P/1 – Bom, dona Antônia, primeiramente eu quero agradecer a sua participação aqui no Museu. E pra começar eu gostaria que a senhora dissesse pra gente o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.
R – Tudo bem, prazer foi meu. Eu que agradeço, estou muito feliz em participar aqui. Eu nasci no dia 19 de outubro de 1929, num sábado, às cinco horas da manhã.
P/1 – Qual o nome completo da senhora?
R – É Antônia Antonita da Silva.
P/1 – E a cidade?
R – Bezerros.
P/1 – Bezerros. Qual o nome dos seus pais?
R – José Martiniano dos Santos e Maria Teresa dos Santos.
P/1 – E o que eles faziam, dona Antônia?
R – Eles eram agricultores.
P/1 – A senhora podia falar um pouquinho sobre eles pra gente?
R – Ah, com muito prazer. Eu nasci, era um casal muito pobre e muito feliz. Eu vim de uma família pobre e de muito amor. Ele era agricultor. Foi muito interessante que no dia que eu nasci essa casa onde nós morávamos tinha um lajedo muito grande, não sei se vocês sabem, aquelas pedras. Deu um temporal muito grande e deu um trovão tão forte que caiu um raio na pedra e saltou uma lasca da pedra que fez um tanquinho. Eu costumo dizer que eu vim da rocha mesmo, da pedra . E então a gente viveu, eles foram um casal muito unido, tiveram muitos filhos. A minha mãe teve 22 filhos, eu a mais velha, e foi uma coisa muito desagradável a perda que teve dos meus irmãos. Porque eram 22 e acontece que só ficamos em cinco. São três mulheres e dois homens. Os outros morreram tudo grande, morreu irmão meu com oito anos, com 12 anos, com dez anos. Uns foi de sarampo, outros eram muito, eu acho que era falta de um acompanhamento porque lá não existia nada de medicamento. E a gente vivia trabalhando na roça. Agora, teve um irmão meu que teve uma morte muito triste, muito triste. Ele tinha oito anos e um cachorro mordeu ele. E aí o meu tio levou ele pra Caruaru pra tomar as injeções. Ele tomou as injeções, foi assim no braço que ficava a marca, infelizmente no dia dele vir pra casa o meu tio ainda perguntou para o médico, porque ele ficou na casa dele pra tomar as injeções. Aí perguntou pra ele: “Doutor Amorim, o Eugênio vai pra casa e ele tem mais irmãos, não tem perigo nenhum?”. Ele falou: “Não, não tem nenhum perigo, ele está bom”. Mas acontece que tinham dado as injeções todas vencidas, as injeções não deram efeito. Quando ele chegou em casa a gente já percebeu que ele tava muito diferente e não cicatrizava aquele braço. Com 30 dias que ele veio pra casa deu sarampo e a febre do sarampo foi uma coisa tão dolorosa que atacou justamente a doença do cachorro. Ele chegou a ir pra Caruaru, chegou lá queriam por no isolamento, o meu pai não soltava de jeito nenhum. Como na casa do meu tio tinha um quartinho separado, aí o médico deixou ficar lá. E esse meu irmão teve que ser apagado mesmo porque atacou a doença do cachorro. Esta foi uma dor muito grande que nós passamos porque os outros foram doenças mais assim, era novinho e morria. Mas essa do meu irmão marcou muito a vida da gente, tudo falta de atenção, um cuidado maior com o ser humano. E daí por diante nós continuamos a vida. Meu pai sempre trabalhando, sempre uma pessoa doente. Você sabe que em toda família existe sempre aqueles que podem e aqueles que são mais humildes, aconteceu isso com o meu pai. Então tudo de meu pai eles criticavam porque meu pai era doente, mas só tinha filho. Até nisso era censurado. Ele ia trabalhar, muitas vezes eu ia para o roçado com ele e voltava com ele nos braços pra casa. Então, provável que ele morreu com 63 anos. Um tratamento muito simples e ele chegou a falecer. E os outros eram assim, ele teve muitos dias, aconteceu umas duas vezes isso, no ano que minha mãe tinha um filho e naquela mesma noite morria o anterior. Então tinha feito um ano, morria, já tinha nascido outro. E tudo isso era eu que acompanhava, era eu que fazia tudo, cuidava da minha mãe. Naquela época era assim, a mulher tinha a dieta, ela tinha que ficar na cama três, quatro dias, pudesse, que não pudesse, tinha que ficar ali e eu quem cuidava de tudo isso.
P/1 – E a senhora sabe como seus pais se conheceram?
R – Eles se conheceram através de um amigo. Eles foram numa festa na casa de um amigo e se conheceram. Minha mãe se casou muito nova, acho que ela tinha 18 anos, eles se conheceram assim e se casaram.
