Entrevista de Guilherme Estevão
Entrevistado por Maurício Rodrigues Pinto (P1) e Ana Miranda (P2)
São Paulo, 12 de junho de 2026
Projeto Memórias do Futebol de Várzea
Entrevista MFV_HV004
Realização: Museu da Pessoa
Transcrita por Selma Paiva
Revisada por Anna Miranda
(00:21) P1 – Guilherme, mais uma vez te agradecer por você estar aqui, ter topado participar desse projeto Memórias do Futebol de Várzea e, para a gente iniciar, eu quero que você se apresente, falando seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R1 – Sou Guilherme Estevão Ferreira, nascido em 30 de novembro de 1986, no Hospital Plantadores de Cana, em Campos dos Goytacazes e é uma satisfação, agradecer ao Museu da Pessoa pelo convite. Vamos para cima do problema!
(00:50) p1 – E quais os nomes dos seus pais, Guilherme?
R1 – Meu pai é Carlos Augusto Simões Ferreira, ex-caminhoneiro, hoje aposentado e minha mãe é ex-professora, Vera Lúcia de Azevedo Estevão, porque o Ferreira ela abandonou do meu pai.
(01:04) P1 - E você pode falar um pouco da origem da sua família, de como vocês chegaram em Campos de Goytacazes?
R1 – Claro! A minha família é meio misturada de uma região de roça lá da chamada Cantagalo, onde vem a origem da família do meu pai. Meu pai é o filho caçula de cinco irmãos, que viu o pai ser assassinado dentro de casa, lá na comunidade e acho que ele cresceu muito com essa mágoa, revolta e teve que começar a trabalhar muito cedo, mas muito sustentado, cuidado pelos irmãos mais velhos. E até começar a trabalhar de diversas coisas, até chegar a ser caminhoneiro, durante 27, trinta anos e essas lembranças que eu tenho do meu pai, de andar na boleia do caminhão, de esperar três, quatro meses ele viajar carregando mármore ao redor do Brasil, para voltar para casa. Lembro também dele nunca ter tido uma relação muito boa com a minha mãe. Os melhores momentos sempre eram aqueles de muita dificuldade, por incrível que pareça. Esses são os momentos que eu guardo com mais carinho. O momento que a gente estava pior, financeiramente, mais mal, mais esquecido pela família, foram os momentos de maior felicidade nossa. Minha mãe é filha de uma mulher preta, que é filha de uma mulher indígena, uma mistura de raças muito grande, a vovó Joanita e ali deu origem a uma família de mulheres muito fortes. Até chegar a minha avó, Anita Carla de Azevedo, uma mulher que acorda cedo e não tem medo. Infelizmente ela morreu, infartou com 58 anos de idade, eu tenho essa lembrança clara na minha mente, mas a minha mãe estudou em escola pública a vida toda, na época que a escola pública tinha um paradigma diferente do que se tem hoje, em termos de ser a referência da cidade de interior, em Campos dos Goytacazes, a terra do chuvisco e minha mãe fez magistério, se preparou para ser professora de Português e Inglês. E o que eu me lembro, desde sempre, é estar na barra da saia da minha mãe, ajudando-a a preencher diário com caneta de ponta fina, a famosa esferográfica, e também dela sonhar da gente estudar onde a maioria das amigas dela trabalhavam, que era uma escola particular chamada Instituto Dom Bosco Salesiano de Campos, onde ela colocou primeiro eu e minha irmã para estudarmos, para que depois ela constasse o sonho de trabalhar lá e o tempo que a gente estudou, se ela trabalhasse, a gente pagava. E aí a gente se desfez de bastante coisa dentro de casa: geladeira, bens afins, para poder ter condição de pagar a escola, até de fato ela entrar no Salesiano e aí a nossa vida financeira, social, começar a melhorar um pouco. Então, são algumas das lembranças que eu tenho da minha origem e da origem da minha família, apesar de eu já morar vinte anos em São Paulo e as memórias, às vezes, vão ficando distantes, a gente vai esquecendo. Não diria esquecendo, mas fica meio em estado latente aquelas memórias que nos trouxeram até aqui, mas que, além de alegria, trazem sofrimento também.
(03:58) P1 – E você falou que tem uma irmã. Você tem mais irmãos, ou só vocês?
R’ – ‘Cara’, a gente é uma família criada onde meu avô tinha uma fábrica de colchão e depois dessa fábrica de colchão virou, os fundos do imóvel, os aquários onde meu avô criava peixe ornamental. Meu avô ficou conhecido no estado do Rio de Janeiro todo por vender peixe de aquário. Ele foi piloto de teco-teco. Tinha muita mulher na rua. Até hoje a gente tem tio, tia que a gente nunca conheceu. O que você perguntou, mesmo?
(04:31) P1 – Eu tinha perguntado de irmãos.
R1 – Irmão, beleza. Ah, porque eu lembrei do meu avô, que teve muito filho e minha mãe teve muito irmão, inclusive que ela não conheceu, mas a minha irmã de sangue direto é Mariana, que hoje é pastora de igreja e enfermeira. Tem Rafaela, que é filha da mulher do meu pai. E tem Carlos Vitor, que é um menino que minha madrinha, trabalhando na Saúde da Família, nesses programas, como enfermeira, trabalhava em uma comunidade chamada Tapera e aí uma menina de 18 para 19 anos tinha quatro, cinco filhos, mas o caçulinha era o que estava pior de saúde etc e ela, aos poucos, foi convencendo a menina e a menina deu o filho dela para a gente, o Carlos Vitor e a gente adotou, então por mais que seja primo, é criado como irmão. Eu tenho uma outra prima também criada como irmã, que hoje mora em Roma, na Itália, trabalhando com a parte de visagismo, make up, então de sangue só Mariana. De coração, vários. Irmãos da vida, que vale muito mais do que de sangue aí a gente ficaria até amanhã de manhã conversando, que são muitos.
(05:33) P1 – Qual que é a lembrança que você tem da casa onde você morou? Como é que era essa casa?
R1 – Era uma casa de fundos, que meu pai construiu com muito esforço, com a ajuda do meu avô, da minha avó, Valdemar e Anita e meu pai sendo o genro que vai morar naquele espaço onde foram construídas três casas, uma para cada irmã: Lucimera é a mais velha; Vera, que é a minha mãe, a do meio e Heloísa, que é minha madrinha mais nova. Então, todo mundo ali. E a lembrança que eu tenho é da minha avó passando roupa na varanda dos fundos, meu avô caindo de cima do tanque de aquário, porque já estava meio velhinho e queria cuidar de tudo e a minha casa, uma casa que foi construída com muito sacrifício e que logo começou a apresentar problema de infiltração, coisa assim, que deixou eu e minha irmã com muito problema respiratório, então a gente não dormia no nosso quarto, a gente dormia na sala e dali que a gente formou a maior parceria do mundo. Não tem pessoa que eu tenha mais orgulho na vida do que a minha irmã. Então, a lembrança da minha casa, principal: eu dormindo com minha irmã em dois colchonetes, na sala e sendo feliz, assistindo desenho, fazendo merda.
(06:46) P1 – Guilherme, quais eram as brincadeiras favoritas de infância?
R11 – ‘Cara’, brincadeira favorita de infância, eu esperava sempre os aniversários de família, porque minha família é muito criativa, então aquelas coisas de você pegar um presente surpresa dentro de um bolo de chantilly, esse tipo de coisa. Minha mãe foi animadora de festa nas horas vagas e a partir do momento que eu ganhei propriedade das inteligências, faculdades mentais, intelectuais, que eu era uma pessoa já que conseguia ir ao banheiro sozinha, eu ajudava minha mãe a animar festa, para ganhar um dinheiro extra, mas na rua é futebol, o tempo todo. Rua de cima contra a rua de baixo. Turf Clube contra Jóquei Clube, esse tipo de coisa. Pique e esconde, pipa, basquete. Aí eu fui ficando mais velho, fui me interessando por esportes que eu achava que eu ia bem, principalmente futebol e basquete, mas seguindo na ordem da vida, acho que foi dessa maneira, das festas de aniversário, das coisas da frente de casa, até tentar seguir a carreira no esporte, como se fosse uma brincadeira ainda.
(07:58) P1 – E você se lembra se tinha alguma coisa que você sonhava, o que você queria ser, quando crescesse?
R1 – ‘Cara’, eu queria... por incrível que pareça, eu nunca tive uma ideia do que eu queria ser: “Eu quero ser professor, piloto de avião, astronauta”. Pela distância que eu tinha do meu pai, quando eu era pequeno, no meu humilde entendimento da vida, o meu sonho era ser pai jovem. Eu com 11, 12 anos de idade já estava falando na pista: “’Cara’, quando eu crescer, nem quero crescer muito, mas quero ser pai logo”, porque talvez, dentro de mim, eu quisesse diminuir aquele abismo de distância que eu sentia de mim para o meu pai. Aí Jesus Cristo de Nazaré me ouviu, com 18 para 19 anos eu fui pai. (risos) Já estava fazendo ‘tchotchomery’ desde novo.
(08:45) P1 – (risos) A gente vai falar mais um pouco também sobre a questão da paternidade, mas eu queria que você falasse quais eram os lugares que você costumava jogar bola. Você falou que jogou bola na rua, mas que outros lugares você costumava jogar? Com quem você jogava, na sua infância?
R1 – legal. ‘Cara’, eu sempre fui um ‘cara’ multifacetado, de muitas tribos. Eu fui durante a minha vida toda , desde moleque, o ‘cara’ que era o elo entre as galeras que eu frequentava: a galera da escola, da rua, os playboys da rua de trás, os ‘quebradas’ da rua da frente e os lugares que eu praticava esporte, que eu jogava bola era na rua de casa, Rua Izaltino de Oliveira 265, depois no bairro de trás, que é Flamboyant, que já é o bairro dos ricaços, eles criaram uma pracinha e nessa pracinha tinha duas quadras redondas, então você me diz como é que a gente jogava bola em quadra redonda, está ‘ligado’? E também no Salesiano. Quando minha mãe foi trabalhar no Salesiano eu e a minha irmã ficava no rabo da saia da minha mãe o dia inteiro. Minha mãe dando aula e a gente passava o dia inteiro na escola, então eu me lembro muito das quadras, do campinho do Salesiano como os principais lugares que eu jogava bola, mas tinha um lugar que, para mim, era especial: o meu falecido tio Paulo, Paulinho do Cartório, do 12º Ofício lá, de Campos, foi o tio da família do meu pai que conseguiu atingir um patamar financeiro maior do que todo o restante da família, era tabelião de cartório. Começou limpando o chão. Ele tinha uma casa ‘da hora’. Com um quintal ‘mil grau’ de ardósia e lá eu e meu primo João Paulo jogava bola o dia inteiro, imitava Cavaleiro do Zodíaco, Shurato, Esquadrão Winspector, Jiraya, Jiban, tudo que você imaginar. Então, uma mistura de brincadeiras, que partiam do futebol, que eu guardo como uma lembrança maravilhosa, que eu queria voltar no tempo e fazer agora seria jogar bola no corredor da varanda da casa da minha tia Tânia e do meu tio Paulo. Era muito bom, ‘bicho’. Era bom demais.
