NÃO ATRAVESSE A RUA
Contracapa
O que teria acontecido se eu não tivesse atravessado?
Isto é só um pouco da minha vida.
Mas, acima de tudo, é uma homenagem à minha mãe, que nos deu à luz.
E ao meu pai, meu caro amigo, por quem eu ainda atravessaria mundos para ouvir a voz mais uma vez.
A eles, todo o meu amor.
⸻
PREFÁCIO
São cem metros quadrados de muito vazio.
Fragmentos de como atravessar mundos.
Nesta noite fria que dói a alma, estou sozinha no quarto.
Escuridão.
E penso em como vim parar aqui.
A energia foi cortada no alojamento.
Ou talvez tenha sido cortada dentro de mim há muitos anos.
Repito em ecos:
Por que atravessei a rua?
A escuridão me traz lembranças que já não sei se vivi ou herdei.
Há histórias que pertencem à minha mãe.
Há histórias que pertencem a mim.
E há aquelas que, de tanto serem contadas, atravessaram nossos corpos até se tornarem uma coisa só.
Às vezes, ainda vejo o cavalo emperrado na estrada naquele dia de partida.
O dia em que uma menina saiu de casa sem saber que nunca mais voltaria inteira.
Mais relâmpagos.
Os pingos na janela refletem lágrimas que talvez sejam dela.
Talvez minhas.
Escrevo para você contando detalhes do nosso mundo.
Porque ele também é teu.
Talvez escrever seja isso:
tentar atravessar aquilo que nunca conseguimos atravessar.
Assim começa esta travessia.
⸻
CAPÍTULO 1
Atravessa, mãe!
10 de março de 1979.
Chovia forte.
Dizem que eram as águas de março fechando o verão.
Eu corria para pegar a condução rumo ao alojamento.
Afinal, não sou daqui.
Venho de muito longe.
Interior.
Família extensa.
Somos muitos irmãos.
Nem todos saíram de lá.
Muitos ficaram.
Eu tive a chance — ou talvez o azar — de ser arrancada de casa e mandada para um colégio interno.
Saúde da família.
Família.
Eu sei bem o sinônimo.
Vivíamos, os quatorze,...
Continuar leituraNÃO ATRAVESSE A RUA
Contracapa
O que teria acontecido se eu não tivesse atravessado?
Isto é só um pouco da minha vida.
Mas, acima de tudo, é uma homenagem à minha mãe, que nos deu à luz.
E ao meu pai, meu caro amigo, por quem eu ainda atravessaria mundos para ouvir a voz mais uma vez.
A eles, todo o meu amor.
⸻
PREFÁCIO
São cem metros quadrados de muito vazio.
Fragmentos de como atravessar mundos.
Nesta noite fria que dói a alma, estou sozinha no quarto.
Escuridão.
E penso em como vim parar aqui.
A energia foi cortada no alojamento.
Ou talvez tenha sido cortada dentro de mim há muitos anos.
Repito em ecos:
Por que atravessei a rua?
A escuridão me traz lembranças que já não sei se vivi ou herdei.
Há histórias que pertencem à minha mãe.
Há histórias que pertencem a mim.
E há aquelas que, de tanto serem contadas, atravessaram nossos corpos até se tornarem uma coisa só.
Às vezes, ainda vejo o cavalo emperrado na estrada naquele dia de partida.
O dia em que uma menina saiu de casa sem saber que nunca mais voltaria inteira.
Mais relâmpagos.
Os pingos na janela refletem lágrimas que talvez sejam dela.
Talvez minhas.
Escrevo para você contando detalhes do nosso mundo.
Porque ele também é teu.
Talvez escrever seja isso:
tentar atravessar aquilo que nunca conseguimos atravessar.
Assim começa esta travessia.
⸻
CAPÍTULO 1
Atravessa, mãe!
10 de março de 1979.
Chovia forte.
Dizem que eram as águas de março fechando o verão.
Eu corria para pegar a condução rumo ao alojamento.
Afinal, não sou daqui.
Venho de muito longe.
Interior.
