Projeto: Memória da Petrobras
Depoimento de Marivete de Barros
Entrevistado por Moacir Maia
Vitória, 24/11/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista CBES004
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Boa tarde.
R – Boa tarde.
P/1 – Gostaria de começar a entrevista perguntando seu nome completo, data e local de nascimento.
R – Marivete Oliveira de Barros, nasci em Montanha, no Espírito Santo...
P/1 – Quando?
R – Em 15/05/59.
P/1 – Dona Marivete, eu gostaria então, de começar a nossa entrevista perguntando para você quando se deu o seu ingresso na Empresa, na Petrobras?
R – Em entrei na Petrobras em 78, aqui em Vitória, trabalhei aqui até 79. Inicialmente eu entrei na área de recursos humanos e em 79 a Petrobras foi para Macaé. Aí, houve uma mudança, todo mundo foi transferido de Macaé, em setembro de 79 iniciamos nova etapa lá em Macaé. Esse período eu trabalhei na Petros, até 84 e 84 surgiu uma oportunidade de trabalhar em plataforma. Na verdade, não surgiu a oportunidade.(riso) Eu tinha vontade de trabalhar embarcada , porque eu percebi que não tinha espaço para mulher, né, mulher não podia trabalhar embarcada. Nessa época, o pessoal da Petrobras não podia permanecer, não podia ser notada na plataforma e eu tinha vontade de trabalhar no regime, na época era 14 trabalhando e 14 folgando. Então, foi difícil assim, no primeiro momento porque tinha uma restrição da Empresa, a mulher não poderia permanecer em área periculosa, eu podia ir lá fazer um trabalho, mas não podia ter uma lotação fixa, né, na plataforma. Então, eu batalhei muito junto ao gerente geral, na época o superintendente e ele conseguiu essa liberação, muito embora assim, na época, já existia; a (Júlia Farfan?) já trabalhava embarcada, uma engenheira, mas como eu disse, ela não ficava lotada, né, fazia um trabalho dois, três dias, voltava. E tinha também uma colega nutricionista, que trabalhava para uma empresa terceirizada, uma empresa de hotelaria, a (Vanda?). Assim, conversando com a (Vanda?) e tal, é que eu achei assim, que era uma oportunidade, porque se a Petrobras abrisse esse espaço, no futuro, né, podiam outras pessoas... ser uma coisa normal, né, como hoje é, né? Então, eu, assim, ficou assim, de agosto de... fiquei lutando assim, para conseguir embarcar, de agosto 84, só tive a resposta em dezembro de 84, isso. Em agosto aconteceu um acidente grave na plataforma, faleceram 37 pessoas, um acidente com uma baleeira e eu fui substituir esse colega que faleceu, na área de administrativa, (Senhor Hélio?). Então eu quando eu comecei a embarcar, o meu objetivo maior era desafio mesmo, uma área nova, né, começar numa área nova, uma oportunidade, um campo novo que ia abrir. No primeiro momento eu estava super insegura, porque se não desse certo, não podia haver transformação, né, de novas mulheres embarcadas depois. Mas deu certo, no início eu fiquei um pouco assustada, só no início, porque as pessoas estavam sofrendo muito naquele momento por causa do acidente... o mundo na plataforma, um mundo muito humano, os colegas... o respeito era total e, inicialmente, é como eu falei, eu tinha assim, um certo... eu fui adquirindo confiança e no terceiro embarque é que eu fui sentindo mais confiança, porque as pessoas não estavam, naquele momento, confiando nos equipamentos de segurança da plataforma. Mas eu sabia, porque a minha relação com a Petrobras, sempre foi uma relação muito forte, de confiança. Eu sabia que aquilo aconteceu e a partir daquele acidente, que foi uma falha humana, “porque tinha que soltar os (gatos?), tinham que soltar” e a baleeira adernou, virou e despencou, né? Então, a partir dali foi mudado todos os procedimentos de segurança e enfim... Aí o mundo na plataforma... eu fiquei ali embarcada quase três anos, naquele regime de trabalhar 14 e folgava 14. Eu achava interessante porque para mim era importante, porque era diferente. Eu sempre trabalhava no escritório, eu trabalhei muito cedo, né, com 15 anos eu comecei a trabalhar, com 18 eu já estava na Petrobras. Então assim, foi importante para mim mudar o regime de trabalho, né? E aí, logo assim, em 85, final de 85, para minha maior alegria, foi ter olhado o edital para concurso, onde não tinha mais aquela restrição para mulher. Então, começou a fazer os concursos de operadores, mecânicos, enfim, médicos, sem restrição de sexo. Foi uma alegria, porque a gente sabe que para as mulheres que tem filho, é difícil realmente ficar lá, porque a mulher ela é a provedora do lar, né, ela é muito forte. Mas, enfim, eu fiquei até 87 embarcada, depois, em 2000, 2000, surgiu um novo regime que era 14 por 21, aí eu falei(riso): “Não, eu tenho que aproveitar essa oportunidade agora...”, só que nesse momento já tinha filho, né, então, já não foi tão fácil. Mas eu fiquei assim mesmo dois anos embarcada, porque eu achava que os 21 dias de folga era, oportunidade única para ficar com as crianças, para dar uma atenção. Mas com o passar do tempo eu percebi que eu era muito importante em casa, esses 14 dias que eu faltava... eu até fiz assim, uma comparação, que os 21 dias, quando eu estava em casa com a família era uma abundância, era uma riqueza, né, porque eu estava ali presente, quando eu faltava, quando eu ia embarcar eu começava a perceber aquela energia triste, sabe, em casa e quando eu ligava eles sofriam muito, eu percebi que era 15 dias de pobreza (riso) mesmo dessa ausência, né, dessa mãe forte, tal. E aí eu, um belo dia, quando aconteceu o acidente da P36, né, que ela afundou, aí eu...
