Memórias do Casarão
Os melhores momentos de nostalgia feliz da minha vida aconteceram em minha querida São Gonçalo dos Campos, ou, como passamos a chamá-la nos anos 2000, com carinho, Songas.
É difícil manter uma cronologia exata, mas aos poucos vou tentar trazer à tona as lembranças e emoções vividas. Poucas são as boas recordações que não têm como pano de fundo esse cenário encantador.
Grande parte das minhas memórias está fincada no casarão antigo onde moravam meus avós maternos, César Ferreira Dessa e Maria Carolina Magalhães Dessa, ou, como chamávamos com carinho, \\\"Mariá\\\". Ali também cresceram minhas tias e meu tio: Margot, Magnólia, Regina (minha mãe), Lia, Gracinha (a Gal), Iainha, Lucinha e Cezinha, uma família de oito filhos, sendo sete mulheres e um único homem.
O casarão, de arquitetura imponente, ficava numa ladeira logo na entrada da cidade, após o velho pontilhão da estrada de ferro. Eu ainda vi trens passando ali, e cada passagem era uma alegria imensa. Brincar sobre os trilhos era quase um ritual da infância.
A entrada do casarão tinha cerca de 4 a 5 metros de largura, com um portão de grades e lanças de ferro fundido, ladeado por duas colunas altas. Subindo os cerca de 25 ou 28 degraus da escada de cimento, chegávamos a um pátio largo e cimentado, com cerca de 20 a 25 metros de comprimento, ladeado por jardins. No jardim da direita, que era mais largo, havia uma acácia amarela que estava quase sempre florida e outra árvore cujas sementes alaranjadas usávamos nas brincadeiras. Mais ao fundo, um tanque elevado sobre uma cisterna abastecia a casa. Próximo dele, uma goiabeira generosa me presenteava com seus frutos.
Do lado esquerdo do pátio, os jardins eram mais estreitos, com duas escadas de três degraus arredondados que levavam à varanda. Essa varanda, com seu balaústre entre colunas robustas e telhado alto, abrigava cadeiras de ferro revestidas de fitas plásticas, típicas da...
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Memórias do Casarão
Os melhores momentos de nostalgia feliz da minha vida aconteceram em minha querida São Gonçalo dos Campos, ou, como passamos a chamá-la nos anos 2000, com carinho, Songas.
É difícil manter uma cronologia exata, mas aos poucos vou tentar trazer à tona as lembranças e emoções vividas. Poucas são as boas recordações que não têm como pano de fundo esse cenário encantador.
Grande parte das minhas memórias está fincada no casarão antigo onde moravam meus avós maternos, César Ferreira Dessa e Maria Carolina Magalhães Dessa, ou, como chamávamos com carinho, \\\"Mariá\\\". Ali também cresceram minhas tias e meu tio: Margot, Magnólia, Regina (minha mãe), Lia, Gracinha (a Gal), Iainha, Lucinha e Cezinha, uma família de oito filhos, sendo sete mulheres e um único homem.
O casarão, de arquitetura imponente, ficava numa ladeira logo na entrada da cidade, após o velho pontilhão da estrada de ferro. Eu ainda vi trens passando ali, e cada passagem era uma alegria imensa. Brincar sobre os trilhos era quase um ritual da infância.
A entrada do casarão tinha cerca de 4 a 5 metros de largura, com um portão de grades e lanças de ferro fundido, ladeado por duas colunas altas. Subindo os cerca de 25 ou 28 degraus da escada de cimento, chegávamos a um pátio largo e cimentado, com cerca de 20 a 25 metros de comprimento, ladeado por jardins. No jardim da direita, que era mais largo, havia uma acácia amarela que estava quase sempre florida e outra árvore cujas sementes alaranjadas usávamos nas brincadeiras. Mais ao fundo, um tanque elevado sobre uma cisterna abastecia a casa. Próximo dele, uma goiabeira generosa me presenteava com seus frutos.
Do lado esquerdo do pátio, os jardins eram mais estreitos, com duas escadas de três degraus arredondados que levavam à varanda. Essa varanda, com seu balaústre entre colunas robustas e telhado alto, abrigava cadeiras de ferro revestidas de fitas plásticas, típicas da época. Era palco de muitas brincadeiras, corridas, pega-pega e, claro, broncas das tias pelas nossas traquinagens.
O chão da varanda era de lajotas vermelhas sextavadas. Lembro bem do cheiro da cera vermelha usada para encerar o piso, e de como ficávamos sujos de tanto rolar por ali.
