Projeto: Vidas Vozes e Saberes em um Mundo em Chamas
Entrevista de Lourenço de Farias Sodré (Louro)
Entrevistado por Jonas Samaúma e Lucas Torigoe
Povoado do Moinho, 01/10/2025
Entrevista nº: PCSH_HV1515
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
P1 - Louro, muito obrigado por você aceitar contar um pouquinho da sua história pra gente. Toda história tem um começo, queria que você contasse assim, como é que você nasceu, aonde você nasceu, se você sabe um pouco como foi que você nasceu.
R: O lugar que eu nasci?
P1 - É o lugar em que você nasceu.
R: Eu nasci no município de Flores, Goiás, e com um ano de idade eu vim aqui para o Povoado do Moinho. Naquele tempo não era Alto Paraíso, era Veadeiros. Aí depois de Veadeiros, mudou o nome para Alto Paraíso.
P1 - Ah, mudou o nome.
R: Era Veadeiros.
P1 - Você sabe por que mudou o nome?
R: Nem sei. Hoje considero ainda como Chapada dos Veadeiros, é englobado até Cavalcante, tudo isso é Chapada. Mas quando eu vim pra cá era Veadeiros, depois que passou para Alto Paraíso/Goiás. Foi a reunião dos vereadores que colocaram o nome. O vereador do projeto se chamava Dimas de Almeida, que trouxe para a câmara e foi aprovado como Alto Paraíso.
P1 - Seu Louro, e aí, quando você tinha um ano de idade e você veio aqui para o Moinho, ele era assim, desse jeito? Como é que era naquela época?
R: Não, desse jeito não era, não. Era mais difícil, porque, primeiro, inclusive mesmo, nem bicicleta tinha na época. Não tinha. Era muito difícil. Quando eu vi bicicleta, já estava grandão. Rádio não funcionava, era muito difícil, só alguns que tinham rádio. Nem televisão, em Veadeiros não funcionava televisão. Quando ia ter jogo da Copa, eles iam subir a serra lá em um lugar chamado Capão Grosso, para poder botar uma TV lá para escutar. Não tinha, não pegava. Eu me lembro disso como hoje, a gente na juventude, teve o jogo do Brasil, era naquele tempo daqueles jogadores, era...
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Entrevista de Lourenço de Farias Sodré (Louro)
Entrevistado por Jonas Samaúma e Lucas Torigoe
Povoado do Moinho, 01/10/2025
Entrevista nº: PCSH_HV1515
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
P1 - Louro, muito obrigado por você aceitar contar um pouquinho da sua história pra gente. Toda história tem um começo, queria que você contasse assim, como é que você nasceu, aonde você nasceu, se você sabe um pouco como foi que você nasceu.
R: O lugar que eu nasci?
P1 - É o lugar em que você nasceu.
R: Eu nasci no município de Flores, Goiás, e com um ano de idade eu vim aqui para o Povoado do Moinho. Naquele tempo não era Alto Paraíso, era Veadeiros. Aí depois de Veadeiros, mudou o nome para Alto Paraíso.
P1 - Ah, mudou o nome.
R: Era Veadeiros.
P1 - Você sabe por que mudou o nome?
R: Nem sei. Hoje considero ainda como Chapada dos Veadeiros, é englobado até Cavalcante, tudo isso é Chapada. Mas quando eu vim pra cá era Veadeiros, depois que passou para Alto Paraíso/Goiás. Foi a reunião dos vereadores que colocaram o nome. O vereador do projeto se chamava Dimas de Almeida, que trouxe para a câmara e foi aprovado como Alto Paraíso.
P1 - Seu Louro, e aí, quando você tinha um ano de idade e você veio aqui para o Moinho, ele era assim, desse jeito? Como é que era naquela época?
R: Não, desse jeito não era, não. Era mais difícil, porque, primeiro, inclusive mesmo, nem bicicleta tinha na época. Não tinha. Era muito difícil. Quando eu vi bicicleta, já estava grandão. Rádio não funcionava, era muito difícil, só alguns que tinham rádio. Nem televisão, em Veadeiros não funcionava televisão. Quando ia ter jogo da Copa, eles iam subir a serra lá em um lugar chamado Capão Grosso, para poder botar uma TV lá para escutar. Não tinha, não pegava. Eu me lembro disso como hoje, a gente na juventude, teve o jogo do Brasil, era naquele tempo daqueles jogadores, era Zico. Eu me lembro disso como hoje, que nós compramos um rádio, aí tinha aquele tanto de gente aqui, nós escutando o rádio, bem naquele dia tinha uma latada de Maracujá, nós fôssemos assistir ao jogo do Brasil. Aí quando foi bater o pênalti, o Zico perdeu. Aí perdeu para a França naquela época. E sempre o Brasil não dá sorte com a França. Eu me lembro desde menino.
P1 - Seu Louro, o que seus pais faziam?
R: Meu pai fazia botina, sapato. Ele era sapateiro. Naquele tempo se usava, arrumava solado de sapato. Ele fazia chapéu de couro. Ele era sapateiro e garimpeiro também. Ele veio da Bahia pra trabalhar, pra mexer com garimpo. Veio a pé naquela época, trazendo água na cabaça. Por isso que é tradição de cabaça que eu gosto, que nós criamos carregando água na cabaça.
P1 - Você sabe um pouquinho dessa história da chegada dele, da vinda deles pra Bahia, pra cá? Eles contaram pra você?
R: Ele contou que ele veio, era deserto naquela época. Acho que até hoje tem lugar ainda que é muito longe assim, sabe? Que inclusive, ele tinha muita areia, eu lembro demais do jeito que ele vinha a pé. E era muito difícil, naquela época, de cidade em cidade, era longe. Inclusive, no ano passado mesmo, foi um menino que quase ficou na estrada, esqueceu de abastecer cá num posto e era longe demais, e quase que fica na estrada, pra poder chegar na cidade, porque a cidade é longe uma da outra, né? Era muito difícil.
P1 - E a sua mãe, ela fazia o quê?