P/1 – E os dois também eram de Pernambuco?
R – Também de Pernambuco, todos de Pernambuco. Só que meu pai pertencia a Bezerros e ela a Caruaru, mas eram todos de lá.
P/1 – E a senhora tem lembranças dos seus avós?
R – Tenho.
P/1 – A senhora pode falar um pouquinho deles?
R – Inclusive, os meus avós eram assim, a minha avó materna eu conheci, agora o meu avô não. E o meu avô paterno eu conheci o avô e não a avó. Ambos eram assim, a minha avó materna não casou, mas o meu avô casou. Meu pai não gostava bem da madrasta e quando eu nasci, aí o meu pai tomou o papai Nato, pai dele, e a minha vó, a mãe da minha mãe, não tomou a madrasta. Então ele fez um casal assim meio diferente porque não queria tomar a madrasta. Mas a madrasta tão humilde que falou assim: “Deixa eu ser madrinha de apresente”. O meu pai falou: “Já tem” “Deixa eu ser de crisma”. Ele falou: “Já tem” “Então deixa eu ser da touca” . Foi muito engraçado. Então eles eram assim, eu me batizei em casa porque diz que eu tava doentinha. Com três dias de nascida me batizei. E daí por diante nós continuamos nossa jornada assim.
P/1 – E como é que eram as suas brincadeiras de infância? A senhora lembra?
R – Ah, era muito gostoso. Era com minhas primas, era lá no sítio, a gente morava no sítio, aquela sombra, aqueles açudes gostosos pra tomar banho. Eu vou colocar assim, era uma pobreza, mas uma pobreza, uma liberdade, tudo pra gente era alegria. Eu sempre tive muita vontade de estudar. Nossa, minha vontade era grande de estudar. O meu avô era quem me dava caderno, lápis, aqueles tinteiros, ele pagava isso para eu estudar. Mas, como eu cuidava dos meus irmãos, eu era a última a chegar na escola, tudo pra mim era difícil na escola porque eu só chegava atrasada. Eu nunca estudei em um livro novo, eu só estudava nos livros das minhas primas, então elas terminavam o primeiro ano era aquele coração de criança. E eu sentia uma alegria do livro, eu tinha muito gosto no livro, de escrever eu gostava demais, mas os meus estudos eram muito difíceis porque eu saía correndo, quando chegava era trabalhando, eu tive muita dificuldade.
P/1 – A escola era perto?
R – Era perto. Uma vez a professora falou que ia fazer um picnic na casa do pai dela e era pra todo mundo ir de chapéu de palha, de sandalinha e com um vestido amarelo. Nunca esqueço. Aí quando eu cheguei em casa, que eu falei meu pai falou: “Não, eu pus filho na escola pra aprender a ler, não pra ir pular como um bode”. E justamente caiu no ouvido da professora e por isso me tirou da escola. Eu perdi seis meses de escola por isso .
P/1 – E a senhora lembra do primeiro dia que a senhora foi pra escola?
R – Nossa!!! Me lembro demais! Me lembro até do nome da minha professora. Era dona Gina. Eu fui com o maior gosto, a maior simplicidade, levei uma carta de abc e um palito de madeira que era para apontar . Uma tabuada que depois ela pediu. Eu adorava, adorava estudar, mas foi muito difícil, muito difícil.
P/1 – E a senhora estudava e também já trabalhava?
R – Já trabalhava. Eu cuidava de todo serviço de casa, ajudava na roça, apanhava café, milho, arrancava feijão. Todo serviço da roça eu fazia. Carregava água de longe, ainda hoje tenho um calinho aqui que é de carregar lata d’água na cabeça . Tem aquela música lá, lata d’água na cabeça. Eu carregava água, carregava lenha. Plantava, quando começavam as chuvas eu ia plantar, ia ajudar meu pai. Eu trabalhei muito. Muito, muito.
P/1 – Como era ser a mais velha de tantos irmãos?
