Projeto Memória das Águas: Rios e Ruas
Entrevista de Luiz Henrique Gonçalves Nickel (R1)
Entrevistado por Bruna Oliveira (P/1) e Heloísa Ruas (P/2)
São Paulo, 20 de maio de 2026
Entrevista n°: RIO_HV003
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Nancy Santos
Revisada e editada Levi Andrade
(00:19) P/1 – Peço que você diga seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R1 – Me chamo Luiz Henrique Gonçalves Nickel. A data do meu nascimento é 22 de março de 1982. Nasci em São Paulo, capital.
(00:32) P/1 – Qual é o nome dos seus pais?
R1 – O nome do meu pai é Luiz Nickel – que por acaso eu também adotei esse nome, porque é o primeiro e o último nome – e a minha mãe se chama Maria Brena Gonçalves Nickel.
(00:45) P/1 – Por que o seu nome vem do nome do seu pai?
R1 – Uma continuidade. Porque o meu avô, quando veio da Alemanha – o avô Francisco, que era Francisco Nickel –, ele tinha uma questão com os nomes que começavam com L e U, de Lu. Luiz, não é à toa – com Z, é de origem alemã. E o meu sobrenome Nickel é porque quando eles vieram, fugidos da guerra – meus avós e meu pai, acho que ele nasceu nessa transição, vindo para cá, no navio –, eles fugiram da Alemanha. Meu avô fugiu da Alemanha e no navio conheceu minha avó, que estava vindo da Itália. Minha avó é de origem italiana, e meu avô é de origem alemã. Quando chegaram ao Brasil, no porto, eles fizeram uma mudança. Tinha uma tabela – ele contava muito isso para a gente, do jeito dele –, uma tabela periódica dos elementos naturais e tal. Quando foram falar o sobrenome, ele teve que mudar o sobrenome. Então ele colocou um nome muito próximo do que era o sobrenome real dele. Francisco permaneceu, mas o sobrenome Nickel veio de Nickel mesmo. E aí, como eles não conseguiam escrever o QUEL, ele fez o CKEL. Essa é a origem do meu nome.
(02:09) P/1 – Você sabe qual era o nome antes?
R1 – Não consigo pronunciar. Quem sabe é o meu pai, que ainda fala um pouquinho de alemão. Eu não fiquei tão atento.
(02:23) P/1 – Você chegou a conhecer os seus avós?
R1 – Sim. Meus avós, como vieram da Alemanha – minha avó da Itália –, eles pararam no porto e do porto foram para uma cidade no interior de São Paulo chamada Matão. De Matão foram para uma cidade chamada Cafelândia. Em Cafelândia eles tinham um sítio, começaram a tratar a terra – vieram como trabalhadores nesse sentido. Depois de um tempo, eles compraram um pedaço de terra e começaram a autoprodução. Depois do nascimento dos outros filhos – meu pai tem cinco irmãos, eu acredito que sejam seis, na verdade –, eles vieram para São Paulo para tentar uma melhoria de vida. São Paulo capital era a terra da oportunidade. Chegando em São Paulo, eles foram para o [Jardim] Ipê, tinha um parente por lá. Esse parente acolheu eles ali – que por acaso o Ipê é aqui, em Itaim Paulista, muito próximo deste espaço. E ali tudo se começou.
(03:35) P/1 – Eles seguiram a vida inteira morando ali?
R1 – Não. Depois, meus avós, com melhores condições, junto com os meus tios, se mudaram para Itaim, próximo da Caixa d’Água do Itaim Paulista. Ali já era uma área um pouquinho melhor, uma casa mais estruturada. A do Ipê eles venderam, nem existe mais.
(04:00) P/1 – E os seus avós por parte de mãe?
R1 – Meus avós por parte de mãe – eu vivi com a minha avó, a mãe da minha mãe, a dona Zana. O nome dela era Ana Rosa, mas todo mundo conhecia ela como Zana. Minha avó veio de Minas Gerais, era descendente de escravos com portugueses, e veio para cá justamente pelo falecimento do meu avô. Ela veio estruturar a família de uma maneira melhor aqui. Ela veio de uma cidade que fica próxima de Montes Claros, chamada Botumirim, no interior de Minas Gerais. Essa é a história da minha avó por parte de mãe.
(04:47) P/1 – Ela praticamente criou os filhos sozinha?
R1 – Sim, criou. Era também uma família de aproximadamente seis tios. Atualmente eu tenho três tios ainda vivos; infelizmente minha mãe também não é mais viva. Minha mãe morou ali, foi onde tudo começou com a história com o meu pai. Eles eram meio que vizinhos ali no Ipê. Minha avó, quando também conseguiu melhorar de condição, já veio para cá, para o Jardim Helena. Ela não foi para o Itaim, veio para o Helena porque era um espaço muito maior. Ela queria voltar às origens, então tem um quintal enorme, com pomar, com tudo. Ela se alojou aqui na Avenida José Martins Lisboa, na rua Ubapitanga, numa casa enorme. Depois foi se estruturando – como a vida vai se passando –, foi refeita toda a estrutura predial, o terreno já diminuiu, o tio montou a casa dele, meu pai também desmembrou.
(06:00) P/1 – Como você descreveria, fisicamente e de jeito, seus pais?
R1 – Meu pai, um alemão, muito sério, fechado. Minha mãe, uma mineira negra, muito alegre, muito comunicativa, carinhosa, acolhedora. Era uma pessoa formidável. Descrevo meus pais como heróis, por terem me dado condições e ter dado condições a outras pessoas que entram na minha história. Eu sou filho único desse casal, mas tive sete irmãs adotivas. Todas elas eram, uma vizinha, que morou com a gente porque a vizinha não tinha condições, então minha mãe terminou de criar. As outras seis eram parentes, sobrinhas que vinham para cá estudar, se formavam e iam embora. Por isso eu coloco que o meu pai foi um guerreiro e a minha mãe também, heróis por terem criado oito filhos – não todos de sangue, mas com uma consideração enorme por todos.
(07:15) P/1 – Com o que seus pais trabalhavam?
R1 – Meu pai era motorista de empilhadeira. Trabalhou em grandes empresas, principalmente de artigos químicos. Não é à toa que ele trabalhou também na Nitro Química, que é aqui em São Miguel, em outras empresas. Depois, quando saiu da Nitro Química, ele virou comerciante. Minha mãe trabalhava na parte de saúde, mais como cuidadora, como enfermeira. Depois do meu nascimento, ela também se voltou ao comércio. Eles foram comerciantes por muito tempo aqui. Muita gente me conhecia como o filho da dona Brena ou filho do seu Luiz – não o atual, ninguém me chamava de Luiz, era mais "o filho deles". Foi isso que se deu.
(08:12) P/1 – Eles vendiam o quê?
R1 – No início eles tinham uma mercearia, vendiam de tudo, até mesmo pães – fabricavam pães e vendiam. Por isso muita gente os conhecia, me conhecia de tabela. Minha mãe falava que na mercearia ela me colocava num cesto enquanto atendia os clientes. Acho que eu já comecei a trabalhar desde o meu nascimento – dei trabalho no meu nascimento e continuei trabalhando com ela no comércio. Depois, por conta das mudanças políticas do Collor, do Plano Collor, eles congelaram dinheiro, meus pais perderam muito com isso. Ficaram um tempo sem comércio, não tinha como gerir, não tinha fluxo suficiente para fazer a mercearia funcionar. Meu pai ainda tentou voltar a trabalhar como motorista de empilhadeira ou nesse ramo mais industrial. Passado esse período, eles montaram uma lojinha. Então foram comerciantes inicialmente de uma mercearia, depois de uma loja de utensílios, roupas, sapatos e tudo mais.
(09:39) P/1 – Como eles se conheceram?
R1 – Minha mãe veio de Minas, meu pai do interior de São Paulo. Eram vizinhos ali no Ipê. Se relacionaram e se conheceram ali no Ipê mesmo. Era um namoro meio que de portão. Minha mãe falava que era muito engraçado porque ela tinha que namorar com as minhas tias olhando – e os meus tios também. Eles não se relacionavam tão bem quanto eles se relacionavam. Ela falava que era muito engraçado.
(10:15) P/1 – As suas avós se conheciam antes de eles terem um relacionamento?
R1 – Sim. E é engraçado: as minhas duas avós, tanto a paterna quanto a materna, as duas se chamam Maria Ana Rosa. Era muito engraçado. Por isso o Zana era tão diferente, era mais fácil. A Ana Rosa eu sabia que era minha avó por parte de pai. Dona Zana era parte de mãe. Elas se conheciam e terminavam trocando bastante ali. Minha avó conhecia também o meu avô Francisco por parte de pai. Eles tiveram uma boa relação de vizinhos – não uma coisa muito próxima, mas depois do casamento a aproximação se tornou maior.
(11:02) P/1 – Você contou que deu trabalho no seu nascimento. Você sabe como foi o dia do seu nascimento?
R1 – Sei por conta da minha mãe. Minha mãe contou essa história para mim, meu pai reforçou um pouco depois, falando que não era bem assim, mas o fundo de verdade é esse. Eu nasci no dia 22, que é o Dia Mundial da Água. Por acaso, nesse dia, estava caindo um toró, e o trânsito para ir até o hospital foi meio nebuloso. Foi difícil chegar até o hospital, então eu dei um pouquinho de trabalho nesse sentido. Não de nascimento – o nascimento foi natural, foi tranquilo –, mas por causa da chuva, da semana chuvosa.
(11:49) P/1 – Você é filho único, mas teve várias irmãs adotivas. Como era a relação na infância? Elas vieram em diferentes momentos? Como você se sentia com isso? Você se sentia filho único ou com irmãs?
R1 – Nunca me senti filho único. Nunca tive nada, nem um canto para falar que era meu naquela época. Pelo contrário, era tudo compartilhado. A minha relação com as minhas irmãs era muito boa. Elas vinham em momentos não tão distantes, mas tinham uma aproximação por serem parentes. Fora a filha da vizinha, eram primas. Vinham do interior de Minas para cá para estudar e voltar para suas origens ou ir para outros lugares. Eu perdi muito a comunicação com elas depois de adulto, e principalmente depois do falecimento da minha mãe – minha avó em 2008 e logo em sequência minha mãe em 2009. A gente perdeu um pouco dessa relação. Mas elas ligam para o meu pai, falam com ele por ligação, por chamada de vídeo. Comigo é um pouco mais distante. Mas quando era pequeno era uma coisa muito estranha, porque quando elas iam namorar, eu tinha que ir junto – ficava segurando a vela. Era engraçado. Mas ganhava bastante coisa dos namorados: doce, salgadinho. Me lembro muito de parque de diversão, de alguns lugares. Saía com elas nesse sentido de preservar um pouco da honra – tinha muito essa história da honra. Em compensação, em casa, elas também abusavam um pouco. Uma das coisas que a minha mãe deixou muito claro, quando eu me tornei entendedor das coisas, lá pelos 5, 6 anos: "Você vai ser um homem diferente. Você vai aprender as coisas. Se não for comigo, é com as suas irmãs. Você vai aprender a cozinhar, a passar, a lavar". Até hoje eu sei isso, agradeço muito à minha mãe por ter me colocado, mas às minhas irmãs por terem me "explorado" quando criança – essa exploração foi o ensinamento que perpetuou até hoje, e eu ensinei aos meus filhos também.
