O abajur de Noá
Por Angelo Brás Fernandes Callou
Esse pequeno abajur do designer Noá Jofilsan deve ter mais de 30 anos. Encontrei-o na mudança recente do Pina para Boa Viagem, numa caixa instalada na última prateleira de um armário. Com o desgaste, a cúpula original se perdeu, e ele saiu da cena doméstica para se instalar na escuridão esquecida de uma caixa qualquer.
Observando a base do objeto de alumiar, lembrei-me de que ele é feito de um pedaço de tronco de pau-brasil, cortado obliquamente, preservando a parte exterior do que fora um dia uma árvore, ao tempo em que, na parte interna, exposta pelo corte, revela os círculos concêntricos (não, não são os do Inferno de Dante), mas os que nos informam sobre o crescimento anual das árvores e as perturbações ambientais. Esgotam-se aí meus conhecimentos de dendrocrologia.
Fato é que o simpático abajur de Noá traz outras lembranças nesta tarde de um desempacotamento sem fim, em minha nova morada em Boa Viagem. Conheço esse pequeno pedaço de pau-brasil do abajur, antes, talvez, de o próprio Noá ter nascido. Eram vários desses cortes de madeira, de diferentes dimensões, que existiam na sala de seus avós maternos, no casarão à beira-mar de Olinda (que frequentei jovem e frequento ainda hoje), que Noá ressignificou, para sorte minha, nos pedaços do nome do Brasil e da minha própria memória.
O inusitado é que foi na casa dos Jofilsan que vi pela primeira vez pedaços de madeira de troncos da árvore pau-brasil. Só muitos anos depois pude conhecer de perto esse ser vivo, do qual tenho notícias desde as aulas de História do Brasil, na escola primária. Devo ao professor Roldão de Siqueira Fontes (1909-1996) por ter plantado várias mudas de pau-brasil no campus da UFRPE, onde eu trabalhava. Na verdade, o professor Roldão é reconhecido por ter plantado mais de dois milhões de mudas de pau-brasil Pernambuco afora. Esses são os homens imprescindíveis, de que fala...
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O abajur de Noá
Por Angelo Brás Fernandes Callou
Esse pequeno abajur do designer Noá Jofilsan deve ter mais de 30 anos. Encontrei-o na mudança recente do Pina para Boa Viagem, numa caixa instalada na última prateleira de um armário. Com o desgaste, a cúpula original se perdeu, e ele saiu da cena doméstica para se instalar na escuridão esquecida de uma caixa qualquer.
Observando a base do objeto de alumiar, lembrei-me de que ele é feito de um pedaço de tronco de pau-brasil, cortado obliquamente, preservando a parte exterior do que fora um dia uma árvore, ao tempo em que, na parte interna, exposta pelo corte, revela os círculos concêntricos (não, não são os do Inferno de Dante), mas os que nos informam sobre o crescimento anual das árvores e as perturbações ambientais. Esgotam-se aí meus conhecimentos de dendrocrologia.
Fato é que o simpático abajur de Noá traz outras lembranças nesta tarde de um desempacotamento sem fim, em minha nova morada em Boa Viagem. Conheço esse pequeno pedaço de pau-brasil do abajur, antes, talvez, de o próprio Noá ter nascido. Eram vários desses cortes de madeira, de diferentes dimensões, que existiam na sala de seus avós maternos, no casarão à beira-mar de Olinda (que frequentei jovem e frequento ainda hoje), que Noá ressignificou, para sorte minha, nos pedaços do nome do Brasil e da minha própria memória.
O inusitado é que foi na casa dos Jofilsan que vi pela primeira vez pedaços de madeira de troncos da árvore pau-brasil. Só muitos anos depois pude conhecer de perto esse ser vivo, do qual tenho notícias desde as aulas de História do Brasil, na escola primária. Devo ao professor Roldão de Siqueira Fontes (1909-1996) por ter plantado várias mudas de pau-brasil no campus da UFRPE, onde eu trabalhava. Na verdade, o professor Roldão é reconhecido por ter plantado mais de dois milhões de mudas de pau-brasil Pernambuco afora. Esses são os homens imprescindíveis, de que fala poeticamente Brecht.
Por tudo isso, decidi trazer à luz o abajur de Noá. Lixei a base de madeira, passei silicone líquido e, em seguida, veio o momento mais difícil: recriar a cúpula. Lembro-me, mas posso estar equivocado, que ela era em formato cônico, na cor escura, de material levemente encorpado que se unia às costas formando a cúpula, com visíveis costuras realizadas artesanalmente pelo próprio designer.
Fiz diferente: pintei em papel de média gramatura, juntei e colei as duas extremidades da pintura para formar um cone e o coloquei sobre a haste do abajur. Ele agora irradia memória e luz na minha pequena parte desse latifúndio marinho de Boa Viagem.
Praia de Boa Viagem, Recife, 9 de fevereiro de 2026.
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