P/1 - Isso quando, em que ano?
R – Foi 2001, 2001 que aconteceu o acidente. E aí, quando o meu filho viu a plataforma afundando, nossa! Ele chorou tanto nesse momento. Dali, eu não embarquei mais, porque eu vi quanto que eu estava fazendo a minha família sofrer. Então eu percebo assim: hoje, para as mulheres eu trabalham embarcadas, que tem filho, eu sei que... olha, são muito guerreiras mesmo, porque faz falta em casa! Mas, esse ano eu vim para Vitória, quer dizer, de alguma forma resgatei, né,(riso) voltei para o lugar de origem e estou aqui trabalhando na área de projetos sociais, estou gostando muito, enfim...
P/1 – E esse seu primeiro embarque, né, trabalhando em alto mar, já tinha outra mulher também, que também já fazia nesse regime, ou não?
R – Não, quando foi liberado já para esse regime, duas pessoas embarcaram, quando liberou. Foi eu e Irene Carneiro, uma colega. Nós embarcamos no mesmo dia, 23 de dezembro de 84. Aí, logo depois, outras pessoas começaram a embarcar, a própria Júlia, que não era do regime fixo passou a ficar em regime fixo. E a Júlia trabalha até hoje. Eu costumo dizer que a pioneira mesmo, assim, da Petrobras, é a Júlia.(riso), mas teve outras pessoas de empresas terceirizadas.
P/1 – E como era o cotidiano na plataforma, porque deve ser diferente, né?
R – É, na plataforma nosso regime de trabalho era sete à sete, né, era 12 horas, eu trabalhava no escritório, era um regime até tranqüilo, quer dizer, quando acontece os alarmes de segurança, alarmes de incêndio e tal, aquilo a gente apavora um pouco, tem que ter aqueles treinamentos, o simulado e tal. Apavora assim, dá só aquele medo, né, mas tudo com muita segurança e os colegas... eu percebi que para a mulher trabalhar embarcada... uma coisa boa eu acho, que humaniza mais, sabe, o ambiente. Primeiro, um ambiente de respeito, sabe, e outra coisa, a mulher é meio vista como a mãe, eu acho sabe, então, acontecia muito comigo assim, os colegas, procurar para desabafar, né, ou o filho doente, ou a esposa que está passando por uma dificuldade, a gente sempre, via em você a figura materna mesmo. Então, eu acho que era assim, como hoje tem muita mulher embarcada, eu acho que é importante... e o universo nas plataformas, quer dizer, o universo é masculino, acho que na medida que... eu acho que não vai acontecer de ficar meio a meio, né, mas assim, sempre... eu acho que é importante a figura da mulher na plataforma. Quando eu trabalhava lá eu fazia ginástica regularmente, manhã, né, cedinho, tem o heliponto, corria no heliponto, depois tem uma sala de musculação, enfim... E tinha na minha época, né, hoje também ainda é assim, tem um camarote feminino. Na minha época teve que criar, né, porque era difícil...(riso)
P/1 – Não tinha, então.
