P - Boa tarde, eu queria que você dissesse o seu nome, data e local de nascimento. R - Maria Cecília Figueira de Melo, nasci em São Paulo, 15 de maio de 48. P - Cecília, me diz uma coisa, qual é a sua atividade? R - Eu atualmente sou representante da revista Caros Amigos, aliás, eu andei brincando com muita gente aí, é a melhor revista do Brasil. P - Me diz uma coisa, como é que você começou a trabalhar com a revista Caros Amigos? R - Eu tenho uma identidade muito grande ideológica com a revista, é uma revista da impressa independente, que trabalha nela, escreve direto, Frei Betto, Emir Sader, César Benjamim, Marilene Felinto, João Stedile, o Ferréz, pessoas que trazem sempre uma análise a respeito do Brasil, dos problemas da nossa conjuntura, quer dizer, não é só do Brasil, mas fundamentalmente brasileira, numa análise não alinhada ao poder econômico; eu sinto falta, eu espero ansiosamente a revista, para poder ter uma outra leitura da realidade, diferente da grande mídia, que eu acho, às vezes, muitas, na grande maioria das vezes, muito tendenciosa. Daí tinha muita identidade, e tem um amigo meu que trabalha na revista e me convidou, me apresentou e tal, então eu fui para lá. P - E você veio ao fórum exatamente por causa da revista, ou foi por curiosidade? R - Eu vi ao fórum fazer divulgação da revista, foi uma coisa bem batalhada, porque a revista trás muita coisa em relação à cultura e o cotidiano da vida brasileira, e a gente queria mesmo garantir, como ela não... É uma revista que já tem sete anos, e como ela não é atrelada ao poder econômico, muito pouca gente conhece, então eu acho que esse momento era o momento privilegiado para a gente pode estar divulgando a revista, estar lendo por mais diferentes rincões do país, a oportunidade de ter uma outra leitura. P - Há quanto tempo você trabalha com a revista? R - Acho que eu estou na revista há quatro anos, três, quatro anos. P - E...
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P - Boa tarde, eu queria que você dissesse o seu nome, data e local de nascimento. R - Maria Cecília Figueira de Melo, nasci em São Paulo, 15 de maio de 48. P - Cecília, me diz uma coisa, qual é a sua atividade? R - Eu atualmente sou representante da revista Caros Amigos, aliás, eu andei brincando com muita gente aí, é a melhor revista do Brasil. P - Me diz uma coisa, como é que você começou a trabalhar com a revista Caros Amigos? R - Eu tenho uma identidade muito grande ideológica com a revista, é uma revista da impressa independente, que trabalha nela, escreve direto, Frei Betto, Emir Sader, César Benjamim, Marilene Felinto, João Stedile, o Ferréz, pessoas que trazem sempre uma análise a respeito do Brasil, dos problemas da nossa conjuntura, quer dizer, não é só do Brasil, mas fundamentalmente brasileira, numa análise não alinhada ao poder econômico; eu sinto falta, eu espero ansiosamente a revista, para poder ter uma outra leitura da realidade, diferente da grande mídia, que eu acho, às vezes, muitas, na grande maioria das vezes, muito tendenciosa. Daí tinha muita identidade, e tem um amigo meu que trabalha na revista e me convidou, me apresentou e tal, então eu fui para lá. P - E você veio ao fórum exatamente por causa da revista, ou foi por curiosidade? R - Eu vi ao fórum fazer divulgação da revista, foi uma coisa bem batalhada, porque a revista trás muita coisa em relação à cultura e o cotidiano da vida brasileira, e a gente queria mesmo garantir, como ela não... É uma revista que já tem sete anos, e como ela não é atrelada ao poder econômico, muito pouca gente conhece, então eu acho que esse momento era o momento privilegiado para a gente pode estar divulgando a revista, estar lendo por mais diferentes rincões do país, a oportunidade de ter uma outra leitura. P - Há quanto tempo você trabalha com a revista? R - Acho que eu estou na revista há quatro anos, três, quatro anos. P - E antes você fazia o quê? R - Eu sou pedagoga, trabalhei na Prefeitura de São Paulo, na Secretaria de Bem Estar Social, ajudei a montar a rede de creches aqui em São Paulo, recém-formada eu fui idealizadora de um programa com crianças e adolescentes que hoje é uma rede, ela já chamou Osem, depois chamou Centro de Juventude, hoje eu não sei como é que chama, mas é uma rede muito grande, e eu recém-formada que idealizei junto com uma equipe esse programa, que