R: Minha mãe era doméstica mesmo. Nasceu aqui em Flores, mesmo. A família dela toda mora aqui perto. Hoje já moram em Alto Paraíso, muita gente. Minha família nasceu aqui em Flores, mesmo. Criou aqui.
P1 - E o que você tem de lembrança do seu pai e da sua mãe? Alguma coisa que foi um ensinamento deles?
R: Meu pai ensinou a gente a não ter medo. Vamos supor, quando ele falava assim: “Ó, gente, vocês têm que ter medo dos vivos, mortos, quem morreu já se foi.” Antigamente, o pessoal ia contar histórias de quem já morreu, voltava. “Nunca você pode pensar nisso, porque quem morreu não volta mais.” Aí a gente criou. Hoje meus filhos mesmo não têm medo de nada, porque a gente criou nesse negócio que quem morreu não voltava mais. Aquelas coisas, sabe? Você tem que ter medo dos vivos, porque os vivos que mexem com a gente.
P1 - E você trabalhava com o seu pai?
R: Isso. Nós nascemos na roça. Plantava... Naquele tempo não tinha trator, era roçar a mata. Você botava fogo, queimava, plantava arroz, plantava feijão e milho. A gente vivia da roça mesmo, do que você colhia na roça.
P1 - Você acordava a que horas para trabalhar?
R: A gente acordava cedo.
P1 - Cedo?
R: Porque naquele tempo nem relógio tinha, o relógio era o sol.
P1 - O relógio era o sol.
R: Se vocês fossem viajar, a hora que o galo cantar… “Que horas vocês viajam?”. “A hora que o galo cantar”. Quando o galo cantava já eram cinco horas. Ah não, cantou a segunda vez? Já estava... Naquele tempo o galo era igual a um relógio. Porque hoje não, hoje não tem horário para o galo cantar, porque tem energia, naquele tempo não tinha energia, a iluminação que a gente usava era querosene ou então fazia rolo de cera de abelha, que tinha muita abelha naquela época. Era isso.
P1 - O relógio era o galo?
R: Era o galo.
P1 - Você acordava antes ou depois do galo?
R: Não, sempre quando íamos viajar, porque quando nós morávamos aqui, a gente saía cedo pra ir lá pra Veadeiro, era Veadeiro,, não era Paraíso não, o galo cantava uma vez, cantava a terceira, na quarta, já sabia que eram cinco horas, era a hora de levantar. Mas hoje não, hoje não usa mais.
P1 - E você tinha quantos anos quando começou a trabalhar com o seu pai na roça?
R: Assim que eu me entendi… Quando eu entendi… Desde pequeno a gente mexia, já produzia.
R: E essa roça vocês comiam ou vendiam?
R: Isso, comia e vendia. Era.
P1 - Vocês tinham que comprar coisa de fora pra comer? Ou tudo que vocês precisavam comer estava aqui?
R: Não, aqui quase não comprávamos coisa de fora, porque a gente criava porco, botava porco no chiqueiro. A gente se alimentava de banha de porco, depois que veio esse negócio de óleo de soja, mas naquele tempo não tinha não. Era gordura de porco mesmo, nascidos e criados com gordura de banha de porco.
P1: E se a pessoa ficava doente? Por exemplo, você já ficou doente quando você era criança?
R: Rapaz, eu acho que sim. Eu não lembro.
P1 - Mas seria... Pode falar.
R: Mas, era difícil. Era remédio do mato mesmo. Quando a gente estava com febre, eu lembro demais, a gente cozinhava sabugueiro pra verme, a gente cozinhava a folha do mastruz, fazia aquele melado pra tomar pra verme. Mas era remédio do mato que a gente usava.
P1 - Quem que fazia?
R: A mãe da gente. Eu lembro demais que, todo dia, a gente levantava cinco horas… Cinco horas? Sei lá, quando o galo cantava, pra tomar lombrigueiro de mastruz. Fazia aquele melado de mastruz. Era muito bom pra verme. Naquele tempo tinha muita lombriga, sabe? Falava lombriga, né? Hoje fala é verme. Você não vê essas coisas mais. Muito verme, né?
P1 - E você aprendeu a fazer esses remédios com sua mãe também?
R: Nós fazíamos. Esses remedinhos caseiros a gente fazia. Até hoje, aqui em casa, nós temos muitos remédios aqui.
P1 - E assim, quando você era criança, o que foi muito marcante pra você?
R: Quando eu era criança, a gente brincava no que era chamado de cavalo de pau. Montava naqueles cavalos e saía de carreira. Não tinha bola. Vou falar para você, era difícil, naquela época era difícil. Aí o povo fala que era fácil, mas não era não, as coisas eram difíceis. A gente montava muito de cavalo de pau, sabe? Cortava aqueles paus e saía aquela meninada montava de cavalo de pau.
P1 - Montava em cavalo de pau? Mas era cavalo mesmo?
R: Era nada! Era um pau. Encontrava aqueles paus bonitos e falava que era cavalo. Chamava cavalo de pau. É capaz que pela internet você consiga ver o que é um cavalo de pau.
P1 - Ah, eu gosto de aprender com os antigos.
R: Nós encontrávamos uns paus bonitos, a gente saía todo mundo, botava entre a perna e ia.
P1 - Que outras brincadeiras tinham?
R: Nós botávamos aquele bichinho (00:09:57), a gente ia esconder, né? Para os meninos caçarem a gente...
P2 - Seu Lourenço, o que vocês plantavam nessa época?
R: Plantava arroz, feijão, milho. Eram essas coisas produzidas.
P2 - E tinha algum que era mais fácil, mais difícil de plantar? Como era isso?
R: Não era difícil, mas todos eles eram difíceis. Porque o arroz que era mais difícil, você tinha que vigiar, se não vigiar o bicho comia, né? Agora o feijão você plantava e deixava lá. O milho… Agora o arroz você tinha que plantar, quando ele começasse a soltar o cacho, você tinha que ir todo dia mexer com os passarinhos. Naquele tempo não tinha nem estilingue, fazia era bodoque. Bodoque pra jogar pedra pra espantar os bichos. Se você não espantava os bichos, você não colhia.
P2 - Pra quem não conhece, você pode falar como é que faz pra dar certo essas plantações?