R – Olha, era assim. Eu não quero dizer autoritária, eu acho uma responsabilidade muito grande, era muito grande e é muito trabalho. É muito difícil. É muito difícil porque, tudo, logo assim, meu pai tinha minha mãe como uma rainha. Podia ser pobre como fosse, mas a minha mãe não pegava água, minha mãe não ia buscar lenha, minha mãe não lavava roupa, tudo era eu. Tudo era eu. Ela ficava dentro de casa com aquela perfeição. Ela dizia assim. Uma vez meu pai foi dar a notícia de um amigo que tinha morrido ela falou: “Não tem notícia ruim que você me dê se é você que traz”. Então, só era difícil chegar a notícia que os outros dessem dele mas que ela tava bem. Ela dizia: “Estando com José pode o mundo se acabar que pra mim está tudo bem”. Era assim. Até mesmo na morte dos meus irmãos, nas doenças dos meus irmãos, ela sentia, mas ela estando com meu pai não tinha nada, entendeu? Outra coisa que ela também dizia, era muito vaidosa. Minha mãe, eu nunca vi minha mãe vestir um vestido com um remendo, a roupa dela era passada no ferro. Podia ser simples como fosse. E as cunhadas censuravam muito isso dela, achavam... Quando foi um dia, ela comprava pó, passava no ene, naquela latinha de pó Lady e ela usava. Eu não puxei ela, minha irmã puxou, mas eu não sou muito vaidosa. Tudo dela, ela era muito vaidosa. E um dia minha irmã falou: “Olha, eu prefiro que falte farinha em casa do que falte pó”. Aí ela ficou brava com ela: “Mas como você fala uma coisa dessas, Mariinha?” “Porque a farinha eu tomo emprestada na vizinha e o pó eu não tomo emprestado porque eu tenho da minha mãe” . Você vê como eram as vaidades. Tem muita história, acho que se eu passasse um ano eu não contaria a história da minha vida, infelizmente. Eu já disse que se tivesse, muitas coisas eu hoje escrevo, muitas coisas eu tenho escrita, eu fazia um livro da minha vida. E dava um livro que eu vou te falar.
P/1 – Dona Antônia, conta como era a cidade de Bezerros na época que a senhora morava lá?
R – Era assim, sempre... Eu não ia muito, a vida da gente era sempre na roça. O que eu lembro da cidade é assim. A gente apanhava as frutas e o meu pai levava pra vender em Bezerros mesmo, tinha fábricas de doce, inclusive aquele mariola, aqueles doces de goiaba. O meu pai levava, a gente tirava, tinha os caixotes, ele levava as goiabas pra vender nas fábricas e trazia as mariolas pra gente , entendeu? Mas a gente não ia muito na cidade. Você vê, eu passei muito tempo pra conhecer o Recife, a gente vivia mesmo ali naquela redomazinha assim. Lá no sítio, tinha a vila da Sapucaia que tem a Igreja de São Sebastião, que a gente ia à missa todo domingo. Sempre acompanhei a religião católica, ia muito com meu pai. Fiz minha primeira comunhão, tive um desprezo assim, bom, é bom a gente passar o que a gente sentiu. E tinha uma catequista, chamava-se Eloína, e preparou a gente. A minha vó que me ensinava, a minha mãe, muito me ensinaram. E ia ter uma primeira comunhão em Pau Santo, dia oito de dezembro e arrumaram para eu ir. Só que as meninas iam muito bem arrumadas porque ali tinha aqueles fazendeiros, aquele povo que podia. E ainda aquele povo de lá é muito metido, quando quer estar impecável tá mesmo. E eu fui com um vestidinho simples, uma sandalinha. E aí fizeram, parece que eu estou vendo, tem a igreja lá, e a gente foi saindo da casa da catequista e aquelas que estavam tudo de capelinha, coroinha, bem bonitinha, foi pra fila. E eu fui pra fila e ela me tirou. Ela me falou: “Não, você vai lá pra trás, você não tá com a coroinha”. E aquilo pra mim foi uma coisa, uma decepção que eu senti tão grande. Mas eu recebi Jesus com o mesmo carinho, com o mesmo gosto. E depois eu chorei, eu não vou negar que eu não chorei. Porque eu via que elas estavam tão bonitas, tão arrumadinhas. Eu só porque estava com um vestidinho simples eu tinha que ir atrás. Eu acho que o mundo de hoje ainda acompanha muita coisa disso, é o desfazer das pessoas. E as crianças guardam, guardam, guardam. Foram várias as decepções que eu passei na minha vida. Passei também que eu tinha, todo mundo tem uma pessoa de muita intimidade. E eu tinha uma prima que a gente era amiga, amiga, amiga mesmo. E ela fez aniversário, ela faz aniversário dia quatro de dezembro, ela também ainda é viva. E eu fui e tinha meu tio, morreu com 102 anos e ele era muito orgulhoso, muito metido, ele era rico, sabe? Porque também casou com a filha de um coronel lá que pegou a herança também. Aí ele era muito rico. Mas eu tinha muita amizade com a menina. Eu me levantei, minha mãe tinha comprado um sabonete Dorly e eu fui levar pra ela. Meu filho, quando eu cheguei, um casarão grande, entrei, aí a cama dela tava toda bonita, que a avó dela era muito rica e estava cheia de presentes, aí eu fui e dei pra ela. Era Maria Dalva, eu