Entrevista de Maria da Penha Maia Fernandes;
Entrevistada por Bruna Oliveira;
Fortaleza, 2 de setembro de 2025;
Projeto Vidas, Vozes e Saberes em um Mundo em Chamas, parte Vidas e Lutas Ameaçadas;
Entrevista nº: PCSH_HV1501;
Revisado por Estfani da Costa.
P/1- Penha, para começar, eu queria que você me dissesse o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R- Maria da Penha Maia Fernandes, eu nasci no dia 1º de fevereiro de 1945.
P/1- Você nasceu em Fortaleza?
R- Em Fortaleza, Ceará.
P/1- E eu queria que você parasse um momentinho e pensasse assim, qual é a primeira memória que você tem da vida?
R- Bem, eu tenho uma memória talvez da idade de 5, 6, 7 anos, né.
R- Eu tinha... nós somos três filhas, né, nós somos três irmãs. Aliás, nós somos totalmente cinco, mas nessa idade só existiam três. Depois, quando a minha irmã mais nova... Quando eu estava com 15 anos, que a mamãe teve mais duas filhas, entendeu. Então, é... eu preciso dizer o nome?
R- Então, eu sou a primogênita. Meu pai, José da Penha Fernandes, natural do Rio Grande do Norte, da cidade de Jardim do Seridó, minha mãe, Maria Leirinho Maia Fernandes, natural da região do Cariri, da cidade de Barbalha. O nome dela é Maria Leirinho Maia Fernandes.
R- E ... minhas irmãs, logo depois de mim, nasceu a Leirise, nasceu a Ruth, que formou-se em Medicina, nasceu Elizabeth, que formou-se em Arquitetura. Mas, depois que cursou Belas Artes e se encontrou nesta profissão, bem que atuava nos dois ramos, Arquitetura e Belas Artes.
R- A minha quarta irmã, que nasceu oito anos depois da minha terceira irmã, chama-se Leirise Maia Fernandes, e formou-se em odontologia na profissão do meu pai.
R- E a última irmã, Valéria Maia Fernandes, que foi bancária, aposentou-se como bancária, mas teve uma época que houve um assombro sobre demissão voluntária dos bancos e ela com medo de ser demitida, né, ela fez a odontologia, e foi cursar odontologia. Mas...
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Entrevistada por Bruna Oliveira;
Fortaleza, 2 de setembro de 2025;
Projeto Vidas, Vozes e Saberes em um Mundo em Chamas, parte Vidas e Lutas Ameaçadas;
Entrevista nº: PCSH_HV1501;
Revisado por Estfani da Costa.
P/1- Penha, para começar, eu queria que você me dissesse o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R- Maria da Penha Maia Fernandes, eu nasci no dia 1º de fevereiro de 1945.
P/1- Você nasceu em Fortaleza?
R- Em Fortaleza, Ceará.
P/1- E eu queria que você parasse um momentinho e pensasse assim, qual é a primeira memória que você tem da vida?
R- Bem, eu tenho uma memória talvez da idade de 5, 6, 7 anos, né.
R- Eu tinha... nós somos três filhas, né, nós somos três irmãs. Aliás, nós somos totalmente cinco, mas nessa idade só existiam três. Depois, quando a minha irmã mais nova... Quando eu estava com 15 anos, que a mamãe teve mais duas filhas, entendeu. Então, é... eu preciso dizer o nome?
R- Então, eu sou a primogênita. Meu pai, José da Penha Fernandes, natural do Rio Grande do Norte, da cidade de Jardim do Seridó, minha mãe, Maria Leirinho Maia Fernandes, natural da região do Cariri, da cidade de Barbalha. O nome dela é Maria Leirinho Maia Fernandes.
R- E ... minhas irmãs, logo depois de mim, nasceu a Leirise, nasceu a Ruth, que formou-se em Medicina, nasceu Elizabeth, que formou-se em Arquitetura. Mas, depois que cursou Belas Artes e se encontrou nesta profissão, bem que atuava nos dois ramos, Arquitetura e Belas Artes.
R- A minha quarta irmã, que nasceu oito anos depois da minha terceira irmã, chama-se Leirise Maia Fernandes, e formou-se em odontologia na profissão do meu pai.
R- E a última irmã, Valéria Maia Fernandes, que foi bancária, aposentou-se como bancária, mas teve uma época que houve um assombro sobre demissão voluntária dos bancos e ela com medo de ser demitida, né, ela fez a odontologia, e foi cursar odontologia. Mas depois tudo se acalmou e ela não... Ela só trabalhou como dentista alguns anos, poucos anos, e depois ela continuou como bancária.
P/1- E me conta como era a relação de vocês na infância?
R- Bem, era uma relação de toda criança, né.
R- Nós tínhamos por hábito no final da tarde ir pra calçada, brincar com as crianças da vizinhança, né, morávamos numa rua pacata; e nós brincávamos com as crianças da vizinhança. Eu acho que fui uma criança que trouxe muitas recordações boas, porque nos finais de semana a gente esperava muito que ele chegasse, porque a gente tinha que tomar banho de mar, tinha uma parte da praia de Iracema que tinha pedras,e que a onda batia nas pedras e do lado de cá formava uma piscininha onde a meninada tomava banho, não precisava ir para as ondas grandes, tomava banho naquela piscina formada. Pelo choque da água com as pedras que criavam a piscininha do outro lado. E que a gente, enquanto o papai gostava de pescar, de anzol, de molinete, a gente ficava ali debaixo de uma sobrinha, merendando com algumas amiguinhas da rua. A mamãe fazia o lanche, a gente ia pra praia e ficava ali, né. Faltava pra casa 12 horas e o papai dizia muito engraçado, que o papai era engraçado, ele dizia assim, agora nós vamos almoçar fora. Todo mundo, dizia ´´ Ê, Ê´´
R- Aí ele pegava, botava uma mesa no quintal e dizia, e papai, onde é que a gente vai almoçar fora? Nós não estamos fora de casa? Estamos almoçando fora.
R- (Risadas).
P/1- E como era nessa época? Você gostava de ir pra praia, pro mar? Como era a sua relação?
R- Não, era muito bom! A gente já se programava, né, pra naquele fim de semana ir pra praia de novo, aí o papai ia pra praia do futuro, às vezes ele ia mais cedo para a Ponte Metálica, que era um local que ia muitos pescadores... Como é que diz? Pescadores de... Quem gosta de fazer isso? Não, é pescador profissional? Pessoa que gosta de pescar?
P/1- Esportivo.
R- Então, ele tinha um grupo de amigos que moram na redondeza, e cada qual, levava sua mochila com as iscas para botar no horizontal, e tudo mais, né, e quando ele ia pra Praia do Futuro, ele pescava de molinete, entrando com água até o umbigo, né. Pra soltar alta, eu ajudava a pescar também.
R- Então, eu pescava com ele.
P/1- E como é que era essa época de pescar com ele? O que você sentia pescando?
R- Olha, a sensação que fica é muito boa, e eu quis rever essas sensações. E aqui em Fortaleza, nós temos um local, da Secretaria de Turismo, que criou o espaço acessível para cadeirantes, é uma praia acessível. E eu tive curiosidade de ir lá, eu tinha vontade de ir, porque depois que eu fiquei paraplégica… eu cheguei a ir, às vezes, passava uma temporada na praia, na casa de praia, e eu só ficava na cadeira, né, eu não entrava no mar. E quando muito, eu me sentava na beira da praia pra sentir a onda vir, né, e depois ir embora, entendeu.
R- E eu tinha muita vontade de entrar no mar novamente, aí eu fui pro praia acessível esse começo de ano.
R- Mas nem se parece a praia que eu frequentava, o que eu fazia na praia, né. É diferente a sensação, né. A gente sente o mar, tudo mais, mas não é como a gente sentia, né? Se eu não tivesse cadeira de rodas. A sensação é diferente.
P/1- Como é que era essa sensação?
R- Não, é a sensação de você não ter domínio sobre o seu corpo, né. Eu estava ali porque tinham pessoas me levando numa balsa, tinha pessoas... eu pedi pra ficar em pé, e eles me colocaram em pé, mas eu toda protegida, né, pra poder manter em pé.
R- É diferente, né… aa gente... do tempo de criança, é claro. Meu pai me põe no ombro pra eu pular, né, essas coisas assim que... que fica... é... Só saí da imagem... Como é? A gente só se lembra quando a gente tenta voltar ao passado, né. Mas como o passado às vezes traz muita nostalgia, a gente tenta dar continuidade à vida sem pensar muito no passado.
P/1- Eu queria saber só uma coisa, os peixes eles chegavam perto de vocês quando vocês estavam pescando com a água até a barriga?
R- O peixe não dá para você ver, porque, primeiro é uma água assim, muito movimentada, né. As ondas quebram quase perto da gente, né. E segundo, porque o molinete, ele joga o anzol lá pra dentro.
R- Quer dizer, eu não sabia fazer isso, porque quem sabia era o papai, né? Então, a gente tem que diferenciar, a sensibilidade que a gente tem, para diferenciar, se aquele movimento, aquele fisgado que vem até a gente através da linha de pescar, se é só da onda, ou se é de algum peixe que fisgou.
R- Quando é do peixe, você vê que é o peixe, porque ele abocanha a isca, e dá um puxão para ir embora. E na hora que ele dá o puxão, você tem a sensibilidade de que algo pegou a isca, entendeu? E é surpresa o tipo de peixe que vem.
R- Quanto mais forte ele se debater dentro do mar para sair, para se livrar da isca, porque ele foi preso, ele abocanhou a isca, que na ponta da isca tem o anzol. Então, quanto mais ele tem, ele tem, ele movimenta com mais rapidez, você sabe que o peixe não é pequeno. Quando o peixe é muito grande, aí ocorre o risco da linha de nylon, se ela não for muito forte, ela também se rompe, e o peixe vai embora com seu anzol, e com tudo.
P/1- E me conta como você descreveria seus pais? Como você descreveria seus pais?
R- Eu descreveria assim… que meus pais viveram em função da gente, meu pai era o provedor, a minha mãe era professora, mas ela escolheu não mais ensinar para não nos deixar à mercê de cuidadoras de fora.
R- Ela queria estar cuidando da gente. Ela tinha essa preocupação do cuidado. E foi graças a esse cuidado que a mamãe nos deu uma educação privilegiada, entendeu?
R- A mamãe escolheu os melhores colégios, inclusive religiosos. Nós estudamos no Colégio das Dorotéias, e depois estudamos no Juvenal de Carvalho, nós não estudamos em colégios leigos, entendeu?
R- Porque a mamãe primava muito pela religião, né, assim, não de estar o tempo todo na igreja, mas ela não deu esse ensinamento. E assim, a escolha da profissão foi uma escolha realmente decidida por nós. Não houve influência pra minha irmã fazer Medicina. Ela foi escolhida porque queria fazer isso.
R- Aí no colégio já tem aqueles testes e tudo mais. Eu tinha muita vontade de trabalhar na área de saúde, mas eu não queria manter contato com o paciente, porque eu não teria coragem de furar um paciente, eu não teria coragem de fazer uma cirurgia, entendeu?
R- Eu queria saber, como eu poderia ajudar uma pessoa que estava doente através de medicamentos. Aí a minha avó, que eu preciso até falar sobre ela também, ela disse, minha filha faça farmácia, porque farmácia você não precisa estar diretamente com o paciente, você se responsabiliza por uma farmácia, e, é muito importante porque você fica numa área afastada do sofrimento humano, entendeu?
R- E eu fui, aí ela começou a me dar vantagem, ela faz tudo mais. E eu fiz a farmácia, mas assim… aí eu me encantei porque, no ano em que eu entrei no vestibular, eu entrei com 18 anos incompletos.
R- Aí no ano que eu fiz, a faculdade de farmácia passou a ser faculdade de farmácia e bioquímica. Eu fui a primeira turma de farmacêutico e bioquímica.
R- Aí, abrir os horizontes na faculdade, né? É tanto que eu fiz estágio no laboratório de dermatologia, né. Quando eu estava já no terceiro, talvez, no segundo ano. Fiz o trabalho no laboratório de análises clínicas, né. Mas eu depois fiz concurso para análise clínica, porque na dermatologia não tinha concurso, né.
R- Então, eu fui garantir o meu trabalho através de um laboratório de parasitologia do Estado, né. Eu fui concursada, e a partir daí o rumo da minha profissão caminhou por esse lado.
P/1- Bem, eu queria voltar um pouquinho só pra deixar registrado também e você me contar um pouco dos seus avós, se você conheceu, como foi a relação com eles durante a infância, como é que foi esse incentivo que sua avó te deu?
R- Bem, os meus avós paternos nós tínhamos conhecimento porque a gente viajava quase todos os anos para Jardim do Seridó, né.
R- Inclusive, nós fomos a uma festa dos 50 anos de casados dele, né. Então, nessa época eu já tinha primo da minha idade, de 15, né, 14, por aí assim.
R- E... e a minha avó, meus avós por parte materna, é o seguinte, eu só tinha avó porque o meu avô faleceu do coração, quando minha mãe tinha 9 anos de idade.
R- A minha avó era separada do meu avô. Separou-se com pouco tempo de casada, minha avó teve duas filhas, mas a segunda faleceu, criancinha ainda, recém-nascida. Mas a minha avó foi… era uma mulher… ela era muito engraçada. ]
R- Pelos familiares, como ela era muito assim, positiva em tudo que ela queria, e lutava pelo que queria, ela é chamada pelos irmãos de delegada.
R- Então eles respondiam ´´ Sim, delegada! Sim, delegada!``
R- Entendeu? E familiarmente, né, e a minha avó, quando a minha mãe tinha parece, que cinco anos de idade, não conseguiu manter o casamento; porque ela vivia na casa da sogra.
R- E o marido dela era o meu avô, né, segundo ela, não dava certo o casamento porque tinha muito apoio da mãe. A mãe botava a mão muito na cabeça do filho, né? E por isso havia aquela desavença, né? Da mãe proteger demais o filho.
R- Então, a minha mãe resolveu separar-se. Imagina, naquele tempo, né.
R- Minha avó nasceu em 1888, no dia da cidade escravatura, e a minha avó sempre dizia:
´´ Minha filha não podia aguentar aquela vida, porque quem gosta de espora é cavalo. Eu não sou cavalo. E eu nasci no ano da libertação dos escravos. Então, não deu certo, e eu resolvi me separar´´.
R- Imagina uma cidade desse tamanho, uma mulher separada. Os meus bisavós eram agricultores. Então, ela se separou e, na época, minha avó contava que era costume os filhos homens ficarem com as mulheres, e as filhas meninas ficavam com os pais, para ser criado pela família dos pais. E ela não se conformava com aquilo, mas assim, de qualquer maneira, eles tiveram essa cultura, eles conservaram, porque apesar da minha avó ter mais condição financeira do que do meu avô, talvez porque ela tivesse uma condição mais, tivesse um trabalho, uma coisa assim; então a minha avó conseguiu ficar com a guarda da minha mãe.
R- Mas se responsabilizando pelo juiz, que ia mandar minha mãe aqui pra Fortaleza para educar no melhor colégio que tinha aqui, que foi o Colégio das Doroteias. E a minha mãe, com 9 anos de idade, com 6 anos de idade, ficou interna no Colégio das Doroteias. E a minha mãe conta, assim, que ela ficava... Ela era a caçula das caçulas das meninas que estavam internadas, né? E era muito, assim, acariada pelas freiras, né? Porque ela era muito pequenininha.