(14:22) P/1 – Você era o mais novo?
R1 – Eu era o caçula. Era difícil brigar. Uma coisa que me trazia um pouco de descontentamento era na escola, porque todo mundo ficava... Eu tinha amizade com as minhas irmãs e meio medo do meu pai. Eu ficava nessa relação. Eu acho que sempre fui articulador, o mediador de conflitos – sempre tive esse ponto desde pequeno, mas me trazia algumas pequenas dores de cabeça.
(14:56) P/1 – Tem algum cheiro, alguma comida, alguma festa que lembre essa infância?
R1 – O cheiro que me traz é o cheiro de mato. Desde que me conheço por gente, a gente mora – meu pai mora até hoje na casa que eu vivi minha infância. O Jardim Pantanal, antes de ter esse nome, era um pântano mesmo. O cheiro de mato estava muito relacionado. A gente tinha as taboas [planta aquática comum em áreas alagadas, brejos e margens de lagos] no final da rua, então era conhecido não como Jardim Pantanal, mas como Vila do Sapo. A gente tinha aqueles sons de barulho de sapo ecoando, barulho de pássaros. Eu tinha uma relação com a natureza muito grande desde pequeno. Fora o mato, essa questão mais rural, era a questão da comida. Cheiros com as comidas. Minha avó era mineira, minha outra avó era italiana, que cozinhava também coisas alemãs. Esse cheiro de comida me traz uma recordação até hoje muito gostosa.
(16:14) P/1 – O que você gostava de comer naquela época?
R1 – De tudo. Nunca fui ruim de prato, pelo contrário. Mas eu adorava comida mineira. Era a comida da minha avó feita nas panelinhas de aço, de barro. Não de fogão de lenha – essa eu tenho recordações das viagens para Minas Gerais, para conhecer as origens da família. Do interior de São Paulo é outra. Daqui mesmo eu tenho lembranças desse tipo. Uma das coisas que eu me lembro muito eram as festas produzidas pela igreja católica. A gente tinha a igreja do Jardim Arena, mas tinha uma igrejinha que meus pais ajudaram a construir, que é a São Francisco de Assis. Tinha muitas festas de arrecadação para melhorar a estrutura, comprar materiais e manter a igreja. Eu me lembro muito dessas festas. Eu ia segurando as velas, mas em compensação ganhava maçã do amor, pipoca, quentão, outras coisas típicas de festa junina. Era muito legal.
(17:33) P/1 – Era tipo uma quermesse?
R1 – Isso. Quermesses e festas de final de ano com bingo, com fogos, com tudo.
(17:42) P/1 – Você disse que seus avós se conheceram no navio. Por que eles vieram? Foi fugindo da guerra?
R1 – Foi fugindo do final da Segunda Guerra Mundial. Por isso meu avô teve que mudar o sobrenome – aqui no Brasil, principalmente em São Paulo, no porto, tinha uma pequena perseguição aos alemães. Meu avô contava isso muito bem. Eles vieram nesse sentido de melhoramento de vida. Minha avó veio da Itália, sendo reconstruída, mas sem trabalho, sem comida, sem o mínimo de infraestrutura possível. O Brasil era vendido na Itália e na Alemanha, nos navios principalmente, como um lugar de oportunidade. Não fugia disso, era realmente. Então eles vieram nesse período.
(18:39) P/1 – Como você descreveria a casa da sua infância, que seu pai mora até hoje?
R1 – Antes da transformação, era uma casa com quintal grande, interligada com o quintal da minha avó – um quintal para duas casas. Isso me trazia tranquilidade. Depois foi fechado, porque meu tio casou, aumentou o espaço, construiu um sobrado. A gente limitou os dois espaços, e o muro fez essa divisão. Uma das coisas engraçadas foi que a minha avó, por ser idosa, e a minha mãe, por estar muito ligada com a minha avó, deixaram uma janela entre os dois quintais. O muro separava, eu não podia entrar diretamente, mas dava a volta e entrava pelo portão. A janela era uma coisa formidável. A TV – a gente fazia relação com a TV. Muitas vezes eu ia para a janela para conversar com a minha avó, ou minha mãe estava lá conversando, eu passava e via as duas batendo papo. Era muito engraçado, parecia que eu estava assistindo TV. A diferença do que era a casa anteriormente, com quintal, meio parecido com sítio, com pomar, era o grande diferencial para a casa de hoje, onde meu pai ainda vive. Meu pai sente falta desse espaço, mas em compensação ele tem as plantinhas, continuou com o dedo verde – tomates, principalmente os morangos, que meu neto e bisneto se alimentam daquilo ainda. E os chás que ele faz, porque ele gosta muito de ser um curandeiro. Eu costumo falar que meu pai aprendeu isso com as minhas avós e até hoje replica. Muita coisa ele não compra de medicação formal na farmácia, ele produz ali. Desde boldo para ressaca e dor de estômago até chazinho de camomila e hortelã para melhorar gripe ou dor de cabeça.
(20:54) P/1 – Até hoje?
R1 – Até hoje. Meu pai ainda se encontra vivo, muito bem. Ele é um pilar da família, e da família que eu também deixei. Eu construí, mas ele ficou responsável. Porque até no momento da separação, ele me colocou nessa posição de "papel de homem", como ele mesmo coloca: "Se você está saindo, é você que tem que sair. A estrutura tem que ficar para a família". Meu pai sempre deixou isso muito claro. Trabalhou, criou as minhas irmãs, elas ganharam voo em outros lugares, e ele sempre bate no peito e fala: "Isso é fruto também do meu esforço".
(21:40) P/1 – Onde está localizada essa casa?
R1 – Aqui na José Martins Lisboa, um pouco para baixo, próximo do Parque do Jardim Helena – de uma das entradas do Parque do Jardim Helena, próximo ao CIJASA (Centro de Integração da Criança e do Adolescente Santo Agostinho) , que é um centro de estudos das irmãs agostinianas. Fica num lugar privilegiado – querendo ou não, a avenida alarga, mas é um lugar que sempre, quando está tendo chuvas, passa no noticiário. É um lugar estratégico para a entrada e saída da comunidade. Estamos andando há uns 5, 7 minutos no máximo; de carro, 2 minutos, 1 minuto.
(22:32) P/1 – Você contou onde ficava a casa do seu pai. É no Jardim Pantanal?
R1 – Eu considero que sim, mas ela está dentro do Distrito do Jardim Helena, mais especificamente no Jardim São Martinho. Está no limite entre os dois, mas eu considero dentro do Pantanal.
(23:01) P/1 – Como era esse grande espaço – Jardim Helena, Jardim Pantanal, Jardim São Martinho – na sua infância?
R1 – Como eu coloquei: no início, a gente via as taboas lá no fundo, tinha o chão de terra batida – aquela terra vermelha, em alguns lugares preta –, valetas abertas. A gente tinha esse risco de contaminação no início, quando eu era bem pequeno. Além de tudo isso, tinha essa liberdade de brincar muito forte: brincadeiras no chão de terra, pique-esconde, esconde-esconde, brincadeiras com bola, de bicicleta. Eu conheci todo o território com a bicicleta, andando de bicicleta, fazendo tours. Vi os lagos, as lagoas que aqui se tinha – não tinha tantas casas quanto hoje. Uma coisa que eu tenho desde a minha infância é que sempre foi um território plano. Quando a gente ia para o Itaim, eu estranhava, porque o Itaim tinha subida, morros, e aqui não, aqui era tudo plano. Tudo que a gente fazia era a pé ou de bicicleta. Até hoje, na comunidade, utiliza-se os dois mecanismos: a bicicleta para se locomover, ir até a escola, levar os filhos, ir ao mercado, ir até São Miguel e voltar. Tem pessoas que vão trabalhar de bicicleta até essas estações – a gente está entre duas estações: a estação do Jardim Helena-Vila Mara e a estação do Itaim Paulista. Na minha infância eu me lembro muito disso, de uma liberdade, de um campo aberto, cercado pela questão da natureza mesmo.
(25:11) P/1 – Tinha bastante casa já?
R1 – Não, eram poucas. A gente tinha vizinhos, mas não era vizinho muro a muro, eram vizinhos meio distantes. Quando eu entrava para dentro da comunidade, para pegar sapo, girino, essas coisas para brincar, tinha essa relação. Me lembro que tinha muitos sítios, eram meio afastados. Meu pai falava o quanto era difícil a comunicação. Na Oliveira Freire, por exemplo – da minha casa, da José Martins Lisboa até a Oliveira Freire andando dá uns cinco, dez minutos, dependendo do lugar, e a Oliveira Freire tem uma dimensão enorme que vai até São Miguel Paulista, o centro comercial. Meu pai falava que só tinha um morador que tinha telefone. Esse morador com telefone tinha um título – o telefone era por título, se não me engano. Era uma coisa bem difícil de ter naquela época. Esse morador anotava os recados para os outros. Para o meu pai, como ele era uma pessoa muito reservada, era minha mãe que fazia as tratativas com ele, era ela que ia buscar os recados. Às vezes ele via meu pai passando e passava o recado. Depois de um tempo a gente também conseguiu uma linha telefônica, por conta dos comércios. E aí explodiu a telefonia, e até hoje é uma expansão que não para.
(26:52) P/1 – Você contou que é uma região cheia de lagos e muito próxima do rio Tietê. Como era essa relação? Era visível? Se enchia? Você contou que era uma região que tinha alagamentos. Como era na sua infância?
R1 – Na minha infância, eu acompanho bastante essa questão de alagamento, sim. Existia, e justamente absorvia muito rápido – eu via água escorrer muito rápido por conta disso, não tinha tanta ocupação, não tinha tantas moradias. As tábuas faziam esse filtro natural. Tinham-se sete lagos e lagoas que foram aterrados para construção de moradia. Não menosprezando, mas a relação que eu tinha era uma relação de conhecimento, de cuidado, de beleza também, de curiosidade. O rio nos margeia. Eu me lembro ainda um pouco do rio, mas não me lembro dele limpo naquela época já. Lembro dele com água meio barrenta, não tão cristalina como eu ouvi de histórias de outras lideranças comunitárias, mais antigas e mais velhas do que eu. Essa era a relação que eu tinha com o território antes. Andava de bicicleta, passava por esses lagos e lagoas, via os meandros do rio, e voltava para minha casa. Era uma relação de curiosidade, estranheza, cuidado. Não era tão próxima quanto é hoje.
