Projeto: Memória da Petrobras
Depoimento de Mauro Lorencette
Entrevistado por Márcia de Paiva
Vitória, 24/11/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista CBES003
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Boa tarde.
R – Boa tarde.
P/1 – Gostaria de começar a entrevista pedindo que você nos diga o seu nome completo, local e data de nascimento.
P/1 – Mauro Lorencette, nasci em Alfredo Chaves, em 13/05/1954. Alfredo Chaves, Município do Espírito Santo.
P/1 - Mauro, conta para a gente como foi o seu ingresso na Petrobras.
R – Eu ingressei na Petrobras através de concurso quando a Petrobras era instalada em Vitória inicialmente, o antigo (Disude?).
P/1 – (Disude?) é o que?
R – Era Distrito do Sudeste antes, depois foi mudando para várias outras siglas, né? Curiosamente, era como hoje. A Petrobras em Vitória, ela tinha seis casas alugadas aqui na Praia do Canto. E hoje nós temos aqui cinco, ou seis prédios alugados também. Entrei em Vitória, em 78, 79 fui transferido para Macaé. Trabalhei quatro anos em Macaé, de 79 a 83, cheguei em Macaé em agosto de 79, saí em agosto de 83 para São Mateus...
P/1 – Aqui no Espírito Santo?
R – Espírito Santo. Em 2001, recebi o convite vir trabalhar em Vitória, compor a equipe da área de compras em Vitória, com a equipe que veio para Vitória. E estou até hoje aqui.
P/1 – Em Macaé você trabalhou em que setores?
R – Sempre ligada à área de materiais, sempre ligada à área de compras.
P/1 – Fala um pouquinho então, desses anos todos na Petrobras o que que você tem de uma história marcante, nessas passagens?
R – A minha própria entrada na Petrobras ela foi marcante, porque eu recebi uma primeira chamada em setembro de 77, mas como era garotão, novo e tinha emprego, eu trabalhava no departamento estadual de trânsito e era para ir, curiosamente, para São Mateus, interior do estado. E São Mateus na época, era bem interior mesmo. Eu falei: “Não, não vou. Tenho alguma chance de perder a vez?” Falou: “- Ó, momentaneamente, mas a gente garante que vai te chamar outra vez.” Aí, recebi a segunda chamada em fevereiro de 78. Mas já sabendo que a sede se mudaria para Macaé. Nessa mudança para Macaé, na nossa área, que era área de apoio, era ligada a divisão de apoio, muitos colegas foram... como é que eu diria, demitidos, não foram transferidos. E eu, como era novo, também estava na lista. E curiosamente, hoje, a P34 que está aqui em Vitória para reforma e vai ser ligada ao UN-ES, ela se chamava navio Presidente de Moraes. Eu de férias, foram em casa me chamar para mim cobrir as férias de um colega. Quando cheguei na Petrobras, falei: “Pôxa, mas eu estou de férias, como eu vou embarcar?” Falou: “- Não, Maurício, tem que embarcar porque o seu colega não quer ir de forma alguma embarcar.” Um senhor chamado senhor Porto, me chamou e falou: “- Mauro, ó, se você não embarcar, seu nome está na lista de demitido. Você indo, você tem uma chance.” Eu e falei: “Pô, então eu vou.” Saí daqui, fui para Campos, antes o aeroporto era em Campos...
P/1 – Mas aí você embarcou, foi num navio para...
R – É, Presidente Prudente de Moraes, que hoje se chama P-34, que é essa que está aqui em Vitória, quer dizer, eu ingressei na Petrobras... fiquei na Petrobras, graças a esse embarque; que quando eu desembarquei o meu chefe de divisão me chamou e me mandou ir em Macaé, eu e minha esposa, para procurar uma residência. E curiosamente, hoje ela está com a gente aqui também, né?
P/1 – Também trabalha na Petrobras.
