus irmãos, assim...
P1 - Você teve uma rede de apoio, né?
R - Tenho. Não, nunca tive problema, assim, com relação ao apoio com relação ao meu filho. Eu tive a creche também, que é um benefício que a gente tem aqui. Meu filho, quando eu consegui colocá-lo na creche, eu coloquei. E apoio em casa mesmo.
00:49:22
P1 - Então, quando você engravidou, em nenhum momento isso era uma dúvida na sua carreira?
R - Não. Nunca foi.
P1 - Não pensou em largar pra, né?
R - Não. Não. Nunca pensei, não.
P1 - Aí você voltou...
R - Pelo contrário, acho que a maternidade me deu mais força na minha carreira porque quando eu comecei a trabalhar eu acabei adiando a questão dos estudos que eu tinha vindo pra cá pra estudar. E aí, depois que eu tive o filho, eu tentei começar, só que ele estava muito pequeno, e aí eu não consegui logo começar os estudos depois que eu tive ele, porque eu vi que eu ia fazer muita falta naquela criação. Eu já passava o dia fora e ficar mais à noite, então eu dei mais um tempo para poder depois estudar.
00:49:59
P1 - Seu filho nasceu onde?
R - Ele nasceu aqui em Barcarena, no hospital, na época o hospital particular daqui, era o São José ainda.
P1 - Ele é filho de Barcarena?
R - Ele é filho de Barcarena, barcarinense. E aí, eu voltei, voltei a trabalhar, e aí depois de cinco anos como eletricista, eu passei a trabalhar no planejamento de manutenção.
00:50:23
P1 - Aí saiu um pouco dessa área mais...
R - Isso, mais operacional, basicamente, de estar o tempo todo ali na área, continuando na área, mas para questões de planejamento. E aí, fiquei cinco anos como planejadora, na área vermelha ainda. E daí, assumi a liderança no planejamento ainda. Ainda teve, assim oportunidades. “Ah, vem para a liderança.” Só que eu gosto muito da área de planejamento e da área de engenharia, então eu não queria sair dessa área ainda. E aí, assumi a liderança na área de planejamento da manutenção e fiquei na liderança até acho que no final do ano passado, quando eu precisei mudar de função por questões de saúde.
00:51:15
P1 - Em que momento você começou a estudar, então?
R - Eu comecei a estudar já estava no planejamento, já em 2015 eu comecei, porque eu sabia que eu ia conseguir começar e terminar logo a minha engenharia, que meu filho já estava com uma idade um pouquinho mais, já tinha um pouquinho mais de independência. E aí, em 2015 eu comecei e terminei em 2020.
P1 - Você ingressou em qual faculdade?
R - Eu fiz Engenharia Mecânica na Estácio, em Belém.
P1 - Então, você ia e voltava?
R - Ia e voltava, todo dia.
P1 - Uma rotina puxada, né?
R - É, mas os cinco anos iam passar, né? Era o que a gente sempre conversava, que aqui em Barcarena a gente tem um barcão dos estudantes, que é o barcão que a prefeitura dá, que traz a gente de volta de Belém. Então, ele sai daqui do Porto do Arapari seis horas, cinco e meia da tarde, lá do Porto do Arapari, leva pra Belém. E é um barco que vai bem cheio. Todo mundo que trabalha e vai nesse horário pra Belém, pra faculdade. Vinte e três horas ele volta de Belém e também vem bem cheio. E aí, essa é a rotina de muita gente daqui, assim. E é algo que dá força pra todo mundo que tá... Que a gente vê que tem muita gente nessa rotina, então, não é algo assim, “ah, eu sou diferente.” Não, é todo mundo. Porque ou é isso ou os cinco anos vão passar e a gente vai continuar no mesmo lugarzinho que a gente estava.
00:52:37
P1 - E o que que você via, Lu, que se você estudasse você ia ter mais crescimento?
R - Mais oportunidade e crescimento, porque eu acho que a vantagem da área técnica, de estar na área técnica, é que você vai ter profissão em qualquer lugar, que manutenção é manutenção em qualquer lugar. E a questão do crescimento também, porque quando eu fui promovida para um cargo de liderança, eu já estava fazendo meu curso superior e foi com esse acordo, com a liderança na época, que eu terminaria o meu curso de formação superior.
P1 - São quantos anos, então, de Alunorte?
R - 19 anos.
P1 - Nesses 19 anos, conta pra mim momentos que pra você foram importantíssimos, que são marcantes, que você participou, coisas que você viu, era assim, agora é assim.
