Projeto Vida, Vozes e Saberes em um Mundo em Chamas
Entrevista de Joaquim Wilson Leite Moraes
Entrevistado por Jonas Samaúma e Lucas Torigoe
Povoado do Moinho, 1 de outubro de 2025
Entrevista nº: PCSH_HV1507
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
00:00:43 P1 - Te agradecer muito, profundamente, pela abertura, por esse momento, por abrir esse espaço. E ia falar para você se apresentar, falar o seu nome, aonde você nasceu e, se quiser já aproveitar, emendar, falar, assim, se você sabe a história do seu nascimento, como é que aconteceu o seu nascimento?
R - Sim. Obrigado. Eu me chamo Wilson, conhecido sempre como Wilson, mas meu nome completo, Joaquim Wilson Leite Moraes, filho da dona Flor e seu Donato, são meus pais. Composto com mais 12 irmãos. Nascido praticamente no caminho, que na época era muito difícil, em 1965. E a minha mãe teve a honra de dar à luz praticamente num caminho, a cavalo, que era pra andar 22 km a cavalo à noite, e no 2km de Alto Paraíso eu vim pra nascer no lombo do cavalo. A minha mãe, foi um parto difícil, com chuva. Eu tive que nascer em Alto Paraíso, que nasci distante da ninhada dos meus irmãos, e eu fui o único que nasci fora, que nasci em Alto Paraíso, que foi muito acelerado a minha vinda aqui. É um pouco meio que estranho falar isso, mas foi. Então, em 1965 eu vim aqui, pra tá aqui hoje com praticamente faltando alguns 60 dias, menos de 60 dias. 60 dias. Para 60 anos, dez décadas. Seis décadas, não é? Enfim.
00:02:22 P1 - E aí, você nasceu no lombo do cavalo?
R - Eu não cheguei a nascer no lombo do cavalo porque minha mãe chegou a tempo de dar a luz na casa da minha avó. Mas eu já estava praticamente, ela sentiu dor para me ter, num lugar chamado Vale do Amanhecer, saindo para Alto Paraíso, aí ela teve que voltar do caminho, porque estava chovendo e já era noite. E aí eu vim nascer longe do meu berço mesmo, de onde estava meus irmãos. Meu pai ficou esperando minha mãe aguardar...
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Entrevista de Joaquim Wilson Leite Moraes
Entrevistado por Jonas Samaúma e Lucas Torigoe
Povoado do Moinho, 1 de outubro de 2025
Entrevista nº: PCSH_HV1507
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
00:00:43 P1 - Te agradecer muito, profundamente, pela abertura, por esse momento, por abrir esse espaço. E ia falar para você se apresentar, falar o seu nome, aonde você nasceu e, se quiser já aproveitar, emendar, falar, assim, se você sabe a história do seu nascimento, como é que aconteceu o seu nascimento?
R - Sim. Obrigado. Eu me chamo Wilson, conhecido sempre como Wilson, mas meu nome completo, Joaquim Wilson Leite Moraes, filho da dona Flor e seu Donato, são meus pais. Composto com mais 12 irmãos. Nascido praticamente no caminho, que na época era muito difícil, em 1965. E a minha mãe teve a honra de dar à luz praticamente num caminho, a cavalo, que era pra andar 22 km a cavalo à noite, e no 2km de Alto Paraíso eu vim pra nascer no lombo do cavalo. A minha mãe, foi um parto difícil, com chuva. Eu tive que nascer em Alto Paraíso, que nasci distante da ninhada dos meus irmãos, e eu fui o único que nasci fora, que nasci em Alto Paraíso, que foi muito acelerado a minha vinda aqui. É um pouco meio que estranho falar isso, mas foi. Então, em 1965 eu vim aqui, pra tá aqui hoje com praticamente faltando alguns 60 dias, menos de 60 dias. 60 dias. Para 60 anos, dez décadas. Seis décadas, não é? Enfim.
00:02:22 P1 - E aí, você nasceu no lombo do cavalo?
R - Eu não cheguei a nascer no lombo do cavalo porque minha mãe chegou a tempo de dar a luz na casa da minha avó. Mas eu já estava praticamente, ela sentiu dor para me ter, num lugar chamado Vale do Amanhecer, saindo para Alto Paraíso, aí ela teve que voltar do caminho, porque estava chovendo e já era noite. E aí eu vim nascer longe do meu berço mesmo, de onde estava meus irmãos. Meu pai ficou esperando minha mãe aguardar o resguardo para retornar essa distância, que eu morava na roça, para ela não quebrar resguardo, para poder chegar comigo até lá. Então eu fui o único que nasci quase que pelo meio do caminho.
00:02:59 P1 - E quais são as memórias de infância que você tem assim com a sua mãe?
R - Olha, é bem presente as memórias de infância com a minha mãe, de que com oito anos de idade, em 1973, que eu já estava tomando noção da vida, conhecimento da vida, sabendo como é que a vida era, como é que a vida começava, então eu comecei a ter noção em 1973, que aí acontecerá nessa época, 43 anos, agora completa, que era o casamento do Louro com a Zita, minha irmã. Foi o primeiro casamento que eu vi na vida. O seu Edson e a dona Romana, que era nessa igrejinha aqui na frente. Que o Loro, na verdade, em 1973 ele casou, a época que eu estava completando oito anos de idade. Casou com a minha irmã mais velha. E o seu Edson e a Dona Romana e a Dona Izaura e o Seu Ananias. Foram os primeiros casamentos que eu vi, foi onde eu comecei a ter noção da vida, onde eu já andava conversando com a minha mãe, a minha mãe fazendo a gente fazer as coisas acontecerem. Querendo ou não tinha que fazer, porque a gente tinha que obedecer a mãe e o pai. Os mais velhos, tudo era parente, se dava pro tio, tia, todo mundo era parente, um cuidava do outro. Por vizinhança, por morar perto, por comunidade. Então, nós fomos crescidos assim. Entre três irmãos, todos nós crescemos assim, sabendo que o mais velho, nós tínhamos que respeitar, porque era de obrigação respeitar os mais velhos, porque eles eram tutores, eles cuidavam da gente, como nossos pais cuidavam também dos filhos de outras pessoas. Na ausência, cada um tinha que ajudar o outro. Então, a memória de infância que eu tenho, bem lembrada, são essas, viver junto entre irmãos, comida era muito difícil, era pouca comida. Era muita comida, mas pouca comida pra muita gente, porque cada um comia dobrado, mais que o outro, tinha barriga gigante pra comer, naquela época, todo mundo. E o pai mais a mãe desdobrava. Mãe ficava com fome pra poder dar mamar o filho. Mãe deixava o filho sem mamar, porque ia trabalhar na roça, às vezes até gestante, antes do tempo, porque naquela época não havia banheiros sanitários. Hoje é muito mais fácil uma mulher engravidar cedo. Naquele tempo… Tarde, do que cedo, porque naquela época ninguém tinha sanitário em casa para fazer as suas higienes. Então o fato de minha mãe ter muitos filhos, às vezes ela saía cedo, e voltava de tarde para fazer as suas higienes, no outro dia já estava grávida sem saber. O pessoal fala que é porque não tinha televisão, não era. Era o repouso, que tinha muito, e acabava engravidando cedo. Descartando o filho da época certa de mamar, porque já estava esperando outro.
00:05:34 P2 - Por que o seu nome é assim, é composto. Tem alguma história isso?
R - A minha mãe, na época, escolhia. Aqui tem várias pessoas com D, a maior parte dos meus irmãos, tudo têm o D. Eu não sei por que minha mãe escolhia. Poucos têm o nome diferente. Joaquim, Maria, Maria Aparecida, José Donizete. Mas é Domingas, Dejanete, Denesita, Denilei, Davi, Daniel. É uma sequência de D. Eu não sei por que ela escolhia. Eu escolhi meu filho Wilmerson, Wadson, por causa da primeira letra do meu nome. Não é? Então, na verdade, eu tenho duas filhas que são adotivas, tenho um filho que é biológico e três netos. Mas todos os nomes distantes. Só Luan, Luara e Lara, que são bem próximos do L. Mas eles escolhiam, tinham tempo para escolher. Colocar assim. Quero escolher o nome do meu avô, Maria. Maria fulana, Maria Aparecida, Maria Joana, Maria José. E aí dava sequência. Então, a maior parte dos meus irmãos tem o D. São poucos que não têm. Quase todos eles têm o D, de primeiro. Eu não sei porquê, nós não chegamos a perguntar pra minha mãe isso.
00:06:56 P1 - Eu ia falar pra você contar um pouquinho do que você sabe da história da sua mãe?
R - Sim, quando eu me entendi por gente, dos meus irmãos mais novos, eu lembro bem assim de que a minha mãe, ela tinha um dever de fazer os mais velhos cuidar dos mais novos. E aí, porque na ausência dela em casa, ela tinha a obrigação de passar três dias ou quatro dias fora, cuidando de um parto de uma mulher. Então, nós ficávamos em casa. Ela levava uma criança, levava mais um, para ajudar a cuidar dessa criança. E, às vezes, até então, ela já estava gestante de novo, dando mamar e gestante, nesse período e fazendo parto de outras. Que a Dona Flor não foi brincadeira lá, chegou a trezentos e tantos partos, por aí. Trezentos e trinta e seis partos, uma coisa assim. Que ela fez, por aí. E os dela, dos treze, os que eu conheci, ela fazendo parto, eu não vi uma pessoa ajudando minha mãe a fazer o parto dela. Ela mesma fazia o parto dela. Às vezes a gente tava no mato, apanhando lenha, fazendo algumas atividades da roça, do lar. Ela falava: ó, tô sentindo dor. Eu vou embora, vocês ficam. Mas vai embora logo. Aí nós íamos embora, no rastro dela. Quando chegava lá, ela já tinha cortado o umbigo da criança. Isso era na roça, ela tinha candeia de azeite, a bacia com água, era uma coisa de madeira, uma gamela que a gente chama, não tinha bacia naquela época. Depois que foi surgindo a bacia plástica, enfim, a civilização demorou a chegar, porque as camas eram de vara, às vezes a gente olhava, via meu pai sentado aqui na barriga da minha mãe, era pra colocar alguma coisa. Olhava pelo buraquinho lá, ele estava sentado aqui. Mas era a prática que tinha do homem sentar pra ajudar a mulher a colocar o que tinha de restante do parto pra fora e descansar ela, relaxar a coluna, enfim. Então, sempre a gente... Aí ela falava: não, meu filho, isso aqui é para que a gente coloque pra fora tudo que a gente tem. Porque não tinha médico, não tinha ninguém, enfermeira para manusear, uma parteira ali após o parto. Então, o homem é que era o obrigado a acompanhar. Então, eu lembro bem assim da memória da minha mãe, que ela colocava nós a altura, de que nós não tínhamos tamanho para alcançar um fogão, que não existia bombril naquela época, e sabão. Tinha que pegar lenha no mato, tinha que pegar a parte de abacate, parte de resto de gordura que sobrava, osso velho, colocar para cozinhar, fazer a cinza, tirar a soda, que eles falam soda cáustica, mas era um resíduo da cinza, para fazer um sabão, para nós lavar as vasilhas, lavar as roupas. Que não tinha sabão naquela época. Chamava sabão preto. Aí tinha que fazer esse sabão preto, ir lá quebrar pedra de areia, para fazer a textura do bombril, colocar na palha, rasgar a palha no garfo, toda a palha de milho, palha que faz o cigarro, aí fazer a bucha dela, colocar areia, pra poder dar brilho nas vasilhas, com sabão feito da cinza. Olha o processo como é que era. São lembranças que a gente tem. E também da roça, por exemplo, a farinha, a farinha não vinha pronta pra nós. A gente tinha que buscar um tronco lá na roça, lá no mato, um tronco chamado tronco de angico. Seria uma peça assim, tipo um molinete de processar farinha, processar mandioca, ou qualquer coisa, milho. Era processado à mão, naquele tempo. Um ficava de lá, outro ficava de cá, fazia um tamboril, tipo uma canoa, um sentava na cabeceira, outro sentava na outra e ficava ralando pra poder processar a farinha, pra poder fazer a farinha pra gente comer. E aí, então, o que que acontece? A gente não tinha acesso a um processador, um triturador, a gente não tinha acesso a nada de energia, a gente não tinha acesso, era tudo rústico. A prensa, para prensar a farinha, fazer o processo de secar da farinha, era um saco, pano, colocar essa fita de farinha, nesse pano, envolver como se fosse um charuto. Um pega de um lado, outro pega de outro, torcer. E ali, aquele que saía, aquela água, aquele líquido que saía, formava embaixo um polvilho. E era tudo artesanal. Tudo artesanal. E pra fazer a roupa também, não tinha lojas pra comprar roupa, era feito tudo à mão. Aí plantava o algodão, esse algodão vinha para um processo, não sei se por trás tem, uma rodinha. Tem uma rodinha pequena, bordado. Uma rodinha bem pequena, aí atrás tem. Então, tinha uma roda, que falava roda de fiar. Fiar é o quê? Processar a linha. Então a minha mãe sentava em volta dessa roda, aí tem um pedal nessa roda. A gente ia, enchia um cesto com algodão, desperfilhar todo o algodão. Olha que processo. Colocar um cesto, aí a gente ia colocando pra ela, e ela ia pegando a ponta desse algodão, e essa máquina ia processando aqui no pé, e ela gestante fazendo esse processo pra poder fazer roupa pra gente. Camisa, coberta, sacos, forro de cama, tudo feito à mão para poder criar a gente. Isso tirado do algodão feito à mão. Essa rodinha aí era onde fazia as roupas pra nós. Isso, se você tocar ela tirando esse livro, você vai ver que ela gira. Ela vai levantar um pedal do outro lado, embaixo, no chão. Então ela sentava de frente, aqui era o meio dela manusear ela. E aqui ela estava tecendo, fazendo fio. Aí ela tinha uma peça assim, uma carretilha, que ia enchendo de linha. Depois ela mandava para uma peça que chama tear. E aí ia tecendo esse tear como a Zita faz os tapetes. Formava daquele jeito ali. Aí fazia a coberta, fazia o forro da cama, fazia o short pra gente vestir, a roupa pra gente vestir, pra ir para escola. E a maior parte das vezes era descalço. A gente não tinha calçado, porque não existia chinelo. Tinha que pegar o couro do boi, cortar no formato do pé da gente, pegar o próprio couro do boi, envolver por baixo, fazer a riata, envolver um nó no couro do boi, pra poder fazer o calçado pra gente andar. Como era a vida antigamente. E o meio da gente dormir, é uma boa lembrança que eu tenho. Era ir no mato, tirar peça por peça de madeira, como se fosse isso aqui, fincar as forquilhas, uma na outra cá, outra lá, outra lá. A cama do papai e da mamãe, era uma cama maior. Aí nós tinha que furar o buraco, fincar essa madeirinha, colocar as travessões, vara, pau por pau. Aí ia pro mato, buscar o capim no cerrado. Boas lembranças. Para poder pegar esse pano, que ela tecia, encher com o capim, pra fazer um colchão, pra colocar em cima dessas peças, como se fosse uma estiva, aí pra gente dormir. Ou enchia de palha de banana ou enchia de capim do cerrado. Então a cada época tinha que refazer. Quando ele ficava fininho, tinha que refazer esses colchões. Era uma vida difícil, mas era um tempo que não volta mais. Porque nós vivíamos em família, era muito feliz, muitos irmãos juntos. Se dava por muito tempo de chuva, abundância em frutos do cerrado, plantios, cultivo do milho, cultivo das coisas, da lavoura, da agricultura familiar, era muito presente, que todo mundo tinha. Aí fazia as trocas. E a gente prestava serviço também, junto com os pais, depois que saía da escola, pra poder ajudar a trazer algumas coisas pra dentro de casa que nós não produziamos. Que as pessoas que tinham mais poder aquisitivo, captavam nós pra trabalhar. A gente começava muito cedo, com chuva, muita chuva, pra poder comprar, fazer troca. Aí o que a gente fazia? Pegava os ovos das galinhas que nós tinha aqui, fazia a gente andar a pé. Depois do almoço, a gente tinha que andar a pé, que não era essa estrada, até Alto Paraíso. Tudo envolvido na palha do ovo, na palha da banana, e não podia quebrar os ovos. Pra trocar por coisas que nós não produziamos aqui. Aí já vinha açúcar, que açúcar naquele tempo era fardo de papelão, não era plástico. Arroz era no papelão. Manteiga, vamos falar gordura, eram latas de 18 litros, não eram litros de óleo, de soja. Era tudo mais saudável, tudo natural. Mas sempre existiu a troca. E nós tínhamos que caminhar, saia da escola, se a escola fosse à tarde, a gente ia de manhã. Mas todos nós tínhamos tarefas, desde que já tinha sete anos, todos já tinham tarefa. Tinha que subir num tronco de madeira para enxergar dentro da panela pra poder colocar o alho, colocar o óleo, se não tivesse óleo, ia quebrar o coco. Ia no mato buscar o coco, quebrar na pedra o coco, colocar no pilão, quebrar esse coco, tirar o óleo desse coco, para temperar o feijão, porque a gente não tinha gordura para temperar. E às vezes, nós tínhamos uma vida difícil, mas era uma vida boa. Porque a gente não dependia de esperar por internet, de esperar por energia elétrica. Era azeite. O pavio, o mesmo pavio que fazia a roupa para nós vestir, era o mesmo material que usava para fazer a lamparina para iluminar dentro de casa, para clarear dentro de casa, que era no azeite de mamona. Aí filtrava o pavio no azeite de mamona, soltava a cordinha dele, riscava o isqueiro, que às vezes era artifício, que é uma pedra com pedaço de ferro, pra sair o fogo. Em época de chuva, nós não tinha fósforo nem isqueiro. Naquele tempo, riscava uma pedra de cristal, num pedaço de facão velho, aí saía a faísca, essa faísca pegava no algodão. Aí você ia soprar pra fazer o fogo. Aí você colocava ali, fazia um ninho, até pegar labareda. Era uma vida muito complicada de manhã, em época de chuva, pra gente fazer fogo. Às vezes tinha época de ficar com fome, porque quem não tinha artifício, buscava fogo na casa do vizinho. Então, são boas lembranças. Eu não tenho...