R- Mas quando a minha mãe ficou com 9 anos, o meu avô morreu, mas, durante a separação, a minha mãe ia... Todas as férias, minha mãe passava com a família do meu pai.
R- E foi lá que ela fez uma amizade muito grande com as primas da mesma idade, entendeu? Aí, quando o meu avô morreu, a minha avó veio pra Fortaleza, fez um curso de parteira e se tornou a primeira parteira diplomada da região do Cariri.
R- E a minha avó só vivia no mundo fazendo parto, entendeu? Ela era conhecida como Senhora Fernandes, e até uns anos atrás, eu estive num encontro, e um senhor me procurou e disse, a minha mãe conta que ela nasceu pelas mãos da sua avó, uma coisa assim, entendeu?
R- Ela era muito conhecida. Aí, quando ela veio para Fortaleza, pronto. Ela ficou com a filha, porque o meu avô tinha morrido, e a minha filha, então, estudou aqui e depois voltou para o Crato com ela, porque ela tinha uma vida muito de viajante, para ir para o interior fazer os partos.
P/1- E nessa época que ela fazia os partos, você já era nascida?
R- Não, não.
R- Isso foi quando minha mãe casou em 44.
R- Quando a minha mãe casou, a minha avó já veio pra cá, também em Fortaleza.
R- Antes da minha mãe casar, a minha avó veio aqui pra coisa, foi quando ela fez o curso de parteira, né. Assim, algum tempo antes… Depois a minha mãe casou e pronto.
R- A minha mãe foi seguir a vida dela e a minha avó, mas tudo aqui em Fortaleza.
P/1- Mas a sua avó chegava a compartilhar alguma coisa dos partos?
R- Sempre quando ela ia almoçar, assim, lá em casa, né? Ela falava que tinha ido para a Caucaia, que era uma cidade violenta, inclusive aqui, mas que ela tinha que fazer um parto, entendeu? Até se aposentar mesmo.
R- Mesmo aposentada, ela era muito procurada por ex-clientes dela, né. Aí ela sempre aconselhava, né? As clientes que a vovó não mais trabalhava, mas ela aconselhava sobre a saúde.
P/1- E tem algum parto que ela tenha contado que foi marcante, você lembra?
R- Olha, ela foi quem fez o parto de um dos irmãos gêmeos, que foi o Adauto, era o Adauto e o Humbert Bezerra, os irmãos gêmeos, um deles foi governador do Ceará, né? Há muito tempo.
R- E ela que fez o parto, passou 15 dias na casa da mãe deles, aguardando a chegada do parto, né? E ela conta que foi ela que pegou um deles.
R- Pegou os dois, né, peguei o filho de Dona Fulaninha, eu não lembro mais do nome, e que hoje ele é o primeiro governador do Ceará.
R- Na época, né?
P/1- E me conta como é que foi sua infância na escola? Como é que foi esse momento?
R- Aí eu fiz boas amizades, mas interessante que o tempo né, despeça né, e a gente às vezes lembra da pessoa, e não lembra do nome, infelizmente. Mas assim, eu gostava muito de esporte, então, jogava pingue-pongue, jogava bola, mas gostava de fugir de aula pra jogar pingue-pongue. Então, quando era na hora da missa, eu tinha uma turminha de três, quatro, que era danada igual a minha. Aí, eu ia pra... quando tava perto da hora da missa, né, que a gente todo dia ia à missa lá na igreja, né, no colégio.
R- Aí, isso já no...
R- Não, eu acho que era nas Doroteias. A gente se escondia dentro do banheiro, né.
R- Aí o pessoal ia pra igreja, a fila, depois que saía, a gente ia pra igreja, a pingue-pongue. A gente ficava jogando pingue-pongue, porque era muito concorrida as mesas de pingue-pongue, né? Aí, quando o pessoal vinha da mesa, a gente já tinha jogado.
P/1- E isso era na época da juventude, já?
R- Exato.
R -Do ginásio, do ginásio, fim de ginásio, assim. Mas eu ainda conservo amizades com as duas amigas.
R- Certo? Ainda.
R- Outras foram embora, né.
R- Moraram no interior, não tenho mais muito contato com elas, não.
P/1- E como é que era Fortaleza nessa época?
R- Bem, Fortaleza era... O dia melhor que tinha era dia de sábado, domingo, né? Porque dia de sábado a gente ia pro cinema, no centro da cidade, né? E a gente ia, era isso mesmo, de brincar na rua, com os amigos de rua, inventar brincadeira, jogar bola no meio da rua, que não era uma rua muito transitável, depois foi que se tornou mais transitável, entendeu?
R- Era isso.
P/1- E você contou no seu livro que você era um pouco rebelde na juventude. Como é que era isso?
R- É rebelde assim, porque uma vez eu até me encontrei com a mãe de uma pessoa da família da minha filha, né… E aí eu conversando do tempo dela, que era da minha idade, aí eu dizia assim, no seu tempo era assim, você só podia usar batom quando tivesse 15 anos.
R- Vestido, aqueles vestidos infantis, vestidos de mocinhas, só depois dos 15 anos, até os 15 anos, a gente tinha que usar sapato e meia soquete… quer dizer, até essa idade, naquele tempo, a gente tinha que se vestir como menina mesmo. Aí, como eu era sapeca, eu tinha uma vizinha que a mamãe tinha muita confiança nela.
R- Eu tinha 14, 13 anos.
R- Ela já tinha 15, 16 anos.
R- E a minha mãe tinha muita confiança nela, porque os pais dela eram super religiosos. Na família tinha padre, entendeu? E a gente conversava muito, assim, naqueles murinhos embaixo de uma casa pra outra, a gente conversava muito.
R- E a gente marcava todo sábado, todo... Todo sábado, a gente marcava ir para o cinema, para o Cine Rex, que existia no centro da cidade. Aí, quando eu saía de casa com ela, eu saía de meia soquete, vestida com um laço atrás, parecia uma menininha mesmo, aquela bonequinha que se veste.
R- Quando eu dobrava a rua, que chegava à casa vizinha, numa vilazinha que tinha, essa vilazinha era uma vila que ficava entre a Rua Tereza Cristina e a Rua Princesa Isabel.
R- Então, o tio dessa menina, minha vizinha, morava lá.
R- Aí eu tirava as meias da perna, tirava o cinto…
R- Ia pro cinema, feito uma moça, passava batom e saía.
R- Aí, quando eu voltava, eu tirava, calçava as meias, chegava em casa do mesmo jeito que eu tinha saído, de meia, toda infantil.
R- Quando tinha um menino vizinho, da mesma idade minha, que começou a me paquerar, e eu não gostava do menino.
R- Aí, quando foi um dia
R- (Risadas)
R- Que a gente vinha do cinema, que eu botei a mão no jardim pra tirar minhas meias, não tinha nada lá.
R- Tinham roubado a meia, o cinto, eu cheguei em casa;
R- A mamãe disse: ´´ Cadê as meia?``
P/1- Eu não sabia o que dizer; foi um fuzuê
R- Aí a mamãe… sabe… onde é que tá a meia? Tá aqui.
R- ´´Sabe quem me deu? O Carlos, era o Carlinhos que eu queria namorar pra vizinha, né? Porque ele não queria namorar, ele queria namorar comigo ainda, né? Está aqui. Como é que você faz um negócio desse?"
R- Aí chegou a filha da vizinha.
R- Olha aí. Como é que você faz isso? Eu pensando que você tinha juízo,você já tem quase 18 anos e você faz isso? Botar a minha filha no mal caminho? Olha que mal caminho. Pronto, aí eu fico desmoralizada.
R- Aí é que fica o raio do menino.
R- Aí de jeito nenhum.
P/1-De jeito nenhum, queria ver ele.
R- De jeito nenhum.
P/1- E como é que seguiu a sua vida? Você me contou que você entrou na faculdade pra fazer farmácia. Você contou um pouco profissionalmente, mas eu queria saber nas outras áreas da sua vida, o que você tava fazendo? Como você se divertia nessa época da faculdade?
R- Certo.
R- A família do meu pai sempre é de gente muito grande, né.
R- Então, quando eu tinha 12, 13 anos, eu tinha o corpo de uma moça.
R- Já pensou uma moça de meia soquete … era triste, não era!?
R- Por isso que eu fiz isso.
R- Então, pronto.
R- Então, quando eu tinha... Pode ser que agora eu leia sem esquecer, porque vai ficar registrada.
R- As gaiatinhas,
R- Então, quando eu talvez estivesse 13 anos, eu já tinha o corpo de moça, sabe?
R- Como as minhas netas, tem essa idade..
R- Aí… a gente tinha que ir à missa, né? Eu achava ruim porque eu tinha que acordar cedo, uma coisa assim.
R- Aí, nesse dia, eu fui a uma missa, na igreja de São Benedito, e cheguei lá e comecei a paquerar com o rapazinho, paquera vai, paquerar vem, né?
R- Aí eu comecei a não ter preguiça de ir pra missa, todo domingo eu ia no mesmo horário para paquerar com o rapaz. E ele começou a vir, nos acompanha.
R– ´´Onde é que você mora? `` . Ele morava bem pertinho da igreja, numa rua, e eu morava duas ruas depois.
R- Aí, pronto. Aí, a minha segunda irmã era fuxiqueira, certo? Era o xodó da minha mãe. Sempre tem uma assim, né? Aí começou a falar pra minha mãe, que quando eu vinha da missa, tinha um rapaz acompanhando, conversando comigo, assim, né? Junto com a turma, eram minhas duas irmãs, eu, e ele conversando.
R- Aí a mamãe pegou e perguntou: ´´ Quem é essa pessoa que tá, que todo dia agora vem com você, acompanhando você até aqui? Eu o acompanhava até a casa dele, mais perto da igreja do que eu e a minha… aí ele pegou e... aí não parece que eu disse… que eu tava...
R- Não me lembro a resposta. Não me lembro mais.
R- Aí foi uma reunião do pai e da mãe. Se você quiser namorar, tem que namorar aqui!
R- Ah, não! Foi porque o Carlos... O Carlos me seguiu e eu fui para o cinema. E quando eu fui para o cinema, eu me encontrava com esse rapaz que morava perto, que eu conheci na igreja. Aí a mamãe disse… ´´ se você quer ser namorada, tem que namorar em cinema, enquanto eu não, tem que namorar aqui em casa``. Aí pronto, era aquela história, vai lá para casa, fica no portão da casa, nem cadeira volta. Fica ali em pé de sete às nove, dez horas; e ele já vai embora, tá certo.
R- A mamãe descobriu que esse rapaz, ele era sobrinho de uma costureira nossa, que morava na rua seguinte; e que a mamãe era madrinha do filho dela, certo? Do filho dela… Aí a mamãe teve mais confiança e deixou ele ir lá pra casa, né? Aí a gente namorou.
R- Aí... A mamãe perguntou, vou botar você para estudar inglês. Era eu e minha irmã, a segunda. Aí levou a gente para o inglês, para o Ibeu, que era na Praça da Criança, que você não conhece, era no centro da cidade.
R- E lá é a primeira vez que eu vi muito menino, porque a gente estudava só em colégio de freira, né? Era só menina, não tinha conhecimento, não tinha relação com meninos. Aí eu comecei a ir no pingue-pongue com os meninos, disputar com os meninos. E esse rapaz da igreja, que eu comecei a namorar com ele, inventou de me levar e me trazer do curso.
R- Porque eu acho que ele viu muito menino na história… Aí eu comecei a ficar com raiva dele, porque ele estava me pastorando. Quando a aula terminava, ele dizia, vamos embora, entendeu? Ele não queria convívio com outros meninos. Aí eu terminei a namoro, né, foi coisa, mas...
R- Mas assim, a mamãe gostava muito dele. E perguntou …´´ Por que que agora vai terminar o namoro? ``
R- Porque mamãe, ele fica só bem aperreando pra trazer e ir embora pra casa, né? Depois da aula. E eu queria ficar jogando com os meninos. Aí pronto, terminou o namoro. Aí, mas é muita história.
R- Sim…. aí pronto, aí eu fiquei sem namorado. Aí, quando eu entrei na faculdade, eu fui para uma festa.
R- Sim, o papai gostava muito de levar a gente para as festas, às vezes, tinha um forró. Eu adoro forró. Aí, quem primeiro dançava no forró era eu e o papai. Quando a festa começava, era eu e o papai. Aí, ali, ele deixava a gente na mesa com a mamãe, ia conversar com os colegas dele, e aí a gente ficava dançando. Aí, eu com a minha irmã, terceira irmã, que era mais parecida comigo, de danada, quando o papai dizia, vamos embora, Aí, ela inventava de ir pro toalete e ficava lá. E o quê? Onde é que tá sua irmã? Não sei, não. Era escondida lá. Aí, quando a minha irmã aparecia, eu era a que me escondia, para ganhar tempo na festa. Aí, isso demorava até a gente ir embora. Era difícil.
R- E eu tava numa festa dessa, aí tinha um jornalista que começou a me paquerar. Um rapaz começou a me paquerar. Aí, pediu o meu telefone e tudo mais, e não sei como foi que o namoro começou.
R- Aí, eu apresentei a mamãe conheceu a mãe dele. Todas aquelas coisas, né? E a gente ficou apaixonado, né? Um pelo outro. Aí, isso eu tinha... Eu tinha passado no vestibular, fazia o primeiro, eu já estava quase no segundo ano.
R- Aí quando, acho que era quase no segundo ano, aí .. quando ele resolveu casar, queria casar, porque queria casar.
R- Aí a mamãe, não! Só quando se formar, só quando terminar o curso. Aí tanto eu queria casar como ele, aí eu peguei e … a mamãe disse, então eu quero conversar com ele, pra ele me prometer que você não vai deixar sua faculdade, embora casada, você vai ter que terminar.
R- Aí fez uma reunião. E disse, você tá querendo casar?
R- Pelo meu coxo, pelo coxo do pai dela, você não casava agora; ela não casava, agora.
R- Mas se vocês querem, vai ser o seguinte, mas você me prometa que ela vai terminar o curso dela. Você não vai impedir.
R- Foi a sorte. Quando eu me casei, eu casei no fim do segundo ano.
R- Comecei.
R- Morava perto da faculdade, que eu ia a pé; morava perto da minha avó, que eu ia almoçar de bem enquanto lá, entendeu? Quando ele não podia almoçar em casa, eu almoçava na casa da minha avó.
R- E esse camarada era mulherengo que fazia gosto, namorador que fazia gosto. Aí começou a me trancar dentro de casa e sair para as farras. Entendeu? Aí eu comecei a ficar doente, angustiada, sofrendo, e a mãe dele se dava em cima dele ´´ não faça isso não!´´
R- Uma vez ele me levou pra uma festa e levou a mãe dele, que era um evento que ia ter, e a gente foi. E ele desapareceu! Desapareceu.
R- Aí a irmã dele encontrou ele namorando, né, lá no mesmo ambiente da festa.
R- E você sabe que tem um ditado que diz assim, quem disso usa, disso cuida, né!?
R- Se ele se importava em me prender dentro de casa, é porque ele pensava que eu ia fazer o que ele fazia. Eu podia até fazer, mas eu não tinha olhos pra outra pessoa, a não ser ele, que eu era apaixonadíssima, quando a pessoa tem a paixão, você não enxerga, você quer que a pessoa se endireite.
R- Você não quer outro no lugar.