R - Olha, uma coisa que eu sempre penso no tempo que eu tenho aqui na Alunorte, o que eu aprendi, é que a mudança, ela é uma constante, é algo que eu vou levar e que eu levo é que a mudança é sempre uma constante, que a gente está sempre melhorando, que a gente está sempre mudando. Então, eu consegui enxergar muita mudança de cultura, pessoas que vieram, que deixaram legados, tanto pra mim profissionalmente quanto na própria indústria mesmo, na própria empresa. Momentos assim, tiveram momentos não tão bons, mas tiveram momentos de diversão… Por exemplo, aqui tiveram algumas festas emblemáticas. Teve essa festa dos 10 anos que eu não estava, mas depois eu lembro que teve uma festa dos valores, que foi uma época que não era ainda a Hydro, mas depois teve uma festa da Hydro. Teve a festa que teve o A-ha. Então, a gente tem muito esses momentos que são simbólicos, que quem estava aqui sempre vai lembrar desses momentos. Tiveram alguns momentos que a gente passou por algumas dificuldades, e aí é algo que marca na carreira de todo mundo que está aqui dentro. E pessoas, né, que vêm e que deixam legado, acho que isso é muito importante no ambiente de trabalho, no geral.
00:54:47
P1 - Ah, mas me conta uns causos. Você tá resumindo bastante.
R - Não, porque não consigo lembrar, assim, de...
P1 - Um momento marcante, vai.
R - Não consigo.
P1 - Teve algum momento que você teve algum reconhecimento, que pra você foi muito importante?
R - Olha, teve momentos marcantes, assim, eu sempre vou lembrar da área de manutenção. Eu lembro de uma manutenção muito grande que teve com o pessoal que trabalhava na energia, na época estava acho que se montando a gerência da energia e que foi uma manutenção muito grande que tiveram em todas as subestações para algumas mudanças que precisavam melhorias mesmo assim, que foi um trabalho bem exaustivo para o time, na época o Zé Luiz tocando esse time. E foi algo que foi um momento assim, foi muito desafiador. E momentos marcantes que a gente tem aqui são essas grandes paradas, como o que tá acontecendo hoje. Era sempre algo que… Eu sempre vou lembrar desses momentos de parada, que são momentos bem desafiadores pra gente, que é muita gente trabalhando, é algo que é bem puxado pra todo mundo.
00:56:00
P1 - E quando virou Hydro, mudou muito?
R - Mudou. A gente viu muitas mudanças, mudanças de comportamento, mudança de algumas posturas, de posicionamento mesmo que a gente passou a ter. Acho que melhorou muito a coisa de processo também, a gente vê que teve muita melhoria. E essa questão da melhoria, sempre da melhoria, de estar sempre trabalhando em melhoria, estar sempre trabalhando em oportunidades. Acho que foi isso que mudou muito.
P1 - E você viu muita gente entrando e saindo, ou geralmente o pessoal entrou e ficou que nem você?
R - Muita gente entra e sai. Muita, muita gente entra e sai, assim. Principalmente acho que liderança, liderança sempre vem, passa, não fica muito... tanto tempo assim. Fica, mas são poucos que vêm e ficam muito tempo. Que a gente sabe que o mercado é muito...
P1 - Mas você tem colegas de muitos anos aqui, né?
R - Tenho, tenho sim. Tenho amizades aqui que já tem 12 anos, 15 anos, pessoas da minha convivência mesmo.
P1 - E vocês levam essa amizade para fora também? Vira uma turma?
R - Leva, sim. O Padrinho do meu filho de Crisma, ele escolheu um amigo meu daqui de dentro. Então, essas amizades… Os melhores amigos que eu tenho hoje foram formados aqui dentro. Então, que é a convivência que a gente tem aqui, que é final de semana estar junto, precisa resolver algum problema, a gente dá um jeitinho de resolver junto. Todo o apoio assim, que eu tenho, são amigos que hoje são amigos da minha família, todos eu levei daqui de dentro.
00:57:57
P1 - Você passou por momentos difíceis na sua vida pessoal, que você precisou de apoio e conseguiu?