Família extensa.
Somos muitos irmãos.
Nem todos saíram de lá.
Muitos ficaram.
Eu tive a chance — ou talvez o azar — de ser arrancada de casa e mandada para um colégio interno.
Saúde da família.
Família.
Eu sei bem o sinônimo.
Vivíamos, os quatorze, em um mundo muito diferente do de hoje.
As brincadeiras na roça.
O mato.
O cheiro da comida de mãe.
A vida acontecendo do lado de fora, sem pressa.
Mas por que eu?
E tão cedo?
Talvez o sofrimento do parto tenha deixado minha mãe enfadonha.
Talvez ela simplesmente não soubesse como cuidar de tantos.
Meu pai — que Deus o tenha — sempre dizia que foi a minha inteligência que despertou a urgência daquela arrancada abrupta do seio da família.
Eu atravessei a rua.
Meu pai, delegado da região.
Minha mãe, muito mãe.
Mãe de muitos.
E sem muito tempo para ser mãe.
Às vezes a gente não é vista.
Outras vezes, temos a sorte de sermos escolhidas.
É difícil acertar os ajustes.
Os anos passam.
Os caminhos também.
E algumas coisas ficam.
É esse dia que eu lembro.
Eu, chuvosa.
Encharcada dos pés à cabeça.
Perdida.
Quando surge um moço.
Que piada.
Eu mal sabia o que estava por acontecer.
E, dentro da minha cabeça, insistia um eco:
Não atravesse a rua.
Não atravesse a rua.
Na minha cidade — naquele lugar longínquo de onde venho —, se vissem aquela cena, iriam a cavalo contar ao meu pai.
Cidade pequena é assim.
Quem conta um conto aumenta um ponto.
E, se lá eu nasci católica, mudei de religião abruptamente.
Longe de tudo, dei-me a chance de conhecê-lo.
Ele insistia em me levar a algum lugar.
Que lugar?
Talvez o mais improvável de todos.
E eu me agarrei àquilo, duvidando das minhas próprias maneiras.
Dos meus medos.
Das minhas certezas.
Os anos passaram como chuva atravessando a janela.
E aquela menina que atravessou a rua continuou caminhando.
A nossa música ainda canta nos pampas.
⸻
CAPÍTULO 2
A cidade de mim
Londres é muito fria.
Mas eu nunca me queixara disso antes.
Adoro dias frios e ensolarados.
Acho que existe uma poesia sem prosa neles.
Imagino nós dois naqueles parques.
As festas.
Uma garrafa de…
— De vida, meu bem!
O cheiro dele quando volta para casa.
O barulho da chave.
Da maçaneta.
Pequenas coisas que, quando estamos juntos, parecem não significar nada.
Até significarem tudo.
Então, por que diabos estou em prantos?
Aqui estou.
Não em um alojamento.
Estou em Kensington.
Troquei o alojamento por cem metros quadrados de vazio.
E, neste dia frio que dói a alma, nem a cavalo meu pai viria me buscar.
É como uma ópera mal acabada.
Tudo ecoava dentro de mim.
Não.
Atravesse.
A.
Rua.
Aqueles dias em Londres eram realmente particulares.
Entre a solidão e a oscilação dos dias ensolarados, eu amava estar nos parques.
Também amava aqueles pubs londrinos escuros.
Tão escuros que nem a luz do último entardecer poderia nos incomodar.
Havia algo neles que me acolhia.
Talvez porque, em alguns lugares, a escuridão não assuste.
Ela protege.
Nesta Londres, sozinha, mergulhando nas ruas de Kensington, eu pensava que uma ligação poderia mudar tudo.
Mas ela não aconteceu.
E eu repetia em ecos:
Onde eu vim parar?
Essa frase nós repetimos em eco por anos, mãe.
Onde eu vim parar?
Talvez essa tenha sido a pergunta que nos acompanhou por toda a vida.
De uma casa para outra.
De uma cidade para outra.
De uma vida para outra.
E, talvez, sem perceber, eu continuasse atravessando.
Sempre atravessando.
