P/1 Bom, pra começar, o seu nome completo, data e local de nascimento. R Eu sou Maria da Glória Figueiredo Souza. Eu nasci em Neves, perto de Belo Horizonte, Minas Gerais, em 24/11/1940. P/1 Qual é a sua atividade? R Olha, eu fiz Ciências Sociais na USP, em São Paulo, mas eu estava lá no Ministério da Fazenda e continuei trabalhando. Praticamente não exerci a profissão, assim, profissionalmente. Depois que eu me mudei pro Rio, aí eu fiz estilismo, escola de moda. E quando eu me apresentei no Ministério, aí que eu comecei a trabalhar como voluntária nessa área, que eu comecei a aplicar meus conhecimentos de sociologia em moda. Porque eu sou voluntária da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida, que é uma organização não-governamental que tem no Brasil todo e tinha como animador o Betinho, que na verdade é assim, meu irmão, o Betinho e o Henfil. E o Betinho era assim uma pessoa sensacional, do ponto de vista de que, pra ele, realmente, todo mundo era irmão dele. Então quando ele começou, ele esteve no exílio muito tempo, quando ele voltou, fundou o IBASE e depois da campanha pela ética na política, aí eles fizeram o Ação da Cidadania. O que é? É assim, é você fazer a sua parte. Por exemplo, no Rio deve ter umas 700 favelas mais ou menos, então tem mais ou menos 700 comitês. No início tinha nos bairros mais chiques, e tal, agora quase não tem, tem mais nas próprias comunidades. E a idéia qual é? Ele contava uma história que não é dele mas que ilustra bem, é assim: tinha um incêndio na floresta, então um beija-flor ia no rio e pegava uma gotinha e jogava, o elefante viu aquilo e falou: "Vem cá, você acha que você vai apagar o fogo?" Ele falou: "Não, eu tô fazendo a minha parte." Então a idéia é assim, é cada um fazer a sua parte, né? Aí eu sou do comitê do Flamengo, lá no Rio, e o que a gente faz? Perto da gente, a gente tenta ver como pode ajudar as pessoas. Não só no prédio, mas lá tem...
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P/1 Bom, pra começar, o seu nome completo, data e local de nascimento. R Eu sou Maria da Glória Figueiredo Souza. Eu nasci em Neves, perto de Belo Horizonte, Minas Gerais, em 24/11/1940. P/1 Qual é a sua atividade? R Olha, eu fiz Ciências Sociais na USP, em São Paulo, mas eu estava lá no Ministério da Fazenda e continuei trabalhando. Praticamente não exerci a profissão, assim, profissionalmente. Depois que eu me mudei pro Rio, aí eu fiz estilismo, escola de moda. E quando eu me apresentei no Ministério, aí que eu comecei a trabalhar como voluntária nessa área, que eu comecei a aplicar meus conhecimentos de sociologia em moda. Porque eu sou voluntária da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida, que é uma organização não-governamental que tem no Brasil todo e tinha como animador o Betinho, que na verdade é assim, meu irmão, o Betinho e o Henfil. E o Betinho era assim uma pessoa sensacional, do ponto de vista de que, pra ele, realmente, todo mundo era irmão dele. Então quando ele começou, ele esteve no exílio muito tempo, quando ele voltou, fundou o IBASE e depois da campanha pela ética na política, aí eles fizeram o Ação da Cidadania. O que é? É assim, é você fazer a sua parte. Por exemplo, no Rio deve ter umas 700 favelas mais ou menos, então tem mais ou menos 700 comitês. No início tinha nos bairros mais chiques, e tal, agora quase não tem, tem mais nas próprias comunidades. E a idéia qual é? Ele contava uma história que não é dele mas que ilustra bem, é assim: tinha um incêndio na floresta, então um beija-flor ia no rio e pegava uma gotinha e jogava, o elefante viu aquilo e falou: "Vem cá, você acha que você vai apagar o fogo?" Ele falou: "Não, eu tô fazendo a minha parte." Então a idéia é assim, é cada um fazer a sua parte, né? Aí eu sou do comitê do Flamengo, lá no Rio, e o que a gente faz? Perto da gente, a gente tenta ver como pode ajudar as pessoas. Não só no prédio, mas lá tem uma comunidade. A comunidade tem vários braços em que a gente tem um trabalho lá. Aí você vê o que que o pessoal precisa? Ah, precisa de tudo, mas a gente faz o que a gente pode. Então a gente formou uma Associação de Mulheres Trabalhadoras. Porque é assim, a Ação da Cidadania faz o Natal Sem Fome no Rio, que é muito famoso, e tal, e é imenso.Mas a idéia é pra chamar atenção da fome, que existe fome. Não é que