(28:47) P/1 – Vocês nadavam ou não era possível?
R1 – Era possível, sim. A gente nadava, principalmente nos lagos. Nas lagoas nem tanto, mas nos lagos, que eram menores, de menor profundidade, a gente nadava bastante. Tinha essa relação de cuidado, porque às vezes tinha algumas coisas que poderiam prender o pé. Ouvia-se falar que crianças morriam afogadas, mas, por exemplo, eu não conheço nenhuma criança que faleceu de afogamento. Eu conheci depois de adulto, e mesmo assim quando esses lagos e lagoas já estavam meio contaminados por sujeiras, descarte irregular, resíduos. Mas na minha geração já não.
(29:54) P/1 – Por que chama Jardim Pantanal?
R1 – Por causa da origem mesmo. Era um pântano. Antes de existir Jardim Pantanal, era chamada de Vila do Sapo, porque tinha muito sapo. Onde tem lago, lagoa, era um pântano, taboas. Eu me lembro muito disso. Lembro que tinha uns adultos – não vou saber o nome deles – que caçavam rãs para comer. Eu achava aquilo absurdo: "Como assim o cara está caçando aquilo para comer?" Eles caçavam com um tridente mesmo, feito com cabo de vassoura e três ferros na ponta. Pegavam esses bichos, matavam e comiam. Eu achava muito estranho. Também se pescava – eu via eles pescando, tinha-se peixe nessa época, na minha infância. Eu nasci em 1982, estamos falando aproximadamente de 1985, 1987, pegando o início dos anos 90.
(31:09) P/1 – Onde você estudou?
R1 – Estudei na escola Fernandes Soares, que por acaso é nesta mesma rua em que a gente se encontra hoje – uma rua que a gente costuma falar que é a rua da educação. É uma rua que tem a escola Fernandes Soares (estadual), uma EMEI [Escola Municipal de Educação Infantil], uma EMEF [Escola Municipal de Ensino Fundamental] – a Escola do Virgílio, parceira em muitos trabalhos – e uma creche. É a rua das escolas, uma rua educadora. Estudei ali no Fernandes Soares. Me lembro de uma época que mudei, estudei no Caetano Zanetti, que fica um pouco mais distante, próximo do Viaduto da China. Não tenho boas recordações, mas foi o único ano que estudei lá. Depois retornei para o Fernandes Soares. Fiz faculdade na UNG – Universidade de Guarulhos –, depois fiz pós-graduação no INSPER [INSPER Instituto de Ensino e Pesquisa].
(32:24) P/1 – Como foi o período na primeira escola?
R1 – Foi legal, porque eu já era conhecido por conta das minhas irmãs. Você não era anônimo, mas todo mundo te cuidava. Não fui uma criança de brigar muito, de discutir – era muito do diálogo ou fechado demais, não dava muita intimidade em alguns pontos. Mas brincava bastante, estudava. Os professores eram próximos dos meus pais, tinham uma proximidade maior da escola, da direção com a comunidade. Hoje se tem, mas as relações mudaram um pouco.
(33:13) P/1 – Quando criança, você tinha vontade de ter alguma profissão específica?
R1 – Quando criança, a gente viajava por conta dos filmes. Eu gostava muito de um filme chamado Top Gun, de aviões de combate. Eu tinha um sonho de ser piloto de avião, mas não segui adiante. Era um sonho que ficou realmente na minha infância. Era muito divertido – naquele tempo a gente tinha condições de comprar alguns brinquedos, e um deles era o G.I. Joe, com alguns tanques, carrinhos, personagens, aviões. Tive essa condição, compartilhava, e a gente ficava junto tanto na escola quanto fora, no bairro.
(34:15) P/1 – Como foi crescer nesse bairro?
R1 – Foi um crescimento que hoje julgo saudável, gostoso, amigável e acolhedor. Eu não era cuidado só pela minha mãe, era cuidado pela mãe dos meus amigos. A gente tinha muito essa proximidade de convivência nas casas, de brincar livremente na rua até tarde. A mãe de alguém falava: "Ó, vamos tomar banho?" Todo mundo ia para a sua casa tomar banho, jantar e dormir. A mesma coisa para ir para a escola: às vezes uma mãe levava todo mundo da rua. Eu lembro com um sorriso, porque era uma coisa muito gostosa.
(35:07) P/1 – E também tinham muitas mães para chamar a atenção.
R1 – E para dedurar. Uma das minhas histórias que não me esqueço: na minha aborrecência, um pouco antes, eu peguei rabeira em um caminhão e caí. Ralei as costas. Só que eu estava com a blusa na bolsa, coloquei a blusa e parei de chorar na porta de casa. Quando entrei, passei pela porta, minha mãe fechou a porta atrás de mim, olhou para mim e falou com autoridade: "Você não quer me contar nada?" Eu falei: "Não". Ela falou: "Vai continuar mentindo?" Eu olhei para ela. "Eu sei que você pegou rabeira. Quantas vezes eu falei para você não pegar rabeira de caminhão? Agora você vai apanhar!" Minha mãe não aliviava, não. Passou até álcool nas minhas costas – ardeu, mas me marcou de um jeito que nunca mais peguei rabeira. Nunca mais me aventurei nesse sentido. Aprendi através da dor. Uma das mães dedurou antes para a minha, e quando eu cheguei em casa ela já sabia. Era muito engraçado. Outra coisa desse cuidado que as mães tinham era que quando eu ia apanhar, eu corria para a casa de um amigo meu, que tenho amizade até hoje – por acaso ele também é funcionário da instituição que eu trabalho, meu colega de trabalho e amigo desde a infância. Depois do falecimento da minha mãe, ele me emprestou a mãe dele, e hoje eu chamo ela de mãe. Ela fala que eu sou filho adotivo – todo mundo é branco, e eu sou o escurinho, muito engraçado. Mas eu lembro que quando eu aprontava muito, corria para a casa dela porque ela me defendia: "Não, Brena, não bate nele, ele não vai aprender assim". Minha mãe falava: "Não, ele tem que tomar um corretivo". Na época, hoje a gente educa de outra maneira, mas na época era uma coisa normal. Já apanhei de todas as formas, desde chinelo até espada de São Jorge. Eu era um moleque tranquilo até, não era tão arteiro. Mas quando eu aprontava, aprontava para valer. Tenho essas recordações gostosas também nesse sentido.
(37:50) P/1 – O que você gostava de fazer na sua adolescência? Como você se socializava? Era mais aqui no bairro ou você ia para o centro?
R1 – Era mais no bairro. Quando a gente visitava o centro, era uma galera que saía daqui para o centro. Até hoje eu corrijo algumas crianças que falam que estão indo para São Paulo. Eu falo: "Não, você mora em São Paulo. Você está no extremo da Zona Leste, mas você está dentro de São Paulo. Você está indo para o centro". A gente ia muito para o centro, por características de questões voltadas ao êxito rural, o rio que nos cerca, essa limitação de saber que do outro lado era Guarulhos, um pouco mais distante é Itaquaquecetuba – a gente está no limite dessas cidades. A gente sabia que estava indo para o centro, então ia uma galera, mas a convivência maior era aqui, territorial, na vizinhança, no distrito, no Jardim Helena. Não se limitava só à minha rua, era o distrito por geral. Convivi na minha adolescência muito para esses lugares. Também, em busca de melhoramento de trabalho, de capacitação profissional – meus pais me apoiavam muito para estudar –, eu fui fazer SENAC, SENAI. Inicialmente Senai e depois SENAC. Estudei fora, fui para outros lugares da cidade de São Paulo, e aí foi onde eu fui conhecer realmente a dimensão da cidade.
(39:35) P/1 – Como foi conhecer a dimensão?
R1 – Assustador. Você pegar um ônibus e levar duas horas para ir para o outro extremo da cidade. Naquela época não tinha o trânsito que tem hoje, mas era assustador. Era difícil você sair, ir a outros lugares da cidade, às vezes com parentes também, pegar o ônibus ou ir de carro, e perceber que a nossa cidade não se limitava ao meu bairro, ao meu distrito. Era uma coisa muito gigantesca. Depois, indo para Minas Gerais ou para o interior de São Paulo, eu fui ter a dimensão do quanto que era assustador, mas ao mesmo tempo curioso – me instigava a conhecer outros lugares. Foi isso que trouxe essa questão de conhecer novos lugares, de ir além. O lugar mais distante que eu fui – não na minha adolescência, mas enquanto adulto – foi Medellín, na Colômbia. Aí eu tomei outra proporção de dimensão. A gente não fica só refém das informações que recebe, mas naquela época era bem mais difícil.
(40:55) P/1 – Você já tinha essa veia de articulação? Como você lidava aqui dentro do bairro?
R1 – Como eu já era uma pessoa conhecida, mas muito tímido em alguns pontos, era um lugar que eu mediava tranquilamente. Aí surgiu uma pessoa na minha história, que é a Regina. A Regina cuidava de um espaço que era uma biblioteca, um antigo projeto chamado Espaço Cultural Pantanal. Ela me trouxe em 2002 para conhecer esse espaço. Dentro desse espaço eu comecei a trabalhar na manutenção.
(42:00) P/1 – Quantos anos você tinha?
R1 – Foi há 24 anos atrás. Eu tinha uns 19 para 20 anos.
(42:15) P/1 – Como era esse espaço nessa época?
R1 – O Espaço Cultural Pantanal era um galpão e tinha uma casinha para o lado de fora, um terreno aberto. Ali havia atividades mais voltadas à educação infantil no período da manhã e tarde. À noite, tinha escola do EJA – Educação de Jovens e Adultos. Por acaso, a convite de uma das educadoras, da coordenadora, eu me tornei educador do EJA. Comecei a ensinar a galera mais velha a ler e escrever. Mas eu comecei através de um convite da Regina. Eu trabalhava na Companhia Bandeirantes de Energia, subia nos postes e arranha-céus enormes na cadeirinha. Eu puxava o cara na cadeirinha até ele chegar lá em cima, depois tinha que me puxar levando ferramentas e instrumentalizando. Minha mãe falava que era loucura. Eu achava radical pra caramba, era “dahora”. Minha mãe, conhecendo todo mundo, a Regina falou: "Ó, tem uma vaga lá na manutenção. Eu acho que encaixa bem seu filho". Minha mãe: "Põe lá, pelo amor de Deus". Fiz a entrevista, me gostaram, entrei na manutenção. Depois virei educador do EJA. Depois veio a estruturação do Instituto Alana, com CNPJ e tudo mais, e com a missão que até hoje nos honra – honrar a criança, uma missão linda que eu acredito muito. Fui evoluindo e passando pelos processos. Fiquei educador de educação infantil, também por convite de uma diretora que foi reformulando esse espaço. O galpão foi deixando de ser só o galpão cultural e foi se criando uma outra estrutura, sendo expandido. Essa educadora viu a relação que eu tinha com a criançada, principalmente com os pequenos. Eu estava lá fazendo o furo, a criançada olhando, fazia o barulhinho, terminava o furo, ficava na altura deles, perguntava: "E aí, gostaram?" Aí a molecada “Sim” e eu colocava a prateleira no lugar. Então a diretora falou: "Luiz, você tem tudo para ser um educador. Vamos lá, vamos estudar pedagogia, vamos evoluir". Foi ela que me galgou para isso. O estranho foi que quando eu virei educador, tive que sair da manutenção. Eu ganhava mais na manutenção do que as professoras da educação infantil. E não tinha homem na educação infantil – era mais uma barreira. Eu, tímido pra caramba, falava: "Como vou me dar com isso?" Mas sei que lá na frente vai se dar. Conversei com meus pais. Meu pai falou: "Vai, cara". Minha mãe: "Pelo amor de Deus, sai da manutenção, vira educador. Você vai evoluir, dali pode ir para outras instituições". Tive que fazer uma carta de próprio punho diminuindo a minha renda para poder me encaixar naquele perfil. Um pouco depois veio a profissionalização dos educadores infantis, e aí teve ajuda para concluir a universidade. O salário melhorou – eu ganhava bem mais do que o cara da manutenção. Teve uma evolução muito grande nesse sentido.