Sem saber exatamente para onde.
Sem saber o que encontraria do outro lado.
CAPÍTULO 3
No oceano nos misturamos
Nunca pude imaginar que o oceano fosse tão vasto.
E que navegar nele pudesse fazer nascer tanta solidão.
Há dores que não se compartilham.
Não se dividem.
Às vezes, não existem palavras capazes de curá-las.
Agora atravesso a mim mesma.
Sem mapa.
Sem pai.
Sem você.
Foram décadas de silêncio.
Nossa história nunca poderia ser contada.
Não antes da tua partida.
Talvez algumas histórias precisem de uma ausência para finalmente encontrar palavras.
E essa dor não foi criada por mim, papai.
Eu demorei muito para entender isso.
Os teus mistérios eram muitos.
E eu passei boa parte da vida tentando encontrá-los.
Como quem procura um tesouro escondido.
Eu queria descobrir.
Dévoiler les mystères.
Queria saber quem você tinha sido antes de ser meu pai.
O homem antes do delegado.
O homem antes da família.
Antes dos filhos.
Antes de mim.
Talvez eu quisesse encontrar, em algum lugar da tua história, uma explicação para as minhas próprias perguntas.
Talvez eu procurasse em você aquilo que nunca consegui encontrar em mim.
E, quanto mais procurava, mais o oceano parecia crescer.
Às vezes penso que nós dois fomos feitos de silêncios.
Você guardava os seus.
Eu aprendi a guardar os meus.
E assim passamos anos nos amando de uma maneira torta.
Uma maneira que nem sempre soube dizer o que sentia.
Mas havia amor.
Eu sei que havia.
Talvez o amor também seja feito dessas coisas que não conseguimos explicar.
Como o oceano.
Vasto.
Profundo.
Cheio de coisas que não vemos.
E, ainda assim, sabemos que estão lá.
Hoje navego nesse oceano sem você.
E percebo que algumas perguntas não foram feitas para serem respondidas.
Talvez tenham sido feitas apenas para nos acompanhar.
Talvez seja esse o meu tesouro.
Não descobrir todos os teus mistérios.
Mas aceitar que alguns deles partiram contigo.
E que eu continuarei atravessando.
Mesmo sem saber onde termina o mar.
CAPÍTULO 4
O corpo herdando dores
Você já sentiu?
Aquele desejo quase infantil de saber mais?
De voltar no tempo.
De fazer uma pergunta que nunca foi feita.
De ouvir uma resposta que talvez mudasse tudo.
São tantos porquês.
Tantos que, às vezes, parecem morar no corpo.
Porque há dores que a cabeça não consegue explicar.
Mas o corpo sabe.
O corpo guarda.
Guarda aquilo que a boca não disse.
Aquilo que os olhos esconderam.
Aquilo que a gente aprendeu cedo demais a suportar.
— Pai?
Silêncio.
— Sonhos?
Talvez uma menina tenha virado mulher cedo demais.
Talvez tenha precisado ser forte cedo demais.
Forte demais para suportar a tua ausência física.
Forte demais para esconder todo sentimento.
Eu lutei para te aceitar.
Sim.
Odiei demais.
Também.
E voltei a te amar porque tua ausência era forte demais.
Talvez o amor tenha sido justamente isso:
voltar.
Mesmo depois da raiva.
Mesmo depois do silêncio.
Mesmo depois de tudo.
E quando finalmente parecia que as coisas começavam a entrar nos trilhos…
Eu só queria ouvir tua voz mais uma vez.
Uma única vez.
Não precisava de explicações.
Não precisava de respostas.
Só a tua voz.
O monitor continuava apitando.
Aquele som insistente preenchia o quarto.
E, naquele instante, compreendi que existem despedidas que não acontecem quando alguém parte.
Acontecem muito antes.
Na primeira ausência.
Na primeira estrada.
Na primeira vez em que alguém vai embora sem saber que está ensinando o outro a viver sem ele.
Na primeira rua atravessada.
Eu não estava ali aos pés da tua cama.
Não segurei tua mão.
