Projeto Mulheres Empreendedoras de Trairi
Entrevista de Raimunda Lúcia Lopes (Mestre Dona Raimundinha)
Entrevistada por Bruna Oliveira
Trairi (CE), 27/02/2026
Realizada por Museu da Pessoa
Entrevista n.º: MNB_HV004
Revisada por Bruna Oliveira
(00:00:03)
P/1 - Pra começar, eu queria que a senhora se apresentasse, dizendo seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R - Pois é. Eu me chamo Raimunda Lúcia Lopes, mais conhecida como Dona Raimundinha. Eu nasci aqui, em Timbaúba mesmo. Eu sou a segunda filha de 16 irmãos, todos nascidos aqui. E eu estou aqui disposta a responder o que vocês perguntarem. Estamos tudo ok.
(00:01:00)
P/1 - Me conta como que era o nome de seus pais.
R - Meu pai era Antônio Lopes, sobrinho, mas conhecido como Antônio Caboquinho. Todo mundo conhecia como Antônio Caboquinho. E a minha mãe é Zélia. Zélia, né? E eles eram os primos. Eles já partiram dessa vida, meu pai está fazendo um ano agora, em fevereiro, que ele partiu com 98 anos. Mas meus pais foram muito presentes com os filhos, colocaram na escola. Todos, não todos formados, mas todos foram alfabetizados. Ele ensinou tanto para meu pai como minha mãe a trabalhar na agricultura. Naquela época não tinha esses recursos que tem hoje, essas ajudas. Sempre foi na agricultura que ele cuidou, criou de todos os filhos.
(00:01:56)
P/1 - E o que eles cultivavam?
R - Eles eram agricultores, plantavam cana, nós temos sítio, né? Cana, nós temos engenho, casa de farinha, mandioca, milho, feijão e temos o coco, né? Também tem o plantio de coqueira, os coqueirais.
P/1 - E sempre foi isso?
R - Sempre foi isso, sempre foi essa agricultura, sempre foi. E os filhos ajudavam na... Ajudavam, nós íamos para a escola, antigamente a escola era na casa do professor. A escola, a gente ia, era mais de dois quilômetros de distância, mas a gente ia para a escolinha. Aí chegava, a gente ajudava de manhã, almoçava e passava um pedacinho e depois ia ajudar o papai. Na...
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Entrevista de Raimunda Lúcia Lopes (Mestre Dona Raimundinha)
Entrevistada por Bruna Oliveira
Trairi (CE), 27/02/2026
Realizada por Museu da Pessoa
Entrevista n.º: MNB_HV004
Revisada por Bruna Oliveira
(00:00:03)
P/1 - Pra começar, eu queria que a senhora se apresentasse, dizendo seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R - Pois é. Eu me chamo Raimunda Lúcia Lopes, mais conhecida como Dona Raimundinha. Eu nasci aqui, em Timbaúba mesmo. Eu sou a segunda filha de 16 irmãos, todos nascidos aqui. E eu estou aqui disposta a responder o que vocês perguntarem. Estamos tudo ok.
(00:01:00)
P/1 - Me conta como que era o nome de seus pais.
R - Meu pai era Antônio Lopes, sobrinho, mas conhecido como Antônio Caboquinho. Todo mundo conhecia como Antônio Caboquinho. E a minha mãe é Zélia. Zélia, né? E eles eram os primos. Eles já partiram dessa vida, meu pai está fazendo um ano agora, em fevereiro, que ele partiu com 98 anos. Mas meus pais foram muito presentes com os filhos, colocaram na escola. Todos, não todos formados, mas todos foram alfabetizados. Ele ensinou tanto para meu pai como minha mãe a trabalhar na agricultura. Naquela época não tinha esses recursos que tem hoje, essas ajudas. Sempre foi na agricultura que ele cuidou, criou de todos os filhos.
(00:01:56)
P/1 - E o que eles cultivavam?
R - Eles eram agricultores, plantavam cana, nós temos sítio, né? Cana, nós temos engenho, casa de farinha, mandioca, milho, feijão e temos o coco, né? Também tem o plantio de coqueira, os coqueirais.
P/1 - E sempre foi isso?
R - Sempre foi isso, sempre foi essa agricultura, sempre foi. E os filhos ajudavam na... Ajudavam, nós íamos para a escola, antigamente a escola era na casa do professor. A escola, a gente ia, era mais de dois quilômetros de distância, mas a gente ia para a escolinha. Aí chegava, a gente ajudava de manhã, almoçava e passava um pedacinho e depois ia ajudar o papai. Na derruba dos cocos, eles iam ajudar os cocos, na apanha do feijão. E sempre ajudavam. Sempre nós fomos criadas assim, meu pai cuidou todos de nós, tudo ensinou a trabalhar, tanto o papai como a mamãe. E o nosso município tem uma cultura que é a renda de bilro, que é a primeira cultura do nosso município de Trairi. Ela ensinou todas as seis filhas dela a fazer a renda. Eu comecei mais cedo, porque toda a vida eu fui curiosa. Com quatro, cinco anos, eu mexia na almofada dela e ela não gostava, porque nós tínhamos comida na nossa almofada . Ela botava um bilrozinho aqui atrás para a gente aprender. Ela ensinou. Com seis anos, eu já sabia fazer a renda. Com sete anos, eu já dominei fazer todos os pontos da renda de birro.
E com quem eu aprendi? Com a mãe dela, porque era passada de geração para geração. E essa história da Renda de Bilro do nosso município é muito antiga, desde os primórdios da colonização de Trairi. Foi repassada de mãe para as filhas e sucessivamente.
(00:04:00)
P/1 - E a senhora chegou a conhecer seus avós?
R - Conheci só a minha avó por parte de pai e o meu avô por parte de mãe. A minha avó, eu não conheci, porque no dia que eu nasci, ela faleceu. Tem até uma história aí, não muito agradável, que no dia que eu nasci, a minha avó faleceu. Ela viveu doente. Naquele tempo, tinha que dizer que não podia dizer pra... Ela podia quebrar o resto. Ela não podia ficar doente. Então, ela ficou um mês sem saber que a mãe dela tinha partido, que ela morava em Trairi, e ela já morava aqui. Aí era aquele cuidado, quando chegava uma pessoa pra visitar, era... não tem que falar, não tem que falar, né? Porque tinha medo, né? De uma mãe adoecer. Mas aí, com... comenta, ela se conformou, ficou um mês, falaram pra ela, ela se conformou. Então, eu... No dia que eu nasci, a minha avó materna faleceu.
(00:05:02)
P/1 - E por que a senhora chama Raimunda?
R - Porque era em homenagem à minha avó, que era Raimunda também, até conhecida como Mundica. Mas era Raimunda. Então, ela foi pra lembrar, mas ela colocou o nome da mãe, da minha mãe, da minha avó, que é Raimunda.
P/1 - Então, a sua mãe aprendeu com a...
R - Com a mãe dela, que era Mundica. E a Mundica aprendeu com a avó, minha tataravó e tal. E assim era repassada assim, né? A tradição da renda de bilro.
(00:05:38)
P/1 - E já estava contando que quem tem a almofada, tem ciúme da almofada.
R - Tem, e nem todo mundo faz. Eu tenho, minha mãe tinha, quando chegava aqui, nós pequenas, queria mexer, porque a gente se chama em linhar, em baralhar, né? Botava um ‘espinhozinho’ assim pra não... Aí a gente ficava com medo, né? Era isso! Hoje não existe mais, né? Hoje não tem mais essa tradição que tinha antes. Mas a nossa renda de birro, quando a renda de bilro iniciou, gente, não era esses trabalhos que vocês estão vendo aqui. era de linha fina, uma linha de carretel chamado âncora, linha fina número 20, e se fazia só uma rendinha estreita, que era para colocar nas combinações, nas anáguas, naquele tempo se usava as anáguas, e enfeitar com uma toalhinha de mesa. Há mais ou menos umas quatro décadas que surgiu a invenção de fazer novas peças com a linha mais grossa, e aí a gente faz tudo na renda de birro. Principalmente nós, eu trabalho com cinco linhas, que são vestuário, todo em renda de birro, jogo americanos, que foi o que vocês viram aí, cama e mesa, coxa de cama, toalha e tudo, e acessório, que é do brinco colar sandália, cintos, tudo na renda de birro. E a customização, que é a última linha, que é você trabalhar a linha, a renda no tecido, né? E você customiza. Em todas as áreas, em todas as linhas, eu customizo a renda de bilro. Tanto faz na blusa, como no caminho de mesa, a gente customiza a renda com o tecido.
(00:07:33)
P/1 - E quando a sua mãe te ensinava era branca?
R - Naquela época, eu levei muito cascudozinho assim, porque eu mexia e queria fazer o que ela não queria o meu, queria o dela, né? E ela não entendeu, mas a gente mais valeu a pena. Todas elas, ela ensinou. Ela, ela trabalhava na cozinha e nós três, era tudo mocinha, né? Adolescente, na sala. Só que ela comprava só um carretel de linha pras três. E, sabe como é menino, né? Aí nós enchíamos nossos birros, enchia, né? Passava pra outro, enchia. Mas nenhuma das três queria guardar o carretel de linha. Aí ficava a gente botando uma pra outra, botando uma pra outra. E aí, mamãe! Aí a mamãe vinha, pegava as tamanquinhas, aqui tem mais tamanquinha, dava um bolinho em um, bolinho em outro. Vocês vão se unirem aqui com... É ele, meu filho! Aí a gente aprendeu. Pronto, a gente fazia. A gente fazia as pecinhas, tudo pequena, 8, 10, 12 anos. Fazia as peças de renda que são 10 metros e de casal. Como é casal? É o bico e a renda. O bico tem um matame de lado e o outro lado é liso. E a renda é toda lisa, né? Toda lisa assim. E a gente juntava. todas as peças de renda. Minha mãe fazia seis meses, né? De janeiro a junho. Em julho, mandava pra uma tia nossa lá em Fortaleza. Ela vendia lá no Mercado Central, antigo, Mercado Central, aí pra comprar nossas roupinhas. Como era nossas roupinhas? De chita. Comprava o ‘tecidozinho’ de chita pra gente usar. E, novamente, ia trabalhar pra dezembro, pra comprar roupa do Natal. Novembro tinha, novamente, as pecinhas de renda, mandava pra minha tia, minha tia vendia e eu vendia. E assim era sucessivamente. Com 12 anos, eu já era professora. Todo o meu vida foi assim, de nada, né? Eu já tinha aprendido a fazer renda, a costurar, também, a costurar, tinha uma máquina que eu costurava, e professora. Então, A minha tia veio pra dentro da nossa casa alfabetizar a nós e os vizinhos. Ela ficou uns anos, aí depois casou e foi embora. Aí ficamos sem escola. Aí eu fui e inventei... A minha tia dizia, olha, tá bom tu ficar no lugar da Estela pra ensinar, que a gente te gratifica, dá uma gratificaçãozinha. Aí era que meus primos todinhos aqui vinham. Depois dos vizinhos, né, a gente diz vizinho, mas é longe, né? que, ah, meu filho, então a Raimundinha vai ensinar. Raimundinha, eu vou trazer os meus meninos. Olha, eu tinha um aluno, eu tinha 12 anos e os alunos tinham 14, 15 anos. Muito mais velho do que eu. Era a única escola que tinha em Próxima, né? Aí eu me ensinava, ela me dava gratificaçãozinha. E assim foi a minha vida. Eu nunca parei. Eu gostei. Sempre eu gostei de fazer alguma coisa. Aí pra costura, Antigamente, se usava aquelas saias bem largas, não era? A blusa se rasgava logo. E ficava a saia. E eu, muito curiosa, fui cortar uma blusa. E não, viu? Aí eu fui cortar uma blusa. Aí eu cortei a blusa aqui. Achava que tava cortando aqui a ascava, né? Pra colocar o braço. Quando eu levantei aqui, era uma calcinha no lugar da blusa. Nunca me esqueci disso. Aí eu falei, não, minha filha, não é assim não. Aí me ensinou. A minha mãe nunca me botou pra... pra... pagou escola pra me aprender a costurar nem a bordar, porque eu tanto bordo na mão como na máquina, né? Pedalando, era pedalando. E tudo isso eu aprendi. Eu fui pra Fortaleza. com 18 anos, estudar lá. E naquele tempo tinha umas rabaias. Rabaias eram as mulheres que iam, traziam. Era como as oficinas de costura hoje. Trazia os bordados lá da fábrica, tudo marcadinho, e levava pro interior pras pessoas bordarem. Ela trazia tudo riscado. Aí eu comecei também a aprender. Eu trabalhei pra o Rendas e Bordado Mundica Paula, lá em Fortaleza. Hoje, se ela existe, é no Monteiro, mas é lá na São Paulo. Então, gente, minha história é essa. Outra coisa, todos os anos minha mãe tinha um filho. Eu tive a paralisia infantil com 3 anos de idade. E quando eu tava já maiorzinha, 8, 10 anos, 12 anos, meu pai levava as meninas no inverno pra plantar, né? Ele saia fazendo a cova e ia atrás, ia colocando a semente. Mas como eu tinha essa deficiência, era mais difícil, eu ficava mais em casa. Mas a responsabilidade maior era minha. porque eu tinha de lavar os pratos. E de tarde, toda tardinha às cinco horas, eu tinha que banhar as menininhas para poder dormir. Chegava tudo sujo. Era de gente. Mas graças a Deus que minha mãe nos ensinou tudo, ensinou a trabalhar, não morreu ninguém. Todo mundo estudou, trabalhou. E a minha vida sempre foi essa, sempre ajudando. Procurei ajudar algumas pessoas da comunidade, É, aos 18 anos, meu pai viu. Pode não. Pode falar.