(45:54) P/1 – Foi um passo para trás para depois ir para frente.
R1 – Mas estava conciliado com a educação. Nessa época, eu fui o único educador do sexo masculino. A diretora foi muito gentil comigo, me deu uma parceira chamada Regina Nugerini, que era uma das mais velhas educadoras infantis. Me colocou no minigrupo, crianças maiores. Aprendi com ela, estudei, evolui. Depois passei nesse grau de evolução: fiz um processo, virei professor. De professor de educação infantil, fiz um processo interno novamente para assistente de coordenação. De assistente de coordenação, coordenei um último ano em parceria com uma pessoa chamada Heloísa, que me ensinou bastante a questão da direção. Virei coordenador junto com ela deste núcleo de recreação e cultura, o Nureca. Passei a cuidador e responsável pela brinquedoteca. Atualmente, sou articulador e urbanista do projeto Urbanizar, que tem a missão de desenvolvimento local e regularização fundiária da comunidade do Jardim Pantanal.
(47:35) P/1 – Vamos voltar um pouco. Quando veio esse convite para ser educador, o que você sentiu?
R1 – Muito medo. Uma coisa é você estar com a criança brincando com uma, duas ou três. Outra é você estar numa sala com 15, 20. Mas a diretora foi muito sensível ao ponto de me colocar junto com uma pessoa mais experiente. Trabalhávamos meio período – seis horas –, e eu conseguia estudar tranquilamente. Ficava o período da manhã na universidade, período da tarde no trabalho. Quando não tinha aula, às vezes dobrava o período. Então ficava de manhã e à tarde, dependendo da dinâmica. Mas o convite veio e me despertou para a educação, me trouxe para o curso de pedagogia, para esse cuidado e cuidador. Foi um convite assustador inicial. Ser o único homem me trazia outro peso – muitas mulheres devem ter sofrido quando a profissão era masculina também. Eu sofri o contrário. Por ter morado com sete irmãs, facilitava o convívio feminino, mas não eram minhas irmãs que me davam mole, eram educadoras que levavam aquilo muito a sério. Me estruturaram também a seriedade do trabalho. Eu não era só um cuidador de criança, eu era um pedagogo, um educador infantil. Estava ensinando aquela criança para que ela pudesse evoluir. Isso foi um ganho muito grande. Uma coisa que me chamava bastante atenção era a educação através do cuidado, mas também da convivência social, do brincar como pilar. A gente tinha muita liberdade, era uma educação diferenciada. Tinha suas pedagogias – Waldorf [pedagogia humanizada criada pelo filósofo Rudolf Steiner em 1919], [Jean] Piaget [biólogo e psicólogo suíço, criador do Construtivismo], [Lev Semionovitch] Vygotsky [psicólogo, proponente da Psicologia histórico-cultural]. Estudávamos muito isso. Eu não via isso na faculdade, via na prática. Era muito desafiador. Como tudo na minha vida foi desafiador e me deu medo inicialmente.
(50:10) P/1 – Como foi o primeiro dia quando você entrou numa sala?
R1 – Assustador novamente. Aquela molecadinha de manhã agitada, gritando. Era logo no início do ano, estava um pouco chuvoso mas não frio. Eram crianças diversas, de várias realidades. Não eram duas ou três, eram 15 a 20. Nessa sala tinha uma menina que lembro do nome até hoje: Sara. A Sara tinha síndrome de Down e era a criança mais difícil para se relacionar. As educadoras tinham um certo trabalho com ela, porque ela era agressiva, tinha falta de comunicação, queria colo o tempo todo – isso cansava. Entrar no primeiro dia, olhar para todas as crianças e ver a Sara botando terror, foi assustador pra caramba. Mas, ao mesmo tempo, teve aquela tranquilidade da Regina: "Luiz, vem cá, deixa eu te explicar uma coisa. Tem algumas regras. Você tem que entender isso. Como a gente não tem educador do sexo masculino aqui, não é legal você estar sozinho com as crianças, principalmente na hora do banheiro. Me chama ou chama uma educadora". Mas eu falei: “Tudo bem, vamos lá”. Teve o desafio da primeira troca de fralda. Mas logo depois veio o nascimento da minha filha, então isso se tornou mais fácil. Meu medo era mais com as meninas, pela delicadeza de limpar, trocar a fralda. Os penteados nunca acertei na minha vida. A Regina ficava doida comigo: colocava um penteado para cá, outro para lá, eu não desembaraçava os cabelos. Ela falava: "Luiz do céu, o que eu faço com você? Cuida mais dos meninos". Eu falava: "Tudo bem, mas e as meninas?" "Na hora de pentear o cabelo deixa comigo, do resto você faz". Tinha que trocar, cuidar, alimentar. Era muito legal. As brincadeiras que ensinava eram formidáveis. Mas foi um choque para mim, cultural, e também para os pais. Acho que o primeiro dia que entrei na sala, que a Regina me acolheu, que teve tudo isso, e que a Sara se apegou comigo – eu lembro que a diretora e a coordenadora brigavam muito comigo: "Deixa a Sara mais no chão". Eu falava: "Não, mas ela vem, me abraça, eu não consigo soltar ela". E aí ela se apega, e eu sei que ela é preguiçosa para andar, quer ficar, mas ela tem que andar. A primeira criança que eu fui entregar na porta, a mãe deu um passo para trás, deu aquele respiro forte – um cara de um metro e oitenta e quatro, um metro e oitenta e cinco, magro na época, uns oitenta quilos, entregando o filho, a filha. Foi meio assustador para elas também. As mães davam risada, e eu ficava meio sem saber o que fazer. A Regina: "Você vai vencer essa timidez. Vai lá e entrega". Ela me colocava justamente nos papéis piores: "Ah, tem cocô, a criança vomitou, vai lá, Luiz, limpa". Eu via as minhas irmãs me colocando para fazer as coisas, a Regina fazendo aquilo. O primeiro dia foi muito assustador, inesquecível.
(54:04) P/1 – Como foi vencer essas quebras de preconceito dos pais, entender sua própria capacidade?
R1 – Foi um desafio inicial. Como todo desafio, você tem que lutar para vencê-lo, ou ele vai te vencer. Fui cercado de pessoas maravilhosas que me ajudaram muito a evoluir como profissional, na sua maioria do gênero feminino. Isso facilitou bastante, mas ao mesmo tempo distanciava por conta do preconceito inverso: "É um homem tomando conta da minha filha". O que vem inicialmente é agressão, abuso – por causa da natureza do homem, que não é de delicadeza. Eu nunca fui delicado. Então eu trazia isso como um ensinamento de um pai – eu tinha o espelho do meu pai em casa, então fazia isso lá também. Colocava algumas seriedades nessa tratativa. Foi extremamente difícil, desafiador. Depois, com o tempo, essa diretoria, que era muito sagaz, colocou outros homens para trabalhar. Veio o Eduardo, outro educador, aí já não era mais só eu. Tornou o ambiente mais tranquilo. Inicialmente foi muito desafiador, quebras de barreira que eu nunca achei que ia vencer. Teve uma situação num passeio no Bosque Maia, em Guarulhos, levando a molecadinha maior do minigrupo 3, os maiorzinhos de quase 5 para 6 anos. Estou lá no banheiro trocando as crianças e ouvindo risadas altíssimas. Pessoas me olhando, e eu lá, naturalmente, trocando as crianças. Quando saio com uma turminha de mais ou menos cinco crianças, a diretora parada, com os braços cruzados, cara seríssima, parecendo que eu tinha roubado um banco. Ela me condenando: "Luiz, você não percebeu que é um banheiro feminino?" Eu falei: "Educador não tem sexo". Ela: "É mesmo. Mas evita entrar no banheiro feminino. Quando for para trocar, se forem os meninos, troque no banheiro masculino; a troca das meninas deixa por conta das educadoras". As minhas parceiras eram muito acostumadas que eu trocasse por causa do peso, era uma questão típica, não só de força, mas também para que eu ganhasse mais experiência. Elas me colocavam muito à frente. Eu não achava abuso, era o contrário, era ensinamento. Enquanto novatas entravam e saíam com muita facilidade, eu permanecia justamente por entender que aquilo era ensinamento. É claro que a gente sacava quando era abuso – "Não, mano, por que ela nunca leva a Sara no banheiro? Por que nunca faz isso? Agora eu vou pagar para fazer, para ver qual é". A gente tomava alguns passos. Mas esse momento do banheiro me marcou bastante. E essa minha fala repercutiu bastante, porque ela usou isso em alguns discursos dela: "Estava com o Luiz num passeio, ele saiu do banheiro feminino e quando fui questioná-lo, ele falou que era educador. Ele não se via como homem ou como mulher, mas como educador realizando um trabalho". Então isso era bacana de ver. Eu virei referência um tempo nesse sentido, mas era extremamente desafiador em todos os sentidos. Educação infantil, mesmo como pai – na questão paterna, eu sou mais educador do que pai. A única coisa que realmente abominei até os meus filhos foi bater. Minha mãe me batia muito, então eu sabia que batendo eu resolvia – ao ponto que eu aprontava piores, então aquilo não servia como parâmetro e sim a educação. A educação através do brincar, da transformação foi fazendo. Outra situação que me ensinou bastante: no curso de pedagogia, ter mais ou menos 50 mulheres numa sala e dois homens – eu e mais um. A gente falava: "Vamos ficar perdidos aqui". Pelo contrário. Eu falava: "Acho que não vamos ficar perdidos. Acho que elas vão acolher a gente e vão colocar a gente para trampar. Se prepara que a gente está lascado". O outro parceiro não durou mais do que um ano no curso de pedagogia; eu fui até o final. Tive muito ensinamento com questões mais voltadas ao sexo feminino em aprendizagem, liderança, tudo – isso não foi barreira.