(10:43) P1 – Qual que é a lembrança que você tem do Guilherme na escola?
R1 – ‘Cara’, eu tenho a lembrança de ser filho de professor. De ser tratado na escola como filho de professor. E não era filho de professor tipo Malhação, professor Pasqualete, aquela coisa. Era filho de professor, bolsista, que está tirando a vaga de alguém que paga. Essa é a minha lembrança. E na escola acho que era um pouco de tudo. A gente fazia projeto de língua estrangeira adaptando peças e filmes para falar em português, inglês e espanhol e a gente fazia auto-financiamento desses projetos e minha mãe que tomava conta. The Wolfman and the Clown, Footloose, uma série de livros e filmes. Mudança de Hábito. Então, as lembranças que eu tenho dessa época é da gente vendendo cachorro-quente, carne louca, para financiar o espetáculo. Então, o que eu guardo, assim, pô, fortemente, na minha vida, dessa época maravilhosa, que só tinha louco, ‘cara’. Só cresci com louco, naquela escola. Às vezes eu me pergunto como a gente está vivo até hoje. (risos)
(12:02) P1 – Nessa época de adolescência, juventude, o que você gostava de fazer, quando já estava fora do ambiente de escola?
R1 – Pô, fora do ambiente de escola gostava de jogar videogame, era paixão. Pegar o Ceasa-Santo Antônio, ou então o Sete, para poder ir para casa e chegar na hora dos Trapalhões, que era maravilhoso. Quem não gostava de chegar meio-dia? Quarentinha, já, meu irmão. Cara de 15, mas corpo de quarenta. E também está na ‘quebrada’, sabe? Vinha muita gente na frente da minha casa, me chamar, para brincar, para sair, para soltar pipa, para ir jogar fliper no outro bairro. Então, um pouco da minha vida fora da escola. Eu sempre fui um ‘cara’ meio... não diria tecnológico, mas sempre tive facilidade com videogame, com computador, mas não ficava preso nesse tipo de atividade, gostava de ir para a rua e só voltar para casa quando minha mãe gritava, ou quando a gente fazia alguma merda, quando saía na porrada, que não tinha como ficar na rua, mais. E uma outra coisa não menos importante do que essas era juntar o mínimo de dinheiro que a gente tinha, para comer algum lanche das esquinas, que no Rio chama podrão. Então, comer um lanche em Ulisses, ou no André, ou em Rafa Lanches, lá em Alcinede, na pracinha do Turf, era alguma das coisas que a gente fazia, fora do ambiente da escola, desde moleque. Eu sempre fui muito independente, desde quando eu me entendo por gente, porque a minha irmã mais nova, porra, eu fazia xixi sentado, para ensinar minha irmã fazer xixi, por exemplo. E eu tive que ser muito independente, porque meu pai sempre estava fora, até separar da minha mãe e se eu não fosse o homem da casa, quem seria? Então, eu me lembro de criar independência desde muito novo, por causa disso. Então, sempre estava na rua, fazendo alguma parada, sempre com a galera.
(13:51) P1 – Sim. E falando dessa relação com o futebol, para qual time você torce, que lembranças que você tem dessa fase de torcedor, de infância?
R1 – ‘Cara’, o primeiro time que eu torci foi o São Paulo, por incrível que pareça. Meu avô Valdemar e minha mãe me acordavam de madrugada também, desde molecote, para a gente assistir o São Paulo no Mundial, 1992, 1993 e principalmente assistir as lutas do Mike Tyson. Isso aí era, pô... e aí, quando o Casagrande foi jogar no Flamengo, cabeludo e tal, falei: “’Cara’, me apaixonei pelo Casagrande. A partir de hoje...”. Minha mãe é flamenguista e meu pai é botafoguense. A partir daquele dia eu me tornei flamenguista. Mas me tornei flamenguista em um tempo de ‘vacas magras’. Leovegildo Júnior Capacete voltando, já, para o Flamengo, mas depois de ganhar o título brasileiro o Flamengo entrando numa draga danada. Lembro muito do tricampeonato estadual em 1999, 2000 e 2001, com aquele gol do Petkovic, de falta, onde ele coloca no ângulo do Elton. Até começar a ser feliz de verdade com o Adriano Imperador e Petkovic, em 2009, quando o Palmeiras deixa o título pelo caminho e o Mengão é campeão brasileiro de 2009. Foi o primeiro grande título do Flamengo que eu vi na minha vida. São as lembranças que eu tenho, do Mengão. E de resenha de escola. Rafael Souza Neto vascaíno, Tiago Santiago botafoguense, Rafael Tijolo tricolor e aquela resenha desde moleque, muito baseado no futebol. O futebol era a bússola da vida. Eu acho que hoje continua sendo, depois de muito tempo.
(15:32) P1 – E pensando na carreira, como foi seguindo a sua formação e como você foi visualizando uma carreira para seguir, ou enfim, começar a trabalhar?
R1 – Essa pergunta é interessante, porque meu primeiro emprego foi com meu pai, que era salgadeiro, depois teve bar, borracharia no sul do Rio, em Mangaratiba. Conceição do Jacareí e tal, então minhas experiências foram com meu pai e ele sempre me demitia. Não era Gohan e Trunks, fusão, não tinha isso, era zoada a relação e com 16 para 17 anos eu comecei a trabalhar com meu tio Paulo, no cartório, como auxiliar de cartório. Então, foi minha primeira experiência profissional de verdade, como auxiliar de cartório. Depois trabalhei em campanha política, estou esperando o emprego lá do pessoal até hoje: “Não chegou, hein, galera, estou esperando até hoje”. Mas visualizar uma carreira no futebol ainda era um sonho muito distante, até eu terminar o ensino médio. Quando eu terminei o ensino médio eu e mais cinco, ou seis amigos fomos para a faculdade de Comunicação Social, com ênfase em jornalismo, que é a Fafic, Faculdade de Filosofia de Campos. Ali que o sonho começou a parecer que poderia ser real porque, ‘cara’, você morar no interior, eu não era de uma família pobre de marré marré, pobre de marré deci, mas a gente não tinha posse, dinheiro, está ‘ligado’? E tudo parecia muito distante. O sonho do futebol, de trabalhar com futebol. E aí a gente entrou na faculdade de jornalismo junto, para que aquele coletivo, aquela união que tinha na época da escola pudesse ser o pilar da nossa carreira, mesmo a gente sem saber que seria uma carreira, na faculdade. E aí, com um ano e meio de faculdade, eu descobri que eu fui pai, que eu seria pai. Aí eu vim para São Paulo e minha vida ‘restartou’ a partir do momento que eu fui pai muito novo e aí trabalhar com o futebol saiu do horizonte e, nesse período que eu comecei a minha carreira em São Paulo, eu comecei a ver a rapaziada com quem eu estudei pavimentando um caminho na área. Só que antes de eu fazer essa migração de vez para São Paulo, ainda no tempo de faculdade, eu fui recrutado por uma rádio FM da cidade e comecei a vender propaganda de rádio, lá em Campos. Vendi propaganda de rádio para loja de tinta; para essas gurus do amor, que trazem o seu amor em sete dias. Ela era procurada no estado do Rio todinho, eu recebi minha comissão, mas a propaganda caiu e mal sabia eu que duas décadas depois, praticamente, eu ia trabalhar justamente em rádio, com futebol. Mas naquele ato ali, de eu me tornar pai e abandonar, digamos assim, a faculdade, eu passei muito tempo distante do futebol e nem sonhando que o futebol poderia ser uma carreira. Eu comecei a trabalhar em uma faculdade em São Paulo, como office boy, então dava o horário da galera comer o pãozinho de manhã e de tarde, levar cartinha, sabe? Office boy, meu irmão. De tudo um pouco. Mas era dentro de um escritório, voltado para a área de Recursos Humanos. E foi aí que a minha vida profissional começou, mas não foi a que eu escolhi, foi a que foi apresentada para mim, devido a necessidade de cumprir as obrigações como pai de família.
(19:00) P1 – E a sua mudança para São Paulo está relacionada também com a paternidade?
R1 – Totalmente. Minha ex-esposa, que é a Maila, é de São Paulo, mas parte da família dela é do norte do Rio. Parte da capital, do Cordovil, que é ‘quebrada’, e parte lá na praia, que é distrito de um outro município, em um lugar de origem quilombola, um lugar maravilhoso, chamado Manguinhos, que é distrito de São Francisco do Itabapoana e a gente se conheceu molecote e ela foi a minha primeira namorada, primeiro amor e a gente, entre idas e vindas, chegou determinado momento que ela engravidou, eu falei: “Bom, chegou a hora de crescer”, aí eu ‘meti o pé’ para São Paulo, com quinhentos reais no bolso, sem saber para onde eu ia, só sabia que eu ia vir para São Paulo, morar na casa da minha sogra, para cuidar da minha filha e para a minha ex-esposa fazer Gastronomia na Hotec. Essa era minha meta: ser pai de família e tentar encontrar um emprego. E foi aí que algumas semanas depois eu encontrei uma vaga na Fiap e minha vida mudou completamente, porque ali eu fiquei mais de 15 anos.
(20:17) P1 – Você foi mudar para qual bairro, em São Paulo e como é que foi essa mudança, enfim, para uma cidade diferente de Campos? Como foi essa mudança cultural?
R1 – ‘Cara’, foi dificílimo! Da primeira vez que eu vim eu fiquei um mês e meio, fui embora, não aguentei, ‘meti o pé’ no meio da noite, falei: “Não aguento essa cidade, vou embora”. ‘Cara’, 2007 uma coca-cola, um refrigerante, era sete e cinquenta, sete reais. Com sete reais no Rio de Janeiro eu comprava um X-Tudo e a coca-cola. Então, eu achava um absurdo. Eu vim morar na Vila Madalena, na Rua Harmonia e era vizinho do João Gordo, dos VJs da MTV. Os ‘caras’ que eu via na TV eu via no meu bairro. Fernando Meligeni. Era loucura, irmão. Eu falei: “Isso aqui não é para mim”, mas eu, aos poucos, depois que eu voltei mais uma vez, logo após a queda do avião da TAM, em julho de 2007, eu voltei para São Paulo de vez e nunca mais fui embora. Aí comecei a tentar permanecer. E quando eu olho para trás nunca mais fui embora, estou aqui até hoje, Mauricião. (risos)
(21:25) P1 – Me conta um pouco dessa trajetória, que é de uma área que não era a que você visualizava, mas que foi apresentada e que você aproveitou uma oportunidade, que tem a ver com educação.