R - Passei. Hoje eu faço hemodiálise e eu tive todo o apoio da empresa. Eu trabalhava… Momentos marcantes, eu lembrei de um agora que foi na época do embargo, eu ainda estava no planejamento, na área vermelha, estava nessa transição para cargo de liderança. E aí, a gente estava com metade da planta parada. E aí, todo mundo preocupado com o emprego, porque a gente não sabia o que ia acontecer, apesar da Hydro estar segurando, não demitiu ninguém, não reduziu contratado, não reduziu o pessoal próprio. E aí, a gente parado, e aí um dia o Gerson, que é gerente de operação, chegou lá na sala, lá no planejamento comigo e disse assim, “Lu, requisita pra mim todas as vassouras que tem no estoque.” Aí eu, “pra quê?” “O pessoal vai varrer a área, Lu, não tem mais nada que a gente possa fazer.” E aquilo, assim, foi um momento, assim, bem... Porque nessa hora a gente pensa, né? Todo mundo ia perder o emprego. Mas graças a Deus, assim, não aconteceu. Então, foi algo que marcou bastante. E a pandemia também, né? Eu fui uma das pessoas que fiquei de home office também, não teve redução aqui de emprego, mas eu era do quadro de risco, porque eu era hipertensa, até então, eu só era hipertensa. E aí, eu fiquei em casa um bom tempo. E aí, na época da pandemia eu também comecei a olhar mais pra minha saúde. Todo mundo começou a olhar mais pra saúde, né? E aí eu já tinha uma desconfiança, de que eu era renal crônica, e aí eu recebi o diagnóstico. E aí, desde 2020, mais ou menos, eu comecei o tratamento, que na verdade é só uma dieta, que a gente tem que fazer, uma dieta conservadora. E aí, nesse período, eu procurei tocar a minha vida o máximo que eu pude, porque eu sabia que ia chegar uma hora de eu começar a fazer hemodiálise, apesar de eu tentar postergar, mas a gente nunca sabe. Nesse período eu viajei, consegui fazer uma viagem internacional, que era uma vontade que eu tinha. Procurei estudar mais inglês e aí viajei para poder estudar inglês. Consegui fazer a viagem que eu queria tanto desde a minha adolescência. Consegui ter essa independência e fazer essa viagem em 2022, mais ou menos.
P1 - Você foi pra onde?
R - Eu fui pra Londres. Aí conheci Londres, conheci a Escócia, Edimburgo e Paris.
P1 - Sozinha?
R - Sozinha, fui sozinha. Fui para estudar inglês mesmo, assim, e recomendo que todo mundo reserve um pouquinho da sua vida para realizar esse tipo de sonho.
P1 - E era férias daqui?
R - Era férias daqui, passei um mês, passei quatro semanas em Londres. Quase não fui, porque teve uma época que a Libra bateu oito reais, fiquei desesperada, mas consegui realizar minha vontade. Então, assim, são momentos também que ficaram bem marcados e que eu consegui realizar por causa do meu trabalho. Fui estimulada muito pelo trabalho. E pela necessidade de desenvolver o inglês também. E esse 2022 e ainda preocupada com esse diagnóstico, eu sabia que as coisas podiam ficar um pouquinho mais difíceis depois. E aí, em 2024, agravou um pouco mais. Em 2023, agravou um pouco mais o diagnóstico da doença. E aí, fiquei me preparando psicologicamente para começar a fazer hemodiálise, e comecei em outubro do ano passado, a fazer hemodiálise, aí nesse período o pessoal, a liderança, o RH, avaliaram minha situação e me mudaram de cargo, me tiraram de cargo de liderança, porque eu já não ia poder estar dentro da planta todos os dias da semana, porque eu precisava estar no tratamento. E aí, me botaram numa função assim, que melhor se adaptou pra mim, e que hoje eu consigo, assim, tô conseguindo me desenvolver, entregar e bater minhas metas tranquilamente, com os desafios que estão sendo entregues pra mim.
01:02:45
P1 - Então, você enxerga como uma mudança que te melhorou, né? Te ajudou.
R - Sim, me ajudou muito, me ajudou. E assim, sempre essa preocupação de me adaptar à minha necessidade e à necessidade da empresa. Então, foi algo que foi bem pensado, bem elaborado pela liderança, pelo RH.
P1 - E você teve apoio psicológico, apoio do convênio, apoio de tudo?
R - Tive e tenho. Sempre estou conversando com a doutora Livia, ela sempre me chama para conversar, para saber como está o tratamento e tudo. A doutora Helen também, me chamou lá na sala dela. E aí, sempre estão comigo, sabendo como tá e acompanhando o tratamento. E foi o que eu consegui me adaptar muito bem, que hoje às vezes a gente pensa que vai ficar difícil, mas hoje eu vejo que a qualidade de vida é outra, que eu consigo viajar inclusive, mesmo fazendo tratamento. Então, é algo que eu consegui me adaptar muito bem.
01:03:49
P1 - Lu, você é de uma fase, quando você teve seu filho, que ainda não existia Rede de Mulheres?
R - Não, não existia Rede de Mulheres.
P1 - E você viu isso tudo acontecendo, então?
R - Vi, estava na primeira reunião da Rede de Mulheres, que foi aqui na sala da diretoria ainda, na primeira reunião que teve, que procuraram ouvir um pouco a gente. Eu já estava no cargo de liderança, já estava como supervisora de planejamento na época. E aí foram as primeiras conversas que o time teve, que aí foi aquele embrião de começar algumas ações voltadas para a questão de infraestrutura, de qualidade, de apoio mesmo entre as mulheres.
P1 - E o que você viu, que você participou, que foi importante que hoje você vê o resultado nesse tema?