(59:49) P/1 – Como foi entender que, a partir dessa oportunidade, você queria seguir isso como profissão?
R1 – Foi nesses processos que o Instituto Alana me cedeu, me colocou para ir evoluindo profissionalmente. Meu próximo passo, quando virei professor, foi porque eu tinha o diploma de pedagogia. Isso me possibilitou sair de educador para professor. Fui professor sem função – onde tinha falta, ia substituir, era um “volante”. Eles chamavam desse apelido os professores sem função. Então a gente ficava onde a professora faltava. Mais uma vez, desafiador pra caramba: você entrar numa sala que não conhece os alunos, não sabe quem são, não sabe a característica, conta muito com o que o outro fala, mas precisa ter o seu próprio julgamento. Então isso me trouxe uma evolução profissional. Depois de assistente de coordenação, coordenando um núcleo com coordenadoras referência e com mecanismos, isso me ajudou bastante. Me lembro muito bem de todas as coordenadoras que eu tive, mas a Patrícia Lacombe no Nureca, a Joana, que também coordenou esse núcleo - ela era professora e tornou-se coordenadora - e depois me passou o bastão. Coordenei junto com a Heloísa no último ano do Nureca, porque o Alana estava mudando de filosofia de trabalho – deixando de ser assistencialista para fazer "com" e que passou por mudanças estruturais. Então tinha questões de deixar de ter um núcleo de recreação e cultura que era um núcleo de contra período escolar, que atendia mais de 300 crianças. Mas em compensação a gente trabalhava mais próximo das lideranças comunitárias. Houve uma transformação muito grande. Dentro desse processo, houve um incêndio de um prédio do Nureca – um anfiteatro que a gente chamava de ninho, porque parecia mesmo um ninho de passarinho, feito de madeira. Tinha umas questões de acolhimento muito grande. E ele pegou fogo no final de 2023. Mudou a tratativa de trabalho, não tinha mais espaço e tinha que mudar. Veio esta nova construção, feita pelo Rodrigo Ohtake, filho do Ruy Ohtake (que fez os parques do Jardim Helena e do Biacica). E o Rodrigo fez essa estrutura. Por isso a gente tem a marquise, toda essa estrutura que lembra os trabalhos da família Ohtake.
(01:03:07) P/1 – Esse espaço é recente na história do Alana?
R1 – Sim, foi inaugurado em 2015, após o incêndio e a reformulação. Um espaço com biblioteca, brinquedoteca, sala multiuso para cinema e para a Banda Alana que permaneceu nesse processo, que multiplica a cultura através da música e desenvolvem atividades lá. Esse espaço tomou o nome de Espaço Alana. Eu terminei cuidando da brinquedoteca, porque fiz um curso de brinquedista com a Nylse Cunha, a protagonista das estruturas de brinquedotecas no Brasil. Ela trouxe essa ideia dos Estados Unidos – inicialmente brinquedotecas hospitalares, depois para outros espaços, até virar política, com brinquedotecas nos cursos de pedagogia. Um espaço de brincar e estudo. O espaço de brincar não é mais “vai lá e brinca” e sim “vai lá e brinca” com tom mais sério. O espaço de brincar é um espaço de cuidado, educativo, de ensinamento. Com essa reformulação, veio a necessidade do trabalho com as lideranças, com a comunidade. Em 2008, iniciou o projeto Urbanizar, com a missão de regularização fundiária e desenvolvimento local da comunidade em todos os aspectos, sempre honrando as famílias com a titularização, que traz infraestrutura como mudança principal para a cidade de São Paulo, como qualquer outro bairro estruturado. O Jardim Pantanal é privilegiado por isso. O projeto foi iniciado com a Juliana, uma advogada que depois saiu. Entrou a minha chefe, Leila Vetramento, geógrafa de formação, que veio coordenar e trouxe com ela a Isabela Minelli, advogada, minha parceira na parte de incidência política. Eu fiquei com a articulação, porque ela precisava de alguém que conhecesse o território. Então sair da brinquedoteca e vir para o Urbanizar fazer articulação e mediação com as lideranças e com o poder público local era mais fácil, porque eu já tinha conhecimento do território – conheço as ruas, a estruturação, a comunidade. Isso facilitava. Conhecia alguns dos alunos também e isso facilitava a tratativa. Depois desse projeto, a gente criou o plano de bairro, um dos primeiros da cidade de São Paulo. Durante a estruturação aconteceu a pandemia e a gente teve um plano emergencial de controle das chuvas de verão, mapeamos os lugares de inundação, alagamento pela comunidade, respeitando o afastamento. Fizemos esse processo junto com o IAB – Instituto de Arquitetos Brasileiros – de São Paulo. Veio a Laís Avelino, uma mulher negra periférica que mora no Jardim Romano, com uma história lindíssima. Ela, enquanto arquiteta, trouxe a visão do urbanismo, da arquitetura e da transformação territorial. Fizemos o plano de bairro unidos com toda a equipe também, eu lembro da Márcia (comunicação na época) e do Ronaldo Adriano com questões administrativas. Éramos uma equipe coesa – inicialmente três, depois com a Laís quatro. Brincávamos que éramos os quatro mosqueteiros. Atualmente, a Leila assumiu a gerência do processo de natureza institucional, ela foi fazer uma parceria com o Jota Pê e nós estamos nessa aba. A Urbanizar está no processo da natureza e ela nos coordena, trouxe a possibilidade de crescimento profissional, permitindo que eu fizesse a pós-graduação em Urbanismo Social pelo INSPER em 2022. Consegui entender melhor o meu trabalho de desenvolver questões urbanísticas na comunidade, sempre respeitando as características do lugar. Meu trabalho foi todo voltado à periferia, ao Jardim Pantanal. Conheci outras periferias do Brasil. Fomos a primeira turma física do curso, tinha outra turma mas era online por causa da pandemia. A turma de 2020/2021 e no ano de 2022 eu entrei no curso de Urbanismo Social e a Laís veio em 2023/2024. Somos formados pelo INSPER.
(01:09:14) P/1 – Essa questão de ser articulador vem do trabalho do Urbanizar?
R1 – Sim. Fui contratado justamente para isso. A Leila é geógrafa, a Isabela Minelli é advogada. Precisava de alguém com conhecimento local. Sou articulador comunitário, articulador social, articulador urbanista. Vim com essa missão de articular lideranças comunitárias e entender o processo da comunidade como um todo, trazendo questões urbanísticas de melhoramento: infraestrutura, mobilidade, saúde, educação, questões climáticas – porque a gente está num lugar afetado por chuvas severas, inundações, alagamento, mas também quando não está chovendo é seco, trazendo questões relacionadas ao calor. Mas tem questões que envolvem o público local. Tenho conhecimento com diretores de escolas, gerente de UBS, com a subprefeitura de São Miguel, que nos gere. Passei por quatro, cinco subprefeitos – sempre, quando ia me apresentar novamente, eu falava: "Não me importa quem estiver sentado na cadeira, eu vou levar você para a minha vida, mas vou tratar com outro. Não tenho questões políticas". O Alana traz essa liberdade por não ter vínculo político, é apartidário e termina lidando com todos, em todos os âmbitos. A articulação vem também por conta de mediações de conflito, que eu trago da educação. Faço também um pouco de incidência política – tratativas com secretarias: SENAC [Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras], Cehab [Companhia Estadual de Habitação e Obras], Secretaria da Subprefeitura, Secretaria do Verde e Meio Ambiente. A Leila gerindo, a Isabela na parte jurídica fazendo advocacy, e a gente fazendo as outras tratativas individuais dos outros projetos. Então nós vamos elencando e somando.
(01:11:57) P/1- Como funciona o Urbanizar? O que vocês trabalham? Quais são as demandas que a comunidade traz para vocês? O que vocês trazem de volta? Eu queria entender um pouco mais.
R1 - Como eu disse, o Urbanizar tem por missão a regularização fundiária e o desenvolvimento local em todos os seus âmbitos. A transformação social não vem só através da escritura, ela vem através do melhoramento urbano. E aí vêm as questões com a Secretaria do Verde e Meio Ambiente de arborização, de melhores espaços de arborização que não fique restrito só aos dois parques que nos cercam. Então dentro da comunidade, com árvores e outros plantios, na Secretaria de Infraestrutura, a melhoria em questão do asfaltamento, da microdrenagem, da macrodrenagem, das guias sarjetas pela comunidade. Vou voltar um pouquinho antes. Também o que trouxe essa estruturação foi o plano de bairro do Jardim Pantanal. Inicialmente foi o plano emergencial, pós-pandemia, a primeira fase. A primeira fase do plano de bairro traz os sonhos dos moradores, a gente ouviu os moradores na íntegra. Então não só as lideranças, a gente foi para dentro de igrejas, de escolas, aqui trouxemos bastante técnicos também para nos ajudar, e o iLAB ajudou também com essa estruturação. Mas eu e a Laís, Leila e Isabela, a gente lidou com essas questões de entender os sonhos. Depois desses sonhos, a gente fez a segunda fase do Plano de Bairro, que era colocar em prática esses sonhos. A gente instrumentalizou as lideranças para que pudessem ir a audiências públicas, pedir participação, também participarem de conselhos. Atualmente eu sou conselheiro de ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social). Também sou conselheiro dos parques, tanto do Jardim Helena quanto do Biacica. Então a gente tem essas tratativas de instrumentalizá-los para que eles possam buscar essas melhorias. A gente hoje tem uma linha de ônibus que atravessa a comunidade, mas é a única que está atravessando entre as duas estações do Jardim Helena e Vila Mara. Temos o ganho da UPA do Jardim Helena, que a gente teve que imobilizar a antiga UBS do Jardim Lennon para dentro do parque do Jardim Lennon, então hoje ela está estruturada lá dentro, mas aquele espaço foi reestruturado para que a UPA fosse construída e a gente tem uma UPA nível 3, que também funciona como mínimo hospital. Uma gestante que vinha ter a luz, ela não vai fazer toda a tratativa lá, mas em um momento de emergência ela pode ir até ali, vai ser socorrida com cuidado. Então tem essas questões. Fora isso, as questões educacionais também, instrumentalizando, através do Comitê Infanto-Juvenil, novas lideranças, colocando a criança e o adolescente como protagonista para a busca dessa melhoria de infraestrutura e de melhores condições de bairro e de tudo mais. Então a gente está nessas tratativas.
(01:15:47) P/1- Quando você estava falando que a primeira coisa que vocês fizeram para criar o plano de bairro foi ouvir os sonhos, que sonhos eram esses?