Não ouvi tua última respiração.
Mas estava em cada memória.
Em cada silêncio.
Em cada pergunta que ficou sem resposta.
E então te vejo.
A cavalo.
Atravessando os pampas.
Livre.
Livre como o vento que nunca consegui segurar.
Livre como os mistérios que levaste contigo.
Por muito tempo, quis correr atrás.
Quis alcançar tua silhueta.
Quis perguntar.
Quis entender.
Quis saber por quê.
Mas, pela primeira vez, não corro.
Fico parada.
Apenas observo.
Você vai embora devagar.
O cavalo diminui no horizonte.
E eu continuo ali.
Sem te alcançar.
Talvez porque algumas pessoas não tenham vindo para ser alcançadas.
Vieram para nos ensinar a atravessar.
E talvez eu tenha passado a vida inteira tentando chegar até você.
Quando, na verdade, precisava aprender a seguir.
Sem você.
Com você.
Dentro de mim.
CAPÍTULO 5
Memórias fundidas
Talvez eu tenha jogado errado.
Perdido as peças.
E ainda esteja tentando encontrá-las.
Quando me perguntam sobre minha história, raramente ouso contá-la por inteiro.
São tantas coisas.
Tantas versões.
Tantas histórias dentro da mesma história.
Que talvez ninguém soubesse interpretá-las.
Nem eu.
São voltas.
Recomeços.
Estradas que pareciam terminar e, de repente, continuavam por outro caminho.
E, em cada um deles, eu me reconheço.
Às vezes acertando.
Às vezes errando.
Quase sempre aprendendo depois.
Talvez seja assim que uma vida se constrói.
Não em linha reta.
Mas em pedaços.
Uma fotografia.
Uma voz.
Um cheiro.
Uma música.
Uma casa.
Uma rua.
Um cavalo.
A chuva.
E, de repente, tudo se mistura.
Já não sei exatamente o que aconteceu primeiro.
O que veio depois.
O que eu vivi.
O que me contaram.
O que imaginei.
Talvez algumas lembranças tenham sido herdadas.
Talvez outras tenham sido inventadas pelo tempo.
Mas continuam sendo minhas.
Porque existem memórias que não precisam ter acontecido exatamente como lembramos para serem verdadeiras.
Elas são verdadeiras pelo que fizeram conosco.
Às vezes, só quero desabar no teu colo, pai.
Sem perguntas.
Sem explicações.
Sem precisar ser forte.
E somente uma palavra poderia ajudar.
Um olhar para me ver.
Um beijo de despedida para saber que você sempre iria voltar.
Talvez fosse isso que eu procurasse durante tantos anos.
A certeza de que quem vai embora volta.
A certeza de que as pessoas que amamos não desaparecem completamente.
Mas ninguém me ensinou isso.
Então aprendi de outra maneira.
Aprendi a esperar.
Aprendi a partir.
Aprendi a voltar.
Aprendi a atravessar.
E, no meio de tudo isso, fui construindo uma mulher que às vezes nem eu reconheço.
Uma mulher cheia de histórias que não cabem em uma única versão.
Talvez porque eu não seja uma só.
Sou a menina que ficou na roça.
A menina que foi mandada embora.
A menina que atravessou a rua.
A mulher que chegou a Londres.
A filha que procurou o pai.
A filha que perdeu o pai.
A mulher que continuou.
Somos feitos dessas sobreposições.
Dessas memórias que se misturam.
Dessas pessoas que fomos e que ainda vivem dentro de nós.
Talvez seja por isso que algumas lembranças doam tanto.
Porque não lembramos apenas de quem fomos.
Lembramos de quem poderíamos ter sido.
E talvez seja esse o verdadeiro luto:
não apenas perder alguém,
mas perder também todas as possibilidades que existiam enquanto aquela pessoa ainda estava aqui.
Então guardo as peças.
Mesmo as quebradas.
Mesmo as que não sei onde encaixar.
Porque, talvez, um dia eu descubra que não precisava montar o quebra-cabeça inteiro.