(00:13:10)
P/1 - Eu queria perguntar só uma coisa. Então a senhora cuidava dos seus irmãos?
R - Era.
P/1 - Era?
R - Era sim. Minha mãe cuidava lá da gente e tudo. E eu cuidava. Chegava aquela horazinha, tinha que banhar. Porque as crianças brincavam no terreiro. Naquele tempo tinha infância. Nossas crianças hoje não tem, né? Aí era três, quatro meninos. Tudo corre a escadinha. Eu tinha que banhar, cortar as unhas, pentear, trocar de roupa. Tudinho que era pra jantar e pra ir dormir.
(00:13:37)
P/1 - E como é que era? Quantos irmãos que eram?
R - Nós éramos dezesseis filhos.
P/1 - Aí... E todos a senhora ajudou?
R - Não, eu ajudei os mais novos, né? Porque os outros eram... Eu era pequena, né? Mas do oitavo pra frente eu já comecei a ajudar.
(00:14:00)
P/1 - E eu queria que a senhora me contasse... A senhora falou que naquela época tinha infância.
R - A minha marida ia brincar, a gente brincava muito. Às vezes, eu converso com a minha neta que eu já não quero mais brincar, né? Porque ela é um celular. Então, nós brincavamos muito. Lua clara, nosso terreno era grande, nosso quintal. E nós brincavamos, nos juntávamos lá, meus tios, vizinhos, meus tios, porque tudo é primo. Nos juntávamos e eu brincava de esconde-esconde, lado direito, de roda, cantávamos, né? Aquelas musiquinhas de ninar. A gente brincava muito. E, no inverno, nascia muito Mangiriobi, mata-paste, aqui na lateral das estradas. Não tinha essa estrada, não. Tinha só as veredas. E a gente era muito cavilosa. Aí a gente se escondia lá de trás. Aí pra gente... Sabe como é esconde-esconde, né? Pra pegar as pessoas. Procurar e pegar. A gente amarrava um galho de um pé do outro, amarrava, e quando a pessoa vinha, tropeçava, caia. Até um dia desse veio um amigo meu que se lembrou dessas coisas. E a minha mãe varria os terreiros, né? Tô com a lua clara, nosso terreiro bem grande, a gente tava brincando. Brincava em volta. E meu pai ia trabalhar e... Quatro horas. Liberavam os seus trabalhadores. Dessa encolha, ele passava no riacho, tomava um banho, guardava a blusa aqui na costa. E vinha lá na altura. Nós ficava esperando quando o papai avistava a minha coisa. Corria, meninada, aí tu segurava numa perna, o outro botava no braço. Ele foi muito bom. E, às vezes, o papai contava histórias. Ele se deitava na areia, tão friozinho na lua, né? Aí ele ia contar as histórias. Aquelas histórias que... Não sei se os seus pais chegaram a contar pra você, né? As histórias da fada, aquelas histórias que a gente chama de histórias de trancoso, né? Mas foi boa, nossa infância foi muito boa.
(00:16:04)
P/1 - E tem alguma história que a senhora lembre? Tem alguma história que a senhora lembre?
R - Temos, temos. Tem muitas histórias aí que... que a gente contava, né, da princesa, contava também algumas histórias que aconteciam mesmo com os parentes dele. O meu tio, o papai também era muito engraçado, o meu tio lá... Lá em Semoável tinha um caminhão naquele tempo. É que tinha um caminhão, era rico e era muito difícil, né? Andar nas estradas. E ele contou uma coisa muito interessante. Isso foi verídico mesmo. Ele contava pra nós. A gente ria que o tio dele, o carro, faltou a luz. Isso era de noite. Aí sabe o que foi que o meu tio fez? Na antiga minha, usava os candinheiros bem grandes, né? Uma lata bem grande, com pavio bem grande, encheu de querosene. Aí ele encheu de querosene, a tocha era bem grande pro caminhão andar e botou na cabeça, saiu da frente correndo, aluminando o caminho e o carro atrás. Mas foi velho de comer, mas morava lá e contava essas histórias, né? E ele, muita coisa, ele vinha com a cana, com a cana lá aqui no ombro, que era pra descascar a noitinha, pra gente chupar junto com ele, né? Trazia a cana aqui, lá vocês viam, nós corria. Menino, sai daqui não que lá tem uma raposa, vou já matar a raposa com essa cana, brincando com a gente. É não, papai, é assim, é só pra gente rir, entendeu? E ela foi montando, sua infância foi boa, graças a Deus. A gente dizia que foi sofrida, não foi sofrida, foi muito boa. Dificuldades, tinha dificuldade naquela época e naquela época nós tínhamos necessidade. Hoje nós temos prioridade, né? Nós tínhamos necessidade naquela época e hoje tínhamos prioridade, né? Mas nunca faltou o nosso pão de cada dia.
(00:18:00)
P/1 - E tem alguma comida, algum cheiro que lembra essa época da infância?
R - Ah! Da infância, sempre a nossa comida, gente, era o pirão escaldado. Que é o pirão escaldado. Do feijão. Nós éramos muito. E a mamãe, quando era muito, quando o feijão era pouco, sabia que não ia dar arroz, era difícil. Era farinha mesmo. Botava a panela, panela grande, botava muita água dentro, né? Verduras, sempre tinha o canteiro dela. e faziam pirão escaldado. O que é o pirão escaldado? Botava farinha e botava o caldo com um pouquinho de feijão quentinho, mexia, mexia e ficava aquele escaldado bem gostoso, com coco. Na nossa tempêra, antigamente, era coco, leite de coco. Tudo era no leite de coco. A ave-maria era muito gostoso pra gente comer, era muito bom. E eu tinha um irmão, que ele mora até ali, toda vida a gente tem um irmão que é assim, vou usar a palavra, mais esgalamido, que é mais do que os outros, né? Então, a mãe botava numa bacia, Todo mundo sentava, botava uma esteira no chão de palha, abacia bem aqui, cada uma com uma colher, e todo mundo comendo. Nós não íamos comer normalmente, todo mundo comendo. E ele era... Ele estava comendo mais do que os outros. Essas coisas, né? E ele, o café não tinha tapioca, não. A gente tomava o café de manhã, era com caroço de farinha. Muitas vezes tinha tapioca, mas não era todo dia. Aí meu irmão, como ele era assim mais... Aí ele botava o café, a mamãe botava todo mundo os seus cafezinhos ali, né? Aí ele botava a farinha enchida, ele fazia um pirão e dizia, mamãe, o meu virou pirão, bote mais café aqui, só pra mamãe aumentar mais o dele, sabe? Sabe, eu conto essas histórias pro meu neto, pro meu sobrinho. Era, vó, era assim. Era minha filha desse jeito. Então, vó era muito boa, né? A gente brinca, a gente subia. Olha! a gente subia nos cajueiros. Hoje, se você falar essa palavra, você, rapaz, vestuando a palavra. Nós trepava nos cajueiros. Entendeu? Trepava. Era muito gostoso. A mamãe dizia, eu tinha uma irmã que era muito danada, a mamãe dizia assim, hoje a janta é peixe, mas não tem quem vá, não tem uma pessoa pra trepar no coqueiro pra tirar um coco. Aí a minha irmã, que é muito danada, não, não é por isso. E os coqueiros embaixo, a minha irmã Trepava no coqueiro pra tirar o coco, né? Hoje, se eu falasse a palavra, vixe Maria! E se eu contasse uma coisa engraçada? Tem esses carros que vai, que sempre vai pra trás, carros de carroçaria, né? Eu tenho um amigo meu, sempre quando ele passa ali tem um cantinho na boleia pra mim. Aí eu, no dia que eu tava ali, o David disse, ô Raimundinho, nem tem um cande que eu tô levando o casal de velho, tem nada não. Eu ainda treco das carrocerias dos outros. Menina, pra foda que eu disse isso. Só pra fazer graça. Acharam tanta graça. Não é hoje, né? Até as palavras dele, né? Ele pode pra outro segundo sentido, né? Mas era assim mesmo, filha. Era desse jeito. E a luz, e a vida da gente era essa. Eu fazia renda à noite, na lamparina, e de manhã o nosso nariz tinha que limpar, porque tava da fumaça da lamparina, pra terminar. Era, querida, era assim.
(00:21:20)
P/1 - E como é que era a casa de vocês?
R - A minha casa era de taipa, que a gente chama de vara e barro, não era de alvenaria, a nossa casa. E o meu pai, ele é uma pessoa muito... foi um paizão, mas ele era um pouco desleixado nas casas. No inverno, tinha que fazer uma latada de palha do lado que vinha a chuva, porque a chuva derretia a parede e aparecia só os buracos. E nós tínhamos o nosso quartinho, né? O nosso quarto, nosso dormitório lá. E teve um inverno que derrubou, ficou só os buracos lá na porta. Aí nós dizíamos assim... Ei, fulana! Nada de nós ficar brechando lá no buraco. Lá em fulano, lá no alto da estrada. Aqui pra gente era uma risada, era engraçado, sabe? E tudo isso a gente passou. A gente era... fomos muito felizes, e somos muito felizes, mas a gente brincava, não tinha essas maldades que hoje tem, viu? Hoje não pode mais brincar uma menina com um menino, hoje, né? E a gente brincava, todos os rapazinhos, as mocinhas, a gente brincava, tudo sem maldade, numa boa, entendeu? E foi muito bom. Tinha também as... as novenas. que chamava os terços que aconteciam nas comunidades. Santo Antônio, lá daqui a um quilômetro, pra gente ir lá na casa de fulano que tinha uma devoção, pra gente, convidava a gente pra ir rezar o terço lá. Noite escura, a gente atravessava uma mata e no inverno só quem iluminava era o vagalume. Não tinha lanterna, não tinha nada, mas a gente ia com toda dedicação, maior respeito. Depois do texto, a gente sentava lá um pedacinho, que eles faziam um cafézinho pra gente. E nós meninas íamos brincar enquanto nossos pais ficavam conversando. Rapaz, é uma coisa muito boa, muito bacana. Foi muito, muito, muito... Minha infância foi... muito proveitosa.