R – Quer dizer, eu fiz um círculo e, por incrível que pareça, o navio, hoje sonda, fez o mesmo círculo.(riso) Então, quer dizer, acho que meu próprio ingresso na Petrobras é o que mais me marcou, por eu ter dispensado a primeira chamada, que hoje, eu acho que dificilmente alguém dispensa uma chamada da Petrobras, fui chamado, aconteceu todo esse problema de haver dispensa; porque ela não queria transferir todo mundo para Macaé. E eu, graças a esse embarque ao navio, hoje a P34, me mantive na Petrobras e estou há 26 anos nela.
P/1 – Me explica uma coisa, você disse que trabalha com o setor de compras desde o princípio, aí você embarcado, você... como é que é?
R – É porque compras é ligado à área de materiais.
P/1 – Pois é, e...
R – Eu, na verdade, fui substituir o almoxarife.
P/1 – Do navio?
R – Do navio, porque hoje não era tão comple... antes, eu conto os controles de entrada e saída de materiais, não exigia grandes... era mais manual mesmo, ficha, só fiquei três dias mesmo lá com o rapaz que ia desembarcar, para pegar como seria o controle de movimentação, como seria as entregas. E nesse embarque peguei uma leve tempestade que me desarrumou o almoxarifado todinho.
P/1 – Conta como é que é estar num almoxarifado que as coisas...
R – O navio simplesmente... dormindo, à noite. Eu estranhei que o navio balançou muito, não no sentido longitudinal, lateral eu estranhei, né? Primeiro embarque da minha vida, nunca tinha entrado num navio. Eu estranhei que ele balançava muito. De manhã, quando cheguei no almoxarifado os armários de conexões, ferramenta, totalmente espalhado; que tinha mais de um local como almoxarifado, né? Foi uma desarrumação total, desarrumou tudo. Que tudo tinha o seu local, né, no escaninho certinho. Aí eu falei: “E agora, eu não sei como guardar isso.” Juntei tudo nas caixas, quando o colega retornou, eu falei: “Ó, arruma o almoxarifado todinho que está uma bagunça. O navio balançou muito, derrubou tudo.” Mas foi uma experiência muito boa, uma época que podia se pescar muito nas plataformas, primeiro peixe grande que eu peguei. Aquilo para mim foi um...
P/1 - Isso lá em Macaé?
R – É, na Bacia de Campos. Foi um aprendizado e uma experiência muito boa embarque que eu fiz. Mas também foi o único embarque que eu fiz.
P/1 – E aqui no Espírito Santos, aí você trabalha aqui, como é que é o nome desse prédio?
R – Esse prédio aqui é o Mata da Praia.
P/1 – Mata da Praia?
R – É, mas nós viemos para cá, inicialmente ficamos lá dentro da Universidade Federal, no CT 6, Centro Tecnológico 6, que até hoje ainda tem colegas lá, né? De lá nós transferimos aqui para o Mata da Praia.
P/1 - E o trabalho aqui agora, desse setor de compras, ele é todo computadorizado...
R – É, agora é no novo sistema, inclusive, né, no (R3?), mas totalmente, como toda a Empresa, totalmente informatizado. Nada manual. Manual mesmo, só a escrita, por enquanto.(riso)
P/1 – Mauro, você é sindicalizado?
R – Sou.
P/1 – Se sindicalizou desde quando?
R – Eu sou, é... 70...
P/1 – Desde que entrou.
R – Não, não porque eu entrei na época do militarismo, né, não existia os sindicatos. Eu me sindicalizei em São Mateus. Agora, não sei precisar... em 83. Quando eu cheguei em São Mateus eu me sindicalizei.
P/1 – Você chegou a exercer algum cargo no Sindicato?
R – Não. Cargo nenhum.
P/1 – E o trabalho em São Mateus, como é que é?
R – Em São Mateus, eu transferido da área de produção, porque a Petrobras antes ela era separada aí exploração, produção, perfuração. Eu saí da área de... eu fui transferido da área de produção para perfuração. Era o antigo Depe, pertencia ao Depe.