R- Aí eu comecei a ser privada, certo? De ficar dentro de casa, quando ele chegava, ele tava com a roupa suja de batom, tava perfumado, entendeu? Assim, né… tava nas aventuras. Aí eu peguei e saí de casa umas três vezes, né?
R- Não, não vou ficar mais com você, não! Quando ele chegava do trabalho, eu estava lá na casa da mamãe, né? Tava lá. Não, não volto mais, não, não sei o quê.
R- Aí, olha só. Você é homem, mas acho que você é de outra geração. Aí, eu disse, eu quero me separar. Não! você não vai se separar, não! Você ser uma mulher casada, separada, você vai ser muito falada. Vão te procurar só pra tirar sarro seu, entendeu? De jeito, filha minha separada não fica, não, meu pai. Aí, reuniram a família, né? A mãe ficava calada, né? As mulheres da família ficaram caladas. Mas os homens eram só, não separaram não, porque iam tirar sarro de você. Olha só como eles eram, né? Você até andava tirando sarro por aí também.
R- Aí, o que aconteceu.
R- Por três vezes eu saí de casa, e três vezes … e eu voltei perdoando.
R- Quando foi uma vez, ele se engraçou por uma menina candidata à Miss.
R- Aí, tava um zum zum zum … a gente via no meio social, assim, como ele era jornalista, né, tinha no meio social.
R- ´´Estava no baile tal, fulano de tal, né? Também estava presente fulano de tal, que eu sabia que era a história que estava correndo… Aí eu peguei, arrumei minhas coisas, saí de casa, fui pra casa da mamãe e disse, não volto mais, eu vou me separar. Aí reuniram o pessoal, o amigo da família. Aí começaram a falar sobre isso… aí tudo que era homem dos amigos e dos parentes. ´´Seu pai tem razão, se separem não. Isso é coisa de homem, ó. Isso é coisa de homem. Separar por quê? Disseram que ele estava com outra pessoa. Isso é coisa de homem´´ .
R- Eu digo, é, mas eu não aguento não. Quero não!
R- Aí peguei, e fiz um flagra. Eu saí desse apartamento, né? Quando eu tinha voltado de uma dessas fugas que eu saí de casa, quando eu voltei novamente, que aconteceu a mesma coisa, aí eu peguei e falei pra menina que trabalhava na minha casa, digo, ó, tu vai ficar aqui, eu vou pra casa da mamãe e não vou voltar mais, mas se ele trouxer alguma mulher pra cá, você liga pra mim que eu venho. A hora que for, você pode ligar que eu venho. Aí eu... e foi uma hora... fim de tarde. A menina ligou pra mim.
R-´´Dona Penha, ele chegou aqui com a menina, comeu alguma coisa e foram pro quarto´´ . Tá certo.
R- Aí eu peguei a vizinha da mamãe, que era assim com a mamãe, porque a mamãe era filha única e ela também, entendeu? Então, elas duas eram como se fossem irmãs. Tudo uma com a outra. Aí eu cheguei pra ela e disse, Dona Angelita, uma namorada lá em casa, a senhora vai comigo? Ela disse, só se sua mãe for. Não, não vamos chamar a mamãe não, vamos só nós duas. Não, pode chamar sua mãe, não vou só não. Aí nós arrumamos. Cheguei lá, aí entrei pela hora de serviço, chamei a moça, né? Entrei lá, aí estou no quarto ainda, desde aquela hora, tá certo.
R- A casa era assim, como se o quarto fosse aqui e tivesse uma janela aí de veneziana, né? Fechada, aí eu bati na janela.
R- E falei, fulano, abre aí que eu quero falar contigo. Ninguém respirou mais naquele ambiente. Pipipi. Tu tá ouvindo o que eu tô te falando? Tu abre aí que eu quero falar contigo, eu quero conversar contigo. Você falou? Maior silêncio. Aí eu insisti umas duas ou três vezes. R- Aí a mamãe disse assim, ele já sabe que você tá aqui, não vai perder seu tempo não, vamos embora. Porque ele não vai sair daí. Ele não vai mostrar o flagra né?
R- Tá certo, vamos embora. Aí, no outro dia, ele não tem ficado para dizer que não se separaram, porque separou mesmo. Então, foi o tempo que... Isso eu já tinha terminado de faculdade, né? Aí, né, que foi essa pessoa que eu encontrei numa festa que eu estava com o papai e tudo mais, né? A família dele era muito boa, as irmãs dele reprovaram o que ele fazia e a mãe também, mas... É ruim de natureza, né? Continua educada no machismo, né? Homem pode, mulher não pode.
R- Aí, me desculpe, viu? Mas você sabe que é assim, né? Aí, eu fiz um... Minhas colegas estavam fazendo curso, mestrado, não sei o quê, eu resolvi fazer... também tentar o mestrado.
Antes de ir para o mestrado, eu só queria saber uma coisa da época da faculdade.
P/1- Se, tinha muita mulher fazendo farmácia naquela época?
R- Tinha. Tinha. Vamos dizer que tinha mais ou menos a metade da turma, ou mais.
R- Tinha!
R- Já era bastante, assim, perto do que era antes, no começo?
R- Hein?
R- Antes, no começo, tinha pouca. Aí, na época que você fez, já era metade da série.
R- É, exato.
R- Não, eu não tenho conhecimento que tinha pouca, porque eu nunca frequentei outra faculdade. Mas, na época, já existia jornalista, a Dizia Sá, que era um grande jornalista, né? conhecida, existem cargos com mulheres. Então, as mulheres, sem muito destaque, mas já tinham uma noção.
R- Por exemplo, a minha irmã, a terceira irmã que fez a odontologia, o pai dela, quando ela era colega desde o ginásio, O pai dela, quando a menina resolveu fazer alguma coisa pra trabalhar, alguma coisa, aí o pai dela, não, filha minha não trabalha, não. O marido é que tem que cuidar da casa. Entendeu?
R- Olha só.
R- Enquanto a minha mãe estimulava a gente a ter uma profissão, o pai da menina, colega da minha irmã, dizia isso. Resultado, a minha irmã fez faculdade, e aí a mesma coisa, ave maria, seu fulano.
R- Eu quero trabalhar. Não quero ficar só na cozinha, não. Eu quero trabalhar também!
R- Não sei o quê, né… Aí a minha irmã fez a odontologia e a menina, depois dos conselhos da minha irmã, fez um curso aí, um curso qualquer, e depois trabalhou numa profissão aí. Uma profissão no comércio, alguma coisa assim, entendeu.
R- Quer dizer, se não fosse a merrequinha que ela ganha hoje, o que ela tava fazendo na vida? Não casou. Porque talvez não encontrou o que ela queria, entendeu. E se mantém à custa do que ela se aposentou, né.
R- Ai, a mente era pequena. Ainda bem que a minha mãe e o meu pai não tinham, a mente pequena assim não.
P/1- E me conta desse momento do mestrado, como é que foi mudar pra São Paulo? De onde que veio essa ideia?
Gente, eu vou beber um litro d'água, pelo que eu tô vendo. É muita conversa, né? Eu tava.
Perguntando do mestrado, como é que foi a decisão de ir pra São Paulo?
R- Não, porque eu comecei a me entusiasmar, que colegas meus estavam vindo, né? Aí eu também me interessei de vir, né? Aí, pô, eu já morava com a minha mãe e fui... Passei, né? Na entrevista, não. Sei lá, mandei o currículo e fui pra São Paulo. E lá, acho que foi em... Eu me formei em 76, né? Não sei mais a data, não.
P/1- Foi em 67 que você se formou?
R- Não.
P/1-66?
R- Ah, 66.
R- Então, foi mais ou menos em... 66, 67.
R- Por aí… 74, eu acho. E fui pra São Paulo, né? Aí, pronto. Aí, quando eu cheguei lá em São Paulo, me enturmei com muita gente daqui, gente do Nordeste, do Brasil e de estrangeiros também, né, e a gente morava na cidade universitária, eu tinha um alojamento, lá onde, eu morava com três meninas.
R-E foi muito bom, né? A gente passeava no final de semana, conheci gente e fazia tudo que a gente queria fazer ali.
R- E nesse convívio, eu conheci o traste da minha vida. Ele tinha recém-chegado da Colômbia e quem trouxe para o nosso grupo foi um boliviano, que a gente já conhecia de lá, que estava fazendo o curso também, e a gente conheceu ele. Ele é uma pessoa bem prestativa, como você viu no livro e tudo mais. E a gente começou, assim, uma amizade de amigos, né.
R- Sempre ele estava presente onde eu estava, e tudo mais, no grupo.
R- De repente, a gente começou a namorar.
R - E eu achei interessante porque ele não tinha um pingo de ciúme de mim.
R- Quer dizer, aquilo que eu sofri com o outro, ele não me perturbava em nada. Cheguei tarde, chegou, entendeu? Tudo isso mesmo, hoje eu vou chegar mais tarde porque eu vou fazer isso aqui e pronto. Tava dito e acabou-se.
R- E também ele não demonstrava traição nem nada.
R- Então o par perfeito, nós tivemos a primeira filha lá.
R- Eu já estava… Quando eu vim pra cá, eu tinha acabado de defender a tese, a minha filha fez um ano lá. Eu só sei que eu precisei ir embora. Aí, quando a minha filha nasceu, essa certidão de nascimento serviu pra ele se naturalizar, e não precisar voltar para Colômbia. Aí ele queria se naturalizar.
P/1- Só um pouquinho, por que você precisou ir embora nessa época que você decidiu voltar para Fortaleza?
R- Porque eu assumi meu emprego.
R- Porque eu estava licenciada.
R- E lá, a gente conversando, fazendo planos para o futuro, eu digo, eu tenho um terreno que eu comprei, num bairro bom, a gente tem onde construir uma casa, entendeu? Eu comecei a fazer planos junto com ele.
R- Tudo bem.
R- Aí, ele ficou pra defender a tese dele. Eu acho que talvez ele tenha demorado mais uns seis meses ou quatro meses lá em São Paulo para defender.
R- E eu, como eu terminei antes, eu vim pra cá.
P/1- Já com a primeira filha?
R- Já com a minha primeira filha, né? Aí, quando ele chegou aqui, eu engravidei da segunda filha. E ele lá no... Ele queria vir pra cá, tinha perspectiva de montar residência. E, através dos meus amigos comuns, eu apresentei o currículo dele, fui atrás. Aí ele começou a se aprumar profissionalmente.
R- O primeiro trabalho dele foi o da CEAG, que hoje é o CEBRAE. Eu tinha uma amiga de turma, que o primo dela, tio dela, era deputado na época. Aí fez uma carta de apresentação para o CEAG, e ele foi aceito.
R- Houve esse empurrão.
R- E a partir daí do SEBRAE, ele também arranjou uma ponta no CETREDE, que é o Centro de Treinamento da Universidade Federal, né,também já foi pra lá.
R- Aí depois ele conseguiu ir pro Rio Grande do Norte, pra Universidade do Rio Grande do Norte.
R- Quer dizer, ele deslanchou, né? No ambiente em que ele entrou, ele deslanchou, e com o currículo dele, tudo mais, né, No Rio Grande do Norte, muitos anos depois, foi descoberto que o documento de mestrado que ele fez, ele falsificou para doutorado, quando ele não tinha esse documento.
R- E quem descobriu fui eu.
R- Por quê? Porque quando deu a notícia, foi anos depois, que ele era professor, doutor, em economia, tal, tal, tal, pela URSS, eu digo, não, se ele fez o mestrado, veio pra cá, como é que ele conseguiu o título de doutor?
R- Não pode.
R- Aí eu escrevi pra universidade; ´´eu queria saber se fulano de tal, né, é doutor, tal, tal, tal, tal, porque do meu conhecimento ele é apenas´´, aí mandei um histórico policial dele, entendeu? Mandei para a audiência. Aí o... a universidade lá respondeu que não, que nos documentos lá da universidade só existe o título de doutor, e que ele realmente havia pedido a segunda via do título de...
R- Não, só existia o título de mestrado, e que ele havia pedido a segunda via do título de mestrado; porque havia extraviado o primeiro. Quer dizer, ele pediu o título de mestrado para falsificar e transformar em doutor.
R- Aí, por conta disso, ele foi desativado lá da Universidade.
P/1- Eu ia te perguntar como é que era, nessa época, antes de vir para Fortaleza, como é que era a sua relação com ele e os seus amigos?
R- Ótimo! Ele era uma pessoa amável demais, educado demais, gentil demais. Entendeu?
R- Ele estava se programando, porque viu uma oportunidade dele se fixar no Brasil. O meu raciocínio é esse. No momento em que a naturalização dele saiu é que ele mostrou a verdadeira face dele.
P/1- E você quer contar um pouco como foi esse casamento?
R- Olha, na época em que eu o conheci, não existia ainda divórcio no Brasil.
R- E como a gente queria casar, nós entramos no entendimento de que, ele… poderia conseguir fazer o casamento com a gente, porque eu não era desquitada. Não havia desquite, eu acho.
R- Então, eu tinha que fazer um casamento no exterior, e ele escolheu Bolívia. A embaixada da Bolívia.
R- Eu não entendi, nem me passou pela cabeça duvidar, por quê? Porque ele disse, não, porque eu tenho um amigo que é da embaixada da Bolívia, a gente pode tentar casar lá.
R- Eu nem me suspeitou nada, porque não na Colômbia.
R- Depois de tudo acontecido, né? Por que eu casei na Bolívia, e não na Colômbia? Com certeza ele já tinha um histórico negativo lá.
R- Aí, nós fizemos esse casamento. Agora, me pergunte, como é que eu assinei esse papel? Eu deveria ter ido num escritório qualquer, de um farsante, com aquele documento, assinei e pensei que tivesse casado.
P/1- E daí você conta bastante que foi nesse momento, você estava contando agora, né. Que foi nesse momento da segunda filha que ele mudou, né? Depois da naturalização.
R- Sim, exatamente, que ele começa a mudar, né.
R- Então, eu já estava aqui quando a minha filha nasceu aqui, a segunda filha. Então, eu já comecei a sofrer as violências que ele aplicava nas crianças.
R- E isso, que era um sofrimento enorme psicológico pra mim, porque eu não tinha nem como cuidá-las, nem como protegê-las. Entendeu? Quer dizer, era uma pessoa que para os de fora era um gentleman, mas dentro de casa eram os piores momentos da minha vida, é quando chegava um feriado grande, que eu ia ter que conviver dois ou três dias seguidos com aquela pessoa, entendeu?
R- É horrível.
R- Tinha dia que ele chegava do trabalho assim... vomitando pimenta, entendeu? Tudo estava errado, tudo estava errado.
R- Chutava as paredes, se a menina tava chorando não era pra chorar, entendeu? Era incrível, era incrível. E eu ficava sem ter o que fazer.
R- Então, foi quando eu falei pra ele.
R- Olha, você não gosta mais de mim. Eu não gosto mais de você. Então, por que a gente tá vivendo junto? O melhor dia é quando ele ia passar, às vezes, ele passava a semana no Rio Grande do Norte, entendeu? E era a melhor coisa, porque as meninas faziam o que queriam, iam pra casa das avós. Quando eles chegaram, estava todo mundo ali limitado, certo? E quando eu mudei pra nova casa que a gente construiu, nós fizemos um empréstimo para construir no terreno que eu disse que tinha. Entendeu?
P/1- E nessa época você trabalhava?
R- Trabalhava, trabalhava. Não vim para reassumir o cargo.
P/1- Nunca deixou de trabalhar?
R- Não, não.
R- Só depois que eu me aposentei, por invalidez mesmo.