chamei: “Dalvinha, ó o que eu trouxe pra você tomar banho”. Eu nunca esqueço, ele tava sentado assim e falou: “Mas pra que isso? Você não tem nem pra você, pra que você vem trazer pra ela?!” Eu fui embora pra casa. Então eu acho que essas coisinhas marcam a gente. E eu queria bem a ele, tudo. Eu estava lá em Caruaru quando ele fez 100 anos, eu cheguei lá e ele fez aquela festa e tudo, mas aquilo vinha na minha cabeça. Ele tava me fazendo carinho e aquela palavra que ele falou tava dentro do meu coração. Não que eu tivesse raiva, é um sentimento, uma mágoa, que a gente guarda, que a gente se sente tão miúdo, tão pequeno, se sente muito pequeno. Essas coisinhas foram tudo o que eu levei. Mas a minha brincadeira era assim, até fugi um pouco da sua pergunta, mas chegou na mesma. E eram aquelas brincadeiras de fazer casinha, panelinha, as capinhas da bananeira, os cachos da banana não faz aquela coinha, eram as panelinhas. E eu sempre muito, muitas coisas que eu tive vontade eu não tive direito na minha infância, mas tive uma infância feliz porque eu participava das coisas tinhas as atividades, sempre fui muito ativa. Agora mesmo faço um acompanhamento com a médica por causa da pressão, tudo, e ela fala assim pra mim: “Você tem uma doença que ninguém cura, ninguém cura a sua doença Antonita, que é a sua agilidade. Você tá aqui, você já tá vendo o que você vai fazer amanhã”. Eu falei: “Pois realmente é assim”. Eu sou assim, mas meu pensamento está em todas as minhas atividades, mas eu fui muito feliz. A vida, não existe dificuldade melhor do que a vida, você só aprende com a vida. Você trabalhando, você tendo seus amigos... É uma coisa muito diferente. Então aí foi indo a minha infância. Depois a família nessa dificuldade toda como eu já falei, da morte dos meus irmãos. Aí me casei, então aí foi outra missão, outra vida diferente, outros contatos diferentes, outros conhecimentos diferentes. Vem muita diferença na vida.
P/1 – Mas antes da senhora falar do casamento eu queria que a senhora falasse um pouco pra gente quando a senhora já era mais mocinha. O que a senhora fazia pra se divertir, pra onde a senhora ia.
R – Aí sim! Porque eu fui lá pra frente . A diversão da gente eram as festas juninas que faziam no sítio, no meu tio. Eles faziam aquelas fogueiras bem grandes e a gente ia cantar roda, versinhos, brincar de roda. E eles davam aqueles tiros de riuno nas fogueiras que subiam aquelas coisas todas. Eram as festas que a gente participava, era mais isso. E as brincadeiras, assim, em casa mesmo porque pra sair, pra diversão, conhecer alguma coisa fora, realmente eu não ia mesmo, era só mesmo aquelas brincadeirinhas assim e a parte das festinhas assim. No aniversário que tinha nas minhas primas que meu pai também não deixava muito. Você ver, até pra escola você já viu. Já contei como era. Ele era tão apegado à gente, ele queria tanto o bem e tinha ciúmes da gente, que tornava-se prejudicial a ele e a gente. Porque a gente tinha até a vontade de trabalhar, de apanhar café de outras pessoas, raspar mandioca pra fazer farinha e ele não deixava. E as outras que faziam isso tinham dinheiro pra comprar as coisas. E ele não, ele queria manter a gente sem trabalhar. E naquela época a voz era dele, ninguém podia dar um passo à frente do que ele dizia, se é isso é isso. Então às vezes a gente se prejudicava. Porque pra ele mesmo eu poderia ter defendido muita coisa dele sofrer se eu trabalhasse.
P/1 – E como é que a senhora conheceu o seu marido?
R – É, o meu marido eu conheci assim. O meu pai, teve uma época que ele matava boi e vendia no sítio. A gente ia entregar a carne nas casas. E o meu marido ia comprar a carne lá, ele sempre ia a cavalo comprar a carne pra levar pro pai dele. Eu conheci ele a gente vendendo as coisas lá. Era quase vizinho, perto. E eu conheci ele, foi meu primeiro namorado fiel mesmo, forte. Porque eu sempre tive uma opinião, eu tinha muitos primos meus que eu tenho meus primos como meus irmãos e teve alguns que sempre tinham, eu falava: “Eu não quero nem ver, eu não vou casar com parente, eu não vou casar com parente. Eu quero me casar com uma pessoa estranha”. E foi, nunca quis. Se era meu parente não adiantava, queria bem, mas não pra casar .
P/1 – E antes da gente falar desse casamento, da mudança, a senhora começou que sabia andar a cavalo. Conta pra gente.
R – Andava a cavalo, adorava andar a cavalo, nossa senhora! Era uma beleza, botava a sela no cavalo e eu andava por todo lugar no cavalo, gostava muito de andar a cavalo. Então hoje, agora mesmo, até porque esse negócio agora as fotos só ficam na internet, na coisa e no celular e não tiraram, queria ter trazido essa. Andei a cavalo ano passado lá na Rua da Sapucaia. Meu irmão tem uns cavalos bem bonitos e eu andei, eu gosto muito.
