Qual o currículo de Arlene Holanda?
Eu queria fazer Arqueologia ou Belas Artes, ‘coisas que só tinham’ no Recife. Aí tentei a faculdade de Letras e passei em quarto lugar. Muita coisa pra quem foi mãe aos 19 e ficou ‘um bom tempo parada’. Eu me senti atraída por linguística, sociologia, mas foi só isso. Eu larguei a faculdade.
Muito tempo depois, já trabalhando na Fundação Demócrito Rocha, me foi cobrada uma graduação. Era preciso. Qualquer uma que fosse. Daí eu tentei voltar para a Universidade Estadual do Ceará e senti que não daria para terminar Letras. Eu gostava era de escrever, não de estudar sobre. Aí tive ideia de mudar para História. Afinal, porque havia ingressado no curso de Letras e não no de História? Tentei na UECE e vi que era um processo longo, que não combinava com minhas urgências de ter um diploma.
Aí fui ‘socorrida’ por um núcleo da Universidade Vale do Acaraú em Fortaleza. Mas eu queria me formar e estudar na ‘UVA genérica’ não seria um problema. Afinal hoje posso escrever que Arlene Holanda é graduada em História. Daí eu ‘peguei um gostinho’ pela Academia e resolvi fazer umas especializações. Em Artes Visuais (sonho antigo de Belas Artes), Metodologias do Ensino de História e aperfeiçoamento em História da África.
A especialização em Metodologias do Ensino de História eu fiz na UECE e quase segui uma carreira acadêmica tardia. Era um tema que me motivava, e a monografia, que meu orientador considerou digna de ser uma tese, acabou sendo premiada pelo EDITAL DO AUTOR CEARENSE da Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza – SME, em 2012, e ‘virou’ o e-book HISTÓRIAS & HISTÓRIA. Esse curso de aperfeiçoamento em História da África, ofertado pela Universidade Federal do Ceará também foi proveitoso. Tive contato com registros da tradição oral africana que me renderam inspiração para bons livros como os premiados ÁRVORE DA RIQUEZA (parceria com Stélio...
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Qual o currículo de Arlene Holanda?
Eu queria fazer Arqueologia ou Belas Artes, ‘coisas que só tinham’ no Recife. Aí tentei a faculdade de Letras e passei em quarto lugar. Muita coisa pra quem foi mãe aos 19 e ficou ‘um bom tempo parada’. Eu me senti atraída por linguística, sociologia, mas foi só isso. Eu larguei a faculdade.
Muito tempo depois, já trabalhando na Fundação Demócrito Rocha, me foi cobrada uma graduação. Era preciso. Qualquer uma que fosse. Daí eu tentei voltar para a Universidade Estadual do Ceará e senti que não daria para terminar Letras. Eu gostava era de escrever, não de estudar sobre. Aí tive ideia de mudar para História. Afinal, porque havia ingressado no curso de Letras e não no de História? Tentei na UECE e vi que era um processo longo, que não combinava com minhas urgências de ter um diploma.
Aí fui ‘socorrida’ por um núcleo da Universidade Vale do Acaraú em Fortaleza. Mas eu queria me formar e estudar na ‘UVA genérica’ não seria um problema. Afinal hoje posso escrever que Arlene Holanda é graduada em História. Daí eu ‘peguei um gostinho’ pela Academia e resolvi fazer umas especializações. Em Artes Visuais (sonho antigo de Belas Artes), Metodologias do Ensino de História e aperfeiçoamento em História da África.
A especialização em Metodologias do Ensino de História eu fiz na UECE e quase segui uma carreira acadêmica tardia. Era um tema que me motivava, e a monografia, que meu orientador considerou digna de ser uma tese, acabou sendo premiada pelo EDITAL DO AUTOR CEARENSE da Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza – SME, em 2012, e ‘virou’ o e-book HISTÓRIAS & HISTÓRIA. Esse curso de aperfeiçoamento em História da África, ofertado pela Universidade Federal do Ceará também foi proveitoso. Tive contato com registros da tradição oral africana que me renderam inspiração para bons livros como os premiados ÁRVORE DA RIQUEZA (parceria com Stélio Torquato), UAGADU (parceria com Marco Haurélio) e HISTÓRIAS PRA BOI PENSAR.
O sonhado curso de Artes Visuais também me rendeu um trabalho numa área que gosto de atuar: a arte aplicada ao design. Fiz um TCC com pesquisa sobre a iconografia nordestina na criação de padrões para design de superfície.