R: A gente roçava o mato, depois botava fogo. Depois as galhas que ficavam, a gente fazia coivara. Depois da coivara, você ia plantar de enxada. Depois que chegou a matraca, chamavam a maquininha. Antes você plantava, mas você plantava de enxada. Fazia cavucando, ia e botava. Nem adubo não usava naquela época não. A terra era boa. Você plantava e não ia dando.
R: Vocês cantavam, brincavam durante a plantação? Como era?
R: Não, não, não. Antigamente fazíamos, era mutirão. Então se estava aqui na sua roça, no mato, aí juntava aquele pessoal lá, juntava aquele tanto e aí ia fazer mutirão. Aí ajudavam você. Só que aí você tinha que fazer a comida pra todo mundo. Depois tinha a festa de noite, o pessoal tocava a sanfona e dançava lá. Chamava mutirão.
P2 - Vocês cantavam alguma música nos mutirão?
R: Eles cantavam, vixi cantavam. Tinha tanta música por todo lado.
P2 - Cantava o que? Você consegue lembrar o que cantava?
R: É música antiga. Música antiga. Música sertaneja antiga.
P2 - Você poderia cantar uma pra gente, se não for pedir muito?
R: Deixa eu ver se eu recordo alguma antiga. Lembrei uma aqui.
“Abra a porta e a janela, venha ver quem é que sou. Sou aquele desprezado, que você me desprezou. Chora morena, morena chora. Chora morena que amanhã eu vou embora.”
P2 - Você dançava forró, essas coisas?
R: É, eu ouvia sanfona. E era Pé de Bode, chamava pé de bode. Oito baixos daquela época.
P2 - Pé de Bode? O que é Pé de Bode?
R: Pé de Bode é uma sanfoninha pequenininha. Ela não é de taletas, não, era de botão. Nós temos ela ainda, chama Pé de Bode. Agora, depois de se chamar Pé de Bode, passou para Oito Baixos, que é a de botão.
P2 - Era bom plantar nessa época lá?
R: Era, porque não tinha muitos insetos, a terra era boa. Hoje não. Hoje, se você não botar veneno na terra, não dá. Tem que botar remédio na terra, depois passa o trator naquele trem. Naquele tempo não usava trator, era enxada mesmo. Hoje, você plantou lá, vai só colher, né? Vai só colher. Ainda bota veneno para poder amadurecer e veneno para secar. O que eu ia ter nessas sojas aí? É tanta coisa que eles põem, né? Antigamente não, você esperava amadurecer, esperava para colher, eles faziam uma banca. Igual ao arroz, você batia na banca, depois, você ia e ensacava. E pra carregar esses trens, era no lombo do cavalo. Tinha cangaia, bruaca, aquele negocinho que carregava para as casas da gente. Era difícil! O povo falava que era fácil, mas não era não, antigamente era difícil demais da conta, moço, a vida.
P1 - Que mais que era diferente de hoje em dia?
R: O transporte era no lombo do cavalo. Hoje não, hoje tudo é no carro. Antigamente era no lombo do animal. Aí o povo fala que era mais fácil, mas antigamente era muito difícil. Hoje não, hoje, você planta uma lavoura aí, você joga a semente lá na terra, só vai colher depois e ensacar, já tem até as máquinas para ensacar. É perigoso até ter para costurar o saco, antigamente você costurava com a mão, hoje não, já tem as máquinas que você passa a linha e costura o saco.
P1 - E como era o namoro antigamente, assim, pra você, por exemplo, ela, você casar, como é que...
R: Naquele tempo era escrita uma carta, porque não tinha telefone. Quem conhecia o telefone? Ou então era um conhecido, mandava recado, alguma coisa assim. Mas era muito difícil.
P1 - Como foi que você casou com a sua esposa?
R: Quando eu casei? Rapaz, eu nem lembro, faz muito tempo, rapaz, que nos casamos.
P1 - Mas foi como que você se apaixonou por ela? Que você conquistou ela, você lembra?
R: Rapaz, eu nem lembro não. Mas é porque a gente já se conhecia, quase nos criamos juntos. Eu sou mais velho que ela um pouco, acho que uns oito anos, mais ou menos, assim. Mas é porque eu não conhecia ela, ela não era daqui, ela nasceu em outro lugar. Mas ela veio pra cá e a gente se conheceu.
P1 - E já ficou junto de cara?
R: Não, não. Nós casamos mesmo. Casamos no cartório. Nós nos casamos em 1974.
P1 - Tem uns dias já, né?
R: Tem uns dias.
P1 - E como foi o casamento do senhor?
R: Como foi?
P1 - Teve alguma celebração?
R: Teve, nós fizemos uns três casamentos. Teve festa, o pessoal tocou, os parentes dela tocaram sanfona. Então eu fiz festona, assim. Teve banquete, jantar, essas coisas assim. Foi muito bom. Muita gente. Inclusive, quem fez a festa foram os parentes dela, moravam todos lá em Alto Paraíso.
P1 - Seu Louro, qual que você sente que foi a coisa mais difícil que você passou na vida?
R: Foi doença. Só isso. Porque eu já fiz umas quatro cirurgias, assim, passei, mas graças a Deus tô andando. Operei na cabeça, operei a barriga umas duas vezes, mas tá de boa. Ela também já fez cirurgia. Para ela a coisa mais difícil nem foi a cirurgia, que ela sentiu uma dor aqui, com poucos minutos meu gênio chegou, levou para o Alto Paraíso, aí lá, fez um exame meio rápido. Aí chegou: “Nós temos que ir para Uruaçu.” Mas terrível foi a viagem de Alto Paraíso para Uruaçu, que tinha um pedaço de chão lá e ela sofreu demais com o pessoal na ambulância. De lá ela já ficou. Quando ela foi, disseram que ela ia fazer um exame, quando ela chegou já ficou lá internada, já foi fazer uma cirurgia, uma tal de apendicite. Aí eu fui cinco vezes lá, mas já não fui pela saúde, fui mesmo, eu mesmo me levei, porque um sofrimento. Foi lá, minha neta foi e deixou o neném, pensou que era só para fazer o exame, chegou lá: “Não, ela fica aqui, vai ser operada.” Aí eu tive que ir lá em Uruaçu, buscar a neta que deixou o nenenzinho e deixar minha filha lá, são 254 quilômetros daqui até lá, é longe demais! Eu fui cinco vezes, lá, nessa viagem. O mais difícil foi a doença, mas nada, graças a Deus, o resto tudo, a gente trabalhava.
