E lá estava eu, sentado, na primeira fila de cadeiras de um cinema lotado, para assistir ao filme “Central do Brasil”, com direito a um enorme saco de pipocas e um copo de refrigerante de igual tamanho.
Assistia atentamente ao filme. Algumas cenas fizeram-me lembrar dum episódio de uma pessoa que conheci, muito especial. Creio que daria um ótimo filme.
Sempre via aquela pessoa sorridente chegando à casa de seu João e Dona Maria e seus três filhos. Era um casal humilde. Seu João trabalhava como caseiro, Dona Maria cuidava dos afazeres domésticos e, também, das crianças ainda pequenas, Girlene de 7 anos, Jean de 6 e Gularzinho, o recém-nascido, de apenas 3 meses de idade – o xodó da família.
Ele, sempre com pressa, retirou da sacola um gravador portátil, ligando-o a uma extensão elétrica. Inseriu uma fita cassete e começou a gravar, tudo, desde o lamento saudoso de seu João e Dona Maria da Terra Natal, até o choro de Gularzinho reclamando pela mamadeira, Girlene e Jean sussurram alguma coisa, timidamente, próximo ao gravador.
Terminada a gravação, ele retira da mesma sacola uma pequena caixa plástica, que chamou de “fono postal”. Endereçou-a, colocou os apetrechos de volta à sacola, e ingeriu uns três copos d´água, pois o clima estava de deserto, e prosseguiu sua jornada.
Alguns dias depois, lá estava ele de volta, sempre alegre, cantarolando e assobiando. Pára em frente ao portão de madeira da casa de seu João, e dá um grito, ao qual responde:
“ – Vamos acabar de chegar, para tomar um cafezinho?”
Ele, sempre com pressa, dispensa o café, mas ingere líquido com abundância, pois o clima continuava de deserto. Pede para que seu João reúna toda a família, retira da sacola uma fita cassete e repete o mesmo ritual de instalação. Após ter sido ligado, ouvem-se mugidos de vacas, latidos de cães, uma verdadeira arca de Noé. Ouvem-se, também, vozes de pessoas de sotaques carregados de...
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E lá estava eu, sentado, na primeira fila de cadeiras de um cinema lotado, para assistir ao filme “Central do Brasil”, com direito a um enorme saco de pipocas e um copo de refrigerante de igual tamanho.
Assistia atentamente ao filme. Algumas cenas fizeram-me lembrar dum episódio de uma pessoa que conheci, muito especial. Creio que daria um ótimo filme.
Sempre via aquela pessoa sorridente chegando à casa de seu João e Dona Maria e seus três filhos. Era um casal humilde. Seu João trabalhava como caseiro, Dona Maria cuidava dos afazeres domésticos e, também, das crianças ainda pequenas, Girlene de 7 anos, Jean de 6 e Gularzinho, o recém-nascido, de apenas 3 meses de idade – o xodó da família.
Ele, sempre com pressa, retirou da sacola um gravador portátil, ligando-o a uma extensão elétrica. Inseriu uma fita cassete e começou a gravar, tudo, desde o lamento saudoso de seu João e Dona Maria da Terra Natal, até o choro de Gularzinho reclamando pela mamadeira, Girlene e Jean sussurram alguma coisa, timidamente, próximo ao gravador.
Terminada a gravação, ele retira da mesma sacola uma pequena caixa plástica, que chamou de “fono postal”. Endereçou-a, colocou os apetrechos de volta à sacola, e ingeriu uns três copos d´água, pois o clima estava de deserto, e prosseguiu sua jornada.
Alguns dias depois, lá estava ele de volta, sempre alegre, cantarolando e assobiando. Pára em frente ao portão de madeira da casa de seu João, e dá um grito, ao qual responde:
“ – Vamos acabar de chegar, para tomar um cafezinho?”
Ele, sempre com pressa, dispensa o café, mas ingere líquido com abundância, pois o clima continuava de deserto. Pede para que seu João reúna toda a família, retira da sacola uma fita cassete e repete o mesmo ritual de instalação. Após ter sido ligado, ouvem-se mugidos de vacas, latidos de cães, uma verdadeira arca de Noé. Ouvem-se, também, vozes de pessoas de sotaques carregados de “vices”, “arre égua” e “oxentes”, fazendo crer que eram, sem dúvida, brasileiros nordestinos.