P/1- E onde que era que você trabalhava nessa época?
R- No IPEC, que hoje é o ISSEC, Instituto de Previdência do Estado do Ceará.
P/1- E o que você fazia lá?
R- Eu trabalhava em laboratório de parasitologia, que foi o curso de mestrado que eu fiz.
P/1- E você estava contando também... Você estava contando agora sobre ele ser muito cruel com as meninas. Como é que era pra você isso? Ele era cruel com você, e também com elas? Ou era mais com elas? Como é que era isso?
R- Não, a crueldade comigo era pelo que ele fazia com as crianças. Pra mim, ele nunca bateu. Mas ele puxava o cabelo, empurrava, entendeu? Chegava que você não sabia o que fazer, tô agradando, não tô, entendeu? Eu me lembro uma vez, aí eu comecei o quê; na hora do almoço era assim, todo mundo, as meninas olhando pra mim, olhava pra ele pra ver se ele aprovava alguma coisa delas, entendeu? Elas tinham liberdade de serem crianças.
R- Teve uma vez... Isso é o mínimo em frente, em relação ao que ele fazia com as crianças.
R- Mas uma vez eu tava brincando com as crianças …
R- E eu acho que ele tinha raiva assim, né? Porque as meninas riam comigo, a gente, né? Tudo mais.
R- Aí ele chegou, marchou pro escritório, né? Aí passou assim numa parede que tinha um quadro, aí ele fez só isso aqui.
R- ´´Nem para espanar os móveis você presta, você serve´´.
R- Entendeu?
R- Nem para tirar a poeira de um móvel você serve. Isso era o mínimo.
P/1- E como é que você se sentia nessa época?
R- Aterrorizada, rezando por ele ir embora, entendeu? Eu fiz uma coisa tão feia, uma vez, que eu tava tão assim, porque ele ia viajar para Rio Grande do Norte, mas no dia anterior ele tinha extrapolado a maldade dele, certo?
R- Que eu disse, meu Deus, não é possível que esse avião não caia quando esse homem estiver de voo, entendeu? Esse avião tem que cair, porque se o homem morrer.
R- Aí depois eu digo, meu Deus, eu pedi isso mesmo.
R- Ave Maria, me perdoe, porque tem outras pessoas que não tem nada a ver com esse monstro, entendeu?
P/1- Como é que foi se tornar mãe?
R- Hã?
P/1- Como é que foi se tornar mãe? O que a maternidade representa para você?
R- Não, enquanto eu pude ser mãe, foi ótimo, né? Depois eu me senti muito limitada e muito sofrida, né? Porque eu não podia acolher as minhas filhas, não podia dar o apoio às minhas filhas. E muito tempo depois, quando eu saí de casa, eu soube o que eram as minhas filhas, o que aconteceu com as minhas filhas, o que as empregadas contaram.
R- Entendeu? Tudo isso foi muito grave, muito grave.
R- Então, eu digo o seguinte, meu Deus, quantas mães hoje sabem que vão morrer e pensam no que vai ser de seus filhos.
R- Porque ele quis até depois ficar com a guarda das crianças. A minha mãe que pensava, as minhas irmãs que pensavam, minha irmã, ele pode sair aqui com essas meninas para passar uma tarde fora, que ele queria, né. E sempre eu dava um jeito de elas não irem, né.
R- Porque ele começou a pedir primeiro para as crianças passarem umas férias com ele, no Rio Grande do Norte. Ele estava morando lá, queria que um período de férias fosse com ele. Aí a minha mãe ficou louca e as minhas irmãs. Aí foi que a minha irmã de Salvador, que advogado depende, né? De você ter... aqui não tem o que explicar, né? Nem... Aí falou pra uma colega, um amigo da minha irmã de Salvador, que era advogado.
R- Falou… Penha, Bete faz o seguinte, coloca, bota esse homem na... o negócio da Polícia Federal, que quando ele se ausentar do país, se ele se ausentar com as crianças, ele tem que apresentar o passaporte. Então, bota que a guarda não é dele, é a guarda da mãe. Talvez por isso tenha evitado que ele tenha fugido com as crianças.
P/1- E isso foi no momento que você decidiu se separar dele?
R- Não, quando eu quis me separar, sim, quando eu quis, aí eu falei isso pra ele, né?! Já perto do crime. Aí ele disse, deixa de besteira. Aí eu falei com um amigo dele, que eu sabia que fazia parte do encontro de casais com Cristo.
R- Aí eu disse, fulano, tu não quer convidar o Marco pra gente fazer parte dessas coisas? Porque ele tá precisando. Aí ele pegou e convidou, e ele aceitou.
R- Foi fazendo papelão mesmo, prometer tudo, e fazer as orientações. E não fezer nada. Ele não tem mais jeito, mesmo não .
R- Aí eu falei isso pra ele, né? Por que é que a gente não se separa? Eu não vou me separar de você. Nunca vou me separar de você. Pode esquecer. E ele gostava, ele tinha uma frase que quando a gente diz que besteira é essa, que ele dizia que maricada é essa, o linguajar dele era esse. Que maricada é essa? Nem se preocupa. Então... O que é que eu podia fazer, criatura? Me diz. Não queria se separar, continuava sendo uma porcaria, maltratando as filhas.
R- Então o que eu poderia fazer, criatura? Me diz? Continuava sendo uma porcaria, maltratando as filhas.
P/1- Você quer contar um pouco como foi, que aconteceu … o crime que ele cometeu contra você?
R- Ele chegou do Rio Grande do Norte, e eu costumava não ir buscar no aeroporto, aí ele quis que eu fosse buscar no aeroporto nesse dia. Aí tava lá, beijando as meninas, fazendo a média dele, né, tudo mais.
R- E eu tinha falado pra ele, que a Deise, uma colega minha, tinha tido neném, que eu tinha prometido com as meninas ir visitar o bebê. Aí, eu disse, ó bái, amanhã eu quero ir lá na casa da Deise, vamos lá visitar que ela teve o bebê e tudo mais. No dia seguinte, ele disse assim, não, não vamos levar as crianças não, vamos só nós. E ela morava num local esquisito, na Praia do Futuro, entendeu? Que ainda não tinha muita abertura.
R- Aí eu disse, não, eu não vou só com você não, porque eu prometi pras meninas e não fica bem eu ter prometido e não cumprir. Nós vamos. Aí nós saímos do carro. Chegou em determinado local, ele entrou no areal. E a gente só viu uma luz aqui e outra luz lá.
R- Eu sou muito desorientada de espaço, assim, né? Aí ele disse, eu acho que eu errei o caminho. Aí o carro atolou. Aí ele tentou tirar o carro do atolo. Não conseguiu. Aí viu lá longe uma luz.
R- Ai ele disse eu vou até aquela luz ali, que pode ser algum bar, alguma coisa, que eu pedir ajuda para desencalhar o carro. Fica aí trancada, não abre pra ninguém.
R- Assim. Aí eu fiquei ali com as meninas, né? Só olhando pra um lado e pro outro, enquanto ele ia lá, ele chegou, com dois homens. Aí cavaram a areia do carro ali, né? De areia.
R- Ele, obrigada! E foram embora.
R- Aí fomos para a casa da Deise.
R- Chegamos lá, eu fui pro quarto conversar com a Deise, ele ficou com o marido da Deise, e a mãe da Deise na sala, ela fazendo sala pra eles. E eu conversando com a Deise e tudo mais, chegou a hora de ir embora, fomos embora. Aí eu cheguei em casa, botei as crianças pra dormir, me deitei, do quarto.
R- Adormeci, não via a hora que ele chegou, no quarto, porque ele gostava de mexer no carro, fazer barulho com alicate, ferramenta de carro, que às vezes ele limpava o carro. Ele tinha essa mania.
R- Quando eu acordei, foi com um estampido dentro do quarto, eu quis me mexer, não consegui, mas imediatamente disse, meu Deus, o Marco me matou.
R- Foi o primeiro pensamento que eu tive.
R- Aí eu comecei a mentalizar um crucifixo da minha avó antiga que estava no quarto da minha filha mais velha.
R- Eu disse, meu Deus, deixa eu me viver, não deixa minha filha na orfandade.
R- Me deixe viver, não sei, mas não deixa minha filha na orfandade.
R- Aí eu comecei a escutar vozes, comecei a escutar barulhos estranhos, aí a empregada chegou e disse, que vozes são? São dos vizinhos. E o que foi que houve?" Aí ela disse, houve um assalto aqui. O sr. Marco disse que foram três assaltos antes de entrar aqui.
R- Aí, pronto, a partir daí, eu lá morrendo, perdendo meu sangue todo por colchão, porque eu deitei assim em cima do ferimento e meu sangue ficou escorrendo pra dentro do colchão.
R- E quando chegou um casal de médico, disse, mas ela não está ferida, não tem nenhuma mancha de sangue aqui. Aí a mulher disse assim, vamos virar? Quando viraram, aí eu virou, viu o rombo nas minhas costas. Aí eles eram médicos aqui do HGF, aí disseram, ela está gravemente ferida, vamos levar pra HGF. Aí botaram numa rede, eles eram médicos de lá, né? Aí foram até lá, e foi por isso que eu sobrevivi. Aí, a partir daí, eu passei dois meses na HGF. E as minhas filhas sofrendo a revolta de eu não ter morrido, e ele descontava nas crianças. As empregadas contaram, coisas horríveis sobre as crianças.
P/1- Como é que a vida seguiu a partir desse momento? Como é que a sua vida seguiu a partir desse momento?
R- Bem, eu passei quatro meses hospitalizada pensando sempre na história do assalto. No meu entendimento, tinha sido um assalto. Mas nesse período que eu estava hospitalizada aqui, a polícia estava investigando, mas eu não estava sabendo de nada. E toda a vida que ele ia me visitar, ele exigia que não ficasse nenhuma irmã minha no quarto, porque minhas amigas de trabalho iam, revezavam com as minhas irmãs, porque eu precisava de uma atenção de 24 horas, que só o hospital não daria conta de cuidados, entendeu?
R- Medir isso, medir aquilo, ver…mil e uma coisas que elas diziam. Então, as meninas revezavam. Sempre tinha um ou duas colegas revezando. A minha irmã veio lá da cidade que ela mora em Juazeiro, da Bahia, veio. A outra de Salvador veio também, pediu licença do trabalho e ficaram aqui comigo, mais de um mês. E toda vida que ele chegava para visitar, quando ele saía, as meninas precisava chamar o médico de emergência, porque eu estava ansiosa, inquieta.
R- Porque não percebi o que ele fazia comigo, entendeu? Então, de vida minha, eu tava sempre naquela leseira, né? De quem tá doente, cochila, acorda. Eu acordava com o chute dele na cama. Aí dizia assim.. só porque eu cheguei você inventou de dormir? Aí foi num desses dias que ele diz assim, eu sou tão azarado, que até o carro que eu quis vender para ajudar nas despesas, ele não gastou um tostão comigo, viu? A minha mãe que fazia tudo na farmácia, no outro quarteirão da minha casa, a minha mãe.
R- Só.. eu fui vender o meu carro, e eu tô tão azarada que eu fui vender o carro. A pessoa foi dar uma volta com o carro, e aconteceu um abalroamento, e eu perdi o carro e vendi só a sucata.
R- Aí ficou essa história… de eu me angustiar quando ele chegava.. quando ele saía. Aí houve a alta, dia da alta. Eu tinha uma amiga minha da faculdade, ela conseguiu uma vaga pra mim no Sala de Brasília. Aí eu ia viajar determinado dia, mas foi adiado, mais uns dois ou três dias, não sei.
R- Eu tinha que sair do hospital, evitar, porque eu já estava melhor, para evitar uma infecção hospitalar. Aí o meu médico, o doutor Irã, falou, ela não pode continuar aqui porque ela pode pegar uma infecção hospitalar. É bom ir para casa.
R- Aí ele disse, pois ela vai para a casa da gente.
R- Aí a minha família disse, não, não vai porque vizinhos estão fazendo uma construção, e se ela pegar uma pneumonia, né? Ela se vai. Ela não tem estrutura pra pegar qualquer doença. Ela vai pra nossa casa, né? Minha família vinha.
R- Aí ele se zangou. A casa dela não é de vocês, é a minha. É lá que ela mora comigo. Aí quando vir a resistência da família, aí o... Ele pegou e disse, pois eu vou querer que ela faça uma procuração para mim sobre todos os deveres para eu poder manter a casa com o salário dela.
R- Para eu poder organizar a casa, quer dizer, ele estava tendo muita despesa. Quem levava comida lá para casa eram as minhas irmãs. Aí foi o que aconteceu.
R- No dia seguinte eu chego, aí minha irmã disse, Penha, tu vai passar essa procuração de todos os poderes pra ele? Eu digo, minha irmã, é o jeito, eu quero é paz. Eu passo. Eu podia discutir alguma coisa naquela hora. Aí eu peguei, no dia seguinte ele chegou, a moça do cartório tá aí, aí eu botei o dedão. Ela leu pra mim, né, tudo que eu tava autorizando a ele fazer, aí eu matei o dedão.
R- Aí eu fui pra casa dos meus pais.
R- Pouco dia depois, chegou a hora da viagem pra Brasília, e ele falou, na véspera, ele chegou e disse; não preciso de nenhum de vocês para levá-la a Brasília. Porque a minha irmã já tinha comprado uma passagem para ela para me acompanhar. Aí ela disse que não precisa de ninguém de vocês para ir para Brasília, eu que vou! Aí foi desmanchado a história da minha irmã, só que a minha irmã foi escondida.
R-Ssó que vamos supor que o voo era às 9 horas ele chegou quase 11 horas para me pegar com uma Kombi, pra eu entrar na Kombi, né, para eu ir na cadeira de rodas mesmo. Aí todo mundo ficou apreensivo, apreensivo, ele chegou atrasado. A minha irmã saiu, foi até o...
R- Acompanhou bem, discretamente, né? E viu onde ele estacionou, estacionou o carro dela mais afastado. Aí quando lá vem ele do aeroporto.
R- E aí a minha irmã se aproximou, disse o que foi que houve. Ela disse, o avião partiu. Aí ela disse, mas você não lembra que você chegou atrasada? A gente não disse que o avião já tinha passado a hora do voo? Partiu.
R- Agora ela vai pra casa comigo. Quer dizer, ele fez aquele negócio pra me levar pra casa.
R- Aí... A minha irmã, não, se for por isso, não.
R- Vamos descer, ela desce, você vai comigo. Eu vou comprar uma passagem agora, para o próximo voo você ir com ela. Se eu tivesse ido naquele dia para minha casa. Aí, eu estava no dia, eu estava nessa hora, eu fui até o balcão.
R- E a Valéria comprou a minha passagem e a dele, porque eu tinha perdido a minha. Aí, fomos para Brasília, né? que foi minha salvação, que foi lá que eu não fazia isso. Eu não tinha coordenação nenhuma no braço. Eu saí tetraplégica daqui, escovavam os meus dentes. Não, eu não escovava os meus dentes, e eu fosse querer escovar, eu faria a boca. Aí, eu passei lá dois meses, ele foi uma vez me visitar lá. Aí foi quando ele disse, olha os seus colegazinhas, são os colegazinhas muito...
R- Aí disse um palavrão, né? Pois não está sendo comentado no IPEC que fui eu que tentei matar você?
R- Já estava o zumzumzum da coisa, né? Eu disse, o quê? Que história é essa? Pois é.