R1 – Legal. ‘Cara’, ter a ver com educação acho que é parte fundamental dessa equação, que é ser filho de professora e de viver sempre no ambiente escolar. Eu acredito muito em Deus, não sou o mais religioso do mundo, mas eu sei que, pô, ele é comigo. Então, não teria outro lugar para eu pavimentar a minha carreira em São Paulo, que não fosse na área de educação. Hoje é fácil falar, ser engenheiro de obra pronta é olhar para trás, mas na época eu não tive essa leitura, mas era o que estava acontecendo. E aí, estando como office boy, dentro da área de RH, no grupo educacional que estava crescendo exponencialmente, naturalmente as oportunidades apareceriam. E como eu te falei, para vocês, do Museu da Pessoa, algumas perguntas atrás, eu sempre tive facilidade com tecnologia e aí a faculdade era de tecnologia, que tinha um ensino técnico para informática, eletrônica etc e aí eu comecei a fazer prospecção e cadastro de currículo de profissionais da área de tecnologia, que davam ou poderiam dar aula. Aí minha carreira deslanchou, porque eu encontrei algumas pessoas ao redor que não me viram como profissional de RH para cuidar da gestão das pessoas, do bem-estar do ambiente de trabalho, me colocaram para ser um hunter, para buscar no mercado profissionais da área de tecnologia que a gente poderia, assim como a minha vida já estava estabelecida com o ‘bichinho’ da educação, que pica a gente e depois a doença não passa nunca, essa doença maravilhosa, de amar a educação, não passa nunca, não teria lugar melhor para eu trabalhar, que não fosse ali. E aí, meu irmão, antes da IA, do big data, de todas essas nomenclaturas, dessa nuvem de tags virarem realidade no mercado para que nós, usuários finais, pudéssemos ser protagonistas do uso dessa tecnologia, ela fosse de fato meio, para que a nossa vida fosse melhor e a gente seja mais humano, naquela época eu já estava fazendo isso. Então, a galera começou a olhar para mim e pensar assim: “Quem é esse moleque? Como é que ele consegue recrutar tanta gente, encontrar pessoas tão ligadas ao nosso DNA?”, como se fala dentro do jargão do RH e aí teve o ‘pulo do gato’, que foi o seguinte: naquela época, final dos anos 2000, ali, 2008, 2009, 2010 a gente teve o advento das plataformas digitais, de rede social. Os ‘caras’ conseguiram conceber uma tecnologia para uso final que estava na nossa mão, Facebook é prova disso e acho que é o Reid Hoffman, que é um dos criadores do LinkedIn, colocou o LinkedIn como uma plataforma de conexão profissional, baseada no contexto da rede social, de você ter ali a sua visibilidade, a sua marca pessoal dentro do ambiente digital. E eu fui, no Brasil, um dos precursores do uso do LinkedIn, para recrutamento de professores, executivos e profissionais da área de tecnologia, infraestrutura, programação. Qualquer caixinha da tecnologia que você imaginar, redes etc eu, com seis meses, um ano de recrutamento, sabia o que era camada OSI. A Anna que está aqui, deve lembrar o que é esse protocolo de rede, TCP/IP etc, então eu sempre fui muito nerd nesse sentido. Eu não sabia que eu era, mas eu sempre fui muito apaixonado por coisa nova. Muitas vezes eu fico empapuçado de fazer as mesmas coisas, sempre. Por isso que hoje a minha vida é maravilhosa, porque eu estou sempre envolvido com alguma coisa diferente. Mas o ‘pulo do gato’ acho que foi esse, naquela época: usar uma ferramenta digital no mundo analógico, para recrutar professores para dar aula de tecnologia, o que parecia uma coisa inconcebível para a época e o LinkedIn ‘bateu o fio’ lá na Fiap e falou: “Sabe esse moleque aí? Ele é um dos principais usuários nossos no Brasil e no mundo, nós estamos indo para o Brasil abrir o escritório, eu vou dar uma licença para vocês, que eu cobro vinte, vinte e cinco mil dólares de empresas ao redor do mundo, vocês usem em caráter piloto, ele vai ajudar vocês a provar que esse mecanismo de recrutamento vale o investimento”, que o RH sempre ficou para o final da fila dos investimentos das empresas e ali eu dei uma decolada na carreira, na parte financeira, casei, só que eu separei, depois, mas foi o estilingue ali, da minha vida profissional, foi isso.
(25:57) P1 - Quanto tempo você ficou nessa área de tecnologia e de recrutamento, RH e depois quanto tempo ficou, depois dessa virada para você encontrar essa relação com a comunicação, voltada para o futebol?
R1 – Legal. A minha relação com a comunicação começou a se dar nesse período, quando eu comecei a ser convidado para dar palestras em nome da Fiap e do LinkedIn. Então, eu comecei a frequentar hotéis caros, centros de convenção, empresas. Comecei a dar palestra, mostrando ipsis litteris ali como eu fazia para recrutar essa galera dentro do LinkedIn e eu fiz isso por oito anos, de 2007 até final de 2014 e de 2014 para 2015 a Fiap reestruturou a área de relacionamento com o mercado e ali eu fui convidado, ao invés de atrair talentos para dentro de uma faculdade, para levar os talentos formados pela faculdade para o mercado de trabalho e, nesse momento, eu comecei a aprender a desenhar, planejar e principalmente entregar, que eu gosto muito da parte de execução, projetos de inovação de recrutamento voltados para levar profissionais de tecnologia para o mercado de trabalho e foi quando começou os Hackathons no Brasil, a mistura da palavra hacker com marathon, então a maratona de hackers, que está muito bem estereotipada naquele filme, A Rede Social, que mostra o surgimento do Facebook. Aquelas maratonas de programação, para eles contratarem os programadores mais ‘fodas’ da faculdade, na época, justamente para criar os nós, as linhas de programação que deram origem ao Facebook. Então, eu comecei a organizar, a vender esses projetos para o mercado corporativo e depois dos oito anos de RH eu passei sete anos e meio vendendo projetos de treinamento, de recrutamento e inovação para o mercado, para marcas, para as empresas e aí trabalhei para tudo que é empresa que você imaginar, irmão. Nesse processo eu trabalhei para um time de futebol, através de uma consultoria de TI. Eu trabalhei através da Everymind, para o Orlando City e nós criamos um projeto que levaria o grupo vencedor a fazer uma imersão e ganhar uma viagem para visitar o CT do Orlando, para conhecê-lo. Os ‘caras’ inventaram uma band que, a partir da vibração dos torcedores usando-a na arquibancada, ia gerando pontos para a Fundação Orlando City e as pessoas poderiam trocar aquilo por benfeitorias para a comunidade, do ponto de vista social. E a parte social foi uma área que eu me enveredei anos depois, mas já estava fazendo aquilo sem saber. Eu sou o tipo do ‘cara’ e acho que o ser humano, às vezes, é assim, irmão, acho que até a humanidade é assim, sei lá, escolas literárias, escolas artísticas têm que construir o seu legado, para depois ele ser reconhecido. Acho que a nossa vida não é diferente, que às vezes a gente não sabe para onde está indo, mas a gente está indo. Depois que passa um tempo, que a gente olha para trás e sabe que estava, de fato, fazendo. E aí a parte de comunicação e a religação, digamos assim, com o futebol se deu através desses projetos e porque a faculdade também, em determinado momento, patrocinou a barra da camisa do São Paulo. E como eu trabalhava na área de relacionamento com o mercado, prospecção de empresa, a gente passou a usar, através do clube de negócios lá do WTC, na zona sul, no Hilton, mapear executivos da área de tecnologia através do clube de negócios e do LinkedIn, que torciam para o São Paulo, para ‘pelar o saco’ dos ‘caras’ e levar os ‘caras’ para o camarote, para assistirem jogos do São Paulo, show do Rolling Stones. O São Paulo chegou na semifinal da Liberta daquele ano, contra o Atlético Nacional, que foi campeão da Liberta, com o Reinaldo Rueda, Berrio, Guerra, todos esses jogadores e foi assim que eu me reconectei com o futebol, ainda trabalhando no mercado corporativo.
(29:56) P1 – Então, é uma reconexão com esse futebol mais espetacularizado, dos grandes clubes?
R1 – Isso.
(30:03) P1 – E aí, conta como foi, então, enfim, essa nova carreira que você vai iniciando, de reaproximação com esse meio do futebol.
R’ – ‘Cara’, dentro do Morumbi, na época trabalhando, levando executivos para o camarote, eu convidei muita gente, que eu nunca vi na vida: “Estevão, eu preciso levar quatro executivos da Samsung, que colocam telão de led nos estádios” “Venha” “Eu preciso levar Manezinho das Couves, que trabalha, mas é tricolor” “Venha” “O ‘cara’ da Werás, por causa disso e daquilo” “Venha”. E assim, através dessa disponibilidade de levar pessoas para ter essa experiência através da Fiap, no camarote, alguém, até hoje eu não sei quem é, acho que foi meu compadre Ricardo Fortes, falou para uma pessoa que foi convidada, assim: “Sabe aquele garoto ali, que fez intermédio para essa rapaziada vir aqui, no camarote? O sonho dele, ele não sabe, ele comenta pouco, mas é trabalhar com futebol”. Aí os ‘caras’ me chamaram para fazer o jogo, como convidado, da estreia do campeonato brasileiro de 2016, vencido pelo Palmeiras, com Gabriel Jesus e Dudu ‘Graças a Deus’, jogando muita bola e eu comentei esse jogo, que era para ser no sábado e falei: “’Cara’, não posso ir”. Olha só como eram as coisas! O ‘cara’ me chamou para comentar o jogo no sábado e eu falei: “Não posso ir, porque eu tenho jogo do meu time”. Eu tinha um time de várzea lá no Imirim, aqui em São Paulo. E aí eu fui no domingo, era Corinthians e Grêmio, empate, 1 a 1, se eu não me engano, foi o jogo de estreia do Bolãnos, pelo Grêmio e foi o último jogo do Tite pelo Corinthians, antes dele assumir a Seleção Brasileira. ‘Cara’, eu cheguei lá, irmão, tinha um banco para mim, retorno, os ‘caras’ me levaram, me ciceronearam na Neo Química Arena, me levaram na coletiva e eu estava ali, dando os primeiros passos de algo que se transformou hoje na minha vida, mas eu não sabia.
