Projeto Diversidade Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Mestre Tagibe
Entrevistado por Sofia Tapajós e Jéssica Campos
Cariacica, 26 de fevereiro de 2026
Código: DCC_HV003
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Mestre, obrigada pelo seu tempo, pela sua disponibilidade.
R – Sim.
P/1 – Queria começar perguntando o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Pois é. Meu nome completo é Itagiba Cardoso Ferreira, mais conhecido como Mestre Tagibe,, em referência aqui à banda de Congo, né? Então, eles me chamam muito de Mestre Tagibe. E minha região aqui é Roda d'Água, né, é… município de Cariacica. O nosso objetivo aqui é trabalhar com o Congo, porque o Congo, ele traz muita coisa boa pra gente. Eu mesmo não estudei muito, mas fui educado mais pelo Congo, pelo meu pai, que o meu pai me ensinava o que a gente tinha que fazer, o que não tinha, tinha que respeitar as pessoas. Então, isso pra mim foi tudo na minha vida.
P/1 – E quando você nasceu?
R – Nasci em 12 de outubro de 1948.
P/1 – E qual que é o nome dos seus pais?
R – Manuel Ferreira, mais conhecido como Gabiroba, Mestre Gabiroba, e minha mãe era Olga Cardoso Ferreira.
P/1 – E que lembranças você tem deles?
R – Tenho muitas, né, porque traz muita coisa boa pra mim, na minha memória, né? Por exemplo, essa casa do Congo aqui, eu nasci dentro da casa do Congo, feita por ele, meu pai. Então, pois, cresci dentro da casa do Congo, criei meus filhos dentro da casa do Congo. E essa lembrança não vai sair nunca, porque foi um legado do meu pai que eu peguei, né? Então, tô aí.
P/1 – Você tem irmãos?
R – Tenho, tenho cinco irmãos. São cinco homens e quatro mulheres, mas a maioria já faleceu, entendeu? Hoje, eu tô só em uma irmã e um irmão.
P/1 – Voltando pros seus pais, você sabe como eles se conheceram?
R – Minha mãe? Aí, é difícil, né? Aí, é difícil, mas deve ser um olhar, né?...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Mestre Tagibe
Entrevistado por Sofia Tapajós e Jéssica Campos
Cariacica, 26 de fevereiro de 2026
Código: DCC_HV003
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Mestre, obrigada pelo seu tempo, pela sua disponibilidade.
R – Sim.
P/1 – Queria começar perguntando o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Pois é. Meu nome completo é Itagiba Cardoso Ferreira, mais conhecido como Mestre Tagibe,, em referência aqui à banda de Congo, né? Então, eles me chamam muito de Mestre Tagibe. E minha região aqui é Roda d'Água, né, é… município de Cariacica. O nosso objetivo aqui é trabalhar com o Congo, porque o Congo, ele traz muita coisa boa pra gente. Eu mesmo não estudei muito, mas fui educado mais pelo Congo, pelo meu pai, que o meu pai me ensinava o que a gente tinha que fazer, o que não tinha, tinha que respeitar as pessoas. Então, isso pra mim foi tudo na minha vida.
P/1 – E quando você nasceu?
R – Nasci em 12 de outubro de 1948.
P/1 – E qual que é o nome dos seus pais?
R – Manuel Ferreira, mais conhecido como Gabiroba, Mestre Gabiroba, e minha mãe era Olga Cardoso Ferreira.
P/1 – E que lembranças você tem deles?
R – Tenho muitas, né, porque traz muita coisa boa pra mim, na minha memória, né? Por exemplo, essa casa do Congo aqui, eu nasci dentro da casa do Congo, feita por ele, meu pai. Então, pois, cresci dentro da casa do Congo, criei meus filhos dentro da casa do Congo. E essa lembrança não vai sair nunca, porque foi um legado do meu pai que eu peguei, né? Então, tô aí.
P/1 – Você tem irmãos?
R – Tenho, tenho cinco irmãos. São cinco homens e quatro mulheres, mas a maioria já faleceu, entendeu? Hoje, eu tô só em uma irmã e um irmão.
P/1 – Voltando pros seus pais, você sabe como eles se conheceram?
R – Minha mãe? Aí, é difícil, né? Aí, é difícil, mas deve ser um olhar, né? Um olhar, assim, apaixonado e deu o clima pra eles. Então, deve ser isso. Porque saber onde eles… eu não sei, não.
P/1 – E seus avós? Chegou a conhecer?
R – Ah, meus avós eu conheci. Meus avós eram gente boa. Meus avós eram muito bons pra gente. Então, minha avó e meu avô me ensinaram muita coisa boa, né? Principalmente do congo, né? Então, a maioria eu aprendi com ele. Como é que fazia o Congo, como é que a gente cantava, qual era o ritmo, então aprendi com meu avô. Tirei um pouco do meu pai e um pouco do meu avô. Ele passou pro meu pai, meu pai passou pra mim e eu terminei aprendendo com meu avô.
P/1 – E seus avós ou seus pais te contavam alguma história?
R – Contavam. A história mais falada aqui de Roda d'Água era o João Bananeira, né? Porque o João Bananeira eram os negros que fugiram na época lá de Queimado vieram morar aqui na cabeceira de Roda d'Água, aqui no meio da mata, em Roda d'Água. E eles faziam o batuque deles, né? A caminhada deles com os tambores, tocando tambor. Então, um visitava o outro. Então, tal dia eles tinham o encontro deles, “tal dia nós vamos tocar na casa de fulano de tal”, de um escravo qualquer lá. Aí, se organizava e fazia… e fazia essa caminhada pra lá. Então, eles tinham um senhor deles que governava eles, que queria participar do Congo. Mas não podia, porque ele era chefe dos escravos, como é que ele ia aparecer? Então, ele era o senhor deles, não podia aparecer. E o que que ele fez? Ficava perguntando a eles. “Que dia vocês vão sair? Vão fazer a caminhada de vocês aí?” “Vai ser em abril, dia de Nossa Senhora da Penha”, eles falavam. Então, vai ser em abril. Aí, ele ficava assim pensando: “Quando chega? Que horas vocês vão sair? Duas horas, três horas?”. Quando dava esse horário, ele fazia a saia de bananeira, igual tá ali, você tá vendo ali. Fazia ação de bananeira dele, levava lá pro mato, botava lá, guardava lá. A máscara, as meias pra tapar as mãos, botina pra tapar os pés, daquelas bem velhas que os escravos não conheciam, né? Não conheciam. Ficava lá esperando eles virem. Quando eles vinham longe, caminhando, ele se arrumava, ficava ali esperando. Quando eles iam passando, ele pulava no meio, brincava, ia embora brincando com eles. Ia lá na casa do camarada. Quando dava perto de acabar a caminhada deles, ele ia embora na frente, chegava no lugar onde ele tinha se vestido, tirava a roupa, deixava lá e ia pra casa. Quando eles passaram, ele já tava lá na varanda, dizendo: “Como é que foi lá a festa?”. “Ah, a festa foi boa”, mas mentira que ele tava lá dentro também. Entendeu? Então, era isso. As histórias que meu pai contava. Muito legal.
P/1 – E quando você era criança, do que você brincava?
R – Ah, nada. No meu tempo de criança, eu não brincava, não. No meu tempo era trabalho. Eu, com meus dez anos, trabalhava. De meus oito anos pra cima, meu pai ia lá pra cima. Nós tinha um terreno lá no Taquara do Sul. Lá nós tinha banana. Meu pai levava pra lá. “Vamos pra lá pra você ir aprendendo a trabalhar”. Ele olhava e falava comigo, “Óh, vamos pra lá pra você ver como é que você trabalha, pra você aprender. Pra amanhã e depois não ser um qualquer aí. Pelo menos seja um cara trabalhador”. Aí, eu ia pra lá. Ficava lá o dia todo com ele. Às vezes, ficava lá andando à toa dentro dos matos, mas não tinha brinquedo, não. Aqui em, no nosso tempo, ninguém jogava bolinha de vidro, ninguém soltava raio, pião, essas coisas. Ninguém fazia nada. O negócio era trabalho. Então, eu cresci com esse ritmo de trabalhar.
P/1 – E o que você fazia de trabalho?
R – Ah, a gente lá ia pra enxada, né? Trabalhava na enxada. Trabalhava na enxada, na foice. Era o nosso trabalho diário aqui, aqui era isso. Era enxada e foice. Meu pai sempre gostava de derrubar pau no machado, né? Eu já machado não aguentava não, que era muito pesado pra mim. Era só mais enxada que eu fazia o tanto que eu podia, né? E era assim. Ficava esperando. Quando chegava de tarde pra vir embora, eu dizia: “Meu Deus, tô cansado”, né, que era novinho, tinha oito anos. Aí, nos meus dez anos, meu pai já começou a me levar pro Congo. Dizia, “Agora você vai caminhar com nós no Congo”. Eu não tinha o que dissesse, eu tinha que ir de qualquer jeito. Eu podia estar com a barriga cheia, eu podia estar com fome, mas eu tinha que estar lá junto dele. Porque ele falava pra mim, “Ó, onde seu pai tá, meus filhos têm que estar junto”. Aí, eu ia junto pra caminhar com ele. E fui gostando do Congo, fui gostando… que meu negócio mais era o futebol. Eu gostava muito de uma bola. Mas ele não deixava disso, sabe. Só, se o congo não fosse sair, eu podia jogar, eu podia fazer o que eu quisesse. Mas o dia que o Congo fosse sair, “Ó, você não vai pro campo, não”. O campo não era nada pra baixo de eu bater Congo. Aí eu tinha que respeitar mesmo, né? Pra mim era tudo certo, tudo bem. Era assim que ele foi criado. E hoje eu passo com meus filhos, né? “Não quero ir não”. “Onde eu estiver, vocês têm que estar junto comigo. Foi assim que eu fui criado e quero criar vocês assim”. Aí, eles não me dão problema, não.
