Lembro-me que em Guarani, Minas Gerais, em meados dos anos 80, tivemos uma manhã de chuva. Percorri as ruas como se fosse um policial cumprindo sua ronda. Minha bicicletinha cortava as poças e me lançava aquela água barrenta da enxurrada que só me deixava mais à vontade com a chuva. Não lembro se era fim ou início das águas, mas foi uma manhã úmida.
Quando a sirene da confecção disparou, percebi que meu tempo havia sido cumprido. Tinha pouco tempo pra chegar e ainda receber um olhar acolhedor. Atrasos significavam repreensão, e isso eu não queria.
Um banho quente me conduziu até a cozinha onde um almoço bem querido me esperava. Daí, poucos instantes me separavam da escola.
Parecia um dia comum. A meninada reunida, formando filas para chegar nas salas. Cada um tinha seu lugar, e como sempre, lá estava o Bastiãozinho. Na mesa de traz, sorrindo e pronto pra mais um dia de tudo que a vida podia nos proporcionar. Acho que o que mais me chamava a atenção era sua simplicidade. Ele parecia um personagem de Monteiro Lobato. Puro, simples e feliz.
A primeira tarefa foi corrigir o para casa. A professora percorria a sala observando meticulosamente cada caderno. Ao chegar na minha mesa, tudo correu como sempre.
_ Quanto capricho, Paulinho Parabéns.
Entendi com normalidade, e daí me distraí com outra coisa. Depois de mim, era a vez do Bastiãozinho, e preciso de um parêntesis.
Meu amigo morava num pequeno sítio a poucos quilômetros da cidade. Seu pai tinha uma horta e dali tirava o sustento de sua família. É claro que cabia aos filhos ajudar no trabalho, o que ocupava as manhãs de Bastiãozinho.
Naquela manhã chuvosa, Bastiãozinho não havia feito seu Para Casa. Ajudara seu pai a manhã toda e como na sua casa não havia luz, e isso foi o que separou ele de mim, chegou sem o deve. A professora o segurava pelas duas orelhas e balança rispidamente. A única coisa que eu pensava era por que aquele menino tão simples merecia apanhar. Numa olhadela...
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Lembro-me que em Guarani, Minas Gerais, em meados dos anos 80, tivemos uma manhã de chuva. Percorri as ruas como se fosse um policial cumprindo sua ronda. Minha bicicletinha cortava as poças e me lançava aquela água barrenta da enxurrada que só me deixava mais à vontade com a chuva. Não lembro se era fim ou início das águas, mas foi uma manhã úmida.
Quando a sirene da confecção disparou, percebi que meu tempo havia sido cumprido. Tinha pouco tempo pra chegar e ainda receber um olhar acolhedor. Atrasos significavam repreensão, e isso eu não queria.
Um banho quente me conduziu até a cozinha onde um almoço bem querido me esperava. Daí, poucos instantes me separavam da escola.
Parecia um dia comum. A meninada reunida, formando filas para chegar nas salas. Cada um tinha seu lugar, e como sempre, lá estava o Bastiãozinho. Na mesa de traz, sorrindo e pronto pra mais um dia de tudo que a vida podia nos proporcionar. Acho que o que mais me chamava a atenção era sua simplicidade. Ele parecia um personagem de Monteiro Lobato. Puro, simples e feliz.
A primeira tarefa foi corrigir o para casa. A professora percorria a sala observando meticulosamente cada caderno. Ao chegar na minha mesa, tudo correu como sempre.
_ Quanto capricho, Paulinho Parabéns.
Entendi com normalidade, e daí me distraí com outra coisa. Depois de mim, era a vez do Bastiãozinho, e preciso de um parêntesis.
Meu amigo morava num pequeno sítio a poucos quilômetros da cidade. Seu pai tinha uma horta e dali tirava o sustento de sua família. É claro que cabia aos filhos ajudar no trabalho, o que ocupava as manhãs de Bastiãozinho.
Naquela manhã chuvosa, Bastiãozinho não havia feito seu Para Casa. Ajudara seu pai a manhã toda e como na sua casa não havia luz, e isso foi o que separou ele de mim, chegou sem o deve. A professora o segurava pelas duas orelhas e balança rispidamente. A única coisa que eu pensava era por que aquele menino tão simples merecia apanhar. Numa olhadela percebi que seu caderno também estava sujo de barro. Sua condução era uma bicicleta, que ele pilotava com muita alegria. O caderno havia caído do seu embornal.
Percebi que uma lágrima rolava dos olhos do menino, essa foi a última vez que eu vi meu amigo na escola.
Nunca entendi direito...
Depois, na faculdade li Bourdieu... Entendi.
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