(00:23:23)
P/1 - E tinha a procissão?
R - Tinha, tinha a quermesse. Tinha as chamadas quermesse, né? Hoje quermesse é outra palavra que, né? Tinha as quermesse que tinha, fazia, a minha mãe fazia os bulim. Bulim é aqueles polvilhos de goma, de polvilho que a gente tinha um forninho e fazia sempre que essas pessoas faziam. Sempre eles faziam assim por uma devoção, por uma promessa pra pagar. E vinham, tinha um lelão, né? Tinha um lelão e tinha que ter o bulim. Aí vim pra mamãe fazer, ela convidava pra gente ir e fazia a chamada asquermex, a gente ia. Duas, três noites. Não era pertinho não, era longe, minha filha, a gente ia. Tanto fazia no inverno como no verão, mas a gente ia. E ficava todo mundo contente, alegre.
(00:24:12)
P/1 - E a senhora estava contando com o seu pai, depois que vinha da linda, ele se banhava no riacho?
R - No riacho.
P/1 - Vocês também ou não?
R - Não, agora, depois da água encanada, dificilmente. Porque o riacho continua, né? Só que, às vezes, as meninas querem ir lá tardinha, mas só de brincadeira, só pra estar botando os pés lá, jogando água na outra, mas tomar banho mais. Só que tomar banho e lavar roupa não tinha. Água era de cacimba, né? E nós, como me mandavam encher os potes, eu não ia, porque eu ia cuidar dos meninos, mas a tardinha tinha que encher os potes da cozinha, que chama-se pote de gasto, que se gastava à tarde, de manhã e à tarde. E naquela época você usava a cabaça, as cabaças, né? Aí a minha aninha ia lá na cacimba, cacimba é o posto que fazia lá, próximo lá na Barça, enchia e trazia. tropeçava, caia e a cabaça quebrava. Aí ela vinha chorando. Que foi, menina? Foi a cabaça quebrou. É porque você não tem cuidado. Então, é tudo, minha filha. Foi muito bom.
(00:25:20)
P/1 - E aí a senhora estava contando que teve uma paralisia infantil, né?
R - Foi, exatamente. É assim, a paralisia infantil naquela época não tinha ainda a polia paralisia infantil, chamava-se o ramo. Fulano teve o ramo. Estava com febre, eu estava com febre e pisei no São Frigo. E não era cimentada, era tijolo mesmo. E eu tinha o costume, como a primeira filha do casal, de quando eu acordava de manhã eu chamava a minha mãe. E nesse dia a minha mãe não foi me atender, veio me buscar lá dentro da rede. Aí eu desci. Quando eu desci, com pouco tempo eu comecei a sentir uma dor. Naquele tempo tudo era difícil, né, pra ir pra Fortaleza e tudo. Aí as benzedeiras, né, que tinha muito naquela época, diziam, dê um chá, dê massagem disso, as coisas naturais, né. Aí ele, quando levou pra Fortaleza, ele falou e começou a minha perna atrofiar. Mas eu fiquei pouco tempo sem andar. Porque tem... quando dá para aulas de infantil, não sei se porque não pude, passa muito de um ano. Eu acho que com seis meses eu já tava andando, mas também se tivesse uma casca de feijão aqui, se eu tropeçasse, eu ia no chão. Mas, entendeu? Então, eu... Não tive muito complexo no início, porque quem faz o complexo muitas vezes é os nossos próprios pais. Então, minhas irmãs... Ia pra Canaã, naquele tempo, na festa de São José, e a mamãe não deixava eu ir. Porque era muito dificuldoso pra mim. Eu ia de jumentinho, mas chegava lá tinha que amarrar os jumentos. A mãe não deixava muito eu ir, né? Aí, por causa da minha deficiência, e a mãe não podia ir, e os outros meninos não tinham muito cuidado comigo. E, pra ser sincera, Canaã, que é bem aqui, eu fui conhecer Canaã, mesmo Canaã, eu tinha 15 anos de idade. Porque a mamãe não deixava muito, aí dizia isso assim, achava que... Aí depois que eu comecei a crescer, aí fui pra Fortaleza com 18 anos, aí saí da casca, me soltei. E não, eu sempre digo, gente, até hoje. Não é uma joelheira ortopédica e um pai de muleta que me impede de eu ir e vir. Até hoje. Até hoje, certo? E sempre trabalhei. Sempre trabalhei. Vou contar uma coisa interessante. Aí meu pai... Sempre fui família dos meus irmãos, sempre ajudei os meus irmãos. Fui para Fortaleza com 18 anos, o pai comprou uma casinha lá no Jardim da Sema, eu fui, meus irmãos moravam lá, uns três. Aí, eu na máquina, eu levei a minha máquina, a máquina da mamãe, porque não tinha, era pedal, a gente tinha comprado uma, e eu trabalhava, eu estudava no Justinho, em Justinho de Serpa. Primeiro foi no Hermínio Barroso. Eu ia de pé. Olha o Jardim da Rosa lá em cima. Eu ia com a turma. Depois, o segundo ensino médio foi lá no... lá na... no Jardim de Serpa. Então, eu, todos os anos, não tinha estudo aqui, levava um irmãozinho pra lá. Chegou até 12 pessoas, tanto nessa casinha do Jardim da Sema, com meus primos também, iam lá pra estudar. E eu ajudava eles todos na máquina. Na máquina era... Eu conheci logo a Rendas e Bordados do Mundica Paula, porque o Rendas e Bordados do Mundica Paula tinha costura. E ela fazia um teste lá, passei. Então, eles mandavam deixar os produtos, tudo já cortadinho, só pra mim costurar na minha casa. Ave Maria, quando ele chegava, eu estava pronta, levava. Quando ele recebeu o dinheiro, era muita felicidade, era o mesmo. Ainda não tem mais. Lá montei para ser uma coisa minha mesmo, de ser professora. Ainda montei uma escolinha particular lá. Também, eu estudava à noite, de manhã ensinava e de tarde estava na... fazendo os meus trabalhos. Só que... eu tenho um tio de minha mãe que mora em São Paulo, Você sabe que ninguém é cem por cento. Já vai. E todo mundo é da gente mesmo ter raiva, ter ansiedade, brigar, se encher com água. Isso, né? Que são passageiros. E o meu tio me convidou, veio, nos visitou. Eu não queria dar. Passei lá em São Paulo. Um dia eu resolvi passar um mês lá em São Paulo, na casa do meu tio. Eu tinha 28 anos, já tinha uns 30. Fiquei 5 anos nesse mês. Só que aí eu morei um ano com meu pai, é uma empresa muito grande lá do Zucra, comecei a trabalhar, eu sabia bordar e costurar, mas me deram maior valor lá. Então, todos os anos que eu vinha de férias, eu levava o meu irmão. Montei até casa lá. Aí depois que a minha mãe adoeceu, aí eu precisei vir. Aí devia ir embora. Mas os meus patrões... Teve um ano que meus patrões comprou a passagem de ida e volta, e pensavam que eu não voltava mais. Porque eles gostavam muito de mim, porque eu sabia trabalhar. Eu trabalhava, eu dominava tudo, bordados, costura, tudo direitinho. Mas eu já fui várias vezes, mas eu só passei pra morar amanhã. Em Fortaleza eu morei esse tempo, depois que eu vim de São Paulo eu vim diretamente pra cá. cuidar da minha mãe. E quando eu cheguei, que eu olhei pra um lado e pra outro, não tinha uma escola. A escola que tinha pra nossas crianças, pra batizar até o terceiro ano, era num raio de quatro quilômetros. Longe. Não tinha transporte como tem hoje, não. Aí foi o que eu fiz. Eu fui, fui na prefeitura, que é assim, eu sou desse jeito. O pessoal tão fechando a porta pra mim, Aí eu fui conseguir, porque o prefeito era compadre do papai, consegui uma escola, só que não tinha onde ensinar. Mas eu disse pra ele que... Mas, Hamidi, não tem onde, não tem escola lá, não tem nada. Não se pode, não se pode. Eu quero que o senhor me conceda esse contrato, que eu ia ganhar 20% do salário mínimo naquela época. Eu tenho todas as fotos aí. Eu estava debaixo de um cajueiro. Debaixo de um cajueiro. Ficava cinza no sol, né? Mas aí eu resolvi fazer uma escola. Eu, por minha conta. Aí eu fundei uma escola, mandei meus compadres tirar uns pavos no mato, eu fiz. A escola coberta de palha. Eu estava lá, ensinando lá nessa escola, quando... Tinha uma amiga que tinha conhecido, nessa época, muitos alemães que estavam indo aqui para o Ceará, principalmente para Trairi. E se engraçou de uma dona aí e uma amiga minha, amiga da Timbauba, me visitou. Quando me visitou, que eu estava dando aula, que viu aquela situação... E era multiseriado. Era primeiro, segundo, terceiro, tudo junto, porque não dava pra formar turma, né? Só era eu. Depois foi que veio outra professora. Então, ele achou muito útil o meu trabalho, diário do Asfalto, e foi embora. Com pouco tempo, eu recebi uma carta, já traduzida. perguntando, falando sobre mim, que tinha achado meu trabalho muito bonito e que queria ajudar, que é o que eu precisava. Eu não pedi nada pra mim, eu digo que eu queria uma sala de aula de alvenaria. Aí eles me mandaram, não foi nem eu que recebi, mandou diretamente pro pedreiro. O pedreiro construiu uma sala de aula, que justamente ainda está em pé ali, que é onde funciona a associação. Fiz a sala de aula, mas não comportou. Eu tive que fazer outra sala de aula de palha, né? De palha pra comportar, que cada vez aumentava os alunos, né? Aí eu tava lá... Aí eu precisei ir pro Trairi. Quando eu fui pro Trairi, eu ia, não tem a volta que entra pra Canaã, eu andava tudo isso de pé pra pegar um transporte pra ir pra Trairi. Naquela época não tinha, eu fui lá. Quando eu tava lá, eu vi um carro de flecheira, dei sinal, parou. Era um gerente do Banco do Brasil, isso não é de nada. Aí me deu a carona, ele foi conversando comigo e tal, aí o que que eu fazia? Eu contei um pouco da minha história da escola e tudo bem. Aí um dia, Eu tava na sala de aula no inverno, né? No inverno. Aí ele falou que ia me fazer uma visita. Eu tava justamente na sala conversa de palha. Quando aquele carro parou e entrou, aí eu conheci, era eu. Ele disse que eu ia fazer uma visita, aí ele entrou, conversou com os meninos e tudo, aí começou a chover. Quando começou a chover, nós não tínhamos condições de trabalhar porque molhava tudo, porque a palha não era bem feita pra molhar. Aí os alunos se recolheram e tudo. Aí ele ficou observando e disse, segunda-feira lá no banco, tudo bem. Quando eu passei segunda-feira lá no banco, Ele me deu dois milheiros de telha para cobrir. Ele via a situação, né? E assim é a minha história. E hoje nós temos. Nós tivemos aí, fechou a escola, né? É nosso. Nós, os professores e os móveis eram do município, mas o prédio somos nossos. Foi eu que construí. Nós construímos. Então... Começou a lei que não podia ser mais multisseriado, tinha que separar os alunos, só que não dava mais turma, porque era 5 de 1 a turma, 8 do outro não podia, tinha que ser no mínimo 15 a 20 alunos. Aí levaram para os Peixinhos, que é uma escola grande que tem, aí a escola ficou só para nossos cursos, que eu faço os cursos lá no Sebrae, com as rendeiras, e é assim, é a nossa história. Não foi muito fácil, mas foi muito gratificante. Muito mesmo. Se você souber que vinha aluno andar em boaca por cima desses morros, que é 4, 5 quilômetros, vinha estudar aqui, porque lá não tinha escola. Era a única escola no raio de 4 quilômetros que vinha. E hoje, quando eles me encontram, às vezes eles vão em viagem para Pará, e quando eles vêm, eles vêm me visitar, me dão aquele abraço, aqui é minha professora. Aqui deixa a gente tão feliz, tão contente, que a gente tem um reconhecimento. Hoje não tem mais isso. Hoje, os nossos alunos, uma parte dos nossos alunos não respeitam mais os professores, nem os próprios pais, imagina os professores. Então, o ensino de hoje está mudado. Ele está muito mudado. Eu ainda sou do tempo de moral cívica, né? Acho que vocês chegaram, né? Moral cívica. E a minha história é essa, né? De ajudar os meus irmãos. Eu cuidei, eu não digo criei, quem cria é Deus. Eu cuidei de dez filhos do coração desde pequenininho. Estão chegando até onde é agora. E... Cada um foi um caso, né? Foi de família, de separação, de morte e tudo, mas graças a Deus que hoje tem esses dois, que ficou comigo, são esses especiais, mas Deus sabe tudo na hora certa. Por isso é que eu digo. Deus é vida, Deus é a razão, Deus é misericórdia pra todos os irmãos. Nunca se esqueça que Deus é a solução e só no tempo dele é que as coisas acontecerão. Certo, gente? Então, é isso.