(32:06) P1 – Então, ali foi um teste, uma espécie de uma experiência, enquanto você trabalhava fazendo esse trabalho de gravações institucionais, ainda na Fiap. E você falou que já jogava futebol de várzea.
R1 – Jogava, mas como bom carioca, bom campista, no Rio a gente não fala várzea. Várzea é um termo de São Paulo, de Minas, onde você tem cidades construídas em cima de rios que margeavam a cidade e os campos ficavam na várzea, na beira desses rios, por assim dizer. Daí que vem o termo várzea, acredito eu. Vocês são pesquisadores, devem saber bem melhor do que eu essa parada.
(32:49) P1 – É regional daqui. Mas para você, como você chamava?
R1 – Tinha um time de futebol, Unidos do Imirim. Eu era um dos que ganhavam melhor, na época. Banquei um monte de ‘pé de rato’. “Você que me deve até hoje, faz o Pix, moleque”. Então, a gente sustentava esse time aí. E daí que começou um processo paralelo à minha carreira no mundo corporativo, que foi: quando os ‘caras’ da Web Radio me viram comentar o jogo a primeira vez eles falaram: “Daqui você não sai mais”. E quando eu olhei para eles, eu falei: “Eu não sei se eu quero ficar aqui”, porque eu não gostava... e vindo da Fiap, que é uma faculdade de tecnologia, inovação e empreendedorismo muito baseada na estética, no design, que monta a casca, o envelope das coisas de uma maneira primorosa. O dono da Fiap, o Gustavo Gennari, é gênio para isso, ele sabe envelopar bem os produtos educacionais que ele tem. Não obstante, como diria a minha professora de Português Ivana, a faculdade foi comprada por milhões e milhões de reais, mas ali, quando eu olhei para Voz do Esporte, eu falei: “Eu posso agregar aqui” e, na época, eu tinha recebido uma proposta para ir para um concorrente da Fiap a Fiap falou: “Daqui você não sai, também. Eu vou te mandar embora, vou te pagar todos os seus direitos, para você, pela primeira vez na vida, depois que você se tornou pai, ter uma noite de sono tranquila, porque eu era ‘zoado de grana’ e aí eles me deram essa condição e me recontrataram como PJ, com um salário que, para mim, na época, eu falei: “Meu irmão, eu vou comprar carro do ano, uma casa”. Não comprei nada, viu, rapaziada? Mas foi essa vida paralela do futebol e aí eu comecei a pegar os conhecimentos que eu tinha na Fiap, de negócio, de empreendedorismo, de design e levar para dentro da Web Radio, me tornar praticamente sócio e transformar a parada. No segundo turno do campeonato brasileiro de 2017 a gente começou a fazer lives no Facebook. A primeira live a gente teve noventa mil visualizações. Três, quatro meses depois, nos principais jogos do campeonato, a gente teve setecentos e cinquenta mil visualizações dentro do Facebook e era um mecanismo muito arcaico, que era pegar o link da transmissão e sair distribuindo nos grupos afins ao tema daquele jogo, aos times, aos jogadores, ao futebol e isso viralizou, na época. Tanto é que depois de alguns anos o Facebook criou um produto chamado Facebook Live, que hoje nem existe mais, mas a gente estava também na vanguarda de todo esse processo. Eu estava tocando a minha vida no mercado corporativo e aí, envolvido com o futebol, a cada final de semana, a cada meio de semana, equilibrando esses pratos e colocando dinheiro do meu próprio bolso em um sonho que estava sendo revivido dentro de mim, na prática.
(35:47) P1 - Quando que você toma a decisão: “Vou investir de vez nesse sonho”, abandonar um pouco essa segurança que você tinha no mercado corporativo, para investir de vez e se dedicar e como foi esse momento de dedicação?
R1 – ‘Cara’, isso aconteceu muitos anos depois, porque eu fiquei na Web Radio três anos, tive um problema pessoal com um dos ‘caras’ que punha a parte técnica lá, eu achava que ele tratava mal a equipe, que as pessoas que tinham, de repente, um problema de dicção, que não usavam bem uma concordância verbal e nominal, para esse ‘cara’, um abraço, Rubens Santos, mais conhecido como Priscila, da TV Colosso, um dos maiores ‘pernas’ que tem no mercado de São Paulo, eu falo isso com a maior tranquilidade, porque é verdade, eu não gostava da maneira como ele tratava a galera e eu comecei a tratar a galera como eu achava que deveria ser tratada e o negócio começou a fluir. Só que quando eu tive esse problema pessoal com ele eu saí da Voz do Esporte, completamente e fiquei quatro anos e meio, quase cinco, distante do futebol, sem futebol na minha vida. Comecei a pegar essa valorização que eu recebi na Fiap, financeira, profissional e comecei a investir na minha família, viajar, adquirir, comprar um carro, morar em uma casa melhor, ter um videogame melhor, pagar tudo que estava relacionado à vida do meu pai: plano de saúde. Meu pai: “É isso, meu filho; é isso, meu filho; é isso, meu filho; é isso, meu filho”. Banquei meu pai durante bastante tempo. Só que logo após a pandemia, um ano, um ano e pouco depois da pandemia eu recebi uma proposta, eu não estava mais tão contente assim depois de 15 anos na Fiap, aquela coisa toda e eu recebi uma proposta para estruturar uma área de relacionamento com o mercado, também, em uma startup chamada Rocketseat, que foi comprada por um grupo Riverwood, Kaszek e por uma empresa chamada Digital House, da Argentina. Eu fui para lá, para estruturar isso. E quando eu pedi demissão da Fiap eu peguei tesão por pedir demissão. Por quê? Porque o mundo corporativo já não era mais meu mundo. Aí foram anos se passando, os projetos sociais que eu desenvolvi foram ganhando corpo, virando empresa, a galera começou a ganhar dinheiro. Autistas protagonistas da própria vida, porque eu era muito envolvido dentro da causa da neurodiversidade etc e aí eu fui ficando, de um ano a um ano e meio, nas empresas, depois que eu pedi demissão da Fiap, até chegar em uma ONG, também ligada a um fundo argentino e que teve um dia que eu falei assim: “’Mano’, eu não quero mais” e ali, dessa coisa que se construiu dentro de mim, de assumir o risco de pedir demissão sem saber o que seria do dia seguinte, eu pedi demissão em um dia e no outro dia eu comecei a me dedicar 1000% do meu tempo para o futebol e aí começaram a aparecer oportunidades de trabalho reais, que pudessem não equiparar financeiramente o que eu tinha antes, mas me mostrar que o risco que eu assumi ia diminuindo com o tempo, porque meu caminho no mundo do futebol estava escrito, eu que só não tinha mergulhado de cabeça nesse livro ainda.
(39:09) P1 - Qual foi esse momento, essa oportunidade que surge, que te possibilita querer pavimentar esse caminho? Queria que você falasse um pouco qual foi essa oportunidade que você...
R1 – Foi participar de um programa chamado Samba Gol, na Transcontinental FM, uma rádio de massa, 104.7, Brasil em primeiro lugar e, depois de 43 anos de história da rádio, o ‘seu’ Cid, o Ricardinho e o Cidinho toparam, junto com algumas outras pessoas, criar um programa de resenha futebolística na grade da Transcontinental, no período noturno, meio que no contraturno da rádio que, naquele momento, ia entregar para a Voz do Brasil, que era uma lacuna de tempo meio perdida, sem tanta audiência e ali a Transcontinental criou um programa chamado Samba Gol, com Valmir Pretão; com o Sérgio, goleiro do Palmeiras, carinhosamente conhecido nos bastidores como Canela de Defunto, porque ele só anda de calça Capri e a canela dele realmente parece canela de quem acabou falecendo no mar, afogado; Leandro Guerreiro; Edilson Capetinha, só ‘pica’.
(40:17) P1 – Esse programa foi quando, que começou?
R1 – Agosto de 2023. Eu fui chamado para participar pontualmente, como um personagem flamenguista e aí, assim como aconteceu na época do RH, de recrutamento; na Web Radio, em outros tantos momentos da minha vida, os ‘caras’ bateram o olho em mim e falaram: “Meu irmão, você tem tudo a ver com o programa” e aí eu comecei a participar, participar, participar, participar, participar, até ser contratado efetivamente e o que eles me pagam era metade do que eu recebia do mercado corporativo. Eu só trabalhava no período da noite. Aí eu pensei: “Bom, agora, se eu sair do mercado corporativo, eu tenho o dia inteiro, como se fosse o horário comercial, para gerar uma outra renda”, aí eu ‘meti o pé’.
(41:04) P1 – E como que a cobertura de várzea surge, na sua vida? Primeiro eu queria perguntar, antes disso, se nesse intervalo que você mencionou nesse período que você ficou distante do universo de futebol, você se manteve jogando?
