Projeto Memória do Morro dos Prazeres – Esse Morro tem História
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Demontiê João da Silva
Entrevistado por Paula Ribeiro
Rio de Janeiro, 7 de julho de 2002
Código: MP_CB020
Revisado por Beatriz Guerra de Sant’Ana
P/1- Bom dia, Demontiê. Eu gostaria de começar a entrevista pedindo que você me dê o seu nome completo, o local e a sua data de nascimento, por favor.
R – Meu nome completo é Demontiê João da Silva. Nasci em Salgueiro, Pernambuco, no dia 2 de julho de 1968.
P/1- Um pouquinho de sua origem. Você nasceu...Como era sua cidade? Você nasceu na cidade ou mais na roça? Como é que era?
R – Mais na roça, até a idade de 18 anos que foi a idade que eu me casei. Eu era agricultor. Plantava cebola, tomate. A minha origem é mais essa. Nunca tive outro trabalho durante a minha adolescência. Até os 18 anos só foi esse trabalho mesmo. Agricultura.
P/1- E quando é que veio para o Rio de Janeiro?
R – Eu agora em 2001.
P/1- Por que você veio pro Rio?
R – Eu vim porque pra nós lá estava com um pouco de dificuldade sobre trabalho, e deu na ideia de a gente vir pra cá, tentar a sorte aqui no Rio de Janeiro.
P/1- E como é que vai essa sorte?
R – Tá bom, graças a Deus. Fiz muitas amizades com gente direita, tenho um trabalho que não rende muito, mas é o pouco que dá pra eu sobreviver.
P/1- Por que a escolha aqui do Morro dos Prazeres pra vir morar?
R - Porque já tinha vindo parentes nossos pra cá e então foi o melhor meio que a gente achou foi vim pra cá, ficar perto dos outros parentes que estavam aqui há mais tempo.
P/1- O que você tinha ouvido falar do Morro dos Prazeres lá na sua terra?
R - Bom, a gente não ouvia falar muito, mas pelo o que os parentes da gente falavam, que aqui era um lugar muito bom, que apesar do Rio de Janeiro completo ser uma cidade violenta, em compensação existem lugares que é tranquilo, como aqui. Que é...
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Projeto Memória do Morro dos Prazeres – Esse Morro tem História
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Demontiê João da Silva
Entrevistado por Paula Ribeiro
Rio de Janeiro, 7 de julho de 2002
Código: MP_CB020
Revisado por Beatriz Guerra de Sant’Ana
P/1- Bom dia, Demontiê. Eu gostaria de começar a entrevista pedindo que você me dê o seu nome completo, o local e a sua data de nascimento, por favor.
R – Meu nome completo é Demontiê João da Silva. Nasci em Salgueiro, Pernambuco, no dia 2 de julho de 1968.
P/1- Um pouquinho de sua origem. Você nasceu...Como era sua cidade? Você nasceu na cidade ou mais na roça? Como é que era?
R – Mais na roça, até a idade de 18 anos que foi a idade que eu me casei. Eu era agricultor. Plantava cebola, tomate. A minha origem é mais essa. Nunca tive outro trabalho durante a minha adolescência. Até os 18 anos só foi esse trabalho mesmo. Agricultura.
P/1- E quando é que veio para o Rio de Janeiro?
R – Eu agora em 2001.
P/1- Por que você veio pro Rio?
R – Eu vim porque pra nós lá estava com um pouco de dificuldade sobre trabalho, e deu na ideia de a gente vir pra cá, tentar a sorte aqui no Rio de Janeiro.
P/1- E como é que vai essa sorte?
R – Tá bom, graças a Deus. Fiz muitas amizades com gente direita, tenho um trabalho que não rende muito, mas é o pouco que dá pra eu sobreviver.
P/1- Por que a escolha aqui do Morro dos Prazeres pra vir morar?
R - Porque já tinha vindo parentes nossos pra cá e então foi o melhor meio que a gente achou foi vim pra cá, ficar perto dos outros parentes que estavam aqui há mais tempo.
P/1- O que você tinha ouvido falar do Morro dos Prazeres lá na sua terra?
R - Bom, a gente não ouvia falar muito, mas pelo o que os parentes da gente falavam, que aqui era um lugar muito bom, que apesar do Rio de Janeiro completo ser uma cidade violenta, em compensação existem lugares que é tranquilo, como aqui. Que é bem tranquilo. Eu acho.
P/1 - Como é que foi sua primeira impressão, quando você chegou aqui?