P/1 - Dona Raimundinha, deixa eu te perguntar algumas coisas. Vamos voltar um pouquinho.
R - Pode voltar.
(00:38:18)
P/1 - É só pra ter mais detalhes, porque eu tô interessada. Quando a senhora começou a dar aula, quando era novinha, como é que a senhora dava aula?
R - É o seguinte, antigamente as casas eram bem grandes, só tinha uma mesa grande, que ainda tem essa mesa aqui, do casamento do meu pai de Cedro. Não tinha, tinha só alguns tamboretezinhos. Aí eu mandei fazer aqueles... Pau grande, que vocês devem ser que colocam assim, né? Aí eu botava de um lado e do outro. Então, aí eu ensinava. Ensinava de tudo? De tudo, de tudo, de tudo. Aí não tinha lousa. Muitos deles eu tinha que escrever na mão, entendeu? Com aquela paciência, com aquela paciência, mas os alunos cooperavam, eram obedientes, né? Não era turma grande, era pouca, né? Mas mesmo assim, eu ensinava de tudo. Eu tenho uma aluna, também eu ensinava do que eu sabia, eu repassava pra eles. Eu tenho uma aluna que mora na Embuaca, que a mãe dela, quando me encontra, uma vez ela me encontrou e veio me dar um abraço. Ela disse, Raimundinha, agradeço tanto que tu ensinou as minhas filhas, até na área de educação sexual, assim, conforme a idade, elas eram mocinhas e tudo, porque A minha filha hoje não tá num mundo perverso dessas coisas porque ela foi orientada por você. Porque antigamente os pais não a orientavam, né? Tinha vergonha e tudo, né? E isso deixa a gente muito contente, muito feliz. Entendeu? Ela me deu um abraço, aquele segredo. A menininha, porque ela tinha passado por uma situação e a menina foi. Então, é isso, gente. Muito, muito bom. Muito, muito bom.
(00:40:08)
E quando você foi pra Fortaleza, você continuava estudando?
R -Estudando e eu costurava e com poucos meses os vizinhos Perguntou se eu queria ensinar os filhos a fazerem umas tarefas. Aí eu comecei a fazer as tarefas de casa deles, aí outros ficavam perguntando, perguntando, porque um pouco eu já tinha uma turminha, uma escolinha, né? Aí eu já tinha a turminha na sala da nossa casa. E muitas vezes, o que é interessante, Era tão interessante que eu ia pro colégio, chegava 11 horas, e aí eu acordava um pouquinho mais tarde, né? Os alunos ficavam batendo na janela. Namidinha, acorda, nós chegamos pra escola, mulher. Mas era desse jeito, era muito interessante. Pois é.
(00:40:55)
P/1 - E em que hora você costurava?
R - À tarde. E à noite eu ia pro colégio. Dava conta de tudo. Dava conta dos meninos e tudo, mas só que eu... Cada qual as suas tarefas, né? Cada qual o menino tem que... Todos eles ajudavam.
(00:41:12)
P/1 - E você estava contando que quando você foi pra Fortaleza, nada segurou você.
R – Nada (risos).
P/1 - Como que foi essa mudança pra lá?
R - Essa mudança pra lá. É o seguinte... Eu fui, né? Como a mais velha, com os meninos pra estudar lá. Zumba era pra estudar, mas eu não sei se ficar sem fazer nada. Mas a minha almofadinha estava lá, minha almofadinha, eu levava a almofadinha e daí trocava nos bilrinhos. E a minha tia trabalhava no Rendas e Bordados Mundica Paula. E eu pensei, o que é que eu vou fazer? Sem ter nada pra fazer, eu tenho que fazer alguma coisa. Foi quando eu fui para o Rendas e Bordados Mundica Paula. Aí depois as vizinhanças começaram a... Porque naquele tempo tudo era mais difícil, costureira e tudo, né? Aí eu vi os meus trabalhos, passava, eu tava costurando, eu comecei também a costurar pra vizinhança também. E pra minha família. A minha família costurava para todos os meus irmãos e os meus do final do ano, e os meus primos. Todos, era a roupa do final do ano. Hoje não, a gente compra, né? Feita, mas a roupa do Natal era o que costurava para todos eles. E dava conta. Dava conta, né? Pois é, então, e era assim, né?
(00:42:35)
P/1 - E dava tempo de se divertir?
R - É, divertir era menos, né? Então, eu não gosto muito de praia, mas, às vezes, uma praia uma vez por outra, aniversáriozinho de alguém, porque eu não sou muito, assim, de sair, eu sou muito caseira, né? É dizer que eu sou caseira, que eu saio muito, né? Mas há trabalho, há negócio, né? Mas é aqui, aqui, eu... Eu fazia as quadrilhas, minha filha, eu gritava com a quadrilha. Eu era contratada. O Davi Rocha, lá do Colégio Cristian, tem uma casa lá na Emboaca, ele me contratou. Ele me contratava para me gritar, ele ia me buscar e me deixar uma quadrilha. A primeira quadrilha que aconteceu na Emboaca foi eu que gritei, foi um sucesso. Eu gritava, ensaiava e ela tava no meio lá de todo mundo. E como é que a senhora fazia? Gritava? Gritava os passos da quadrilha. Os passos da quadrilha. Tudo, hein?
(00:43:40)
P/1 - Você lembra?
R - Lembro, é. A nariê, né? A lavantu, olha a chuva. É, tinha casamento, tinha tudo, tudo isso. Eu fazia tudo.
P/1 - E aí só era profissional?
R - Era, mas na minha redondeza eu era. Vinha os alunos tudinho aqui, perto de Canandudo, vinham pra cá, pra quadrilha. Era, fazia piquenique. Eu andei com os nossos alunos. Porque sempre eu gostei do lúdico. Lúdico é a palavra nova agora, mas é de brincar, né? Gente, nós vamos acampar domingo lá na Baixa do Morro. Baixa é a que a gente vai aqui, quando a gente vai ao nosso sítio, vai até na Emboaça, né? Até o Pé do Morro, né? Na Emboaça foi vender os morros. Aí tem os morros, tem as lagoas e tem umas baixas, assim. Um plano, né? Um planície. Aí nós vamos acampar. Ai, meu marido, aquele era uma festa que assim, não tem, né? Aí digo só que todo mundo vai trabalhar. Aí um trazia uma cor, um... Pois é, enquanto no piquenique. Aí, olha, todo mundo ajudava. No que tinha na época, né? Era peixe assado, tudo, farofa, farofa não podia faltar. A gente fazia uma panelada de baião. Era tudo fazendo aqui, né? Aí a gente dizia, olha, nós vamos levar mesa e cadeira. Aí os alunos botavam, tinha as mesinhas, né, da escola, botava, aqueles maiores botavam a mesa na cabeça, outros levavam as panelas. E saía aqui, turma, rapaz, era uma festa. E lá nos, aí a gente, aí a gente ficava, Não tinha lono, naquela época não tinha lono, porque era no sol mesmo, né? Então, tinha as dunas, que a gente sobe assim, aí desce e já cai dentro da lagoa. A ave marejada entrando lá, subia as dunas, aí descia, caia dentro da lagoa. Tudo natural, tudo. Rapaz, era bom demais, né?
P/1 - E ia com todos os alunos?
R - Com todos os alunos, todos os alunos. E, às vezes, até as mães iam também. As mães acompanhavam também. Queriam ir também participar.
P/1 - E tinha outras professoras?
R - Tinha, na época já tinha outra professora. Minha prima já tinha duas professoras. Aí, depois de alguns anos, eu não fiquei mais na sala de aula. Fiquei só na coordenação. Aumentou, né, a turma. Aí eu fiquei na coordenação. Eu fiquei na coordenação.
(00:45:58)
P/1 - E quando a senhora começou a estudar aqui, lá atrás, quando a senhora começou a estudar, Teve algum professor, alguma professora que te inspirou a seguir esse caminho ou foi da sua cabeça?
R - É, foi mais da minha cabeça. Por quê? Naquele tempo, as mães aqui alfabetizavam os seus filhos. Quando nós íamos para a escola, porque não tinha escola, a mãe ia para a escola, nós já sabíamos como se chamava a Carta de ABC, já sabíamos as letras do alfabeto, e alguma sílaba ia fazer o nome. A mãe ensinava. Cada mãe, todos os dias aqui, ensinava os seus filhos, a maioria das mães. Quando a gente ia para a escola, os meus irmãos iam para a escola lá no Estrela, que é 3 a 4 quilômetros. Eu não ia, porque por causa da minha deficiência, de pé não dava, mas eu ia da próxima, mais próxima, né? E no terceiro ano e quarto ano, a minha mãe botou lá na casa do meu avô, lá em Trairi, para me estudar. Ficava mais fácil, né? Mas só teve uma professora, que ela não está mais no nosso meio, ela deu muita inspiração para mim. Primeiro, por quê? Eu fazia a terceira série, mas foi a Dona Eliesita. A Dona Eliesita foi uma pessoa que me deu muita inspiração, porque ela era muito assim, era não só professora, era mãe, ela tinha muito cuidado com os alunos. Aqueles alunos que tiravam boas notas, nem que sejam um pente, uma escova, ela cativava. E ela gostava muito da profissão dela. Muito, muito da profissão. E isso deixou muita inspiração pela dedicação que ela tinha com a profissão dela e com os alunos.
(00:47:50)
P/1 - Dona Raimundinha, nessa época que a senhora foi pra Fortaleza, que você trabalhava fazendo os bordados pra rendas e confecções, como era o nome?
R - Rendas e Bordados Mundica Paula.
P/1 - Rendas e Bordados. Como é que era o trabalho lá? Era colorido, era branco?
R - Não, era mais era branco, naquela época mais era branco, né? E eu... Como ela gostava mais da costura, então, quando vinham as luzes, ou seja, os vestidos infantis, já vinham bordadinho a gola. Eu fazia só costurar, eu costurava, né? Eu costurava e cortava todas as pernas de linha e ia deixar lá. Mas era só, não tinha o colorido, nem o tecido era colorido. Só a cambraia tinha de branca, rosa, azul, certo?
(00:48:47)
P/1 - E não tinha a renda de bilro nessa época?