a gente acha que vai... Pelo menos no natal, o pessoal ter um natal legal. Mas durante o ano a gente tenta fazer ações que venham a ajudar a criar trabalho e renda, que o grande problema é o desemprego. Então esse grupo de senhoras, a gente faz uma pequena confecção, tem aula de crochê, tricô, às vezes faz roupas, que o grande problema é a venda, sabe? Porque não há como vender. Porque a classe média está ganhando mal, na própria comunidade é difícil, isso a gente até está querendo ver se conseguia ter uma feira permanente de artesanato. Que algumas capitais têm, como Recife, acho que Fortaleza também tem. E no Rio não tem nada assim, tem vários prédios abandonados, no estado, no município, e nada, mas é muito difícil, tá? P/1 E você tem idéia de quantos voluntários? R Uhmm, muita gente, porque, você vê, são 700 comitês, né, cada comitê tem 3 coordenadores, então já dá 2100, fora as pessoas, esses coordenadores desenvolvem atividades independentes; por exemplo, no meu comitê eu faço curso de informática, tem curso de costura, de crochê, você envolve o pessoal na medida do possível. P/1 E atua em todo Brasil, né? R Agora no Rio é mais forte, o trabalho. P/1 Ele iniciou no Rio? R É, iniciou no Rio porque Betinho morava lá. E o legal dele, assim, porque é meu irmão, mas é um cara que realmente achava que todo mundo era irmão dele, ele agia assim. Então eu às vezes ia lá e entrava na sala dele sem avisar muito e ele falava: "Você sai, porque você é minha irmã, mas todo mundo é meu irmão. Você não pode tirar vantagem disso." Eu achava assim, eu não gostava, mas é super legal isso. Quer dizer, na prática, ele achava isso. Ele achava assim, a gente acha também, que não custa nada, você pensar. As nossas atividades são muito lúdicas. Por exemplo, a gente faz muito desfile com as roupas de artesanato, pra mostrar, o marketing, mas também porque é uma coisa alegre. Tem aulas pra modelos, a gente treina o pessoal da própria comunidade, a gente mistura senhoras, adolescentes, e a gente treina eles pra desfilar. Então você eleva a auto-estima da turma, né, porque todo mundo sonha em ser modelo. Então uma senhora de 50 anos via lá, é modelo um dia, entendeu? Isso te dá, você abre o horizonte pra ela. Eu levei duas senhoras no Fashion Rio, pra ver. É dificílimo entrar com elas, porque a moda é muito elistista, ta? Mas eu consegui entrar e elas assim: "Pô, é assim?" Porque isso é um mundo que é proibido pra eles, sabe? Então você consegue, isso é muito legal e também é gratificante pra gente. Você vê como as pessoas crescem. No início, quando a gente começou a fazer as reuniões, só tinha reunião quando a gente ia. Mas aí a gente fez cursos pra cooperativismo, eu também faço parte do Fórum de Cooperativismo Popular, economia solidária, e você vê que elas crescem; atualmente elas fazem reuniões sozinhas. Elas falam: "Ah, não, não precisa não, a gente fala depois o que rolou." Entendeu? Isso é muito bacana. P/1 E dentro do Ação, qual seria a maior dificuldade hoje pra que ele ampliasse ainda mais. R O nosso trabalho? P/1 O seu trabalho, isso. R Olha, a classe média está muito empobrecida, esse fato de não ter uma feira permanente de venda de artesanato. O Rio, que é uma cidade turística, não há uma feira como tem na Bahia, né, lá em Salvador. Não há um lugar que você vá, que você ache o artesanato carioca, não tem. E você não consegue muito sensibilizar os políticos, não, porque eles estão nas campanhas e é complicado. P/1 É complicado. E o que a motivou a participar do Fórum Cultural? R Ah, olha, porque eu acho, eu participo do Fórum Social Mundial, que é uma experiência incrível, né, cento e tantas mil pessoas, e você vê essa troca de experiências da sociedade civil. E eu acho que cultura é importantíssimo, tudo é cultura, moda é cultura. Esse trabalho de artesanato que a gente faz é cultura, não é? E você vê que, acho que isso tudo enriquece muito a gente e te abre novos caminhos, você tem novas visões, e também porque a cultura é mundial. P/1 Com certeza. R A gente tem que preservar a da gente, acho que a gente não pode se anular. Tanto que o nossos filhos saem com moda artesanal brasileira. Mas eu sei a tendência do mundo, até pra eu atualizar meu pessoal. Elas fazem roupas dentro da tendência, mas coisas nossas. Aliás, isso é que dá o diferencial à moda. Porque você