00:17:30 P1 - Você fazia fogo também?
R - Todos nós. Então a gente se vira.
00:17:31 P1 - Roupa?
R - Roupa eu não cheguei a fazer, mas costurar, sempre eu costurei minhas roupas, naquela época. Hoje a gente joga fora, roupa não ficou boa, a gente joga fora e já pega outra, porque tem muito. Ou senão a gente doa aquela que tá sobrando, que tá em excesso. O que não presta mais, a gente descarta. Aquela que a gente não vai usar, a gente vê alguém que tá precisando e a gente doa. Que a gente ganha, a gente doa. Ou senão, a gente tem condições melhores de comprar. Mas eu não tenho lembranças ruins do passado. Ruim é a ausência hoje da minha mãe. Ruim é hoje a saudade que tenho do tempo da minha mãe, do tempo do meu pai, que era uma vida difícil. Mas hoje, não tem mais ela, para nós contar a história dela, como antes, quando a gente vivia com ela.
00:18:22 P2 - Quem conheceu sua mãe, então… A foto dela está atrás de você. Mas como que era o jeito dela, o humor, o cheiro, as roupas? Como você pode falar pra gente nesse sentido?
R - Olha, minha mãe, por ter o nome Dona Flor. A minha mãe… Porque todo ser humano transpira, e transpira forte. A minha mãe foi uma pessoa que ela sempre lutou pra nós ter banho, pra nós ter limpezas. Porque naquela época não existia escova de dente nem creme dental. Era uma pele de fumo, folha de fumo maduro, com a cinza da lenha. Todo mundo usava. Nas paredes de adobe ou parede de taipas, cada um tinha seu fumo ali, intocado, e a cinza ali no fogão mesmo. Ali era só molhar na água, e já colocar e… Ela não sabia por que eles faziam isso, mas era um meio que eles aprenderam de ter, o meio de escovar os dentes, de higienizar a boca. Até porque o fumo é anti bactericida, antifúngico, antifúngico. Então, eles escovavam, como os índios fazem nas aldeias. Era com fumo. E minha mãe sempre, pra mim...
P1 – Esfregava como?
R – Aqui, como se estivesse lavando uma vasilha. Então, eles lavavam... Todos os dias, eles... E a gente chegou a fazer isso também. Mas logo, logo chegou à escola, logo, logo chegou o tempo mais avançado, uma coisa mais presente, a gente já teve condições de ter acesso à escova de dente. Na época, muitos anos atrás, me lembro, antes dos anos 80, chegou o Projeto Rondon, que hoje representa o Projeto Rondon, São Rural, que é do Ministério da Saúde, que chegou as primeiras vacinas. Eu lembro que todo mundo que tomava as primeiras vacinas, tinha cicatrizes das primeiras vacinas. Eram violentas. Todo mundo dava as feridas, quando chegava as vacinas desse Projeto Rondon. E aí foi despertando, como se diz, a civilização nas pessoas, de que tinha que ter médico, de que tinha que olhar os dentes, de que tinha que tomar os remédios. Mamãe sempre fez os remédios pra nós, caseiro, os vermífugos, os xaropes, os banhos. Então a minha mãe, como você perguntou, do cheiro, do jeito, a minha mãe tinha um temperamento muito bom, mas às vezes ela saía também do temperamento dela normal, porque estressava demais, tanto de filho, um pra comer, outro pra dar trabalho, outro pra chorar, outro pra fazer bagunça na rua, outro pra ficar bravo com ela, ficar nervoso com ela. Então, o temperamento da minha mãe, às vezes, mudava. Mas ela sempre foi uma mãe presente, carinhosa, amorosa com os filhos. Quer ver minha mãe ficar chateada, brava, mexesse com o filho dela. Mas ela podia quebrar no cacete, ela podia. E nós só fomos gente através disso, os corretivos que a minha mãe dava. Ela dava castigo? Mas ela dava sustento. A minha mãe nunca deixou nós passar fome. Por pequena que ela foi, foi grande, guerreira. Pela tamanha estatura que ela teve… O cheiro da minha mãe… Eu não tenho o que falar, porque se minha mãe tivesse mau cheiro, eu não poderia falar, eu poderia falar pra ela, mas pros outros não. Porque se a minha mãe teve o mau cheiro, eu também poderia ter herdado isso dela. Porque às vezes o descuido traz para o corpo uma doença adquirida lá fora, que ela se torna oculta, se toma um antibiótico, no futuro o antibiótico deixa de agir, ela começa a aparecer, isso também traz o mau cheiro, o mau hálito. Porque hoje existem muitas plantas que tiram o mau hálito, tiram o mau cheiro, tiram o odor. Existem muitos meios naturais que tiram, além de antitranspirantes.
00:22:34 P1 - Mas ela andava assim também com medicinas de cheiro da mata?
R - Minha mãe é uma pessoa que gostava muito de chás e banhos. Então ela tinha porque ter esse DNA no sangue. Porque ela vem de uma origem que não tinha perfumes. Mas depois a minha mãe começou a ser uma pessoa perfumada. Minha mãe sempre foi uma pessoa cheirosa, que além dos artificiais que tinha, ela era uma pessoa que só lidava com ervas. Aonde minha mãe estava, todo lugar tinha ervas. Ela gostava de mexer com as ervas. Então, pra dizer assim, eu senti mau cheiro no meu pai. Cuidei de meu pai, fiquei com meu pai até ele partir, vestir outra roupa, um ano e dez meses, dando banho, fazendo o que eu podia fazer pra ele. Não sei se alguém vai conseguir fazer isso comigo. Porque todos nós tendemos a caminhar pra lá. Um dia alguém cuidar de alguém. Mas eu tive a oportunidade de estar perto do meu pai, dar um pouquinho pra ele o que ele deu pra mim. Porque eu conheci meu pai com os braços muito fortes, robusto, jovem, plantando, colhendo, colocando comida em nossa boca. Que meu pai só sabia fazer as coisas pra dar pra gente, pra dar pros outros. Meu pai não sabia vender nada. Minha mãe granjeava. Meu pai não. Minha mãe granjeava talentos. Meu pai não. Minha mãe era gestora, administradora de tudo. Então, a minha mãe, ela foi isso pra nós. A Dona Flor, ela foi uma pessoa que ela veio aqui, lutou, combateu, sofreu um pouco na vida, porque a vida faz a gente sofrer, a vida faz a gente viver, aprender, e lá no fim, sofrer, mas recebendo um galardão naquele sofrimento. Porque não tem um que vem aqui, pra não ver de perto que ele é realmente um ser humano. A única coisa que minha mãe não queria deixar era nós aqui. Mas ela entendeu que um dia ela tinha que deixar. Que é o processo, de nós passar pelo que minha mãe passou. Eu comecei a tratar bem, a dar valor à minha mãe, depois que nasceu meu primeiro filho. Aí eu vim ver o que é uma mãe, o que é um pai. Aí eu transmiti para meus filhos aquilo que minha mãe não transmitiu para mim. Eu sei porque minha mãe castigava nós de tal forma. E eu fiz diferente com eles. Eu fui mais bravo com eles, não fazendo gestos ou, às vezes, só olhando, e dando para eles o sério de mim, para não chegar a ponto de eu sentir. Como se diz, ficar ressentido porque fiz algo que estava nervoso ou, do momento, agredi fisicamente. Porque quando eu vi aquele rostinho tão frágil nascer, eu lembrei assim, eu lembro assim, que hoje está com 32 anos, será que eu vou ter coragem de dar um cinco dedos no rosto dele? Agora tá assim, mas aqui dentro de mim é mais forte, ele vive dentro de mim como se tivesse nascido hoje. É criança a vida inteira 0pra mim. Filho não tem idade, filho é filho a vida inteira.
00:25:44 P1 - E vocês são em quantos irmãos?
R - Nós somos 13. Nós somos 13, 6 homens e 7 mulheres.
00:25:52 P1 - E você já viu você ou algum dos seus irmãos ficarem doentes e sua mãe tratar com alguma medicina?
R - Sim.
P1 - Uma doença grave.
R - A maioria das vezes. Até fazer o parto da própria filha. Acompanhar a filha na gestação, no parto, no acidente de um machado, de uma ferramenta. Enfim.
00:26:17 P1 - Mas criança, você lembra de ver, assim, algum irmão seu ficando bastante doente e ela curar ele?
R - Já, todos nós, todos nós. Nós não tínhamos médicos. O médico nosso era minha mãe. O nosso médico era minha mãe. Então, o nosso médico era minha mãe, que naquela época a gente não tinha hospital nem pronto-socorro. Todos nós foram passados pela minha mãe. Além das noites em claro que ela passou, aquele tempo que nós não vimos. A minha mãe enfrentou tempos mais difíceis ainda, além daquele tempo que eu presenciei. Porque antes de mim, tem muitos que ela trouxe ao mundo. Tem cinco, quatro que ela trouxe ao mundo antes de mim. E eu, que eu não vi, eu vim. Até chegar a idade de eu ver ela cuidar de outros. Eu tenho noção de sete anos, oito anos depois, em 1973, eu sei contar. Pra trás, eu não sei o que que ela passou.
00:27:24 P2 – Só voltando um pouquinho, antes da gente continuar. Como é que a sua mãe e seu pai se conheceram? Como que eles chegaram aqui?
R – Olha, a minha mãe sempre foi daqui da região. O meu pai, também. Mas o meu avô, ele é de um lugar chamado Vão do Moleque, que é pro lado… Vão do Calunga. Fica do lado do Vão do Moleque, o Vão da Calunga. E meu avô veio pra cá, de cor bem negra, de traços diferentes, cabelo diferente, cor diferente. Preto. Mas aí ele casou com uma branca, que é origem de família bem distante, bem distinta da dele. E aí, se deu por família aqui, na época. E veio meu pai, e meu pai se deu por muitos irmãos aqui. E aí, por viver nas roças, nos vilarejos da vida aí, na época do sertão. Enfim, que eles falam sertão. Que aqui existe sertão e chapada. Aqui é Chapada, desceu 12, 15 quilômetros daqui, já é sertão, parte baixa. E meu pai viveu muito aí no sertão, meu avô, minha avó, todos eles, tudo daqui. E aí eles se conheceram. Até porque, até eles se conhecerem, eu sei da história como foi que eles se conheceram. Porque um não gostava do outro. Para se conhecer, meu pai não era chegado da minha mãe, que a minha mãe era louca pra ele. E meu pai era doido pra minha mãe. E acabaram dando esse monte de filhos. E se não fossem? Eu sei da história deles assim. Aí, então, eles se conheceram, se casaram. Casaram. Naquela época era no religioso. Eles não eram casados civilmente, no papel. E até que chegou o ponto de eles se distanciarem um do outro. Primeiro foi meu pai, em 2012. 4 de abril de 2012. E minha mãe, 9 de agosto de 2023. Mas aí ela ficou junto comigo cuidando do meu pai, depois a minha irmã veio ficar comigo aqui dez anos, ela já aqui, e eu já estava cinco, com a minha mãe. Meu pai veio ficar ausente, que ele fez uma passagem. E eu também não podia sair, que eu me retornei aqui, não deixei os conhecimentos que eu já tinha do passado, que era das plantas. Comecei com a minha mãe em 1973 também, a carreira de vida continuou, tudo. Filha, fui ficar sendo empreendedor lá fora, trabalhando lá fora. 16 de agosto de 2010 eu me retornei, por questão de saúde minha, tinha me arrebentado todo, fraturado todo, tinha tido um acidente. Vim cuidar do meu pai, meu pai tava com derrame, tinha tido AVC. E minha mãe estava com problema de chaga. E aí eu fiquei aqui com eles esse tempo, até hoje. Quando meu pai se ausentou, eu preferi ficar aqui com minha mãe, que ela estava só. Eu falei no meio de 13 filhos, minha mãe vai ficar só, meu pai foi. Com o tempo, minha irmã veio. E aí minha irmã cuidou mais, porque era mulher e tal, mas eu não abri mão. Fiquei aqui até o dia de hoje. Mas foi 15 anos do lado da minha mãe, bem proveitoso, bem lembrado. Minha mãe deixou boas lembranças, deixou o DNA em mim, em nós. Aquele que tem o DNA mais presente está mostrando que tem. O que não tem, está mostrando de outra forma. Mas, de qualquer maneira, ela deixou.