R - Não tinha, não. Tinha a renda de bilro, mas não era... Eles não trabalhavam com a renda de bilro. Eles trabalhavam muito com cama e mesa, o xilié. O xilié, que é aquele furadinho, né? Que eu também sei fazer. Então, é... Eles trabalhavam muito no camo e mesa, as toalhas todas abertas no Richelieu. Foi o Richelieu que eu aprendi com minha tia lá em Trairia. Minha tia era bordadeira, ela bordava no batidor. no pedal, ainda máquina pedal, e ela trazia, dessas mulheres que traziam as coxas lá, ainda de bordado, o Indica Paulo, e dava pras pessoas fazerem, de trabalho. Só que ela fumava um cachimbo. Quem fuma cachimbo, depois do almoço, meio-dia, tem que se deitar, repousar um pedacinho. Aí era nessa hora que eu aproveitava que a máquina estava desocupada, que eu ia lá, às vezes errar um pouquinho, mas, entendeu? Foi aí que eu aprendi o rechelier. Aprendi o rechelier nesses intervalos que ela estava deitadinha lá. Eu ia para a máquina dela e aprendi.
(00:50:04)
P/1 - E nessa época, eu tô tentando pensar assim, quando a senhora trabalhava no Rendas e Bordado, você tinha que entregar o que eles pediam?
R - Pedia o que eles traziam pra mim, eles iam entregar o produto já tudo cortadinho, fazia só costurar e fazer o acabamento, né? E ia entregar.
P/1 - E sobrava tempo pra fazer?
R - Sobrava, assim, era pouco tempo, mas sempre tinha uma almofadinha lá na cozinha dando uns trocadinhos, era. Porque ajudava financeiramente, né? Financeiramente, era, isso.
(00:50:41)
P/1 - E daí me conta como é que foi essa ida pra São Paulo, a decisão de...
R - Não, exatamente, eu levei só uma malinha pequena, né, que... Eu trabalhava também pra uma empresa lá no centro de Fortaleza, que ele também me descobriu que ele tinha uma loja de confecção, então ele me dava só o tecido, que era cassio elegante, era um casal de irmãos. Ele me mandava peças e peças de tecido, para mim, aí cortar e costurar. Ele não dava nem... Algumas vezes dava algum modelo, mas ficava tudo por minha conta. Então, eu cortava, costurava, fazia os modelos, levava o modelo para ver se ele aprovava, ele aprovava, aí eu fazia, né? E... Tu não imagina o contentamento quando eu tava lá, quando eu deixava o produto lá, que as pessoas entravam na vitrine dele lá e via aquelas blusas masculinas, femininas, vestidas. Aí achava coisas mais lindas e comprava, porque não encontrava aquele mundo delincente nenhum. Nossa, esse pessoal... Rafa Mariani me queria muito bem, aí quando eu fui... Quando eu fui pra São Paulo, que eu fui dizer pra ele que eu ia passar um mês... Aí eu disse, tá, passar um mês mesmo. Quando eu fui, que depois eu entrei em contato com ele, que eu ia ficar mais um tempo, vixi Maria, eles ficaram... Quebrou minhas pernas! Porque eu quem era costureira da loja dele, fazia os trabalhos dele, sabe?
(00:52:14)
P/1 - E em São Paulo?
R - Em São Paulo eu fiquei lá só talvez umas duas semanas na casa do meu tio. Lá tinha muito essa... chama-se facção. Tem dois sentidos. Facção é da bandidagem. Lá mais tem a facção, que vai na empresa. Uma pessoa que tem uma máquina em casa, numa fábrica de confecção, pega o material, faz de chó, chó, chó, tudo cortado, aí traz para casa pra costurar, aí você ganha um dinheirinho, era pouquinho, de cada peça, então era isso, essa facção. Então, vizinha minha tia tinha, aí eu fui trabalhar. Fui trabalhar lá. Eles gostaram do meu trabalho, que eu dava rendimento e tudo, mas aí depois eu fui no centro, nós passamos lá na Lença de Magalhões, tinha uma placa, precisa de costureira. Aí eu morro com a minha tia. E eu gravava um pouquinho lá. Não pagava transporte, porque era pertinho. Lá não tinha... Como eu me desenvolvi, eu cresci na profissão, né? Aí eu fui lá, me inscrevi. Aí fiz o teste. A dona Lola, que é húngara, ela gostou muito do meu trabalho. Perguntou se eu sabia bordar, seio. E tinha uma nordestina que era... que bordava lá, era a única bordadeira que tinha lá. Só que ela tava se aposentando. Aí ela disse, olha, eu fiz todo o teste, aí gostaram do meu trabalho. Pô, você vai ficar aqui no lugar da... A menina que vai se aposentar, tudo bem. Eles não tinham filhos, eles tinham quase como um filho, era um casal, só a Afonso e a Dona Lula. Eles eram húngaros e trabalhavam com uniforme, com muito trabalho, muita confecção lá, era grande. E eu me adaptei lá. Pronto. Eu não sabia trabalhar na máquina Evelox, só na costura reta. Dominei todas as máquinas, minha filha. Por isso que eles não queriam que eu viesse embora, sabe? Porque eu costurava e dava produção. E eu era muito querida deles, né? Graças a Deus, ela era muito querida. O seu Alfonso, que era um senhor já idoso, ele me chamava de minha filha. A minha filha. Passava lá olhando as coisas. Coisa bem da minha filha. Era assim, né? E eles entenderam a minha deficiência e a minha, posso dizer, inteligência, o meu desenvolvimento. E foi muito bom, muito bom, muito bom mesmo. Graças a Deus!
(00:55:00)
P/1 - Por que ficava saudade daqui?
R - Ah, Pimari, a saudade ficava... Eu vinha todos os anos. Além de... Tinha esse negócio de telefone, era muito mais difícil. Era carta, através de carta, né? Eu levava um irmão. Nós montamos a nossa casa, né? Lá perto, em Leóncio de Magalhões. Aí montamos. Aí, quando o meu irmão adoeceu... Aí ficou dois irmãos lá. Não deu nenhum irmão, então os dois vieram embora. Eu vim embora na frente, depois eles vieram. Eu morava em Edu Chaves, que é o meu tio. Depois que eu arranjei esse trabalho, eu fui morar em Doutor Zunquim, lá no final do metrô. Da linha do metrô, longe aqui só. Depois eu arranjei, eram dois transportes, eu consegui um apartamento na Leôncio de Magalhões, né, em Doutor... Não lembro o nome do bairro. Mas aí ficou mais próximo, né, de eu trabalhar. Eu fazia muita hora extra. Ave Maria! Hora extra, eu tinha que estar lá de lado, porque eu dava produção, né? Doutor Zucchini, doutor Zucchini. O próximo é do Charlles. O parque é do Charles.
(00:56:13)
P/1 - E nessa época, quando você foi a primeira vez, tinha levado a almofada?
R - Eu não levei a almofada, levei só os bilros. Só que foi difícil lá bananeira, né? Lá não tinha. Aí, na Overló, que tem aquele fiapinho que passa fininho, né? Eu enchi uma almofadinha, levei espinha, levei papelão, levei bilro, levei tudo. Só que eu enchi a almofada, fiz a almofada, mas só que com... Como era tecido, quebrava muito de espinho, quebrava muito de espinho. Aí depois, meu tio foi pro interior, a gente tinha uma bananeira, aí ele levou a almofadinha, enchia a almofadinha. E eu fazia lá também. Mas aí, se... E eu levava renda, toda vez que eu vinha, eu levava renda pra vender as minhas amigas, os vestidos, né? As pecinhas de renda. E eu vendia também. Mas minha almofadinha eu tinha sempre. Só que eu não tinha muito tempo pra fazer, mas eu tinha minha almofadinha.
(00:57:07)
P/1 - E como é que é feita a almofada?
R - A almofada, ó, pra se trabalhar a renda de birro, você precisa de oito elementos. Sem esses oito elementos, você não faz a renda de birro. Cinco da natureza e três da indústria. Da natureza, é o coquinho, que é a semente de buriti, né? Ou outra. Tem a haste, que a gente chama de cabo, que é outra planta, né? E tem os espinhos, que nós usamos o espinho do cardeiro, que é da família do mandacaru. O mandacaru é muito grosseiro, né? Danifica o papelão logo. e tem o enchimento, que é a palha da bananeira. Antigamente, a rendeira sentava no chão, com as pernas abertas e a almofada aqui, não tinha essa grade. Então, tinha a rodilha, rodilha é uma roda de capim ou de palha de bananeira, que apoiava a almofada. Aí depois, por alguns anos... Aí depois, aí tinha os cinco. Aí veio a cartolina, que é a industrial, o tecido que faz a almofada e a linha. Com esses outros elementos, não se faz a renda de birra. E hoje a gente já usa essa grade aqui porque aí vem uma dozinha na cor, a gente tá ficando nova, aí vem a dozinha e aqui fica mais apoiado. Então é isso, gente. É a renda de birra. Ah, Maria, é bom demais.
(00:58:38)
P/1 - Em qual momento que ela começa a se tornar colorida?
R - Só era branca, mesmo na linha grossa. Mesmo na linha grossa era branca, só se fazia branca. A renda de birro, como eu falei no início, a utilidade da renda de bilro era fazer umas falas para colocar nas camisolas, para o enxoval das noivas. E os bicos em estreito para o enxoval dos bebês. E as rendas mais largas, os bicos para as anáguas. As anáguas, que era o saiote, a peça do meio. que se usava antigamente. Então, depois, agora, precisamente, quem foi que fez a primeira peça colorida, eu nem sei quem foi que fez o design, eu sei que quando eu cheguei de São Paulo já usava o colorido. Aí o colorido pegou. Só que o colorido era pra fazer somente saída de praia. Só renda mais graúda e tu faz saída de praia. Aí depois a gente começou a fazer um desenho mais fechado pra blusa, pra short, pra calça e pegou, pronto. Aí a gente faz no colorido, faz de todas as cores que for possível, como vocês estão vendo ali.
(01:00:04)
P/1 - E quando a senhora voltou, que começou, que pegou a moda do colorido, já tinha esses modelos de roupa ou não?
R - Não tinha, somente fazia saída de praia, no máximo uma blusinha, as camisetas, camisetas que se usava mais, as camisetas ou regatas, como se chama hoje, que são as camisetas, né? Então, assim, as blusinhas assim. Depois foi que eu comecei, porque você sabe que no grupo, esse aqui, Fazendo Minha Renda, eu desenvolvo três habilidades. Aliás, até mais. Eu sou a design, a estilista, a modelista, a costureira e a rendeira. Cinco, né? E o meu trabalho aqui, eu desenvolvo em três prismas. As minhas potencialidade, possibilidade e os meus limites. E aí surgiu, né? Eu tinha aquelas ideias que é short, um short. Por que surgiu o short? Se você observar, é uma moda que cada dia mais aumenta, que as mulheres usam. Nem só os homens, como as mulheres, né? Muito short. Aí eu desenvolvi a coleção de short. E aqui são os croppeds, as túnicas, né? As túnicas. Deixa eu lhe mostrar aqui mais ou menos como é uma saída de praia. A saída de praia, você tá vendo que é renda. Mas é uma coisa assim, mais aberta, né? Já para um vestido, você vê que ele é mais fechado. Pode ser com saída de praia também. Mas dá mais uma elegância para ser um vestido. E eu gosto muito das coisas naturais. Não sei se vocês já perceberam que aqui é uma ripa, né? Eu gosto muito de fazer as minhas coisas assim. E veio aí depois, tipo, por que não fazer o acessório, o colar? E fiz o colar, os brincos, as tiaras e agora que é a última moda, que as mulheres estão usando, como é que chama pro cabelo?
(01:02:43)
P/1 - Um lenço, bandana.
R - Bandana, e o lenço tá aí que amarra aqui, as bandanas. A última foi que eu vendi em Salvador, a última vez que eu fui agora, em dezembro, vendi bastante, foi essas bandanas, tá aí elas, né? Então, a gente tem sempre, nos dias de hoje, eu tenho na consciência que nos dias de hoje, você tem que inovar e diversificar. Porque com essa nova tecnologia, se você não procurar chegar mais ou menos próximo, você fica para trás. E não vende. Né? Não vende. Se eu tenho essa peça para vender, você compra. Da outra vez, você não quer comprar mais essa. O que você já tem, você tem que comprar um modelo novo. Diferente. E as sandálias, as mesmas coisas lá, as sandálias. O cinto e os cachecóis.