Talvez bastasse olhar para os pedaços
e reconhecer:
isso também sou eu.
CAPÍTULO 6
Nunca conte, nunca atravesse
Não conte.
Não fale.
Não atravesse.
Talvez essas tenham sido algumas das primeiras regras que aprendi sem que ninguém precisasse dizê-las.
Há histórias que sobrevivem justamente porque nunca foram contadas.
Ficam escondidas dentro das famílias.
Passam de uma geração para outra em forma de silêncio.
Ninguém explica.
Ninguém pergunta.
E, ainda assim, todos sabem.
Existem mulheres que passam a vida inteira atravessando ruas para fugir de si mesmas.
Eu conheço algumas.
Talvez conheça todas.
Talvez conheça uma muito bem.
Eu.
Durante muito tempo, achei que o silêncio fosse uma forma de proteção.
Não falar era preservar.
Não perguntar era respeitar.
Não atravessar era obedecer.
Mas o silêncio também deixa marcas.
E algumas marcas não aparecem na pele.
Aparecem na maneira como amamos.
Na maneira como partimos.
Na maneira como esperamos.
Na maneira como temos medo de perder.
Por que não dividir emoções, se passamos a vida inteira perguntando:
E se?
E se eu tivesse ficado?
E se eu não tivesse atravessado?
E se tivesse perguntado?
E se tivesse dito?
E se meu pai tivesse falado?
E se minha mãe tivesse sabido?
E se eu tivesse sido apenas uma menina?
Talvez a vida seja feita dessas perguntas que nunca encontram resposta.
Mas eu já não quero guardar todas elas.
Meus segredos contados aqui continuam sendo só nossos.
Mesmo depois de abertos.
Porque contar não significa entregar.
Não significa expor tudo.
Existem coisas que permanecem íntimas mesmo quando ganham palavras.
As feridas também.
São escritas a duas mãos.
Quatro corações.
O meu.
O da minha mãe.
O do meu pai.
E o de todos aqueles que vieram antes de nós e deixaram, sem saber, alguma coisa dentro do nosso corpo.
Talvez seja por isso que escrever doa.
Porque escrever é tocar onde a memória ainda está viva.
É abrir uma porta que passamos anos mantendo fechada.
E eu abro.
Devagar.
Sem saber o que encontrarei do outro lado.
Talvez encontre a menina.
Talvez encontre meu pai.
Talvez encontre minha mãe.
Talvez encontre a mim mesma.
Aquela que atravessou.
Aquela que ficou.
Aquela que partiu.
Aquela que voltou.
E talvez, finalmente, eu possa dizer:
eu contei.
Eu atravessei.
E continuo aqui.
Porque algumas ruas precisam ser atravessadas.
Mesmo quando alguém grita:
Não atravesse.
Mesmo quando temos medo.
Mesmo quando não sabemos o que existe do outro lado.
Talvez a vida seja exatamente isso.
Atravessar aquilo que nos ensinaram a temer.
E descobrir, no caminho,
que a rua nunca foi o verdadeiro perigo.
O verdadeiro perigo era passar a vida inteira sem saber
quem éramos
do outro lado.
CAPÍTULO 7
O que mais, mãe?
E sento aqui,
nesta mesma hora,
sentindo que um dia
tu também vais.
Não sei para onde.
Não sei quando.
Só sei que um dia.
E talvez seja essa a parte mais cruel de amar alguém:
saber que, inevitavelmente, um dia teremos de aprender a viver sem essa pessoa.
Olho para você
e, por alguns segundos,
quero congelar o tempo.
Não me diga mais nada.
Só me deixa te abraçar.
Ficar assim.
Sem perguntas.
Sem respostas.
Só nós duas.
Porque há coisas que uma filha nunca consegue dizer à mãe.
Mesmo quando passa a vida inteira tentando.
E há coisas que uma mãe talvez nunca consiga contar à filha.
Talvez porque algumas dores sejam grandes demais para caber em palavras.
Talvez porque tenham aprendido, como tantas mulheres antes delas, a continuar.
A cuidar.