R - A primeira impressão é aquela impressão que eu acho que foi a que todos têm de: Como é que eu vou me acostumar com o lugar? Como é que vai ser a reação das pessoas quando me verem, que apesar de ser de outro lugar, tem uma voz praticamente diferente. Isso deixa a pessoa mais fora do limite do normal das pessoas daqui, mas devagar a gente vai se habituando e chega lá.
P/1 - E a impressão assim desse lugar aqui. Desse bairro de Santa Teresa, do Morro dos Prazeres. Qual foi sua impressão quando você chegou aqui?O que você achou do lugar?
R – A minha impressão é que eu achei um lugar muito bonito, a vista assim do lugar, inclusive quando a gente vem de ônibus ou de kombi, de longe, a primeira coisa que a gente avista é o Morro dos Prazeres que de longe é uma maravilha. Muito bonito. Eu acho.
P/1 - Conta um pouquinho desse seu trabalho. Como começou? Em quem você se inspirou? Qual o material que você usa pra fazer essas suas casinhas?
R - Esse trabalho, que nem eu falei pra senhora logo no início, foi desenvolvido depois que eu cheguei aqui mesmo, que antes eu não tinha envolvimento com isso. Apesar de ver muitos prédios bonitos, casarões velhos que tem, o Maracanã ali que é uma coisa linda, maravilhosa... Já me inventaram na ideia de fazer também o Maracanã, mas não tenho foto dele e também nunca andei lá. Mas um dia vou fazer. Isso aqui também, esse Casarão. Uso praticamente só palitos de sorvete, tábuas de caixote de madeira e cola. Somente. E o material para cortar, uma serra e uma faca.
P/1 - E esse material dos caixotes, esses palitos, você compra? Você adquire? Como é que é?
R – Os palitos são todos comprados. E cola. Só os caixotes que eu recolho no meu trabalho. Onde trabalho que tem...é caixote inclusive de madeira. Que vem com frutas, essas coisas. Aí eu pego, trago pra casa e faço os recortes assim.
P/1 - O que significa pra você, o que você pensa enquanto está fazendo um trabalho desses?
R - Pra mim, se eu pudesse trabalhar só nisso, eu trabalharia só nisso, porque é um trabalho que eu gosto e acho muito bonito. Eu mesmo acho muito bonito também. Várias pessoas... Tem gente que não dá importância pra esse tipo de coisa. Mas eu acho muito bonito esse trabalho e me sinto à vontade quando estou trabalhando nele. E só dá vontade de fazer mais e mais. Quanto mais eu vejo coisas assim, mais dá vontade de fazer. Meu desejo é só fazer, muito mesmo. Cada vez mais bonito.
P/1 - Mas o que te inspira? Por exemplo, aqui no bairro de Santa Teresa você olha uma casa antiga que você sente vontade de fazer?
R – Sinto vontade de fazer.
P/1 – E esse castelo aí, bacana? De onde é que você se inspirou?
R – Esse aqui? Eu vi uma foto dele na casa da sobrinha da minha esposa. Que ele fica em cima de uma montanha. Não é que nem aqui, mas é mais ou menos isso. Só que é todo verde, da floresta pro vale, e aqui na frente dele corria um lago. E no lago, tem uma ponte que atravessa o lago. Só que não dava pra eu fazer porque ia ficar muito grande. Mas me deu vontade de fazer. Falei: “Não. Vou tirar o riacho e a ponte e vou fazer só o castelo.” Aí, fiz. Só que ele é no meio de uma floresta, em cima de um pico de uma serra. E fica muito bonito. Ele está quase no mesmo formato, só que o da foto, ele é com massa, é pintado. Não é feito paredes de tijolinho assim. Eu fui que botei esse detalhe.
P/1- E a outra casa?
R – A outra, foi tirada só da mente. Coisas que veio assim na mente pra fazer, e eu comecei a tirar da mente, fui fazendo e criei ele. Sem ver foto nenhuma.
P/1- E o que é isso?
R – Bom, eu fiz ele – que nem está lá escrito, tem aquele nome lá – e botei: Primeiro bloco, segundo bloco e um castelo no meio. Foi a minha ideia que veio de fazer tipo assim: Dois prédios grandes um do lado outro do outro e aquele castelo no meio. Foi essa ideia que veio na minha mente, de fazer ele. E eu achei que ficou bom.
P/1 - São suas primeiras peças?
R – Não são as primeiras porque eu fiz umas duas, que teve um rapaz que eu levei lá no Centro e ele se interessou e comprou. Duas peças.