Mesmo sem entender direito o motivo, desde pequeno eu já observava os detalhes da construção. Rachaduras no reboco revelavam os pilares feitos de tijolinhos cozidos, enquanto as paredes eram de adobe. O reboco imitava pedras, e o pé-direito altíssimo (quase 4 metros!) me fazia sentir minúsculo. As portas e janelas, também muito altas, reforçavam essa sensação de imponência. Eu me sentia dentro de um palácio.
A parte da frente da casa tinha três salas, interligadas por arcos e ligadas a quartos. Apenas uma das salas e um dos quartos tinham janelas voltadas para a rua. Os vidros dessas janelas eram coloridos - azul, vermelho, amarelo - filtrando a luz com um toque mágico.
O piso das salas era de lajotas quadradas de barro cozido, com rejunte de cimento tão firme que resistia ao tempo, mesmo com o desgaste das peças. Minhas tias viviam reclamando do desnível que dificultava a limpeza.
A principal entrada da casa era por uma grande sala de refeições, perpendicular à varanda. Uma mesa enorme ocupava o centro, cercada por muitas cadeiras de madeira clara, de encosto alto. Era onde a numerosa família se reunia para comer, rir e viver. Ali também havia um móvel alto com tampo de mármore para guardar pratos, uma escrivaninha escura do meu avô e uma cristaleira repleta de taças.
Atrás dessa sala, ficava o \\\"quarto de engomar\\\", onde se passavam as roupas. Ao lado, uma porta larga levava a um salão de festas da casa, mais um lugar mágico, no piso, as mesmas lajotas de barro cozido e um degrau o colocava um nível mais alto que os demais. Uma única janela deixava a luz entrar até a sala de refeições, tímida e suave.
Essa sala tinha um piso especial de ladrilho hidráulico, ele se estendia até a copa, onde havia uma pia esmaltada sobre bancada de granilite (eu adorava mexer na torneira antiga) e uma mesa menor, encostada na parede, com quatro cadeiras largas e simples. Da copa, acessávamos o único banheiro da casa, um cômodo amplo, com conjunto sanitário de louça branca ja craquelada, uma banheira de ferro, um chuveiro com uma área de banho grande, um baú e uma minúscula janelinha.
Logo depois ca copa, a cozinha, bem grande, uma mesa sempre coberta com um \\\"encerado\\\" grosso, uma outra pia, uma bancada longa com armários em baixo. Um fato curioso que eu adorava, na cozinha haviam dois grandes potes de barro tampados com um prato e uma caneca des esmante em cima, era onde se armazenava a água de beber trazida à casa em lombo de jerico, transportada em barris de madeira, vinda da fonte que abastecia a cidade, a \\\"Fonte da Gameleira\\\", essacágua se mantinha sempre friace fresca! Ao fundo, havia ainda outra cozinha, numa casinha externa, com um grande fogão a lenha, lugar de cheiros bons e panelas grandes.
Dentro da casa, ao lado da escrivaninha, duas portas levavam a quartos enormes. O segundo era acessado apenas por dentro do primeiro. Um deles tinha até uma porta para a varanda, mas eu só a vi aberta uma única vez. Apesar do tamanho, a janela era pequena e dava vista para o tanque.
Nos fundos da casa, uma outra varanda dava acesso a um pátio de chão batido. Dali, descendo dois degraus, após alguns passos, chegávamos ao quintal dos sonhos: separado por um muro alto e um portão, ficava o verdadeiro paraíso da infância.
Mesmo considerando que eu era pequeno e tudo me parecia maior, o quintal era, de fato, enorme. Um pedaço do Éden, com saguis saltando entre os galhos, muitos pássaros, e árvores frutíferas por todo lado: cajueiros, mangueiras, sapotas, sapotis, mamoeiros, tamarindeiros, frutas-pão, bananeiras, jaqueiras... tudo num só lugar. Um verdadeiro milagre em forma de quintal. Esse era meu palácio, casa dos avós, onde eu corria e brincava e podia dizer, aqui eu sou feliz!
Conversando com minha mãe depois de ler pra ela esse textinho e comentando como lá era bom, ela me disse:
-Realmente, ali era a casa da felicidade, o lugar onde eu cresci, uma casa que sempre estava cheia de gente, era um lar, um lugar mágico cheio de alegria onde eu nunca vi meus avós brigando!
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