A trabalhar.
A amar.
A engolir.
A seguir.
E eu me pergunto:
o que mais, mãe?
O que mais você guardou?
O que mais carregou em silêncio?
Quantas vezes você também quis atravessar uma rua e alguém lhe disse para não ir?
Quantas vezes você ficou?
Quantas vezes quis partir?
Talvez eu nunca saiba.
Talvez algumas respostas morram antes de nós.
E sento aqui,
olhando para você,
sentindo que um dia também haverá silêncio.
E isso me assusta.
Porque depois de perder meu pai, descobri que a ausência não ocupa um lugar.
Ela ocupa todos.
Está na cadeira vazia.
Na voz que não toca mais o telefone.
Na história que não pode mais ser perguntada.
No abraço que ficou para depois.
E agora penso em você.
E tenho medo.
Medo de que o depois chegue.
Medo de um dia olhar para o telefone e saber que ele não vai tocar.
Medo de procurar teu rosto e encontrar apenas uma fotografia.
Medo de ouvir tua voz apenas dentro da minha cabeça.
Sinto-me um ser à deriva em um vasto oceano.
As ondas.
O frio.
A maré que sobe e desce,
quase como o pulsar do meu coração.
Quero atracar em um porto seguro
e nunca mais me perguntar.
E se ele for
e nunca mais voltar?
E se você for
e nunca mais voltar?
Talvez seja por isso que eu queira tanto ficar perto.
Segurar.
Abraçar.
Ouvir.
Como se o corpo pudesse guardar alguém.
Como se um abraço pudesse impedir o tempo.
Mas o tempo não pede licença.
Ele passa.
Leva.
Transforma.
E nos ensina, à força, que amar também é aceitar que não podemos possuir ninguém.
Nem mesmo aqueles que nasceram dentro de nós.
Mas que graça teria a vida, Maria,
se toda vez que amássemos
precisássemos perguntar por quê?
Talvez amar seja justamente isso:
atravessar.
Sem garantias.
Sem mapas.
Sem retorno.
Porque ninguém atravessa uma rua sabendo exatamente o que encontrará do outro lado.
E, ainda assim,
atravessamos.
Por ti.
Por ele.
Por mim.
E por todos aqueles que fizeram morada dentro do meu coração.
Porque o amor, assim como as estradas,
não termina.
Apenas continua
para além do horizonte.
E por ti,
serei.
E seremos.
CAPÍTULO 8
Irmãos que herdei
Passei boa parte da vida acreditando conhecer a minha história.
Mas histórias de família raramente chegam completas.
Elas vêm em pedaços.
Em fotografias sem legenda.
Em nomes pronunciados pela metade.
Em conversas interrompidas quando uma criança entra na sala.
Em silêncios.
E foi assim que herdei irmãos.
Não da maneira comum.
Não crescendo ao lado deles.
Não dividindo quartos, segredos ou brinquedos.
Não brigando pelo último pedaço de bolo.
Não ouvindo passos no corredor durante a noite.
Herdei-os através das ausências.
Das perguntas.
E também dos mistérios que ficaram depois que algumas vozes se calaram.
Talvez seja estranho dizer que se herdam pessoas.
Mas foi assim que aconteceu comigo.
Alguns chegaram pela memória.
Outros, pelas histórias.
Alguns chegaram tarde demais.
E talvez outros ainda estejam chegando.
Durante muito tempo, eu não sabia onde colocar essas pessoas dentro de mim.
Eram irmãos?
Eram desconhecidos?
Eram parte de uma história que eu não tinha vivido?
Talvez fossem tudo isso ao mesmo tempo.
Porque família não é apenas aquilo que vivemos juntos.
Às vezes, família é aquilo que descobrimos quando já somos adultos.
É aquilo que estava acontecendo enquanto éramos crianças, sem que soubéssemos.
É o que nossos pais carregavam antes de nós.
É o que eles escolheram contar.
E, principalmente, aquilo que escolheram não contar.
Às vezes me pergunto quantas versões de uma família podem existir.
Há a família que vivemos.