P/1 - Bacana.
R - Uma inclusive fiz até baseado em um prédio que eu vi aqui na rua, que tem um elevador que a pessoa vê ele subindo. Do lado de lá é tudo de vidro e a pessoa vê o elevador subindo. Inclusive botei até o elevador e botava um negócio assim, ele rodava e ele subia até em cima. Mas esse rapaz foi e comprou. Todos dois. Muito bonito também.
P/1 - E você trabalha em casa? Dentro de casa? Do lado de fora?Como é que é?
R – Tenho um espaçozinho lá em casa de mais ou menos um metro e meio quadrado, que é o espaço para eu fazer. Inclusive minha esposa fica chateada comigo porque eu fico tomando aquele espacinho que tenho, até a hora que me deito. Faço do meu trabalho e no dia que eu estou de folga, passo o dia todinho só lá, fazendo. É muito legal. E faço mais. Faço moldura de quadro. O pessoal sempre contrata quadro pra eu fazer. Faço a moldura, coloco a foto e sempre vendo.
P/1 - Que pessoal?
R – Pessoal do meu trabalho e inclusive essa semana passada, eu fiz 11 quadros. Vendi todos. Estou com mais uns 15 pra fazer. Estou só com o material lá, que inclusive tenho que arrumar mais material pra concluir o trabalho. É muito bom. Eu acho muito bom esse trabalho. Se eu pudesse e tivesse condições para comprar matéria, equipamento de trabalho – porque eu só uso uma faca e uma serra – pra fazer... Dá pra ver aqui nas mãos, como está. Tudo cortado. Inclusive levei um corte um dia desses, que pegava uns três pontos. Com a faca. A faca escorregou e cortou a mão. Aí, com a condição assim fraca, se vender alguma peça que dá pra comprar, por exemplo uma serra elétrica, uma serra pra serrar, uma madeira pra fazer um canto, um negócio, aí facilitaria mais as coisas. Pro trabalho. Tinha mais rendimento no trabalho e não aconteceriam tantos “acidentinhos” que nem esse. [risos]
P/1 - Acidentinho? Três pontos não é pouca coisa. Tá bom Demontiê. Pra você o que significa o Morro dos Prazeres?
R – Pra mim, que hoje moro aqui, pra mim significa como se fosse minha casa, porque – como é que se diz – a gente tem o dever em casa, de manter a casa conservada. Do mesmo jeito, a gente tem que fazer na nossa comunidade. Tem que zelar pela comunidade e tratar as pessoas que convivem com a gente da mesma maneira que convive em casa, com a família.
P/1- E o Casarão? Você já conhecia? Tinha entrado? O que você acha dele?
R - É uma obra de arte também. Muito bonito. Nunca tinha visto ele por dentro, a não ser ontem quando eu vim aqui. Muito bonito e inclusive essa escadaria dele aí, muito bonita. Bonita essa escada, inclusive se eu tivesse uma foto dele por dentro, quando eu for fazer, vou botar aquela mesma escada do mesmo jeito, porque pra você fazer, pra você gravar os detalhes que ela tem na mente, fica muito difícil fazer depois. Então, você vendo, você faz com mais facilidade. É muito bonito esse Casarão. É uma obra de arte e a pessoa que fez ele, se inspirou bem pra poder fazer. Pra poder dar esses acabamentos e esses trabalhos bonitos que ele tem. Muito bonito mesmo. Meu próximo trabalho vai ser ele. Eu termino aquele e vou fazendo ele.
P/1 – A gente está desenvolvendo um projeto de memória sobre a comunidade do Morro dos Prazeres. O que você acha desse projeto de memória, de preservar histórias antigas da comunidade, e o que achou de você dar um pequeno depoimento pra esse projeto?
R - Em primeiro lugar esse desenvolvimento que vocês estão tendo aí, eu acho muito legal porque tem muitos artistas escondidos às vezes por trás de parentes, que as pessoas não conhecem. Então, o espaço que foi criado sobre isso aí, é uma coisa muito legal, porque se tem algum que tenha um trabalho escondido, que não é reconhecido, ninguém vê, pelo menos tem a chance de chegar, de vir até o Casarão e expor aquele trabalho. No meu caso, não deu dessa vez, mas pode dar de outra vez. Então, eu achei muito bom isso aí. É um trabalho que vocês estão fazendo que é muito legal e que vai ajudar muito a comunidade.
P/1- Tá bom. Então super obrigada pelo seu depoimento.
R – Obrigado você.
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