00:31:04 P1 - Você conheceu sua avó também?
R - Conheci. Conheci paterno e materno. Avó e avô.
P1 - Avó e avô, materno e paterno.
R - Benício e Amaro. Maria Andresa da parte do meu pai, não. Mas avó da parte da minha mãe, sim. Avô paterno, sim. Avó, não.
00:31:26 P1 - O que você acha que os seus avós tinham de conhecimento naquele momento que hoje você vê que não tem mais? O que você observava que eles tinham de conhecimento?
R - Olha, o maior conhecimento que eles tinham naquela época era que eles pregavam muito pra gente o futuro. Porque o futuro que nós vivemos hoje aqui, esse futuro presente, que é cuidar agora. Deixar de cuidar agora, que se possa cuidar amanhã, é tarde. Eles falavam pra gente que no futuro nós ia ver escassez de água, nós ia ver ter dinheiro e não ia ter muita coisa pra comprar. Ia ter muita seca. Eles falavam pra gente que o rio ia diminuir, as guerras iam aumentar. Tudo isso eles falavam pra gente. E eles não tinham, por exemplo, assim, a parte teórica de ler. E minha mãe, ela nunca foi… Minha mãe errou demais, mas ela acertou demais. Minha mãe nunca foi de ler livros. Eu, por exemplo, tenho enciclopédia. Eu leio. Quer me ver feliz, me dá um livro. Eu sou feliz em todas as áreas. Mas quando eu pego um livro, adquiro um livro, eu fico feliz. Mais feliz ainda.
00:32:41 P1 - Qual foi um livro marcante pra você?
R - Foi o primeiro do Plantas do Cerrado e da Mata, da Tamara, da UNB de Brasília. Foi o primeiro curso que a minha mãe deu, que eu participei com ela. E eu ganhei um livro, que esse foi a primeira abertura da minha caminhada no Raízes, na Chapada. Eu fui para o encontro de raizeiros já buscando bem esse livro. Bem ilustrado, bem, assim, com as características de me incentivar como eram as plantas. Mas eu já tinha vários livros antes, e eu não lidava muito com eles, lendo sobre as plantas. Mas cada passo que eu ia, eu queria falar das plantas, queria saber sobre as plantas. Então esse foi marcante.
00:33:30 P1 - A sua avó, seus avós, conheciam de planta também?
R - Também. Eles tinham prática de cristais e plantas. Todos eles. Essas pessoas mais velhas, todos eles. A minha avó fazia as garrafadas dela. O meu avô fazia as garrafadas. O meu pai fazia as garrafadas. A minha mãe fazia um tanto além de garrafadas. Que ela fazia as pílulas de babosa, ela fazia os chás, os banhos para parto, banho para criança. Ela fazia os xaropes, ela fazia os vinhos, os licores de jabuticaba, os licores de jenipapo, vinho de jenipapo, vinho de acerola. A minha mãe fazia o doce da jaca, a rapadura com leite, a rapadura com gengibre, a rapadura com amendoim. Então, a minha mãe, ela tinha a cultura de fazer as coisas de casa, do cerrado, da mata, do cultivo. Então, aí nós fomos agregando isso baseado nos frutos do cerrado, nas plantas do cerrado, da época, como cagaita, como jatobá, baru, mangaba. Tudo que vem do cerrado hoje, a prática na chapada, da cultura, dos conhecimentos nossos. Esse ano está escasso, vai estar escasso. Esse ano não teve frutos do cerrado, porque não teve chuva. Porque ano passado deu muito, esse ano não deu. A única fruta que deu muito foi o piqui. Posso estar falando demais sobre isso, porque vocês não me perguntaram, mas estou falando da percepção que eu tenho, de quanto vai ficar caro. Vai ficar difícil esse ano para as pessoas que produzem, a sorveteria, a culinária. Tudo que eles produzem no cerrado, castanha, que é bem acessível, ela vai ficar muito pesada o preço para as pessoas esse ano, porque não teve. Esse ano eu não tive acesso a um baru, a colheita, e um jatobá.
00:35:29 P1 - A própria árvore já não está...
R - Não teve. Não teve. E estou vendo que o caju do cerrado vai estar disperso, a mangaba vai estar dispersa, vai ter um pouco só o piqui. A cagaita está dispersa, porque hoje, primeiro, não teve nenhuma chuva. Geralmente a gente tinha chuva em junho, que é da flor das mangas, flor do cerrado, dos frutos do cerrado. Não teve até agora. Teve uma chuvinha passada aí. Jabuticaba, parece que a coisa vai pegar, floriu muito, mas parece que vai perder a safra. A única coisa que vai ter muito é jaca. Que é cultura aqui da região as pessoas explorarem isso, porque as pessoas que vêm de fora, que não estão acostumadas, a jaca desidratada, a jaca passa, a jabuticaba. E tudo, mangaba. Que o sorvete de mangaba é uma beleza. O araticum não sei como é que vai estar. Então são práticas, mas quem aplicou essa prática com mais intensidade foi as pessoas de fora que vieram pra cá. Que a gente usava por usar, e hoje eles exploram como meio de sobrevivência e alimentação. Mas pelo despertar das pessoas que vieram de fora pra cá.
00:36:40 P1 - Eu queria que você falasse um pouco, quando começou essa coisa dessa mudança da chuva, da lua, dos tempos, e o que realmente mudou na natureza?
R - Isso, basicamente, eu notei que veio uma mudança, assim, praticamente radical, em 2007. Até 2007, lugares que nunca secavam, em 2008 começou a secar, porque teve uma chuva o ano todo. Teve uma chuva de janeiro a janeiro, não aquela chuva do verão, mas uma chuva que dava esporadicamente. Ela chovia, formava aquele veranico, dava aquela chuvinha, formava na serra aquela imagem de chuva, chovia e passava. E ficou julho, ficou maio, junho, julho, agosto até novembro. Aí veio com que tudo descontrolou. E aí começou a secar os córregos. 2008 também choveu o ano todo. Não foi a chuva direta, mas aí ela começou a passar outubro, novembro, dezembro e janeiro. Ela chovia 27 de setembro. Chovia junho, dava uma chuvinha das flores, julho não tinha chuva, agosto tinha chuva, dia 15 de agosto, que é uma festa típica que tem aqui, chama Muquém. Depois o pessoal molhava lá nessa época. Aí chovia 7 de setembro, 12 de outubro. Comemorativa essa chuva do dia 12 de outubro, a gente tinha essa chuva. Aí 27 de setembro, 7 de setembro chovia normalmente, quinze de novembro. Aí ela começava, 27 setembro e a gente podia plantar sem chuva, que a gente ganhava por excesso de chuva, não por ausência de chuva. Daí pra cá mudou. De 2007 para cá, houve essa mudança climática geral, aqui na região. Então nós não estamos recebendo chuva mais como antes. As afluentes, nascentes, encostas, cabeceiras, têm sofrido.
00:38:41 P1 - E você atribui a que essas mudanças?
R - Eu atribuo muito, hoje, no que se diz o passado, a exploração em plantio de soja, a exploração em danificar e agredir o meio ambiente. E o que se diz no passado, as pessoas esperavam que no fim da época ia faltar chuva, nós íamos ver coisas espantosas, e que o homem não ia entender. As pessoas iam correr de um lado para o outro como se fosse formiga caçando morada, caçando lugar melhor para comprar, lugar que fosse muito bom. Como as pessoas estão vindo para cá comprando alguns lugares. Isso surpreende, porque amanhã ou depois não tem mais água. E aí, isso, foi baseado nisso, no que a gente está vendo. Pra mim que tem 60 anos, baseado no que eu vi no passado.
00:39:33 P1 - Você viu chegando a soja aqui?
R - Mas por perto, em volta. Alguns quilômetros daqui.
00:39:39 P1 - Mas antes, quando você era pequeno, não existia?
R - Não, não, não. Não tinha, não existia. Isso foi nos anos 80. Nos anos 80 começou a chegar pra cá esse tipo de cultivo. Então começou tudo nos anos 80. Então tem a história de Alto Paraíso, Chapada dos anos 80. Os naturalistas, os sannyasis, os povos de culturas diferentes que vieram pra cá, que não foram eles que fizeram isso. Mas foi no ano que chegou, caracteriza, anos 80. Quando fala Alto Paraíso, a cidade dos anos 80, todo mundo podia. Aí foi onde despertou. Que eu vivi tempo bom no tempo dos anos 80. Foi onde eu aprendi a ser um pouco diferente em relação à preservação, em relação a ganhar mais, a trocar mais com as pessoas as coisas, entender o que é a troca. Que a troca também é moeda, não era só o dinheiro em espécie. E aí foi onde fortaleceu a gente a ter uma caminhada diferente. Hoje nós somos alguém aqui, através desse povo dos anos 80.
00:40:44 P1 - O que gerou esse aprendizado, assim, nos anos 80?
R - Gerou pra gente porque esse povo vive com uma cultura diferente.
P1 - Ah, foi a chegada.
R - A chegada deles. Com aquela questão, olha, beira de rio você não abre, encostas, campo úmido, campo alagado, você não abre, esse você preserva. Aí chegou a lei de 30 metros da margem. Depois chegou uma outra, um plano diretor, chegou uma outra lei de 50 metros. Ainda é pouco. Porque a água, ela não é minha, ela não é sua, mas é nossa. Ela é da marinha. Então, quando a gente preserva a água, a gente está preservando o quê? A vida. Então eles vieram com essa cultura de preservar a água. E até hoje ela é presente, essa cultura deles. E nossa, minha, obrigação minha, trabalhar em questão da preservação da água, porque sem água nós não temos nada. É isso que eu falei, cultura do povo dos anos 80, foi quando chegaram o povo de fora pra cá, que aqui só era nós. Mas aí vieram vocês de São Paulo, vieram vocês do Rio, vieram vocês lá dos Estados Unidos, do exterior, vieram de vários lugares. Alto Paraíso, Terra Prometida. Anos 80. Então, se você entrar lá, em algum link que conta Chapada, você vai ver a história dos anos 80, tem livros, tem historiadores. Igual eu estou falando aqui, eu não sou historiador, mas estou falando a história dos anos 80. Foi onde veio um povo que despertou em nós essa consciência da preservação. Como eu disse lá anteriormente, a abertura da minha conversa em relação à chuva, como mudou a chuva, foi a questão deles estarem aqui, na época, tinha muita chuva. Mas eles ainda viam um desastre muito grande, uma catástrofe muito grande em relação a nós aqui, que nós tínhamos a cultura de desmatar, de roçar, fazer roça em volta dos rios. Nós não tínhamos a consciência de preservação. Nós tínhamos a consciência de explorar, de plantar, de cultivar, mas não tínhamos a consciência de que a beira do rio poderia estar botando em risco o nosso futuro, que é hoje.
00:43:04 P2 - Esse povo dos anos 80, eles aprenderam com vocês também, ou não?
R – Aprenderam. É um povo muito, muito, muito, muito bem respeitado. Muito bem visto e considerado. Até porque tem a dona Jurema, que se foi, tem o Lula, tem o Peter Christopher Midkiff, tem o Dado, o Jean, Zé Ronaldo, enfim, a Paula, a Vistara, o Pacheco, a esposa dele. E muitos outros. Aí vem a Sílvia. E vem gente demais do passado, pessoas que já foram e que deixou boas lembranças pra nós aqui. E pessoas que estão aqui, que estão somando ainda com a gente. Eles estão juntos. Estão velhinhos, na forma de dizer, mas são bem jovens, na forma de praticar. Que eles ainda têm boas memórias, bons ensinamentos. Não perdeu os ensinamentos, ainda cultiva as áreas que eles adquiriram. E eles contribuem para esse planeta.
00:44:09 P1 - E o que você fez, assim, depois desse aprendizado pela preservação do cerrado? Você na sua vida, com a sua família.
R - É isso que eu estou fazendo hoje. Que eu acabei de ressaltar com alguém, meio-dia, antes de eu vir pra cá pra gente almoçar, eu estava falando sobre dessa questão. Que meu ponto de vista aqui não é está aqui pra ganhar dinheiro. Eu tô aqui pra preservar isso, pra que eu vivo. Enquanto outras pessoas precisam viver. Porque enquanto eu tiro uma árvore lá no mato, que não precisa tirar ela, tem dez pessoas tirando dez. Aquela questão da minha consciência, da sã consciência, eu saí com você e depois você volta lá com mais dez pessoas. Eu abordei isso no passado. São os cuidados. Esse é um dos cuidados. Uma nascente que está lá, quietinha, passei por ela, ninguém sabe. É onde eu falei, leva onde não tem e cria onde não existe. Uma fonte que você está morrendo de sede e ela está jorrando ali pertinho de você. Mas os animais sabem que tem essa fonte ali. E quem criou essa fonte lá? Lugar que é sagrado. Está lá. Passa lá, leva só fotos e lembranças. Não leve ninguém lá. Porque quando as pessoas perguntam para mim, por que você está sozinho? E eu abordei, mal acompanhado, a forma de dizer. Mal acompanhado é quando você está incomodado com alguém que está pisando perto de você, que você não quer que pise perto, que você não quer escutar o ruído do sapato dele andando perto de você, então você anda sozinho, que é melhor. Porque tem muita gente praticando besteira. Eu, se eu quiser, hoje, amanhã, eu posso estar praticando besteira, mas pra quê? Eu estar consciente que a minha cabeça tem que ir pro travesseiro. Viu que eu falei que eu dormi um sono? Era pra estar aqui. Esse sono era pra estar aqui agora. Porque, realmente, eu estava exausto. Está com muitos anos que eu não dormi o sono que eu dormi agora à tarde, como se fosse cinco minutos. Dormi mais de hora, como se fosse... A hora passou em cinco minutos, gente. É incrível o negócio desse.