R - Eu vi que aumentou bastante o número de mulheres. Hoje eu fico, assim, bem feliz em entrar. Antigamente, a gente entrava em treinamento e tinha uma ou duas mulheres. Eu acabei de sair de um treinamento que metade da turma era mulheres. Então, assim, é algo que conforta muito, né? A questão da infraestrutura, hoje está muito mais bem preparada para ter mulheres. O apoio na liderança, o desenvolvimento de mulheres líderes, a gente conseguiu ver esse apoio da empresa para a liderança feminina, a gente hoje vê as mulheres sendo capacitadas, sendo reconhecidas, na verdade, porque é algo que que eu li que é muito verdade, que hoje a gente está conseguindo… Um dia a gente vai conseguir mudar, que a mulher ela precisa provar primeiro que ela é capaz, e o homem é reconhecido pela capacidade. E aí, hoje a gente tem trabalhado muito aqui na questão do desenvolvimento de mulheres.
01:05:51
P1 - Você já sente a diferença?
R - Já, já sinto. Tanto que a questão de eu entrar num treinamento... Eu também tenho dado muitos treinamentos, e aí eu fico muito feliz quando eu chamo uma turma de manutenção pra dar um treinamento e que eu consigo pegar, assim, 30, 40% da turma sendo mulheres. Assim, são aquelas que procuram mais uma formação técnica. Então, é algo que tranquiliza muito a gente aqui dentro.
01:06:19
P1 - E aí, ao longo desses 19 anos aqui na Alunorte, você nunca pensou em desistir?
R - Não, eu tenho até amigos que brincam assim, “Lu, tu vai te aposentar aqui, não vejo tu saindo daqui.” Eu nunca passei, assim, eu estava tentando me lembrar se teve algum momento que eu pensei assim, não, eu vou procurar, vou entregar meu currículo. Sempre tem aquelas chamadas no LinkedIn, tem o pessoal que chama e tudo, manda mensagem. Mas, às vezes, a gente manda por educação só pra ver como tá o valor no mercado, mas nunca foi algo assim que eu pensei, ah, vou sair da Hydro, vou sair da Alunorte, nunca passou na minha cabeça.
01:07:06
P1 - E aí, você me contou que a sua irmã veio trabalhar.
R - É, a minha irmã começou a trabalhar aqui, eu acho que em 2008. Aí, ela saiu um tempo e voltou. Hoje ela trabalha no escritório lá de Belém, na área de suprimentos. Ela trabalha lá. Aqui ela chegou a trabalhar na área da qualidade, acho que como assistente também no RH. E aí, hoje ela trabalha na área de governança de suprimentos.
P1 - Alguém mais da família?
R - Não, só nós duas.
P1 - Seu irmão não?
R - Não, meu irmão trabalha numa empresa que ele é agente portuário, ele trabalha numa empresa que trabalha no agenciamento dos navios, do Tucunaré e do Tambaqui, que são os que trazem.
01:07:56
P1 - E a carreira do seu pai?
R - Hoje, meu pai trabalha numa terceirizada lá na Albrás, aqui do lado. Ele trabalha na área de fiscalização de CAPEX, de projetos. E aí, ele tá bem feliz lá, trabalhando em alguns projetos bem interessantes. Ele é uma pessoa que é muito animada com o trabalho dele e é muito apaixonada pelos projetos que ele trabalha. Ele trabalhou aqui também, nos projetos daqui, mas hoje ele trabalha no de lá, da Albrás.
01:08:20
P1 - E pra você o que foi construir essa carreira na indústria?
R - Bom, é algo que me deixou muito realizada, que hoje eu sou muito realizada. Eu tive muitas referências, principalmente de mulheres aqui. Tiveram algumas amigas e mulheres líderes, que lá atrás me deram muito apoio nesse sentido de me desenvolver, de estimular minha curiosidade, de procurar sempre estar melhorando a minha carreira. E hoje construí muita coisa na minha vida que eu tenho e tudo graças ao que eu fui me desenvolvendo aqui. Minha vida é muito ligada. Hoje eu tenho 39 anos ainda, e 19 anos aqui dentro. Daqui a pouco, mais da metade da minha vida é com a história aqui dentro da Alunorte, com as amizades que eu fiz aqui, com as relações que eu fiz aqui. Então, está muito ligado a minha vida ao que eu tenho aqui na Alunorte.
P1 - Você falou que os seus amigos brincam, né? “Lu, você vai se aposentar aqui dentro.” E você, o que você acha?
R - Eu não sei. Eu acho que ainda vou ficar um bom tempo aqui ainda. Eu sempre... A minha carreira aqui… Eu sempre fiquei muito preocupada de ter algo monótono. Eu não suportaria, mas na manutenção a gente não tem isso, tá sempre uma coisa diferente. E aqui eu sempre… quando eu não tinha uma mudança de função, eu sempre mudei de área. E aí, aqui eu já passei por algumas áreas, já tive oportunidade de trabalhar na área de planejamento das caldeiras, de águas e fluentes, da área de energia, de contratos, área vermelha. E aí, hoje eu tô numa área que vai acabar trabalhando toda a manutenção. E também estou em uma área que estou trabalhando muito com o desenvolvimento hoje do time de manutenção, que é a questão do SAP. O SAP é o nosso sistema que faz gestão de toda a planta, gestão de ativos, gestão de custos, gestão de pessoas. Então, hoje eu tô muito envolvida com os projetos dele, de desenvolvimento, de melhorias, e aí eu tô muito nesse corpo a corpo com o time de manutenção, engenharia, planejamento, os técnicos mesmo de campo, buscando desenvolvimento nesse sentido de estar trabalhando com eles.
