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Tive o privilégio de ouvir tantas histórias de minha avó que às vezes acho que quem viveu aquelas histórias fui eu.

Minha avó materna, italiana, tinha muitos filhos e filhas e morava cada vez na casa de um. Mas onde ela mais gostava de morar, segundo ela me confiava em segredo, era em nossa casa, onde chegou realmente a morar mais tempo, indo à casa dos outros filhos pra ficar sempre por pouco tempo e para não deixar ninguém chateado.

Em nossa casa, dormíamos eu, minhas quatro irmãs e minha avó no mesmo quarto. Depois de todo o trabalho que minha mãe tinha pra colocar todas nós nas camas, depois do banho, escovar dentes e cabelos, remédios para minha avó, ela sempre apagava a luz, fechava a porta e dizia: "não quero ouvir um pio".

Eu ficava olhando a fresta de luz debaixo da porta, que indicava que minha mãe ainda estava no andar de cima, pois só apagava a luz quando chegava na sala. Aí quase toda noite começava a festa

Às vezes eu ia até a cama de minha avó, às vezes ela me chamava. Ela trazia consigo sempre o radinho de pilha ligado, geralmente ouvindo o programa do Zé Béttio (que me parecia ficar 24 horas no ar). Conversávamos sobre muitas coisas, coisas que ela não conseguia entender, fofoquinhas, mas o que eu mais gostava era que ela contasse ou recontasse as histórias da vida dela, na roça, em fazendas de café, na casa de barro, os partos em casa, os filhos que tinham morrido pequenos, como ela fazia o pão e o macarrão em casa, como era a colheita do café, onde ela comprava os panos para costurar roupa pra toda a família. Eram tantas, tantas coisas, um universo tão diferente do meu que as perguntas eram muitas, e as histórias muitas vezes repetidas. É que eu queria entender

Aquelas histórias me acompanhavam todo dia, a todo lugar, mas eu não conseguia entender muitas coisas e voltava sempre a perguntar a ela:

- "Como assim, a senhora ia para a plantação de café e deixava a tia Nica bebê num buraco forrado...

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