P2 - Louro, você tem vizinhos aqui, parentes que você gosta mais?
R: Quase todos eles me tratam… Os mais novos me chamam de tio. Todo mundo me chama de tio. Inclusive, eu tenho um vizinho que é o pai dele é irmão do meu sogro. Dizem que onde a gente mora, a gente tem que ter amizade com o vizinho, a gente não pode ser inimigo do vizinho, porque uma hora, quando você tá gritando, o vizinho te acode. Aí a gente tem que ter amizade com o vizinho. Por exemplo, a família da minha esposa, é tudo uma família só. O próximo aqui também, que é na outra casa de lá, o pai dele é irmão do meu sogro, aqui todos são família. E eu tenho muita convivência com os vizinhos.
P2 - Como você conheceu a dona Flor?
R: Conheci. Eu tenho uma mãe, sabe? Ela é minha sogra. Eu sou casado com a primeira filha dela e a gente tinha uma boa convivência.
P2 - Como que ela era? E o que ela fazia?
R: Ela fazia de tudo. Era parteira, inclusive, minhas três filhas, ela fez o parto aqui, nasceu aqui, aqui mesmo, aqui no povoado, não foi em hospital. Ela fez o parto dela aí. E minha esposa também ajudava em parto, muito. Ela é parteira também, minha esposa.
P2 - Você teve medo nesses partos?
R: Não, não, não. Porque a gente já tinha acompanhado, a gente levava no médico e deu tudo certo, ganhou aqui mesmo. Todas as três filhas nasceram aqui. Inclusive a minha neta, dois filhos dela nasceram também em Alto Paraíso, só foi pra lá em Planaltina pra fazer aquele negócio de pezinho. Mas foi tudo normal.
P2 - Agora você, como é que você se sente no mato, quando você está por aqui?
R: Eu me sinto feliz, que até o momento ainda está bom. Quando vem a época das frutas, você pega aqui à vontade, igual a manda, pega na porta aí. Bem feliz! Porque, inclusive, a única coisa, igual aqui no povoado, até 10 horas você ainda escuta alguma coisa, depois, você só vê o galo cantar e mais nada.
P1 - Quando você era novo, você caçava?
R: Não.
P1 - Nunca caçou?
R: Não, nunca gostei dessas coisas.
P1 - Mas você se embrenhava assim no mato?
R: Ah, no mato? Porque eu nasci e criei no mato.
P1 - Você ia fazer o que no mato?
R: Rapaz, a gente mexia com roça, a gente passava pelo mato mesmo.
P1 - Teve algum dia dessas andanças no mato que aconteceu alguma coisa diferente que você lembra, assim, encontrou algum bicho, se perdeu?
R: Já, já vi onça. Me perder, não me perdi não, mas já vi... Só vi um... Lembro disso como hoje, eu era menino, nós fomos pegar... Um rapaz fez umas cinzas. Cinza sabe o que significa? É cortar uma árvore, aí põe pra queimar e faz aquela cinza pra você fazer sabão. Naquele tempo você fazia sabão para lavar roupa sem botar soda. Aí faziam tipo um estaleiro e colocavam as cinzas, tirava aquele negócio pra fazer o sabão decoada, chamava decoada. Aí eu ouvi um barulho, lembro disso como hoje, aí um outro menino que meu pai criou, era mais velho, ele falou assim… Foi até uma pessoa que tinha morrido. Ele falou assim: “É ele que vem trazendo as coisas da chapada, cavalo da chapada.” Era tipo uma visagem, aquele barulho “Uuuuuu”, assim. E veio até perto da gente, mas a gente não era mais menino, não tínhamos medo, sabe? Aí veio, veio, veio e até parou, o animal, porque a gente estava carregando as cinzas, era um cavalo. Até tombou o cabelo da gente. Tinha que ver aquilo ali, tipo um (00:29:20) aquele negócio, sabe? Sabe que veio, veio até perto da gente, assim, ó, se a gente tivesse com medo, a gente tinha corrido, mas não tínhamos medo. A gente se criou com essas coisas daqui. Aí ele falou assim: “Isso é fulano que morreu.” Ele era mais velho e a gente era mais novo, e falou assim… Ele se chamava até João, ele falou assim: “Foi o João que morreu, rapaz.” (00:23:05). Foi, nós ouvimos esse barulho. Agora, bicho do mato tem muito, onça, essas coisas.
P1 - Como foi quando você viu onça?
R: Hã?
P1 - Como foi quando você viu onça?
R: Umas quatro vezes a gente viu. Eu vinha lá descendo na Serra da Laranjeira. E depois queria ir para o Alto Paraíso, rapaz, ali onde tem aquelas rotas ali assim, sabe? Naquela época, lembro disso como hoje, aí eu já tinha carro. Eu já tinha carro na época. Lembro disso como hoje, era num horário de verão. Aí tinha furado o pneu e estava chovendo, uma chuvinha e ainda estava escuro ainda. Eu lembro disso como hoje, eu falei: “Oh, se essa onça chegasse aqui pra gente…” A gente estava brincando, a gente não pode nem brincar e nem nada. “A gente dá um tiro nela”. Eu estava com ele e o menino, eu e esse rapaz aqui, que é o vizinho. Quando eu liguei o farol do carro, bateu bem na cara dela, rapaz. Ela estava pertinho de nós, assim. Nós olhamos pra cara dela, assim, ela foi e subiu o barranco, assim. Mas não tinha nada na arma, não, só pra falar que nós dávamos um tiro. Ela passou bem assim, onça pintadona.
P2 - O senhor já viu muita visagem?
R: Não.
P1 - Não acredita não?