“no princípio era o verso”
Eu nasci e cresci numa comunidade rural chamada Córrego de Areia. Minha mãe me contou que meu avô lhe contou que o lugar é chamado assim porque no principio era apenas um córrego que se pulava de um passo largo. A comunidade tem traços de antigo quilombo e consta que havia proprietários escravocratas num passado não tão remoto.
Pois bem, eu me criei nesse mundo rural, mas a vida quando se é criança e não se tem uma identidade formada não é tão fácil. Eu tinha vergonha de dizer que morava na zona rural porque os colegas desdenhavam de quem morava ‘nos matos’. E eu queria ser igual a todo mundo e por um tempo esqueci-me desse universo rural de vaqueiros, visagens e encantados e quis fazer poesia, como todo mundo fazia. Eu sempre gostei de fazer acontecer e ‘metia a cara’ arrumava patrocínio e consegui publicar três trabalhos em poesia: ABISMOS, SAUDADES E DELÍCIAS, CAIXA PRETA e CORRESPONDÊNCIA. Não eram livros, eram cartões poéticos ilustrados por mim, que sempre dividi o gosto com a escrita e o desenho.
Teve também o tempo da POESIA PLURAL, que se formou em torno da singular pessoa da Margarita Solari, que abrigava as reuniões em sua casa em uma vila perto do Bradesco Aldeota. Faziam parte do grupo escritores que eu muito admirava como Juarez Leitão, Dimas Macedo, Barros Pinho, Airton Monte e a escritora Natércia Campos. Meus conterrâneos Gilmar Chaves e Jorge Pieiro também faziam parte, somados a outros nomes que agora não lembro.
Eu era responsável pelo design gráfico – que na época era programação visual – e fizemos uma coletânea de posters-poesia e uns cartões poéticos com Margarita, Natércia e Helena Lutéscia.
A imprensa Oficial do Ceará
Meu primeiro emprego foi na IOCE e lá mergulhei a fundo no mundo das artes gráficas e até hoje entendo de impressão, aproveitamento de papel e encadernação. Um marco que tornou essa experiência mais rica foi quando a jornalista Rosa Prado fundou um suplemento literário chamado DO. LETRAS. Eu fazia o design gráfico e algumas ilustrações, mas creio que minha poesia não estava à altura de ser publicada por lá. O que enriqueceu a minha bagagem literária foram os exemplares enviados pelas editoras para resenhas, grandes clássicos contemporâneos e literatura juvenil que comecei a ‘devorar’. O DO. LETRAS acabou porque mudou a gestão e pouco tempo depois eu me desliguei da empresa.
Agendas poéticas
Nessa época eu estava mais ligada ao universo das artes gráficas e da ilustração. Precisava ‘ganhar a vida’ e escrever não parecia uma opção viável. Então ‘inventei’ agendas pintadas à mão e com pitadas de poesia que fizeram sucesso por uns bons anos.
A Fundação Demócrito Rocha
Trabalhar com Albanisa Dummar na Demócrito Rocha foi meu passaporte para voltar a escrever. Eu era designer e ilustradora (não tão talentosa, acho eu). Meu talento mesmo era ‘inventar’ projetos. A Demócrito Rocha foi pioneira no mercado editorial, que hoje é destaque no Ceará. E foi ilustrando livros de outros autores que fui ‘puxada’ de volta para o mundo da escrita, dessa vez para o público infantil e juvenil. A estréia foi com o pé direito. O livro que escrevi me abriu portas e me possibilitou a volta a um reino de encantarias que tinha ficado perdido bem lá no fundo do rio.
De volta ao reino do vai-não-torna
Eu sou branca? mulher sis, conquistei uma renda de uns quatro salários mínimos, mas fui também uma criança e adolescente da zona rural, que estudava com luz de lamparina porque não tínhamos casa e morávamos ‘de favor’ em uma casa que não tinha energia. Uma criança que se envergonhava de seu passado, de sua casa, de suas histórias.
E se há algo em que acredito verdadeiramente é que a literatura me trouxe de volta ao meu eu escondido. E desabrocharam as histórias de trancoso do meu pai, os cordéis que minha mãe lia pra gente e minha ‘alma-estima foi renovada’. E se há outra coisa que acredito verdadeiramente é que a literatura, especialmente a infantil e juvenil pode construir e fortalecer identidades fragilizadas por todas as desigualdades que não cabe aqui citar.