P1 - Então não tem monotonia?
R - Não, nunca tem. Sempre tem alguma análise diferente pra fazer, um trabalho pra desenvolver. Minha agenda tá cheia. Tem muitos projetos, assim. A gente tem alguns projetos aí que a gente tá tocando. Muita coisa legal que a gente precisa evoluir aqui dentro. Então, essa monotonia ainda não chegou ainda. Ainda não conseguiu chegar. Talvez um dia, se a monotonia vier, se deixar de ter mudanças, se deixar de ter uma rotina diferente, aí quem sabe eu pense em virar autônoma ou parar, aposentar. Mas, por enquanto, não teve isso ainda.
P1 - E eu fico imaginando que você tem que estar sempre estudando, né?
R - Sempre. Sempre. Sempre tem que desenvolver, por exemplo, até algo que a gente nunca pensou em ter a necessidade de aprender, a gente tem essa necessidade. Tipo, agora eu tô precisando aprender, digamos, SQL. Preciso, porque eu tô ficando para trás. Preciso…
P1 - O que é SQL?
R - SQL é sobre banco de dados, a parte de programação, tratamento de dados e tudo, pra poder dar um suporte melhor na questão do SAP, fazer o desenvolvimento de algumas... E da própria Hydro mesmo, tipo, com o SAP eu preciso... Tem sempre algo pra gente estudar, tem um treinamento diferente, tem uma tecnologia nova, então o estudo tem que ser sempre constante. E a própria manutenção.
01:12:46
P1 - E aqui vocês batem meta? Você se sente reconhecida por alguma coisa? Isso vai acontecer ao longo da carreira também? Vai sendo marcado?
R Vai, vai. Principalmente agora como eu tô numa função técnica, voltei a ter uma função técnica, então eu tenho metas bem específicas daquilo que eu preciso entregar. Por exemplo, esse ano eu tinha que entregar uma turma de desenvolvimento de planejadores, que foi um programa que a gente fechou com a RH. E aí, eu tive que preparar todo o material, tô dando os treinamentos, pesquisando quais treinamentos eu tenho que dar, fazer o acompanhamento deles, dando suporte. Tem um projeto que é de mobilidade do SAP, aí eu estou dando treinamento para os técnicos das áreas para começar a utilizar o SAP no celular, para a gente deixar de ter tanto papel na área, fazer abertura de notas na área de manutenção. Então, na área técnica a gente acaba tendo muita meta bem específica e tem que ir atingindo, e aí fica bem claro aquilo que a gente tem que estar fazendo.
P1 - E você comemora? Tem datas da sua carreira que você vai comemorando? Tem aniversário de carreira?
R - Mais de tempo de empresa mesmo. Que eu trago… Eu até brinquei, que a minha gerente, a Luciana, ela mandou pra mim, quando recebeu, que eu tinha completado 19 anos de empresa. Eu falei: não, isso está errado, eu tenho 33 anos, como é que eu tenho 19 anos de carreira? Mas brincadeira, assim, da gente. Mas a gente tem esse hábito, na planta de… Às vezes, aniversário de fábrica, a gente trazer um bolinho, fazer uma comemoração. Tudo isso.
P1 - Então o ano que vem é um ano marcante, né?
R - É. Ano que vem eu completo 20 anos. Ano que vem metade da minha vida já é aqui dentro. Já vou estar completando metade da vida, metade dela na Alunorte.
01:15:18
P1 - O que você vê que você já construiu de legado? Você falou que pessoas importantes passaram aqui e deixaram legadas, né?
R - Sim, sim. Aqui, de legado, eu acho que... Hoje, ainda, eu sou uma pessoa que eu consigo dar muito... Principalmente agora, eu tô numa onda muito de estar desenvolvendo pessoas, de estar ensinando bastante. Então, eu passei, acho que sete anos em cargo de liderança. Consegui desenvolver muita gente tecnicamente no planejamento. Eu acho que algo que me marcou, que eu consegui fazer, bem legal, é que quando eu peguei uma supervisão, que a gente chama de supervisão de utilidades lá do planejamento, eu peguei uma turma que eram 10 homens. E aí, nas trocas que tiveram, nas mudanças de estrutura que tiveram, eu consegui entregar esse time com 40% de mulheres. E nenhuma vaga era afirmativa. E todas eram porque elas eram as melhores candidatas na época das vagas, assim. E é um time que hoje, eu vejo, pro colega que eu entreguei o time, assim, que é um time que ele não tem dificuldades de tocar e tudo. E que são mulheres, assim, muito boas, muito competentes. E são legados assim, que eu acho que são importantes, principalmente quando é uma liderança feminina a gente deixar. Precisa muita coisa não, mas deixar o ambiente mais preparado nesse sentido e conseguir desenvolver e reconhecer esses talentos, eu acho que é muito importante.