(01:03:39)
P/1 - E como é que foi essa história de se juntar com outras mulheres e de montar a associação?
R - Quando eu cheguei aqui, eu vi as dificuldades. A gente já tinha as dificuldades, mas como eu tinha endereçado para o outro caminho, que era costurar, bordar essas coisas, ser professora. Aí quando eu cheguei em São Paulo, cheguei aqui, eu vi as situações das rendeiras. Sempre a mamãe ajudava ela. Comprava uma pecinha dela pra juntar com as nossas pra mandar pra vender. Mas a mamãe já não mais fazia isso porque ela tava adoentada. Então, quando eu cheguei, eu via as rendeiras, a situação delas. Elas compravam um novelo de linha. Nessa época não era novelo, era miada. Faziam uma blusinha dessa, que leva aproximadamente 15 dias. Ia pra Canaã de pé, vender lá uma atravessadora. Até uma atravessadora lá. Chegava lá, a mulher botava um preço. O preço era tão baixo que não dava pra ela comprar outro novelo pra produzir uma outra peça. Aí eu cheguei aqui e vi essa situação. Aí aqui comigo, eu tenho que fazer... fazer alguma coisa. Aí eu comecei a fazer a escola também. No mesmo período da escola, eu tirava um espaço nas reuniões de pais e mestres para falar da nossa cultura. Então, eu perguntei se alguma... se interessava pra gente fazer um projeto, pra gente trabalhar em grupo. Eu expliquei tudo o que era... Nessa época, eu já tinha feito muitos cursos pelo Sebrae, associativismo, empreendedorismo e tal. E eu... Porque aquilo que eu aprendo, eu não engulo, não. Eu tenho que botar pra fora. Eu tenho que repassar pra alguém. Entendeu? Então... Aí eu comecei a fazer as perguntas, quanto dia e tal. Mesmo eu sabendo, mas eu tinha que fazer esse diagnóstico. E eu fiz e ela foi... Eu vendi por tanto. Foi mesmo. Eu dividia, saiu o quê? Menos de 50 centavos o dia da rendeira. Porque uma rendeira, sempre a rendeira é dona de casa. Então, nós não trabalhamos com o máximo nem com o mínimo. Nós trabalhamos com a média. E a média de uma rendeira trabalhar diariamente só são quatro horas. Porque ela é dona de casa e só na parte da tarde. Aí eu fui lançar esse desafio. Se elas aceitaram, tudo bem. Só como é que nós íamos trabalhar se nós não tínhamos dinheiro, nem eu nem ela de dinheiro pra comprar a linha? Pois, eu dei a ideia, né? E automaticamente foi um desafio. Cada rendeira ia fazer uma peça por conta dela, com a linha dela, a camiseta, uma camiseta que era mais... que eu ia pro mercado, eu levava pro mercado central e o lucro nós pagava a mão de obra dela, né? E o lucro a gente ia comprar a linha pra gente conseguir mais trabalho. Aí, nós éramos doze mulheres, quando eu iniciei. Só que umas quatro não aceitou, ficamos só oito. Achava que eu não entendia ainda como que era trabalhar o coletivo? Achava que eu ia, entendeu? Não, tudo bem, só oito. E aí eu falei pra elas que a gente ia fazer um projetinho, pra gente correr atrás aí das empresas, Foi em 2012. E que a gente ia trabalhar e elas me entregavam o produto. As linhas que a gente tinha comprado, elas iam fazê-las e me entregavam o produto. E a gente se juntava e ia discutir o quanto foi que a gente gastou, porque ela não tinha ideia do que gastou. Ela não botava papel, ela não botava nada, porque ela não ganhava nada. A gente ia fazer isso. e ia aumentar o preço. E uma das coisas, tirar o atravessador nocivo do nosso meio. Porque tem dois tipos de atravessador. Até o governo do estado é atravessador. Todo mundo tem essa noção de atravessador. Quem é que compra pra perder? E graças a Deus que nós tiramos. Porque tinha essa mulher que comprava, chegava aqui, eu dou tanto. mas a coitada não sabia, hoje ela sabe. Hoje nós já temos, fizemos um projeto para a Teórica 2016, ganhamos, e na época foi 20 mil reais, compramos matéria-prima, estocamos e começamos a trabalhar. Compramos tudo, até bio a gente comprou. Começamos a trabalhar, E foi dando certo, né? Aí foi o tempo que eu conheci essa arte. Aí essa arte começou a... a nos capacitar também e a comprar o nosso produto. Aí eu fui ficando conhecida nos grandes eventos. Nas minhas viagens que eu ia pra fora, eu levo... Aí, minha filha, pra onde eu vou? Onde eu levo minha mão fora da sacolinha de renda? Bó, lá, lá, lá. Não quer nem saber, né? Então, foi assim. E até hoje, graças a Deus, dando certo. Em 1992, Gente, na vida nós somos professor, médico e louco, de tudo somos um pouco, né? Eu fui agente de pastoral da Diócese de Itapipoca. Agente de pastoral. Não tinha a Diócese de Canaã, nem de Mundaú. E eu sempre fui catequista. Minha mãe é catequista e eu também. Então, do mais avançado. Eu ia fazer reunião na Canaã. E lá, dentro da Canaã, nós íamos pra Itapipoca. Na Itapipoca, eu fui escolhida pra ir a um congresso em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, das SEBs. Sêbes, que é a Comunidade Eclesial de base, que foi extinta. Aí eu fui pra Santa Maria, em 1992. Foi tudo pago por eles, de onde fomos, de onde. Mas levei a minha almofadinha pequena, levei... Era de religião, mas eu levei a minha rendinha. E num determinado momento tinham os intervalos. Me sentei bem lá no chão com a minha rendinha e comecei a trabalhar. Começou e botei as pecinhas aqui até no chão, porque não tinha onde botar em cima da almofada. Eu levei poucas peças. Foi uma admiração danada eu fazendo aqui. Ave Maria! Vendi tudo. Graças a Deus. Era uma... Porque as feiras que a gente vai, ela tem duas intenções. Não é só vender, não. A primeira é expor, mostrar o produto. O segundo que é pra vender, claro, né? Então, tem muitas histórias de dar renda de bilro eu andava por aí. Então, aí surgiu o grupo. Aí as outras foi vendo que tava dando certo, aí foi querendo também entrar. E hoje nós temos 35 rendeiros, né? Apesar de a produção já caiu 40%, porque antes elas faziam a renda por necessidade. Hoje é por prioridade. Porque elas tinham necessidade de comprar um lápis pro filho, um pedaço de sabão, uma caixa de força. Hoje não. Hoje tem família que tá ganhando salário mínimo dos projetos sociais, né? O que tá na barriga, 150. Mais dois, 150. 600 e demais. Tem um vale gás e tem um vale alimentação no valor de 300 reais. E tem um filho de maior que ganha também. E tem um companheiro que hoje não são casados, chega lá e diz que é separado. Vai trabalhar pra quê, minha filha? Ainda tem mais o pé de meia, né? Esse grupo, ele é, graças a Deus, que a gente... Só que eu tenho que fazer um jeitinho pra continuar. Nas festas das mães do ano novo, eu compro uma lembrancinha pra elas, fico tão satisfeita, porque nunca fizeram isso. Por que vou tirar do meu bolso? Não. Eu vou pra uma feira que só tá eu de renda. Só eu que tô de rendeira. e produto pra vender. É lá que eu vou me fazer, lá eu aumento o preço, que só eu. Tudo isso a gente aprende na vida. Agora, se eu vou pra Fenacce, que tem mais de 20 rendeiras, todo Ceará, eu não posso. Tem que ser mais. Aí, esse dia em que é a mais que eu vindo, a gente vai botando ali de lado, que é pra comprar lembrancinha dela. E a primeira coisa que a gente faz, que quando a gente vende uma peça, é tirar o dinheiro da linha pra comprar outra novela pra dar continuidade ao trabalho.
(01:12:45)
P/1 - E a senhora acha que tem visibilidade a renda de bilro? Antes se tinha e se agora tem mais ou menos?
R - É, agora ela ultimamente, eu tô sentindo que ela tá aumentando mais essa visibilidade. Por quê? Quando a gente vai para esses eventos, somente eu nas palestras que eu dou e nas exposições, eu falo muito da renda de bico. E outra coisa, tem esses, os planos da cultura do Paulo Gustavo, do Aldir Blanc, que tudo é direcionado à cultura, não é pouco não, não é pouco não, entendeu? Então, eles estão vendo, já estou sentindo que eles estão vendo que há muitas das culturas tradicionais, porque nem toda cultura que tem hoje em dia não é tradicional, não é. Porque no Ceará, as duas culturas mais antigas tradicionais é o labirinto e a renda de birra. Pois é, então essas duas culturas mais antigas que... Alguém lá tá sentindo que ela não tá tendo mais aquela divisibilidade, como antes, né? A renda de bilro e o labirinto. Por quê? Porque a nossa rendeira não quer mais produzir como antigamente produzia. Mas não é só a renda de bilro, não. É, aliás, quase que todas as técnicas culturais, manuais. A única que é mais aberta e mais livre de fazer é o crochê, porque onde vai, você leva o crochê na sua bolsinha e vai fazer uma renda de bilro, vai sair com ela na cabeça, na almofada, né? Então, menos que tenha outras, né? Então é isso, gente. E a tecelagem também é uma coisa que é muito antiga. É uma coisa que nós estamos fazendo, é a customização de duas técnicas juntos. Nós estamos trabalhando a renda aplicada na tecelagem, né? Como acho que vocês já até viram ali, tem. E a renda com o bordado. Tudo são técnicas antigas, né? Que a gente faz o casamento das duas e tá dando certo. E fica diferente, né?
(01:15:19)
P/1 - E em que momento que a senhora se torna mestre?