P/1 – E a casa que você morava quando você era criança, como que era?
R – Era tipo essa aqui, de estuque. Só que tinha repartição né, aqui era uma sala, aqui era um quarto, aqui era a cozinha, outro quartozinho mais pequenininho. Mas era de estuque essa aqui. Naquela época nossa não tinha muita casa de lajota, não. Lajota nem existia naquela época, era tijolinho. Era muito difícil. Eu acho que hoje, de tijolinho, tem duas casas daquela época, que é ali do fazendeiro de Eudenir e lá em cima, do finado Santos. Nem no finado Santos era, era do finado pai de Gilson, José Serrano. Então, vocês só têm duas casas hoje, representando o antepassado aqui nosso.
P/1 – E onde que era essa casa que vocês moravam? Era por aqui?
R – Não. Já era mais quase chegando na Roda d'Água. Não tem a sede do Congo ali em cima, ah, você não conhece, não. Ali a gente chama de Quitango Velho também. Então era Quitango Velho. Nós morávamos no Quitango Velho. Que era do rio pra lá, do rio pra lá, Quitango Velho, pra cá era a Roda D'Água.
P/1 – E você sabe dizer como que era a paisagem desse lugar?
R – A paisagem era quase a mesma, só que era mais banana. A gente tinha aqui em Roda d'Água, era um lugar de muita banana. Não existia cafezal. Hoje, existe um cafezal aqui, e tinha um cafezal do José Serrano, mas era um cafezal embaixo das árvores, entendeu? Então não aparecia muito. Mas a paisagem é quase a mesma. Não mudou muito, não. Então era muita madeira, muito verde, isso aí sempre teve. Então não mudou muito, não.
P/1 – Você falou que você gostava de jogar bola, com quem que você jogava?
R – Ah, joguei com muita gente, né? Tinha muitos amigos jogadores de bola, bons de bola, mas a metade já morreram, né? Mas era um time bom, nós tínhamos aqui em Roda d'Água, um time respeitado. Era um time que tinha muito valor pra a nossa região. Porque também a gente tinha, por exemplo, depois, um certo tempo, eu já fiquei um homem grande, 18 anos, já tirei o documento, aí, fui trabalhar de empregado em uma firma pra jogar bola, lá embaixo. Era o Tristão. Aí, fui pra lá, fiquei trabalhando. Aí, um dia o Tristão acertou um jogo aqui com nós, com eles aqui em Roda d'Água. Aí, eu vim, né? Porque eu já era empregado desde menino, quando eu cheguei ali, que era cercado, pagava pra entrar. Que eu cheguei na porta ali, saltei do ônibus, cheguei na porta ali pra entrar. Meu pai era o porteiro. Quando eu cheguei, ele botou a mão logo no meu peito: “Você vai pra onde?”, “Ah, vou jogar”, “Aqui você vai jogar não. Se você só joga, se for no América”. Então, o time daqui era América. “Você só joga se for no América”. “Papai, eu sou empregado deles. Eu sou empregado, tenho que jogar”. “Não, não tem emprego não, você vai jogar no América”. Aí, fiquei sem jogar. Meu pai não dava colher de chá pra nós, não. E se errasse e falasse demais, era uma surra que a gente tomava. Então, tinha que aceitar o que ele falava. Era muito, muito bom. Mas na hora de trabalhar e falar alguma coisa que agravasse ele, podia saber que de tarde era uma surra. Então, mas foi assim que a gente aprendeu. Então, hoje eu sei respeitar as pessoas. Hoje eu sei como se trata uma pessoa, possivelmente os mais velhos. Hoje não. Eu digo que eu tenho neto aqui. Falo: “Pega aquilo lá pra mim”, “Eu não. Vá lá pegar”. No tempo do meu pai, se falasse assim, já era. Era uma surra. Então, as coisas mudaram muito, né? Tá mudando.
P/1 – Mestre, e escola? Você chegou a frequentar?
R – Tentei, mas não fui muito à frente, não. Sabe por quê? Igual eu te falei, não tinha tempo, não. Eu era o mais velho, né? Então, eu estudava. Às vezes, eu saía daqui de Roda d'Água pra Itacibá, sozinho. Eu e dois burros. Pequenininho, eu tinha meus 11 anos. Chegava no caminho, se o burro desse algum problema, quebrasse alguma coisa, eu tinha que pedir pra pessoa pra me ajudar a fazer aquilo ali, pra poder ajudar em casa, né? Porque meu pai, tadinho, trabalhava lá, era longe, a gente não tinha muitos recursos. Era pequeno. Então, ele cortava a banana lá em cima, botava em cima dos burros, falava: “Oh, agora você vai lá em Itacibá vender essas bananas ali e fazer uma compra lá”. Eu levava as bananas e trazia compra. Vendia, aquele dia fazia as compras. Mas o mais importante que eu achava era uma mula que nós tinha, tal de Queimada, entendeu? Minha mãe, quando a gente tava carregando ela, minha mãe dizia pra ela assim: “Oh, Queimada, lá em casa não tem feijão pra botar no fogo, não tem nada, vê se ajuda nós aí”. Rapaz, você acredita? A mula, botava a carga na mula, a mula saia por aqui abaixo. Quando eu chegava lá no ponto, já tava descarregada, só ia pegar o dinheiro e comprar as coisas, botava dentro do balaio, da bolsa. Ela montava, saia lá de galope, porque, quando eu chegava em casa, já tinha o feijão, tava quase cozinhado, que eu vinha a pé, já tava quase cozinhado. Nunca vi uma mula daquela, não. Quando ela morreu, minha mãe chorou muito. Mas foi isso.
P/1 – Além do feijão, o que mais você lembra que sua mãe cozinhava?
R – Minha mãe... A gente não tinha uma vida boa, não. Era muito difícil. A gente fazia muito, era soteco de banana, soteco de banana, paçoca de banana. Era essas coisas. Era uma vida ruim pra gente. Hoje não, hoje era... Naquela época era muito difícil. Então, a gente tinha que comer o que tinha mesmo. Minha mãe chegava e falava: “Vou fazer um soteco de banana pra janta hoje”. Nós tínhamos que comer. A mãe: “Não tem feijão, não tem arroz, vou fazer uma paçoca de banana”. Nós tínhamos que comer. Aí, a gente tinha esse riozinho aí, esse riozinho de Roda d’Água, que dava umas piabinhas. A gente ia pra lá, pegava aquelas piabinhas, tratava, fazia um caldinho, misturava com banana ali, com paçoca de banana e comia. E era feliz, assim. Eu, graças a Deus, me criei, fiquei forte. Depois, meus irmãos, eram nove irmãos, todos se criaram. Depois de velho que foram morrendo alguns. Mas nós estamos aí na luta.
P/1 – Você falou do congo, do seu pai, qual que era a banda de Congo?
R – Santa Isabel. Foi lá no Santa Isabel que meu pai me ensinou tudo, a tocar o Congo, fazer parte. Primeiro ano, eu era batedor, era membro, tocava só o tambor. Aí, fiquei até, dos meus dez anos, até meus treze anos, quatorze anos. Aí, o papai falou, e eu cantava bem, os caras falaram: “bota o seu filho pra treinar cantar”. Aí, eu comecei a ensaiar, com ele lá cantando. Aí, com meus treze, quatorze anos, eu passei a ser o terceiro mestre. Terceiro mestre não fazia nada, porque a gente saía pra uma apresentação aí, tinha o primeiro mestre, que era um dos Santos, tocava a parte dele lá. Quando o pessoal ia embora, ele dava pro meu pai. Tava indo embora o pessoal, ele dava pro meu pai. Meu pai tocava. Quando não tinha ninguém, meu pai dava: “Toma, toca aqui”, “Ah, vou tocar pra quem? Pra mim mesmo? Vou cantar pra mim mesmo, quer dizer? Vou cantar pra mim mesmo?”. Aí, eu ficava zangado com aquilo: “Ah, vou largar esse troço aí”. Aí, falava com ele: “Ah, pai, vou sair disso aí, ele não tá dando lucro pra mim não”. Ele falou: “Não, você vai melhorar”. Ficava. Mas era assim, eu tinha uma bronquinha, que a gente saía daqui pra tocar, pra subar essas coisas, e a gente não tinha ônibus, tinha nada, era sempre em cima de caminhão. Aí, no caminho, você ia levando pedrada do pessoal, das garotadas. O pessoal começava a gritar que era macumba e dando pedrada na gente. Era complicado. A gente tá em pé hoje, porque nós tivemos muita raça pra dar continuidade a esse trabalho do Congo, porque senão tinha acabado aqui na nossa região. Até gente daqui mesmo, gente nossa daqui de Roda d'Água, que esculhambava o Congo. Às vezes, eu tinha uns aí, uns aí, estão até vivos até hoje. Mas antigamente eles diziam: “Pô, isso é um monte de cachaceiro, é tudo bêbado”, e não dava valor ao Congo de jeito nenhum. Mas o Congo foi crescendo, foi crescendo. Aí, começou a aparecer as melhorias, né? Aí, já começaram a se entrosar. Hoje que é o Carnaval de Congo, que bota aí 15, 20 mil pessoas, aí, se fala, né, o Congo é forte aqui. E aqui em Roda d'Água o Congo é forte. O Congo é forte. Graças a Deus.