R- Estão supondo que fui eu que tentei matar você. Não quero nenhum colega seu, quando você voltar pra casa, lá não, viu? Não deixa entrar ninguém. Aí, quando eu estava perto da minha alta, ele começou a dizer... Minhas cartas maravilhosas, né? Que ele mandava. Só o papel agüeta mesmo, né? Que as crianças estão bem, que não sei o quê... A Viviane já está tomando café na mesa comigo.
R- Coitada da minha filha.
R- Aí, quando estava próximo de eu ter alta, aí ele me ligou e disse, olha, não avise ninguém da sua família que, o dia que você vai chegar, eu vou lhe apanhar. Aí eu peguei, não avisei, mas a minha mãe descobriu com a irmãzinha dela, de vizinha, né? Que a filha da vizinha, ela trabalhava no setor de turismo e ela tinha acesso a todos os voos, né? Aí ela disse, não, ela vai sair, vai chegar dia tal, dia tal. Aí a minha irmã foi para o aeroporto e ficou de longe aguardando que eu saísse. Aí quando ela viu que eu saí, mas ele viu ela ao longe, né? Eu não avisei, pra você não avisar pra sua família, sua irmã tá aqui, aquela não sei o que, tá aqui.
R- Eu disse, mas eu juro que eu não avisei. Porque quando perguntava, eu dizia, não sei, ainda não veio o dia certo, entendeu? Aí pronto, quando eu cheguei em casa, foi a maior tristeza que eu tive.
R- As minhas três filhas, assim, tudo assim, olhando pra mim sem correr, sem se aproximar, sem falar a mamãe, nada, só assim.
R- Aí ele disse, não vai abraçar a mãe de vocês, não? Deu um abraço nela e ela veio, aquele abraço frouxo. Agora pode brincar que ela vai se deitar porque viajou, tá muito cansada. Aí eu fui pro quarto. Fui pra cama do quarto. Quando foi? Na segunda-feira. Foi que eu... Aí a gente se abraçou, se beijou. E eu comecei a saber da miséria que ele tinha feito com as crianças.
P/1- E como foi esse sentimento de abraçar elas depois de todo esse tempo?
R- Olha, é um sentimento assim de graças a Deus, né? Nós estamos juntas, entendeu? Porque... Eu vi o quanto ele intimidava essas meninas.
R- As meninas, até a água era proibido de tomar.
R- Nesse dia eu pedi a ele o meu talão de cheque, ele tava de posto do talão de cheque, me dei aí que eu vou mandar fazer as roupas pras meninas. Aí eu peguei e mandei comprar o que as meninas gostavam, iogurte, isso, aquilo, o outro. Entendeu? Aí a moça disse, dê logo o que a senhora quiser dar, porque ele não permite que as meninas comam isso. Entendeu?
R- Teve até um dia que parece que ele me viu dando, eu não me lembro mais. Aí eu reclamei, não, deixa eu que estou dando. Entendeu? Alguma coisa assim, eu não me lembro mais como foi.
P/1- E aí?
P/1- Já são três horas.
Ai, meu Deus.
P/1- Só que a gente precisa falar um monte de coisa ainda.
R- Diga.
P/1-Aí eu queria saber como que a gente pode fazer. Se adianta mais um pouquinho, um pouquinho só, ou se a gente pode deixar pra outro dia, não sei, o que você prefere?
R- Mas que outro dia seria?
P/1- A gente tem disponível segunda-feira que vem, que a gente vai estar aqui.
R- É? É. Ah, então deixa pra segunda-feira, preciso ver.
P/1- Ou terça também.
R- Terça-feira depois de quatro horas então. Acho que eu não tenho nada.
P/1- Depois de quatro horas ele não consegue, que ele pega o voo a cinco.
R- Não vai.
P/1- O que você acha melhor? Eu quero fazer do jeito.
{ Fim da primeira parte}
P/1- Bem, eu vou ler a claquete de novo, e daí a gente já retoma.
P/1- Naquele ponto que eu vou retomar aqui.
R- Certo, tá bom.
Entrevista de Maria da Penha Maia Fernandes;
Entrevistada por Bruna Oliveira;
Fortaleza, 28 de janeiro de 2026;
Projeto Vidas, Vozes e Saberes, Vidas e Lutas Ameaçadas,
Entrevista nº: PCSH_HV1501.
P/1- Penha, da última vez que a gente se viu, você tá me contando, como foi aquele episódio da sua ida para o Sarah Kubitschek.
P/1- Aí eu queria que você me contasse como que sua vida seguiu a partir desse momento.
R- Olha, quando eu cheguei no Sarah, eu cheguei realmente gravemente prejudicada. Eu não penteava meu cabelo, eu não escovava meus dentes, porque eu tive uma lesão muito alta, e, eu perdi o movimento dos braços também.
R- Então, eu comecei a trabalhar essa musculatura, e foram dois meses de muito esforço. Porque o acompanhamento realmente é muito bom, e a gente todo dia estava fazendo exercício, aprendendo a exercitar a musculatura do tronco, exercício nos braços, com peso. Muitas vezes, era só o braço mesmo, porque ainda era pesado para mim, aí depois começa a botar um pezinho menor.
R- E nisso foi feito, e assim, o tratamento do meu estado geral todo foi retomado lá.
R- E depois de dois meses, eu tive alta.
R- E o meu agressor, ele se comunicava muito por telefone comigo.
R- E me contava muitas vantagens sobre as crianças. ´´Ah, as crianças estão ótimas, estão... Não tem nenhum problema na escola também, entendeu? A mais velha já gosta de tomar o café da manhã comigo´´, entendeu?
R- Muitas novidades boas e ele dizia sempre, não avise para a sua família o dia que você vai voltar, porque para a gente fazer uma surpresa.
R- Não avise.
R- E quando ela estava próxima de eu sair, de eu viajar, aí a minha família começou a perguntar. Eu digo, não, eu ainda estou aguardando o dia da alta. Eu sei que daqui a uns 10 dias, talvez, mas eu já sabia que era antes.
R- Aí eu cheguei em Fortaleza.
R- Qual era o motivo que ele queria?
R- Gente, vocês tiram esse barulho?
R- Qual era o motivo que ele não queria? Depois foi descoberto. Ele não queria que ninguém soubesse que eu estava chegando. Só que a vizinha da minha mãe, que era mesmo que seu irmão dela, tinha uma filha que trabalhava numa agência de viagem, localizou o dia que eu ia chegar. Aí a minha irmã foi, sorrateiramente, nesse dia foi ao aeroporto, ficou de longe observando a minha chegada, para ver como é que eu ia chegar, né, e ele percebeu, aí começou a me xingar dentro do carro.
R-´´ Eu não disse, não era pra você avisar para ninguém que você ia, né? E como é que sua irmã tá aí?`` Eu digo, eu não avisei, eu não sei porque ela tá aqui.
R- E realmente eu não sabia que tinha acontecido isso, isso eu soube depois. Aí, pronto, a partir desse momento, eu vou…
R- Aí, nesse dia, então, ele disse... Quando eu cheguei, foi um choque pra mim, que minhas filhas estavam muito desconfiadas. Elas não se aproximaram de mim, elas ficaram encostadas na porta.
R- E eu olhei pra elas assim, elas todas desconfiadas, olhavam para ele, olhavam pra mim. Aí ele disse, e aí, você não estava com saudade da mãe de vocês? Vocês podem abraçá-la. Elas deram aquele abraço frouxo, olharam pra ele. Agora vocês vão brincar, que a mãe de vocês vai descansar, que ela está cansada, porque viajou. Aí pronto, né? Aí eu fiquei o dia em casa.
R- As ordens chegaram, né? Olhe, não quero visita aqui de ninguém, nem familiar seu. As visitas vão ter que ser feitas na minha presença, né? Porque eu vou obedecer as ordens dos médicos lá do Hospital Sarah.
R- Eu não tenho que ter pena de você, você tem que fazer os exercícios do jeito que eles mandaram, fazendo na média. Aí passou, isso foi no sábado, no domingo, aí quando foi na segunda-feira que ele saiu… aí eu comecei a saber do que tinha acontecido, na minha ausência com as crianças.
R- As crianças sofreram horrores. Ele proibia a minha família de ver as crianças. Ele dizia que se chegar alguém aqui, você diria que eu levei a chave. mas não abro a porta pra ninguém, e as minhas crianças vivendo dois meses dentro de uma... de uma... como é, assim, longe da mãe, sem a avó, sem as tias, e só mercê de um bandido desse.
R- Então, tudo isso a empregada me passou, e mais alguns fatos que eu não conhecia, porque eu estava ausente.
R- Então, eu não tinha dito pra ninguém realmente que eu tinha chegado, mas as colegas do trabalho, talvez a mamãe tenha dito, ah a Penha vai chegar amanhã… não sei o quê.
R- Foram de surpresa lá em casa,e, coincidentemente, quando ele chegou, eu ainda estava com um presentinho que ela tinha me dado, um jarrinho de planta, né, em cima. ´´Quem esteve aqui? ´´ Foram as meninas do colégio, ´´ Eu não disse que não era pra receber ninguém na minha ausência, certo? ´´.´´Eu não quero mais ninguém, senão você vai se arrepender``.
R- Tá certo, aí pronto.
R- A mamãe ligar. Minha filha, eu posso ir aí hoje? Não, mãe, não venha não, porque não dá certo hoje não, eu tô muito cansada. Eu ficava pisando em ovos, com vergonha de dizer que estava sendo proibida, e com certeza a mamãe já sabia alguma coisa do que estava ocorrendo, de que ele tinha sido autor.
R- Porque durante os dois meses que eu fiquei hospitalizada, a Secretaria de Segurança Pública andou a fazer uma auditoria.
R- Uma auditoria não, é outro nome, uma perícia, e já tinha encaminhamento de que ele….
R- A história que ele contou não era verdadeira, porque todos os vizinhos foram ouvidos, e ele se contradiz em diversos depoimentos, porque o processo é assim, e houve dois, três testemunhas, aí chama ele, para saber se coincide com as informações, e eram todas desencontradas.
R- As testemunhas tinham um depoimento e ele mudava de depoimento, porque não sabia mais o que tinha dito anteriormente, que ele não tinha nada gravado. E o perito era muito hábil e fazia perguntas que ele se embaralhava.
R- Mas isso eu não sabia, soube só depois, né? Pois sim, aí eu passei 15 dias nesse rolê, aí combinei com a moça que morava na minha casa.
R- Eu tinha uma menina novinha, e tinha uma outra de mais idade, talvez 25 anos.
R- Eu digo, olha, não quero ninguém mandando recado, falando sobre mim pelo telefone fixo, porque pode estar grampeado. Então, tudo que a gente quiser, tudo que a minha família quiser, você marca uma hora, liga pra eles e sabe das coisas e me conta pessoalmente. Ninguém lá de casa é pra ligar pra carro. E ficou... Mudo o telefone, né? Ele usava, eu usava pra outras coisas, mas pra família eu não usava, nem para amigos.
R- Aí, num desses dias, eu falei pra ele assim, eu queria... Porque todo dia de manhã, quando ele saía pro trabalho, saía 8 horas, chegava só meio-dia, aí tinha uma colega minha que morava a uns 3 quadros lá de casa. Ela ia lá pra casa, aí eu ia pra cadeira de banho, ia pra lavanderia, tomava banho lá. Por quê? Porque o banheiro das crianças era o que daria para eu entrar, porque era acessível. Mas, como é que se diz? Não era acessível, mas eles podiam me botar a cadeira dentro do banho e cuidar. E do banheiro da gente também, eu não queria mostrar que havia tomado banho.
R- Então, para mim era fácil ir para a lavanderia, porque não tinha nenhum obstáculo. Aí, quando eu chegava lá, eu tomava banho, a minha amiga vinha… Aí, com as outras, eu tomava banho, né, com as lá de casa. Aí, pronto. Aí, passou uma semana e ele nunca perguntou se eu tinha tomado banho, né? Porque ele podia ver que eu não podia. E aí, quando foi um dia, eu, propositadamente, disse assim, Marco, tu chegou faz tanto dia, tu pode me dar um banho hoje? Me levar pro banheiro pra eu tomar um banho?
R- Aí ele, tá, me levou.
R- E as meninas de sobreaviso, tudo pertinho de mim, sem perceber, mas pertinho, né? Na porta da cozinha, que dá pra ver e tudo mais. Aí na hora que ele abriu o chuveiro, ele disse, pode entrar. Aí eu fiz assim, botei a mão na água pra ver se estava morno. Porque eu não podia tomar banho a água fria, tinha que ser com a água bem morna. Porque senão as pernas ficavam, entendeu? Pulando. Ainda hoje elas pulam, mas não como antigamente. Porque eu já fiz cirurgia de corte de tendão, então elas não têm mais potência. Mas se você estivesse na minha frente e a perna tivesse alguma sensibilidade, algum estímulo, ela lhe derrubava, ela fazia vult … de uma vez. Aí eu cortei os tendões do quadril e os tendões do joelho, externo e interno, e do tornozelo.
R- Foi uma cirurgia que eu fiz com um ortopedista. Aí quando eu botei a mão assim, minha filha, aí deu choque.
R- Aí eu gritei, vale o chuveiro, tá dando choque. Aí ele disse, que besteira é essa? Aí botou a moça em cima, olhando ele de sapato de borracha, do lado de fora. Eu estava numa cadeira de ferro. Onde é que o choque ia aparecer? Aí ele disse, tô sendo muito escandalosa, um choquinho pequeno desse não mata ninguém, não.
R- Aí as meninas chegaram, as moças, né? Aí eu disse, ´´não, tô mais tomar banho aqui, não. Tá dando choque, eu não vou mais entrar no banheiro, não". Aí ele saiu chutando os pés de parede, né? Exagerada. Uma besteira de um choque desse. Tu acha que eu vou te matar?
R- Entendeu? Todo, né? Sensível. Mas ele sabia o que tinha feito. Aí pronto, aí eu peguei e disse, bem, agora é o seguinte, vamos pegar as roupas das meninas, tudo que for das crianças, que eu puder levar pra casa da mamãe, nós vamos botar nessa mala, que tinha malas, malas na despensa, várias malas, né? Eu tiro essa mala aqui, bem escondidinha, vamos botar tudo dentro dela e a gente vai no mesmo canto. Ele não vai saber que tem nada nessa mala. E eu comecei, quando ele saía, eu tirava as coisas que eram necessárias. Documento meu, coisa das crianças, tudo. Acho que foram duas malas que a gente fez isso.
R- Aí... Era outra coisa que eu ia contar a respeito. Aí, nisso, eu observei o sofrimento das minhas filhas com ele. Ele exigindo, batendo, entendeu? Todo mundo.
R- Aí eu disse, olha, diga lá, liga lá pra casa, diz pra Leirise, que era a minha irmã que tava mais ligada, né, pra transmitir as notícias. Diga a Leirise que pode vir me pegar. me tirar de casa, que veja como é que ela faz isso. Aí ela ligou para... a Dina ligou para ela pelo telefone público, ela disse, não, nós consultamos um advogado. Elas foram providenciar um documento chamado separação de corpos.
R- Porque se eu saísse desse documento, eu perdia a guarda das crianças, porque era considerado que eu tinha abandonado o lar.
R- Ainda bem a orientação, que elas tiveram essa ideia de se orientar. Aí eu aguardei mais uma semana. Aí no dia que estava tudo pronto, pode sair. Aí eu disse, ele vai viajar no começo da outra semana. Eu passei praticamente 15 dias em casa. Aí quando ele saiu, na véspera, ele deixou um vigia na porta lá de casa.