R: Não, não. Se eu acreditasse, eu via. Você sabia? O negócio é você acreditar. É igual a água. Você está com uma dor, bebe um gole agora. A mulher me ensinou, quem tem problema com pressão, aí esses dias a pressão estava alta, aí eu tomei o remédio, a menina falou assim: “Beba água.” Aí agora eu tô na água, na água, entendeu? Dá certo. Mas se você acreditar, você vê. É muito difícil. Você vê um barulho, você fala assim: “Moço, é alguma coisa.” Não pode acreditar, se você acreditar, você vê mesmo.
P1 - Mas você sabe a história de povo que via?
R: Eles contavam pra gente. Fazia medo na gente. Falavam que tinha visto aquelas coisas, que viam quem morreu, que aparecia. Mas não.
P1 - Quais são as lendas? Você conhece as lendas aqui da comunidade?
R: A lenda que eles contam é que quem morreu voltava, assim, para fazer medo. Aquele pessoal todinho, aqueles pessoal mais antigos, eles iam pra roça e lá acendia aquele fogo, a gente ia pro meio do fogo eles iam contar aquelas histórias. Tinha uma mulher aqui que contava tanta história, que você ficava com medo de noite. Eu ficava só escutando. Ela se chamava Durvalina, mas ela contava histórias. E ela contava o negócio de uma cachorrinha que era milagrosa, aí vinha um bicho que matou essa cachorrinha e botou lá. Ela falava pra gente. E aí contava aquelas histórias assim. E aí até estava até difícil pra acreditar mesmo, sabe? A gente acreditava, mas depois você caia na realidade que aquilo era só ilusão. É que meu pai, ele não acreditava nessas coisas não, ele era uma pessoa que não acreditava.
P1 - E ela contava como? Assim, era todo dia?
R: Não, não. Era principalmente se ela tomava uma pinguinha, aí ela contava e todo mundo achava bom. Se fosse hoje, ela ganhava dinheiro, porque o pessoal gostava dessas coisas, sabe.
P1 - E era na fogueira?
R: Ela acendia o fogo e ia pra lá. Ela gostava de beber. Ela vinha aqui pra casa, minhas netas vinham e diziam: “Durvalina, conta uma história pra nós aí.” Mas ela inventava e contava certinho assim, rapaz. E ela não sabia ler, não. Acho que era descendência de outras pessoas, né? Já ouviu aquela história daquele Geraldinho, sabe quem é Geraldinho? Que ele é o pai do André e Andrade. Rapaz, ele vendia tanta coisa aqui, de bicicleta, tanta da coisa assim. E não dava dinheiro. Quando começou a ganhar dinheiro, morreu, de uma hora pra outra. Quando ele começou a ganhar dinheiro, morreu.
P1 - Seu Louro, como foi que você aprendeu a fazer artesanato, mexer com cabaça?
R: A cabaça já é de descendência, meu pai veio da Bahia e trouxe água na cabaça. Os caras já chegaram com uma cabaça para plantar. Arranjou uma cabaça por aí e trouxe pra plantar. Essa cabaça daqui é lá de Iaciara, meu primo que mandou pra mim, não tem uns 10 dias que ela chegou. Que tem cabaça lá de, como é que chama? Para Trindade, negócio lá de vir pra enterro, que eles falam lá que é negócio de carro de boi. De lá ele trouxe cinco cabacinhas pra mim, assim. De todo lugar tem. Vem de todo lugar. Olha, aquele negócio de palha, trouxeram lá de frente ali, junto daquela lanchonete... Como é que fala? Casa Bela? Aqueles trem lá. Eles acharam bonito lá, trouxeram e botaram aí na parede. Olha lá, um carrinho de coco. Mas cabaça é de descendência do meu pai. Quando ele veio da Bahia, ele já trouxe cabaça.
P1 - Mas seu pai trazia a cabaça. Ele também trabalhava a cabaça?
R: Não, ele trouxe água. Uma cabacinha de pescoço, passava uma corda nela e trazia água para beber na viagem, que era longa. Naquele tempo não tinha essas garrafas pet.
P1 - Fala, o seu pai usava a cabaça pra quê mesmo?
R: Para carregar água, pra beber. Porque naquela época não tinha garrafa pet. A garrafa pet é mais novata, na nossa geração não tinha, naquela época.
P1 - E aí como foi que você começou a falar, vou trabalhar com cabaça também?
R: É porque aqui a gente gostava, rapaz. A gente já plantava na roça, dava, fazia. Inclusive mesmo, tem essas compridas, essas são de alimentação, sabe? Chamam a broa d'água. Aqui tem mesmo, tem cabaça aqui, que ela é aquela redonda ali, ela chama caxixe. Aquela lá, ó. Você tira ela verdinha, é a mesma coisa que você comer a... É melhor do que chuchu. Aí ela seca e vira cabaça.
P1 - Mas como foi o primeiro, você lembra, o primeiro trabalhinho de cabaça que o senhor fez?
R: O primeiro foi pra carregar a água. Não tinha filtro naquela época. Você colocava a água na cabaça e bebia. Ficava brilhantina. Só que aqui foi acabando e já veio o filtro, mas o mais forte naquela época era a cabaça, era usar cabaça mesmo pra toda coisa, você botava água, pra tudo. Até fazer... Como é que se chama aquele negócio de fazer cuscuz, cuscuzeira? Você fazia de cabaça. O prato, você botava... Não tinha... Você botava água na panela e botava o... Naquele tempo não tinha estalo de milho, era fubá de milho. Você botava o milho, quando você não ralava o milho verde, você botava o milho pra fubá, você põe o pilão, tirava o fubá, aí você botava, preparava na cunha, e botava um pano na boca da cunha, e emborcava na boca da panela para poder ferver, que não tinha cuscuzeira não, moço. Hoje não. Mas você podia, vamos supor, tem uma cuinha redonda, você enchia de fubá… Chamava fubá mesmo, não era cuscuz. Hoje já vem preparado. Você tirava o fubá e botava o pano na boca, emborcava na beira da panela e fervia. Olha aqui, igual essa cabaça aqui, você cortava ela aqui, aqui você amarrava uma corda aqui e ia embora. Meu pai trouxe uma cabaça igual essa aqui, só era menor. Aqui era uma corda, embira de embiruçu. Tirava… Embiruçu é uma árvore que tem no mato. Tirava a corda dela, fazia e carregava.