P/1 – Mestre, você lembra a primeira vez que você tocou no Congo?
R – A primeira vez no Congo foi nos ensaios. Primeiros ensaios meus foi ali no Manoel Queiroz. E a primeira vez foi uma caminhada daqui de Roda d'Água pra lá pra Piapitangui. Aí, foi uma caminhada grande, quase cinco quilômetros, de a pé com o tambor nas costas, caminhando. Aí, foi ali que foi as minhas primeiras vezes com o Congo. E depois, a segunda vez já foi lá em Novo Brasil, saí daqui lá pra Novo Brasil com o tambor, levava o tambor e trazia. Era complicado, tinha que ter sangue mesmo de congueiro, senão não fazia essas caminhadas, não.
P/1 – Você lembra como você se sentiu?
R – Igual eu te falei, eu me senti bem, bem, e me sentia mal também quando chegava o dia de jogo, que eu não podia ir. Aí eu me sentia mal. Falava: “Poxa, eu gosto tanto de uma bola e não ir na bola”, então eu ia pro Congo emburrado. Eu ia pra lá por ir mesmo. “Toca aí” e eu falava: “Ah, não, tô com a mão doendo e tal” e começava a me esconder, porque eu queria estar no campo. Eu não tinha condições. É aí que eu me sentia mal mesmo, só assim. O resto era tudo felicidade pura. Aí, como eu te falei, aos meus 16 anos, eu passei a ser o mestre mais chegado, mais cantador. Aí, quando depois meu pai, o primeiro mestre que morreu, que era o do Santos, morreu, aí, meu pai foi pra primeiro mestre, eu fui pra segundo mestre. Aí, já era eu mesmo e meu pai. Depois que meu pai morreu, eu fiquei como primeiro mestre até hoje, graças a Deus. Entendeu? Eu tô até hoje. Eu sei que eu tô honrando o que ele deixou, o legado dele aqui comigo tá sendo bem honrado.
P/2 – Qual a história que seu pai te contava a respeito dessa tradição?
R – A história que meu pai me contava era uma história igual eu comecei com o João Bananeira, mas quando, naquela época, a gente fazia as caminhadas, sempre tinha pessoal que pagava promessa, né? Aqueles pessoal velhinhos que não podiam ir no convento da Penha, aí, vinha na nossa caminhada, onde a gente tava fazendo a concentração, ali eles pagavam, faziam as promessas deles, pagavam as promessas deles, acendia a vela deles, e era uma história que meu pai me contava. E essa história tem tradição até hoje, porque, acho que foi em 2004 ou 2005, teve um carnaval ali, estava uma seca danada. Aí, o pessoal, quando chegou o dia do carnaval, o pessoal fizeram uma promessa pra Nossa Senhora da Penha mandar uma chuva. Olha, menina, deu um toró de chuva, até as barracas que estavam lá, colocadas lá, carregou a água, a enchente carregou, entendeu? Então, a gente fazia a promessa com fé, e aí, recebia. Por exemplo, eu mesmo fiquei internado, esse ano passado, em 2025, quase um ano todo internado, fiz três operações. Por exemplo, aí, já tem, o pessoal já fizeram a promessa pra mim, então, já fizeram a promessa que a santa vai ter que sair daqui lá pra o lugar da festa. Então, eu já tô me organizando, porque eu sei que é uma promessa que foi feita pra mim, e eu tenho que pagar a promessa aqui, junto com eles. É assim, sempre a gente teve essa conexão com a santa.
P/1 – E nesses primeiros congos, quando você era terceiro mestre, segundo mestre, você lembra de alguma música?
R – Ah, as músicas todas, né, porque eu aprendi, eu fui pra ser o terceiro mestre, eu só cantava música velha, antiga, Você vai a pé, Moça bonita, né? Não, Moça bonita, tinha Moça bonita, mas não é essa que o Martinho da Vila canta. Era diferente. Tinha Moça bonita, tinha Perdi meu anel no mar. Essas músicas velhas, mais velhas, né? Papai não quer café verde no terreiro e tal, tudo música bem antiga. Então, essas músicas eu sei tudo, sei tudo, sei cantar as todinhas, então, não tive dificuldade, não. Eu só mudei aqui um pouco, porque é geração, né? O pessoal fala em geração, né? Então, quando eu tava na Banda de Santa Isabel, tinha muita gente, a banda de Santa Isabel, mas tinha pessoal só mais antigo, pessoal que era mais velho, que pegava o tambor, e você podia ir daqui no Rio de Janeiro, que ele ia com o tambor nas costas, não dava pra ninguém, ninguém pegava, ele era o dono. Aí, o pessoal tinha uns garotos novos que gostavam do Congo e ficavam reclamando, dizia assim: “Tagibe, faz uma banda de congo pra nós”, “Mas, filho, eu sou da banda aqui”, “Não, dá um jeito aí, bota outro no seu lugar”. Aí, eu conversei com o rapaz lá, né, falei: “Olha, eu vou ensinar você a ser mestre, pra você ficar aqui, que eu vou sair, que eu vou formar uma banda”. Falei com o Chaiede, ele ficou treinando lá, né, como mestre. Aí, já começou a fazer umas apresentações, aí ele começou a cantar, eu saí, vim fazer minha banda. Aí, aqui nós se reunimos com a família, tudo ali é da família ali, essa banda é toda da família, se reuniu, mas gostaram. Aí, ele falou: “Nós não tínhamos dinheiro pra comprar tambor”. Aí, deu uma ventania, caiu um pau que tinha ali, oco, eu fiz um tambor de oco de pau, tá até ali, aquele bem vermelhinho ali, é de oco de pau. E nós fizemos a banda, e a banda tá aí até hoje. E aí, a banda é uma banda famosa. Apresenta bem aqui em Vitória, graças a Deus.
P/1 – E como que você aprendeu a fazer o tambor?
R – Ah, o tambor, o pau já tinha, ele já tinha, ele caiu, aí, eu tracei os tamanhos do tambor, né, e ele já tinha um ocozinho no meio, só conseguia, saía só tirando e arredondando ele. Mas deu trabalho, foi um trabalho danado. Pra fazer sete tambor, eu fiquei mais de três meses pra tocar com aquilo. Mas foi muito legal.
P/1 – Você tava falando dessas músicas antigas, né, você citou algumas. Tem alguma que você queira cantar?
R – Pra vocês? Posso, sim uma música que era muito famosa no tempo do pessoal mais velho, era assim (entrevistado canta): “Papai não quer café verde no terreiro. Papai não quer café verde no terreiro”. As pessoas iam no refrão (entrevistado canta): “Eu vou apanhar na baliza do meeiro, eu vou apanhar na baliza do meeiro”. Essa era uma música de duas páginas só, mas era uma música muito falada dentro do Congo. E a outra sempre era Iaiá, você vai a Penha, né? É tradição, já era tradicional do Congo, aqui de Roda d’Água. Iaiá, você vai à Penha. Então, Iaiá, você vai à Penha, a gente canta assim (entrevistado canta): “Iaiá, você vai à Penha, me leva, oh, me leva. Iaiá, você vai à Penha, me leva, oh, me leva”. Aí, o pessoal faz o refrão (entrevistado canta): “Eu vou tomar capricho, eu vou trabalhar, eu tenho uma promessa a pagar. Esta promessa que eu tenho a pagar é da Santa Padroeira, que ela vai me ajudar. Esta promessa que eu tenho a pagar é da Santa Padroeira, que ela vai me ajudar”. Essa música é tradicional mesmo daqui da região. E, são as músicas. Então, essa não sai do calendário do Congo não, porque é uma música que todo mundo sabe cantar. Aonde você vai, todo mundo quer que cante essa música. Você roda esse estado todinho, todo mundo quer que cante Iaiá, você vai a Penha. Muito bom.
P/2 – Você falou das músicas antigas, né? E das músicas novas que você criou? Tem alguma que você gosta mais? Que fala: “Eu gosto de cantar essa que eu fiz”?
R – Agora.
P/2 – Pode cantar uma nova assim?
R – Eu gosto muito dessa aqui (entrevistado canta): “Monchoar, escureceu, avisa que vai chover. Tira a roupa do varal, lá do fundo do quintal. Se a roupa não enxugar, como é que eu vou ficar? Hoje eu quero ver meu bem que vem no primeiro trem”. Aí, faz o refrão (entrevistado canta): “Oh, Monchoar, não volta de meu coração. Meu amor tá me esperando lá no banco da estação. Oh, Monchoar, não maltrate meu coração. Meu amor tá me esperando lá no banco da estação”. Essa é uma música nova, da minha autoria.
P/1 – E aí, voltando um pouco pro Congo, pra banda de Congo de Santa Isabel, como que era a roupa, os outros instrumentos?
R – A roupa de Santa Isabel, da banda de Congo de Santa Isabel era vermelho e verde. Essa era a banda de Congo de Santa Isabel, vermelho e verde. Então a tradição dela é essa, vermelho e verde. Mas sempre muda, né? Então, vermelho e verde foi pra fundação da banda. É igual aqui. A banda foi fundada com esse uniforme do quadro aí. Mas já passaram vários uniformes. Então, tem uniforme de todo jeito, como você pode ver no quadro aí. Tem uniforme de todo jeito. Entendeu? Então, só de fundação aqui. E agora eu tô fazendo um pra esse carnaval, que vai trazendo aquela fundação ali, fazendo aquela mesma roupa ali, igual, pra lembrar da fundação da banda. Tô fazendo, se Deus quiser.