01:17:12
P1 - E o que você recebe de feedback delas?
R - Geralmente, os feedbacks que eu recebo é muito a questão técnica, o apoio técnico mesmo, que é o que eu sempre me vali, de estar apoiando a minha liderança, da época que eu estava na liderança. Então, o feedback que eu sempre recebi delas é que elas gostavam do jeito que eu deixava, elas trabalhavam, apesar da cobrança que eu fazia. Que às vezes eu era um pouco estressada, mas assim, eu sempre gostei de deixar eles trabalharem e me entregar o resultado. E se não tivesse entregando, realinhava, ajustava a rota, mas que a gente conseguisse entregar o nosso resultado.
P1 - Você ajudou muitas mulheres, não só mulheres, mas muitas pessoas a crescerem aqui dentro?
R - A entrarem, né? Desenvolver primeiro, assim, entrando e tendo esse desenvolvimento, sim.
01:18:11
P1 - E quando você volta pra casa, o que você fala pra sua mãe, pro seu filho, como é que tá?
R - Olha, eu não falo muito assim de trabalho em casa, assim, porque eu gosto mais de ouvir a rotina deles, gosto mais de saber como foi o dia, me atualizar um pouco da rotina deles, do dia a dia. Eu acho que isso é bem importante. Mas algumas coisas assim, eu falo do trabalho e tudo. E a questão dos amigos, que os amigos hoje da família são amigos que eu fiz aqui dentro. Mas a gente não fala muito de trabalho, a gente fala mais, assim, do nosso dia a dia, das nossas rotinas, das nossas diversões. Então, é muito isso, assim.
P1 - E você foi conseguindo, ao longo desses anos, ter uma vida lá fora e uma vida aqui dentro? Tipo, ter vida social, ter vida com a família, enquanto trabalhava bastante?
R - Sempre, sempre. Foi algo que meu pai mesmo ensinou, assim, acostumou a gente sempre separar e ter essa qualidade, ter esse tempo de qualidade. Que às vezes, o que é mais importante é o tempo de qualidade, porque não adianta você ter muito tempo às vezes com a família e não estar presente. Isso aí foi algo que ser mãe me ensinou muito, porque eu estava sempre no trabalho, sempre tinha trabalho, mas o tempo que eu tinha com meu filho ali, tinha que ser um tempo de qualidade, um tempo de saber o que estava acontecendo com ele, de poder conversar, de ter esse contato, de ter esse valor dentro do tempo.
01:19:57
P1 - Você me contou que lá atrás você tinha um sonho de poder proporcionar para o seu filho coisas que você não pôde ter em algum momento, você conseguiu?
R - Consigo. Hoje, por exemplo, eu não viajava muito na minha infância. Hoje meu filho pelo menos uma vez no ano, ele faz uma viagem comigo, ele ainda não fez tantas viagens para fora e tudo, mas ele sempre tem uma viagem, apesar de ele não gostar muito. Ele é muito caseiro, ele é um idoso, meu filho. Para ele, quando a gente viaja, eu não posso sair emendando passeios, eu tenho que fazer um passeio, ele tem que voltar para o hotelzinho dele, descansar para depois fazer outro passeio. Mas assim, hoje meu filho, a questão do estudo, questão de estudar inglês, fazer esporte, mesmo ele sendo que nem eu, de não gostar muito, mas ele é obrigado a fazer pela saúde dele. Questão de passeios, tudo. Então, essa qualidade, assim, um pouco diferente do que eu tive, hoje ele tem. A gente até brinca lá em casa, que hoje ele escolhe algumas coisas e eu e meus irmãos, a gente, “na nossa época não era assim, qualquer chance que a gente tinha de ir ali na esquina, a gente ia.” E aí, hoje ele é mais… Só que ele é muito caseiro também.
P1 - E você continua morando com seus... como é que foi a vida de vocês, né? Você continua morando com eles?
R - Eu continuei morando. Hoje, assim, eu tenho casa e tudo, mas hoje ela é alugada, né? Assim, por questões de convívio e eu nunca tive problema de convívio com meus pais. E por questão mesmo de financeiras, é muito melhor estar morando com eles. Eu tenho casa, mas a casa é alugada e tudo. Talvez quando meu filho for fazer ensino, estudar em Belém, aí talvez eu tenha algum em Belém com ele, tudo diferente. Ou ele more com a minha irmã. Mas assim, eu sempre convivei com meus pais, mesmo, nunca tive essa necessidade de sair de casa, assim. Até por todo o apoio, todo o suporte que a gente tem um com o outro.