R1 - A sua maioria era ter asfalto, porque as ruas enlameadas, principalmente na chuva, traziam transtornos. A pessoa tinha que andar com dois sapatos para poder passar, para quando chegasse no asfalto tirar aquele e colocar na sacolinha, carregar e colocar um tênis limpo. Então eles pediam muito isso, canalização. Uma das coisas que a gente também ajudou foi a tratativa com a Sabesp, com o Banco Mundial. A gente fez uma carta para o Banco Mundial, a instituição, para que o recurso viesse e para que a Sabesp pudesse fazer a tratativa do saneamento básico, que também era um sonho da comunidade. Praticamente 98 a 99% da comunidade é atendida pela rede de esgoto e água tratada pela rede Sabesp. Então isso veio através desses sonhos. O asfaltamento, o saneamento básico, a mobilidade. Ainda estamos pedindo a expansão nas estações do bicicletário, porque como você anda muito de bicicleta até a estação, precisa ter um aumento. Não sei se vocês já viram, teve até um noticiário que passou um tempo atrás de uma bicicleta que foi amarrada em cima de uma árvore, cadeada lá em cima de uma árvore. Olha só para que a árvore serviu, não só para dar sombra, frutos, mas para servir também de poste, porque a pessoa não tinha vaga lá dentro. Então tem essas coisas que a gente ainda está buscando melhoramento. Também temos um projeto que foi feito com a Escola British Council, que é da Inglaterra, junto com o CoCriança, o Prototype, que é um projeto na própria rua das escolas. Tem um mobiliário que foi feito e desenhado pela escuta com as crianças através desse parceiro, que é o CoCriança e o Instituto, e o Urbanizar participou. Eu, junto com a Laís, a gente participou de todo o processo, na equipe em si, mas a gente ficou mais ali junto com eles, de ouvi-los entender que precisavam de um mobiliário que servisse para andar de skate, para o idoso sentar, então tinha que ter um espaço verde ali também, de plantas, tinha que também servir para subir, escalar, então servia como um instrumento de parkour, mas instrumentalizado com alvenaria. E a alvenaria traz o cinza. E as crianças pintaram, os adolescentes pintaram do Comitê Infanto-Juvenil. Também teve a participação nas escolas baseadas na natureza, que iniciou um projeto piloto inicialmente aqui na Escola Virgílio. Porque essa escola, por acaso, a gente tem um comitê lá, não é à toa, é uma escola que possui um grêmio estudantil ativo e um diretor que abre as portas, é uma escola de portas abertas. Muitas vezes você chega na escola e vê só os portões, mas ele sempre está abrindo as portas, então abre para esses projetos. A escola tem um fundo lá que tem uma estruturação não só cinza, mas estrutural com plantas, com tudo, com morro para a criança subir e descer, com um laguinho que tem lá que a criança possa deslumbrar, mas que o peixe também come os insetos que ali tentam procriar, é uma coisa bem ativa. Então a gente tem essa parceria com a escola e tem esses projetos que foram feitos ao decorrer e hoje a gente está no plano de adaptação de mudanças climáticas em parceria também. A gente faz muita parceria com universidades, então tivemos parceria com a Mackenzie, com o Unibairro, que era um atendimento jurídico, de orientação jurídica, eles não atendiam, orientavam os moradores com as suas dúvidas a buscar os equipamentos ou a tomar melhores soluções sobre aquilo. Também tivemos um trabalho com a USP, muita parceria com a USP, no sentido de trazer estudantes e também estruturamos um guia de águas, que foi uma parceria com a Universidade da Paraíba e da USP, e a gente participou ali. Fomos até a Paraíba também conhecer o rio e toda a sua estrutura. E eles também vieram até aqui conhecer o Rio Tietê, toda a sua estrutura, o seu viés, que nos corta. Tivemos também parceria com o INSPER, através do curso de urbanismo social, e outras universidades como FGV, Escola das Cidades, e tantas outras. Então a gente sempre está ligado com as universidades e fazendo parceria com as lideranças comunitárias envolvidas nesse bolo.
(01:21:20) P/1- O que é o Guia das Águas?
R1 - Eu preciso de uma resposta mais reformulada. Mas, a grosso modo, é isso. Uma parceria entre as duas universidades, da Paraíba e da USP de São Paulo, e o Alana fez uma mediação ali junto, entrou com um dos atores, mas eles tiveram o protagonismo de falar sobre o rio Paraíba e o rio Tietê. A gente estudou os dois qual era a fluência, o que trazia de semelhanças e contradições entre os dois, das margens. Eu tenho que citar também o professor Pedro Jacobi [pesquisador e professor da USP], que é o nosso grande parceiro, que sempre está trazendo a USP para o território e faz esses meandros, e é ele que ficou à frente desse projeto, junto com a Leila, que por acaso também é doutorada lá na USP.
(01:22:22) P/1- Sobre a atuação do Urbanizar, dentro desse projeto, como você enxerga hoje a relação – diferente da que você tinha, imagino – das pessoas que estão no território com os rios, com os lagos, com toda essa relação de água que envolve o Jardim Pantanal?
R1 - Os lagos não existem mais, nem as lagoas, já foram todos aterrados e existe moradia. A gente tem os córregos que deságuam aqui, principalmente o córrego da Água Vermelha, que provém do Itaim, e ele tem uma decisão muito maior do que o rio Tietê em questão de enchente, alagamentos, empoçamento e tudo mais. Vejo o rio, essa relação da comunidade, principalmente das lideranças, com a mesma beleza que a gente traz do rio, a gente traz a preocupação, então o cuidado com ele é essencial, e traz as lideranças para essa aproximação com o diálogo com o poder público. Sai de uma invisibilidade para uma visibilidade, para uma tratativa de cidadão mesmo e de liderança reconhecida. Quando se tem uma enchente, um alagamento, são eles que fazem a tratativa com a defesa civil, com o poder público, com o poder público local, com a subprefeitura, com a SMADS (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social), com o ganho de colchões, alimentos e tudo mais. Mas como faz se a casa dela estiver alagada? Como ela se alimenta? Então tem as cozinhas solidárias, que são alimentadas por essas lideranças, por esse recurso. Então a gente entende que hoje, com o urbanizar no território, ele traz um diálogo facilitado para o poder público fazer suas tratativas e seu melhoramento aqui dentro, em todos os seus âmbitos. Não é à toa, duas semanas atrás, se não estou enganado, foi feita a titularização de algumas moradias que foram cadastradas em 2024. Em junho de 2024, e agora no mês de maio, no início deste mês de maio, foram titularizadas. Então ela tem um reconhecimento de fato da sua moradia. Porque a escritura traz esse ganho: agora pertenço realmente à cidade, esta casa é minha. Não é só a invasão, ele não está só ali usando aquele espaço, agora é dele. A gente reconhece que isso traz a transformação, traz a dignidade, traz essa possibilidade dessa cobrança maior e de pertencimento à cidade e o direito a ela.
(01:25:32) P/1 - Nesse sentido, qual é a visão que se tem do Jardim Pantanal em relação a mídia. É um lugar que passa por muitos enfrentamentos de inundações e, às vezes, como a gente estava comentando, colocam o rio como um grande vilão. Como a população que vive aqui enxerga? Como você vê isso? Eles enxergam como um grande vilão? Existe um trabalho de tentar mudar essa mentalidade? Como é a relação com o rio?
R1 - No início do trabalho, eles tinham muito essa relação de medo. Não é nem de entender que é uma situação de amor e ódio. Ele não é o grande vilão. Mas eles entenderem que o fluxo maior do que acontece é por conta da declividade do território. A gente está numa área mais baixa, e querendo ou não, a sua fluência vinha para cá. Eles conseguiram, nessas tratativas do plano de bairro, nessas tratativas do plano de contingência, do plano de adaptação, de outros planos que estão sendo executados e que foram executados, de entendimento. Acredito que, não vou dizer que a maioria da população da comunidade de Jardim Pantanal – estamos falando de mais de 8 mil famílias e mais de 56 mil pessoas –, não estou dizendo que todos, mas principalmente as lideranças entendem isso com facilidade e conseguem lidar com mais tranquilidade. Hoje a gente passa por um processo que, do mesmo jeito que está enfrentando a regularização fundiária com a titularização, está tendo pessoas que foram removidas do seu espaço para o projeto Renova Pantanal, que é da Prefeitura, de desapropriar um trecho que está muito próximo do leito do rio para uma construção de um muro-gabião, para que tenha um limite do rio que foi invadido por moradias. E essas pessoas foram indenizadas ou estão em auxílio-aluguel ou aguardando moradias. As lideranças são os intercomunicadores e comunicadores com toda a comunidade, eles terminam levando essas informações, e hoje o entendimento é melhor. Quando se chove, se tem o medo de que pode vir a alagar, pode vir a encher, mas que está cada vez diminuindo mais. Hoje a gente também tem a tratativa do desassoreamento do rio, isso está ajudando muito o fluxo da água, mas temos que continuar cobrando do poder público que isso não seja feito só agora, mas sim sempre, para que tenha limpeza e não responsabilize só a comunidade, porque o poder público responsabiliza muito os moradores como vilões e na maioria das vezes eles não são. É o que acontece: no alto da bacia vem até aqui, termina alagando, termina trazendo a sujeira, termina obstruindo o canal. É nesse sentido. Mas a gente ainda luta por melhorias, luta por melhoramento da microdrenagem que ainda não terminou as obras, e pela macrodrenagem, até mesmo utilizando pensamentos como a Alana sempre traz, conciliando com a natureza. Que tal sair do cinza e vir para o natural? Piscinões, ao invés de serem cinzas, serem naturais com reservatórios. É claro, tem grandes estudiosos, temos a Riciane do Guajava, Pedro Algodoal, que é um técnico que presta serviço à SIURB, e, é claro, levando em conta o bom diálogo do Secretário [Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras da cidade de São Paulo] Marcos Monteiro, que sempre nos recebeu no seu gabinete, no seu escritório, e sempre foi solícito às nossas demandas, mas, às vezes, essa solicitação não chega até a engenharia que executa a obra. A gente pede que seja, e a gente entende que a população reconhece isso. Com toda essa mudança que a comunidade sofreu ao decorrer desses anos, eu acho que teve um crescimento muito grande de também entender: quando chove, quando alaga, quem a gente tem que procurar, como ter que procurar. Tudo isso a gente está instrumentalizado e está se instrumentalizando cada vez mais. E também está tendo essa política de olhar para a comunidade e olhar para as lideranças e reconhecê-las como ponto pilar para que o trabalho do poder público seja feito com mais tranquilidade. Mas a relação com o rio eu acho que ainda está nessa de entendimento. Eu acho que está na relação de amor e ódio, não só nessa parte, mas também de cuidado, de retomada com belezas. A gente vê a margem com árvores, com seus plantios, com as suas plantas, e entender que aquilo é um fluxo natural. Mas sempre nesse consenso: poder público, lideranças, instituições parceiras, universidades, em todos esses âmbitos.