P1: E aonde é que vocês pegavam a água?
R: Água? No rio. Aqui tinha rego. Só que aí depois que cortou o rego e encanou a água. Mas era no rio mesmo.
P1 - E quais são os tipos de trabalho que você faz com a cabaça hoje em dia?
R: Faço reco-reco, chocalho. Isso aqui é uma cabaça. (barulho da cabaça)
P1 - Conta pra gente qual é o trabalho que você faz com a cabaça.
R: Faz o reco-reco, faz o chocalho. Esse aqui é o reco-reco, aqui é o chocalho, é da cabaça. Esse aqui é a parte, essa pontinha aqui, era daqui, era o bico dela, a gente cortou aí fez o chocalhinho. Isso aqui é um bambu, que a gente mesmo planta e aí coloca. Essa parte aqui, tá vendo aqui? Isso aqui é uma cera de abelha. Essa cera é lá do Calunga. Eles vendem na clínica. Olha, é uma cera aqui, olha. Uma cera colada. Isso aqui é um cabo de vassoura, essas vassouras que vem a rodo, ao invés de jogar fora, a gente recicla. Isso aqui é a lágrima, que eles falam, lágrima de Nossa Senhora aqui dentro, você põe dentro do chocalho. Isso aí é um pedaço de cabo de rodo reciclado. Isso aqui é uma cera de abelha.
P2 - Louro, você toca? Que música toca?
R: (Tocando chocalho) Pode acompanhar capoeira. Eu não sei tocar capoeira. O reco-reco aqui. Vou tocar uma música aqui.
P2 - Se puder tocar ou cantar uma pra gente.
R: Pode tocar um corinho? Pode?
“Estava triste, quase a chorar, e uma pomba lá do céu me fez chorar. Estou alegre, estou contente, pois Jesus Cristo me tirou de uma serpente.
2x Jesus te ama, Jesus te chama, oh, vem agora. Vem agora, pecador que está lá fora.
Eu tenho um amigo que me ama, seu nome é Jesus. Eu tenho um amigo que me ama, seu nome é Jesus.
P2 - Seu Louro, você acredita no Senhor?
R: Acredito em Jesus.
P2 - Como é que é a sua relação com Ele?
R: Uai, todo dia que a gente levanta, a gente agradece, não é só por agir, é para todos. Igual vocês aqui hoje, nós estamos nos conhecendo aqui. Hoje mesmo à noite a gente tem que agradecer que você esteve aqui em minha casa, conheci vocês. Que Deus abra as portas pra vocês, leve vocês em paz aonde vocês estiverem. Chegar no lugar que vocês querem chegar.
P1 - Seu Louro, você não apresentou aquela ali, aquela ali é original.
R: (risos) Isso aqui é uma bolsa de cabaça. Pode ser do jeito que você quiser inventar. Às vezes quer guardar a chave do carro aqui dentro, fecha ela aqui dentro. Você pode deixar aqui dentro, pendurar ela assim, como uma bolsa de cabaça. É muito bom, porque aí a pessoa pode usar, fazer o que ela ver que está certo.
P1 - Como é que você teve a ideia de fazer essa bolsa?
R: É para não estragar a parte de cima da cabaça. Quando jogaram a cabaça fora, a gente guardou, né? Inclusive, aquela cabaça ali, um senhor lá na roça abriu um buraco nela pra passarinho pousar. Essa aqui. Aquela ali eu cortei ela, porque um rapaz pediu a semente dela. Aquela ali que tá pendurada também, ela tá meio engelhada, mas eu vou cortar a semente pra doar pra um outro rapaz que pediu. Aquela foi para Monte Alto, a semente ali. Teve um negócio de semente aqui e lá não produz cabaça. Aí eu falei, “Olha!”. Ele: “Não, nós vamos trocar”. Eu falei: “Não. Leva pra você produzir”. Eu levei. Cortei um bocado de cabaça e fiz esses produtos, porque lá não tem, você não vê muita cabaça, não. Só na praia de lá. Agora um rapaz falou que em São Paulo tem muita cabaça, você vê, lá pra... Como se chama? Curitiba. Foi lá, um negócio de Angola, teve um capoeirista aí que falou: “Eu queria uma cabaça para produzir sementes”. Falei: “Pode escolher semente aí”. Eu fui, cortei as cabaças. Tem muita cabaça, sabe? E esse ano, com fé em Deus, ainda vai dar muito. Um pé de cabaça desse menor, ele dá umas cento e vinte, cento e trinta cabaças. Inclusive, eu já colhi cento e trinta cabaças aí. Eu tenho cabaça desse tamaninho, dá pra fazer chaveiro aí dentro. Estou com um bocado para fazer chaveiro, porque dá muito, produz bastante.
P1 - Seu Louro, você sonha? Quando você dorme, você tem sonhos?
R: Tenho sonho.
P1 - Tem algum que você possa contar pra gente? Algum sonho que você teve?