00:46:31 P1 - Falando em sono, tem algum sonho que você teve que foi marcante pra você? Um sonho dormindo mesmo.
R - Não.
P1 - Nunca?
R - Não.
P1 - Nem planta você viu em sonho?
R - Vê, sempre. Porque são muitos sonhos todos os dias, todas as noites. Eu tenho sonhos. Mas tem sonhos que eu nem sei interpretar. Porque eu não sei interpretar sonhos. Pode ser que aconteça sonhos comigo, algo que aconteceu no sonho, mas eu nem lembrei desse sonho que passou comigo à noite. Porque às vezes eu tenho três, quatro sonhos na noite. E às vezes eu não chego nem a sonhar muito, porque o sono é muito leve. E esse sono de hoje é um sono, que parece que eu tinha sete anos, oito anos, dez anos de idade. Esse soho que eu dormi hoje meio-dia. Porque eu não ia dormir pra falar com vocês. Mas aí teve o que? Eu ir dormer, parece que eu fui empurrado, se deita e dorme.
00:47:29 P2 – Você tem algum sonho recorrente, Wilson?
R – Não, não. Sonhos normais, de você sonhar com bicho peçonhento, sonhar vendo um acidente, sonhar… Isso é normal. Porque até eu não busco muito quando eu tenho esses sonhos.
00:47:53 P1 - E assim, sua mãe, para usar as medicinas das plantas, ela aprendia isso, foi só com os mais antigos ou ela conseguia aprender da própria planta ou às vezes sonhar com alguma planta? Você sabe como é que ela teve esse aprendizado?
R - A minha mãe, ela contava muitos sonhos. Mas a minha mãe, ela aprendia muito com as plantas. Porque a minha mãe, ela nunca foi de estudar livro, pesquisar. Se assunta como foi a história da minha mãe. Como é a história da minha mãe hoje, para mim contar. “Licença, Dona Flor, de contar um pouco da senhora.” Mas a minha mãe, ela não estudava, a minha mãe era intuitiva. Ela fazia as coisas ali. Depois você vai ver que a gente anda no rastro dela. Então, a minha mãe, ela não teve livros, minha mãe não foi de estudar livros. Minha mãe nunca foi de estudar um livro. Todas as vezes que eu vi a minha mãe, ela lidando com a planta. Aí ela: ah, essa planta aqui, tinha folha ou não tinha folha. Ela estava lá naquela planta. E eu não sigo os rastros da minha mãe, porque ela sabia. Isso tá dentro de mim. Isso tá no meu sangue. O que eu caminho com a minha mãe está no meu sangue. A responsabilidade de eu ir pro cerrado, de parar numa planta com você, hoje é responsabilidade minha. Qualquer planta que passou pela minha vida, desde menino, até aqui, até agora, até ontem, é responsabilidade minha.
00:49:30 P1 - Qual foi uma planta importante, assim, na sua vida?
R - Eu tenho que falar de todas.
P1 - Pode falar algumas. Pode falar, fica à vontade.
R - Eu vou eleger uma.
P1 - Não, pode ser algumas mesmo. Algumas que você tem uma afinidade com a planta.
R - Qual é a planta que eu tenho mais afinidade? Deixa eu ver. Não. Não tenho. Para ser sincero. Todas.
P1 – Todas?
R - Todas.
00:50:11 P1 - E como foi que você começou a desenvolver essa coisa de raizeiro, assim? Você mesmo, além da sua mãe, como é que você...
R – É porque quando a minha mãe chamava eu pra colher o carrapicho-beiço-de-boi, que chama garra-garra, carrapicho barra de saia, dá vários nomes. Aí, ela... Velame-branco, ou barba de timão, ou a casca de jatobá, ou a casca do angico, ou o pacari, ou o mangaba. Porque a minha mãe nunca foi de usar mangabeira, mas a minha mãe já usava outras plantas que substituíam a mangabeira. Porque isso aí é coisa nova, mangabeira é pesquisa, é estudos. E eu comecei a desenvolver vendo a minha mãe fazer os processos de conhecimento no mato. Mas aquilo ali eu não gravei, não. Eu só conheci a planta. Eu não gravei nada de saberes, porque saber, conhecer e fazer, são diferentes. Você pode ir para o fim do mundo agora, que eu colocar o olho em você, eu vou te conhecer, mas não vou saber nada de você. Eu vou saber que você fez umas horas junto comigo, a gente conversando desde o almoço até aqui. Ele também, não sei nada. Então, esse saber, ele é uma coisa muito, muito rica. É você saber que você conhece uma planta e ela tem dez benefícios. E de que tá você, você, você, nós quatro aqui, cada um fala um pouco dela e não damos conta de falar tudo. Aí se você sabe dessa planta, eu respondo pra você o que eu sei dela. Mas você conhece ela e ele conhece e eu conheço. Mas às vezes você conhece várias plantas e não sabe nada dela, como eu também. Eu conheço muitas plantas que eu não sei nada dela. Então aí é que está, o saber, o fazer e o conhecer. Eu conheço essa planta, mas ainda não estudei ela. Essa planta aqui, esse fruto dentro deste cesto aí, ele tá do seu lado. Ele é uma planta que ele traz o benefício que o mar não traz aqui, que nós não temos terras vulcânicas. Mas agora chega lá você e vê ele. Você conhece. Eu conheço, mas não sei. Então existe o saber, o fazer e o conhecer. Conhecer é muito. Conhecer é muito. A cada momento você conhece muita gente. Agora vai saber. Cada momento você conhece muitas plantas, mas vai saber. Agora vamos saber? Vamos saber, então vamos fazer.
00:52:50 P1 - E quando vocês começaram a fazer troca entre os raizeiros?
R - Foi em 2015. Eles me fizeram convites para participar de camera, participar de gravações. E eu ainda muito tímido, porque ainda sou tímido. E nesse tempo, eu: não, mas eu não quero, não me interesso. “Não, mas vai ao menos conhecer lá o Raízes, participar do Raízes, ver como que é.” Eu já participava com a minha mãe de alguns cursos, vivências, como a gente está aqui, se fossem mais pessoas. E minha mãe falando das plantas, fazia as garrafadas, oficinas, palestras, saídas em campo e tudo mais, reconhecimentos. E eu ali de lado. Mas e quando eles me convidaram em 2015, eu fui. Eu fui em 2015. Em 2016 eu já voltei de lá, no papel de raizeiro. Mas até então eu voltei atrás, falei, mas pra que eu fui fazer isso? Eu não vou dar conta de gravar tanta coisa em mente. Eu tenho que estar com o livro na mão, olhando a cada planta, o que diz a planta. Mas em pouco tempo… Foi um desafio. Eu parei pra pensar. Eu sou capaz. Eu não me esforcei muito. Eu fui conhecer dez plantas pra me dobrar pra vinte, pra me dobrar pra mil, pra gravar. Porque hoje, na verdade, você tem que estar com a plaquinha. Minha plaquinha está gasta. As plaquinhas aqui já estão bem... dando conflitos. Porque faltam muito ômega 3, ômega 6, ômega 9. Quem disse que eu como duas castanhas, uma castanha por dia, uma nozes por dia, uma amendoim por dia. Porque essa é a base de nós termos na memória do nosso computador mental. Muitas pastas, muitas pastas, muitos arquivos guardados. Porque às vezes nós lembramos de coisas quando tínhamos sete anos, mas não lembramos de um recado que você me deu agora há cinco minutos para falar com ele. Na idade que eu estou. Mas cada dia parece que você reforça mais, você fica mais capaz. A sua capacidade de memória é grande. A nossa capacidade de memória é grande. Porque cada dia me pede mais, assim, faz mais. O meu organismo, ele acumula meios de, meu cérebro pede, pode ir até onde der, eu não sei até quando.
00:55:34 P1 - Falando em memória, você citou a memória. Antes de chegar esse mundo aí, como é que era a transmissão de memória? Os antigos, tinha algum momento que eles transmitiam a memória para os mais novos?
R - Sim, mas através de ausência. Ele passava pra você um fazer e sumia, desaparecia. E você tinha que dar conta de lembrar o que ele tinha falado pra você, porque tinha castigo. A transmissão de memória era essa. “Vai em tal lugar, dá tal recado pra alguém, fala pra pessoa assim e assim, quando eu voltar você fez isso…” Sem anotar. Que hoje você... Aí... “Meu Deus, como eu vou fazer agora?” Até porque naquela época tinha como você memorizar, minha mãe vai cuspir no chão. Era uma palavra. Se o cuspe secar, você vai ter um castigo até você voltar. Então você tinha que dar um passo pra lá e um passo pra cá. Porque uma palavra ainda era uma ordem. Como hoje, um fio de bigode ainda é uma assinatura, para nós mais velhos. Então, os pais antigamente faziam filhos homens. Hoje faz os filhos homens, mas eles deixam de ser homens na palavra, no caráter, a partir do momento que hoje você não pode mais acompanhar seu filho no que ele deve fazer, até uma certa idade. Mas é obrigado a criar ele. Porque os pais não têm poder sobre os filhos dentro de casa, para falar alto com ele. “Você vai fazer, e quando eu chegar eu quero pronto.” Ele te confronta. Antigamente, os filhos obedeciam os pais. Hoje, os pais têm que obedecer os filhos. Não sei se você está entendendo o que eu estou dizendo.
00:57:32 P2 - Mas, seu Wilson, no dia a dia, em que situações geralmente os seus pais, os mais antigos, ensinavam os mais novos? Era assim, de noite, de dia?
R - Qualquer hora. Qualquer hora. E era no rústico. “Pai!” Não tinha aquele tom de voz, você chamava pai de medo. O que ele podia te responder? Meu pai não, meu pai era diferente. Meu pai não gostava de bater, meu pai gostava de ver nós sorrindo, brincando. Então nós tínhamos como chamar papai. “Papai!” Aí ele ia… Tudo que ele ia fazer, ele gostava de ter nós por perto pra fazer com ele. Se ele tinha a melhor cana no quintal, ele chamava nós pra tirar. Se ele tinha o maior cacho de banana, ele queria que nós usufruísse daquele cacho de banana. Tudo que ele tinha de bom. As primeiras mangas ele trazia pra nós. Ele colocava nós pra pegar pra ele, pra nós. Mas ele preferia que nós pegasse pra nós do que pra ele. E tudo que ele falava pra nós era assim, com calma, com paciência. Então, a transmissão de memória, antigamente, ela era forçada. Ela não era como hoje, sentar, conversar com meu filho. Eu falava pro meu filho, “olha, pega o meu dinheiro, pega o dinheiro e vai comprar pra mim. Esse dinheiro é de quem?” “É do senhor.” “O que você faz com o troco?” “Trazer pro senhor.” E já sabia porque. Porque não podia gastar o que não era dele. A hora que eu desse pra ele o dinheiro, eu falava: vai comprar o que você quiser. Ele sabia, o dinheiro é meu, meu pai não vai interferir aqui. Mas ainda hoje é do mesmo jeito. Ele sabe gastar o que é dele. Porque ele não aprendeu a gastar o que é dos outros. O troco ele trazia, e traz de qualquer pessoa. E hoje ele faz isso com as pessoas que estão do lado dele, leva e presta conta.
00:59:27 P3 - Esqueci, mas você não falou o nome completo do seu pai, nem como é a figura dele?
R - Sim. Meu pai, não sei se as fotos estão por aí, em algum lugar exposta. Mas meu pai era uma figura assim, bem tranquila, bem parecida comigo, com nós, homens. Que é seu Donato, eu falei, sou filho do seu Donato e Dona Flor. Quando eu apresentei eu falei, filho do seu Donato e Dona Flor, tá gravado. Enfim, desculpa, mas eu falei. Aí, então, meu pai era uma pessoa muito, muito amorosa. Era uma pessoa que se tivesse aqui hoje, eu falaria mil vezes pai, porque faz falta toda hora, todo tempo. Ainda que ele fosse agressivo, que ele fosse violento, mas meu pai, ele sempre foi um pai. É diferente da minha mãe. A minha mãe é uma mãe, que mãe não substitui pai. Mas minha mãe substituiu tudo.
01:00:30 P1 - Mas seu pai, um aprendizado que você sentiu que foi importante, que ele te passou, um valor?
R - Trabalho. Ser bom, bondoso. Bondoso não é o teu coração bom. Bondoso é ser tudo. Meu pai era tudo. Ele se jogava pra ser bom com você. Por isso que eu falei, meu pai nunca foi de vender nada na vida. Tudo do meu pai era pra dar. Então, minha mãe era gestora. Minha mãe, tudo ela granjeava, mas porque ela sabia muito da necessidade. Meu pai sabia, porque ele plantava, ele colhia, ele desbravava, ele carregava peso, ele fazia tudo, fazia com que nós trabalhávamos com ele. Mas meu pai, depois de tudo pronto, todo mundo podia chegar e usufruir, sem custar nada. Ele não tinha olho pra dividir as coisas. Tirar mais pra ele e pros outros menos. Pra ele, todo mundo igual.
01:01:33 P2 - Eles contavam, os mais velhos contavam histórias pra você de visagem, de lenda, histórias antigas da região?
R - Os mais velhos contavam e, na verdade, já tem algumas coisas no ar, aí na mídia, de coisas presentes e que, além dos mais velhos contarem, coisas que a gente presenciou. Eu presenciei.
P2 - Tipo o quê?
R - A gente tinha aqui, na época, um vilarejozinho, que era bem pacata mesmo, que hoje avançou um pouco mais. Então os mais velhos, como minha mãe, como o Louro, a Zita e outros chegaram a presenciar as práticas de algumas coisas que aconteciam no meu dia aqui, e apareciam em um certo lugar, e quando chegavam em um certo ou outro lugar, sumiam. E todo mundo olhando e ninguém conseguia enxergar. E eu já consegui ver, não visagem, mas umas duas feitas, algo anormal. Que até hoje não desafio. A meia-noite, até as três da manhã, foi cabuloso. E tem pessoas que sabem contar no mesmo local que o meu. E no momento que aconteceu isso comigo, eu estava com alguém. Em noite de lua cheia, a gente vem de Alto Paraíso pra cá, e a minha mãe manda a gente buscar rapadura feito. Como está a fazenda ali, ela fazia rapadura em vários lugares, e aí ela pegava uma porcentagem da rapadura. Olha como é que era a vida da minha mãe, cara. Ficava três horas da manhã, até certas horas, com um sol quente desses, com barriga, fazendo rapadura, olhando o tacho, como aí, pra dar sustento pra nós. Ela: a rapadura acabou aqui, você vai lá buscar em tal lugar. Que ela fazia em vários lugares, e ficava guardada a rapadura lá, pra depois ir buscar. E nós fomos buscar a rapadura. Posso contar?