(01:31:12) P/1 - Eu queria voltar, mas a gente já retoma isso. Quando você começou a ser educador, qual era o Jardim Pantanal que as crianças tinham?
R1 - Era um Jardim Pantanal com mais liberdade, com mais espaço, com mais verde. Era um Jardim Pantanal mais natural. Hoje é um Jardim Pantanal construído, mais individualizado, mais perigoso, por conta do aumento da criminalidade. Apesar que o Jardim Pantanal é pacífico, você pode andar pela comunidade tranquilamente, ela não tem nenhuma criminalidade fora da vulnerabilidade agressiva, coisas do tipo, é pacífico mesmo aqui. Então trago isso como positividade, apesar de que a cidade de São Paulo é cercada por todo esse âmbito, principalmente a cultura periférica. Mas também uma parte cultural que foi restabelecida. Da criança em si, enxergando enquanto educador, era isso: da natureza, da liberdade para uma coisa mais cinza, mais individualizada, menos liberta. Porque tem essa questão: quando se tem a sua individualidade, e também querendo ou não, temos na comunidade muitas mães solo. Elas têm que sair de casa para trabalhar. E com quem ela deixa os filhos? Muitas vezes ela deixa o irmão maior cuidando do menor. Não tem aquela tratativa como tinha na minha época, que eram outras mães cuidando da gente. Tinha aquela cultura do pai trabalhar e a mãe permanecer em casa, ou a mãe cumprir um emprego, um comércio local para pertencer ao local. Então tem muito isso. Eu vejo como um grande diferencial.
(01:33:24) P/1- Desde a primeira reestruturação da Alana, com essa missão de honrar a criança, qual era o objetivo de vocês? Não institucionalmente, mas o trabalho de vocês em prol da comunidade, como funcionava? Era um espaço de educação?
R1 - Era um espaço de educação, era mais voltado à educação e seus projetos. A gente funcionava naquela época por núcleos. Tinha o Núcleo de Recriação e Cultura, que era o Nureca, o Núcleo de Educação Infantil, que era o SEI, o Núcleo de Assistência Social, que era o NAS, o Núcleo de Convivência ao Idoso, que era o NCI. A gente tinha um núcleo de iniciação profissional que era o NIP. A gente trabalhava por núcleos, era um atendimento mais assistencialista e atendia em média mais de duas mil pessoas por dia, entre crianças, adolescentes, idosos, lideranças comunitárias, entre tudo. Mas, com essa nova reestruturação, a gente diminuiu esse trabalho, mas voltou mais à comunidade. A gente voltou mais a esses trabalhos de fortalecer as lideranças, a esses trabalhos fora da instituição, com esse espaço, que é um espaço de lazer. O pessoal, quando fala do espaço Alana, fala que é um oásis dentro da comunidade. Não só pela estrutura, mas porque é esse lugar de brincar. Os pais deixam as crianças livres para virem até aqui. É a confiança que se retoma. São projetos mais voltados à educação, sim, principalmente daquela geração para essa, está nesse grau. Hoje a gente está mais numa questão de desenvolvimento local mesmo, no âmbito de direitos do cidadão, não só de tomada de decisão, mas também de participação social. A gente ouve muito, ouve, transcreve, cria dados, concilia com universidades, então a gente está num patamar um pouco diferente do que era anteriormente. Acredito que essa evolução é positiva. Em todo o seu âmbito vem a positividade conforme o tempo. Olha meu pai, meu pai não tinha telefone, hoje meu pai tem um celular. Olha a evolução. E meu pai tocando na tela do celular, ele tem lá todas as informações. O tempo nos traz essa evolução. Eu acredito que a instituição evoluiu bastante. Além disso, o Instituto Alana é um grande guarda-chuva, que tem vários projetos. Não é só o espaço Alana, que hoje a gente está aqui, é um só, é um projeto. O Urbanizar é outro, mas pertence ao Jardim Pantanal, beira o Jardim Pantanal. Então somos três projetos diferentes, mas todos ligados entre a educação e o direito à cidade.
(01:36:47) P/1 - Qual é o futuro que você enxerga para o Urbanizar, para o Jardim Pantanal?
R1 - Urbanizar a continuidade, porque por mais que tenha a escritura, ainda se tem esse diálogo das disputas políticas territoriais e a questão ainda de infraestrutura também para as lideranças comunitárias em âmbitos não só de formação mas estruturais mesmo. Acho que o Urbanizar pode ajudar muito e ajudar enquanto piloto para outras comunidades, porque o Alana também tem uma coisa bonita que é a transformação, e eu enxergo isso. Em todo o processo que eu vim institucionalmente trabalhando, eu vi o crescimento profissional. E também eu acho que eu tenho que retratar aqui, como eu retratei em toda a minha história, essa participação feminina, e da sua maioria. Elas trouxeram essa transformação. Eu vejo essa transformação como um futuro e o Urbanizar a instituição com a sua continuidade e o Instituto Alana numa continuidade mundial, que está não só no território nacional – já está expandida, com Criança e Natureza, com articulações com a COP, a COP30, não só com políticas como o 227 [projeto que destina parcelas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) para ações de redução de riscos de desastres], em Brasília, e o Advocacy, mas em todo o seu âmbito do território nacional e também mundial. Temos projetos, por exemplo, o "Desliga TV", que foi feito lá atrás, que já não existe, mas a filosofia perpetuou de desligar as telas para que a gente possa ter continuidade da vida fora dela. O Natureza, o Criança e Natureza, os EBNs, Educação Baseada na Natureza, todos esses âmbitos que trazem a nossa relação a voltar e a justiça climática como pilar também é algo que eu vejo não só na comunidade de Jardim Pantanal, mas no território nacional, em todas as suas periferias, e mundialmente. Até mesmo temos um plano, tivemos um lançamento de um livro, Percas e Danos, que conversa com outros territórios, Naiobe, Jardim Pantanal, e depois eu pego a referência direitinho, e tem um outro território. É tão recente esse projeto e eu terminei esquecendo. Mas ele conversa, é uma questão mundial.
(01:39:37) P/1 - Nesses diálogos com Rios e Ruas, a gente pensa nos rios como sujeitos. Então, em vez de eu fazer a pergunta “qual é o seu rio?”, eu faço a pergunta: quem é o seu rio?
R1 - O meu rio é o rio Tietê, que eu ouvi histórias dele limpo, cristalino, onde pessoas nadavam e pescavam, se alimentavam dele, irrigavam plantações. O meu rio Tietê, hoje, que eu conheço, ele é poluído, não é próprio para se alimentar, é um esgoto a céu aberto, mas que devagarzinho ele está sendo despoluído e que eu acredito que futuramente ele vai ser um rio limpo novamente, um rio vivo novamente, um rio que vai trazer uma qualidade de vida a todos que moram. E o Jardim Pantanal, por estar sendo meândrico com ele aqui ao nosso entorno, vai ser privilegiado. E como ele já está sendo, porque querendo ou não, aqui é um lugar que não é tão quente por conta dessa tratativa, porque ele não nos margeia, diferente do Itaim Paulista, que está mais acima, que é o lugar mais seco da cidade de São Paulo, é o lugar mais quente. Então eu sou privilegiado. E eu sonho com o meu rio, como eu estou vendo o rio Pinheiros, que eu passo para vir até aqui. Hoje não sou mais morador da comunidade já há algum tempo, não há algum tempo, mas pouco tempo: três anos, mais ou menos. Eu não moro mais na comunidade, mas venho de uma a outra. Eu moro de frente para o Parque Guarapiranga, vejo a represa Guarapiranga. Vejo aquela represa tão viva, tão limpa em alguns aspectos, alimentando a população, como eu vejo o rio Tietê futuramente fazendo. Como o rio Pinheiros já está sendo descontaminado, eu torço para que isso vá adentrando e nos mediando até onde ele deságua.
(01:41:56) P/1 - E você ouvindo muito os moradores e as lideranças daqui e principalmente das crianças, que histórias essas pessoas têm para contar para o rio?
R1 - Tenho histórias felizes e tristes. História triste é você ver a criança retratar o rio sendo um rio fedorento, que é difícil de dormir por conta do fedor, difícil de dormir por causa do lixo, do esgoto que se passa ali. Isso é triste, mas ao mesmo tempo, quando a criança desenha o rio na folha, ela desenha a água azul, transparente e límpida, viva. Então eu vejo no desenho dela um futuro, um sonho. O que ela traz de mau cheiro e tudo aquilo passa. Acredito que isso vai passar. E com a história dos mais velhos é isso: escutar o senhor Rosivaldo falar para mim que, quando enchia o rio Tietê, trazia peixe para a porta da casa dele. Ele conseguia pegar os peixes, não precisava mais pescar, conseguia pegar com uma pequena rede, um pequeno balde, e aquilo adentrava, trazendo novamente essa esperança das lembranças para um lugar que se consolidou na cidade de São Paulo. Hoje se fala de Jardim Pantanal como inspiração. Não só como uma coisa ruim de alagamento, mas como um lugar de inspiração. Não é à toa que vêm várias universidades para dentro da comunidade para estudar, para entender. Não é à toa que vêm várias secretarias aqui melhorar a estruturação. Não é à toa que o Alana deu esse passo com esse projeto do Urbanizar para justamente trazer esse diálogo para esse espaço e facilitar o trabalho do poder público em questão de tratativas de mediação, que é uma coisa que ainda tem que ser melhorada. Acho que está nesse âmbito.
(01:44:07) P/1 - Se você pudesse deixar uma mensagem para o rio Tietê, que mensagem seria essa?
R1 - Eu deixaria a mensagem do que está desenhado no muro ali fora, que foi, no dia da expedição, a gente trazer um MC para fazer rap, para fazer junto com a galera, alguns trocadilhos. Foi, por acaso, em março, “Águas de Março” me traz a questão da música, que faz dizer, com o meu nascimento, que eu fui tão ligado e não tinha me tocado até agora, que eu estou interligado com tudo isso. O Rios e Ruas me trouxe essa grande surpresa e eu tenho que agradecer muito, não só o José Bueno, mas toda a equipe nessas tratativas. O que eu deixo é aquele espírito que está lá: as crianças brincando à margem de um rio límpido e cristalino que possa estar vivo, e que possa trazer uma infraestrutura melhor para a comunidade. Nas minhas palavras, o que eu trago deste rio Tietê e que eu trago enquanto esperança é esse desenho de esperança de que ele seja tão límpido e vivo quanto se foi e que se possa ser…
(01:45:48) P/1 Que bonito!
(01:45:50) R1 - …valeu!
(01:45:51) P/1 - Mudando um pouco de assunto, você me contou que é pai e que até é avô agora. Qual o nome dos seus filhos, como foi a paternidade, o que a paternidade mudou ou não na sua vida?
