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Personagem: Ana Maria Sezerino
Por: Ana Maria Sezerino, 22 de agosto de 2026

Não atravessa a rua

Esta história contém:

Não atravessa a rua

NÃO ATRAVESSE A RUA

Contracapa

O que teria acontecido se eu não tivesse atravessado?

Isto é só um pouco da minha vida.

Mas, acima de tudo, é uma homenagem à minha mãe, que nos deu à luz.

E ao meu pai, meu caro amigo, por quem eu ainda atravessaria mundos para ouvir a voz mais uma vez.

A eles, todo o meu amor.

PREFÁCIO

São cem metros quadrados de muito vazio.

Fragmentos de como atravessar mundos.

Nesta noite fria que dói a alma, estou sozinha no quarto.

Escuridão.

E penso em como vim parar aqui.

A energia foi cortada no alojamento.

Ou talvez tenha sido cortada dentro de mim há muitos anos.

Repito em ecos:

Por que atravessei a rua?

A escuridão me traz lembranças que já não sei se vivi ou herdei.

Há histórias que pertencem à minha mãe.

Há histórias que pertencem a mim.

E há aquelas que, de tanto serem contadas, atravessaram nossos corpos até se tornarem uma coisa só.

Às vezes, ainda vejo o cavalo emperrado na estrada naquele dia de partida.

O dia em que uma menina saiu de casa sem saber que nunca mais voltaria inteira.

Mais relâmpagos.

Os pingos na janela refletem lágrimas que talvez sejam dela.

Talvez minhas.

Escrevo para você contando detalhes do nosso mundo.

Porque ele também é teu.

Talvez escrever seja isso:

tentar atravessar aquilo que nunca conseguimos atravessar.

Assim começa esta travessia.

CAPÍTULO 1

Atravessa, mãe!

10 de março de 1979.

Chovia forte.

Dizem que eram as águas de março fechando o verão.

Eu corria para pegar a condução rumo ao alojamento.

Afinal, não sou daqui.

Venho de muito longe.

Interior.

Família extensa.

Somos muitos irmãos.

Nem todos saíram de lá.

Muitos ficaram.

Eu tive a chance — ou talvez o azar — de ser arrancada de casa e mandada para um colégio interno.

Saúde da família.

Família.

Eu sei bem o sinônimo.

Vivíamos, os quatorze,...

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