P/1 – E como é que foi a mudança dessa vida com a sua família pra vida de casada?
R – Olha, eu senti a diferença da vida de casada pelo seguinte, porque a família do meu esposo tinha um temperamento muito diferente da dos meus pais. O meu sogro era uma pessoa que me queria muito bem, eu queria muito bem a ele, mas o meu esposo era duas, o meu sogro ficou viúvo e tinha a segunda família. Então meu esposo só tinha dois irmãos, e da outra família eram seis. Aquilo ali sempre tinha ciumada, era uma ciumada, sempre a família mais velha é quem tinha o direito das coisas, entendeu? E o meu esposo muito trabalhador, muito trabalhador. Vou contar uma história que vocês vão dar risada. A gente casou e foi morar no sítio e tava na época do café. Eu sempre trabalhei muito, a minha lua de mel foi apanhando café . Eu casei no domingo, em Caruaru na Igreja Nossa Senhora do Rosário e fui para o sítio. Então da Sapucaia pra ir para o sítio, que era mais longe, todo mundo foi de cavalo, tava chovendo, todas essas coisas. E na segunda-feira fui pegar café normalmente . Pois é, aí continuei minha vida normal, sempre trabalhando, trabalhando. Depois ele pôs uma venda, eu tomava conta da venda, sempre trabalhando. Aí começou a vir os filhos, eu tive 13 filhos. A minha mais velha é a Maria do Socorro e eu trabalhei muito. Ele trabalhava muito também em fazer farinha. Tinha as casas de farinha, quando era sexta-feira ele arrancava a mandioca, ia pra casa de farinha e trabalhava, tinha vez que trabalhava até o dia amanhecer. Trabalhei muito. Grávida eu cevando mandioca, carregando mandioca.
P/1 – A senhora consegue descrever pra gente como é que era lá o trabalho na case de farinha?
R – Ah, era uma maravilha . Lá assim, eles levavam a mandioca, deixavam lá, a gente raspava a mandioca. E tinha a roda não sei se você conhece, e cevava a mandioca, e depois pra peneirar a massa, depois põe a massa na prensa, depois vai para o forno. Era um trabalho muito árduo, muito, muito. Tinha a prensa. Em todas essas partes eu trabalhava, até moer mandioca eu moía, quando era pra cevar eu cevava a mandioca. Eu grávida e aquela sacola de mandioca ali e eu cevando mandioca. Trabalhei muito, muito mesmo. Minha vida foi trabalho. E o bom é que eu faço porque gosto, não sentia aquilo como um peso, entendeu? Eu gostava. Estava lutando, lutando, lutando pra poder sobreviver com a minha família e não sofrer o quanto sofri em pequena porque as coisas eram piores ainda, era muita dificuldade, muito dificuldade. A vida da roça era muito difícil. E a doença do meu pai, a quantidade de filhos que minha mãe teve, então eu já vim de uma vida que eu sabia, na parte econômica, eu sabia muito separar as coisas e é muito serviço. Então ele fazia farinha e no sábado ele levava pra feira que era pra comprar as coisas pra gente. Mas a farinha era o serviço.
P/1 – E como era o trabalho da senhora na venda? Que tipo de produto que vendia?
R – Ah, aí vendia jabá, carne seca, arroz, feijão, pinga, açúcar. Aquela aguardente que vinha do sul, aquele açúcar preto que traziam. Eram aquelas coisas normais da venda. E era eu quem tomava conta, quem fazia tudo na venda. Aí depois ele deixou a venda, mas eu trabalhava na venda, sempre trabalhei, sempre fui lutando pela vida.
P/1 – Como foi pra senhora ser mãe, a sensação? O seu primeiro filho e depois os outros também.
R – Olha, eu vou ser bem sincera. A minha primeira filha eu senti assim, imagina, eu não vou dizer que eu me arrependi de casar, eu me assustei. Apesar de eu ter vivido com a minha mãe com tantos filhos, mas eu achava uma coisa tão grande. Eu? Eu ter filho? Eu ter um filho? Achei uma coisa muito séria. Eu acho, apesar de que depois tive os outros filhos também, mas eu achei que a minha vida, eu acho que no começo eu imaginava, eu não deveria ter casado, eu deveria ter ido trabalhar, trabalhar, trabalhar. Eu achei assim. Mas depois pelo amor dos filhos, que eu fui tendo meus filhos, aí eu lutei, lutei muito pelos meus filhos, muito, muito, muito.
P/1 – E conta pra gente como é que se deu essa vinda pra São Paulo. Por que a senhora veio, quando veio?
