O Boitatá e o Segredo do Amor
Há muitos anos, no final dos anos setenta, fui a um velório no sítio e fiquei lá por quase uma semana. Numa madrugada, já eram três ou quatro horas da manhã, estávamos todos rodeados numa grande fogueira, conversando. E foi então que eu vi, com os meus próprios olhos: uma bola de fogo brilhante descia do céu, tocava o chão virando brasa viva, depois subia leve nas copas das árvores. Ora ficava pequena como um ponto de luz, ora crescia e se mostrava imponente. Ela chegou muito, muito perto de nós! Era o que muitos chamam de Boitatá, ou também Fogo de São Gonçalo.
Depois eles apontaram para o céu, que estava cheio daquelas luzes: havia fogo verde e fogo bem amarelo. Disseram-me que um era de gente que já havia partido, e o outro de gente que ainda vivia. Eu confesso que não creio nessas explicações e histórias todas, mas eu vi o fogo. Isso eu vi, e não tenho dúvidas do que meus olhos viram.
E vendo aquela chama ali tão pertinho, alguém começou a contar esse caso antigo:
Um jovem conheceu uma moça, e entre eles nasceu um sentimento forte, daqueles que parecem feito para durar a vida toda. Eles se enamoraram, sonharam com o casamento, até que um dia a moça olhou nos olhos dele e disse com toda a sinceridade:
— Eu te amo, e quero ser sua para sempre. Mas preciso que saiba quem sou de verdade: sou o Boitatá — e se preciso for, viro fogo, luz e chama. Peço-lhe apenas uma coisa: esse é o nosso segredo. Se contar a alguém, sofreremos as consequências.
O rapaz amava-a muito, e na hora disse que não importava quem ela era, que aceitava tudo e jamais contaria. Mas no fundo, o medo e a curiosidade começaram a crescer. Ele não teve coragem de voltar a procurá-la como antes, e pouco a pouco, foi soltando o que sabia: primeiro para um amigo, depois para outro, até que todo o lugar conhecia o segredo que era só deles.
A moça ficou profundamente magoada. Ela havia confiado a ele a...
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O Boitatá e o Segredo do Amor
Há muitos anos, no final dos anos setenta, fui a um velório no sítio e fiquei lá por quase uma semana. Numa madrugada, já eram três ou quatro horas da manhã, estávamos todos rodeados numa grande fogueira, conversando. E foi então que eu vi, com os meus próprios olhos: uma bola de fogo brilhante descia do céu, tocava o chão virando brasa viva, depois subia leve nas copas das árvores. Ora ficava pequena como um ponto de luz, ora crescia e se mostrava imponente. Ela chegou muito, muito perto de nós! Era o que muitos chamam de Boitatá, ou também Fogo de São Gonçalo.
Depois eles apontaram para o céu, que estava cheio daquelas luzes: havia fogo verde e fogo bem amarelo. Disseram-me que um era de gente que já havia partido, e o outro de gente que ainda vivia. Eu confesso que não creio nessas explicações e histórias todas, mas eu vi o fogo. Isso eu vi, e não tenho dúvidas do que meus olhos viram.
E vendo aquela chama ali tão pertinho, alguém começou a contar esse caso antigo:
Um jovem conheceu uma moça, e entre eles nasceu um sentimento forte, daqueles que parecem feito para durar a vida toda. Eles se enamoraram, sonharam com o casamento, até que um dia a moça olhou nos olhos dele e disse com toda a sinceridade:
— Eu te amo, e quero ser sua para sempre. Mas preciso que saiba quem sou de verdade: sou o Boitatá — e se preciso for, viro fogo, luz e chama. Peço-lhe apenas uma coisa: esse é o nosso segredo. Se contar a alguém, sofreremos as consequências.
O rapaz amava-a muito, e na hora disse que não importava quem ela era, que aceitava tudo e jamais contaria. Mas no fundo, o medo e a curiosidade começaram a crescer. Ele não teve coragem de voltar a procurá-la como antes, e pouco a pouco, foi soltando o que sabia: primeiro para um amigo, depois para outro, até que todo o lugar conhecia o segredo que era só deles.
A moça ficou profundamente magoada. Ela havia confiado a ele a sua essência, o que ninguém mais poderia saber — e ele não soube guardar.
Passado algum tempo, o rapaz sentiu um cansaço pesado, como se já esperasse pelo que viria. Deitou-se cedo, no escuro do quarto, quando viu um foguinho pequeno, quase como a chama de um fósforo, perto do forro da casa. Ele ficou olhando, sem entender, até que aquela luz pulou ao chão, virou uma tocha forte e veio vindo em sua direção.
No meio da chama, ele viu o rosto da moça que amava.
— Eu te avisei — disse ela, com voz triste e séria —, que esse segredo era sagrado, e que contar traria consequências. Você não guardou a minha confiança.
E naquele instante, o fogo o envolveu. Queimou apenas ele, sem tocar a cama, sem danificar uma única roupa ou objeto — como se só tivesse consumido a palavra quebrada e a confiança perdida. Ao amanhecer, encontraram-no ali, e o resto do lugar intacto, como se a lição ficasse clara para todos:
Não há nada mais frágil, e ao mesmo tempo mais sagrado, do que o segredo que alguém entrega em nossas mãos junto ao coração. Se não soubermos cuidar, o que era luz vira chama que se apaga para sempre.
Por Osnir Ferreira. 20/07/26.
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