A família que nos contam.
A família que imaginamos.
E a família que passamos a vida tentando compreender.
Talvez sejamos todos fragmentos de uma mesma história.
Pedaços espalhados pelo tempo.
Ligados por um nome.
Por um rosto.
Por uma fotografia.
Por uma voz.
Por uma memória.
Ou apenas por uma travessia que começou muito antes de nós.
Talvez eu tenha passado tanto tempo tentando entender meu pai que esqueci de perguntar quem eram aqueles que vieram antes.
Quem eram aqueles que ficaram.
Quem eram aqueles que partiram.
Quem amou quem.
Quem sofreu.
Quem perdoou.
Quem nunca conseguiu perdoar.
As famílias também têm seus oceanos.
E, dentro deles, existem coisas que afundaram há muito tempo.
Objetos que ninguém mais procura.
Nomes que deixaram de ser pronunciados.
Histórias que ficaram sem testemunhas.
Mas, de vez em quando, alguma coisa volta à superfície.
Uma fotografia.
Uma carta.
Um nome.
Um irmão.
E então olhamos para aquilo e pensamos:
Como eu não sabia?
Talvez porque algumas verdades precisem de tempo para nos encontrar.
Talvez porque, quando somos pequenos, só conseguimos enxergar aquilo que está diante dos nossos olhos.
É preciso crescer para perceber que nossos pais também foram filhos.
Que tiveram medos.
Desejos.
Erros.
Segredos.
Amores.
Perdas.
E histórias que nunca chegaram até nós.
Hoje olho para esses irmãos que herdei e penso que talvez não seja tarde demais.
Talvez ainda exista uma maneira de juntar alguns pedaços.
Não para reconstruir o passado.
Isso ninguém pode fazer.
Mas para reconhecer que ele existiu.
Que nós existimos.
Que, de alguma maneira, pertencemos à mesma história.
Mesmo quando não estivemos juntos para vivê-la.
E talvez seja isso que significa herdar uma família:
receber aquilo que não escolhemos
e decidir o que faremos com isso.
Eu não posso mudar os caminhos que vieram antes de mim.
Não posso devolver os anos que não vivemos.
Não posso preencher todos os espaços vazios.
Mas posso olhar para eles.
Sem fugir.
Sem medo.
Sem atravessar outra rua.
Porque, talvez, pela primeira vez,
eu não queira fugir da história que me trouxe até aqui.
Quero conhecê-la.
Mesmo que doa.
Mesmo que falte alguma peça.
Mesmo que algumas perguntas permaneçam sem resposta.
Porque agora entendo:
não preciso conhecer toda a história para pertencer a ela.
Basta reconhecer os seus fragmentos.
E aceitar que alguns deles
também vivem em mim.
CAPÍTULO 10
Quantos medos?
Eu guardo medos.
Guardo rancor, talvez.
Guardo coisas que nem sei mais nomear.
Passei tanto tempo guardando que, às vezes, já não sei onde termina o medo e onde começo eu.
Nunca tive um filho.
Nunca me casei.
Nunca tive um parceiro permanente.
Sabe?
Isso é forte.
É uma dessas coisas que a gente diz quase como quem conta um fato.
Mas não é só um fato.
Existe uma vida inteira dentro dessas palavras.
Uma vida que poderia ter sido.
Uma casa que talvez tivesse existido.
Uma criança que talvez tivesse chegado.
Um homem que talvez tivesse ficado.
Um amor que talvez tivesse escolhido permanecer.
Quantos “talvez” cabem dentro de uma vida?
Às vezes penso que construí minha liberdade com os mesmos tijolos dos meus medos.
Fui embora.
Voltei.
Comecei de novo.
Parti outra vez.
Aprendi a não depender.
A não esperar.
A não pedir.
A não precisar.
Eu sou forte demais.
Foi o que disseram.
Foi o que aprendi.
Foi o que eu mesma repeti.
Até acreditar.
Mas passei tanto tempo tentando ser forte que, quando finalmente desabei, não reconheci meus próprios pedaços.
Silêncio.