R – Essa vinda pra São Paulo foi muito difícil. Eu estava grávida, tinha sete filhos e estava grávida. Era isso que eu já ia colocar. O meu esposo
P/1 – Qual é o nome dele?
R – Miguel Martins. Não existe uma pessoa no mundo mais trabalhadora do que ele porque não é possível. E ele trabalhava muito na roça. Agora, uma pessoa, você sabe aquela pessoa que trabalha e não tem administração? Eu vou colocar mais fácil, vamos supor, esse copo está aqui, se disser, esse copo está aqui, você me vende ele por um real. Eu to com um real. Eu sei que eu fico com ele por um real e amanhã eu vendo por dois. Ele não faz isso, ele se amarra com um, é uma comparação em tudo, ele amarra com um real, mas ele não solta o real pra ganhar alguma coisa. Então aí a família velha foi pressionando ele pra não criar o gado. Ele tinha uma vaca muito bonita, não deixaram ficar no cercado, que era aquela casinha quando eu falei que fui morar lá. Pressionou demais, aí ele veio pra São Paulo, eu fiquei, mas só Deus sabe. Ele veio, passou um ano aqui mandando dinheiro, naquela época que passava dois meses pra chegar o dinheiro e eu trabalhando ali. Só teve uma coisa, depois que eu casei eu tive mais direito de trabalhar. Quando ele veio pra cá eu ia raspar mandioca pros outros pra ganhar dinheiro, isso aí eu já fazia. Apanhar café, que era pra ir criando os filhos. E ele passou um ano aqui. Aí ele não se deu bem de saúde, quando ele chegou em casa eu pensei que ele fosse morrer. Então ele ficou muito mal aqui e voltou pra lá, e a dificuldade aumentando, aumentando. Quando ele veio eu fiquei grávida, nasceu a minha filha, morreu e ele não viu. Eu tive uma filha que o pai não conheceu, pela dificuldade da vida. Aí quando ele chegou lá, aí as coisas estavam muito difíceis e o que vai fazer, o que vai fazer. E apareceu um senhor que ainda era parente dele, tinha um sítio muito grande e a gente foi tomar conta dessa fazenda. Só que era na época da reforma agrária e o meu marido, muito trabalhador, aí se esbrangiu pra trabalhar porque aí achou terra pra trabalhar, foi que foi. Quando o dono viu que ele tava trabalhando muito, tinha muita roça, muita coisa, aí deu o corte. Só chegou lá e falou que ia vender, que não sei o quê. Ele pôs a mão na cabeça e falou: “O que nós vamos fazer? Vamos embora pra São Paulo e seja o que Deus quiser”. E nessa época eu com sete filhos e grávida e nós viemos pra São Paulo.
P/1 – Como é que foi a viagem?
R – Nossa senhora! O meu filho caçula doente dentro de um ônibus, meu Jesus Cristo. Olha, um terror, não dá nem pra contar, foi coisa muito difícil. E ele tinha uma irmã aqui, como tem até hoje, e ele mandava dizer pra irmã que vinha. Tudo bem. Ah meu filho, aí foi duro. Ele vendeu tudo o que tinha da roça e a gente veio embora com a cara e a coragem. Só em roupa e os filhos. Aí, quando a gente chegou aqui, chegou aí no Largo da Concórdia, meu filho, era umas seis horas da tarde e o endereço que a gente tinha era lá dos Jardins. Sem a gente conhecer nada, zero, nada. Parece que eu to vendo. Era na Avenida Jupi, vamos pra lá. Coube todo mundo dentro de um DKV velho, e eu com medo que ele dizia: “Cuidado com o saco”, porque era onde tava o dinheirinho que a gente trazia. E a gente saiu dentro desse DKV com este endereço. Quando chegamos lá, já tarde da noite, chovendo, era uma fábrica. Aí, dirigiu-se ao porteiro, ele procurou por José Bezerra que era o cunhado dele, ele falou: “Esse homem trabalha aqui, mas ele não mora aqui. Ele mora em São Miguel Paulista”. Nossa senhora. “E por sinal eu não tenho quem lhe dê endereço porque já fechou a fábrica e eu não posso fazer nada”. Aí o meu marido sempre teve muita fé em Deus, aí eu comecei a rezar, falei: “Meu Divino Espírito Santo”, aí ele falou: “Eu to vendo a situação de vocês, o gerente mora aqui, eu vou pedir a chave do escritório pra pegar o endereço”. Olha só, como tem gente boa no mundo. Aí foi, pediu a chave do escritório. Pra melhorar a história ele falou assim: “Tem três endereços, eu não sei qual é. Um é na Vila Matilde, um