01:22:03
P1 - Você teve outros relacionamentos depois?
R - Não, relacionamentos assim, muito... não. Muito sérios, assim, não.
P1 - E a vida social hoje, como é que é?
R - A vida social... Finais de semana, geralmente, ou eu vou em Belém, saio com a minha irmã, ou com meus amigos, mas assim, a saída é, às vezes, assistir um filme ou almoçar em algum restaurante diferente, conhecer uma cafeteria diferente com a minha irmã. E aqui na Vila, com os meus amigos mesmo, assim, de estar na casa um do outro, aquele churrasquinho de final de semana, ficar jogando conversa fora. Às vezes, sexta-feira, depois do horário, ou no domingo no finalzinho do dia. Assim, a vida é bem tranquila nesse sentido.
01:22:50
P1 - A cidade mudou muito, não mudou?
R - Mudou, mudou bastante. Hoje tem muito mais gente do que quando eu cheguei aqui. Tem muito mais movimento. Tem algumas opções a mais, mas a gente ainda prefere ir para Belém, para ir em um lugar diferente, comer uma comida diferente, um restaurante, às vezes, a gente vai e volta. Mas a cidade desenvolveu bastante, melhorou muito a qualidade de vida, questão de atividades ao ar livre, questão de acessos também, algo que aqui, por exemplo, a minha avó que a gente trouxe para cá, o médico consulta ela em casa, o médico do SUS vai lá em casa consultar, dá as guias de exame dela e tudo. Então, assim, é algo que a gente vê que Barcarena também evoluiu muito, nos últimos anos, nesse sentido de qualidade de vida, de acesso, tudo isso.
P1 - E você acha que também tem aí um legado da própria Alunorte?
R - Com certeza. Com certeza. Até nos trabalhos mesmos sociais que a gente faz, no trabalho voluntariado, que eu tive a oportunidade de trabalhar em alguns, a gente procura deixar essa marca.
P1 - Uma boa relação, né?
R - É, uma boa relação com a comunidade.
01:24:17
P1 Você tem ainda algum sonho, Lu?
R - Olha, hoje meu sonho é deixar de... no momento meu sonho é entrar na fila de transplante de rins. Mas não é algo que eu tenho aquela ansiedade, não é algo que eu... até porque eu consegui me adaptar muito bem e eu tô vivendo muito bem, não estou correndo nenhum risco. Mas hoje é poder voltar a viajar, fazer mais viagens e ter aquela independência da máquina. Um dia voltar a ter essa independência da máquina. Hoje o meu sonho atual é esse.
P1 - Então hoje a prioridade é saúde?
R - Hoje a minha prioridade é saúde. E saúde e a independência do meu filho, que ele está chegando naquela fase crítica, o que que eu faço, o que que eu não faço da minha vida. Então, são as minhas duas prioridades. Hoje o meu filho e a minha saúde.
1:25:08
P1 - E ele está encaminhando pra onde?
R - Olha, ele tem conversado muito comigo, ele tá cheio de dúvidas, assim, mas acho que ele vai pra área de tecnologia, alguma área, assim. Bem cheio de dúvida.
01:25:24
P1 - Então, para você, o que é fazer parte da história de 30 anos da Alunorte?
R - Olha... Essa é difícil. Acho que fazer parte, acho que… Na verdade hoje a Alunorte que faz parte da minha vida, né? De tudo que eu consegui construir graças a esse meu tempo aqui dentro. E fazer parte dessa história é algo que dá orgulho. Algum momento eu fiz a diferença, algum momento eu pude contribuir, saber que eu pude contribuir com uma parte desses 30 anos aqui dentro. Desde o começo da minha história aqui, lá em 2006, ainda desbravando muita dificuldade, muita área aí que não estava preparada. Então, acho que fazer parte dessa história traz muito orgulho, assim, e me deixa feliz, assim, saber que eu fui capaz de estar aqui dentro e de construir minha carreira aqui dentro, da forma que eu construí.
P1 - De ter crescido junto.
R - De ter crescido junto.
P1 - Como é que você se sente sabendo que tantas outras pessoas, a maioria mulher, indicou seu nome como alguém que precisava ser escutada para esse projeto?
R - Eu acho que sou uma pessoa bem acessível nesse sentido, assim. E uma vez até um feedback que eu recebi de um gestor meu, é que eu consegui entrar em todas as salas aqui dentro da Alunorte. Eu sou uma pessoa que eu consigo entrar na sala dos operadores, me comunicar com todo mundo, eu consigo entrar nas oficinas, eu consigo entrar aqui na 713 e conversar com todo mundo, eu consigo entrar na 71. Eu acho que essa minha... a curiosidade, esse meu acesso acaba facilitando muito essa comunicação. As pessoas, sempre têm alguém me perguntando, mandando uma mensagem. Pelo meu tempo de empresa, perguntando como é que faz isso, como faz aquilo. E aí, eu me sinto muito valorizada por isso. E saber que muita gente me indicou, eu fico lisonjeada com essa parte dessa minha história aqui dentro.
