Naquela época horrível, a gente viu o Lauro partir. A gente viu o Cazuza partir. Eu era adolescente. Desde os 13, tenho 54, tenho atividades de cunho solidário e social. Trabalho com moradores em situação de rua desde pequeno, levado por mamãe, alma caridosa, cuidadosa e gentil, que também já partiu ... sei que a mão de mamãe me guiou os pés no caminho do coração. E eu abraçava, na época, um hospital público. Um dia fui doar sangue e da cadeira de doação ingressei no corpo de voluntários do hospital. Aprendi muito naquele hospital público ...
Houve um caso pertinente sobre HIV/AIDS. Eu costumava dizer que médicos davam diagnósticos, enfermeiros os devidos cuidados e pra mim sobrava a palavra, levar comida, ouvir, eventualmente dar banho no leito. Na ala masculina eu seguia ... e na hora da visita, um rapaz corado vinha ver todo dia um rapaz pálido. E o rapaz pálido e já muito magro era o único da ala que eu não dava banho no leito. Era o rapaz corado que ia cuidar dele todo dia. Todo dia. Todos os dias.
Um dia o rapaz pálido não abriu mais os olhos, e as lágrimas dos meus tiveram de dar a notícia pro rapaz corado ... que desabou em prantos ... durante dois meses, todo dia, todos os dias o rapaz corado chegava pontualmente no horário de visitas. Era o primeiro a chegar. O último a partir. Quando o rapaz pálido partiu ... de repente uma família apareceu e alijou o rapaz corado. Nos meus braços choramos juntos ... e nem no velório do companheiro a família permitiu a presença dele. E é por amor que até hoje luto.