P1 - Pode mesmo.
R - E aí, abaixo da casa do Louro, tinha uma casinha que era casa de festa. E aí, quando acontece, nós vinha ali, onde tem um escrito lá, Pesque e Pague. Tem uns bambus e tem uns laguinhos de peixe, indo daqui pra lá e vindo de lá pra cá. Você deve ter visto, uma fazendinha que tem uns laguinhos de peixe. Logo saindo do moinho. Você viu esses lagos de peixe? Campo do Meio. Dona Leonia. Do Naná. É onde tem o lago de peixes. Naquele bambu, onde entra no portão, de longe você avistava dois olhos que pareciam um candeeiro vermelho, dois faróis. Mas foi chegando pra perto, que a torcida de bambu é pequena. Mas no passado, um rapaz chamado Anicésio, falava pra minha mãe. “Flor, eu passei no bambu e eu vi um bicho preto, maior que um lobo, deitado debaixo do bambu, mas o olho dele é igual a uma brasa acesa.” Ela falava pra ele. “Deixa de mentira, Anicésio, vai mentir pra lá.” E nesse dia deu de eu dar de cara com esse rapaz, lá debaixo desse bambu. Eu e meu irmão, Na. A gente vem de lá pra cá, de longe, atrelou o saco, jogou aqui. E eu tô vendo esse negócio de longe, eu falei: o que é aquilo vermelho lá? Aí deu pra mim ver que era um negócio da orelha bem em pé, olhando pra nós, focinho fino, comprido, mas com as patas grandes pra estrada, mas deitado na parede do bambu. Aí deu aquele vento. Aí eu vim andando, aí e olhei assim, meu irmão, já viu. Meu irmão é gago. Aí meu irmão falou: olha o tamanho. Quando ele falou, olha o tamanho, eu abracei ele por trás e coloquei a mão na boca dele, pra ele não soltar a voz. Mas nós já estávamos em cima do negócio. Já dava pra você ver ele bem assim, bem maior que um lobo, mas muito preto e brilhoso. Mas aí eu lembrei que minha mãe já tinha falado com o Anicésio, com o rapaz que chama Anicésio, que ele tinha visto, ele falava que era lobisomem. E aí, nós passamos. Aí a estrada não vicia andar, parece que o bicho vinha atrás da gente. E nós passamos por fora. Fomos embora. Chegamos na ponte, escutamos barulho de alguém passando montado. Era a mãe do Naná, dona daquela fazenda do Pesque e Pague, dona Leonia. Ela vinha de uma fazenda chamada Fazenda Macaúba. Falei: dona Leonia, não passa ali não, que ali tem um bicho preto, do olho vermelho, debaixo do bambu. Ela é protestante. Aí ela falou assim, “ah, meu filho, em nome de Jesus, eu piso nele agora.” Ela passou lá e não viu ele. Não viu ele. Mas eu já tinha visto o Anicésio falar pra mamãe que tinha visto ele. Nessa época tinha um rapaz chamado Jovelicio, que viu um bicho descer no mesmo bambu, meio dia em ponto, desceu negro, na ponta do bambu e pulou no meio da estrada e ele desmaiou. No mesmo lugar. Ah, história deles. Mas o que eu vi, eu vi. Não posso levar castigo daqui por estar falando menos verdade. Foi o que eu vi. Disco voador eu nunca vi. Defunto eu nunca vi. Mas alguém deu de cara comigo três da manhã, por eu estar andando, três da manhã, a pessoa gritando e eu respondendo. Uma pessoa gritando e eu respondendo. Isso de distância longe, a pessoa dentro de uma mata e eu no campo, vindo de um lugar chamado Loquinhas. Beleza, a pessoa gritava e eu respondia. Aí eu vinha de bicicleta, chegou no córrego, eu falei: não vou molhar os pés. Dei meio pedal, quem é gritou, mas já gritou no escuro, no meu ouvido. Aí deu aquele tom, de quem parece que ia... Aquele tom agudo. Aí eu já senti que tinha um cara, assim, na minha frente, de chapéu pequeno, do meu lado. Rapaz, aí foi forte. Ele sumiu. Ele sumiu quando eu empurrei a bicicleta, eu senti que ele tava montado, enganchado na bicicleta, eu não dava conta mais de empurrar a bicicleta. E eu consegui empurrar essa bicicleta até sair no clarão da luz elétrica. Quem é desapareceu. Eu não desafio mais. Aí um dia eu vinha pra Brasília, Cidade dos Automóveis, escolher, pegar uma caminhonete. Precisava de uma caminhonete porque a estrada era ruim. Em 90 e... 2005. 2005. Aí eu vim buscar meu irmão aqui, o Louro tinha um Volkzinhos. O Volkzinho, Gol. E eu peguei ele pra vir aqui à noite buscar meu irmão. O que que aconteceu, rapaz? Quando chegou pra cá do Vale do Amanhecer, deu uma luz alta pra nós. Eu falei: Louro, abaixa o seu farol. Aí Louro abaixou o farol, aí deu de clarear tudo até enxergar seus pés dentro do carro. Aquela luz que iluminou tudo, o cerrado todo, pegou a estrada toda. Não era um carro. Aí de repente apagou tudo. Aí o carro do Louro foi e apagou também. Zerou o carro do Louro, painel, partida, zerou. Nós ficamos quase uma hora esperando esse carro pra ele funcionar. O louro sabe contar isso. Uma coisa estranha também que aconteceu. Mas eu nunca vi um defunto, eu nunca vi uma visagem, uma coisa assim, mas já vi algo que não é dessa natureza, do meu costume. Vi duas, três coisas na minha vida, só, com 60 anos. O que diz passar, eu estou falando menos verdade.
01:08:47 P1 - Qual que é a outra? Você contou duas, né?
R - Eu tava em um lugar que chama Parque Solarion, onde tem cachoeira, engloba duas cachoeiras, Anjos e Arcanjos. E eu gosto muito de desafiar à noite. Saí com dois cachorros e fui até Anjos e Arcanjos. Lá, eu fiquei por ali, já tarde, e já deu quase onze horas, e eu voltei. No que eu voltei, antiga moradia nossa, tem uns pés de manga. Aí eu disse assim, vou passar por aqui, que eu passei pela ponte e voltei pela passagem do rio. Aí eu vi que tinha algo anormal ali. Começou a descer, parecia que estava descendo uma tempestade de um pé de manga. Parece que estava descendo assim, um monte de coisas de um pé de manga. E deu aquele vento, parecia que ia chover, mês de setembro. Aí eu comecei a ficar com medo. Comecei quase que a fazer besteira. Os cachorros já tinham feito, que eu senti. Aí os cachorros começaram a soltar merda mesmo, e batendo em minhas pernas, e entrando em minhas pernas. Eu falei, o que foi, meu Deus? E aí eu perdi a noção pra onde eu saía, se eu ia pra trás, saía pra frente. Eu perdi a saída pra vir embora, de tão estranho que foi o negócio. Então eu sempre falo assim, eu não desafio mais, porque eu desafiava a natureza à noite. Eu gostava de andar a qualquer hora da noite. Então a noite não foi feita para a gente andar, dependendo do horário da noite, não foi feita para a gente andar. A noite é feita para a gente ficar quieto em casa. Principalmente nesses lugares, porque existe. Existe, mas existe porque eu tenho certeza absoluta, que esse papel que eu estou falando aqui, eu estou falando como se eu tivesse visto acontecendo agora. E só eu e alguma coisa aqui do universo que viu o que aconteceu, porque não tem necessidade nenhuma de eu equivocar e estar falando coisas que não é da minha concepção, do meu respeito. Porque aconteceu três coisas comigo que até hoje eu não tenho boas lembranças, mas tenho experiência de saber que eu não posso desafiar a natureza.
01:10:57 P2 - Por que você acha que isso aconteceu aqui no Cerrado, que essas coisas acontecem aqui nessa região?
R - Olha, porque eu sei assim, que quando a gente entra em algum lugar que é mato, tem os protetores da mata. Tem os protetores da noite, como tem o do dia. E todo lugar exige respeito. Às vezes a gente chega no lugar errado, na hora errada. E a gente tem que chegar na hora certa, às vezes. E ainda por cima pedir licença. Estar preparado e despreparado. No lugar errado, na hora errada e despreparado. Porque hoje, por que não aconteceu mais isso comigo? Eu fui de novo? Eu não fui mais. “Você já viu disco voador na chapada?” Não. “Você já viu estrela passando de um lado para outro?” Eu creio que é estrela. Aquela coisa que sai, aquela tocha que sai de um lado e passa para o outro. Isso aí eu já vi. Aparelhos que ficam piscando. Todo mundo vê. Todo mundo conta. Mas vou saber o que é? Mas agora o que eu vi, que me assustou, esse aí ficou na lembrança. Nunca mais eu quero ver. Nunca mais eu quero ver, porque é assustador. É algo estranho. Então eu falo assim pra você, você crer Wilson? Eu não creio, mas eu sei que existe. Porque se eu duvido, vou lá de novo pra ver. Eu não creio, mas eu não duvido. Porque tem, existe. “Ah, mas não existe.” Existe. Existe a força do mal e a força do bem. Eu não vou dizer que é a força do mal. Mas cada lugar tem a sua proteção. Nós não temos a nossa proteção. A natureza tem a sua proteção. E nós desafia. Nós desafiamos a natureza. Muita gente desafia a natureza.
01:12:58 P1 - Eu queria perguntar se além das curas de parto, se sua mãe fazia reza de você ver coisas fortes acontecendo e ela lidando mesmo com o espírito, com um problema sério assim?
R - Não. Não. Não. A gente não lutou muito com isso, sabe? Porque a minha mãe, ela, um certo tempo, ela era muito católica, ela cuidou muito da igrejinha aqui da frente.
P1 - Mas ela benzia?
R - Não. Não. Não, minha mãe não foi de benzer. A minha mãe, ela foi muito de oração. Às vezes a coisa estava pegando, ela ia orar. Minha mãe, todo dia, ela lia a Bíblia. Quando ela passou realmente a conhecer uma outra história de vida em relação à religião dela, mas ela não discriminava nenhuma. Todo mundo fazia aquilo que achava que estava certo. Desde que, para ela, não fosse errado. Porque tinha algo que as pessoas, hábitos e costumes, que ela, às vezes, entrava na vida da pessoa e falava. “Você não pode fazer isso.” Eu não, se a pessoa chega para mim e pede para mim, “Wilson, eu quero deixar de fumar. Eu falo: mas espera aí, você está precisando de ajuda? A gente pode conversar. Porque eu também fumava. “Eu quero deixar de vício e tal.” Vamos conversar, porque eu também usava. Aí sim, é uma forma de ajudar. Mas quando a pessoa está lá, acha que está fazendo bem, acha que está bem para ele, eu prefiro deixar ele bem, porque às vezes eu posso estar prejudicando ele, incomodando ele. Eu deixo que ele venha até a mim em vez de eu ir até a ele. Respeitando aqui, para poder respeitar lá. Pra mim, hábitos e costume é gosto, é escolha. Sempre eu tive isso comigo, hábitos e costumes. Se eu não estou gostando, eu fico longe. É porque tá bom pra você. Não é tudo que tá bom pra você, é que tá bom pra mim. E nem tudo que tá ruim pra você, também tá ruim pra mim. Às vezes tá ruim pra mim, mas tá bom pra você. Tô respeitando ele, deixa ele fazer. A hora que estiver ruim, ele vai deixar. Então essas escolhas. É deixar o outro, não invadir o espaço do outro. Quando a pessoa chega pra mim e pede ajuda, e quando eu peço pros outros também, aí sim, vocês sabem o que eu quero. Mas eu não quero largar aquilo, eu quero viver aquilo. Não vai adiantar nada eu ficar insistindo com você a largar uma coisa que você não vai largar. Eu melhorar pra você, eu tenho que melhorar pra mim. Vai ficar melhor. Que amanhã eu vou repetir de novo, se eu melhorei pra você. Não sei se você entende o que eu quero dizer. Eu tenho que melhorar pra mim. Melhorar para os outros não vai adiantar. É igual eu falei pra vocês, a gente aqui não repara bagunça. Porque é assim, até que a gente está no quadro de ter mais pessoas pra ajudar, tudo arrumadinho, entra menos poeira, a gente tá em fase de construção, a gente é muito sincero. Além da simplicidade, eu gostaria de ressaltar assim, eu sou muito sincero em tudo.
01:15:56 P1 - Qual foi o remédio que você fez que curou alguma pessoa que foi marcante para você, algum atendimento das medicinas que você preparou, que você viu dar resultado, que você tem uma história?
R - Olha, tem muitos, mas o primeiro que mais me incentivou foi em relação ao tratamento da hiperplasia prostática. Que é o tratamento do homem, a queda de testosterona, a ausência, ela causa esses problemas. E aí teve um desafio de um médico com um paciente. Ele buscava um diagnóstico, para mostrar para o médico que realmente o problema da próstata dele, pegando uma garrafada aqui resolveu o problema dele. E a outra é uma endometriose crônica. Um caso dela, crônico. Ela passou 90 dias. Eu até levei um susto quando alguém chega na rua. “Minha mãe tem um recado pra você. Eu posso te falar depois?” Eu falei: meu Deus, o que é que foi? Depois eu falei… Eu sou ansioso. Eu falei: você pode falar agora, se possível? Às vezes nós desencontra. Ele falou: não, a minha mãe mandou falar pra você que o problema dela, é esse, esse, esse, já era. Sarou. Não tem mais. Aí uma outra também. Tem três casos marcantes. Mas tem mais. São inúmeros. Tanto é que a gente não para. Então, são consequências da nossa atenção.
01:17:27 P1 - Mas aí, conta esses três?
R - É, porque às vezes eu queria... Não sei se posso...
P1 - Pode mesmo.
R - Citar aqui. Porque uma tinha, o caso…
P1 - Não precisa falar o nome.
