Projeto Morro dos Prazeres, este morro tem história
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Zilda Bernadete
Entrevistada por José Bernardo e Neide
Rio de Janeiro, ? de 2002
Código: MP_HV009
Transcrito por Cristina Eira Velha
Revisado por Ana Luiza Guedes Ferreira
P/1 - Dona Zilda, qual foi a data que a senhora chegou aqui no Morro dos Prazeres?
R - Foi em 1938 para 1939.
P/1 - Por que a senhora veio morar no Morro dos Prazeres?
R - É porque eu arranjei o meu marido e ele morava aqui. Eu não podia ficar morando em Copacabana, porque ele não tinha condições para me dar um apartamento. Então eu vim morar aqui.
P/1 - Qual foi a sua primeira impressão ao chegar ao Morro?
R - Eu gostei, muito bom, gostei.
P/1 - Já tinha ouvido falar do Morro dos Prazeres?
R - Já, mas não conhecia.
P/1 - O que a senhora trouxe consigo?
R - Eu trouxe roupa, muita roupa.
P/1 - Teve alguma dificuldade ao se estabelecer aqui, se adaptar?
R - Só na água [risos].
P/2 - Na ocasião, quando a senhora chegou aqui já morava muita gente, tinha muita casa?
R - Não, pouca gente, podia até se contar. E a água era só o bicão ali na pedra. Era só o bicão, _____ uma lata de água.
P/1 - Quando a senhora chegou aqui no Morro como a senhora era chamada?
R - De madama [risos].
P/1 - Qual a sua origem? A senhora nasceu aonde? Em Minas?
R - Não, em Niterói, no bairro Barreto.
P/1 - E o relacionamento entre vizinhos?
R - Olha, foi só com os meus parentes e os do meu marido, porque eu nunca gostei de ter muita intimidade. Era: "Bom dia"; "Boa tarde"; "Sim senhora"; "Sim senhor"; mas era com a minha família e a do meu marido.
P/1 - A senhora tem alguma lembrança do bairro de Santa Teresa?
R - Ah, tenho, muitas boas.
P/1 - Dá para a senhora contar um pouquinho?
R - Ah, era o bonde, o samba.
P/1 - Samba aonde?
R - Lá na (Barreira?).
P/1 - Como é que era o nome do bloco?
R - Era Acadêmico dos Prazeres, azul e branco.
P/1 - Como era o meio...
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Projeto Morro dos Prazeres, este morro tem história
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Zilda Bernadete
Entrevistada por José Bernardo e Neide
Rio de Janeiro, ? de 2002
Código: MP_HV009
Transcrito por Cristina Eira Velha
Revisado por Ana Luiza Guedes Ferreira
P/1 - Dona Zilda, qual foi a data que a senhora chegou aqui no Morro dos Prazeres?
R - Foi em 1938 para 1939.
P/1 - Por que a senhora veio morar no Morro dos Prazeres?
R - É porque eu arranjei o meu marido e ele morava aqui. Eu não podia ficar morando em Copacabana, porque ele não tinha condições para me dar um apartamento. Então eu vim morar aqui.
P/1 - Qual foi a sua primeira impressão ao chegar ao Morro?
R - Eu gostei, muito bom, gostei.
P/1 - Já tinha ouvido falar do Morro dos Prazeres?
R - Já, mas não conhecia.
P/1 - O que a senhora trouxe consigo?
R - Eu trouxe roupa, muita roupa.
P/1 - Teve alguma dificuldade ao se estabelecer aqui, se adaptar?
R - Só na água [risos].
P/2 - Na ocasião, quando a senhora chegou aqui já morava muita gente, tinha muita casa?
R - Não, pouca gente, podia até se contar. E a água era só o bicão ali na pedra. Era só o bicão, _____ uma lata de água.
P/1 - Quando a senhora chegou aqui no Morro como a senhora era chamada?
R - De madama [risos].
P/1 - Qual a sua origem? A senhora nasceu aonde? Em Minas?
R - Não, em Niterói, no bairro Barreto.
P/1 - E o relacionamento entre vizinhos?
R - Olha, foi só com os meus parentes e os do meu marido, porque eu nunca gostei de ter muita intimidade. Era: "Bom dia"; "Boa tarde"; "Sim senhora"; "Sim senhor"; mas era com a minha família e a do meu marido.
P/1 - A senhora tem alguma lembrança do bairro de Santa Teresa?
R - Ah, tenho, muitas boas.