P1 - E não foi só porque você é muito boa tecnicamente, não é?
R - É, tem muito essa questão assim de ser uma pessoa acessível, eu acho que isso é muito importante. Você ser um profissional acessível, você poder compartilhar da sua história, gravar um pouquinho da sua experiência e tentar passar para o outro, ajudar o outro em um caminho. Então, acho que isso influencia muito nas relações aqui dentro.
01:28:12
P1 - E o que te mantém forte para te manter com esperança de seguir em frente?
R - Acho que o que me mantém forte são os sonhos que a gente tem, acho que é aquilo que a gente sabe que a gente pode. Hoje eu sei que eu posso muita coisa, mais do que eu sabia há 19 anos atrás. Então, assim, isso sempre me estimula a continuar, a me desenvolver, é algo que esses 19 anos que eu tô aqui dentro sempre fui desafiada a estar me desenvolvendo e sempre entendi, sempre vi que eu era capaz de estar nesse desenvolvimento.
01:28:57
P1 - Para além do trabalho.
R - Para além do trabalho também. E além do trabalho eu acho que os sonhos que a gente tem lá fora são o que mantém a gente firme e buscando sempre desafios e buscando um desenvolvimento.
P1 - É fé?
P1 - Fé. Fé é algo que... Assim, a fé é a certeza, né? E muita gente, assim, ficou muito preocupada… Por exemplo, quando eu comecei esse tratamento, muita gente se preocupou. E eu tava muito tranquila porque acho que a fé é a certeza. E eu sempre disse, “não, eu não vou morrer agora, gente. É só um desafio.” E eu acho que todo desafio que a gente passa, principalmente do lado pessoal, de saúde. É tudo para crescimento, é tudo para desenvolvimento. Então, acho que a fé que a gente precisa ter é entender que tudo, tudo que a gente passa é para crescimento, é para desenvolvimento, é porque você tem que tirar alguma coisa, alguma lição você tem que aprender sempre.
01:30:14
P1 - Você aprendeu muita coisa? Ta aprendendo?
R - Tô aprendendo muita coisa. Tô aprendendo a ter paciência. Muita paciência. Ter paciência e cuidar da saúde. Acho que é o que eu tô aprendendo no momento, lá fora, com a minha vida pessoal. E esse momento eu sei que é um momento que marca muito, né? Tudo que eu tô passando. Mas eu tô preparada pro que vem, pro que eu tô passando. Tem dias que não são fáceis, né? A gente sabe que tem dias ali que a gente quer que passe logo, que quer que aquele momento acabe, mas acho que é trabalhar essa paciência e entender que a gente está ali por algum motivo, que não é à toa. Ninguém passa por nada à toa, eu vejo isso. Ninguém tem um desafio à toa, tem sempre um aprendizado ali.
P1 - E aí, às vezes, imagino eu que quando a coisa não está muito fácil, você tem toda uma estrutura lá fora, como você contou.
R - Tenho, tenho. Tem dias que não são tão fáceis assim, mas é erguer a cabeça, conversar um pouco com minha mãe, com meu pai e tocar a vida. Eu tenho também amigos que super me apoiam assim, e não tenho do que reclamar nesse sentido, esse apoio que eu tenho.
01:13:39
P1 - Que bom. Como é que você se sentiu contando a sua história pra gente hoje?
R - Eu me senti bem. Eu pensei que eu não fosse gostar tanto, que eu sou uma pessoa mais discreta. Tanto que, como eu te falei, eu não tenho muita foto, não tenho muita filmagem, assim, até minhas redes sociais eu posto uma coisa um ano, aí depois de um ano eu posto alguma coisa porque eu gostei muito, mas não sou muito, assim, de estar falando muito de mim, assim, eu sempre gostei de ficar mais nos bastidores. E foi diferente pra mim esse momento aqui.
P1 - Você topou, né? Mesmo assim, você aceitou o convite.
R - Aceitei, aceitei porque conversaram bastante comigo, o Joel mesmo me ligou, olha, no dia do workshop, né? Ele disse, tu não tava... porque eu tinha um outro compromisso, por isso que eu não fui no dia. Então, assim, a Luzinete mesmo conversou comigo, então foi bem estimulado, bem recomendado.
P1 - Você tava nervosa?
R - Um pouquinho.
P1 - E agora?
R - Eu tô bem tranquila.
P1 - Que bom.
R - Obrigada, pessoal.
P1 - A gente que agradece. É interessante, imaginar que a tua história está sendo registrada.
R - É, é bem interessante.
P1 - Fico feliz.
R - Obrigada.
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