R- Olha, não se preocupe que ninguém vai vir mais assaltar aqui. Depois de tudo passado, né? Esse vigia vai ficar 24 horas. Eu consegui ir lá na empresa onde eu trabalho, vai ficar 24 horas aqui. E até a volta. Até a volta. Boa viagem. Tchau.
R- Oxe, me saiu por um lado. Aí eu acabei de arrumar as coisas. Abri a escrivaninha dele. Peguei documento meu, autenticado de muito tempo, coisas. Ele tinha pedido uma autorização para eu vender o meu carro, já que eu não ia mais andar de carro.
R- Eu vender o meu carro, uma autorização para ele vender o meu carro para um colega dele, mas não tinha o nome do colega. Aí eu peguei e disse assim, rapaz, como é que tu vai autorizar esse... vai autenticar esse aqui se não tem o nome do comprador?
R- É, mas hoje à noite, hoje à tarde ou amanhã eu passo lá e peço a ele pra botar o nome dele, porque eu não sei o nome dele todo, né? E nunca mais falou desse negócio. Eu até... não estava nem pensando nisso, porque eu estava preocupada, era em sair de casa.
R- Quando eu abri a escrivaninha dele, não estava esse documento que eu tinha assinado, estava sem a data da assinatura e sem o nome do comprador, estava do mesmo jeito. Ele segurou o documento para depois ele preenche com o que ele quisesse, porque não tinha o nome do comprador. Só tinha a minha autorização. Aí tudo que eu tinha lá, documento das meninas, sabe? Certidão de nascimento das meninas, tudo isso.
R- Os planos dele eram outros.
R- Não sei nem se ele ia traficar minhas filhas.
R- Por que que ele tava com os documentos das crianças dentro de casa? Que geralmente a gente é que guarda. Então, aí eu peguei, depois que eu já tava bem tranquila, né? Passei um dia bem calmo, só fazendo minhas... fazendo as minhas malas, né? Aí eu disse pro vigia, eu disse, ó, meu senhor, o senhor não precisa mais vir aqui, não, está dispensado, viu? Não precisa mais do senhor vir, eu sei que aqui tá seguro, a casa tá vigiada. Não se preocupe não, pode vir, não precisa o senhor estar passando o dia aqui não. Aí eu fui embora, aí meus pais vieram me levar de volta pra casa.
R- Não foi uma aventura?
P/1- E como é que sua vida seguiu a partir disso?
R- A partir disso foi o seguinte.
R- Quando, eu acho que foi o vigia que avisou pro patrão dele, né? Ele tava no Rio. Aí eu comecei, aí ele mandou, começou a mandar cartão de mensagem pra mim, né? Meu Deus, você está chateado comigo? Entendeu? Foi que eu lhe fiz, entendeu? Se eu lhe fiz alguma coisa, eu peço perdão. Entendeu?
R- Aí eu disse, olha, eu não volto mais para casa. Quando você chegar, fale para os meus advogados que eu vou fazer a separação. Eu não vou mais voltar para você.
R- Aí, aconteceu isso. Chegou no dia que ele veio, aí...
R- Sim, mas no dia que ele veio, ele ainda chegou.
R- Aí o que foi que eu ia dizer?
R- Sim, aí no dia que houve a separação, eu tô com o meu advogado, ele levou o dele. Aí no final, ele disse assim, agora o carro, já que você não vai utilizar o carro mesmo, eu vou querer o meu carro. Eu vou querer o seu carro, porque o meu, eu botei pra vender e você já sabe, né? Que o camarada foi dar uma andada na cidade, abalroou, abalroou nele e o carro foi vendido como sucata.
R- E esse fato, eu sabia, foi logo depois do Coisa, já ele já tava querendo ficar com o carro. Mas nos dois primeiros meses que eu estava internada no HGF, ele chegava pra me visitar. Quando ele saía, chamava o médico plantonista, eu estava angustiada, eu estava passando mal, eu estava faltando ar, entendeu? Porque ele me emitia tanto medo, ele fazia o seguinte, eu estava naquela torpeza de antibiótico, de tudo, ele chutava com o pé, o pé da cama, chutava com o pé da cama e dizia o seguinte, só porque eu cheguei você inventou de dormir?
R- Então, eu detestava quando ele ia me visitar.
R- E numa dessas vezes, ele disse, olha, estou com tanto mal só, tão azarado, que além de você estar aqui no hospital, por causa do assalto, ainda o meu carro que eu quis vender foi abalroado, quando o homem procurou pra ver.
R- E antes de eu sair do hospital, foi o que ele fez? Tô tendo muita despesa com seus remédios. Olha, eu estava tomando HGF e a mamãe tava suprindo a minha medicação quando eu precisava. Passa aqui essa declaração pra mim. Aí eu botei o dedo porque eu não assinava. A minha família... Tu vai fazer isso? Porque ele disse uma vez, num dia, lá pra minha família, que ele tava tendo muita despesa e que queria que eu passasse a procuração pra ele. Aí minhas meninas vieram falar pra mim, a minha irmã, né? Eu digo, eu não posso fazer nada. Eu posso brigar com um homem desse, numa hora dessas?
R- Quando chegou, aí eu disse, é, é. Aceito tudo pra ele.
R- Pelo amor de Deus, quer dizer... Quer dizer, desde o dia que ele começou a namorar comigo, ele mostrou ser humano.
R- Mas ele tinha um objetivo. Porque viu que eu tinha meu emprego, via que eu tinha investimento bom. O carro que eu tinha em São Paulo, quando a minha filha nasceu, quem comprou fui eu, porque ele era um mero bolsista.
R- E devia ter até alguma coisa lá na terra dele, mas ele só contou miséria pra mim. E a gente, quando tá envolvida, a gente acredita.
R- Então, quer dizer, foi uma vida que os três primeiros anos foram só de... Ele conheceu o terreno onde ele tava precisando, pra depois ele mostrar a verdadeira pessoa que ele era.
R- Porque ele conseguiu naturalização com o nascimento das filhas, o emprego dele, como é que ele conseguiu. Ainda semana passada, nós tivemos um encontro com nossa turma que fez 60 anos de, não, mais de 50 anos de formatura. Nós tivemos, todos os anos, quando eles viajam, vem pra cá, quem é daqui, né? Aí a gente se reúne, né? A gente estava comentando sobre isso, né? Não sei mais nem o que eu estava comentando.
P/1- Você estava falando de que ele preparou o terreno.
R- Pois é.
R- Então, foi uma de vocês aqui que tinha um primo deputado e que eu dei o currículo dele para esse primo dela apresentar no Sebrae, que antes o nome era Seag, hoje é Sebrae.
R- E foi essa apresentação do currículo dele que fez com que ele fosse admitido no CEAG daqui, entendeu? Ele preparou o terreno, se fez. Na hora que ele se fez, aí ele mostrou a verdadeira face dele.
P/1- Penha, e você continuou trabalhando?
R- Sim, eu passei dois anos afastada para tratamento de saúde, voltei, mas não tinha mais ambiente para trabalhar, não, entendeu?
R- Aí eu me aposentei.
P/1- E a relação com as suas meninas?
R- Não, as minhas meninas, elas, graças a Deus, elas tiveram o apoio da minha família, né.
R- Excepcional, porque as tias eram doidas por elas. Então, mesmo afastado de casa, mesmo separado, ele inventou de querer, pediu ao juiz para as meninas passarem umas férias com ele no Rio Grande do Norte. Tu acha? A minha mãe quase enlouquece. Esse homem vai levar duas filhas para Colômbia. E o que é que a gente faz? Não tem como confiar nessa pessoa.
R- E foi que o irmão falou com o advogado, aí ele disse, nós vamos cadastrar que você é a responsável pelas crianças, porque ficou certo na separação. A pensão alimentícia, ele saiu dos empregos para não pagar a pensão alimentícia, porque já tinha os ganchos dele por aí, mas não fez falta não.
R- Graças a Deus, nós o suprimos tudo, entendeu? Eu nunca fui atrás de pensão alimentícia. Só que no dia da separação, ficou logo determinado que ele tinha que...
R- Um dia que ele trabalhava, ele tinha que... Aí, eu peguei e...
R- Sim, aí ele inventou isso, de viajar, e nós conseguimos.
R- Enquanto a gente não conseguiu esse documento de que a guarda era minha e que elas estavam proibidas de sair do Estado e do país, a gente viveu aquela suspense, esperando que esse documento fosse liberado pela justiça.
R- E tu sabe que as coisas da justiça, como é que é, aí, quando ele avisava, ele mandava os bilhetinhos e as meninas recebiam e me derrubavam e eu leia. Olha aí, mamãe, que o papai mandou. Vocês querem sair esse fim de semana com eles? Não, né, mãe? Tá certo. Pois, olha, é o seguinte. E aí eu falava com as minhas irmãs. É o seguinte.
R- Sua tia vai ao aniversário de uma coleguinha da sua prima, né? Você quer ir para o seu pai, ou ir com eles. Ah, a gente vai com a titia, né, mamãe? Claro, minha filha, vai com a titia de vocês, vão onde vocês quiserem ir. Aí a gente pegava, era uma casa que tinha um portão assim de ferro, aí eu ficava dentro de casa e ele do lado de fora. As meninas chegavam perto, tudo assim, segurando a minha cadeira. Ai, papai, o que é isso? E aí, meninas, estão prontas para sair com o papai para tomar sorvete? Não, pai, porque a tia convidou para a gente ir para a casa da fulaninha de tal, entendeu? E lá vai ser bom, nós vamos com ela. Ah, que pena, entendeu? Isso a gente fez umas três vezes.
R- Aí o papel saiu, aí eu fiquei com o poder, né.
R- Não, não vou mais sair, não, entendeu?
R- Mulher, cada dia era um abacaxi para a gente pensar, desmontar.
P/1- Você estava contando em relação à justiça, e eu queria entender como é que foi esse processo. Eu sei que foi um longo caminho …. até a sua denúncia do seu caso ir para a Comissão Interamericana de Direitos, mas como é que se deu essa situação na justiça?
R- Pois vamos ver, se você acha pouco.
R- Em 1983, foi o meu caso. No ano seguinte, 84, foi instaurado o inquérito, ou começou o trâmite judicial.
R- Aí terminou ele ser ouvido pelo Ministério, pela Justiça, Tribunal de Justiça e tudo mais.
R- Eu fui ouvida também.
R- Aí repete o que está no processo, né? Cada um repete do seu lado. Então, eu repeti o que eu tinha dito aqui, o que eu disse aqui.
R- E marcaram o julgamento. Por três vezes o julgamento foi adiado.
R- Eu preciso até rever esses dados, mas tem no processo. Vocês podem conseguir esse processo, tem no Tribunal de Justiça.
R- Requerer, que vocês recebam o processo em mãos.
R- Aí o primeiro julgamento não aconteceu, o fórum estava cheio. O juiz era um substituído da juíza, que era da Vara, mas a juíza estava afastada com o problema de saúde. E o juiz era um abestalhado, não tinha voz.
R- Pronto, então, vai ser... Todo mundo lá, a praça cheia de cartaz com o movimento de mulheres, foi essencial para isso.
R- Aí o julgamento não aconteceu, foi adiado.
P/1- Em que ano é isso?
R- Pois é, parece que foi em um ano, foi em 91, não, foi em 80.
R- Rapaz, mas no livro tem esses dados.
P/1- Foi ainda nos anos 80?
R- Foi, foi, foi.
R- Os advogados dele eram três advogados, que ele não tinha dinheiro para pagar aqueles advogados. Alguma tramatória tinha com aqueles advogados.
R- Era o Marcelo Martins, o Cleiton Marinho e o Paulo Quezado.
R- Então, eles fizeram, conseguiram adiar o primeiro julgamento.
R- O segundo julgamento, também foi adiado porque os advogados dele disseram que estava faltando um réu … ou uma testemunha que por um problema de saúde, aí mostraram lá um atestado, não podia comparecer.
R- Aí a juíza, aí marcaram o terceiro julgamento.
R- Aí a juíza assumiu, interrompeu a licença de saúde dela e assumiu o julgamento.
R- O julgamento começou à uma hora da tarde, terminou às dez da manhã do dia seguinte, foi a noite toda.
R- As testemunhas todas foram coerentes, ele se contradisse algumas vezes e o júri condenou por seis votos a um, com o autor.
R- Então, a decepção logo em cima, porque na hora que todo mundo bate palma pelo resultado, aí o advogado de defesa dele diz o seguinte, esse julgamento foi contra a prova dos autos, vamos solicitar que seja revisto pelo Tribunal de Justiça do Ceará. Foi água na fervura, uma decepção. Como é que uma pessoa que é condenada por seis votos a um, depois de todas as provas ali, o advogado consegue? É grupo, é grupo dentro da justiça. Não pode deixar de ser grupo, não. Como a gente não vê hoje.
R- Se eu for presa, eu chamo vocês, viu? Aí foi o que aconteceu…
R- Aí eu fiquei aguardando, né? Aí eu comecei a ficar inquieta. Mas como é que pode? Será que o tribunal vai negar? Aí eu comecei a conversar com as mulheres, né?
R- Dos homens e mulheres. Aí o que foi que elas disseram? Pê não se iluda, não. No judiciário também existe muito machista. Aquilo tocou fundo. Aí eu disse, quer saber de uma coisa? tudo que acontecia eu tinha uma cópia do processo.
R- Escrevi o livro ´´Sobrevivi e Posso Contar´´, primeira edição. Aí eu levei as contradições todas, tudo pra dentro do livro.
R- Aí o Movimento de Mulheres foi até a comissão da Assembleia, me deu espaço pra lançar o livro. A Fátima Dourada, que era presidente da... criou a... A Comissão de Coordenação de Mulheres criou, né? Esqueci o nome agora.
R- Criou e criaram o espaço. Nós lançamos o livro do Palácio da Abolição, sede do governo estadual. Entendeu?
R- E foi gente, viu? Foi gente, foi muita gente.
R- Aí, a partir desse livro, que eu lancei em 94, ai o Tribunal de Justiça, em 96, anulou o julgamento que tinha acontecido. Olha o tempo, o processo para o processo prescrever, . anulou o julgamento.
R- Aí, o livro circulou no Brasil todo, duas ONGs, O Segil e o Cladem se apropriaram do livro, do processo e denunciaram o Brasil na OEA.
R- Colocando a impunidade, porque existiam muitos casos de violência contra a mulher no país. Mas os poderosos tinham os defensores, que o Paulo Quezado era um deles, que aquele assassinato aconteceu por legítimo, o marido ficou transtornado, assassinou com a tese da legítima defesa da honra. Aqueles casos mais emblemáticos, né? da Ângela e da... Sei lá, muita gente. Um foi até preso agora, entendeu? E tinha a legítima defesa da honra. Então, graças a todo esse conjunto de ações do movimento de mulheres e a minha revolta, tudo junto, deu esse caldo, um caldo promissor, onde o Brasil foi condenado internacionalmente, onde depois que a lei foi criada, na gestão do presidente Lula, que deu uma força muito grande, mas que a lei foi enfraquecida na na gestão do Bolsonaro, porque o Bolsonaro, nesse período do Bolsonaro, começaram as fake news contra a minha história, contra a Lei Maria da Penha, que a Lei Maria da Penha era fruto de mentiras que eu havia contado.