R - Na área profissional, a gente cita o problema da pessoa, que é o problema que não estava deixando dormir, o problema que estava tirando o sono, estava tirando a alimentação, estava tirando o sorriso, estava tirando o bem-estar, a satisfação de saber que estava bem e nunca… Sentindo a dor. Porque aquilo que eu estava conversando com alguém agora, meio dia, na casa do Louro, sobre isso, que a pior coisa que tem é alguém estar sentindo dor e não saber o que ele tem. O que é que está causando essa dor, está causando frustração. Aí eu estava falando a respeito de algo que eu usei há oito anos atrás, que eu andava com uma bengala, que era em questão da gota. E vamos dizer que eu auto me curei, em questão da gota, do ácido úrico, que estava muito alto. Eu, tem oito anos e que eu não sei o que é sentir uma dor em relação a isso, síndrome de hipersensibilidade. Enquanto muitas pessoas estão vindo buscar o mesmo, e estão tendo as maiores respostas em cima disso aí. Porque quando dá resultado, a gente não para. Por isso que é bom o respeito com você que acredita que eu estou fazendo certo, para dar certo com você. Aí você acredita. Poxa, eu estou com um problema assim, assim, assim. Eu atropelo os meus princípios para atropelar o seu. Princípios, primeiros divinos. Primeiros divinos, que tem alguém me vendo, como é que eu estou agindo em questão de você. Eu vou estar agindo em questão de mim, lembrar de mim o que eu passei, para poder chegar até você. Quem pede tem preço. E aí, porque eu preciso de R$30,00, R$50,00. Vai ver quanto isso vai somar se no momento eu não pensei no dinheiro, mas pensei em você. Quanto isso vai somar, se eu não pensei no dinheiro e pensei nele. Porque eu já pensei em mim. O quanto é difícil eu pedir para você e depois eu não ter resposta. O quanto é difícil eu pedir para ele e não ter resposta. E você pedir para mim e eu ter resposta. E eu pedir para você e eu ter resposta. Você sabe que você pode me responder. Você visualizou, está tudo azul. Não adiantou nada você me visualizar e não me responder. Não é a resposta. Pode falar sim, de sinceridade. Ela caminha como não, de sinceridade. O sim, eles caminham juntos, desde que seja bem aceito e bem entendido. Hoje nós vivemos muito no sim, só para te agradar. E não eu. Tem que ser de acordo para ambas as partes, o combinado. Aí dá certo. Porque alguém sela isso. Alguém vai lá e dá um impulso. Peraí, vou ajudar ele, porque ele está tentando fazer aquilo que eu mandei. O papel do bom samaritano. Ele não tá pensando lá no dinheiro, atropelar os princípios do outro. Porque eu já atropelei os meus, eu não vou importar com os seus. Deixa você, quando eu puder. Aquilo que eu falei. Manteve frequência, teve problemas, teve erro de comunicação, teve atraso, porque teve atraso. Mas teve atraso por comodismo, eu não devo aceitar, você não deve aceitar. Não. Uma vez, sim, duas vezes, sim, três vezes. Opa, fica no banco esperando. Pode fazer comigo, eu aceito. Eu não quero. O que você pode fazer se eu não quero? Você não quer o que eu posso fazer se você não quer? Quando a gente quer, as coisas acontecem. Por isso que o mundo anda do jeito que anda, porque ninguém quer dar importância pra ninguém. Tô colocando regras, não exceção. Mas mais ou menos aí. Hoje muita gente não se importa mais. Amanhã eu te falo. Por que a gente se comunica muito? Quando ele fala, eu falo. Nós estamos em sintonia. Por que ele está teclando, eu estou vendo que ele está teclando e ele não me responde? Eu vi, eu falei em cima da tecla dele. Em cima da tecla sua. Você sumiu. Você queria falar comigo? Não. Você só deixou eu na expectativa. Quando é que eu vou responder ele? Nunca. Não adiantou nada. Melhor você não tivesse entrado, porque eu não vou mais confiar em você, não vou mais acreditar. “Wilson, deu errado aqui.” Depois eu te respondo, a gente conversa. Em algum momento, a gente está com o veículo na mão. Comunicação é tudo. Respeito é tudo. Então, eu mexo, eu lido com muita gente nesse mundo. Eu sou sozinho, o cérebro é pequeno. Eu carrego um fardo. Não é ego, não. Eu carrego um fardo. E tem alguém que me ajuda a carregar esse fardo. São as pessoas que realmente dão respaldo para mim. Muita gente... Eu saio daqui, agora, eu não sei que hora que eu vou dormir. Eu já dormi um sono suficiente pra mim trabalhar até mais tarde. Porque isso aqui não me rouba tempo. Porque eu sei até a altura do que eu posso ir. Se eu me sentir cansado aqui, se eu me sentir incomodado aqui, a primeira coisa que eu vou fazer é dizer pra alguém, olha, eu tô cansado. É melhor você saber que eu estou cansado do que eu estar fingindo e está me prejudicando. A sinceridade ainda é tudo nesse mundo. Então, nós trabalhamos, nós vivemos, lidamos com sinceridade, em tudo. Nessa caminhada que eu estou, que é uma missão, nós lidamos com sinceridade, que são as pessoas. Como é com uma pessoa, ele vai ficar focado em mim. O dia que ele descobrir que eu não sou essa pessoa, meu mundo desaba. Então, eu tenho que ter esse espírito de clareza. Não sou obrigado, mas ele está em mim. Eu tenho que estar fortalecendo isso, buscando isso, para que eu suporte o amanhã, eu suporte o depois, enquanto Deus me der força. Porque é tudo muito claro, é tudo muito presente. Quando a gente desconversa, as pessoas percebem. Quando a gente sai da linha, as pessoas percebem.
01:23:50 P1 - Nessa coisa justamente do sair da linha. Você já passou alguma situação de discriminação, racismo, discriminação social, que você já viveu isso?
R - Não. Não, nunca passei. Até aqui eu sou muito grato por viver. E se passar também, não tem problema. Se eu passar, não vou atrás de justiça. Tem gente que vai atrás de justiça, vai atrás de fazer justiça. Nós temos proteção, eu tenho proteção. E que não é que eu corra atrás dela. Enquanto isso, enquanto alguém tá trabalhando contra mim, tem não sei quantos trabalhando a meu favor, principalmente aquele que nos mantém aqui de pé, fazendo esse trabalho. Não sou só eu, vocês que saem por aí, em busca de mostrar para o mundo que ainda existem muitas coisas, muitos tesouros escondidos. E isso é raro. Tem vários tipos de coletas de dados, coletas de materiais, de biografias, que mostram para o mundo ainda que tem muita gente simples, que o mato ainda é verde, que ninguém ainda nunca entrou nessa mata e danificou nenhuma planta lá dentro dessa pessoa, que é vivo. A história que vive, tudo que se relata, tudo que se trata. Então eu vivo muito isso. É preservar a minha integridade, guardar. Assim, às vezes, até eu sou um pouco meio clarão pra falar, como eu falo pra vocês, se passar dez minutos eu... Mentira, é nada, eu sou muito brincalhão, eu gosto de zoar. Mas assim, a gente doa o que é melhor da gente para as pessoas que vêm em busca. Você não pode levar daqui também uma má impressão, a impressão é a última que fica. Eu, quando vi vocês na feira, a primeira coisa que eu fiz foi dar o recado. Falei… O olhar, captar, tá aqui, ó. O olhar, a pegadeira de você, tá aqui, ó. Não é na voz. A voz é o complemento. É o olhar. Tudo da pessoa tá no olhar. Não adianta eu falar, falar, falar com ele e não ter o olhar dele comigo. Não ter o olhar seu comigo, nem o seu comigo, nem o meu com o seu. A troca está no olhar. E daí vem as expressões, vem o sentir. Alguém que não olha em você, não firma o olhar, não pega de você a energia sua pra jogar a minha pra você, tempo perdido. Tempo perdido. Então existe muita gente sincera nesse mundo, não vou dizer que sou eu. Mas existe muita gente como vocês, com olhares sinceros, viu!
01:27:00 P2 – Eu queria entrar para falar dos animais. A partir do olhar, então, que você falou. Como é que é os bichos quando você olha no olho? Tem algum animal que chama a atenção olhar para ele, olhar no olho dele?
R - O que mais me chamou a atenção, olhar no olho, o que mais me chamou a atenção, olhar no olho dele, a onça e a cobra, serpente.
P2 - Por quê?
R - Porque a serpente, a princípio, o faro dela não é no nariz, ela te sente pela língua. Você pode olhar que ela só anda com a língua para fora. Então, ela se sente pela língua. Você viu a cobra, parou, e não colocou a língua, ela está pronta para voltar. Se ela colocou a língua, ela parou de te sentir, quando ela fecha a boca e não coloca mais a língua, ela parou de se sentir. Ela vai embora, perdeu o sentido, ela dobra e vai embora. E a onça, se você virar as costas, você tem que encarar ela. Se você virar as costas pra ela, é sinal de que você tá com medo dela. Você tem que parar. Ela deu de cara com você, você não... O cachorro, por exemplo, qualquer sinal pro cachorro ele vai. Aquietar pro cachorro, ele pode ser bravo do jeito que for, é capaz dele não te pegar. E por que o cachorro sente você? E a onça, o olhar da onça, é olhar seu. Você encarou ela, ela vai embora. Mas não vira as costas pra ela, não. Para pra ela. Até que ela se dispersa. Eu vi três onças, e todas três se dispersaram. Hoje eu não tenho mais cisma de encontrar com uma onça, cara a cara. Encontrei com uma sentada, vi uma sentada, ela deu de olhar pra mim, ela me sentiu, o vento bateu, ela sentiu, ficou… E eu parei e fiquei olhando. Mas depois também vou falar pra você, a sensação é brava, a primeira onça. Depois duas pintadas, no meio da estrada. O Louro e a Zita falaram: ó, tem uma onça rugindo pra ali, é perigoso. Cinco da manhã, eu fazendo exercício na quadra. É perigoso que elas vão sair por aí. Quando eu volto, dou de cara com elas. E a onça não desce da árvore com a cauda para baixo, ela desce de peito para marcar o pulo. Ou ela pula em você ou ela pula no chão, mas ela não desce de costas para você. A onça não sai correndo de você. Dá o que der, mas ela só sai caminhando. Ela vira aqui e não é bom. Você deixa ela ir embora primeiro. Não é bom você ir embora, não vira as costas que pode ser fatal.
01:30:20 P2 – Você pensa o que os animais pensam? Você olha para eles, você fica imaginando a inteligência deles?
R – Olha, eu vejo assim, cada um com a sua inteligência, cada um com a sua defesa. Cada um animal com a sua defesa. Digamos, o lobo é difícil você ver ele cara a cara. Porque o lobo, ele te sente a distância longe. Qualquer animal, é difícil você ver um animal cara a cara, porque ele te percebe primeiro. Ele tem um senso de sentir. O cachorro é um quilômetro. Um quilômetro ele te sente. Bater o vento, ele te sente. Mas os animais, ele tem um senso de sabedoria muito grande. Porque você vê aqui o rastro do animal, ele já te viu há muito tempo, até você ver ele. Você vê o veado, por exemplo, na chapada, no mato, você vê o tanto é que ele é tão inteligente, que a onça anda na folha e ela não faz barulho. Ela chega até você e você não percebe que ela chegou. Todos os animais fazem barulho para chegar até você, a onça não faz barulho. Cara, a onça tem capacidade de ir no mato, você está aqui, está deitado aqui, tem fogo aqui. Ela tem capacidade de juntar um monte de terra lá e jogar aqui no fogo, apagar o fogo. Rasgar a terra com a unha, apagar o fogo e pular em você. Mas ela só te pega se ela tiver com fome, ou então se ela tiver atacada com a presa ou com o filhote. A tendência da onça é correr de você, que o bicho mais feroz do planeta é o homem. O bicho mais feroz do planeta é o homem, gente. E a onça só pega o homem, se for de costas, ela não come o homem. A onça não pega o homem, deitado de barriga para cima, ela vira ele de bruço, pra não olhar pra cara dele.
01:32:27 P1 - Foi pelo olhar que a onça se dispersou quando encontrou contigo?
R - Pelo olhar. Você tem que parar, mostrar pra ela, eu estou aqui.
P1 - E você não sentiu medo, não?
R - Não. Mas depois, sim. Depois sim, senti.
01:32:46 P1 - Mas se na hora sente, ela sente?
R - Se na hora sente, ela sente. Você leva um susto, você assusta com a onça. Você assusta, você fala: é uma onça de verdade? É uma onça? Aí depois ela vai embora. Aí depois você fala, assim: ah, se eu pudesse correr muito agora. Entendeu? Aí se eu pudesse sumir agora. Cada passo que você dá, parece que ela tá vindo. Isso é verdadeiro, gente. Não é caso de pessoa que tem coragem. Eu tenho coragem pra ver uma onça agora. Mas vou falar pra vocês que eu não vou ter medo depois. Porque as três que eu vi, eu tive medo depois.
P2 – Medo de não estar vendo ela?
R – Tive medo, assim, poxa, ela podia ter me atacado, podia ter pulado em mim. E até porque eu saia andando, qualquer barulhinho na folha, você fala: é ela!
P1 - Pode seguir, né?
R - Você pensa que é ela. Então você carrega aquela imagem dela com você. A onça deixa uma imagem dela com você, depois que você sai dela.
P2 – E os cavalos, você tem relação com eles?
R - Vivi muito, lidei muito com cavalo, vivi muito tempo cuidando de cavalos. Cavalo é bem doméstico, cavalo sempre foi bem doméstico. Boi, bovino. Pra mim, eu não tive assim muito... Só o cabrito, o cabrito eu sou meio cabreiro com ele. A ovelha também já fez coisas pesadas comigo.
P2 – O que aconteceu?
R - Eu vi uma ovelha e falaram pra mim, que se você agachar como se fosse um outro animal daquele e fizesse festinha pra ele, ele ia até você e encostava a cabeça na sua. Ao contrário, rapaz. Era um carneiro velho, que já estava caindo os pelos pela metade. Ele afastou pra trás assim, não sei quantos... Ele afastou, ele afasta. Aí ele arrancou. O que que deu? Rapaz, ele arrancou. Mas eu fiquei lá no chão, desmaiado. Aí depois que ele me deu uma, que eu desmaiei lá no chão, ele veio para dar outra. Aí eu saí tombando, eu tive noção de que ele ia me matar. Aí eu saí tombando pelo chão, saí por de baixo da cerca. Coisa infantil, de gente infantil. Eu passei na fazenda, vi ele, falei: ah, vou lá brincar com ele. Aí ele afastou. Porque ele bate num boi grande, eu não sabia. Diz que ele vinha… Mas ele batia, porque ele tem o osso violento na cabeça. Capaz de derrubar um marroaz, um boi. Mas foi uma paulada, veio. Foi bater e eu tombei. Aí ele afastou de novo e... Eu olhei assim e falei: vai dar outra. Não vou levantar a cabeça não, que ele me mata. Aí eu saí dele.