viaja, a gente faz viagem pra ver tendência na escola de moda, né? Você vai, Nova Iorque, Londres, Paris, a moda é igual, é como se você, no Rio também, São Paulo, a moda é igualzinha. O que que dá o diferencial? É o artesanato, é a coisa local, então a gente tem fuxico, a gente tem patchwork, que é retalho, e a gente aproveita os retalhos, a gente ganha de confecções, e elas fazem coisas lindíssimas, são maravilhosas, você nem acredita. P/1 Que maravilha. R Tem jornal da Ação da Cidadania, que agora é moradia para quem precisa, tá? Então esse aqui é de Laranjeiras, que eu também sou da Associação de Moradores. Agora, esse aqui é mais dirigido mesmo pra comunitário, tem muito universitário, muito profissional liberal que está fazendo sua parte. P/1 Então o voluntariado desses... R Da Ação. P/1 Isso, ele é composto, a maioria das pessoas são, qual a origem? R É legal isso. P/1 São universitários, são... R Tem artista, já teve comitê de artistas, com vários artistas, Maitê Proença, Chico Buarque, Caetano Veloso, e tal, mas agora o forte dos comitês mesmo é nas comunidades. P/1 As próprias comunidades. R Elas, porque o interesse delas, as senhoras, é que estão. Algumas são donas-de-casa, algumas até trabalham, e elas é que tem interesse e que levam à frente. Mais mulher, tá, não, digamos que 60% mulher, 40% homem, né? P/1 Então hoje o grosso mesmo dos voluntários são advindos da própria comunidade? Da própria comunidade. R Da própria comunidade. Tem, por exemplo, a coordenação geral, que é o Daniel, que é filho do Betinho, o Maurício Andrade, e outro fulano que eu não sei direito. Tem um encontro uma vez por mês, que vai ser sábado agora, com todos os comitês. É uma reunião com 500, 700 pessoas. E é incrível, assim, porque o pessoal já tá lá há mais ou menos há 10 anos, e é a coisa mais democrática que tem. Consegue ter uma reunião produtiva de 3 horas com 500, 700 pessoas. P/1 Que bom. R A gente agora está fazendo o cadastro dos desempregados, dando nome aos desempregados, sabe, pra mostrar pro governo e pros empresários. P/1 Pra tentar transformar essa situação. R Claro. P/1 Você conhece algum trabalho ligado á memória que você considere importante , interessante? R Olha, eu conheço muito pouco. Eu acho que esse trabalho seu é importantíssimo. Muito importante mesmo. Porque o pessoal se perde, a não ser museu, que também se perde, os museus às vezes são uma cópia dos americanos, de museu europeu, se perde, não há uma documentação, o pessoal não tem muita memória. Isso é ruim, porque as experiências boas você pode, não é que você vai copiar, mas é como se você fosse inventar a roda. A roda já foi inventada por muita gente, né? Eu acho isso muito legal, muito legal, mesmo. P/1 Maria da Glória, pra gente encerrar, você poderia contar pra gente algum evento marcante que tenha acontecido com você? Algum fato importante da sua vida, que você considere de grande importância? R Olha, eu considero de grande importância, assim, eu ter entrado pra Ação da Cidadania, sabe? Que é uma coisa democrática e que eu posso ajudar as pessoas sem pedir licença a ninguém. Lógico, dentro duma ética, e tal, e que você envolve muita gente, a criatividade tá assim, solta, né? E também o nascimento da minha filha Tatiana, tá, foi super legal, que eu acho o filho é uma realização pessoal intransferível, sabe, você tem que ter pra ver como é e, um paraíso também não é, mas acho muito importante. E a Ação da Cidadania te propicia, te dá elementos pra você ajudar as pessoas sendo você mesmo, e dentro dessa liberdade que se tem, entendeu? Eu não vou pedir licença a ninguém, isso o Betinho fazia questão de frisar. Não há um comitê central, há um comitê facilitador, eu comunico o que vou fazer.Tudo dentro duma ética, lógico, mas isso é muito importante. A pessoa se sentir, e a gente mostra às pessoas do nosso grupo que elas são capazes; por exemplo, essas senhoras esperavam a gente pra fazer reunião, agora elas falam: "Não, nós sabemos." Mesmo o desfile, elas falaram: "Não, a gente já sabe." Entendeu? Faz. Então isso é muito legal. E vocês estão de parabéns. P/1 Maria da Glória, muito obrigado pelo seu depoimento. R Obrigado a vocês. P/1 E parabéns por todo seu trabalho. R Tá, obrigada. O trabalho é nosso. P/1 Pelo nosso trabalho. R É.
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