R- Aí foi quando eu me isolei do mundo, porque eu comecei a me sentir ameaçada, porque eram tão doloridas, o que eu não cheguei a ouvir todas, porque as meninas me proibiram, entendeu?
R- Mas o que dizia, até aquela Leda… Nagle, que deu um espaço maravilhoso para ele, para ele contar as mentiras dele, fazendo as pessoas desacreditarem da minha história, que eu sofri algumas ameaças por conta dessa circulação de notícias falsas.
R- Aí eu deixei de ir à médica. Eu fiquei deprimida. Eu não conseguia... Eu não saía mais de casa.
R- O Instituto entrou com algumas ações para poder rever essa situação. Esse... Alexandre Paiva foi quem indiciou.
R- E quem é Alexandre Paiva? É um agressor de mulher que se insurgiu por ser punido pela lei. Então, fez um grupo misógino exatamente para estar divulgando isso, e começou essas informações falsas.
R- Eu esqueci o nome dele, mas depois é fácil vocês acharem. Um deputado bolsonarista esteve... Eu não sei se foi no Paraná ou Santa Catarina.
R- Foi a tira colo levando o agressor, dizendo que ele queria lhe contar a verdadeira história dele.
R- Contar que a história que a Maria da Penha contou, não é a verdadeira.
R- A verdadeira era a dele .
R- Aí eu estive, por exemplo, consultório médico, as pessoas às vezes olhavam pra mim, ou então chegava uma pessoa e dizia, ó, aquele ali, aquele ali estava falando mal de você. É uma cliente assim, né? Eu estive uma vez no banco, fui até com uma colega minha para resolver um negócio do instituto, uma menina do instituto, e na hora que eu fiquei dentro do banco, ela foi pegar o carro pra eu ir, pra eu sair.
R- Chegaram dois homens, entraram no banco. Você é a Maria da Penha? Sou. Muito prazer. Me deu, tirou a mão. Eu sou um ex-agressor. Não é um risco? Quantas pessoas estavam querendo ali me esganar? Em qualquer ambiente que eu fosse. Aí eu digo, oh, foi muito prazer. Por que você hoje é um ex-agressor? Eu dei essa chincada pra ele, né? Quer dizer, eu amenizei, porque com certeza ele pensava que eu ia dizer, ih, o que foi que você fez com essa mulher? Eu lá quero saber.
R- Outra vez eu tava no supermercado, e uma senhora, era até do superfamília, que eu estava. Aí uma senhora chegou perto de mim e disse, está vendo aqueles dois homens ali? Olhe discretamente, ele está ali perto daquela grândola ali, não sei o quê.
R- Gôndola, né? Aí eu disse, sim. Aí ela disse, olha, eles estavam dizendo assim, se fulano, os dois conversaram, se fulano soubesse que eu estava aqui, eles tinham, eles viram agora para dar uma surra nela. Entendeu? Então, eu deixei até de ir para o médico, porque eu já ouvi comentários.
P/1- Esse foi o momento mais hostil?
R- Hã?
P/1- Esse foi o momento mais hostil?
R- Exatamente, porque enquanto, como é que se diz, estava comprovado, todo mundo estava tomando ciência da história. A história estava escrita, tinham os depoimentos dele no livro, tinham as contradições dele no livro.
R- E você acha que eu tenho o poder para criar uma lei? Essas eram as evidências, foi a história. Agora, em contraponto, vem um grupo misógino desvirtuando a verdadeira história com o apoio de partidos bolsonaristas. E aí? Como é que uma pessoa se defende desses ataques?
P/1- Penha, e você ainda está sendo ameaçada por esses grupos?
R- Não, graças a Deus, quando houve assim uma... Quando foi em 2024, né? Que foi 21, 22, 23 e 24. Que as notícias estavam correndo, correndo.
R- Aí veio uma pergunta de uma militante das Filipinas, num encontro de mulheres internacional; que perguntou, nesse encontro, o que é que o Brasil estava fazendo para me proteger.
R- Tem até o nome dela, Ranjita, não sei não.
R- Então, nessa época, eu estava assim, amedrontada, a fake news correndo nas redes sociais. Aí a ministra Cida veio aqui ao encontro com o governo e fez uma visita e perguntou, Penha, você quer entrar no programa de proteção a vítimas ameaçadas?
R- Eu digo, claro, ministra. Eu tô sem viver. Aí ela me colocou e o governador aqueceu o pedido dela e eu tô até hoje com medida protetiva.
R- Eu não saio pra lugar público, eu não tenho coragem de sair pra lugar público, sem estar com um protetor do meu lado. Geralmente são dois policiais à paisana , certo?
R- Porque se eu for para um shopping... Ah, meu Deus! Todo mundo me conhece. O mais interessante, que eu acho que me dá muita alegria, são as crianças me conhecendo. Porque já tem uma sensibilização na escola para respeitar a mulher.
R- Então, o menino tem que respeitar a menina também.
R- Se a menina for a autora da agressão, os professores têm que saber conduzir aquela relação entre os dois, que é necessário. Então, eu me sinto super segura. É tanto que, pra eu não sair todo dia, assim, eu saio três vezes na semana, eu saio pra minha isoterapia, que eu larguei de fazer, eu saio pra fazer, eu falo com o meu dentista, saio pra fono, que eu tô com uma lesão na... precisa fazer exercício das cordas vocais, né? Três vezes na semana eu tenho essas saídas. E o resto eu trabalho em casa.
P/1-Sabe o que eu queria te perguntar? Desde o começo, parece que o movimento de mulheres te deu uma força, né?
R- Foi essencial, essencial.
P/1- O que representou pra você?
R- Tudo, porque, olha, talvez você tenha história na sua família de um bisavô que batia na mulher, que a mulher era uma santa, cuidava bem direitinho dele, mas ele, quando ele bebia, batia nela, entendeu.
R- Porque isso é cultura. Sempre foi assim, entendeu? As mulheres nunca tiveram voz. Você vê que a mulher, de primeira, a única profissão que ela tinha era de professora. As meninas não podiam estudar em colégio misto. Eu estudei em colégio de freira, só eram meninas. E o que essas meninas viram dentro de casa? Eu não vi agressão na minha família, entendeu?
R- A minha mãe deixou de trabalhar, mas aí foi uma opção dela. Porque o meu pai era dentista e quando eu nasci, minha mãe disse assim, eu não tenho coragem de deixar a minha filha com qualquer pessoa.
R- Não existia creche como hoje existe, né? Que às vezes ainda aparecem as aberrações, né? E a minha mãe sempre foi caseira, porque ela gostava de ser, entendeu? Mas... Agora eu me perdi, porque eu fui entrar na história da família e me perdi.
P/1- Contou da importância do movimento de mulheres.
R- Então, eu fui saber que... Eu pensava que aquele tiro com a facada era a violência, mas eu não conhecia outro tipo de violência. Aquilo que eu sofri era uma violência psicológica. Aquilo que eu vi minhas filhas sofrerem era uma violência psicológica para mim. Para elas era física, mas para mim era psicológica. Porque ele nunca me deixou marca, mas ele puxava a orelha, empurrão, puxão de cabelo, não é?
R- Então, como é que eu podia dizer que eu sofri violência física? Foi quando eu tomei conhecimento dos fatos. Hoje você sabe porque você é de outra geração.
R- Quando eu era criança, adolescente, tinha um vizinho, uma vizinha, na nossa rua. O marido dela era um seminarista, ex-seminarista. Aí o que é que você pensa de uma pessoa que saiu do seminário porque não se adequou? Que vai ser uma pessoa do bem.
R- Mas essa mulher apanhava quase todo dia. E o que é que toda a vizinhança dizia? Meu Deus, essa mulher está apanhando de novo. Mas por que é que não vão lá? Quer dizer, eles conversam entre si, conversando. Briga de marido e de mulher, ninguém mete uma colher. Ele deve ter os motivos dele.
R- Quer dizer, sempre a mulher estava errada, porque ele tinha motivo para bater, não é?
R- Sempre existiu e sempre se achou que quando acontecia um assassinato de uma mulher, um ferimento de uma mulher, mas o que foi que ela fez para merecer isso? Sempre acho que foi a mulher que fez, e não que ele resolveu fazer o que quer.
R- Isso eu aprendi com um monte de mulheres. E quem quer bancar, passar por bom, não deixou. Porque o meu marido nunca deixou. Nunca de show, lá embora não. Sempre foi uma pessoa benquista, por todas as pessoas que conviveram com a gente.
P/1- Bem, sabe o que eu queria saber?
R- Você quer saber tanta coisa.
P/1- Mas já está terminando, prometo.
R- Não, mas pergunte, eu acho bom. Você está aqui é para isso mesmo.
P/1- Quando a gente estava conversando agora sobre a denúncia que o movimento de mulheres fez, eu queria entender o que representou para você essa denúncia, o Brasil ter sido condenado. Representou alguma coisa?
R -Muito, muito.
R- Porque representou o seguinte, primeiramente, que o meu caso era verídico, porque a OEA não ia pegar o meu caso, só porque eu tô numa cadeira de roda. Não é isso. Ela viu o processo, ela analisou, ela tem o parecer jurídico de tudo que aconteceu.
R- Primeiro por isso.
R- E primeiro porque deu esperança às mulheres do mundo todo. As mulheres do mundo todo falam sobre a nossa lei. Quando ela foi criada, né? Quer dizer, isso aí foi um avanço secular. Nunca vai passar.
R- O passado pode até ter sido esquecido, mas a partir desse momento, né? As mulheres começaram a melhorar de vida. Tem mais voz. Fazer o que querem. Poder fazer o que querem. E deixar de dizer amém.
P/1- E você ouviu outras mulheres depois desse trabalho com o movimento de mulheres, dessa militância com o movimento de mulheres? Você ouviu o relato de outras mulheres?
R- Eu ouvi relatos de desembargadoras, ouvi relatos de juízas, ouvi relatos de médicas, ouvi de relatos que quando me conhecem, às vezes no encontro, às vezes numa consulta, olhe, graças à sua lei que eu saí, doeu relação de violência. Eu também sofri violência. Não sou poucas, não. e não são poucas, não.
R- Eu acho bom porque isso estimula que não é só aquela pessoa de poucos recursos, é uma pessoa que tá lá em cima, num patamar que tinha que fazer aquela... tinha que mostrar para a sociedade que eram felizes, mas quando chegava em casa, não tinha voz pra sua casa. Porque você viu uma vez eu assisti a uma palestra da ministra Carmen Lúcia, falando assim, eu vou falar com as minhas palavras, não foi assim que ela disse, porque ela tem muita diplomacia. Quer dizer, aquela Leopoldina, né? Aguentou, porque ela aguentou daquele Dom Pedro, né? E ela era sorridente e feliz nos salões. Não era não?
R- E quantas delas eram felizes nos salões? E quantas delas passaram o que passaram dentro de quatro paredes? Se ela estivesse viva hoje, ela poderia ir ali e contar. Nada não? P/1- Com certeza.
R- Com certeza. Elas e outras.
P/1- E o que que representou, o que que significou para você a lei ter o seu nome?
R- Foi muita honra, porque foi fruto de uma luta. Foi uma luta minha, mas não foi uma luta sozinha. Eu fui apoiada nessa luta. Então, foi uma homenagem que foi me dado e eu sinto muito orgulho.
P/1- Você sabe como foi o momento da decisão?
R- Eu fiquei surpresa demais, porque disseram que ia... que inaugurar uma lei agora, porque foi o trabalho das mulheres, e o meu caso que entrou na história e tudo mais, e quando eu cheguei em Brasília, a jornalista perguntou, como é que a senhora se sente dando nome a uma lei? Eu estou dando nome a uma lei? Surpresa! Entendeu?
P/1- Penha, a primeira vez que eu vim aqui, A primeira coisa que você me falou, que eu lembro, foi um pouco sobre estratégias para fazerem mulheres denunciarem de alguma forma.
R- Fazer o quê? Estratégia.
P/1- Estratégias para as mulheres denunciarem os postos de saúde. Daí eu estava lembrando disso, porque parece que você sente uma responsabilidade, de uma certa forma, por isso.
R- Sim, eu luto muito por isso, muito por isso.
R- E a gente tem, pelo menos eu tenho um apoio muito grande através desse cordelista, né? O Tião Simpatia, porque ele tá levando isso pra sala de aula. Ele já levou esse cordel pra fora do país, línguas que falam espanhol. Fala em português, mas a pessoa entende, né? Tá falando espanhol.
R- E, uma vez, eu fiquei muito emocionada, porque não são poucas crianças que me reconhecem, são muitas. Quando eu vou em um shopping, sempre tem uma criança. Principalmente quando é época assim... O que mais criança vai? Eu fui em um evento do livro, Bienal, né? Tinha tantas crianças me conhecendo, né?
R- Mais uma vez, eu tinha ido para o Geriatra… e eu ainda estava sem proteção, eu estava sentada, eu me sentei assim numa quinazinha do consultório, aguardando a minha vez.
R- Quando a porta abriu e chamaram o meu nome em alto, aí eu entrei. Quando eu saí, aí tinha um menininho deste tamanho que estava ali também esperando ser atendido por algum médico. Não disse mamãe, é ela, eu já vi ela lá no colégio.
R- Mas ele estava entusiasmado, eu acho que nesse dia ele chegou no colégio, não teve nem aula dele falar. Aí a mãe dele disse, mãe, mãe, eu posso tirar uma foto? Aí eu disse, pode, entendeu? Aí ele tirou todo o filho do meu lado, depois os pais dele também tiraram comigo. .
P/1- O que representa para você?
R- Representa a conscientização, né? É você conscientizar para evitar, né? Porque no momento que uma criança dessa, ela é educada, ela é conscientizada de respeitar o outro, ela cresce naquele, ela aprende, né?
R- Por exemplo, nenhuma criança nasce machista, racista, nem homofóbica.
R- Se ela vive numa comunidade onde isso existe, qual é o aprendizado que ela vai levar pra sua vida lá fora?
R- Quando ela estiver numa outra, num trabalho, ela vai ser racista, né? Ela pode ser um assediador, Então, isso aí tem que ser a base. Isso e todas as coisas civilizatórias, tudo tem que passar pela educação. Você não consegue entender matemática, coisa difícil é física, química, nossa senhora. Por que você não aprende a ser um ser melhor? Não é? É tão simples.
R- O bebê não aprende a segurar o copinho para beber água? Quem não aprende a respeitar uma mulher? Tudo no mundo, a gente aprende.
R- Mas quando a gente aprende, a partir da educação, é mais forte, porque você já tem consciência do que é certo e do que é errado. E quando você não tem essa consciência, você vai por outro caminho que é errado, sem ter a consciência de que é errado.
P/1- Você estava contando agora dessa história do menininho, e eu fiquei pensando se tem alguma história marcante de algum evento que você participou. Deve ter várias, mas uma que você queira contar.
R- Não, porque todas sempre têm aquelas conversas de pé de ouvido. Quando terminam os eventos, eu trabalho em tal local… Eu trabalho na polícia, na polícia também existe machismo. Eu trabalho no tribunal, eu sei que existe machismo. … Machismo no tribunal,a gente já sabe.
R- Mas em quais locais existe machismo? Em todos. Aos poucos, as mulheres estão denunciando que onde ela trabalha também existe machismo. E não só ficando caladas, né? Porque só assim a gente sabe.
P/1- Penha, e o que é importante pra você hoje?