P/1 – E ali, na sua juventude, com uns 16 anos, além do Congo e do trabalho, o que mais você fazia?
R – Ah, fazia muita coisa. Eu saí daqui meia-noite, meia-noite e pouco, com uma cesta de laranja, mexerica na cabeça pra vender lá no mercado. Saia daqui, botava, meu pai carregava dois, três burros de banana madura. Nós íamos pra a feira lá na Vila Rubim. Entendeu? Acho que nem vocês lembram dessas feiras da Vila Rubim, né? Ali tinha uma feira grande, boa. Então, nós íamos pra lá, saindo daqui meia-noite, e ia até na Vila Rubim. Não era brinquedo não. Ia lá, vendia tudo aquilo que tinha que vender. Saia de lá meio-dia, meio-dia e pouco acabava a feira, vinha parar em Roda d'Águia. De tardinha, eu tava chegando de volta aqui em Roda d'Águia. Então, isso aí foi tudo... Tudo passou por mim e meu pai. Então, a gente teve uma história muito boa. E na mesma hora, pra quem nunca viu, ele sente um pouco: “Pô, como é que o cara sai de Roda d'Água pra ir lá na Vila Rubim a pé?”. Entendeu? Não era brinquedo não. Não tinha segunda ponte. Às vezes, a gente chegava ali nas cinco pontes, o trem passava, o trem ali. Aí, o trem vinha, a gente tinha que parar com aqueles burros, ficar esperando o trem passar, dez, vinte vagão passar pra nós poder caminhar pro mercado. Então, era difícil. A vida aqui não era fácil, não, era difícil mesmo. Mas, vencemos, né, vencemos. Graças a Deus, nós vencemos. Estamos aí.
P/1 – E como que era essa feira?
R – Ah, a feira é igual a feira normal aí que tem hoje, né? Tem banana, tem mexerica, tinha de tudo. Caranguejo, tinha de tudo. Então, a feira era uma feira normal. O peixe. Tinha gente aqui, do meu tempo, que ia pra lá, levava um balaio de banana, laranja na cabeça, vendia lá no mercado. Aí, chegava de lá, ele ia lá no negócio de peixe, na banca de peixe, aí dava muita sardinha, ele enchia o cesto dele de sardinha e botava na cabeça, lá na Vila Rubim, e parava aqui em Roda d'Água. Chegava aqui, era salmoura de peixe puro, que vinha pingando com essa salmoura. Mas vencemos. Tá vencido, graças a Deus. E era uma pessoa de saúde, né? Hoje, o cara come uma coisa do bom e melhor de não ter saúde. Entendeu? Isso aí é uma coisa que Deus dá, dá esse de dom à pessoa, né? Tudo é como Deus quer, então. Nunca vimos andar, sair daqui meia-noite, uma hora da manhã, nós estávamos passando ali pelo Jardim Américo, nunca vimos um ladrão, nunca! Graças a Deus, nunca ninguém mexeu com nós nas estradas. Quatro, cinco burros. Chegar lá na Vila Rubim era mais difícil, porque eles tinham aterrado ali, tinha cinco pontos, aquela ponte velha, né, tinha aterrado naquela ponte, a gente ia lá, amarrava os animais lá, e aqueles mendigos que ficavam lá, que davam trabalho pra gente. Queriam mexer com os burros, aqueles que davam trabalho, mas nas estradas, não. Graças a Deus que não. Agora, hoje, se eu não passei daqui, em Jardim Américo de dez, onze horas da noite, ninguém sai mais pra ir daqui em Jardim Américo, não. Entendeu? Se for, vai com medo danado. Mas naquele tempo, não. O cara ia brincando, ia conversando, e gostava de ir. Um moço morava lá em cima, perto da escola de campo, amarrava um pau de galinha, dez, quinze, a gente galinha amarrava, botava o pau de galinha nas costas e parava lá na Vila Rubim pra vender galinha. Era difícil. Aí, a gente tinha o ponto de parada mesmo. Quando a gente não era no burro, no burro, a gente ia direto. Quando a gente já levava na cabeça, a gente parava aqui na Igreja Velha, depois parava lá no Mucuri, depois parava em Tanguá. Aí, parava em Tanguá, de Tanguá descansava um pouquinho, depois seguia direto. Era assim. Mas foi bom. Graças a Deus foi bom. Tô aqui, tô vivendo, pra mim foi bom demais.
P/1 – Nessa época da juventude, você teve muitas namoradas? Como que era essa parte?
R – Ah, só depois eu fiquei com meus 18 anos, porque antes, Deus me livre, quando a gente tinha 14, 15 anos, 16 anos, não namorava assim, não. Não era igual hoje, não. Quando eu tinha 14, 15 anos, meu pai dizia: “Olha, o cara pra namorar tem que ter casa. Quem namora tem que ter casa, porque se casar já tem a casa pra morar”. Não era assim, não. Eu já com 18 anos, ia pra casa da namorada, falava: “10 horas, quero você em casa”, eu que era homem. “Ah, pai”. Não, “10 horas eu tinha que estar em casa”. Nem chegava a namorar. Eu chegava lá mais tarde, nem chegava a namorar, eu chegava e ia embora. Meu pai perturbava, mas não era difícil, era meio difícil.
P/1 – E como você conheceu sua esposa?
R – Minha esposa eu conheci num bailezinho que teve aqui, não lembro se de São Pedro, Santo Antônio. Teve um bailezinho aqui, consegui namorar ela. Consegui, aí, ficou até hoje, 50 e poucos anos casado. Mas, na época, o pai dela não gostava muito, não, o pai dela não gostava muito, não, mas eu fui levando com jeitinho. Era empregado, ganhava bem, eu dizia: “O cara tem alguma coisa pra tirar a gente do sufoco”. Aí, consegui namorar ela. Era meio enrolado um pouco, mas com ela eu me firmei, com ela eu me firmei, quando eu namorei com ela, eu estava com uma namorada, no mesmo lugar que eu estava, eu, ela, deixei a namorada de um lado, ganhei ela e pronto. Aí, pronto, fiquei com ela e com ela eu me amarrei, não teve jeito. Aí, não teve jeito mesmo, mas é assim.
P/2 – Com ela, você teve quantos filhos?
R – Rapaz, oito filhos. Oito filhos. Tem uma menina morta, mais velha, tem cinco homens e duas meninas, sete, e mais um nenenzinho, quando nasceu morreu, oito filhos. Não tinha televisão naquela época, nem rádio, nem rádio, quanto mais televisão. Era difícil viver, mas tá bom.
P/1 – E o que mudou na sua vida quando você virou pai?
R – Mudou muita coisa. Eu já comecei a me controlar um pouco. Eu, porque, por exemplo, às vezes eu estava em casa, o cara chegava aqui: “Tagibe, vamos jogar lá em Colatina”, eu saía daqui pra Colatina, não tinha hora pra chegar, às vezes chegava num dia, às vezes chegava noutro. Quando eu já virei pai: “Tagibe, vamos lá pra Colatina?”, “Hoje, eu não posso, não, deixe pra outro dia, hoje, eu não posso”. Então, eu já comecei a ficar mais em casa e sair com meus jovens.
P/1 – Você falou dos bailes de São Pedro. Tinha muito baile por aqui? Como que era?
R – Antigamente, era baile direto, qualquer feriado, qualquer dia santo, era baile, amanhã é de Santa Luzia, tinha um baile na casa de fulano, baile de Santo Antônio, dia de São Sebastião, tinha um baile na casa de fulano. Assim, por exemplo, principalmente de São Sebastião, porque o pessoal dizia que tinha que ficar a noite toda acordada pra o sol não passar por cima da gente, da cabeça da gente, que dava muita dor de cabeça, ficava a noite toda, dizia de São Sebastião, nos bailes. Era baile direto, mas era um baile, assim, respeitoso, ninguém brigava, não dava confusão, não dava nada. Hoje, você faz um bailezinho, vem gente lá, não sei de onde, quer acabar com o baile seu. Eu mesmo nunca mais fiz baile em minha casa, não, não, ah, vou fazer um baile, não, quero não. Ninguém quer respeitar ninguém. Então, pronto, cortei.
P/1 – Então, o senhor fazia bailes também?
R – Fazia, meu pai fazia muito baile, eu tava no meio. Depois de casado, fiz uns dois ou três bailes só, quis mais não. Mas, no tempo do meu pai, era baile direto. “Amanhã é dia de um santo, vamos fazer um baile”. Já tinha os tocadores certos, né, tinha os tocadores certos, era só violão, pandeiro e cavaquinho, esse era o conjunto nosso aqui. Aí, o pessoal dançava embalado.
P/1 – E o que que tocava? O que que eles tocavam?
R – Ah, tocava tudo, né, os caras eram bons, tocavam música nova aí toda, de hoje não, daquele tempo, tocavam tudo. Não tinha separação de música, não. Tocavam bem, eles eram bons, solavam bem, além de tocar, tinha um solo bonito, era bom. Então, faziam alegria pro pessoal daqui.
P/1 – E aí, voltando pro Congo um pouco, se puder falar um pouco também dos instrumentos. Como que é?
R – É, os instrumentos, no antepassado, eram de oco de pau. Depois que o negócio foi crescendo, foi crescendo, aí, passou a ser o barril, entendeu? O barril de vinho, que vem lá do Rio Grande do Sul. Então, eles passaram a ser o tambor oficial daqui, das bandas. Então, algumas bandas têm alguns tambores, aqui mesmo tem dois tambores de oco de pau, da primeira banda aí que eu fiz. Mas tem algumas bandas que tem alguns tambores, mas hoje mais é desses aqui, de barril de vinho, vinho, cachaça. Então, esse era o nosso instrumento aqui.