R1 - A paternidade mudou tudo o que eu sou. Porque a partir do nascimento da minha primeira filha, Luana, me trouxe um mundo mágico de entender que eu não era só proveniente ou que eu chegaria só para dar um beijo nela à noite, quando ela estivesse deitada, ou pegar ela no colo e brincar um pouquinho. Eu carrego ela dentro de mim e ela me carrega ali enquanto sementinha no seu nascimento. E o Luíde me trouxe vários aspectos também de felicidade e da continuidade. Infelizmente, a minha relação com a mãe deles não deu certo. Eu e a Cátia nos separamos. Eu fui morar em Guarulhos, e aí é uma outra história que eu prefiro não contar, mas posteriormente também conheci a minha parceira atual, com quem eu moro, divido uma moradia junto com a sua filha, a Letícia, que é a Eliane, que me traz uma sustentação. Mas a primeira sustentação, a primeira felicidade que eu tive foi o nascimento dos meus filhos. E outra coisa que estou aprendendo é ser avô, com meu neto, o Pedro, um nome fortíssimo. O Pedro é uma figura que trouxe um gás, uma continuidade para o meu pai muito grande. Meu pai, beirando os 80 anos, sofreu com uma doença por um tempo, uma pneumonia muito severa, que quase chegou a matá-lo. Mas quando a gente ia conversar com ele no hospital, ele falava: “Cadê o Pedro?” Eu falava: “Então, pai, para você ver o Pedro, você precisa sair daqui, cara. Preciso de você bem. Eu estou do outro lado da cidade, preciso de você lá, preciso de você fazendo o processo comigo. Então vamos ver seu neto crescer, vamos ver a sua continuidade lá com a Luana e com o Luíde, aquilo tudo que você me ensinou a ensinar a eles.” Então meu pai trouxe um novo viver. E o meu filho Luíde, a Luana me trouxe a felicidade do Pedro. Mas com o meu filho Luíde ele me trouxe um ensinamento muito forte. Ele teve uma doença diagnosticada num desmaio, que é a MAV, má-formação da artéria cerebral. A gente ficou em pânico, porque ele era uma criança saudável, feliz, alegre e tudo mais. Em 2023, de repente, a gente viveu mais de 60 dias no hospital esperando uma cirurgia que tinha 20% de chance de sobrevivência e que durou 16 horas. Graças à doutora Flávia e ao doutor Bruno, ele conseguiu sobreviver. E aí ele me trouxe um gás de novo. Ele me deu medo, mas me trouxe de novo a esperança de continuidade de vida. Mas em 2025, outubro de 2025, dois anos exatos após isso, no exame, constou que ainda tinha uma continuidade dessa doença, que novamente teria que abrir. Novamente. De 20% caiu para 5% de expectativa de vida. Eu sofri muito com isso. Foi uma cirurgia feita em menos de 15 dias, porque tinha uma urgência que estava causando um colapso muito grande neurocerebral. Ele operou e, graças a Deus, se recuperou muito bem, não ficou com grandes sequelas. Hoje a gente ainda está passando por recuperações, um tratamento extremamente caro, extremamente difícil, mas eu tive ajuda institucional. Foi feito na rede pública. Eu tive o suporte não só da família, mas eu tenho que deixar isso registrado: ele não é meu chefe, nunca foi o meu chefe, ele é o diretor financeiro da instituição, Carlos Vieira. Ele foi o meu amigo, o meu pai, o meu colaborador, e foi o cara que permitiu que hoje eu abrace o meu filho. Toda vez que eu estou aqui no território, eu venho das duas ou às quatro da manhã, chego aqui às cinco para ver meu filho ainda dormindo, dormindo bem, fora de um leito de hospital. Ver meu neto lá, minha filha, meu pai, ver minha família e ver que tem esperança e ter continuidade, e ter uma concepção familiar que nem sempre é aquela pai, mãe, filhos, mas pai, mãe, madrasto, padrasto, filhos, avô, uma bagunça, como a minha vida sempre foi. Era uma bagunça tão gostosa que eu não trocaria nada, não faria nada de diferente. É claro, eu tiraria a doença do meu filho, que era a única coisa que me fez sofrer, mas me fez o homem que eu sou hoje. Eu, quando me descrevia, lá atrás, da primeira vez que pediram que eu me apresentasse, me descrevi como um ogro. Eu falava: eu sou um ogro. Mas um ogro como o Shrek, um cara mais feliz, alegre, descontraído. Eu converso em pequenos grupos, em grandes, com palestras, o microfone não é a minha praia. Eu corro disso como corro da cruz. Eu fico muito nesses âmbitos que me trazem mais conforto. Mas a primeira vez que eu falei que era um ogro, hoje eu já não falo mais isso. Hoje eu me apresento como um pai. A paternidade me trouxe isso. Me trouxe uma evolução muito grande: sair de uma natureza hostil para uma natureza educativa. Hoje eu me considero um educador nato. Não só um educador, mas como um pai, como articulador, como mediador, como tantas e tantas outras coisas. Dentro disso eu ainda fiz marcenaria, então também sou marceneiro nas vagas com o meu tio, que ele é o marceneiro de verdade, eu sou só ajudante dele. Mas eu adoro, enquanto hobby, fazer, construir parque de bambu, mesas, cadeiras, armários e tantas outras coisas. Mas nada me traz mais felicidade do que construir um brinquedo para o meu neto também. Aquele carrinho de rolimã que todo mundo só vê em revista ou na internet, eu já fiz pessoalmente para ele poder brincar, isso traz um querer diferente. Outra coisa que me traz a paternidade na minha história também se liga com o Carlos, com José Bueno e com tantos outros, o Marcelo, um irmãozão que eu tenho até hoje, que também é funcionário aqui, e tantos outros, o Tchola, o Nonato, o Marcos, o Douglas, o Roger, todos os outros homens que são trabalhadores daqui, que trazem as suas histórias. Eu acho que é isso: é a evolução que a gente tem de possibilidades, mas é esse crescimento enquanto educador e pai. As relações vão se misturando com os físicos, que vão se misturando com os alunos, com os educandos, com tudo, que vai fazendo essa volta entre a gente e vai nos unindo cada vez mais, mas através do umbigo umbilical da maternidade, das mulheres e dessa força que eu falei. Até hoje eu sou gerido e tenho, enquanto chefe, uma mulher. Então vou fugir desse âmbito? Deus queira que eu não fuja, que eu me aposente ainda nessa condição.
(01:54:54) P/1 - E quais são os seus sonhos?
R1 - Meus sonhos são ver uma comunidade estruturada, ainda mais estruturada, mais evoluída. Meu sonho é ver meus filhos bem criados, no sentido de felizes, com a profissão, com a sua evolução enquanto ser humano. Meus sonhos estão ligados também com o querer muito grande de sair dessa cidade caótica que é São Paulo, que me traz o meu recurso, mas ir para o interior, para uma casinha de sapé lá no meio do mato. Aquela coisa que eu possa abrir a janela do meu quarto, ver a minha horta, ver uns bichinhos lá que possam me dar o sustento de poder me alimentar: a galinha com os ovos, o porquinho, a vaca para tirar o leite – apesar de não beber leite, só comer os derivados. Isso aí é questão de outras questões. Mas eu sonho com essa casinha de sapê, eu bem velhinho, com os meus filhos, com o meu neto, com a minha atual companheira, e contando essa história de ter morado numa cidade caótica e de ter sobrevivido a ela. Eu acho que todo mundo que vai para o interior conta isso quando sai daqui de São Paulo: “Saí daquele caos e agora estou nessa paz aqui.” Chega a me dar coceira de ficar tão quieto, de ter esse ar sem poluição. Então eu quero um lugarzinho desse, de preferência bem no meio do mato, de preferência com laguinho, com algum rio próximo para também ter essa questão hídrica, que tanto me margeou aqui, que me margeie por lá também, que me leve por lá. Acho que é isso.
(01:56:51) P/1 - Tem alguma história que eu não perguntei e você quer contar?
R1 - Tem várias histórias. Mas em especial, eu acho que todas que eu pude lembrar agora nesse momento eu contei, e outras eu prefiro guardar muito próximo ao peito e deixar que elas me alegrem por dentro e possam me trazer esse conforto. Seriam legais de ser contadas pelas próprias pessoas, não por mim. Eu acho que eu não sou tão digno de contá-las, mas que me marcaram também. Histórias de todas essas pessoas e muitas outras que eu não citei e que eu super agradeço. Agradecer demais o Museu da Pessoa por essa honra de estar aqui contando um pouquinho da minha história. Como eu disse, sou meio encabulado, meio envergonhado. Falar de mim ainda é uma barreira vencida, é mais um desafio aqui contra tantos outros. Mas é isso, eu estou satisfeito com o que eu contei.
(01:58:08) P/1 - E como foi contar um pouco dessa história hoje para o Museu da Pessoa? O que você achou?
R1 - Como eu acho que já falei “desafiador” umas 300 mil vezes nesse discurso, e não tiro dela, é só ensinamento. Eu aprendi bastante com vocês aqui hoje, principalmente em recordar o que eu passei. Parece tão fácil falar de si, falar do que passou, mas a memória vai nos tirando possibilidades de exatidão das coisas e parece um grande sonho, uma grande margem do rio que foi limitada e sufocada. De tanta dimensão, eu trago uma coisinha pequena. Eu acho que foi isso que vocês me trouxeram aqui hoje. Eu acho que foi isso que ficou. Foi um ensinamento. E também a retomada desses prazeres gostosos de ter aprendido com tantas pessoas e que a minha história está amarrada a tantas pessoas. Muitas vezes eu estou lá no meu quarto sozinho, pensativo, chorando, rezando, ou pensando no nada – a gente tem essa possibilidade, a figura masculina muito mais do que a feminina, de ter a caixinha do nada. E eu adoro estar na minha caixinha do nada, no meu quarto, sentado, deitado na minha cama, pensando no nada. E eu conto que esse nada, às vezes, é gigantesco. Eu acho que também é um pouco do medo. E essa quebra da timidez para poder falar aqui, vocês gravando, acho que é mais uma barreira vencida e uma transformação que eu vou levar para a minha vida. Acho que é isso.
(01:59:57) P/1 - Em nome do Museu da Pessoa, em meu nome, da Helô, do Ally, do Vítor, eu agradeço muito, e do Zé Bueno, da Adri também. Eu agradeço muito por essa oportunidade de te ouvir e te conhecer melhor. Muito obrigada.
R1 - Eu que super agradeço. E sejam super bem-vindos a qualquer momento. E agora falta o convite aí à minha casa, conhecer um pouco lá do extremo da Zona Sul e conhecer um pouco melhor aqui a Zona Leste, o Jardim Pantanal. Eu super agradeço, viu? Muito obrigado.
(02:00:28) P/1 - Muito obrigada também.
[FIM DA ENTREVISTA]
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