R1 – Não. Aí eu não jogava mais. Já não tinha mais time. Eu sou um ‘cara’, irmão, que eu me transformo dentro de um campo de futebol. Me transformo. Eu viro Super Saiyajin nível 4. Eu brigo com a minha mãe dentro do campo, dou uma rasteira na minha mãe dentro de um campo de futebol. E que é, eu acho, uma certa revolta da vida, que eu conseguia extravasar dentro do campo. E eu comecei a ficar cansado de criar inimizade São Paulo afora. Eu briguei com muita gente dentro de campo de futebol jogando em Liga, que é uma várzea, digamos assim, invisível que é a rapaziada que se junta, de amizade, para jogar e tal, no festival, marcar amistoso em uma Liga e tal, mas jogar, de fato, eu já não jogava mais. E aí, quando eu entrei na Transcontinental, tinha um ‘cara’ que tinha um boletim, lá - que é o Adilson, narrador, narra jogos do Santos, narra várzea – de várzea dentro do Samba Gol, mas eu era juvenil ainda, no Samba Gol, era faixa branca. Eu não tinha ainda a conexão e a dimensão da várzea dentro do Samba Gol, que era o passo seguinte à minha vida pregressa no mercado corporativo. E ele, em 2023, sorteou ingressos na rádio para uma final de jogo de várzea dentro do Allianz Parque. Eu só me lembro de pensar assim: “Irmão, como é que pode um jogo de várzea...” e aí eu não tinha ainda, não concebia o que estava dentro da palavra várzea, não sabia que era esse multiverso que se transformaria minha vida. Eu só sabia que dois times de várzea iam fazer a final dentro do Allianz Parque. Os dois times eram MEC e ASA. O MEC foi campeão dentro do Allianz Parque e a competição era a Super Copa Pioneer. O que aconteceu? Um ano depois que eu entrei na Transcontinental um amigo que eu trabalhei, narrador, lá na Web Radio, Voz de Esporte, lá atrás, como eu comentei para vocês, sempre narrou na várzea, sempre foi considerado a voz da várzea, o Galvão Bueno da várzea, que é o Ron Borges, Cabeça de Saturno, uma das maiores cabeças do futebol varzeano, literalmente. Inclusive, as camisetas de várzea que são feitas para ele são sob encomenda, que para passar na cabeça dele só fazendo à mão a parada. É, realmente, desafia as leis da física, tamanha moringa que ele tem. E ele falou assim: “Estevão, fechei com a Rádio Craque Neto, para transmitir a Pioneer”. Eu sabia o que era Rádio Craque Neto, porque um amigo meu trabalhava lá, o Rafael Jacobucci, que hoje está no meu timão. “Um beijo, Jaco, eu te amo”, mas não sabia o que era Pioneer, a várzea, em si. Ele falou: “Estevão, vem aqui no Doroteia tal dia, tal hora, que eu vou te mostrar os bastidores” e ele já tinha fechado com Sérgio Pioneer, o dono da Copa Pioneer, ex-presidente do Pioneer, que foi campeão da Copa Kaiser em 2010, da Kaiser São Paulo e da Kaiser Brasil. Em 2016 o Sérgio Pioneer cria a Super Copa Pioneer, que ocupa uma lacuna deixada pela Copa Kaiser, cujo último ano de Copa Kaiser foi em 2014, o campeão foi o Nove de Julho. A Pioneer assume, então, essa lacuna de protagonismo como a principal ‘Copa de várzea de São Paulo’ e o Ron narrando, fazendo negócios, desde narrar em caixa de som, ele já tinha me levado para narrar em caixa de som em jogos corporativos do Marcos Assunção, lá em Caieiras, com o Fá, com o Nunes, com a rapaziada de Ourinhos, jogadores de futebol oriundos de Caieiras, já tinha tido experiência lá, mas era jogo festivo, irmão. E aí o Ron fala: “Vem na Pioneer, que eu vou te mostrar os bastidores”. Quando eu chego lá, eu chego meio em cima da hora, porque eu fui conhecer. Quando eu chego lá e ‘boto’ o pé, a Giovanna de Biase, esposa do Felipe Garraffa, da Bandeirantes, eles têm uma produtora chamada Bora pro Game, me paramenta, ‘cara’, coloca retorno, igual a rapaziada aqui fez comigo na hora que eu cheguei, colocou microfone, me deu uma camiseta atochada, assim, parecia a calça do Zezé di Camargo, eu falei: “Não. O que você está fazendo?” “Não, o Ron falou que você vai trabalhar”. Então, eu fui chamado para conhecer os bastidores, quando eu pisei no Doroteia, que é o campo que dá todo o charme para a Copa Pioneer, o coração da Pioneer é feito dentro do CDC [Clube da Comunidade] Doroteia e tem uma importância muito grande, porque é um campo que era terrão e que políticos como Silvão Leite, o Toninho Mitra, como outros ‘caras’ foram, através de emendas parlamentares, dos gatilhos de lei, reformando esses espaços, tapetando esses espaços e o que era antes um campo para o helicóptero pousar para prender bandido, para levar ferido e que fazia a várzea sangrar, porque aqueles helicópteros, aquelas situações aconteciam dentro de um campo de várzea e a várzea era mais marginalizada ainda do que era. Eu fui ter esse entendimento anos depois, mas quando eu cheguei, no primeiro dia, cheguei para conhecer, não cheguei para trabalhar, só que ela, quando me paramentou de repórter, o Ron olhou na minha cara e falou: “Faz seu nome, garoto!” e aí minha vida na várzea começou.
(46:34) P1 – Antes de você falar mais desse início da várzea aí, fazendo essa cobertura, você faz tudo, como eu já vi, eu queria que você falasse um pouco, primeiro te perguntar qual era a posição que você jogava futebol de campo.
R1 – ‘Cara’, eu comecei como lateral esquerdo, mas depois que eu passei a ter o meu próprio time obviamente eu fui para o ataque. Então, sempre joguei de atacante. Mas tem que estar vendo, porque eu não sou um dos melhores, não.
(47:00) P1 – E queria te perguntar de alguma experiência marcante que você tenha vivido jogando bola, na várzea? Você falou desse perfil combativo em campo e tal, se você tem alguma história que você considera marcante jogando.
R1 – Tenho. Tem um momento ‘da hora’, muito legal, que é: na época que eu trabalhava na Fiap e eu ia para esses démodés, apresentações de startups para fundos de investimento etc e tal, em um desses eventos eu conheci um ‘cara’ que era consultor estratégico da Porsche, que era o Camilo Martins e a vontade dele era criar um espécie de leilão que vendesse assentos ociosos dentro de estádios e arenas. Amizade nossa começou conversando sobre isso. Dois meses depois a gente estava organizando o futebol de final de semana, amador, de várzea, de amigos, mas que só era representado por startups. Então, o Nubank antes de ser Nubank; empresas como a CA Technologies; Tapps Games se reuniam, para pegar os nerds e levarem para um campo de futebol de final de semana, para jogar bola e a gente organizava esse futebol. E esse futebol foi crescendo. No primeiro futebol ele ficou ‘puto’ comigo, que eu levei meu cunhado, meu amigo, o ‘nóia’ da rua de trás, o parente do parente do parente da rua da frente, o ‘cacete a quatro’ e a parada ganhou tanto corpo, que a gente começou a fazer esse futebol, tinha oitenta, noventa, cem pessoas, irmão. Oito, dez, doze times. Isso se transformou em um campeonato. Um desses campeonatos, aquela galera do time que eu tinha, lá do Imirim, Unidos do Imirim, ganhou o campeonato, com o Estevão jogando bem, muito bem. Eu tenho um troféu na minha casa até hoje. Então, esse momento é prazeroso.
(48:53) P1 – Qual que é o nome do campeonato?
R1 – Era MVP League. Minimum Viable Product em inglês, Produto Mínimo Viável, porque tinha a ver com esse mundo das startups, não das startups gourmets, dessa coisa que se fala como se empreender no Brasil fosse fácil. O negócio, no brasil, hoje, morre antes de nascer. Mas na época a gente trabalhava com uma galera que estava no front das áreas de tecnologia dessas startups. E o negócio cresceu tanto, que se transformou em uma campeonato e um desses a gente conseguiu ganhar.
(49:25) P1 – Eu queria que você falasse desse momento. Você contou um pouco do pré, que você chegou despreparado, mas: “Você vai ser o repórter de campo aqui, vai fazer cobertura no Doroteia, tal”. Como é que foi? Que lembrança você tem da cobertura que você fez aquele dia e como foi para sua carreira?
R1 – ‘Cara’, foi assustador. Eu nunca tinha reportado na minha vida. Todas as experiências anteriores que eu tive com o futebol profissional tinha sido como comentarista: análise tática, estatística, número, usar o número para dar o contexto para o futebol, sempre gostei muito do PVC e foi assustador, porque eu não sabia que eu sabia reportar. Então, eu comecei a reportar ali e justamente o repórter que foi minha dupla nessa primeira cobertura foi o Rafael Jacobucci, que é um ‘cara’ que eu já tinha trabalhado anos atrás. Então, ele foi o meu pilar de segurança e ele tinha todas as informações, me passou muita coisa. Eu fiquei com um time, ele ficou com o outro. Acho que eu fiquei com o Pau no Gato, da Fazendinha e ele ficou com o Ipanema, de Caieiras. Aí eu fui passando as informações, fui pegando o jeito, fui imitando, emulando dentro da minha realidade o que eu achava de bom no Jacobucci, eu o acho tudo de bom, então pegava o que eu achava de melhor nele e traduzia com a minha linguagem, mas foi assustador. Eu não gosto de ver nada do que eu faço. Provavelmente essa entrevista aqui, para o Museu da Pessoa, eu não vou ver, mas do que eu vi daquela época eu me achava mal, que nem um robozinho, sabe? Colocando o braço na frente do patrocinador da Copa, coisas assim, que depois eu fui aprendendo e lapidando, fazendo um ajuste fino dessa posição de repórter e comecei a olhar o futebol, não mais como torcedor do Flamengo, não mais como comentarista iniciante, que recebeu uma oportunidade, de uma das melhores rádios e maiores de São Paulo, mas eu fui dando a minha impressão, a minha assinatura no meu trabalho. Mas não assinatura, aquela coisa egóica, de vaidade: “O Estevão tem esse jeito”. Não, meu jeito é esse aqui, do jeito que vocês viram, do jeito que eu cheguei, eu sou até agora, sou assim em qualquer lugar. E eu consegui transportar esse meu jeito para reportagem. Aí a parada fluiu. Eu comecei a ser benquisto, bem recebido dentro do mundo do futebol varzeano, mesmo não tendo a mínima noção de quem era o presidente daquele time, se aquele time tinha ligação X, Y, Z com tal bairro, tal comunidade, tal história, tal pessoa, tal torcida. Não sabia nada. Eu fui literalmente, como se fala, me jogaram lá de Boituva [cidade no interior de São Paulo conhecida pelo balonismo e paraquedismo], do teco-teco e falaram: ‘Estevão, vê se o paraquedas abre”. Aí eu estou tentando abrir o paraquedas até hoje.
(52:19) P1 – Estevão, você tinha uma bagagem, uma vivência muito desse futebol mais espetacularizado, já tinha feito cobertura. Como é o cenário da várzea que você vai se deparar, essa realidade e como foi ir se ambientando nesse ambiente, nesse universo?