E talvez tenha sido nesse silêncio que finalmente entendi:
ninguém pode me reconstruir.
Ninguém pode juntar aquilo que se quebrou dentro de mim.
Só eu.
Só eu posso recolher os meus cem cacos.
Um por um.
Sem pressa.
Sem vergonha.
Sem precisar fingir que nunca quebraram.
Talvez reconstruir não seja voltar a ser quem eu era.
Talvez seja aceitar que algumas partes de nós nunca voltarão ao lugar de antes.
E tudo bem.
Porque há coisas que se quebram e, depois, ganham outra forma.
Eu também ganhei.
Não sou mais a menina que saiu de casa.
Não sou apenas a filha do delegado.
Não sou apenas a filha da minha mãe.
Não sou apenas a mulher que atravessou a rua.
Sou todas elas.
A menina.
A filha.
A mulher.
Aquela que amou.
Aquela que perdeu.
Aquela que partiu.
Aquela que ficou.
Aquela que teve medo.
Aquela que, mesmo com medo, continuou.
Talvez eu tenha passado a vida procurando um porto seguro.
Um lugar onde pudesse finalmente parar.
Mas talvez o porto nunca tenha sido um lugar.
Talvez fosse eu.
Talvez eu precise parar de esperar que alguém venha juntar os meus pedaços.
Talvez eu precise aprender a me abraçar.
A me perdoar.
A aceitar os caminhos que escolhi.
Até os que me trouxeram dor.
Até os que eu gostaria de não ter atravessado.
Porque não existe outra maneira de chegar até aqui.
E aqui estou.
Com meus medos.
Meus rancores.
Minhas perdas.
Meus amores.
Minhas perguntas.
Meus cem cacos.
E, pela primeira vez, não tenho vergonha deles.
Talvez sejam justamente eles que contem a minha história.
Olho para trás.
Vejo a menina na chuva.
Vejo meu pai a cavalo.
Vejo minha mãe.
Vejo Londres.
Vejo o oceano.
Vejo as ruas.
Vejo todas as pessoas que fizeram morada em mim.
E então percebo:
eu atravessei muito mais do que uma rua.
Atravessei países.
Amores.
Perdas.
Silêncios.
Medos.
Atravessei minha própria história.
E ainda não terminei.
Porque talvez a vida não seja chegar ao outro lado.
Talvez seja continuar caminhando.
Mesmo quando não sabemos para onde.
Mesmo quando ninguém está esperando.
Mesmo quando a rua parece escura.
Eu ainda tenho medo.
Mas agora sei uma coisa:
ter medo não significa voltar.
Significa apenas que estou prestes a atravessar.
Mais uma vez.
Capitulo 11 :Dias , meses , anos …
E foi aí que a falta dele bateu forte no coração.
Meu pai.
Tão estranho sentir saudade assim.
Sem aviso.
Sem fotografia.
Sem uma música triste.
Apenas uma frase da minha mãe:
— Tu é bem filha do teu pai.
E pronto.
Ele estava ali.
No meio daquela conversa.
No meio da minha tentativa frustrada de entrar em um tubo de ressonância.
No meio da nossa risada.
E eu senti falta dele.
Uma falta funda.
Daquelas que chegam sem pedir licença.
Então continuamos conversando.
Rimos da situação.
Falei do meu novo amor.
Contei para minha mãe como quem conta uma novidade para alguém que ainda precisa saber.
E, por alguns minutos, tudo se misturou.
E então senti.
A falta.
O amor.
A saudade.
Tudo de uma vez.
Como se, por alguns segundos, ele tivesse voltado.
Não para ficar.
Apenas para me lembrar que ainda vive em mim.
Meu pai.
Minha mãe.
Eu.
O amor que passou.
O amor que chegou.
E pensei que talvez seja assim que as pessoas continuam vivendo dentro da gente.
Não necessariamente nas grandes lembranças.
Mas nas pequenas.
Em uma frase.
Em uma reação.
Em uma maneira de rir.
Tudo de uma vez.
E volta tudo novamente.
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