01:35:30 P3 - Agora o cavalo, boi, esses animais domésticos, você não teve problema com eles, você falou. Mas você tem relação com eles? Você reflete sobre eles?
R – Sim. Não, nós, por exemplo, nós tínhamos animais, por exemplo, vaca, boi, que a gente montava. A gente tinha... Se domesticou tanto, você chamava pelo nome, ele vinha. E aí era animal de hobby da gente. Sempre se montava, o outro montava, segurava o cupim dele, tirava carrapato nele, fazia carinho nele. E mansinho. Tinha um boi que chamava mansinho, mansinha. De tão manso, tão doméstico que era. Assim, não era violento. Nós tinha tantas vacas que a gente cuidava no passado e que todas elas eram mansinhas. A gente tirava leite sem precisar passar a corda, atar as pernas, com medo de ela dar uma tirada de pé. Poucas vacas que a gente não tirava o leite dela, porque quando você aperta, a unha, aperta a teta dela ali, pica a teta, belisca, ela tá pesada. Então, sempre tive boas relações com animais. Animais que eu tenho menos relação, que tem um aqui agora, é gato. E suíno, também, eu não sou muito chegado em porco, nunca fui. É de quando eu nasci mesmo, do meu sangue. Se existe um cara que não é chegado em criação de porco, sou eu. Todos os animais eu gosto de criar, todos os animais tenho boas relações. Quem cria, eu não tenho nada contra. Tenho relações com todos os animais, até a cobra.
01:37:12 P1 – E da cobra, quer contar um pouquinho dos seus encontros com a cobra?
R - Encontro com cobra, eu encontro todo dia, quase. E pra mim é normal, eu saber que eu vi ela. Eu não tenho boa relação com a cobra se eu não ver ela e ela me vê. Eu vou saber que a cobra me viu, e eu não vi ela, quando me dá uma glândula doída aqui debaixo do braço. E se você vê ela, ela não te ver, dá. Parece um… Como que se fala? Íngua? Dá uma glândula bem dolorida, grande, aqui debaixo do braço. Então a cobra te viu. Ou então um pássaro que chama inhambu. Inhambu, se ela te ver também, você não vê ela, dá. Você passa no mato, chegou em casa, começou a dar a glândula aqui, ou então aqui do lado, você pode saber. Ou a cobra ou o inhambu te viu. E você não viu ela. Se você ver eles, não dá. Vê o tanto que é forte.
01:38:07 P2 - E queria te perguntar só pra não passar. Acho que a mesma coisa com relação às plantas, às árvores. Teve uma pessoa aí que disse que achava que as plantas eram muito inteligentes, que elas se adaptavam, enfim, que elas são mais do que a gente pensa normalmente. Você concorda com isso? A sua experiência diz isso ou não?
R - Eu falo pra você assim que falar das plantas é tão bom e tão claro e que uma planta, às vezes, você nem pensa, ela te dá a resposta. Até porque elas são mais do que inteligentes. Tanto é que elas nascem num lugar que você planta e ela não dá, ela vai dar no lugar onde não tem nada a oferecer pra ela, ela dá. Além da resistência, da subsistência, a vivência dela naquele local, você pega ela, corta ela, e fica anos fora, o tanto que ela regenera, que um dia você volta naquele lugar, você arrepende porque cortou. O tanto que ela mostra para você que ela é capaz. Você corta aquela planta sem pensar, amanhã ou depois, você volta para pegar uma sombra debaixo daquela planta que você cortou. Você imagina se alguém fizer isso conosco? Tem gente que faz as coisas sem pensar. Então a planta, quando ela dá naquele lugar… Agora, você plantar ela no lugar errado é uma coisa, vocês vão estar em conflito a vida inteira. É você lutando contra ela, e ela está ali bem tranquila, porque um dia você vai chegar até ela. Sempre eu falo, gente, eu penso antes de plantar. Sempre eu penso antes de plantar, para depois não ter ressentimento daquilo que eu estou fazendo. Porque você planta no lugar errado, na hora errada, e pensa depois. Eu penso antes de plantar. Plantas que crescem muito, plantas que são arbustos, você planta em qualquer lugar, praticamente. Plantas que são árvores centenárias, você tem que escolher um lugar pra plantar, porque dentro das grande cidades, o que é de árvores que são árvores centenárias, árvores de grande porte. E hoje a gente não pode tirar. Por lei, árvores de lei, a gente não pode tirar. Então, são árvores que são protegidas por lei. E quando você tira, você está tirando parte de você. Eu, por exemplo, estou tirando parte de mim quando eu tiro uma árvore, uma mangueira, duas mangueiras, dependendo da situação, uma árvore doméstica que você planta ela, ela vai por sementes rapidinho, tem muitas, beleza. Mas você imagina as plantas, por exemplo, da mata, como são elas, aí você traz elas para perto de casa, planta ela. É como você trazer seu cão também. Você vai lá, pega água limpinha, fresquinha e toma. Enquanto seu cão tá ali sem saber falar, só para ouvir, te guardar e você dá a ele o pior. Mesmo assim é árvore. Se ela dá para nós o melhor, por que nós não damos o melhor para ela? Respeito. As árvores, hoje, elas são mais protegidas do que a própria vida humana. Hoje, tirar uma árvore centenária, uma árvore de grande porte, uma árvore protegida por lei, é muito mais grave do que as pessoas fazerem as besteiras aí. Amanhã você entra com o processo lá e sai, põe o advogado e sai. E a árvore tem vezes que não tem fiança. Além da cobrança que eles botam, a multa que eles põem em cima. Então hoje o planeta, ele é muito composto, é muito bem feito tudo, a gente é que não sabe desviar dos problemas, a gente é que caminha para os problemas. Porque hoje está monitorado por satélite, hoje está tudo presente na vida da pessoa, como é que ele deve andar. O cidadão hoje também extrapola demais.
01:42:26 P2 – Wilson, inclusive, tem árvore ou uma região, alguma planta que é da época da sua mãe, dos seus avós, que estão aqui ainda?
R - Tem. Porque tem plantas aqui que eu cheguei e elas já eram adultas. Ela já tinha muito mais de 50 anos quando eu conheci essa planta, e ela hoje é existente no local. Quer dizer, se ela tinha mais de 50, ela deve ter 110, vai para 120. Quando eu chegar a 70, ela tem 120. Você imagina quantas outras pessoas passaram por essa planta e eu era pequeno. Porque eu cheguei em um certo lugar, eu vi um pé de cedro, que ele já era adulto. Eu cheguei aqui, conhecendo aqui, em 1973, ele já era adulto. Você vai lá, ele é adulto até hoje, no mesmo lugar. Quantas pessoas presenciaram ele. E os que vão presenciar, porque ninguém vai tirar ela dali. E aqui dentro do moinho, por exemplo. É o único pé de cedro gigante, que tem aqui dentro. Aí ele está ali, gigante o pé de cerdo, mas ele tem praticamente... Eu tenho 50, ele já tinha mais ou menos uns 20, 70. Aí você imagina, quem acompanhar a história dele... Eu conheci ele já adulto, rapazinho. Olha o tamanho que ele tá. Quem acompanhar a história dele depois de mim, nessa idade de oito anos, porque as pessoas hoje já estão fazendo isso. As crianças já estão bem ativas em relação a gravações, matérias, entrevistas e tal. Conhecendo as plantas, estão muito ligadas à natureza. Eles estão fazendo muito trabalho com as crianças hoje. Veio um grupo de crianças aqui esses dias. Gente, o que é aquilo? Essas crianças são muito evoluídas. Elas sabem a história da minha mãe, do filme da minha mãe, que a Érika Bauer criou o primeiro filme da minha mãe. Uma criancinha de oito anos, ela falou: Dona Flor é do tempo da Érika Bauer. Aí Deja, falou assim: ha, não, é porque ela foi quem fez o filme da minha mãe. No meio de tantas crianças, essa criancinha lá apareceu, apontou e falou a história da minha mãe. Ela nem sabia que vinha aqui ver as fotos da minha mãe e tal. E foi a avó dela que criou o filme da minha mãe. Fez o filme. E no meio de tantas crianças, ela citou isso. Tão importante, né? Então, eles hoje já estão com a mente… Por isso que eu disse, da preservação, do cuidado, vê aonde tem muito, aonde tem muito eu pego o que precisa, nós colhemos o que precisa pra fazer os preparos, os compostos, pra não vender entre cascas e raízes. Se você pede, eu vou lá e busco um pouco do que eu tenho ali e já te passo, pra ele também. Porque o que a gente cultiva, a gente sabe que a gente pode cultivar mais. Mas aquilo que a gente não cultiva, pra que acabar com aquilo? Porque a futura geração… Apesar de que hoje eu não tenho seguidor, eu hoje não tenho uma pessoa que me acompanha, pra amanhã eu pegar esse conhecimento, amanhã ele ter um pouco desse conhecimento, ele pegar esse conhecimento pra ele, ele começar a adquirir o conhecimento a partir dali. Não é que ele vai pegar o meu conhecimento, porque o conhecimento é meu. Eu posso dar ele pra você mil vezes que você não consegue, nem registrado em cartório, você não vai dar conta de aplicar ele. Agora, se você colocou ele em prática, sim. Aí você vai ter condições de certificar isso. Mas, até hoje, ainda é solo. Só e solo.
01:46:04 P2 - O conhecimento ele não é passado, então? O conhecimento da sua mãe não é igual o seu?
R - Não. Não. Não é passado. Eu sigo. Eu dou continuidade, de forma diferente, de forma parecida. Mas igual, não. Porque se fosse passado, ele era igual. Ninguém faz nada igual minha mãe. Ninguém faz nada igual Wilson. Ninguém faz nada igual a você. Você é único, eu sou único. Você é único, ele é único. Todos nós somos diferentes. Somos um só, mas em pessoas diferentes. Cada um com um saber diferente e querendo fazer igual, querendo fazer igual. Mas todo mundo com conhecimento igual, saberes diferentes. Conhecimento igual. Você conhecer um pé de árvore, eu conhecer, é igual. Agora fazer algo dele, o tempero, o composto dele, a hora que colheu, o dia que colheu, a lua que colheu, é diferente. Ninguém é... Na forma de dizer, ninguém é… Somos iguais na forma, mas para fazer as coisas, não. Porque a assinatura também não é igual. Nunca vai ser igual. Pode imitar, mas não certifica não, não acerta não. Então, quer dizer que quando você quer ser igual, quando eu quero ser igual, eu já estou diminuindo. Está querendo igualar a você, não. Eu posso fazer melhor, mas igual, não. Você pode fazer melhor. Igual a mim, você não faz. Igual a ele, você não faz. Eu não faço. Se as pessoas tiverem isso, aceitar e fazer que é você e eu fazer que sou eu, não vai dar certo. Por isso que existem muitas coisas que não vai. Quero fazer igual a ele, não vou conseguir, vai ser reprovado. Faz do seu jeito, que vai dar certo. Faz isso do seu jeito. Entendeu? Por isso que, às vezes, antigamente, no passado, as pessoas. “Ah, Wilson, precisava fazer uma entrevista e tal, nunca…” Como se diz, copiei ninguém, imitei ninguém, vou imitar ninguém. Tentar fazer do nosso jeito. Procura fazer o melhor, mas do seu jeito. Não tenta fazer do jeito de ninguém, não, que uma hora você vai acabar querendo fazer e não vai dar conta de fazer sempre do seu jeito. Tem que fazer do meu jeito sempre. E melhora do meu jeito. Agora, querer copiar você, eu não vou ter você a vida inteira para eu estar copiando você. As pessoas querem copiar o outro, aí dá ruim.
01:48:57 P1 - E como foi que vocês fizeram esse centro de memória?
R - Olha, eu tenho um ano, que foi determinado. Eu estava meio que andando pelo espaço, não me encontrava. Dia 13 de dezembro de 2024, 2025, eu parei para olhar de perto, assim. A minha mãe, antes dela ir, ela parou, uns 30 dias antes dela fazer a passagem, ela me chamou no particular e falou: meu filho, não abandona aquilo que você tem, aquilo que eu te entreguei. Cuidar de tudo que eu estou deixando. Até porque eu não estava aqui, eu estava andando por aí. E hoje, na verdade, eu estou aqui. Por quê? No dia 13 de dezembro, umas oito e pouco da noite, sempre oito e poucos da noite, a lua estava chegando para cheia. Eu estava em um lugar e eu vi que eu estava dando por conta, eu, tomando conta de um peso grande. Aí quando foi no domingo, que era no dia 14 a noite, eu andei pelo quintal e aí eu vi a presença da minha mãe, já escurecendo. Eu andei todo o quintal, toda a chácara. E pensando assim, poxa, minha mãe tão pequena, tão honesta, tão direita, tão batalhadora, cuidava de tudo isso aqui, prestava conta, dava dinheiro pra todo mundo que trabalhava, mantinha a casa em dia, mantinha as contas em dia. E aqui nós não estamos fazendo nada, tá acabando tudo que minha mãe deixou. Isso aconteceu. Foi dezembro de 2024. E até porque veio... Eu falei 2025, não. Aí estava chegando 2025. Estava chegando. Porque nós estamos de 2025 para 2026. Aí eu parei aqui de frente e falei: a partir de hoje, eu estou aqui. Todas as pessoas que me procurarem agora, estou aqui, junto com a minha irmã, cumprindo com o papel que minha mãe pediu. E que o universo deixou também eu aqui. Porque nada estava sendo feito. Estava tudo largado, tudo que minha mãe me entregou, eu abri as mãos. E aí vêm tempestades, e aí vêm lutas, e aí vêm batalhas. Mas eu estou aqui. Sempre indo procurar. Eu estou aqui, cumprindo o papel o qual foi me entregue. A minha mãe me entregou, passou pra mim. “Meu filho…” Não foi passando pra minha autoridade, foi passando pra mim confiança, que ela estava saindo, mas tava deixando alguém que fosse cuidar daquilo que ela cuidava. E 30 dias, 25, 30 dias atrás, antes dela fazer a passagem, ela me chamou, tava bem lúcida, e falou pra mim: meu filho, não quero guerra, não quero confronto. Falei, mamãe, se ela sabe que eu não sou de guerra, eu não sou de confronto. Falei: mamãe, a senhora sabe que eu não sou de guerra, não sou de confronto. Eu sou da paz. Mas lembro disso como hoje, que ela me pediu. E a Zita tava perto. A esposa do Louro estava junto comigo nesse momento que ela pediu, antes dela ir. Era o último recado. Ela tinha que falar comigo. Então eu tenho isso em memória, tenho isso gravado, que ela pediu. E a questão da obediência, ela é mais presente que qualquer coisa. E no dia 13 eu me dei por conta de que eu tinha que centrar, parar e ver. No dia 14 eu assumi, de dezembro. Vai fazer um ano. Dia 13, dia 14, esse assunto que eu estou abordando aqui. Então, isso aqui, se alguém um dia chegar e ver o que eu faço, olhar o que eu faço e quiser seguir os meus passos, vai ficar igual eu fiz com a minha mãe, minha mãe fez comigo. Senão, vai ficar distinto da realidade. Tudo que se trata, passou. O tempo passou e ninguém pegou.