R1 – ‘Cara’, ir me ambientando não foi tão difícil, porque eu sempre estava no mesmo local trabalhando, dentro do Doroteia. Então, você estar sempre dentro do mesmo local é mais fácil de você criar o seu guard rail ali, sua área de confiança. Eu sempre fui muito estudioso, então tudo que eu aprendi lá atrás, de ser muito nerd, de mergulhar muito em número, de ficar até... de ser uma coisa muito densa, até muito chata, eu lapidei isso para o futebol de várzea, que é uma coisa muito mais dinâmica e com uma proximidade maior com a torcida. Então, essa foi a primeira fase. E, depois, a segunda fase foi entender quem é quem no bilhar e no dominó, quem são os personagens aqui, como eu falo com a torcida, quem são as referências e aí algumas pessoas que já eram muito bem sedimentadas na várzea começaram a admirar o meu trabalho e expor isso publicamente, como o próprio Ron Borges, que me levou; como o Mário André, do Várzea ao Vivo e o Papi Coisa Linda também, que hoje está na CazéTV. Então, foram pessoas que foram, de alguma maneira, credibilizando o meu trabalho à medida que ele foi acontecendo e obviamente os próprios times, os treinadores viam meus comentários, a maneira como eu enxergava o futebol varzeano, trazendo daquele futebol espetacularizado do futebol profissional as análises do jogo de campo e bola que eu fazia lá, eu faço, desde aquele momento, na várzea e isso me deu essa ambientação. Cheguei na lua, não pisei, mas depois que esse reconhecimento veio eu comecei a ‘botar’ o pé no chão e a pisar nesse grande planeta, nessa grande lua, que é o futebol varzeano.
(54:27) P1 – Eu queria que você falasse como é fazer essa cobertura jornalística, que é um pouco, também, de ser repórter, ser comentarista. Como é que essa experiência de fazer essa cobertura, para quem você dirige.
R1 – Legal. ‘Cara’, fazer a cobertura tem dois lados da moeda. O lado da moeda que se assemelha ao que eu vivia na Web Radio há dez anos, que é você chegar cedo, montar equipamento, que nem vocês fizeram aqui, ver se está tudo certo, se o link está funcionando, se a internet está ‘da hora’. Chega no meio da live a internet cai e o coração palpita. Trabalhei e vários estádios de São Paulo, viajei para o interior, para outros estados, fiz final de Copa do Brasil, fiz eliminatória, tudo que você imaginar, tenho mais de cento e cinquenta jogos no futebol profissional e aprendi muito durante esse tempo. Então, o lado da moeda da parte operacional da transmissão eu não tive tanta dificuldade, aquilo ali estava próximo para mim. O que não estava próximo para mim era o outro lado da moeda, que era ter um profundo conhecimento dos times, Copas e jogadores, que eu fui desenvolvendo com o tempo. E a partir do momento que eu aprendi que eu precisaria ter uma linguagem na internet, para desdobrar o meu trabalho, ou seja no Instagram, fazer um vídeo com uma coletânea de determinador jogador, determinado perfil, fazer uma análise tática de lances que originaram gols, que dão um determinado reconhecimento de padrão para a Copa, para aquele grupo, para aquele time, para aquele jogador, ali eu falei: “Meu irmão, falar para você: eu tenho prazer de fazer essa parada”. Hoje, se me mandar montar um plano de negócios ou participar de uma conference call, você vai igual: “Cadê o baiano? Não dá na cara, não, para não estragar o velório”. Vou me sentir assim, igual ao baiano quando o 01 chega lá, em cima do morro, para pegá-lo. Agora, se você me der dez vídeos para eu editar em um dia, fazer em um dia, para eu gravar, recortar, animar, editar, que foi um outro conhecimento que eu adquiri paralelamente, do espírito do editor/produtor, que é repórter, que é comentarista, que é apresentador, mas que não é pato, que faz de tudo um pouco, mas não faz nada bem. Eu consegui agregar em todas essas funções, mas acredito que o que eu faço melhor hoje é comentar e reportar, tanto no futebol varzeano, quanto nas oportunidades que eu tenho, de profissional, comecei a ir para o futsal profissional também, para o futsal varzeano, veterano. Até inauguração de CDC [Clubes da Comunidade], para a rapaziada que te paga um cachê simbólico e não sabe o que fazer, para te agradar. Aí eu virei o Estevão da várzea.
(57:18) P1 – Você falou que você começou indo tendo um lugar de referência, o Doroteia. Como é que foi esse processo de descobrir esses outros campos de várzea tradicionais, conhecer outros times?
R1 – Legal. Da mesma maneira que o Ron me apresentou para a várzea, em si, através da Pioneer, o Ron me indicou para o Mário André, o famoso Zé Gotinha - que a cara dele é igual a do Zé Gotinha, do SUS - e ele estava fazendo um jogo no estádio do Juventus, na Mooca. Uma semifinal regional de Martins Neto. Estava o Mário, o Caixa e o Papi Coisa Linda. Eles vieram falar comigo e falaram assim: “Pô, Estevão, aparece na cabine lá, participa com a gente” e eu sempre fui um ‘cara’ que nunca gostei de pedir. Eu achava assim: “Pô, os ‘caras’ me viram aqui agora, me conheceram agora, tudo bem que o Ron me indicou para eles, mas eu vim aqui para cobrir esse jogo, para começar a aprender a fazer o meu próprio conteúdo, eu não vim para trabalhar em uma transmissão, nem tentar usurpar o lugar de ninguém que já está lá. Eles me chamaram, me esperaram na cabine, mas eu não fui. Eu fiquei do outro lado do campo, fazendo o meu próprio conteúdo, aprendendo com outros influenciadores algo que eu não fazia. Eu fazia transmissão, até ali, eu não era influenciador, para criar o meu próprio conteúdo na várzea. E aí o convite do Várzea ao Vivo se tornou oficial para a final da Martins Neto de 2024 e foi a primeira vez que eu trabalhei em uma Copa de várzea que não fosse a Pioneer e com uma equipe que não fosse aquela, da Craque Neto. Eu trabalhei com o Várzea ao Vivo. E ali parecia que era Moisés abrindo o Mar Vermelho para mim. Eu tenho uma vida profissional no futebol de várzea antes e depois do Várzea ao Vivo. Hoje não tem nenhum lugar que eu trabalhe na várzea que eu me sinta mais à vontade, mais feliz, mais realizado do que no Várzea ao Vivo.
(59:20) P1 – Me conta um pouco dessa trajetória no Várzea ao Vivo. São dois anos?
R1 – É. Estou desde o final de 2024 trabalhando pontualmente e desde a primeira semana de julho de 2025 dentro do canal, cuidando do Instagram, do TikTok, ajudando na captação de recursos, já consegui arrecadar bons valores, que acabam me dando uma comissão e um salário, que somado aos ‘freelas’, a rádio me dão uma condição financeira muito parecida do que eu tinha no mercado corporativo.
(01:00:07) P1 – Estava pensando aqui um pouco, tem uma imagem de várzea, você até falou um pouco, estigmatizada.
R1 – Totalmente.
(01:00:15) P1 – Mas como o universo que você vai encontrando... você falou que consegue, hoje, trabalhar exclusivamente com a várzea e outros trabalhos, mas boa parte da sua renda vem da várzea;
R1 – Vem.
(01:00:32) P1 - Eu queria que você falasse um pouco o que é esse universo da várzea, o que ele movimenta. A gente tem grandes torneios, a própria Copa Pioneer, outras Copas que você faz a cobertura, que de alguma forma desconstroem esse imaginário estigmatizante que tem, sobre a várzea.
R1 – A várzea é um mundo à parte: a linguagem, aquilo que você fala ao vivo, a maneira como você chega, a maneira como você se comunica, como você sai. Então, eu fui percebendo a dimensão da várzea como negócio. E a partir do momento que eu passei a captar recurso, patrocínio, eu vi o tamanho da nuvem cinzenta que invisibiliza a várzea perante as grandes e médias marcas. Eu acho que isso não vai mudar tão cedo, mesmo com as grandes competições, como Pioneer, Martins Net, Copa do Busão, Copa Macaco Louco, entre tantas outras Copas, agora a Copa Sabesp, grandes marcas, Copa Vai de Bet e mesmo também com grandes canais, como Podpah, TNT Sports, Craque Neto transmitindo também, mas transmitem a ‘perna’ final, semifinal, não transmitem desde o primeiro jogo, desde a primeira fase, quando não tem ninguém no campo. Então, hoje eu tenho a leitura da várzea raiz, que é a várzea daquele primeiro jogo que ninguém vai ver, que a gente vai ter que roer o osso mesmo e da várzea mais produtizada, que vai dar para nós a possibilidade de bater na porta das grandes marcas, para que a nossa subsistência aconteça. Então, eu acho que a várzea, às vezes, prega peça na própria várzea, assumindo um papel que não é dela, de confronto, de combate, de briga, de perreco, mas que é natural também do futebol como um todo. Eu acredito também que a mídia, não só a grande, como a especializada aprendeu a educar o algoritmo, então ela sabe que cinco, oito segundos de um vídeo onde tem um soco na cara de alguém vai viralizar mais que um vídeo meu, que conta a história de um jogador sem mídia, que está indo bem, que está fazendo um grande ano e tal. Eu não estou dizendo que o meu está certo e o deles está errado. Só estou dizendo que o que eu aprendi bebendo da fonte do Várzea ao Vivo me dá essa condição de trabalhar sem falsa demagogia nenhuma, em prol da várzea, não contra, porque tem muito inimigo íntimo dentro da várzea.
(01:03:15) P1 – E quem é o público que consome os conteúdos, por exemplo, de um canal como Várzea ao Vivo? Tem coberturas ali que têm muitas visualizações. Quem é a pessoa que vai consumir esses conteúdos?
R1 – Para as marcas o cliente final talvez a gente consiga caracterizar dentro de um público C, D, E. O cliente da várzea é todo mundo: o jogador que assiste o jogo para ver se ele vai enfrentar aquele time depois; é o pai, o avô, a mãe que são ligados a esse jogador, que assiste; é a torcida que às vezes não pode ir para o campo, mas está assistindo; é o treinador, que está analisando as imagens para ver se ele pode recrutar alguém, se ele pode analisar o time que ele vai enfrentar mais adiante. É um público muito diverso. Tem o público do varzeano raiz, amante do futebol varzeano, como o Mário fala e tem o cliente final, que a gente pode colocar dentro de uma caixinha, para vender para as marcas. Então, a gente tem que utilizar uma linguagem leve, tem que ser muito claro no que a gente está falando, não pode ‘comprar barulho’ de ninguém. Se eu falei da torcida Pavio Curto do Sedex, eu tenho que falar da Fúria Vermelha do Guaraciaba. Eu não posso falar de uma torcida e não falar da outra. Eu não posso elogiar um em detrimento ao outro. Não é estar ‘em cima da mureta’, mas você tem que manter um nível de sobriedade na maneira como você se comunica, para que você pense antes do time, antes do jogador, antes da Copa. A várzea, em si, é um produto e eu tenho que trabalhar para valorizar sempre esse produto. E aí o cliente vai ser, o web espectador, o mais diverso possível. Tem jogador profissional que assiste a gente. Tem gente famosa que assiste a gente. E tem o tiozinho da ‘quebrada’, o bolo cru lá da Arena da Vila Nhocuné, da Arena Batti Fácil, que toda vez que a gente está lá, transmitindo o jogo, traz um presentinho, uma besteirinha, um ziriguidum, para que esse ambiente, esse ecossistema, como se fala hoje em dia, seja habitável.