R- Olha, é importante eu saber que eu sou amparada pelo Estado, entendeu? Que ele me deu esse conforto de poder continuar com o meu compromisso de que as mulheres tenham uma vida sem violência. Então, eu participo muito de eventos em escolas, inaugurando Prateleiras Maria da Penha, Vamos ter um projeto agora que, se Deus quiser, vai ser abraçado no próximo ano. Tudo relacionado com a educação.
P/1- Eu queria que você contasse um pouco do Instituto, como ele surgiu, pra que ele serve?
R- O Instituto é o seguinte, quando a lei foi sancionada, eu fazia parte de uma associação chamada APAV. Essa associação foi no tempo dos crimes de pistolagem que existiam muito aqui, como no Brasil todo. É tanto que foi criada a lei do porte de arma.
R- Então, eu conheci... Foi nessa época que foram criadas aquelas portas giratórias dos bancos. Foi a partir dessa época, e a PAB fazia parte dessa coisa. E eu trabalhava na PAB exatamente a causa, a minha causa.
R- Eu não tinha instituto, eu trabalhava na PAB. A PAV abraçou a minha causa da violência contra a mulher. Mas o meu primeiro trabalho que eu fiz dentro da PAV foi porque eu fui convidada para a PAV, no momento em que nós tínhamos uma menina que ela perdeu a filha num tiro de um... numa briga de trânsito.
R- A filha dela a Roneide, minha amiga, ela estudava balé no Rio de Janeiro, onde a mãe dela tinha familiares, e ela veio passar férias aqui. E no dia que ela chegou, ela saiu com os amigos para ir dar uma volta na beira-mar e se divertir com os amigos dela.
R- Nessa viagem, houve um incidente de trânsito. E a pessoa que estava no carro, sem ser o dela, começou a implicar, a querer ter briga.
R- E eles se saíram e fugiram no canto.
R- Saíram, mas ele foi perseguido. E quando chegou lá, quem estava dirigindo o carro era o filho, eu não me lembro o nome dele, era o filho de um desembargador do tribunal.
R- E ele puxou o revólver e deu um tiro no carro onde estavam os jovens. E a filha dela levou um tiro na cabeça e morreu nessa noite.
R- E foi um momento muito triste porque ela recebeu uma ligação do hospital, do HGF e do JF, de que a filha dela tinha sido acidentada no trânsito e que estava ali aguardando que a mãe fosse visitar, que os pais fossem visitar.
R- E quando ela chegou lá, ela já sabia que a menina já tinha tido morte encefálica, e ela doou todos os órgãos da filha, entendeu?
R- Tudo, ela doou tudo. E a partir dela, começou a luta dela por justiça.
R- Que o esquema seguiu ao meu, quer dizer, eu segui o esquema dela, porque o dela foi primeiro do que o meu caso, entendeu?
R- Não, o meu caso já estava em andamento.
R- Aí, foi um parênteses que eu dei, mas é o que eu estava te contando, que eu ia te contar, porque você fez uma pergunta e puxou a outra. Aí, na PAVE, eu fui convidada para fazer parte do Movimento das Pessoas com Deficiência, porque eu tinha ido para o SARA, e lá eu conheci o esquema da coisa, e quando... O Sara foi inaugurado aqui.
R- Quando eu vim de Brasília não tinha o SARA ainda aqui, quando foi inaugurado eu voltei a visitar o Sara, e fiz um tratamento no Sara daqui.
R- E o pessoal do movimento das pessoas com deficiência estavam trabalhando muito a questão da acessibilidade na cidade, inclusive para que os ônibus fossem acessíveis, porque muitas mães tinham que subir o ônibus, os batentes do ônibus, levar a criança com deficiência, não tinha um conforto.
R- E essa luta começou nessa época junto com a minha.
R- A minha mais para trás e a dela mais para frente. Eu fiz parte desse movimento.
R- É tanto que nessa época eu consegui, como eu já estava entrosada na APAB, eu consegui que a APAB solicitasse que as pessoas com lesão medular, para não perder o Rin, obtivesse do Estado os insumos necessários para ela fazer o cateterismo vesical. O que é isso? Toda pessoa que tem uma lesão medular, pode perder a função renal se não tiver certos cuidados.
R- E o cuidado, o certo é cuidado você retirar a urina da bexiga num prazo de 4 em 4 horas, de 5 em 5 horas, para evitar que a urina volte para o rim e faça a lesão medular.
R- Então, você vai perder o rim se não fizer o cateterismo.
R- E você só vai conseguir sobreviver se você for fazer aquela hemodiálise ou fazer o transplante renal.
R- Quer dizer, uma coisa... tão séria que podia ser sanada com a doação da sonda, a doação do anestésico, a doação das luzes cirúrgicas, que a gente faz uso desse material para fazer o cateterismo.
R- Então, nessa época, eu entrei, a PAV, através de mim, entrei em contato com a Assembleia Legislativa, e nós demos entrada nesse pedido através da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia, que encaminhou essa petição nossa da APV, para a Procuradoria de Saúde do Ceará, entendeu?
R- Então, nós participamos, a Secretaria de Saúde entendeu, nos chamou para audiência, e nós participamos de muitas audiências junto com as pessoas que estavam envolvidas, que eram pacientes do SARA. Então, tinha umas 10 pessoas que iam para essas audiências com a Procuradora da Saúde, que era até a Dra. Isabel Porco.
R- E depois disso, a doutora Isabel Porto fez uma convocação com o sistema de saúde e foi aprovado.
R- Então, ainda hoje eu recebo material do cateterismo.
R- Você imagina quantas pessoas deixaram de perder o rim, não é? Então, depois de algum tempo, eu já tinha conseguido isso, a gente já tinha conseguido isso, né, pela PAVE. Foi quando eu deixei a PAV e no momento em que a lei foi sancionada. Aí eu não tinha mais condição de acompanhar o trabalho da PAVE, entendeu? O trabalho das pessoas com deficiência.
R- Aí eu passei já a trabalhar a questão da violência contra a mulher.
R- Mas depois de um ano que a lei foi sancionada, pelo seguinte, porque eu estava em casa, acho que uns seis meses depois eu estava em casa, eu não sei a data exatamente.
R- Aí me ligou uma professora de Pernambuco, a professora Regina Célia. Bem, eu sou professora, sou isso ou aquilo.
R- Minha amada, eu quero lhe dar os parabéns.
R- Nós precisamos trabalhar juntas para a gente conseguir criar um instituto que onde a gente possa criar políticas, possa trabalhar as políticas públicas no enfrentamento. Essa mulher é inteligentíssima. Aí, como é que eu faço para ir na sua cidade e tudo mais.
R- Aí a gente marcou o encontro, eu já trabalhava com o Tião, porque nesse tempo que a lei foi sancionada, o Tião foi quem primeiro trabalhou a lei através do Cordel, né.
R- Então, a lei foi sancionada em agosto de 2006.
R- Em 2007, a gente estava nos carnavais do bairro de Hélere, que convidaram a gente e o Tião tocando lá e cantando, viu? Tinha música, tinha tudo.
R- Aí eu disse, tá, pois vamos ver, eu não sei como é que se trata isso, mas vocês sabem? Não, eu tenho experiência nisso, naquilo, né, porque ela é muito inteligente. Aí veio um encontro aqui em Fortaleza, né, eu chamei a menina da Conceição, que já era voluntária, ela ia lá em casa umas três vezes por semana para a semana para a gente atender o que chegava, a demanda que chegava para o carro da lei ter sido sancionada.
R- E ela fez o projeto do instituto e o instituto foi criado em 2009. A lei foi em 2006 e o Instituto em 2009. Foi o tempo da tramitação de se trabalhar.
R- Então, nesse projeto, no instituto, ele trabalha a questão da… do trabalho das empresas, que quem faz é o responsável.
R- Aí o Instituto tem vários projetos.
R- Nós temos o projeto que é feito pelo grupo da Conceição de Maria, que é a nossa superintendente do Instituto, feito com a advogada, com a Rose Marques, que houve inclusive, elas que capacitou a Engie, elas que estiveram lá. Depois eu fui convidada para ir pela Conceição.
R- Aí nós temos a professora Regina Célia, que trabalha com o projeto... O meu projeto...
R- Isso aqui é Mirins, mas vocês podem ver isso, o projeto do Instituto na coisa.
R- Quando a lei foi sancionada, uma escola que a Regina fazia parte, tinha uma amiga que fazia parte, era de crianças, assim, de 9, 10 anos. Então, ela pegou o cordel e essas crianças decoraram o cordel.
R- E começaram a apresentar esse cordel nos eventos. Então, era assim, ficava a fila de cinco crianças, cada um dizia uma estrofe, depois voltava para a primeira, entendeu? Aí diziam a Lei Maria da Penha e o cordel todinho.
R- E foi um sucesso, e ainda hoje existe, entendeu?
R- Esse projeto…. Tem as Penhas Mirins, que também é um projeto que é feito na Universidade de Pernambuco, não por essa professora, mas pela professora Anabel Pessoa.
R- Tem o projeto dos Homens Agressores, os grupos de reflexão, que a Regina também tem parceria nesse trabalho aí, com outros grupos, entendeu? Ela trabalha também essa questão. A Regina trabalha, agora nós vamos implementar a prateleira Maria da Penha, que até agora foi implementada, mas agora nós vamos ter um apoio muito bom para implementar com mais propriedade, entendeu? Já foram implementadas muitas prateleiras Maria da Penha aqui do Ceará em escolas.
R- E o Tião leva esse projeto para onde ele viaja, inclusive para o exterior.
R- Lá em Piauí, várias escolas públicas foram trabalhadas com o projeto ´´ Maria da Penha vai às escolas´´ no Piauí, logo no começo, não agora, 70% das escolas lá foram sensibilizadas com o Cordel.
R- Então, eu acho que só esses projetos alavancam muito a questão da informação para as pessoas.
R- Tem o Pamitê.
R- O Pamitê é um podcast que é feito no Japão, com um amigo da professora Regina. Ela leva esse tema também através do Pamitê. Então, eu acho que... Eu posso ter aberto a chave, né? Mas eles são os que fazem, viu? Eles têm a capacidade, né? Porque eu tenho a minha experiência de vida, mas eles têm essa capacidade dele como uma pessoa da... Como é que se diz? Como professores, entendeu? Como advogados. comunicação.
R- Pois é, eles levam esse trabalho para os grupos, entendeu? É muito importante, é muito importante. Porque o Brasil é grande demais. Se o Brasil fosse do tamanho do Ceará, a gente ia chegar de muito canto. Mas é isso mesmo, por aí tem muita coisa boa que é feita.
P/1- Penha , e você tem sonhos?
R- O meu sonho já, em parte, foi conquistado.
R- Primeiro com a sanção da lei, depois com o envolvimento de todas as pessoas que trabalham a causa, e são muitas.
R- As vezes, aquela pessoa do interior, naquela salinha, consegue reunir uma vez por mês as mulheres para conscientizar. Isso a gente vê muito. As palestras para as escolas que eu dei, muitas, entendeu? Muitos vídeos que eu passo quando não dá, porque não dá para eu ir em todo canto, então eu me transmito através de vídeo, muitos vídeos.
R- E uma conquista muito grande que eu tive agora, no dia 10 de dezembro, o Dia Internacional dos Direitos Humanos.
R- Eu recebi publicamente, no evento do MESECVI internacional que foi feito aqui, eu recebi um pedido de desculpa do Tribunal de Justiça do Ceará e do Ministério Público, pela omissão do que ocorreu durante esse fake news e durante toda a minha história de vida.
R- Porque primeiro foi o Tribunal de Justiça que anulou um julgamento, que não era para ser anulado.
R- Porque as provas estavam ali, ele foi condenado por seis votos a um.
R- Segundo, os movimentos de mulheres, Segil e Cladem, que fizeram a denúncia. Eu assinei essa denúncia que elas fizeram, entendeu? Participei dessa denúncia do Brasil na OEA, que resultou na criação da lei. Segundo ponto.
R- Terceiro ponto, o apoio que eu tive no Ministério das Mulheres para me dar proteção.
R- Quarto ponto, o trabalho que o Ministério Público fez agora no último ano, onde o Brasil Paralelas saiu do ar, e que o Ministério disse que realmente eles foram, como é que se diz..
P/1- Estão fazendo uma campanha de formação.
R- Exatamente, né? E a fala do presidente do Tribunal de Justiça pedindo desculpa, minha gente. Então, eu acho que agora eu tenho que pensar só no que a gente vai, como é que se diz, aumentar a assistência às comunidades, entendeu? Que é o que o Instituto faz. assistência na questão da educação, na questão...
R- Porque eu ganhei tudo, já ganhei o jogo.
P/1- Qual é o legado que você deixa para o futuro?
R -A minha história está documentada, vocês documentando, e onde as pessoas têm interesse, estão documentadas a minha história, então... Para que? Documentando para conscientizar as mulheres que elas têm direitos, que elas têm que lutar por esses direitos e que o Estado seja comprometido com todos os municípios do Brasil para que as mulheres consigam acessar os seus direitos, por menor que seja.
R- Todo município tem que ter direito à conscientização, a conscientizar as mulheres sobre os seus direitos, porque até numa unidade de saúde essa mulher pode ser conscientizada.
R- Porque se essa mulher é conscientizada dentro da unidade de saúde, ela pode ser conduzida para uma macro região onde existem as outras políticas públicas, como a casa-abriga, delegacia da mulher, sede de referência da mulher, e ela possa ser capacitada para uma atividade de trabalho. Mas assim, se isso for feito nos pequenos municípios, meu filho, os homens vão querer aprender a respeitar as mulheres, porque a lei vai começar a funcionar de verdade e as mulheres vão deixar de morrer.
R- Vai chegar em todo mundo.
P/1-Bem, tem alguma pergunta que eu não fiz pra você sobre a história?
R- Impossível. Impossível.
R- Você já... Você já destrinchou tudo.
R- Até o que eu não queria dizer, eu já disse.
P/1- Penha , e tem alguma mensagem que você queira deixar no final dessa entrevista?
R- Não, eu queria deixar que eu estou muito feliz, né, de estar dando esse encontro pra você e pra esse trabalho, né, do… O Museu da Pessoa.
R- O Museu da Pessoa, né? Que esse trabalho chegue no Museu da Pessoa, que todas as pessoas que chegarem ao museu tomem conhecimento desse encontro nosso aqui, que foi muito exitoso, né? Eu abri meu coração, né?
R- E que vocês tirem as coisas que podem prejudicar, porque eu falei muito dos intocáveis do poder judiciário. Mas já passou, já passou, né? Já foi outra época. Eu sei que agora também tem. E como tem? Continua, mas pelo menos nesse caso aí.
P/1- E como foi contar essa história hoje para o museu?
R- Minha filha sempre… é uma história que... que merece ser contada, eu acho, porque são tantos pormenores e muita gente não conhece o que vocês ouviram, entendeu?
R- Ontem mesmo, semana passada, nossa turma que vai fazer 60 anos de formada, tinha muita gente, porque tem uns que moram em outros estados, alguns vieram, outros não, mas a gente agora, no fim do ano, estamos fazendo grupo para trazer todo mundo.
R- Então, tinha coisas do que eu contei para você, que eu estou acostumada a contar, que ela não sabia. Por quê? Porque não convive muito comigo. Não estão perguntando, não sabem nem o que aconteceu, né?
P/1-Muito obrigada, Penha.
R- De nada, meu amor.
P/1- Eu agradeço muito, muito, muito mesmo.
R- Tá bom.
R- E quando é que eu vou ver isso!
Pode fechar.
Obrigado.
( Fim da Entrevista)
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