R – Não, porque é assim: quando eu fui só tinha eu e mais uma, quer dizer, eu e a (Vanda?). Então, um camarote feminino, tinha... o camarote tinha quatro beliches, né, então tinha que matar duas vagas, e vaga era uma coisa seríssima, né, tal. Então, inicialmente ficou perdendo duas vagas, mas depois foi entrando mulher da empresa de hotelaria e daí normalizou, ficou o camarote “menina”. Até hoje existe o camarote “menina”, enfim, não tinha espelho, né, aquelas coisas que a gente sente falta, a gente pediu para colocar o espelho, passar um batom e, até hoje, assim. Eu gosto de plataforma, eles têm um programa de visita familiar, sabe? E é interessante, nesse dia é um dia muito importante, porque as pessoas que são sorteadas para receber as famílias, o dia que a família chega você vê o brilho nos olhos das pessoas, é assim, uma coisa contagiante, sabe, a alegria dele estar ali sabendo que a família que vai conhecer o ambiente de trabalho, porque realmente, né, é uma máquina, né, na Bacia de Campos você vai lá fora, você vê assim, uma cidade, né, acho que são 65 plataformas, por aí, então, é um mundo completamente diferente. Então, a Petrobras, ela valoriza até, esse programa de visita familiares é muito importante, você vê a alegria, você olha o brilho no olhar, porque o que eu percebo das pessoas, a maioria deles, eles optam por esse regime de trabalhar embarcado, porque pode morar em outra cidade, né, e tal. Porque se a gente for pensar bem, essas pessoas têm que ser muito valorizadas, porque é uma solidão constante, porque você fica 15 dias fora da família e quando você volta, na sua folga, você também fica um pouco só, porque está todo mundo no mercado de trabalho, todo mundo atuando, né, então, claro que para a família a gente dá muita atenção e tal, mas no social você acaba ficando um pouco isolado.
P/1 – E a Senhora tem alguma lembrança marcante da Petrobras?
R – Lembrança marcante? (pausa) Não, eu não sei se eu posso falar “lembrança marcante”(riso) Eu tenho um caso, assim, engraçado, quer dizer, não engraçado, apesar de estar me lembrando...
P/1 – A Senhora tem uma história engraçada, então. Podia então conta para a gente?
R – É, não é tão engraçada. Mas uma vez eu estava de Vitória, para vim de Vitória para São Mateus; não, de Macaé para São Mateus, naquela época a gente usava um Bandeirantezinho, hoje em dia acho que não tem, mas tinha muito contato Vitória, porque aqui era ligado, São Mateus era ligado ainda, a estrutura era ligada a Macaé. Então, eu trabalhava na Petros e tal, isso foi antes de eu embarcar, aí fui fazer... foi lá em Vitória, foi lá em São Mateus, quando estávamos perto, chegando pouco, perto de chegar em São Mateus, o Bandeirantes começou a dar um defeito.(riso) Olha, foi um desespero! Eu percebi que o meu mecanismo de defesa era só rir, só ria, porque eu via as pessoas desesperadas, parecia que o nariz estava grande(riso), gotejava de suor. E não teve jeito, tivemos que fazer um pouso forçado na mata. Foi assim, mas, tranqüilo, com muita segurança, quer dizer, podia não ter sido, mas fizemos. E depois o... ficamos lá um tempo, umas duas horas esperando o novo avião, né, Bandeirantes e o pessoal, foi todo mundo para... eram umas sete pessoas, passou para o outro avião e eu cismei que não podia passar, porque já que consertou o outro, eu tinha que ficar no velho.(riso) Superstição, sabe, no fim, eu acabei voltando sozinha com o piloto, no avião que foi consertado. Porque eu achei: “Não, se nesse aqui não aconteceu nada, é com ele que eu vou continuar confiando.” Enfim, essas coisas assim.
P/1 – E a senhora é filiada ao Sindicato?
R – Sou filiada ao Sindicato sim.
P/1 – Eu queria saber da senhora, quais as principais conquistas do Sindicato, que a Senhora acredita aí, quais seriam?
R – As princípais conquistas?
P/1 – É, na sua opinião.
R – Tá, deixa eu pensar aqui. Olha, para mim, a conquista mais importante do Sindicato foi essa do regime de 14 por 21. Porque eu não trabalho mais embarcada, né, mas foi um momento e tal, mas hoje eu tenho... isso aí foi uma vitória muito grande.
P/1 – E como a senhora vê a relação Sindicato/Empresa hoje?
R – Olha, teve uma época de muito desgaste, né, no momento; eu tenho que falar pelo momento atual, né, o momento atual eu acho que está havendo uma comunhão aí, entre Sindicato e a Empresa.(riso) Claro que cada momento histórico, né, tem que embates mais fortes e tal, mas nesse momento, eu acho que está uma relação muito boa.
P/1 – E o que a Senhora acha de ter participado dessa entrevista, né, e contribuído para o Projeto Memória dos Trabalhadores da Petrobras?
R – Olha, eu estou gostando. Eu estava nervosa um pouco, não queria participar, até porque o nome museu, né, (riso) assim na hora... mas é muito importante. Acho que a gente tem que contribuir e falar das histórias Acho que está sendo legal, está sendo importante sim participar.
P/1 – Tá ok, então. Tem mais algumas coisa que a senhora deseja falar?
R – Não, não, bom trabalho para você.
P/1 – Tá ok, então. Muito obrigado Marivete, pelo seu depoimento.
R – Tudo bom!
(Fim da fita CBES004)
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