é no Jardim Nordeste e o último é no Jardim Robru”. Eu disse: “Me dê os três, meu filho, que eu vou procurar”. E o motorista, imaginando pronto o dinheiro, o que fez, vai-se embora e entrou. Primeiro não morava mais, segundo não morava mais, então agora era lá nos confins do Judas. Isso já eram onze horas da noite, tudo com fome, menino dormindo, uma tragédia. Aí quando a gente chegou lá estavam fazendo uma vila nova, aquelas luzinhas, lá de vez em quando se avistava uma luzinha e vai pra lá e vai pra lá, ninguém pra perguntar. Eu não sei como Miguel não morreu dentro dos poços lá. Uma coisa horrorosa, doloroso, foi dolorosa a minha chegada aqui. Aí procura, procura, procura e não tem jeito. Quando deu meia-noite o motorista parou assim, tinha uma descida assim, hoje tem uma ladeira assim, e falou: “Aqui eu vou parar e esperar o dia amanhecer. Espera o dia amanhecer, não posso fazer mais nada porque não tem mais como levar, a gasolina acabou e não tem nem onde por, então vamos esperar”. Nisso vinha descendo uma perua, aí eu falei: “Eu vou me valer dessa perua”. Aí saí de dentro do carro. Quando eu saí o homem falou: “Não saia não porque ele não para, eles vão ter medo”. Eu falei: “Não, eu vou”. Eu abri os braços assim, fiz mesmo assim, porque eu já tava desesperada. Eu falei: “Moço, pelo amor de Deus, o senhor mora por aqui?” “Moro” “O senhor conhece onde mora Zé Bezerra assim, assim e assim?”. Ele falou: “Não dona, eu não conheço” “Pelo amor de Deus, como vai fazer?”. Aí dei o nome da rua, ele não sabia porque era Quadra tanto. Eu falei: “Olha, o senhor não conhece ninguém?” “Não, eu não conheço por nome”. Eu falei: “Olha, ele tem uma filha que trabalha no Biotônico Fontoura”. Ele falou: “Ah! Passa uma mocinha na minha porta com o avental do Biotônico Fontoura, é meu vizinho”. Olha como eu descobri. Aí quando a gente chegou lá era realmente, era o número que tava procurando. Eu agradeci pro homem e fiquei, o motorista, coitado, foi um santo, se ele morreu já tá no céu. Quando a gente entrou, pode acreditar, era isso aqui a casa do meu cunhado. Abriram a porta, um fogão ali, uma cama aqui. Eu falei: “Valei-me minha Nossa Senhora”. Eles se levantaram tudo assustado, Miguel ainda batia na porta, eles todos assustados com aquilo tudo, eu falei: “Pronto, a gente vai ficar na rua”. Aí foi um pra debaixo da cama, um pra debaixo da mesa, ficamos ali esperando a noite. Aí, quando foi no outro dia eu imaginei assim: “Meu Deus”. Eu só queria que não amanhecesse mais o dia, não tivesse mais. Aí eu pedi mesmo porque eu tava desesperada. Sei que pra encurtar a história, daí por diante saiu todo mundo pra trabalhar, ficou aquele quartinho ali. Ainda bem que tinha terreno assim, pelo menos pra ficar do lado de fora. Um poço pra puxar água e a gente ficou ali. Passaram uns oito dias, aí meu marido foi trabalhar com esses empreiteiros que cavam buraco assim na rua, no esgoto. Foi trabalhar. E o dinheiro se acabando, de comprar pão e leite de manhã pra comer porque também não ia comer lá. E segurando o dinheiro, segurando o dinheiro. Sei que daí ele começou a trabalhar e quando foi um dia a gente tava lá na calçada, na calçada não, que era tudo mato assim do lado de fora. Eu ficava sentada do lado de fora. Aí tinha um casarão no alto, aí minha cunhada chegou e falou assim: “Olha, aquele casarão ali tem muita gente que quando vem pra cá se aloja ali”. Aí, dessa vez eu vi meu marido falar porque ele engolia tudo calado. Ele falou: “Ai tatá, mas eu não vim pra aqui pensando nisso”. Eu não dormi, eu só chorava. No outro dia de manhã eu fui comprar pão. Aí fui passando e tinha um senhor pintando um quartinho assim, eu me dirigi pra ele: “O senhor vai alugar esse quartinho?”