é um trabalho com crianças e adolescentes da periferia, no período que eles não estavam na escola, é uma programação sócio-educativa para tentar resgatar um pouco da cidadania, do direito a lazer e da vida. Depois eu trabalhei também na Secretaria de Planejamento, trabalhei na Saúde, e fiz mestrado em Ciências Sociais, na Saúde eu acabei me especializado na área de aids, em planejamento e saúde, e em São Jose do Rio Preto ajudei a montar as programações de Aids, e acabei fazendo minha tese de mestrado sobre mulher e aids em São Jose do Rio Preto. P - E nessa sua trajetória toda, você chegou a conhecer algum trabalho de memória, ligado a algumas dessas secretarias, algum trabalho de memória que você achou interessante? R - Bom, eu acho que a questão da memória é fundamental, na minha tese de mestrado eu trabalhei com depoimentos, história de vida das mulheres, e foram estudos de caso e tal, e uma coisa que eu senti, uma coisa fundamental, foi que assim, as mulheres, quando eu perguntava como era a vida delas, como era a infância, daí é que eu sentia que a história e o depoimento adquiria de fato identidade e conteúdo, foi quando elas realmente se reportavam às experiências mais significativas da vida. P - Pegando esse seu gancho, queria que você contasse uma coisa, um fato marcante da sua história de vida. R - Eu acho que teve muita coisa marcante, eu sou proveniente, embora paulistana, eu sou de uma família atípica, porque meu pai era médico e ele e minha mãe fizeram a opção de ter 11 filhos, então embora naquela época as famílias fosse numerosas, nenhuma era tão numerosa quanto a nossa, então a gente tem muita história marcante de uma família ampla, grande, numerosa, tem muita coisa, mas tem talvez assim duas coisas muito significativas que agora me ocorrem; uma que foi, meu pai sempre foi uma pessoa, apesar de ter vários filhos, de ser médico, ele sempre foi uma pessoa muito comprometida com a transformação social, eu acho que ele e minha mãe, nesse sentido, eu acho que isso me faz hoje continuar batalhando na revista Caros Amigos, é quase uma militância também, porque eu acredito muito num Brasil diferente, mais justo, mais digno e eu acho que é uma contribuição que eu posso dar a partir disso. E em 64 eu era... Meu pai foi fundador e diretor de uma jornal da imprensa independente naquela época, o jornal Brasil Urgente, que teve um ano, porque quando o jornal completou um ano, foi em março de 64, e logo em seguida com o golpe, teve que ser fechado o jornal, teve a repressão, a gente foi muito ameaçado na família também, então isso foi muito marcante, tivemos que lidar com isso; e depois um outro fato que acho que marcou muito foi em 67, meu pai, o avô dele era cearense, e ele queria muito que a gente conhecesse o Brasil, e como nós éramos muitos numerosos, ele não podia levar a família inteira, então ele levou os seis mais velhos, aquela escadinha, três homens e três mulheres, ele e minha mãe, os outros cinco ele distribuiu entre os tios, os outros cincos, e daí nós fomos até Fortaleza, aquela época pelo interior, conhecendo a seca, tudo isso me marcou muito na minha formação. E daí outro fato que foi muito marcante, determinante na minha vida, foi que em 68 meu pai morreu, uma cara super jovem, que tinha muita saúde, muita energia, muito idealista, e ele morreu de acidente, então pegou a gente, nós todos de calças curtas, ele também, e daí isso mudou muito, quer dizer, eu já estava no segundo ano de faculdade, eu mudei para o período noturno, tinha dois empregos, um de tarde e um de manhã, eu na escala familiar sou a segunda, tenho um irmão mais velho e eu a segunda, então isso teve... Eu tive que rever e ajudar a manter a minha família, minha mãe tinha trabalhado antes de casar, daí depois que ela casou ela tinha um filho atrás do outro, não tinha como, então nessa época ela foi trabalhar, e todos os filhos maiores de 14 e 16 anos começaram a trabalhar para ajudar a manter a casa e os menores, então esses foram fatos significativos... (PAUSA) R - Daí a minha mãe teve que começar a trabalhar, que ela só tinha trabalhado antes de casar, e depois também nós todos, daí a sorte dela e de nós todos, que a gente tinha em casa que, aliás, estava trabalhando há quatro meses, que a gente chamava de mãe preta, e que foi uma figura que marcou também a vida de nós todos, porque