P/1 - Dá para a senhora contar um pouquinho?
R - Ah, era o bonde, o samba.
P/1 - Samba aonde?
R - Lá na (Barreira?).
P/1 - Como é que era o nome do bloco?
R - Era Acadêmico dos Prazeres, azul e branco.
P/1 - Como era o meio de transporte?
R - Era o bonde.
P/1 - Dá para a senhora descrever alguma mudança na região?
R - As mudanças são: muitas casas; nós agora temos água, temos luz; essa mudança que teve. Temos um caminho melhor para passar.
P/1 - A senhora lembra de alguma presença de estrangeiros no bairro? Alemão ou suíço, aqui no Morro dos Prazeres?
R - Já teve.
P/1 - A senhora não lembra?
R - Não, não me lembro, mas que já teve, já.
P/1 - A senhora morou em outro endereço no Morro dos Prazeres?
R - Ah, eu morava em Copacabana, num apartamento. Morava não porque trabalhava para uma família que me trouxe para cá.
P/2 - Mas aqui nos Prazeres a senhora sempre morou nessa rua aqui?
R - No Morro dos Prazeres sempre aqui, na Rua Gomes Lopes.
P/1 - Era bom morar nessa área?
R - Ótimo.
P/1 - Como era o fornecimento de água?
R - Muito pouco [risos]. Uma lata de 20 litros por noite [risos].
P/1 - E a luz?
R - Nada. Aqui em casa era à lamparina.
P/1 - A senhora sabe dizer como era o período da iluminação de querosene?
R - Horrível [risos].
P/1 - E o fornecimento de gás, como é que era?
R - Eu tinha fogão de querosene [risos].
P/1 - Havia vendedores ambulantes no Morro dos Prazeres?
R - Não. De gás?
P/1 - Não, de qualquer coisa.
R - Não me lembro não, só aqueles homens que vendem roupa, essas coisas.
P/2 - Mascates?
R - É.
P/1 - E a senhora lembra de alguma rezadeira?
R - Ah, eu lembro sim, mas o nome agora... Tanto tempo, né?
P/2 - Era aqui perto?
R - Aqui perto da minha casa mesmo, morava ali uma mulher que andava com um pauzinho preto...
P/2 - Dona (Isabel?)?
R - Ela mesmo, baixinha?
P/2 - É.
R - É a dona (Isabel?) sim, ela rezava.
P/1 - Como era o Morro dos Prazeres conhecido pelos moradores? Como os moradores conheciam o Morro dos Prazeres?
R - Muito bom.
P/1 - Tinha outro nome? Ou era só Morro dos Prazeres?
R - Não. Morro dos Prazeres mesmo, sempre conhecido por Morro dos Prazeres.
P/2 - Mesmo quando a senhora morava em Niterói...?
R - Não, só aqui. Lá eu nunca ouvi falar não. Não, ouvi falar quando eu conheci o meu marido, que ele me convidou para passear aqui, eu vim passear, fui passear no Cristo e gostei.
P/1 - Quando e por que era chamado de Morro dos Paraíbas? A senhora sabe dizer por que chamavam de Morro dos Paraíbas?
R - Eu acho que era porque só morava paraibanos, né? [risos]. É do outro lado. E era mesmo, né?
P/2 - Mais povo do Nordeste.
R - Era, mais povo do Nordeste.
P/1 - Agora vamos lá para o Casarão dos Prazeres. O que a senhora se lembra do Casarão dos Prazeres?
R - Olha, quando eu vim para cá era muito bonito. Fui num casamento lá, de um vizinho nosso, que ainda mora, ainda existe, ele e ela.
P/1 - Como é o nome dos vizinhos que casaram lá?
R - Foi (Tião e Netinha?). Foi o casamento deles dois que eu fui.
P/1 - A senhora lembra o ano que foi o casamento?
R - Ah, não lembro, foi há muitos anos.
P/1 - A senhora já foi ao Casarão?
R - Agora?
P/1 - É, agora.
R - Agora já fui.
P/2 - E a senhora acha que ficou como era antes ou...?
R - Não, como era antes eu acho que não, porque tinha uma escada muito... Não sei, porque... será que foi reformada aquela escada?
P/1 - Por dentro?
R - É.
P/1 - Foi, a mesma coisa.
R - A mesma coisa? Então pintaram, botaram verniz, não? É o mesmo jeito. Está muito bonito.
P/1 - A senhora viu lá dentro, o Casarão?