P/1 – E a casaca, quem faz?
R – A casaca a gente faz, eu faço, o Cemir faz, o mais que a gente faz aqui, né? Aqui, é mais eu e o Cemir, e outro garoto que eu tenho, o Jocimar, ele que tá fazendo essas casacas ali, ele tá fazendo, casacas que vai pra prefeitura, né? Então, ele faz umas casacas boas, bonitas. Então, eu trabalho também fazendo casaca, mas agora não tô mexendo, não, tô deixando pra eles. Porque tô ficando velho, aí, eles falam: “Deixa que nós vamos fazer”. Então faz, isso que eu quero, que cresça, né? Pegar o meu lugar pra não acabar a nossa cultura, tem que tentar ir por cima, não por baixo. Então, pra ser assim, tem que incentivar eles a fazerem algum trabalho.
P/1 – Quem te ensinou a fazer a casaca?
R – A casaca não foi ninguém que me ensinou, não. Eu mesmo olhando as outras, eu aprendi, olhando o pessoal aí fazendo. Porque a casaca, realmente a casaca, ela não existia aqui em Roda d’Água. A casaca, ela é mais da Serra, né? Na Serra, na Serra, a gente fazia apresentação lá e as casacas a gente achava bonitas. Compramos algumas pra botar na nossa banda e ali a gente foi aprendendo a fazer. Entendeu? Então, mais a casaca mesmo, ela tinha sido lá da Serra pra cá. Hoje, ela tá rodando o mundo inteiro, de vez em quando vai um pro Rio, vai pra São Paulo. Eu mesmo já mandei uns cinco ou seis lá pra Minas Gerais, lá pro Rio de Janeiro. Eles compram e fica legal.
P/2 – Você falou que a casaca a banda de Santa Isabel não usava a casaca. Qual o instrumento que eles usavam mais assim na banda? Que falava: “Isso aqui a gente sempre tem”.
R – Aqui, não existe mais não, mas é aquele reco-reco de arame, sabe? Reco-reco? Tem um reco-reco que era de arame, que eu tá sempre tocando no pagode, não é de arame. Aqui nós tinha um daquele ali, a banda de Santa Isabel eu tinha, mas sumiu. Acabou. Então, hoje o que nós temos hoje de referência nossa é o que as outras bandas têm, é o tambor, é a cuíca, é o apito, é o chocalho. Isso é o nosso instrumento de trabalho, entendeu? Se você não tivesse os instrumentos, não tem trabalho. Esse é o nosso instrumento forte.
P/2 – E hoje, passando pessoas que dizem assim, o que você gostaria de deixar pra eles relacionado à cultura do povo, que você aprendeu do seu pai, do seu avô, mas o que você quer deixar pra eles?
R – O que eu quero deixar pra eles é a sabedoria deles, né, principalmente respeitar as pessoas. Isso é o mais importante de qualquer atividade, é respeitar as pessoas. E deixar o meu saber com eles, porque sempre eu vou falando pra eles: “Olha, isso tem que ser assim, não pode ser assim, vamos fazer isso assim”, porque meu pai sempre falava comigo. Quando eu queria falar isso aí, meu pai dizia: “Olha, não sei nem que um dia vai melhorar”. E melhorou, porque meu pai nunca ganhou um centavo para comprar uma camisa. Nós não. Hoje, nós já temos projetos que a gente ganha, já tem alguma coisa que a gente ganha, meu pai nunca ganhou isso. Nem uma passagem de ônibus. Hoje, nós já ganhamos bastante editais aí, a gente já ganhou. Mestre, como mestre, eu como mestre ganhei uns três ou quatro. E é por aí afora. Então, esse legado eu quero deixar pra eles, que possam respeitar os outros, possam ser respeitados e poder levar a nossa cultura à frente. Isso aí.
P/2 – E além do seu vô, do seu pai, que outros mestres que você conheceu?
R – Aqui, eu conheci tudo, né, aqui da nossa região, eu conheci todos eles. Aqui, eu conheci o Manuel dos Santos, o Queiroz, meu pai, Gabiroba, Hermínio lá em Boa Vista, seu Vitório lá em Piranema. É muito da região que eu conheci os mestres todinhos. Todos eles. E lá de fora lá, bem, lá de fora eu conheci bastante o que eu falei que é o... como é que chama? Até esqueci o nome dele agora. É lá de abaixo, eu conheço bem o Sr. Daniel, o Daniel, é o mestre Antônio lá da Ilha… Vera Cruz, lá desse canto lá. São pessoas que eu conheço, são mestres lá de fora que eu conheço bastante também. E assim, não sei muito não, mas conheci muito. Eu conheço o seu Aroldo, eu conheço bastante mestres de fora, porque a gente viajou, né? A gente saiu daqui e foi pro Ceará. Vários mestres, no seminário lá tinha o mestre Colatina, o outro representando a Colatina, e fomos uns dez mestres pra lá. Eu não sei o nome deles, mas a gente estava junto. Entendeu? Foi muito bom. Congo é muito bom. Eu conheci bastante lugar já com o Congo. Tô feliz demais.
P/2 – E qual era o sentimento que você traz quando você fala do seu pai que vai melhorar e quando você vê isso melhorando? Então, indo pra outros espaços, qual o sentimento que você traz?
R – O sentimento que eu tinha é saber que meu pai foi um dos fundadores das bandas, não conseguiu ganhar nada disso e se esforçou tanto, ensinou, e não teve esse prazer de viajar pra algum lugar, sair do Espírito Santo. E não digo pra longe, sair daqui pra Cachoeiro, sair daqui pra _______.]. Ele nunca saiu, só ficou aqui nesse meio aqui, Campo Grande e Roda d'Água, Campo Grande e Roda d'Água. Então, isso aí não é um sentimento bom que eu tenho. Eu queria que ele estivesse andando também, pra conhecer alguma coisa, pra poder passar pra gente: “Olha, fui lá e aprendi isso, aprendi aquilo”. Por exemplo, eu mesmo não sabia de colocar tambor, botar couro em tambor. Aprendi lá no Ceará. Aprendi lá, viu? Aqui, a gente botava, mas era em duas pessoas. Hoje, não, eu sozinho boto couro nesse tambor, sozinho, entendeu? Então, isso aí eu aprendi lá. Então, é uma coisa que eu falo pra eles: “Olha, eu aprendi a botar couro em tambor lá no Ceará”. Então, já é uma história minha que vai ficar pra eles. Entendeu? Isso é muito bom.
P/1 – E como você coloca o couro?
R – Ah, o couro, você tem que pegar o couro da vaca. Matou o boi, você tem que pegar ele mole, botar no lugar, cortar a vara, fazer... É aqui, né, fazer as varas. Abrir ele e botar a vara assim, pra ele ficar esticadinho assim, e depois pendurando, isso aí, secando ele [barulho de chuva]. Depois dele secar, aí, você vai cortar ele pra botar no tambor, assim. Você tem que botar ele dentro d'água, pra ele ficar molinho, pra você cortar redondinho assim e fazer o tambor. É desse jeito.
P/1 – E aí prega?
R – Aí, prega, tudo pregadinho. Você prega tudo. Aí, prega ele, pronto. Aí, já não pode mais botar a vara. O couro em tambor já não faz mais. Entendeu? Bota até dos outros também, tá? “Tagibe, bota couro em tambor pra mim?”, “Boto. Só ter o couro, né?”. Aí, mas daí tem um colega nosso aí que mata boi, aí, eu vou lá, pego o couro com ele, corto os paus, faço o estaleiro dele certinho, deixo ele esticadinho, aí, eu vou pendurando ele. Com 15, 20 dias tá sequinho. Aí, depois tiro, boto na água, corto redondinhos, boto na água pra amolecer, pra poder esticar o couro aí, senão não estica não, ele seco, sem ele tá molhado, ele não estica não. Fica só desse jeito aí. É bom.
P/2 – Você tava falando que aprendeu com a sua família. E as crianças hoje aqui da sua família, seus netos, da comunidade, eles participam da banda de Congo?
R – É, tá participando. Quem governa essa banda de Congo é Cemir, a banda mirim, né, a banda mirim, que é o mestre dela lá. Depois, ele vai falar pra vocês sobre ela, entendeu? É o que eu te falo pra vocês. Então, a banda adulta, aqueles que já ficaram velhos que saíram, já tem outra geração que tá chegando, né? A filha dele já tá uma mocinha, tem as minhas netas que já tão moças, já tão no meio, e vai crescendo e não acaba nunca. Porque elas tão vindo já tocando, cantando, esses meninos aqui que são pequenininhos, tão tudo grandão, tudo na banda mirim. Aí, já passaram tudo pra banda adulta. Aí, ele agora, ele agora tem que pegar outra geração novinha pra subir. Aí, depois vai saindo aqueles mais velhos, né, mais velhos que não querem mais, já tão conseguindo sair mais, aí, vai entrando os novatos. É assim. A gente vai repondo. É, então, por isso que eu precisava de outra banda aqui em Roda d’Água, por isso, porque lá em Santo Isabel o cara não tinha essa chance, não tinha. O cara tava, sabia que o cara não podia andar com o tambor, ele tava bem velhinho, mas ele não largava. Tinha um tal de Mané Saruê aí, que era o apelido dele, ele botava o tambor aqui nas costas e podia, você podia ir andando aqui em Goiabeiras com ele, com aquele tambor nas costas, ele ia andando aqui em Goiabeiras, mas não dava ninguém não. Você podia se oferecer: “Me empresta aí o tambor, deixa eu tocar um pouco”. Não, não dava não. Era assim. Então, falando aí, eu com o segundo mestre, ele só me dava a buzina. Primeiro, a gente falava a buzina, só me dava o chocalho e vai cantar depois que quase todo mundo tinha ido embora. Aí, eu ia tocar, mas ele cantava mais pra mim. O pessoal da banda mesmo, o pessoal de fora eu não via. Entendeu?