(01:05:26) P1 – A gente veio aqui, a gente está na Arena Raça Ruim, na Vila Matilde, você tinha até sugerido aqui, por ter essa estrutura, uma cabine de transmissão. Eu queria que você falasse dos desafios de fazer cobertura considerando as diferentes realidades que você vai encontrar.
R1 – ‘Cara’, essa pergunta é matadora, porque a Arena Raça Ruim é uma iniciativa público-privada, até onde eu sei, onde o mantenedor do campo, aqui, o Roberval tem uma parceria com o gabinete do Silvão Leite e fizeram essa, como diria no mercado corporativo, joint-venture, paras tornar isso aqui realidade. Mas você tem campos onde a gente tem que levar toldo, guarda-sol, não tem cabine, a energia a gente tem que ter um rolete de cem, cento e cinquenta metros, porque ela vai ser conectada no prostíbulo que está atrás do campo, na casa de entretenimento adulto que está atrás do campo, entre otras cositas más. Então, é uma realidade precária, em sua maioria das vezes, para que uma equipe de transmissão possa fazer o melhor trabalho e por isso que eu acredito que o Várzea ao Vivo é o Várzea ao Vivo, porque mesmo com muito pouco a gente consegue fazer muita coisa e não aponta o dedo para ninguém, é recebido em tudo quanto é lugar. Então, tem esse extremo, que é a falta de estrutura e tem esse extremo onde a gente está hoje, da Arena Raça Ruim, que tem toda a estrutura, é uma verdadeira área de lazer para o futebol varzeano e para quem ama a várzea.
(01:06:59) P1 – E qual foi a cobertura mais marcante que você fez, que você pode mencionar?
R1 – Aí você me ‘quebra’, porque eu fico com medo da galera ficar com ciúme, mas eu acho que um divisor de águas na minha vida foi a final da Copa Martins Neto de 2024, Cidade Tiradentes contra Lagoa, que foi a primeira final que eu fiz pelo Várzea ao Vivo. Ali eu falei: “Cortei o cordão umbilical com o Ron, saí da zona de conforto do ambiente seguro que eu tinha na Doroteia, na Craque Neto e ganhei o mundo na várzea. Trabalhar com o Mário, o Caixa, que são os donos do canal. O Marião narra: “É Caixa”, porque o Caixa Marley, o Tiago Almeida teve um síndrome muito rara, que é a síndrome de Guillain-Barré, que é um vírus que você contrai, acredito que via respiratória, não sei, mas onde ele ficou com muita sequela, ficou sete meses na UTI. O ‘cara’ é um milagre andante, ele anda hoje com muleta e tal, mas ele que dirige para a gente para tudo quanto é lugar, ele que faz o operacional do vMix, ele é o dono do canal e o Marião narra “É Caixa” por causa dele. E quando eu fui viver essa realidade na Copa Macaco Louco, principalmente como você me perguntou, respondendo objetivamente, na final da Martins Neto e ainda estava o Papi Coisa Linda, que é um satélite, por si só. É um sol. E eu consegui modelar o meu trabalho, não ficar nem ofuscado e nem me sobressair, mas entrar no nível dos ‘caras’ para comentar o jogo e a maneira como eles me receberam, reconheceram e seguem reconhecendo meu trabalho eu fico até emocionado, porque os ‘caras’ são ‘foda’, irmão. Os ‘caras’ são maravilhosos. Então, Martins Neto, em 2024, CT e Lagoa, que foi um jogo épico.
(01:08:50) P1 – Guilherme, quais foram os principais valores que você pôde aprender, foi aprendendo nessa vivência que você está construindo no universo da várzea?
R1 – A primeira coisa é a humildade, porque o bichinho do ego e da vaidade começa a crescer dentro de você sem você perceber. E às vezes o tipo de comportamento que você tem, o pensamento que você tem acaba te distanciando da realidade que te trouxe até ali. Então, eu acho que é reforçar a humildade que eu achava que eu tinha. Eu achava que eu era uma pessoa humilde. Mas na várzea eu me tornei uma pessoa muito mais humilde, muito mais prestativa, muito melhor. Acho que humildade é o primeiro. E segundo: nem tudo que reluz é ouro. Nem todo mundo que diz que é, é. Nem todo mundo que fala que vai pagar, paga. Nem toda Copa que acha que é organizada, é. Nem todo galo que acha que canta, que vai acordar a vizinhança inteira de manhã consegue acordar. Então, humildade e também um pouquinho de pé atrás em algumas situações, porque é um ambiente meio complicado, também, de você se estabelecer e seguir a sua vida. Não é fácil, ‘cara’. É ‘da hora’, maravilhoso, é, mas não é fácil.
(01:10:23) P2 - Quando você entrou nesse universo, você teve alguma expectativa que você tinha quando você foi começar a estudar? Imagino, que você falou que foi um tempo estudando. Como que você foi atrás dessa informação e se você teve alguma expectativa que foi quebrada, tanto no bom quanto no mal sentido, de sair do universo que você estava, para entrar nesse novo universo, para aprender, para ir atrás.
R1 – Tive, sim. A principal expectativa que foi quebrada é que a referência que eu tinha, do futebol profissional, não se aplicava à várzea. Você não tem um banco de dados com informação. O chat GPT não te responde com precisão. O Google não te dá isso. Então, essa parte de pesquisa, de estudo começou a ser feita entre a minha pessoa e o abismo de distância que eu tinha com relação à própria várzea. Então, meus primeiros jogos, depois da surpresa que o Ron me colocou lá para reportar o jogo, como eu fazia semanalmente para transmitir os jogos da Pioneer naqueles dez finais de semana fechados com a Rádio Craque Neto? O Ron me passava whatsapp do presidente ou do técnico do time e eu ficava de segunda-feira a sexta-feira ‘enchendo o saco’ dos ‘caras’, para os ‘caras’ me passarem quem era o presidente, se pode falar o nome dele, se o presidente é ligado ao crime, se não é, quando foi fundado, porque tem tal nome, entendeu? Eu me considero um ‘cara’, apesar dos meus hábitos, com uma memória privilegiada e tem um fato interessante, que é a campanha que o Vic Vic fez, na Pioneer de 2024. O Vic Vic tem esse nome, porque um dos fundadores do time tinha um pouco mais dinheiro do que os demais fundadores, para fundar o time e deram para ele a condição de escolher o nome e ele tem um casal de filhos, Victor e Victória e aí Vic Vic se tornou o nome do time. Isso, para mim, foi puf, sabe? Eureka! Eu falei: “Bom, tudo aqui na várzea tem uma origem familiar, local, geográfica, porque tem muito time de várzea que vem de origem nordestina e de outros estados, que se estabeleceram em bairros periféricos da cidade, tem uma ligação com time de fora, porque tem times que emulam um Boca Juniors, um América, entre outros times. E aí eu fui aprendendo que eu tinha que hackear o sistema, para poder chegar mais rápido na informação. E que nem tudo era conteudista, nem tudo precisava ser conteudista. Por exemplo: “Porque fulano...”. Você vê: hoje, numa transmissão de futebol profissional tem determinados narradores, comentaristas e repórteres que eu me vejo no Guilherme da época da Web Radio, que estudou tanto para aquele jogo, tanto para aquele jogo, tanto para aquele jogo, que chegou na hora do jogo “uonuonuon”, vomitou informação. Ninguém quer saber daquela porra. Você quer saber se o lateral ultrapassou, se a cotovelada pegou na ponta do nariz ou se é simulação do ‘cara’. Então, a minha expectativa foi quebrada nesse sentido. Eu venho de um mundo corporativo e do futebol profissional, que é muito conteudista. De uma educação, que é a sua área, que é muito conteudista. E às vezes você precisa ser mais prático, mais genuíno. Você precisa ter mais o feeling, que é exatamente essa perspicácia do dia a dia, que só a dificuldade de bons brasileiros, como nós, nos dá, que ninguém aqui é filho de herdeiro. Quer dizer, ninguém aqui é herdeiro de pai rico.
(01:13:51) P1 – Pegar um gancho nessa pergunta que a Anna fez e que você falasse: você vem de fora do estado de São Paulo, do estado do Rio de Janeiro. Chegando aqui, como você percebe essa relação dos times de futebol com as comunidades, sobretudo pensando nas comunidades de periferia de São Paulo?
R1 – Isso é uma coisa também que foi me despertando à medida do caminho. Como eu trabalhei muito com projeto social, de subir Morro da Babilônia, de misturar conceitos do pensamento computacional com a capoeira angola, já fiz de tudo um pouco e essa ligação começou a ficar mais clara para mim à medida que eu percebi que tinham times avançando para as fases principais dos campeonatos, que quando eu comecei na várzea eu não comecei do primeiro jogo, eu já comecei no mata-mata, na fase principal. E vendo a comunidade chegar, os ônibus chegarem, o perfil das pessoas, conversando com as pessoas eu comecei a entender que aquela comunidade tem uma ligação umbilical com aquele time. Por quê? Então, fui buscar esses porquês. E comecei a trabalhar isso também durante a transmissão e para mim o ápice foi na Pioneer de 2025, quando o pessoal do marketing do Jardim Elba... um abraço para o meu compadre Mentirinha, que é um ‘cara’ que é lenda na várzea, tricampeão de Kaiser por três times diferentes, três anos seguidos, que me trata como rei, e o Mentirinha ajudando o pessoal do Elba, onde ele jogou anos atrás, montar o time que iria ser campeão da Pioneer de 2025, os ‘caras’, na semifinal da final, criaram um conteúdo e levaram os jogadores para dentro da favela do Elba e aquilo ali os jogadores começaram a passar aquela realidade, de falar: “Meu irmão, eu não sou da ‘quebrada’”, porque na várzea tem muito isso, também, essa dicotomia entre o time de ‘quebrada’, que disputa Copa grande só com os guerreirinhos da ‘quebrada’ e o time da ‘quebrada’ que disputa Copa grande, que tem determinados tipos de patrocínio e investimento, que te permite contratar os melhores jogadores da várzea, por assim dizer. E quando eu vi a transformação no olhar daqueles jogadores quando foram visitar o Elba, antes da final, eu entendi que essa relação que você pergunta, de times e comunidade, era muito mais forte do que eu imaginava, como você bem observou também, até porque eu sou do Rio, meu sotaque é carregado, a minha falta de conhecimento dessas origens não foi uma barreira para que eu pudesse vivenciar, mas eu demorei um pouquinho a ter essa compreensão e eu sinceramente acho que eu estou só no começo dessa caminhada. Eu acho que eu nem furei a casca do ovo ainda, tem a vida pela frente, graças a Deus.