R - Não, lá em cima não fui não. Só em baixo, andei um pouquinho só.
P/1 - Pode ir visitar, porque está muito bonito.
R - Muito obrigada.
P/1 - A senhora lembra se o Casarão tinha um outro nome? Porque agora Casarão é o nome novo. Mas tinha outro nome antigamente?
R - O Casarão? Não me lembro. Se tinha outro nome não me lembro.
P/2 - A senhora não lembra que ele fosse de algum dono...
R - Ah, eu conheci um casal que morava lá que eu fui uma vez fazer um almoço lá. Esse casal... o dono morreu e a senhora, esposa do homem, eu acho que ela está num asilo, não sei. Não sei dizer, porque depois não tive mais contato com eles.
P/2 - A senhora não lembra do nome deles?
R - Espera aí, ele era...
P/1 - A senhora chegou a ir ao Casarão quando lá foi escola?
R - Não.
P/1 - Alguém da família, ninguém estudou?
R - Não, a gente ia lá só no tempo do samba...
P/1 - A senhora lembra de uma gravação de filme que teve no Morro dos Prazeres?
R - Lembro, eu tenho até a foto.
P/1 - A senhora pode deixar com a gente?
R - Ah, eu posso, agora não sei onde está. Eu tenho uma foto, a gente vestida de baiana, por aquela volta aonde tem o Casarão... Não tem um caminho que fizeram novo ali? Aquilo não era um caminho, era uma trilha. E a gente passava por ali. Até quem estava subindo... Tem uma que é bem conhecida, uma baiana, que é a dona... não sei se é (Tia Dazaia?), uma senhora escura, não me lembro o nome dela agora, mas eu tenho um cartão postal.
P/1 - Podemos cobrar da senhora depois?
R - Pode me cobrar que eu tenho guardadinho. Retrato do (Duca?), quando ele tocava pandeiro.
P/1 - Como a senhora vê a chegada de novos habitantes aqui no Morro dos Prazeres?
R - Para mim está bom [risos].
P/1- O que a senhora acha que mudou aqui no Morro?
R - O que mudou é que a gente agora tem luz, a gente tem água, tem um caminho bom para passar. São essas coisas que mudaram.
P/1 - Qual a sua avaliação em relação ao futuro da comunidade Morro dos Prazeres? O que a senhora acha do futuro dela?
P/2 - O que ela pode melhorar?
R - Ah, pode melhorar muito ainda. Pode, pode sim melhorar muito. O que eu conheci e estou vendo hoje está tendo uma mudança muito boa.
P/1 - Qual a sua principal atividade hoje?
R - Olha, eu sou aposentada.
P/1 - O que faz nas horas vagas?
R - Nas horas vagas? Eu gosto de bordar, eu gosto de costurar, eu gosto de pintura e trabalhar com pedras.
P/1 - Pedras?
R - É, pedras, depois eu te mostro.
P/1 - A senhora pode falar sobre as pedras? A senhora pinta na pedra?
R - Não, bordo com a pedra no barro e depois eu trabalho ela.
P/1 - Depois a senhora tem como mandar para botar na exposição?
R - Não, porque agora eu parei, eu não tenho... deixa eu ver se tem um vidrinho aqui.
P/1 - Ah, tipo um mosaico?
R - É, eu faço um mosaicozinho. Eu faço outras coisas. E gosto de bordar também. Tricô eu não vou falar, porque eu só sei pegar na agulha agora, que enjoa muito. Então... isso aí é flor.
P/1 - (Degradada?)?
R - É, que eu gostava de fazer muito. Eu gosto de fazer de cada coisa um pouco.
P/1 - É casada?
R - Hoje eu sou viúva.
P/1 - Como é que é o nome do seu...
R - Meu marido? (Luís Soares?).
P/1 - Com quem vive hoje?
R - Eu, o gato e o cachorro [risos].
P/1 - Quantos filhos a senhora teve?
R - Eu só tive uma menina adotiva, (Claudia Assunção?).
P/1 - É nascida no Morro dos Prazeres?
R - Ela não, nasceu no Hospital Miguel Couto, lá no Leblon.
P/1 - E netos, tem?
R - Ainda não. Tem dos outros, né?
P/2 - Como sempre...?
R - É, que eu criei muitos filhos dos outros.
P/1 - O que a senhora acha dessa vista maravilhosa que se tem da cidade do Rio de Janeiro?