A família de seu João, entre sorrisos e lágrimas, vibrava de tanta alegria, eles não iam à terra natal há muito tempo, e essa foi a forma original de fazer feliz aquela família.
Fiquei sabendo, mais tarde, que ele usava aquele método com outras pessoas, principalmente aqueles que não conseguiam viajar constantemente.
As empregadas domésticas e os peões da construção civil eram os maiores beneficiados. Esses últimos, por motivo cultural, ou seja, por serem a maioria iletrados, tinham maior ajuda, e suas missivas eram lidas e respondidas.
O resultado disso tudo era a alegria estampada na face daquele povo que, embora distante das famílias, conseguia manter-se mudo e onde as lágrimas de emoção eram sempre o ato final.
Eu já o vi conversando com Presidentes, Governadores, Parlamentares e Executivos, enfim, com muita gente importante deste país.
Lembro-me bem de certo Deputado, na época presidente da Câmara Federal, que pedia para que, quando ele chegasse à sua residência, entrasse e fizesse uma boquinha,ingerindo muito líquido, pois, a umidade era baixa. Ai então ele se fartava dos sucos de frutas típicas e frescas, preparados por Creusa, a secretária para quem ele usava os métodos “fonopostais” também.
Às vezes ele queria saber, do Deputado, como funcionava a Câmara, e o deputado, em um discurso relâmpago, pois também tinha pressa, explicava o funcionamento da Casa à aquele jovem tão interessado pela sua nação.
Incrível como ele era tão querido por todos.
Fui até o seu local de trabalho e fiz uma sondagem a seu respeito, e constatei que ele era um funcionário exemplar.
Seu apelido era Zé Confusão, no bom sentido é claro.
Ele, para mostrar que seus projetos davam certo se aplicados, fazia de tudo. Um dos exemplos foi um artefato de madeira que inventou para facilitar o serviço de todos, que, a princípio, não mereceu muita importância de ninguém. Porém, depois dos argumentos apresentados e das demonstrações do objeto, todos ficaram convencidos da importância do mesmo.
Ele parecia um político em campanha, conversava com todos, conhecia a todos por nome.
Lembro-me que certa feita, quando me dirigia para o comércio, mais precisamente à padaria, vi um grupo de pessoas reunidas e, entre elas estava (qual não foi minha surpresa?), o Zé, tentando provar que sabia alguma coisa a mais do que os outros carteiros.
A discussão ali era sobre endereços. Ele estava apostando que bastava que lhe dissessem o endereço para que informasse o nome do morador ou vice-versa.
A aposta era paga com sorvetes, refrigerantes, enfim, tudo que refrescasse aquele sol escaldante.
Os adversários da aposta apropriavam-se de uma lista telefônica e gritavam o endereço ao qual o Zé respondia o nome do morador e, ainda, dava-lhes o CEP, como complemento à pergunta.
E lá vai ele na sua grande jornada sob o sol ou a chuva.
Presenciei um fato curioso dia desses. Um cão vira-latas que o acompanhava sempre, então lhe perguntei a respeito, e ele me disse que era seu ajudante e guarda-costas. Tive oportunidade de ver o porquê do guarda-costas. Os outros cães ladravam, atacavam, e ele (o vira-lata) ladrava e contra-atacava defendendo o seu amigo Zé, que o tratava muito bem, dando-lhe carinho e alimentação. Chego a pensar que esse tal de Zé já deve ter dado volta ao mundo, de tanto que já andou.
Estive com ele dia desses, que continua o mesmo, com a mesma alegria. Ele me falou do Deputado, desejando-lhe que Deus o tenha em bom lugar, e que suas “missivas celestiais” lhe sejam entregues por “anjos carteiros”, pois foi dessa para melhor! Também me falou sobre o vira-lata, que onde ele estiver que tenha criado asas, pois os anjos carteiros voam, não andam.
Ele comentou as perdas com um brilho nos olhos. Foi a única vez que o vi triste.
Ele dizia que fazia parte de uma grande família, e que seu trabalho era transportar alegrias e tristezas, ajudar a diminuir a distância entre a humanidade.
Sem dúvida, eu daria o “Oscar” para esse meu amigo que todos os dias passa de frente ao meu portão e grita sem tomar fôlego Carteiro!!!-.
Um abraço para meu amigo Zé
O Carteiro Feliz.
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