(01:16:41) P1 – A gente está se encaminhando para a conclusão. Antes eu queria te perguntar: você falou que vem para São Paulo em relação à maternidade, você tem duas filhas?
R1 – Duas filhas. Me separei do meu primeiro casamento, minha ex-esposa foi morar na Europa e com 11 para 12 anos minha filha mais velha veio morar comigo, ela vai agora fazer vinte anos. Então, criei minha filha mais velha no meu segundo casamento e ela tem uma irmã. A Elis está com 19 e a Mel vai fazer 15. Então, fui pai de novo, com 25 anos e só tenho elas duas. A Elis, a Mel e a Mile, que é a minha border collie com labrador, que eu mandei trazer lá de Niterói, uma amiga minha me deu. É a nona cachorra de uma ninhada. Eu pedi categoricamente: “Me dá o cachorro ou a cachorra que teve mais dificuldade para nascer e viver. A que ninguém quer você me dá”. E ela transformou a minha vida, porque eu costumo dizer que essa época ali de entrar na Transcontinental, de viver o futebol varzeano, foi uma época que eu estava me desgarrando do mercado corporativo, que eu não vou cuspir no prato que eu comi, mas que me fez muito mal. Eu tive burnout, eu fui afastado oficialmente de empresas por conta de sentir a pressão das empresas. Eu não acreditava, eu achava que isso era coisa de gente Nutella, até viver aquilo. Então, é mais ou menos isso. Minha família é maravilhosa. Minhas filhas, hoje a mais velha já mora sozinha, trabalha em um restaurante maneiro em São Paulo, que é o Manioca, lá com a Helena Rizzo e a mais nova é apaixonada por Fórmula 1, sonha trabalhar na Fórmula 1 e estamos seguindo a vida. Casado, né, irmão? Hoje é Dia dos Namorados, quando a gente está gravando, mas casado é aquilo: depois de 15, 16 anos não beija na boca, não faz mais amor.
(01:18:27) P1 - Tem que fazer. (risos)
R1 – Tem que fazer, mas tem que agendar horário, hoje em dia. (risos)
(01:18:39) P1 – Guilherme, eu queria que você falasse o que representa o futebol de várzea hoje, na sua vida.
R1 – O futebol de várzea hoje representa na minha vida o que é o futebol de várzea para a vida de todo mundo, ou o que deveria ser: sinônimo de resistência. Podem não nos querer, mas vão ter que nos engolir, como diria Zagalo. Então, eu acho que hoje o futebol de várzea é a minha vida. Ainda mais quando tem pessoas que já trabalharam comigo na época do profissional, que me deram oportunidades, que me ligam, que me mandam mensagens falando assim: “Estevão, toma cuidado, você está se deixando muito na várzea. Se você se deixar na várzea você vai fechar portas em outros lugares”. Sinceramente, posso ‘falar o francês’ claro aqui? Posso? Quero que se foda! Hoje eu quero que se foda. Porque vocês viram como vocês foram tratados quando vocês chegaram aqui? Meu ‘mano’ Joça que está ali, meu compadre? É isso aí que eu levo. Eu não sou amigo do dia a dia do Jocélio, mas o Jocélio mora no meu coração. Ele é único, mas tem outros ‘caras’ aí campos afora que me tratam tão bem. Dificilmente tratar tão bem quanto o Juça, quanto o Moisés, quanto o Roberval, aqui, mas é isso que eu levo, irmão. Eu acho que é isso que eu quero continuar melhorando esse relacionamento, crescendo, ajudando, fazendo mais projetos, trazendo marca, ajudando o Várzea ao Vivo crescer, levando a várzea para longe. Hoje tem uma relação intrínseca entre o meu ouvinte, o ouvinte da Transcontinental que me escuta diariamente no Samba Gol e no futebol varzeano e eu faço isso sem lacrar, sem militar, simplesmente com a qualidade do meu trabalho, com meu talento.
(01:20:20) P1 – O que você gostaria que futuras gerações soubessem a respeito do futebol de várzea de São Paulo?
R1 – Eu gostaria que as futuras gerações soubessem que a várzea não é o semi profissional, o amador das grandes Copas. A várzea é uma cauda longa, gigantesca, que começa na ‘quebrada’, na comunidade, com projeto social, com campo de terrão, que é cada dia mais raro, mas com campo reformado. Que ali existe uma vida que é invisível para a maioria da população, mas que acontece e que tem times de várzea que apostam nesse tipo de formato, para pavimentar seu caminho de futuro, gerando talentos, gerando esses projetos, melhorando a vida das pessoas, principalmente das crianças e que a ‘’cereja do bolo’ de toda essa cauda longa é justamente onde entra o Estevão, o Várzea ao Vivo, que é transmissão, que dá valor para a Copa, valoriza todo esse legado, essa jornada. Então, eu gostaria que as futuras gerações soubessem o que é periferia, porque hoje as crianças, os adolescentes não sabem nem o que são populações periféricas. Se você não for da ‘quebrada’, ou se a ‘quebrada’ não estiver próxima da sua realidade, hoje o adolescente não sabe o que é periferia. A minha filha fez um trabalho recente em cima do livro Perifobia, da escritora Lilia Guerra, onde a maioria das amiguinhas e os amiguinhos dela, da escola, não sabiam o que era periferia, ‘quebrada’. Estão em uma ‘bolha’. Então, se não sabe o que é periferia, de onde vem a origem do povo brasileiro, como é que vai saber o que é várzea? Então, eu gostaria que elas soubessem e tirassem essa capa de invisibilidade que existe em cima do brasileiro pobre que está lá e que talvez o pouco do lazer que alimenta a alma dele para mais uma semana de trabalho e dificuldade, é o time dele jogando no final de semana. Isso que eu gostaria que elas soubessem.
(01:22:13) P1 – Estevão, qual que é o seu sonho, para a várzea?
R1 – Meu sonho para a várzea, para o futuro? Meu sonho é que a várzea cresça cada vez mais, que as marcas acreditem na várzea, não vem só patrocinar uma vezinha e vai embora, não. Que venha, que construa um legado. Tem várias que fazem e seguem fazendo isso, mas tem muita gente que vem, sabe? “Gosta de um bar, bebericar, do samba, cantar”. Só vem bebericar e vai embora. Eu gostaria que elas criassem um futuro junto da várzea. E para mim, pessoalmente e para o Várzea ao Vivo, eu gostaria de viver única e integralmente do futebol de várzea. Que o canal conseguisse subsistir de uma maneira, não para a gente ficar jogando plaquinha de cem para cima, mas que a entrada de capital, a captação de recursos fosse substancial o bastante, para que a gente pudesse viver da várzea e aí pensando 24 por sete por 365, nisso a gente conseguisse fazer a várzea ainda maior.
(01:23:14) P1 – Talvez você tenha respondido, mas eu vou fazer a pergunta mesmo assim.
R1 – Fica à vontade, irmão.
(01:23:18) p1 – O que você almeja viver em campo no futebol de várzea?
R1 – O que eu almejo viver é talvez ser reconhecido pelas crianças. Eu vejo amigos meus, conhecidos meus, influenciadores que eu respeito, que eu gosto, que me admiram mutuamente e onde eles passam as crianças vêm tirar foto, conversar, reconhecer aquela pessoa. Não pelo reconhecimento, mas pela pureza das respostas das crianças, delas serem muito verdadeiras. Eu acho que, se um dia eu for reconhecido pelas crianças, a minha missão na várzea está cumprida. Não sei se eu respondi sua pergunta, mas é o que eu gostaria. Não gostaria de muito mais do que isso, não.
(01:24:05) P1 – E a última pergunta mesmo é perguntar como foi essa experiência de você contar, relembrar a sua história de vida.
R1 – Primeiro eu fiquei lisonjeado. Para mim é muito importante estar aqui, é muito bom falar. As primeiras perguntas que você me fez, que vocês me fizeram, eu sou um ‘cara’ muito emotivo, de lembrar do meu pai, da minha casa, da minha família, da história, do sofrimento, das coisas boas, foi maravilhoso e perceber que eu acho que eu tenho um valor para a várzea hoje que é maior do que eu acredito que é. Eu acho que eu tenho um problema grande de autoestima, de acreditar no meu próprio trabalho, talento e eu acho que hoje eu tenho uma abrangência, um tipo de forma de agregar valor para a várzea que é maior do que eu imagino. Que continue assim. Que eu nunca corrompa meus valores, por achar que eu sou mais do que eu sou, tanto no futebol de várzea, que da mesma maneira que te aceita, te expurga. Não é que as pessoas são descartáveis. As pessoas são descartáveis no futebol. Hoje você serve, amanhã você não serve. No profissional. Na várzea eu acho que é um contraponto a isso, mas se eu não estivesse fazendo um trabalho que levasse alegria, que emocionasse, que agregasse valor para as pessoas eu não estaria aqui. Então, acho que é isso.
(01:25:32) P1 – Como sobrou uns minutinhos deixo você à vontade, caso você tenha alguma coisa que você queira dizer, que não foi perguntado, ou que você gostaria de complementar na sua história.
R1 – Legal. Bom, primeiro parabenizar vocês aí do Museu da Pessoa pelo trabalho, ‘mil grau’, energia, a galera ‘maneira’, espero que a gente se encontre em outras oportunidades, parabéns pelo trabalho que vocês fazem, de pesquisa, de estarem no front desse tipo de batalha, que conta a história para futuras gerações, quer consegue, de alguma maneira, eternizar aquilo que muitas vezes é invisível para a maioria da população. Quero dizer também que eu sou muito fã da galera aqui do Raça Ruim, da Doroteia, do X do Morro, de toda a rapaziada, de todo mundo, gosto das pessoas de verdade e me envolvo, vivo. Espero ansiosamente o Caixa passar na frente da minha casa, para me buscar, para ir para os jogos. Então, o que eu gostaria de deixar como consideração final é: “Porra, meu irmão, descobre o talento que você tem e acredita nele e faça o possível para não deixar a chama apagar, porque Deus tem um plano para mim, para você e para todo mundo”. Acho que é isso.
(01:26:40) P1 – Fechou.
— FIM DA ENTREVISTA —
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