R - Ai, meu Deus! Coisa muito linda!
P/1 - Se a senhora pudesse fazer alguma coisa na sua trajetória de vida, o que mudaria?
R - Aqui?
P/1 - Da vida da senhora... vir de lá para cá. Se a senhora pudesse mudar alguma coisa, mudaria o que? A senhora veio de lá, veio morar em Copacabana...
R - Olha, menina, eu tenho muita coisa em mente, não posso falar. Muita coisa que eu queria fazer também. Eu queria, daqui, uma escolinha para criança, futebol, para menina bordar e aprender a costurar. Tem menina que não sabe, vai costurar uma blusa preta com linha branca. E eu queria, tinha vontade de fazer isso, ensinar menina a costurar, a bordar, as coisas que eu sei eu queria ensinar.
P/1 - O que a senhora está dizendo agora, eu acho que responde a pergunta que eu vou fazer agora: quais são os seus sonhos?
R - Ah, os meus sonhos! Tenho tantos sonhos!
P/1 - Dá para dizer só unzinho para a gente?
R - Unzinho só? O meu sonho é melhorar a minha casinha. A coisa que eu adoro muito é uma cozinha bonita e um banheiro bonito. Uma cozinha bem limpa, um banheiro bem limpo, eu amo. Uma coisa que eu não tenho, mas eu estou lutando para ver se eu faço. Porque quando meu marido morreu as coisas pararam, mudaram, porque eu tive que trabalhar sozinha, com uma garota pequena que estudava em colégio particular. E depois as coisas mudaram, tive que tirar do colégio particular, tive que botar em colégio público, eu tive que trabalhar para dar sustento a ela, educação a ela. O que eu nunca tive, eu dei para a minha filha. E é isso.
P/1 - O que a senhora está achando de estar participando do projeto da memória do Casarão e da Comunidade?
R - Ah, uma beleza, para mim foi muito bom.
P/2 - Dona Zilda, eu fico satisfeito, porque nós do Museu da Pessoa, cada vez que a gente fala com uma pessoa como a senhora ou com as pessoas que falam de coração, que é o papel do Museu da Pessoa nesse projeto da memória, justamente levantar esse...
P/1 - Resgatar mesmo essas memórias, essas coisas boas...
R - Eu tenho muita coisa boa daqui, muita lembrança boa e lamento muito que muita coisa se acabou. Que era o nosso samba, nosso bailezinho, eu passava a noite acordada catando garrafa, com a cabeça cheia de poeira, os olhos cheios de poeira, mas era muito bom.
P/1 - Por que a senhora não fala um pouquinho das baianas? A senhora participou, né?
R - Eu fui a primeira porta-bandeira do bloco, depois eu fui ligeiramente uma diretora, depois eu passei o meu cargo de porta-bandeira para a (Rosinha?) e depois eu entrei na ala das baianas. Eu era _____ do bloco.
P/2 - Aí eu me lembro _______.
R - E outra coisa: eu gostaria muito que o Seu (Zé Bernardo?) voltasse.
P/1 - Para onde?
R - Para a Associação. Eu gostaria muito, porque o Seu (Zé Bernardo?) fez muita coisa boa aqui também. Apesar que as pessoas não dão merecimento. Então eu gostaria. Porque quando ele estava lá, quando o Seu (Zé Bernardo?) estava na Associação, a gente chegava lá para fazer um pedido ou fazer uma reclamação, a gente era atendido na hora, com o maior respeito, com a maior educação, com a maior atenção. Eu gostaria que ele voltasse, gostaria muito mesmo. Até ______ ele, qualquer coisa que ele quisesse, ele tinha a minha casa para ele dar as reuniões dele, qualquer coisa que ele quisesse.
P/1 - O que a senhora acha de ter dado esse depoimento para o Museu da Pessoa?
R - Olha, foi um prazer. Qualquer hora que precisar de mim eu estou às ordens.
P/1 - A senhora possui algum documento ou fotografia da época, da ala das baianas, (essas coisas acadêmicas?)?
R - Olha, eu tenho foto de porta-bandeira, eu tenho foto dançando, eu não sei mais o que eu tenho. Tenho um cartão postal que foi feito, com quatro baianas subindo do desfile de manhã, subindo com o sol quente.
P/1- A senhora vai... depois...?
R - Vou dar para vocês.
P/1 - Bom, dona Zilda, muito obrigada pela sua entrevista. Tudo de bom.
R - Nada. Muito obrigada.
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