P/2 – E aqui tem cortejo na Sala da Penha e além disso tem outra festa que vocês...
R – Mestre Tagibe, tem a festa do mestre Tagibe, mas o mestre Tagibe não faz cortejo não. A gente faz de concentrado. Entendeu? Lá no campo agora. Tá sendo no campo da banda aqui. Então, é todo setembro que é aniversário da banda, então, a gente faz lá. Todo setembro a gente faz. E aqui em setembro tem a festinha da banda. Mas a banda aqui é muito boa, tá doido. Você precisa ver esses meninos, esses meninos da banda aqui são invocados. Eles pagam pau pra ninguém não. São muito bons. E o ritmo da gente é um ritmo que ajuda, né, o ritmo da gente é um ritmo que ajuda. A gente tem um ritmo diferente da Serra. Hoje, só pra imitar nosso ritmo aqui só, é o ____, porque a Serra ela tem muito repinique. Então, pra gente, a gente nem consegue quase tocar, porque são muitos tambores, muitas bandas da Serra. Aí, fica “pi pi pi pi pi” como é que você acompanha? Porque você não é educado naquilo. Aqui, a gente tem o ritmo da gente. Por exemplo, hoje a gente tem a música, por exemplo, igual eu falei, é uma música mais pra dançar, as mulheres, bailar. Entendeu? Tem a música compassada, mais compassada que é pra gente, entendeu? Antigamente, era tudo com compasso, agora, não. Hoje, também tem a música que as mulheres gostam de estar dançando. Tem até a música que a gente gosta do compasso. Tudo é... la na Serra só tem “pi pi pi pi pi”. A gente já vai pra lá e a gente fica perdido no meio. Não consegue, não consegue acompanhar isso. Entendeu? Então, a gente já tem... Quando a gente vai tocar lá, a gente já fica bem longe dele. “Vamos ficar por aqui, não vamos chegar no meio não”. A gente acompanha muito eles, né? Agora a gente parou um pouco, mas primeiro a gente acompanhava eles direto. Fundão, essas coisas, a gente acompanhava direto. Agora, a gente parou um pouco. Esse ano mesmo a gente parou um pouco, porque eu não acho legal. Não acho legal, porque, quando eles vêm aqui, a gente trata com o maior carinho, a gente dá comida, a gente dá almoço, a gente dá tudo. Quando a gente vai lá e só quer dar um lanchinho, ainda pagamos cachês, dois, três mil às vezes. Aí, vai lá e só quer dar um lanchinho. Pô, a gente vai lá se a gente faz um negócio bom pra vocês, vocês chegam aqui e fazem um negócio.. e não aceitam. O pessoal não quer. Não é eu que quero. Pra mim eu vou. Mas o pessoal fica eles, vamos fazer o quê? A gente vai com fome e volta com fome. Aqui, não. Aqui, por exemplo, aqui, cada banda que vem de lá, esse ano nós estamos querendo contratar oito bandas de fora. Então, oito bandas de fora, até já falei com o Sr. Daniel lá na Barra, tem uma outra pessoa lá, acho que é a Madalena, aquele grupo que sempre está aqui. Tem Serra, tem Amores da Lua que não falta, não sei o que dizer, o Valdemiro vai vir esse ano. Vamos tentar, nós vamos conversar com ele, vamos mandar um ofício pra ele. Se ele vem pra cá. E mais seis bandas daqui, então são quatorze bandas que vão tocar. E esse foi fora. Outra banda de palco, vai ter uma pra fazer o encerramento. Encerramento não, pra abrir o Carnaval de Congo. Mas o Carnaval de Congo é muito bom. É muito bom.
P/1 – E pra esses convidados vocês oferecem comida?
R – Nas bandas? Então, tô falando pra você, todas as bandas. A gente tem a bica lá em cima, uma área lá da bica. A gente coloca as bandas tudo pra almoçar lá. Almoça, por exemplo, três bandas. Noventa pessoas vão almoçar. Até nós também que somos daqui almoça lá também, ninguém almoça aqui fora não. Tudo por nossa conta.
P/1 – E como que começou essa tradição de servir o almoço?
R – Essa tradição começou quando a gente fez o Carnaval de Congo. Aí, o pessoal falou: “Vamos fazer um almoço pra gente, porque a gente fica o dia todo, a gente começa oito horas, a gente fica o dia todo. Uns podem ir em casa, outros não podem”. Aí, a gente foi. Eu lembro até hoje, a gente comprou setecentos marmitas. E não deu tanta gente, não deu tanta banda de fora, entendeu? A metade até estragou. Aí, dali continuou. Dali continuou, a gente toca pra dar onze horas pra almoçar, aí volta uma hora. Aí, uma hora tá muvuca mesmo. Aí, uma hora o campo, ninguém aguenta andar mais. Cedo, você tem onze horas, você caminha do jeito que você quer, mas depois de onze horas, uma hora, duas horas, você não aguenta andar mais. Então, a gente vai uma turma almoçar, oito bandos, oito bandos vem de lá, vai quatro, aí mais duas nossas vai dez, depois vai mais quatro, deles dá oito, mais duas, duas nossas, depois vai mais duas nossas, seis bandos aí, termina. Duas horas, duas horas já tá todo mundo almoçado, graças a Deus. O pessoal trabalha bem, o restaurante é grande, bota bastante gente pra trabalhar. Agora, esse ano vai ser aqui, né, aqui vai ser o café da manhã. Antigamente, o café da manhã era lá também, agora esse ano vai ser aqui, porque a santa vai sair daqui, né? Então, vai ser aqui. As bandas vão se concentrar aqui, daqui subir. Aí, a gente tem a concentração das bandas aqui. Vai ser muito bom. Espero vocês aí.
P/1 – E aí, como é? A santa vai sair daqui, aí sobe?
R – Aí, sobe o cortejo pra lá. A banda na frente, o pessoal tocando o tambor atrás, os mascarados, o João Bananeira, vai todos daqui pra lá, e a santa vai puxando. Você nunca veio aqui não? Vai ser muito bom. Você vem uma vez, não quer ficar mais sem vir não. Esse ano tem tanta gente. Aqui, já vem muita gente de fora, né, gente até de fora do país aqui. É muita gente de fora.
P/1 – E os mascarados, eles sempre estiveram na banda de Congo?
R – Sempre tiveram, desde o começo. Os mascarados começaram com os escravos, porque os escravos não podiam ser vistos. Então, o dono deles pedia a eles, né, não deixava eles brincarem. Então, os mascarados, eles se camuflavam todo dia, e quem conhecia ele vinha e brincava, junto com os outros. Eram todos camuflados. Então, essa tradição é que veio pra cá. Então, todo mundo é camuflado aqui. Você olha, você não conhece. Aí, você pensa, a gente vai bem em tal lugar, a gente vai com o mascarado, mascarado esquisito, quando vai ver, é uma moça bonita lá dentro, embaixo daquela máscara. Rapaz, nem conhecia aquela menina. Às vezes, não é assim, pra ninguém conhecer mesmo. Só seis horas que eles tiram a máscara pra o pessoal conhecer. Nem tira, levanta ela pro pessoal ver, “ah, é fulano”, era assim. Aí você fica, “mas fulano tá brincando carnaval?”. Ninguém conhecia ninguém, não. Então, essa é a nossa tradição.
P/1 – E o que mais você aprendeu com os seus mais velhos no Congo? O que você acha importante que as crianças aprendam também?
R – O que eu acho importante é que os pessoal, as mães, os pais levam os filhos pro carnaval e vai mostrando a eles: “Meu filho, esse é do meu tempo”. Vai contando a história do carnaval que a gente sabe. E o filho vai botando aquilo na cabeça. Depois, ele vai pra escola, fazer uma faculdade, ele tem uma resposta pra dar nas perguntas. Eu te falo uma coisa. Tinha um cara lá de Santa Tereza, um alemão, morava ali, um fazendeiro, aí, ficava aqui esnobando: “Coisa de preto”. A menina dele estava fazendo um trabalho pro mestrado, aí, caiu pra ela no negócio de Congo. Eu estava em casa ali e ele chegou: “Queria que você pudesse fazer um trabalho com minha filha”. Eu não neguei, não precisa negar nada a ninguém. “Você pode fazer um trabalho com minha filha?” “Ah, você manda ela aqui”. Quando foi no outro dia, ela chegou, “ah, papai falou com o senhor?”, “falou”. Fiz o trabalho pra ela. “Seu pai disse que com o negócio de preto, como é que você vem participar?” Então, são coisas que têm que ser explicadas, tem que ter o Congo nas escolas pra explicar isso pra as meninas, como é que é a vida na cultura, porque a cultura, ela emprega a gente. Quantos milhões de gente que tem que trabalhar na cultura? Então, tem que ter moral, tem que ter seu valor, entendeu? É uma coisa que o pessoal: “Ah, mas Congo é a cultura?”. Mas, gente, a cultura eladá emprego pra você, depende de você ter estudo, tá aprendendo, tá estudando, mas depois você pode ser um funcionário da cultura, entendeu? Se não fizer isso, não vai. Então, eu achei, você vai, eu fui lá na Ufes [Universidade Estadual do Espírito Santo]. Você vai lá e o cara fala de macumba. Macumba é um pé de pau. Todo mundo sabe que macumba é um pé de pau. Macumba não existe. Macumba é um pé de pau. Onde os escravos descansavam o almoço deles. Eu não sei se você conhece, mas você conhece o mulembá? O mulembá, ele dá as raízes dele assim, dá um do lado aqui, outro do lado aqui, dá tipo aquelas canoas, entendeu? Ele é todo rodado assim, tipo canoas, tipo uma canoa. Aí, os caras almoçavam lá, eles falavam, vamos lá pra o macumba descansar. Com a barriga cheia, vamos lá pra o macumba descansar. Aí, ia pra lá deitar no meio daquelas raízes ali. Era macumba, era o pau que eles falavam. Macumba é um pé de pau, gente. Então, pô, isso aí é uma coisa que eu até gostei que foi uma menina comigo inteligente. Ela falou pra o estudante: “Pô, você está estudando pra quê? Você está estudando pra quê? O que é macumba?”. Eu perguntei: “O que é macumba?”. Ele ficou calado. Aquela eu gostei. Mas é assim, essa é a vida nossa.