Então, o currículo da Arlene Holanda que ora aqui se apresenta tem muito dessa crença em cada rima, em cada história contada ou recontada nos mais de 60 livros publicados, entre literatura (adulto, infantil e juvenil), didáticos e obras complementares. 15 títulos de minha autoria (como escritora e ilustradora) foram selecionados para compra em editais do MEC (PNBE E PNLD) e dezenas de obras adquiridas em editais de secretarias de educação de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza, Brasília entre outras.
Meu pai e minha mãe partiram e deixaram um alpendre vazio e pleno de saudades que sonho em, junto com o resto da casa agora entregue às traças, fazer um museu comunitário e um espaço de cultura lá em Córrego de Areia. Quero também retornar aos ‘braços’ da poesia, uma poesia narrativa e ficcionista, quem sabe um romance. Também destaco as várias parcerias atestadas aqui nessas declarações anexadas a esse portfólio, fundamentais para alçar os vôos que ensaiei a minha vida inteira.
Sou grata a essa oportunidade de lançar um olhar sobre minha trajetória cultural-literária. Essas coisas que a gente nunca organiza (pelo menos eu) se não houver uma urgência, um propósito.
Eu tenho problemas de identidade na hora de responder se sou branca ou parda. As partes do meu corpo que não ‘pegam sol’ me dizem que sou branca, embora ‘de alma’ seja parda, preta, amarela, indígena. Eu tive uma infância muito pobre no sentido de bens materiais, mas tinha a riqueza imensurável de ter uma mãe leitora, que escrevia com correção ‘de doutora’ com apenas o quarto ano primário. E um pai cuja promissão verdadeira era ser contador de histórias, e não vaqueiro, criador de poucas cabeças de gado ou agricultor.
A gente viveu e passou a infância na zona rural, e quando se fala em identidade fragilizada eu entendo disso. Quando criança e adolescente eu tinha vergonha de dizer que morava na zona rural porque essa informação era motivo de deboche: não ter rua e número de casa era não ter um lugar no mundo. E assim, comecei minha vida artística e literária procurando fazer o que era aceito, ou procurando aceitação. Então eu procurava fazer algo que todo mundo fazia, assim como Gonzaga cantava tangos quando chegou ao Rio de Janeiro.
Publiquei três trabalhos em poesia e depois meio que desisti da literatura e fiquei atuando como designer gráfica e ilustradora. E foi esse mundo que me ‘puxou’ de volta para o mundo mágico da tradição, do cordel, da encantaria, do ‘sertão de dentro’ que havia ficado enterrado lá atrás, como uma botija prenhe de tesouros.
Em 2004 fui selecionada num edital da Secretaria de Cultura e tive oportunidade de voltar a esse mundo na companhia de gente muito boa como Fanka Pereira, Salete Maria, Josenir Lacerda e mais gente do Cariri. Depois conheci o pessoal do cordel daqui, o Klévisson e o Arievaldo Viana, o Rouxinol e o Evaristo, Stélio Torquato, Fernando Paixão, Marco Haurélio, Cesar Miranda, Lucinda Azevedo, entre tantos parceiros de verdade.
Ilustrar livros infantis de outros autores na Demócrito Rocha – sob a ‘regência luxuosa’ da pioneira Albanisa Dummar foi o passaporte para a vontade de voltar a escrever. E meu primeiro livro infantil me mostrou o caminho de volta a esses reinos de encantamento já cobertos de poeira, como o caminho vencido diariamente para a escola.
A trajetória de mais sessenta livros publicados, muitos dos quais selecionados em programas do MEC, estados e municípios me deram dezenas de cartinhas e depoimentos de crianças e adolescentes que guardo no coração. E me deu também a certeza de que não preciso fazer mais e não posso parar. Eu quero escrever poesia, prosa, cordel, romance que me digam quem sou. Quem somos.
Os editais são incentivos fundamentais e foram aperfeiçoados no sentido em que tão importante quanto produzir é disseminar. E esse é meu maior desafio. Levar cultura a quem está fora do mundo letrado. Fazer cultura acreditando na força transformadora que a cultura tem. Uma força para hoje encher o peito de orgulho e dizer que vim lá da uma comunidade rural de Córrego de Areia e sou a poeira da estrada de piçarra vermelha, as águas das inundações das grandes cheias do Jaguaribe fertilizando a terra de onde nascerão mundos novos todos os dias.
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