R - É, mestre em 2020, 2010. Então, eu tinha um secretário, secretário de Cultura do Trairi que é professor, muito meu amigo. Aí, a lei dos mestres veio em dois mil e seis, né? Então, ele falou pra mim que a menina estava vendo umas inscrições pro Mestre da Cultura. E você é uma menina tão ótima. Eu ia pra reunião no Trairi onde eu ia, a Feira Arte. A FeirArte, ela tá na 65ª, parece, e eu tô desde a 1ª. Tô da 1ª indo, 1ª todos os meses, lá na FeirArte, na Praça Luís da Távora, só que agora é duas vezes por ano, uma em Fortaleza e outra em Juazeiro. Então, eu vou e divulgo onde eu vou. Uma peça, uma bolsa, eu uso, né? Uma tiara, alguma coisa, eu divulgava esse trabalho da renda de B1. Aí ele disse: “Ah medida que tu é tão ativa, tu se inscreve”. Eu fui lá me inscrever, ele foi e disse: “Pôe, põe, me dá o seu documento que eu vou lhe inscrever”. E nessa época não tinha edital não, era só indicação e tudo. E pouca gente escrevia, não tinha noção do que era isso. E eu me inscrevi e fui chamada. Por muitos anos eu fui a única no estado do Ceará. Única. Hoje já tem três, né? Tem uma na Quiralha e tem no Eusébio. A Francisca e a... Então, eu fiquei. Quando foi 2011, foi a diplomação, né? Porque o mundo todo tem a diplomação. Em 2011, fui diplomada. Em 2016, também recebi outra certificação, outra diplomação pela UES, Estado, que foi Notório Saber da Renda de Bilro. E daí eu participo de todos os eventos que são o Anquet Anual, que é o Mestre do Mundo, esse ano passado aconteceu em Quixadá. minha almofada e a minha exposição, porque tinha uma feirinha lá também. Eu vou, vai de lado também, né? E é assim. Eu já viajei pra vários estados, tanto pelo SEBRAE, pela SEAT, pelo SESC e pela cooperativa. Nós tínhamos uma cooperativa lá em Trairi, que eu fui lá pra Curitiba também, através da cooperativa. Porque o artesanato, gente, ele é... ele pode andar paralelo com a agricultura familiar. Aí foi isso daí. Brasília veio duas vezes, eu participei, veio umas três, veio do salão de artesanato, Mão de Minas. Só que essas feiras são muitos dias, elas são muito cansativas. Mão de Minas são dez dias. Você fica doze dias fora de casa, só que agora é diminuído, parece que agora só é seis. Mão de Minas. O Centro de Eventos de Cultura, também de eventos lá no Trairi, que é a Fenasce também. Então, gente, é isso. E eu defendo essa arte. Quando os administratores de Trairi, os prefeitos de Trairi, anterior a esse que está aí, eles valorizavam muito a nossa renda de bico, a primeira dama. nos ajudava, teve que haver capacitação e tudo, mas nesse que está aí, já está no segundo mandato, sabe nem se eu existo. Tudo bem, é por isso que eu vou cruzar os braços. Mas o secretário de Cultura do município, até o ano passado, ele não está mais não. Ele é um professor e também é da arte, né? E ele Colocou lá uma lei e tudo para certificar alguns mestres do município que já tem. E eu novamente fui certificada como tesouro vivo do município. E o município do Trari é o único município do Nordeste, do meu conhecimento, que tem cinco referências culturais na renda de bilro. Tem uma mestra, tesouro vivo, tem o Notório Saber, tem o dia da Rendeira, que é o dia 22 de novembro, dia do município, tem a mestra do município, certo? E tem a lei que é a terra da renda de bilro, com a lei 14.696 de 2010, sancionada pelo governo do estado. Por que isso aconteceu? Porque na época era doutor Jaime, prefeito, e foi feita uma pesquisa no município de Trairi, entre 2008 e 2009, mais ou menos, que Trairi Tinha mais de 5 mil rendeiras. Trairi possuía mais de 5 mil rendeiras. Essa pesquisa foi domiciliar. E tinha mesmo, podem chegar na minha casa, nós éramos quatro, três mulheres, nós três filhas e a minha mãe. Tudo fazendo renda, né? E Trairi tinha tudo. Ele tinha não, tem tudo pra hoje ter o seu município muito conhecido. E dando valor a essa arte, mas infelizmente, né? Mas a gente toca o barco pra frente e vamos aí, né?
(01:21:15)
P/1 - Por isso que é importante repassar, né?
R - Exatamente. Eu vou falar, ó, sonhos. A gente não só sonha dormindo, não. Sonha acordado. E os sonhos acordados são planejados e a gente quer que realizem. E esse ano, 2026, eu tenho uns planos, não sei ainda qual é o mês, de abrir e fundar a Escola dos Vivos, que é para alunos a partir de 8 anos, até 12. E tem um projeto que eu vou entregar, se Deus quiser, logo na Secretaria de Proteção Social, para os jovens. E outro curso, esse do jovem, eu quero entregar lá na Assembleia, na Assembleia do Jovem, que tem um programa lá, e para as rendeiras também, porque, é como eu falei, Qualquer técnica, no seu trabalho, você tem que estar se revitalizando, se renovando, né? Então a gente precisa passar as novas técnicas, como é a renda de bilro que a gente tem. Ah, mas é... Eu vou cortar os bios bem aqui pra depois começar de novo. Era isso antes, hoje não é mais. Hoje já ensinei pra eles que não precisa mais cortar. É só encostar aqui o papelãozinho aqui, daqui já passa pra cá. Facilita. E elas ganham tempo. Como ganham tempo? Daqui que ela corta, depois ela vai emendar e vai começar de novo, ela já tem passado alguns minutos. Então, são esses cursos, essas capacitações que a gente repassa para o nosso grupo. E eu quero falar para vocês que nós já éramos três grupos, esse projeto da eólica. Dois, acabou. Só está o nosso. Por quê? Porque a gente precisa ter perseverança e foco naquilo que você pretende fazer. E eu não trabalho só. Tem uma equipe, tem uma vendedora, todo mundo trabalha junto, né?
(01:23:14)
P/1 - Eu queria saber se a senhora sabe quantas pessoas a senhora ensinou.
R - Ah, já foram muitas, já. Nesse mesmo grupo de rendeiras, já tem algumas rendeiras que... Sabiam fazer só aquele biquíni. Hoje não, hoje elas já sabem. Nem costurar renda, nem... A gente chama assentar, é começar. Nem assentar renda, elas sabiam. Hoje elas já dominam. Hoje elas já sabem costurar uma peça. Entendeu? Tudo isso é ensinamento. Controlar as cores, né? Controlar as cores, tudo isso. Não é pra fazer. Arredebido não se faz por fazer. Assim, a gente tem que ter atenção no que você tá fazendo e o que você vai fazer.
P/1 - E eu queria saber como que a Engie ajudou. A senhora tava falando...
R - Falou. A Engie nos ajudou muito. É muito interessante, eu sempre sou uma pessoa que gosta de fazer amizade e conservar essas amizades. Eu vou fazer esse projeto, que era um projeto que na época, em 2016, 160... Não era bem a Engie, era outra empresa, a Trectabel, lá de Floripa, Santa Catarina. Porque vem uma empresa, faz o primeiro passo, vai embora e fica a outra. Não é assim, né, as empresas? Então... veio esse dinheiro. Tinha três associações, sem rendê-la, mas tinha que ter um proponente. O proponente foi a Tecã. Que a Tecã foi o cabeça, quem recebeu, né? Nós éramos os alunos. Só que houve os desentimentos, não sei o que foi que aconteceu. Não deu certo. não deu certo e não pagaram a gente as peças que a gente fez, aí eu fiquei muito triste, a azendeira me cobrando, eu tive que pagar no meu bolso as peças que elas tinham feito de monstruário pra lá. Só que eu sei fazer projeto, não sei, não há mais escrita aqui, eu sei, eu fiz o projeto. Eu fui entregar. Eu mesmo lá deixei, lá no Estrelé hoje. Mas, por sorte, que sorte, que eu agradeço até hoje. Estava os presidentes, um encontro dos presidentes, dos grandes, do diretor de Floripa, dos lá, né? Lá. E não é que no mesmo dia eles leram lá, a Bid foi pequena, leram o projeto e assinaram no mesmo dia. Ave Maria, foi uma alegria muito grande. Aí com pouco tempo depositaram, comprei logo o material, fiz tudo. Também trabalhei, tinha o Jovem, trabalhei com o Jovem, né? Com o Jovem em pintura. Pintura foi com o Jovem, porque tinha uns rapazinhos, umas mocinhas e... Prestei conta tudo direitinho, prestei tudo conta, foi aprovada a conta, tudo direitinho. E quando sempre vinha o pessoal visitar as mulheres do pessoal que ficava aqui trabalhando, eu tenho um amigo lá, que é o Clécio, ele trouxe eles aqui pra visitar, eles foram pra visitar e tal, que eu mandava as fotos e tudo, aí acharam bonito esse trabalho. Lá em Santa Catarina tem também, mas só que lá é diferente, cada região é a mesma. Mas o seu estilo é o mudo, né? Muda. Aí, vixe-maria, ficaram assim, muito contentes. E... nos compraram. Só suplar, dá pra ver, foi 150 suplar. Mandaram pra lá, eles mesmo levaram. Depois, no final do ano, foi repassando de um pra outro. No final do ano, normal, contente da gente. No final do ano, a empresa... A empresa ia fazer uma festa lá de confraternização no final do ano. Aí me encomendaram suplar, 90 suplar pra mesa. Aí eles mandaram. Eu falei, espera aí, não sei nem onde ainda tem. Mandaram a mulher que comprou. Vem aqui. Vem comprar aqui na minha casa. Escolheu o que eles quiseram e comprou, pagou. E no dia da festa lá, ela mandou. É como foi arrumada as mesas. Tudo em Ticanacá o seu sousplat para 90 pessoas. E no final, cada convidado levou o seu suplá de presente. Aí ela vai e manda o vídeo e fala para mim. Raimundinha, hoje, tem 90 casas com a peça de você. Ela pensou, que alegria, né? E eu repasso pra rendeira, pra ela ficar, né? Mostro lá, mostrei o vídeo pra ela, pra Dudinho dizer isso. E o Clécio sempre tá mandando uma pessoa aqui, tá vindo, vai ter maior consideração com a gente. E eles trouxeram pessoal aí pra nos visitar, o ano passado. Aí, olhou tudo direitinho, eles ficaram daqui muito contentes, porque eles viram, porque toda empresa quer o crescimento, né? Viram que o nosso produto de 20 mil já tava em 50 mil ou mais, né? Tava crescendo, nós não tínhamos. Entendeu? Porque foi um planejamento, nós tivemos um foco, planejamento, tudo uma dedicação, trabalhar com os pés no chão. Por isso que eu digo, eu não... Não sou inimiga, mas também não gosto das pessoas que são exibidas. Gosto mesmo do natural. Sou uma pessoa que sou natural. Então, tem uma pessoa que diz que é uma menina formada. Uma pessoa diz pra mim. Tá formada e vive batendo o bico desse jeito. Chegou a dizer isso pra minha filha. Aqui é uma arte. Você sabe fazer? Eu não, pois eu sei. E eu sou professora nisso aqui também. Entendeu? Tem gente, né? Essas coisas, eu sou uma pessoa que eu... Eu sou humilde, quero ser humilde e faço o meu trabalho, faço daquilo que eu gosto, que eu me realizo fazer, né? E vamos tocar a vida pra frente, né? E ensinei as minhas meninas todinha até. A Wok tem oito anos que tá comigo, tá lá embaixo com a mãe. Tem a almofadinha lá na cozinha pra me fazer. Eu tenho minha oficina lá, minha costura de eu trabalhar. E o barco tá seguindo.
(01:29:32)
P/1 - Era isso que eu ia perguntar, se dos filhos da senhora alguém sabe.
R - Todas elas sabem fazer, só que essas daí, todas elas sabem. Estou repassando até para as netas. Só que elas têm outra profissão, porque hoje, como eu falei para você, hoje elas têm umas prioridades, né? Então, aqui não dá para comprar as prioridades, um celular, pagar internet, uma roupinha, um tênis, uma coisa melhor, né? Então, mas elas fazem, mas fazem para o fazer, né? Mas que, quando elas eram pequenas, elas faziam. Mas aí depois que elas ficam adultas, aí tem uma mãe agente de saúde, outra trabalha, então... Mas sabe fazer, todas elas sabem.
(01:30:13)
P/1 - E me conta como é que essa história, que a senhora quer montar um museu aqui.