P/1 – E aí, vamos voltar um pouco pra a sua vida mais pessoal. Quando seus filhos eram crianças, como que era a sua relação com eles?
R – Sempre foi boa. Minha relação com meus filhos sempre foi boa, como eu falei pra você. Sempre, sempre, eu era um cara assim, eu tinha o estilo do meu pai. Hoje, não, hoje mudei, mas eu tinha o estilo do meu pai. Se meu filho chegasse aqui com uma coisa que eu não tinha, eu queria saber onde é que ele achou aquilo, como é que ele comprou. Se ele não tinha dinheiro pra comprar, como é que ele achou aquilo? Entendeu? Então, eles tinham que falar pra mim: “Olha, pai, esse aqui foi fulano que me deu”. Eu ainda ia perguntar o cara: “Foi você que deu?”. Ele: “Foi”. Então, eu sempre tive um estilo, como meu pai me ensinou, eu tinha esse estilo. Hoje, não, hoje, mudou. Hoje, tudo muda, então, mudou. Se você falar isso, os filhos já não querem mais aceitar, então, a gente tem que tratar isso como manda o figurino, com o tempo. Se o tempo de hoje é esse, eu tenho que me adaptar a esse tempo de hoje. Entendeu? Mas era uma relação boa. A gente trabalhava juntos: “Eu preciso de vocês lá em cima”. Na época, eu estava desempregado, nós fomos lá pra atrás daquele morro que vocês estão vendo aí, tem jaca. Nós fomos lá pra aquele morro tirar jaca, pra levar pra Serragem. Acordava aqui de manhã e ia pra lá subir, passar lá, chegava lá, tirava 40, 50 jacas e carregava lá pra Boa Vista. Daquele morro, era um serviço cansado, mas não tinha outro jeito, pra a gente sobreviver, tem que fazer aquilo. Então, meus filhos nunca reclamaram. Se fosse, ia comigo, nunca falaram “Ah, não vou”, sempre me respeitavam, pra mim era tudo. Hoje, o que faz os filhos são os pais, hoje não pode bater no filho, mas o filho também tem que ter chamado atenção, porque hoje não bate no filho, mas tem que conversar: “Meu filho, você está errado, tem que ser assim, não é assim como você quer”, pra ele entender. Primeiro, não quer ser de____, não fez não? Então toma lá, agora não, agora é mais na conversa, mas é assim mesmo.
P/1 – Você tem netas?
R – Tenho 13 netas e 3 bisnetas, 3 bisnetas, 13 netas.
P/1 – E como você se sentiu quando você virou avô?
R – Ah, avô, senti mais, eu valorizei até mais os netos do que os filhos. Faz o que quer comigo, tá doido, eles pintam e bordam comigo. “Vô, eu quero isso. Vô, eu quero aquilo”. Tenho meus filhos, a minha mulher fica mais: “Com seus filhos, você não fazia isso”. Mas tudo muda, eu também tô mudando junto com eles. Mas meus netos são gente boa, meus netos também são gente boa, estão todos aí no Congo, estão trabalhando no Congo. Só os pequenininhos, os pequenininhos que não, o resto estão tudo, mas os pequenininhos vão ficar bons de Congo, já tem um molequinho na lista, pega um tambor e começa a bater, e vai só ficar bom. Porque Congo, o Congo tem que estar no sangue, né, o Congo tem que estar no sangue. Aí, o cara fala: “Vamos ver um tambor”, não, quer um, bate um tambor. Não bate, não, gente, não bate, não. Se não tiver um ritmo legal, fazer um repique, fazer uma coisa, não sai nada. Então, o Congo, ele tem que ter repinique, eu não falo repinique, aqui é repicar, né, repinique, eles falam muito repinique na por lá na Serra, mas aqui não tem, é repicar o tambor. Tocar uma cuíca, tudo tem que ter uma ideia pra tocar cuíca. Eu acho que a última banda que toca cuíca é a nossa, porque as bandas lá embaixo têm cuíca, mas ninguém sabe tocar cuíca. Eles sabem puxar “fom, fom”, mas não é assim. Cuíca não é assim. Tem que ter o ritmo dela. O pessoal sabe fazer, não é todos que sabem, mas também tem que saber fazer o repinique, repicar a cuíca em cima do ritmo da música que você está cantando. Então, isso é. Lá pra baixo é muito difícil você ver um cuiqueiro, eu não vejo, não vi ainda, aquilo tudo, não vi cuiqueiro. Não vi cuiqueiro, não vi não.
P/1 – Como que é o ritmo da cuíca?
R – Ah, o ritmo da cuíca é bem diferente. Depois, você vê quando ele tiver falando com você, ele vai puxar pra você ver, mas a cuíca é bem diferente, ela tem um repinique bem forte. Mas o repinique dela é bem usado. Se não tiver cuíca, não tem congo. Aqui, é assim. Se não tiver cuíca, não tem Congo.
P/1 – E os mais novos sabem tocar cuíca?
R – Sabem. Cemir sabe, tem um rapazinho que sabe, a maioria sabe. Os mais velhos já estão cansados, porque cansa caramba você. Tá doido, aquilo cansa, meu filho. Você precisa de ver. Aí, os mais novos pegam, já estão treinados, aí, tem uns dois ou três, aí, um cansa e passa pro outro, um cansa e passa pro outro. E vamos levando a vida.
P/1 – E hoje como que é seu cotidiano?
R – Ah, hoje eu tô devagar. Hoje eu tô deixando pro Cemir mais por conta do Congo, até eu ficar fazendo essa operação mesmo, porque, por exemplo, eu já não posso forçar muito cantado ainda, porque minha operação ainda tá verde ainda, entendeu? Eu saí da operação, eu saí em setembro, acho que foi em setembro. Então, ela tá meio madura ainda, então eu tô deixando por conta dele, e eu acompanho, vou com ele, mas eu canto uma música só, duas, pra não forçar. O médico falou que eu não posso forçar não, ele falou pra eu ficar pelo menos um ano assim, pra depois eu começar a forçar. Aí, eu deixo por conta dele, que tá resolvendo esse negócio de apresentação. Mas o meu cotidiano na banda é bom, sou muito, muito, muito querido aí pelo povo, entendeu? O povo, tá doido, quando a banda sai, quando o pessoal não me vê, assim, muito doido, assim: “Ah, cadê o Tagibe? Não apareceu?”. No carnaval passado, eu tava operado, no carnaval passado, eu tava operado não, aí eu inventei ir lá no hospital que eu tava melhorzinho, aí, me deram alta. Aí, eu vim, cheguei em casa, “você vai lá de boa?” “sim”, aí saí aqui devagarzinho, cantei uma música só. Já comecei a passar mal e voltei, aí no outro dia já fui pro hospital e já fiquei até a operação. Aí, eu falei: “Pô, só vim mesmo pra cantar uma música”. Aí, quando eu cheguei lá, o pessoal ficaram doido: “Tagibe chegou. Tagibe chegou”. Eles gostam muito das minhas músicas, gostam muito do meu ritmo, entendeu? São muito acostumado comigo, também, pô, são 60 anos de banda, né? Se o cara não me considerar, ninguém que vai me considerar. Tá doido. Sou bem considerado com isso. Não é só aqui, não, fora daqui, prefeitura. Por exemplo, dia sete desse mês, agora, vai ter um encontro de mestre lá em Aracruz, você sabia? Aí, eu tô indo pra lá. O cara vai vir me buscar aí. Tá muito difícil ficar fora de uma apresentação. Desde Vitória, faço parte da Comissão de Folclore, eu sou o vice-presidente lá. Então, tô cuidando de muita coisa.
P/2 – E o que te dá força pra continuar com o Congo?
R – Com o Congo? Ah, o Congo é só quando eu morrer que eu saio do Congo. Enquanto eu estiver vivo, tô pegado. Posso até não cantar mais, mas caminhar, eu vou caminhar, até o Congo é uma coisa boa. O Congo é uma coisa, por exemplo, se você começar a tocar um tambor aqui, daí a 20 minutos, tem quase 50 pessoas aí, entendeu? Tá batendo o Congo na casa de vão pra lá, não tem esse negócio. O Congo traz as pessoas. Então, eu acho isso importante, entendeu? Vitória, aqui em Vitória, eu já toquei quase tudo que eu tenho que cantar aí. Então, agora eu tô querendo sair, por exemplo, o último lugar que eu não toquei ainda foi na Bahia. Eu quero ir lá um dia, mas é meio difícil, mas um dia eu vou lá, porque Rio de Janeiro, Brasília, Cuiabá, essas coisas, já apresentei o Congo em tudo quanto é canto, entendeu? São Paulo, Aparecida. Então, eu tenho uma experiência boa com isso aí. Então, eu quero, só na Bahia que eu não fui, mas um dia eu vou lá, se Deus quiser, né?