R: Algum sonho? Não, sinceramente, não foi um sonho, sabe? Foi assim, quase uma realidade. Aí um senhor, lá de Alto Paraíso, ele trabalha naquele hortifruti ali perto do cemitério. Ele passou aqui: “Oh, Louro. Eu vou fazer uma campanha.” Até muita gente não vai acreditar nisso. Veja bem, “Eu vou fazer uma campanha aqui.” Ele veio visitar aqui na igreja. Aí ele falou: “Vou fazer uma campanha aqui, de uma flecha.” Significa assim, no livro, lá na bíblia, de uma flecha, aí você vai apontar aquela flecha no que você tá pensando. Olha o que é uma coisa, parece até brincadeira. Esse menino que estava no caminhão aqui, que passou aqui, ele era meu colega. Aí o irmão dele estava lá em Alto Paraíso, aí ele falou assim: “Louro”. Eu estava até com um carro, um palio, né? “Você quer vender esse carro?” E eu falei: “Tô pensando em vender esse carro.” E eu pensei logo na campanha, que ele falou assim: “Você aponta o que você quer fazer.” Eu já apontei no carro. Eu falei: “É no carro que eu quero apontar.” E o meu carro era um carro muito bom, sabe? Carrinho novo, ele era de 2016, sabe? E bom! Aí eu passei no bar pra sentar e decidir. Eu falei: “Vendo”. “Quanto você quer nele?” Eu falei: “Eu quero 38 mil.” Porque eu já tinha feito 38 mil. “Eu tinha te pedido 40, não... 38 mil.” Ele falou: “Então faz assim, amanhã dá pra você vir aqui? Eu vou comprar esse carro. Você vem cá, pra fazer o procedimento do banco.” Falei: “Eu venho.” Aí eu fui. É quase igual a um sonho, sabe? Mas foi uma realidade mesmo. Aí eu lembrei da flecha que ele apontou aí. Ele mora lá em Alto Paraíso. Ele falou assim: “Você aponta no que você vai fazer”. Aí eu fui. Quando foi… Aí ele me ligou e falou: “Você tem que ir lá em Sobradinho para nós tirarmos foto dele, pra poder o banco aprovar.” Eu falei: “Não vou não. Não vou não. Eu vou ficar aqui em Alto Paraíso. O que eu vou fazer lá? Não vou não.” Aí nós conseguimos ir aqui no menino que mexe com empréstimo. Aí foi lá, tirou as fotos, pediu os procedimentos, procedimento. Aí falou assim: “Foi aprovado. Daqui uma meia hora o dinheiro tá na conta”. Foi certinho, rapaz. Não foi um sonho? Foi um sonho. Porque eu acreditei. Ele passou aqui em casa, e não tinha nada a ver. Ele falou: “Louro, você vai?” Ele trabalha no hortifruti lá em Alto Paraíso. Ele falou assim: “Vamos fazer uma campanha, é uma flecha, você vai apontar no que você quer fazer”. Aí eu apontei no carro, mas não estava acreditando que eu ia fazer o negócio e deu certinho. Aí eu fui, ele deu outro procedimento. Aí liguei pro meu filho, falei: “Olha, meu filho, aconteceu isso, isso, isso, e eu estou a pé.” E ele falou: “Não pai, eu vou ver se eu compro um carro pra você aqui.” Aí foi, ele foi fazer os procedimentos lá, fez, a cunhada dele mexia lá com a gente. Aí eu estava precisando carregar uma coisa, que eu gosto de mexer com galinha, aí ele viu uma Strada, inclusive ela tá até aqui, a Strada. E deu certinho, foi um sonho que eu apontei, o menino, parece que Deus mandou ele lá, ele mora lá, trabalha lá em Alto Paraíso. E disso foi um sonho. Eu não estava nem pensando nesse sonho. Ele chegou aqui, foi no domingo, falou assim: “Nós vamos lá na igreja, vamos fazer uma campanha lá, rapaz.” E juntou gente, rapaz. Falou assim: “Olha, cada um vai levar um pedacinho de bambu.” Olha, parece uma coisa. “Você vai apontar no que você quer fazer.” Foi isso. Deu certo. Está com 15 dias hoje. Deu certo. E ontem eu topei com ele, e ele falou: “Oh, mas eu estou alegre com o carro. Carro original, rapaz! Nem pino tinha sido tirado. Carro bom, bom, bom.” Um palio, ele era todo completinho, rapaz. Mas é tão bom, ele está alegre lá em Alto Paraíso com o carro. E eu alegre também aqui. Não foi um sonho? Foi sonho. Porque eu não estava pensando, aí ele veio. Deus usou ele lá, pra ele vir, porque ele falou assim: “Nós vamos fazer uma campanha”. Ele é evangélico. Foi um bom sonho. Ele falou assim: “Nós vamos lançar uma flecha”. Davi foi uma funda, né? Ele falou assim: “Nós vamos lançar essa flecha.” E pontei lá e deu certinho. Foi um sonho. Pronto.
P1 - Tem mais algum trabalho que você faz além das cabaças?
R: Horta. Mexo com cebola, planto alho. Acabei de plantar um monte de cebola, tem que botar no sol, cebola branca.
P1: Como é que você começou a trabalhar com horta? Qual é a dificuldade? Como é criar horta?
R: A dificuldade é por causa da idade agora, por causa de fazer os canteiros, que eu tenho que pagar, né? Não aguento mais. Minhas pernas doem, assim. Mas eu ainda ponho esses banquinhos. A altura dos banquinhos, são pequenininhos. Esse que você está sentado é um banquinho. Estamos sentados no banquinho. É por causa da perna. Olha, ele achou bom que ele estirou a perna também.
P1 - Você que fez esse banquinho foi?
R: Foi. Olha, ele estirou as pernas. Ele achou bom que ele estirou a perna também. É baixinho. Aí eu vou lá para a horta e mexo nos canteiros com o banquinho.
P1 - Você já construiu uma casa? Já construiu alguma casa?
R: Se eu falar para você, eu nunca levantei uma lajota, mas eu trabalhei na prefeitura e eu, de planta, se você mudar uma janela daqui, uma porta pra acolá, eu sei, porque eu pratiquei, sabe? Trabalhei 28 anos lá na prefeitura, eu era fiscal de obra. Se eu chegar em uma obra sua, eu sei que às vezes você mudou essa porta pra acolá. No papel eu tenho prática, mas sentar uma lajota eu não tenho. E tenho prática. Em obra, é só na prática, na obra. Porque criei, 20 e tantos anos mexendo com obra, sabe? Mas se for pra levantar uma lajota, eu não sei de jeito nenhum. Mas no papel, é vapt-vupt. Lá dá fossa séptica, até chegar na modulação, é na prática, sabe? Foi prática mesmo. Inclusive, quando eu trabalhei, tinha um menino lá que era engenheiro e tinha um diploma, falou: “Nós vamos trabalhar juntos.” Falei: “Não, você sabe, rapaz, mais que eu.” Falou: “Não, eu tenho um diploma, mas agora nós vamos começar juntos. Porque eu me formei agora como engenheiro, mas nós vamos trabalhar juntos.” Aí nós fomos na Fossa Séptica, que faz aqui, outra assim, assim. Aí nós trabalhamos quatro anos juntos. Eu aprendi com ele, ele aprendeu comigo. Só porque ele era formado e eu não era formado. Mas aí deu certo. Mas não sei levantar, não. Não levanto. Mas no papel, se você me mostrar assim, eu sei tudinho o que você fez.