P/1 – Depe?
R – Departamento de Perfuração. Eu fui transferido para o DPSE, era Distrito de Perfuração do Sudeste. E lá eu comecei realmente como comprador, né? Antes eu trabalhava na área de compras, mas na área de cadastro, de fornecedor, indicação de fornecedor, nunca como efetivamente como comprador mesmo. Em São Mateus eu passei a ser realmente comprador.
P/1 – E a Petrobras compra mais aqui no Brasil, compra fora do Brasil?
R – Muita compra nacional, muita compra...
P/1 – O grosso mesmo é todo nacional?
R – Nacional, embora que a gente efetua licitações internacionais, né, que convida tanto fornecedor nacional, como internacional. Mas, nós aqui, por enquanto, ainda; como é que eu diria, nossas compras, ainda o volume não está muito grande devido a não ter ainda plataformas subordinadas à gente, então está crescendo gradativamente.
P/1 – E é engraçado. Aqui em Vitória, vocês não têm uma sede própria, né? Você me falou que os prédios são alugados.
R – Não, não temos.
P/1 – Desde a época que você também começou. Você sabe por que?
R – Porque, como é que eu diria, a sede aqui, acredito eu, né, Vitória é uma capital pequena. Inicialmente, por problemas político, que foi passado para a gente, que queriam colocar a Petrobras na época, como se fosse periferia. E para a Petrobras não era interessante. Então, eles optaram pela (Ufices?). Antes era só o CT 6 e o Castelinho, onde fica o gerente geral hoje, que vai vir agora aqui para um prédio que chamaram de “ Pedra da Cebola”, que é o antigo prédio da Xerox. Mas a sede, segundo informação que nos foi passada, já está decidida que vai ser aqui na reta da Penha, atrás da Emescam, uma universidade particular, o terreno inclusive, pertence a Emescam então, a partir...
P/1 - Emescam é o que?
R –Emescam é uma faculdade de medicina aqui em Vitória. Então, me parece que o primeiro módulo, uma mensagem que o gerente geral passou, primeiro módulo da sede, me parece que em 2006 deve estar pronto.
P/1 – Mauro, tem alguma outra história que você gostaria de deixar registrada?
R – Deixar registrado; é que tanta coisa assim, que... o registro é que a ida para Macaé, quando chegamos em Macaé, a gente notou que, como é que eu diria, a gente não foi muito bem vindo.
P/1 – Por que?
R – Os nativos estranharam, né, porque a Petrobras... aquela invasão e coisa e tal, aquele monte...
P/1- Isso o pessoal da comunidade mesmo?
R – É, os nativos do local, né? Embora que hoje a Petrobras em Macaé é uma...
P/1 – Mas vocês sentiam alguma hostilidade?
R – É, não, não era bem hostilidade, entendeu, mas a gente, como é que eu diria, sentia uma certa, uma certa rejeição. Como também, agora não, mas São Mateus, eu amo muito, uma cidade que eu aprendi a gostar muito, São Mateus, mas quando a gente fazia movimentos lá, teve o grande movimento de 94, 95...
P/1 – Movimento sindical?
R – Os nativos chamavam a gente de vagabundos, marajás. Então são coisas que marcam a gente, né? Mas, assim, história, história mesmo não, porque eu sempre trabalhei muito dentro de escritório e as histórias que a gente ouvia só contar muito pessoal do campo, essas coisas assim, né? Mas, história que marcou, marcou muito só história triste, que eu não gostaria de deixar gravado não.
P/1 – Tá! (pausa)
R – Uma curiosidade foi o seguinte; na primeira chamada eu não quis ir para São Mateus e, no entanto, paguei para ir para São Mateus depois.
P/1 – Por que?
R – Porque o meu chefe... quando eu quis ser transferido para São Mateus...
P/1 – Sair de Campos?