ela assumiu a liderança da casa com meus irmãos menores, e com muita garra; ela não tinha filhos, era casada não tinha filhos, mas ela assumiu todo mundo, ela ia e vinha, e às vezes ela saía correndo atrás dos meus irmãos com um cabo de vassoura para fazer estudar, do jeito dela e tal, mas enfim, estamos todos aí, eu acho que esses fatos marcaram demais a minha vida, é, fazem ser quem eu sou. P - Desculpe, mas essa viagem pelo Brasil que você fez com seus irmãos e seu pai, o que é que te marcou mais nessa viagem, nesse caminho pelo interior do país? R - Bom, foi muito legal a convivência entre nós, e sempre a troca em relação à realidade que gente vivia, foi cada vez que a gente se aprofundava mais pelo interior do Brasil, e subindo mais em relação ao Nordeste, a gente ia se deparando com situações cada vez mais dramáticas, mas assim, por exemplo, eu me lembro agora, ainda no começo da Bahia, uma cidadezinha que chamava Euclides da Cunha, e nós estávamos numa Combi, nós seis, filhos, meu pai e minha mãe, e a gente saía sempre muito cedo, quase de madrugada, e parava antes de escurecer, e quando nós chegamos, andamos muitas horas em estrada de terra, e no dia seguinte a gente ia continuar andando em estrada de terra, tudo seco e tal, quando chegamos nesse hotel nessa cidade que chamava Euclides da Cunha, o hotel não tinha nada a ver com o hotel que a gente conhecia, era uma casa adaptada, muito simples os donos, a televisão era no quarto dos donos do hotel, da casa, e naquela época tinha pouca televisão, o pessoal da região ia, fazia ali, aquele local, de núcleo de encontro de informação. Daí estavam todos ali vendo televisão e tal, de repente começou relampejar e chover, e caiu uma chuva e todo mundo começou a cantar, um virava para o outro e falava: "Compadre, quanto vale essa chuva." E as mulheres e todo mundo numa alegria, e começaram a cantar e tal, e a gente achou aquilo muito bonito, mas ao mesmo tempo a gente preocupado, imagina se chover e nós não conseguirmos sair daqui, e ficar fazendo o que nessa cidade. Daí, no dia seguinte, saíamos, você não via nem sinal de chuva, porque a seca era muito grande, e a impermeabilização, enfim, foi muito rápida, daí prosseguimos e um dos locais em que a gente esteve também se chamava Brejo Santo, já no interior do Ceará, em todos esses lugares a gente tinha dificuldade para comer, a qualidade da comida a gente tinha um certo receio, então a gente comia coisa em lata, comprava água mineral, essas coisas, e essa cidade de Brejo Santo, meu pai sempre se informando onde era, e quando a gente cruzava com algum carro com família ele perguntava onde era o lugar que pudesse ficar com a família e tal, indicaram esse local em Brejo Santo, e fomos lá para esse hotel, e agora como é que chamava? Chamava qualquer coisa de lua, não lembro; eu só sei que chegamos na cidade, vimos uma plaquinha que não dava para acreditar que aquilo era hotel, mas daí nós fomos ver o único lugar que tinha para ficar na cidade, ficamos lá, daí foi uma coisa triste, mas isso tudo muito divertido, e tudo isso foi marcando muito, porque era uma pobreza muito grande, e você começar entrar em contato com essa realidade diferente do Brasil... Daí o que chocou muito, quando nós chegamos em Fortaleza, tinha parentes e tal, daí assim, em Fortaleza, as diferenças sociais, uma coisa gritante, muito marcante, e a família, os parentes do meu pai, tinham um poder econômico bom, então assim, imediatamente eles convidaram logo no primeiro dia para a gente ir jantar no melhor clube de Fortaleza naquela época, o Náutico, para comer lagosta, então isso assim foi uma coisa muito chocante, e a gente conversou muito sobre isso, a gente sempre conversava sobre os vários brasis, e o que é que a gente queria da vida, o que é que era importante na vida, o que se pensava na profissão. P - Qual foi a primeira imagem que você tem de Fortaleza, assim, o que é que foi a primeira coisa que você viu, conta para a gente, descreve um pouco para a gente. R - Acho que foram as praias, e depois, assim, eu lembro essas colunas de mármore do Náutico Clube, que eram colunas de mármore, você tinha acabado de sair de uma miséria que eu nunca tinha visto. P - Eu queria agradecer a sua participação Maria Cecília e obrigada pelo seu depoimento. R - Legal.
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