P1: Louro, e qual foi a coisa mais diferente que já aconteceu na sua vida? Que você falou: “Rapaz, que coisa que tá acontecendo?”.
R: Mais difícil?
P1 - Diferente.
R: Ah, diferente?
P1 - Teve essa história do carro que você contou, que foi um sonho. Teve alguma outra história assim?
R: Diferente? No momento eu não lembro não.
P1 - Não se lembra?
R: Não. Vou contar. Nessa época eu trabalhava na educação. Eu fui pra educação e depois fui pra saúde. Quando eu estava na educação, eu fui fazer um treinamento lá em Formosa e lá eu topei um senhor… Naquele tempo a gente não falava pousada, não, era pensão. Ele me perguntou assim: “Onde fica a pensão Ramos aqui?” Eu vinha dela, rapaz. Aí eu falei: “Na outra rua.” Aí ensinei o cara errado. E aquilo martelou, né? Aí no outro dia eu ia tirar um xerox, que naquele tempo era difícil, hoje não, em todo lugar tem um lan house ou alguma coisa, né, que tira uma xerox. Onde tirava o xerox era bem difícil, só lá no cartório. Aí eu perguntei: “Onde é que fica o lugar que a gente tira uma xerox dos papéis? Um cartório?” Aí tinha um senhor lá, eu perguntei, ele falou assim: “Lá na outra rua”. No mesmo dia que eu ensinei o cara aqui, ele não viu que ensinei o cara errado. Aí o cara me ensinou errado, não tinha nada a ver também. Mesma moeda. Do mesmo jeitinho que eu ensinei o cara errado, o cara me ensinou errado também.
P1 - Aprendeu errado, ensinou errado.
R: E foi. Naquela época não tinha, igual, lá em Alto Paraíso também não tinha onde tirar e eu estava lá em Formosa, estava fazendo um treinamento lá. Pois eu ensinei o cara errado, onde era, naquele tempo chamava-se pensão, Pensão Ramos e eu vinha de lá. Ensinei o cara errado. Falei: “Não, não, é na outra rua”. Sacanagem. Aí quando eu perguntei ao outro rapaz lá, que não tinha nada a ver, onde é que ficava o cartório para tirar a xerox, ele falou assim: “Nessa outra rua”. Do mesmo jeitinho. Aí foi o besta pra lá. Eu ensinei o cara pra cá errado, o cara me ensinou errado pra acolá, pra outra rua. Do mesmo jeitinho. Foi essa coisa. Eu recordei aqui, agora no momento.
P1: Louro, aí você tá contando uma história que você aprendeu errado e ensinou errado. Agora, qual foi a coisa mais preciosa que você aprendeu?
R: Aprendi que aqui eu conheci vários amigos. Primeiro, inclusive, agora na pandemia, que eu não tinha concluído meus estudos, aí eu vim embora lá da prefeitura, porque não podia mais trabalhar, né? Eu me aposentei, mas trabalhei quatro anos aposentado lá. Aí porque veio o Corona, eu não podia vir, né? Aí tinha as meninas lá do PEART, eram muito minhas amigas, a gente se conhecia lá demais, falaram assim: “Louro, vamos estudar.” Eu falei: “Não, vamos embora.” E aí tinha, parece que eram 16 alunos aqui, né? “Vamos, bora terminar os estudos. Vamos, bora terminar.” Aí eu falei: “Vamos embora.” Aí eu fui. Aprendi que quando eu era menino, o Brasil tinha 22 estados. Aí depois, agora, já aumentou mais, né? Acho que são 26, 27 estados. Inclusive, quando eu estudei, igual, Mato Grosso se dividiu, né? Mato Grosso ou Mato Grosso do Sul, Campo Grande. O Acre era um território na época, hoje é um estado. O Goiás, dividiu ele, né? E o Tocantins naquela época não tinha. Quando era menino, aprendi, né? E terminei esse ano, inclusive, minha professora, que sempre, toda matéria que ela mandava pra mim era negócio do Corona, Corona, Corona. Eu falei: “Eu vou largar isso tudo pra lá”. E aí tinha uma menina que era diretora, ela falou: “Não, Louro. Vamos terminar.” Ela morreu lá na Bahia, na lancha. Você ficou sabendo, uma que morreu lá na lancha? Ela morava em Alto Paraíso, que era a mulher do João Yuji, que foi candidato. Era minha professora. E eu fiquei muito chocado com aquilo, sabe? Nós tínhamos terminado os estudos e ela foi pra Bahia, morreu lá na lancha, lá na Bahia. Ele deve conhecê-la.
P1 - Mas assim, aprendizado com a terra mesmo, o que você sente que é?
R: Ah, com a terra? Com a terra eu aprendi naquela época, mais do que agora, porque agora, se você não botar adubo, não dá. Na terra antigamente era melhor. Hoje a terra virou fraca, ficou fraca demais. Inclusive agora tem que botar adubo. Antigamente você fazia adubo de folhagem, né? Produzia cada cabeça de cebola, eu lembro demais. Hoje não, se você não botar adubo de vaca mesmo, põe adubo de vaca e coisa que você queima e cinza, joga cinza, tudo, joga cálcio, tudo pra fortalecer e ainda dá doença.
P1: Louro, muito obrigado por contar a sua história. O que o senhor achou de contar essa história aqui um pouquinho pra gente?
R: Não, foi bom que eu conheci vocês, foi muito bom. Aquele ali já faz parte da minha família, aquele rapaz ali de boné, sempre. Ele não conhece, mas a mãe dele é da minha família, sabe, tudo dali, né? Tem esse outro menino que estava aqui também, conheci a família dele, que é daqui também, daqui do povoado. Eu esqueci o nome dele.
P1 - Arthur.
R: Ele é daqui. Foi muito bom. E foi muito bom vocês me procurarem aqui. Não foi ruim, não.
P1 - Obrigado, mestre.
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