01:53:21 P2 – Vou só fazer umas perguntas a mais, e a gente vai caminhando para o final. Como é que foi a construção dessa casa? Era um ponto de venda ou era para a memória da sua mãe, como é que foi?
R - Esse espaço? Porque assim, a minha mãe, ela tinha um espaçozinho lá na casa, ligado à casa de baixo, que é a residência que nós morávamos. Ela tinha lá um lugar que chamava Lojinha. Bem escondido, lá dentro, as pessoas tinham que chegar, entrar por ali e passar por lá. Mais na frente, ela conseguiu a ideia de fazer um espaço aqui, que era tudo isso aqui. Não, era só essa parte aqui.
01:54:19 P2 - A gente estava falando da decisão de criar esse espaço, como ele está agora. Então, ele era uma lojinha lá embaixo…
R - Era aqui, desse banheiro pra cá. E aí, ela mudou pra cá, ficou com esse espaçozinho aqui. A porta era só essa. Aí depois ela teve a ideia de criar mais uma expansãozinha pra lá e fazer um banheiro no meio. Aí ficou tudo lojinha. Aí depois a minha irmã veio pra cá, ela teve a ideia de criar lojinha lá, aqui ficou um espaço de guardar as coisas, armazenar as comidas, geladeiras, perfumes, cosméticos delas, muitas coisas aqui. E mais vinhos, geleias, o número maior, o volume maior ficavam aqui. Aí, logo passou, minha mãe partiu, ela teve a ideia de criar esse pequeno espaço para viver, manter viva a memória da minha mãe. Que é criar esse espaço, mostrar as fotos da Dona Flor, um pouco do que ela gostava, um pouco do que ela fazia, que era lidar com as plantas, que é o tingui, que é a fruta do cerrado que ela fazia o sabão. O baru que ela cultivava, a lágrima da Nossa Senhora, a flor do cerrado que colhia, a gente colhia pra poder fazer as vendas pra sobreviver, que é a estrelinha, que é o pireca, que é a palipalã, que é o capim dourado, enfim. E aí vem várias coisas, jatobá, o coco que fazia a lembrança, do coco que fazia o óleo pra gente comer, fazia o pé de moleque. E a rodinha de fiar, e a panela de ferro, e o pote, o antigo gás. E praticamente tudo aqui lembra a memória da Dona Flor. Aí ela criou esse espaço aqui e deixou lá. Como lá é pequeno, pouco bem aquecido para armazenar as coisas que são compostas, que é remédios, que é vidros lacrados, enfim. E como também a gente é fraco, eu tive a ideia de criar lá, que é uma expansão, que é o Flor Ancestral. Criar o espaço, porque a gente vai viver em grupo de pessoas sempre. Quando vem chuva aqui, não tem como entrar 10 pessoas e ficar junto aqui dentro. Às vezes tem 30, 40 de uma vez. Sai todo mundo correndo. Às vezes está muito sol também e sai todo mundo. Aí estou com a ideia é criar um espaço maior, para poder receber essas pessoas. Também porque fazer, gravar uma matéria, fazer um evento, qualquer coisa, o espaço tem como suportar uma demanda maior. Com água fresquinha, lugar para a pessoa idosa chegar, descansar ali, sentar no sofá. A ideia é boa, ter um lugar adequado, estrutura e infraestrutura, porque a rede está falando que a gente é grande. Então a gente, pra crescer, a gente precisa alimentar bem, dormir bem, ter uma boa saúde para ter um bom tamanho, uma boa estatura. Então se a gente é pequeno, é porque a gente não está alimentando bem. A gente vem de família bem pequenininha, anão. Então a gente tem que ser grande, a gente tem que olhar pra longe. Tem que mirar longe para acertar. Então, esse é o acerto a partir de agora. É ter um espaço mais amplo, ter um lugar amplo. A pessoa chega, arejado. Espaço onde armazena tudo. Não desmerecendo, isso aqui vai ficar sempre. Mas vai ter um outro espaço em breve. Porque lá fora já andei muito, nas redes já andei muito, está muito longe. E as pessoas estão chegando. Então, a gente precisa ter um pouco de suporte para receber essas pessoas, essa demanda.
01:58:00 SPK_3
E, Lúcio, teve algum grupo, algum coletivo, alguns alunos que vieram pra cá, conhecer o seu trabalho, o seu bloco e te marcaram? Você já falou de uma aluninha, por exemplo, mas tem mais alguém que você...
01:58:13 P2 – Wilson, teve algum grupo, ou algum coletivo, ou alguns alunos que vieram para cá conhecer o seu trabalho e que te marcaram? Você já falou de uma aluninha, por exemplo. Mas tem mais alguém que você…
R – Sim. Agora está para chegar, mas vinha mais com a minha mãe, que aí ficava na quadra poliesportiva, que o ponto de referência é aqui. Mas aí ia pra quadra. Na época, não existia lá dois sanitários. Minha mãe pediu, até que ela fez esses banheiros, e foi usado lá pra velar ela, quando ela fez a passagem. Os banheiros foram usados. Minha mãe não usou. Ninguém usou. Foi usado no dia que minha mãe... Aqui não tinha espaço para tanta gente. Então, minha mãe, o cortejo, o velório, foi feito lá. E aí as pessoas usaram o banheiro que a minha mãe pediu há tantos anos, para fazer os banheiros, que as pessoas faziam as necessidade no mato, em volta ali. E no dia do acontecimento da minha mãe, esse banheiro serviu para mostrar para as pessoas que a dona Flor ainda deixou mais aquele braço lá, o dedo mindinho dela, o banheiro na quadra poliesportiva, que é do município. Então, não é fácil a nossa vida aqui, mas a gente faz com carinho, a gente faz com amor. A gente não... Eu não me preocupo tanto, eu tenho, assim, um pouco de lembrança dentro de mim que ainda não tenho nada para mostrar para as pessoas. Mas, futuramente, eu tenho certeza absoluta que isso está sendo realizado. Aos poucas, as pessoas estão passando, estão contribuindo, um leva uma garrafada, um leva um xarope. A gente entra num projetozinho, escreve lá, há um incentivo. E eu creio que daqui a uns dias… O couro é bem queimado pelo sol, as mãos são bem calejadas, mas a gente veio aqui não foi para desafiar nada. A gente é o desafio. Nós já somos um desafio para tudo, para esse mundo aqui. Então a gente passa por esses desafios e vence. Saber remar é a melhor forma de sair fora da água e descansar. Então, a gente tá aqui remando. Continua remando.
02:00:21 P1 - Queria justamente perguntar se você tem alguma memória do rio e da água. Que você está falando de remar na água. A gente tá num lugar de tanta água. Se você tem alguma história com os rios?
R - Sim, tem. Eu me lembro que naquele tempo, junto com meus irmãos, os mais velhos daqui, nós tínhamos rios. Que não eram grandes rios, mas eram rios. Que daria aí em média de... da margem dele, hoje, qualquer lugar que você chegaria nele hoje, um lugar mais raso, ele daria a sua virilha. Hoje nós temos um rio que você caminha nele, ele dá dois metros de travessia, de um lado para o outro, dependendo dos lugares. E aí, às vezes, ele dá na altura da sua canela aqui, dois palmos de água, dessa época. O nosso rio virou córrego. Então, tem lembrança de rios aqui. Da ponte, você dava de ponta lá no rio. Hoje, lá no rio, você não consegue mergulhar na água que nós temos. Então, nós tinhamos muita água, nós tinhamos rios para atravessar no nado. Ali onde tá o prédio Quilombola, tem uma lombada, pra você subir, sair ou chegar. Onde está escrito prédio Quilombola, da comunidade. O rio, quando ele enchia, ele passava lá, naquele prédio. Quando você passava três, quatro, cinco dias de cheia, você procurava a ponte, a ponte não estava. Hoje o rio não enche mais pra chegar a dois metros, três metros de altura. No leito do rio. Então tem lembranças desse rio com grande capacidade de água. Você caía pra nadar. Passava sete, dez, quinze dias chovendo direto, você não tinha como atravessar nem pra lá nem pra cá. Se você quisesse atravessar para ir buscar algo em algum lugar, você tinha que cair muito longe da correnteza, para você sair por perto da ponte. A roupa amarrada na cabeça, e nadando, correndo risco, para atravessar o rio. Então, chovia 40 dias, 30 dias, chovia 6 meses. Chovia setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro e março. Às vezes chovia abril, chovia até maio, que era a chuva de maio, chuvinha fina. Aí nós tinha água, nós tinha rio cheio. Começava a chover hoje, você já podia sair da beira do rio, que às vezes as roupas que estavam lavando… Ás vezes chovia, com sol quente, em época de verão, você tomar cuidado, porque senão você ia embora, que aí vinha enchente geral. Então já aconteceu vezes de nós passar aqui até 5, 10 de janeiro, numa época dessas, em chuva. Então, nós temos boas lembranças, que nós tínhamos muita água. E, às vezes, aqui, você estava aqui, você via a água brotar no quintal, você não precisava ir longe buscar a água. Você via a água brotar aqui em Alto Paraíso em vários lugares, você não passava, porque era muita água. Essas margens que você vê baixo, era tudo brejo, nascente permanente, água permanente, a seca toda. Hoje, nós não temos nada disso aqui. Acabou. Só temos o pequeno rio preto, e o Bartolomeu, que corta de Alto até aqui. E tudo pequeno. Já reclamando o fim dos rios. Fim das águas. Então, meus netos que estão aí, bisnetos que poderão vir no futuro, já vão ver muita coisa difícil. Já na questão da água. Então, nossa lembrança da água, para meus irmãos que estão aqui hoje, a Deja, Donizete e a Zita, se eles falarem para vocês, vão falar a mesma coisa que eu estou falando. E outros mais, que são da minha idade, da minha infância, os mais velhos, vão falar a mesma coisa. Então, a gente tem boas lembranças dos tempos bons em água aqui. Todo mundo se dava por banho nessa hora. Era muita gente dando de ponta, subindo nas árvores, pegando balanços e atirando na água. Hoje, você tem que chegar e pegar a água e jogar no corpo, você não encontra poço para mergulhar, praticamente não. Então, são histórias que aconteceram dos anos 80, 85, 90 pra cá. Isso foi reduzindo. Nossos rios, nossas águas foram indo embora. Então, quando o assunto é rio aqui na nossa região, a gente fala rio pelo nome. Mas hoje, só se vê córrego, que era rio. Mas as lembranças continuam. Lembranças é sempre lembrança. Que as pessoas falam: ah, viver de lembranças. Lembranças são boas. Tanto é que chama lembranças, a gente guarda, né?
02:05:39 P3 - Wilson, falar nisso, já indo para as duas últimas perguntas, então, do nosso encontro. Tem alguma lembrança que você gostaria de deixar registrada antes da gente ir para a última pergunta? Ou alguma figura de alguém que você gostaria de falar? Um dia na sua vida, enfim. Eu sei que é uma pergunta difícil, mas fica bom tentar. Algo que a gente não perguntou, um lado da sua vida, enfim, que você gostaria de falar.
R - Enfim, essa pergunta para mim, resposta para mim devolver. Eu tenho ainda muita lembrança, muita saudade. Se hoje voltasse o tempo, era ter tudo de volta. A minha mãe, naquele tempo, com todos os meus irmãos, a comunidade que vivia em família, que era sete, dez, doze filhos em cada casa, a gente vivia... Hoje melhorou, mas não é o que substitui nada dessa lembrança. O passado, do meu pai junto, que não volta mais, eu entendo que isso é pra vida, é pra minha vida, pra vida dele, pra vida de todos nós, a ausência dos nossos entes queridos. Que meus irmãos é tudo presente e hoje nós não conseguimos juntar três irmãos. Desculpa. Então, são lembranças que ficam só na lembrança. Que hoje, por muito que nós queira, cada um pegou a sua idade, cada um pegou o seu destino. E hoje vive eu e a Deja aqui. E os outros 11, às vezes, aparecem. Mas ainda presente em nossas vidas, na minha vida, que não temos mais. Mas é uma das lembranças que, se eu tivesse hoje, eu não daria em troca de nada, era a minha família junto de mim. Então era isso que eu tinha pra falar. Porque família é um projeto. E se é um projeto, esse projeto não pode acabar. Continua família, vem neto, vem bisneto e sempre se dá por família. Eu não sou de chorar, mas eu chorei.
02:08:35 P2 - Como é que foi contar um pouquinho da sua história pra gente?
R - Foi muito bom. Foi um momento assim que me rebateceu muito, as minhas expectativas, eu tive um pouco de ansiedade de saber que ia dar essa entrevista pra vocês, esse pequeno material, que seriam as minhas palavras, pequenas palavras, mas com muita sinceridade. Me senti muito feliz, primeiro, em conhecer vocês, vocês entrarem em contato comigo, confiar na minha pessoa, do simples que eu sou. Eu mantive a boa postura de lá até aqui, em questão da minha conduta, da minha pessoa. Continuo mantendo a boa postura da minha pessoa, da minha presença, apesar dos 60 anos. Mas, assim que vocês quiserem novamente, eu vou estar aqui. Quero dizer para vocês que me senti muito honrado de vocês serem bons profissionais, saber chegar. Quem sabe chegar sempre sabe sair. E quando sai, deixa saudade, deixa lembranças. E sou muito grato a vocês por terem confiado em mim. Que tudo que doei aqui, foi uma doação, foi de coração, foi do espírito, foi da alma.
02:10:01 P3 – Obrigado Wilson. A gente vai tentar ao máximo honrar também a sua presença, a sua narrativa, a sua história e devolver pra você o mais rápido possível também.
R - Não, eu estou tranquilo, viu?
P3 – Obrigado, viu!
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