R - Pois sim, é o seguinte. Dizem que tem até verba pra isso aí, mas eu não fui atrás não. o museu, porque eu já tenho muito acervo. Então, eu recebo muitas visitas de alunos de escola que vêm visitar e que têm interesse de conhecer um pouco a minha história, os meus trabalhos. Então, eu quero montar aqui um museu orgânico, que eu já tenho muitas coisas aí que eu já vou começar a colocar aí. Para quando eles chegarem e visitarem o museu da da Mestre Raimundinha, da Renda de Bilro, certo? Porque ele ainda não foi, acho que tá em processo ainda a Renda de Bilro ser um patrimônio imortal, né? Imaterial, é, imaterial, desculpa. Pra... da Renda de Bilro. E no museu aqui eu quero mostrar como iniciou, que vai ter... vai ter desde a... que eu tô me preparando aos poucos. A renda de bilro, quando começou, o dentinho de cão, o dente de leite, que era chamado os biquinhos, quando a gente aprendia, bem estreitinho, com poucos bicos. E as peças, até as peças atuais. Até as atuais. E por que é importante se fazer a renda de bio? Muitas vendeiras, eu digo para elas, não é só fazer a renda de bio por fazer, porque aqui, Você trabalha muita coisa. Você desenvolve o seu corpo muita coisa. O físico, o mental, o emocional, o intelectual e o espiritual. Toda rendeira canta e reza batendo seus bilrinhos. Certo? Então, e a renda? Eu sou a mulher rendeira Não queiram duvidar Venham conhecer o meu trabalho É só se aproximar Venham conhecer o meu trabalho É só se aproximar Estava em Brasília e... Tava lá num cantinho, porque quando a gente vai pelo governo do estado, é muitos rendeiros, muitos artesãos. Só aquele cantinho, como seja isso aqui, né? Eu tava lá bem escondidinha, era cinco dias de feira, o terceiro dia eu não tinha vendido nada. Chegou o pessoal do PAB, o Programa de Artesanato Brasileiro, e perguntou: “Como é que estão as vendas e tudo?” Eu falei: “Ó, muito pouco. O terceiro dia eu não vendi praticamente nada.” “Mas também você tá num cantinho assim, é, tudo bem. Você quer ir lá pra frente, mas... mais atraente, lá onde passa mais.” “Eu quero, mas eu vim onde buscar. No outro dia ela foi me pegar, botou as mesas assim bem, porque nesse centro, quando tem essa feira, é rua, né? A gente estando pra cá, a gente estando pra cá, ela me botou, fui aqui no meio da casa. Então o pessoal passava pra lá, passava pra cá, não tava nem aí pra me olhar. Eu botei a almofada, a mesa, contou de nada. Aí me deu aquele... Comecei:
Eu sou a mulher rendeira
Não queiram duvidar
Venham conhecer o meu trabalho
É só se aproximar
Venham conhecer o meu trabalho
É só se aproximar
Aí começou aquele pingadinho, tirando foto e tudo.
Aprendi a fazer a renda com sete anos de idade
Numa almofada bem pequena
Aprimorando a minha arte.
Numa almofada bem pequena
Aprimorando a minha arte.
Renda de bilro ou de almofada
Como você queira chamar
É a cultura mais antiga do nosso Ceará
É a cultura mais antiga do nosso Ceará
Sou mestra da cultura
Reconhecida pelo Estado
Defendendo a minha arte
Pra que ela nunca se acabe
Menina, que pessoa! Enquanto é, a minha menina já tava vendendo e tudo. Ela só ia...
Eu sou a mulher rendeira e vim de Trairi
Trazendo nossos produtos
Para vocês comprarem aqui
Trazendo nossos produtos
Para vocês comprarem aqui
Minha filha, no final, vendia até almofada. E tem muitas outras histórias. Tem as histórias boas, outras de perigo e tudo, mas a gente... É a vida, né? Por exemplo, aconteceu lá uma coisa muito desagradável. Não, não aconteceu, mas era possível ter acontecido. No último dia de feira, todos, todos tinham que tirar, até 11h, 12h, tinham que tirar todas as coisas, porque a empresa começa a desmontar os estandes, né? Eu arrumei minhas coisas, uma amiga minha que também estava, uma amiga minha que está aí, que está de jeito comigo, do motorrendo dele, lá de Mundaú, e arrumou tudo. Aí só tinha as escadas, A escada rolante, né, para gente descer. Não tinha mais os elevadores, só a escada rolante. Aí eu botei, eu com duas muletas, botei a minha acompanhante com uma mala e eu com a outra. Aí arrumei ela no degrau da escada rolante e ela veio descer direitinho, direitinho. E eu peguei a outra muleta, segurei aqui no corrimão e já desceu com pouca, não tava uma escada rolante bem grande, eu não tava no meio da escada com... Dei pra trás. Essa minha amiga soltou a mala dela de qualquer jeito, lá se vinha a mala na minha direção, a mala grande, pesada, sabe? Rolando os degraus. E vai lá, meu Deus, e aí as minas lá embaixo... Quando eu olhei lá pra baixo, tava de uma amposta e outra. Meu Deus, ia acabar com a minha. E quando eu vi que a mala ia me pegar aqui, ia me derrubar com a força, ia me derrubar com tudo, né? Aí, Deus me iluminou. Eu peguei uma muleta, não sei como foi que eu segurei, duas muletas e o corrimão ao mesmo tempo. Quando a mala veio chegando, eu consegui pegar a mala, senão ela tinha... Minha filha e as meninas: “Ai, mãezinha, graças a Deus que tu teve essa ideia.” Porque era uma mala grande e pesada. Ela vindo uma vez, né? Ela dá um toque, rolando e cai lá embaixo. Entendeu? Mas é assim mesmo, né? São as coisas da vida. Nem tudo na vida é só vitória. Vitórias e também aquelas que a gente precisa parar pra pensar e levar adiante.
(01:37:23)
P/1 - Dona Raimundinha, e como é que veio essa história do cordel?
R - Toda a vida eu gostei de fazer verso. Em... Não me lembro, 1979, 1992 eu andava, essa perna não ficava só as pontas do dedo em pé. porque eu não firmava no chão, né? Aí, eu trabalhava com a renda desbordada do Munique Paulo, aí o chefe lá disse, olha, você vai pagar o INSS, você quer pagar o INSS, como é que chama? Tinha de carteira assinada, como esse outro nome, avulso não, mas eu meio que sei de avulso, né? Autônomo, autônomo. Um carnezinho, tu não é, eu quero. Aí a minha tia trabalha as nozes pra levar, nozes pra gerar, Aí me levou para o doutor Rogério, não me lembro o nome dele, para uma consulta. Eu andava, eu segurava, eu não dava muleta não, eu segurava essa perna, e essa perna vinha só vermelha da força que eu fazia, né? Aí comecei a pagar o INSS, e ela marcou uma consulta, aí o doutor disse que eu não ia ficar boa, que a perninha era fina, mas eu ia melhorar, tinha uma possibilidade de eu melhorar, que fizesse a cirurgia, que a minha perninha não ia estirar, ia estirar. Um pouco. Aí tudo bem. Minha filha, eu enfrentei essa cirurgia. Nem a minha mãe e meu pai souberam. Porque o meu pai e minha mãe é daquele pessoal que: “Não, tu vai ficar com a mão mais doente”. Aí eu já sabia como era. Me internei lá e paguei o inército direitinho e fiz a cirurgia. Passei seis meses engessada. Aí, nesses seis meses que eu fiquei engessada, me deram um lápis e uma caneta e ia surgindo. Tinha um programa na rádio, na Rádio Assunção, né? E eu mandava, mandava os versinhos. Eu ficava tão feliz quando o cara lia lá. É um rima mesmo, um de quatro versos, né? Rima. E aqui na, na, na... na almofada comecei bem. Eu vou fazer um cordel. Eu vou fazer um cordel da, da renda. Aí comecei, eu não sei, mais ou menos, na história, né? Aí eu comecei a fazer a historiezinha aqui. Tu já leu, não já? Não? Você não entenda não, menina. Então é o cordelzinho da Renda de Bilro. Aqui tem a minha apresentação. Tem uma coisa aqui, tem um pensamento meu, que esse pensamento eu escrevi quando eu fazia faculdade, no Trairi. Tinha um ônibus que pegava nós aqui, só ia pegando as alunas, ia pelo Mundaú, pela Embuá, que ia pro Trairi. E eu dentro do ônibus passava pelo Umou, Aí me deu aquela ideia que eu sempre tenho um lápis, uma caneta e um papel na mão, aí escrevi alguma coisa. E eu, hoje não, mas eu fui muito discriminada, muito mesmo, muito mesmo. pela minha deficiência e por eu ser essa pessoa assim, força de conversar, entendeu? Expor minhas ideias, esse meu entendimento, tudo bem. Aí eu escrevi esse pensamento. Somos todos iguais. Somos todos iguais. O que nos faz diferente são as nossas peculiaridades. E aqui tem Railup Arte, que é o meu codinome, e tem a renda de bilro. A renda de bilro é um produto feito à mão. Vou falar um pouco dela, podem prestar atenção. Chegou aqui no Brasil pelos primeiros colonizadores. Portugueses eram o povo que no litoral habitou. Somente as mulheres teciam com muito gosto, depois dos afazeres domésticos, principalmente após o almoço. Fazia o renda em metro. Dez metros era uma peça, o bico, e a renda, uma aparelha completa. E por final aí, ia falando, fala aqui, são vários assim, vou dar um pra vocês. E no final diz assim, trairi, É abençoado com três referências culturais que nos saem mais fortes na renda de bilho, pessoal. Nessa época só tinha três. Trairia uma cidade turística, com praia, sol e vento. Não vamos deixar sumir a nossa renda com o tempo. Vamos avante, pessoal. A cultura da renda cuidar, pra não deixar acabar e na lembrança lembrar. Esse daqui é a mesma coisa, só que mudou o saco, mas o conteúdo é o mesmo, viu? Pois é, gente. Então, eu fui fazer uma apresentação, uma palestra, e eu levei. Ave Maria, foi um sucesso. E outra coisa, eu não faço nada disso na hora. Porque eu tenho as ideias, depois daqui eu junto. Eu quero dizer pra vocês, eu não sou poetisa, nem tampouco cordalista. Os versos que faço são somente oportunistas. Quando eu tenho uma oportunidade, eu vou juntando e vou fazendo os acima.
(01:43:05)
P/1 - E o que é importante pra senhora?
R - Importante? A minha vida. Eu creio em Deus e eu sei essa pessoa que estou. Pois é, então eu sou essa pessoa. O mais importante nessa vida é a minha vida. De ter feito o que eu faço hoje. E a confiança E a fé que eu tenho naquele lá de cima, que ele é... Alguém poderia me perguntar, o que é Deus pra você? Eu resumo Deus em duas palavras, o meu protetor e o meu provedor.
(01:44:00)
P/1 - Tem alguma coisa que eu não tenha te perguntado que a senhora queira contar?
R - Não, acho que você perguntou muita coisa. Só se sugerir alguma ideia aí.
P/1 - Tem alguma mensagem que a senhora queira passar?
R - Só que cada um seja você mesma. Como eu falei naquele meu pensamento, nós somos iguais no todo. O que nos faz diferentes são as nossas peculiaridades. Eu tenho uma peculiaridade e você tem uma outra. Ou você tem a mesma, mas diferente, porque nós não somos iguais. Nós somos seres humanos, mas com tudo. Eu vejo, você vê, mas cada um com a sua peculiaridade. Com a sua noção de vida. com o seu eu.
(01:44:53)
P/1 - E como é que foi contar um pouco dessa história hoje para o museu?
R - Ah, minha filha, foi... É muito bom a gente reviver, porque quando a gente conta uma segunda vez, aquele que a gente ou uma ou mais de uma vez que você viveu, você tá recordando aquilo que você passou. Sejam os momentos bons e difíceis, porque a vida é composta de momentos bons e difíceis, né? E isso é muito importante porque a gente, além da gente lembrar, a gente reviver aquele momento, a gente tem saudade, a gente ri, a gente se emociona, né? E é isso.
(01:45:39)
P/1 - Dona Raimundinha, eu queria agradecer muito o nome, o meu nome, o nome de Saulo, do Museu da Pessoa. Muito obrigada por isso.
R - É, eu sou grata muito por vocês terem essa paciência de sentar aí e me ouvir, porque falando não só de mim, mas do meu trabalho da renda, minha filha, eu fico assim, né, cada vez mais querendo mais, falar mais, porque é o que a gente vive e o que a gente gosta. A coisa mais legal da vida é a gente viver, primeiramente, viver fazendo aquilo que você gosta. Não o contrário, né? Fazer aquilo que eu gosto de fazer. Primeiro você vive para poder fazer. Obrigada.
(01:46:33)
P/1 - Eba!
[Fim da Entrevista]
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