P/1 – Dessas viagens, teve alguma que te marcou mais?
R – Ah, gostei muito foi do Ceará, do Ceará eu gostei muito mesmo, porque o Ceará, lá o pessoal sabe receber as pessoas, tem um carinho com as pessoas. Lá, foi muito bom e lá foi uma coisa boa que eu gostei, porque não foi só o Brasil, foi o mundo inteiro, entendeu? Portugal, essas coisas, foi tudo, foi uma coisa muito chique, entendeu? Então, nós fizemos um sucesso lá do nada. À noite, a gente foi tocar na pracinha lá, aquilo não cabia mais ninguém, já estava cheio de gente, porque o pessoal de fora, com o pessoal de lá, não cabia ninguém. Muito legal lá. Então, lá eu gostei, porque o pessoal não tinha, acolheu a gente muito bem, agora já, porque tem lugar que o pessoal gosta de Congo. Já em Brasília já não fui tão acolhedor, entendeu? Então, já no Ceará, Cuiabá, também a gente foi bem atendido, porque tem lugar que você chega, é igual aqui mesmo, você sai daqui pra tocar em _____ Santana, você não é bem recebido. Você sai daqui pra tocar, tem lugar que você nem vai se apresentar, aqui não vai dar nada pra ninguém, porque eles gostam. Tem lugar que não gostam. É igual aqui mesmo.
P/1 – O que você sente quando você canta no Congo?
R – Ah, eu sinto uma emoção grande, porque, por exemplo, você vê todo mundo cantando, você vê todo mundo te rodando, dançando ali na sua beira, te apoiando, tirando foto, você fica assim: “Ah, esse é eu mesmo? Sou eu mesmo?”. Então, eu gosto muito disso aí. Então, tem as músicas que, por exemplo, como eu falei, Monchoar é uma música que cresceu dentro do congo, a outra é Convento da Penha, cresceu, e é a música que cresceu que cresceram dentro do congo, porque todo mundo canta, todo mundo canta. Aí, fica aqueles zoadeiros na sua beira, e todo mundo dançando, você fica legal, “Esse pessoal tá apoiando com verdade”. Então, isso é, eu gosto muito, entendeu? Gosto muito. Então, quase todo ano, eu boto uma música nova, esse ano eu não tenho, quase todo ano eu boto uma música nova. Esse ano eu não fiz não, fiz não que eu tava operado, não teve como eu calcular alguma coisa, mas pro ano que vem vai ter, se Deus quiser. Aí, eu não divulgo muito minhas músicas, porque, por exemplo, eu tenho medo, porque, por exemplo, Martinho da Vila é um esperto. Eu fiz lá com o pessoal do _____, aí, gravou “Madalena”, gravou Madalena, e a Madalena é da _____, até hoje ele paga direito autoral. Mas, pô, quebrou, ele mudou alguma coisa que tava dentro da música e não tá. Hoje, em dia eu vejo um cara que diz “Canta uma música pra mim que eu vou acompanhar você com o violão”. “Ah, rapaz, eu não tô bom de garganta, não. Tô bom de garganta não, não leva mal não, mas hoje não vou poder. Vem outro dia aqui, é ruim de cantar”. Eu canto mais no Congo, porque o pessoal do Congo são pessoas honestas mesmo (som de galo).
P/1 – E quais os seus sonhos pro futuro?
R – É, pro futuro meu é já é mais pequeno, meu futuro é deixar o legado aí pra essas criançada aí, que o futuro vai ser (som de galo) bem melhor pra eles, né? Daqui uns dias, eles vão viver de Congo. Eu não digo eu, mas meus netos aí, meus filhos, vão viver de Congo. Bom, é só eles estudarem pra, por exemplo, entrar nos projetos, porque hoje tem projeto pra tudo. Nós é que não sabemos fazer, sabemos fazer os projetos, mas tem projeto de tudo, tem projeto não sei de que, tem projeto não sei, tem projeto pra tudo. Então, a gente que não sabe fazer direito, mas hoje em dia, você manda pra mim falar, mas o cara fala: “Rapaz, tem um monte de projeto aí que vocês não fazem”. Por exemplo, eu quando faço o projeto, eu mando o cara fazer o projeto, aí eu pago o cara pra fazer. Aí, eu tenho que pagar. Eu falo comigo: “Vocês têm que estudar pra vocês fazerem os projetos de vocês, vocês trabalharem, fazerem os projetos de vocês, vai viver”, né? Aí, por exemplo, hoje uma coisa que hoje o cara bota um violão debaixo de braço, pega dois tambores desse aí, começa, pega dois caras que sabem bater tambor, começa a bater, faz umas fotos, aí, vai lá e faz um projeto de como tem uma banda de cultura aí, passa no projeto. Entendeu? Aí, pega aquele dinheiro. Meu Deus, eu tenho um sobrinho assim mesmo, eu tenho um sobrinho assim, ele toca bem tambor, é percussionista, né? Junto com os caras dele lá, fizeram um projeto ano passado, ganharam mais de trinta mil, até me pagaram pra fazer a palestra pra eles aí, me deram dois mil reais. Deram dois mil. Deram dez mil a ele, ganharam mais de vinte mil, aí, deram 10 mil a eles, deram dez mil a ele. Esses dez mil deles gastaram tudo em boteco. Então, qual é o futuro? Nenhum. Entendeu? Então, tem que ter de cabeça e falar pra eles: “Olha, gente, tô te falando”. Eu espero que meus netos, filhos deles aí, cresçam dentro do Congo, para eles poderem ter um futuro mais tarde, né? Então, eu acredito que eles vão longe com isso aí. Porque é igual eu, andei com dez anos, nunca tinha ganhado nada, não, já ganhei mais, se eu for botar no ganho, já ganhei mais de cinco, mais de seis mil, entendeu? Se eu for botar no lápis, entendeu? Essa casa aqui foi um projeto do governo. Levei pra lá, queria fazer a casa de barro, fui aprovado, tá aí. Entendeu? Tem outra, tem ali, outro projeto que eu passei semana ainda, pra fazer aquilo ali, fazer um piso ali atrás. Tudo são projetos. Então, isso aí vai acontecer com nossos netos, com nossos filhos, com os filhos deles, de Cemir. Então, amanhã eles vão chegar lá pra eles viver de Congo. É só eles terem cabeça, estudar e se entregar à cultura. Porque, pelo menos se não souber fazer, mas já tem, pode fazer uma inscrição, tornar um emprego no Ministério da Cultura. Tudo isso tem vaga, só o cara ter. Tem gente que tá no Ministério da Cultura que nem conhece cultura e tá lá, entendeu?
P/1 – Mestre, qual que é o seu legado?
R – Ah, meu legado é que, como eu tô te falando, meu legado é que a gente viva bem, né, e viva trabalhando essa cultura nossa, pra amanhã, depois dela, tá aí no mundo inteiro. E deixar aí pros meus netos, meu legado aí pros meus netos, meus filhos, que eles deem continuidade ao trabalho. Nunca pode deixar a nossa cultura morrer. Então, esse é o que eu tenho pra falar pra eles.
P/1 – O que que você achou de contar a sua história hoje?
R – Não, a minha história foi boa. Eu gostei, eu acho que isso aí, pelo menos, tá me valorizando, entendeu? Valorizando aqui a Casa do Congo, porque isso é muito legal. Então, eu acho isso muito bom, porque os saberes que a gente sabe alguma coisa tem que passar pras pessoas, né? (toque de celular). Então, tem que passar pras pessoas. Então, acho que pra mim foi muito bom esse encontro com vocês. E aí, você tinha falado comigo, eu falei: “Não, pode deixar, deixa que eu tô aí”. Então, essa semana já é a segunda, né? Já teve um da revista, né? Já teve um da revista, agora tem vocês. E amanhã tem outra, vai pro Carnaval de Congo, é o mês todo, esse mês agora vai ser o mês todo só de encontro. Aí, tem gente pra falar do carnaval, vem outra pessoa. Tá doido. É muito legal. Muito bom. Espero que vocês voltem aqui outra vez e trazendo um resultado bom do trabalho de vocês.
P/2 – E se você puder deixar um recado, assim, pra nova geração de cultura, assim, o que você deixa pra gente nova que tá chegando agora, que vem de uma tradição também, de mensagem?
R – O recado que eu deixo pra eles é que deem continuidade ao nosso trabalho, não deixar o nosso trabalho morrer, porque é um trabalho de quase 200 anos. Não pode morrer assim. Então, eles que são novos têm força pra levantar a cultura. Então, eles têm que estar cientes que a cultura é um trabalho bom pra nós e pro mundo inteiro, pro Brasil inteiro. A cultura é forte. A cultura traz emprego, ela traz muitos benefícios pra nós. Então, eu acho que essa rapaziada nova que vem aí, eles têm que valorizar muito a cultura e o trabalho deles dentro da cultura.
P/1 – Faltou algo que você queira falar?
R – Não. Acho que pra mim tá bom.
P/2 – É isso. Muito obrigada.
R – Obrigada.
P/2 – Obrigada por compartilhar um pouco da sua história.
R – Sim.
P/2 – Dia 3 tô aqui.
R – Dia 3 você vai vir? Se Deus quiser.
P/2 – Tem quatro anos que eu venho.
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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