R – Sair de Macaé para São Mateus, o meu gerente não queria... gerente hoje, na época era chefe de setor, ele não queria me liberar. Falou: “- Não, eu não vou te liberar para ir para São Mateus.” Aí, eu tanto insisti, ele falou: “- Só se você arranjar uma permuta.” Uma troca com um outro colega, né? Arranjei o colega. Aí no final ele disse: “- Ó, Mauro, você arranjou tudinho, só que tem um detalhe: a Petrobras não vai te dar nada para você ir para São Mateus. Não vai pagar sua mudança, não vai te dar auxílio transferência.” Eu digo: “Não tem problema! O dinheiro, paciência, eu chamo meu pai...” Na época meu pai trabalhava com transporte, ele tinha caminhão, chamei ele, ele fez minha mudança. Quer dizer, uma curiosidade, que eu não quis ir, depois paguei para ir.(riso) E na cidade que eu gostava, até porque a saudade da família mesmo, né?
P/1 – Ficar mais próximo da família?
R – Embora que a distância São Mateus/Vitória, é quase a mesma Macaé/Vitória. Mas a sensação de estar dentro do Estado, mais facilidade de vim a Vitória ver os irmãos, os meus pais, que são vivos até hoje, aí eu falei: “Não, eu vou embora, vou ficar mais perto da família. Então, foi uma curiosidade. Hoje eu penso assim: “Pôxa, eu não quis ir, depois paguei para ir.”(riso)
P/1 – Mauro, me diz só uma coisa: nesses lugares menores, essa relação com a comunidade, que tinha um certo estranhamento, a Petrobras fazia alguma projeto comunitário para tentar reverter?
R – Porque veja bem, Macaé era muito recente. Macaé, se não me falha a memória, Macaé deve ter começado 77, 78, eu fui 79, os prédios de (Imbetiba?) ali, não estavam nem prontos ainda. Então era uma coisa muito recente, né, esses trabalhos social, de integração que a Petrobras faz hoje...
P/1 – Naquela época não tinha.
R – Até porque, como é que eu diria, a política era outra, ditadura e acabou, não importa muito a opinião do povo. Então hoje, eu acredito que macaense nenhum quer a Petrobras fora de lá hoje. Como Mateense nenhum quer a Petrobras, todo mundo quer a Petrobras hoje. Vitória aqui, os municípios brigaram pela Petrobras.
P/1 – E isso por causa dessas novas políticas?
R – Eu acredito que sim, né? Até porque a política de integração com a comunidade, com as escolas, as ajudas. Então, isso daí... não só isso, apesar de que, que a gente tem que entender que o pensamento nosso; é uma coisa, a gente não pode querer que os nossos pais pensem igual a gente. Para eles o progresso...(riso) pouco interessa.
P/1 – Então tá. Mauro eu queria te perguntar o que você acha dessa iniciativa da Petrobras e do Sindicato estarem fazendo esse Projeto Memória e se você gostou de ter participado?
R – Eu acho muito importante, até porque, como é que eu diria, uma empresa sem memória, sem arquivo, não tem história. E eu, eu fiquei até surpreso de ter sido chamado, até perguntei ao meu gerente: “Ô, quem me indicou?” (riso) Eu até brinquei com a menina, falei: “Ó!”, ela falei assim: “Foi sorteado!” , “Não, eu nunca ganhei sorteio nenhum.”(riso) Mas gostei muito, acho muito importante preservar o acervo da Empresa, por exemplo, quantas histórias que os colegas que levantaram essa Empresa teriam para contar, que ficou perdida no tempo? Aqui, os desbravadores mesmo, né? Hoje a gente alguma coisinha, mas... Como via colega contando história na Bahia, quando a Petrobras lá... todos baianos faziam rabo de dinheiro: “Dinheiro corre atrás de mim agora.”(riso) Então são histórias, né, poderiam terem sido preservadas, né? Mas eu gostei muito de participar.
P/1 – Então tá, Mauro. Queira agradecer a sua participação. Muito obrigada.
R – Tá ok, obrigado vocês.
(Fim da fita CBES003)
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