. Ele falou: “Vou. Minha mulher morreu e eu vou alugar e vou morar no outro pequenininho ali” “O senhor alugava pra gente? Qual é a condição do senhor alugar?” “Ah, eu quero fiador” “Fiador não tem, eu não tenho fiador, eu tenho um marido com sete filhos. Tenho dinheiro pra dar uns dois meses se o senhor quiser adiantado, mas não peça fiador porque só Deus é meu fiador”. Contei a história pra ele, mais ou menos, ele falou: “Então venha aqui de noite com ele”. Quando foi de noite ele chegou e falou: “Vamos lá”. Aí quando chegou lá ele conversou com meu marido, quis dois meses adiantado e falou: “Já te dou a chave na mão”. Meu marido: “Amanhã bem cedo eu carrego meus filhos pra cá”, porque só meus filhos mesmo que tinha pra carregar. Aí quando foi no outro dia, ele ia sair pra trabalhar. Vai se embora trabalhar, mas você vai chegar lá na casa. Quando a gente chegou, eu cheguei lá, agarrei. No outro dia de manhã arrumei todo mundo e falei: “Vamos embora, vamos embora pra lá”. Fiz cama das roupas que tinha pra eles dormirem, comprei um fogareirinho pra cozinhar e ali fiquei. O espaço era cercado assim, tinha espaço pros meus filhos. “Mas como é?!” “Não, a gente precisa. Vai trabalhar”. Também não discuti, não disse nada, falei: “A gente precisa tomar outra posição e trabalhar”. E a gente ficou ali, passou-se a semana. E o medo era o saco, o dinheirinho do saco indo embora . Aí chegou na quinta-feira aí nega falou assim: “Eu vou na casa de Zezinho ver se me arruma dinheiro pra ir trabalhar amanhã”. Aí quando foi, voltou e falou: “Não, ele não tinha recebido, não tem dinheiro”. Eu falei: “Não tem nada, ainda tem um trocadinho aí, aí você pega e vai trabalhar, sem trabalhar fica pior”. Ele foi trabalhar. Quando eu chego eu falei: “E agora?”. Eu subi, fui lá na mulher do pão, que eu já tinha dado o dinheiro do pão pra ele ir trabalhar, que eu comprava pão todo dia. Cheguei lá: “Dona Maria, eu queria que a senhora me vendesse uma bengala fiado porque o meu marido só recebe amanhã de noite e eu venho pagar pra senhora, porque acabou o dinheiro pra dar de comer pros meninos”. Ela falou: “Mas eu não vendo fiado”. Eu falei: “Tudo bem”. Ela falou: “Olha, eu fico aqui e tenho uma cozinhazinha aqui que eu faço meu café aqui. Você não quer limpar ela pra mim?”. Eu falei: “Eu limpo. A senhora me dá a bengala e eu limpo”. Aí fui, limpei, arrumei a cozinha, lavei os paninhos. Era coisinha pouca, só onde ela fazia o café dela, arrumei tudinho. Ela pegou e me vendeu. Disse que ia me vender, mas depois ela resolveu descontar porque aí pediu se eu fazia todo dia e eu falei que eu ia todo dia. Eu falei: “A bengala eu já arrumei”. Quando cheguei em casa, olha, pode acreditar, foi até uma emoção muito grande que eu tive naquele dia porque milagres de Deus acontecem, acontecem, é só você ter fé. Aí eu varrendo por lá sem destino, porque sem dinheiro, sem nada. Daí a pouco chegou. E tinha um moço que ela lavava roupa pra ele, a minha cunhada. Chamava-se Antonio. Aí lá vinha Antonio. Pode acreditar, ele vinha com uma caixa desse tamanho assim na cabeça. Aí chegou e falou: “Dona Antônia, olha, a senhora não vai se ofender, mas o seu Miguel foi ontem lá no seu Zezinho e eu vi que ele queria dinheiro pra condução e seu Zezinho também não recebeu, eu também não tinha dinheiro, mas vim trazer uma feirinha pra senhora”. Gente, aquilo me deu assim, sabe? Eu transpassei. Olha, de tudo ele levou, de tudo. Arroz, feijão, fubá, sardinha, tudo, tudo, tudo. Eu falei: “Olha Antonio, sexta-feira meu marido recebe e eu te dou isso aqui. Deus te pague”. Ele falou: “Não, eu não quero nada. Eu vim trazer pra senhora”. Eu falei: “Deus te dê em dobro”. Ele saiu, eu fiquei chorando pra fazer as coisas. Mas aí, eu pensei: “Tem tudo agora e não tem o dinheiro dele trabalhar amanhã, o que eu vou fazer?” Lá vou eu pra casa da mulher de novo. Peguei uma dúzia de ovos que tinha e fui com os ovos vender. Quando eu cheguei lá falei, ó a mentira: “Dona Maria, a minha cunhada cria galinha e mandou ns ovos pra lá. Mas como eu falei pra senhora que to sem dinheiro, eu quero vender esses ovos pro meu marido trabalhar amanhã”. Aí ela falou: “Mas eu não compro ovo assim, é da granja que vem, minha filha”. Eu falei: “Mas dona Maria, me dê só o dinheiro da passagem”. Ela comprou os ovos e eu desci. “Agora eu to tranquila, agora eu to bem, vou fazer comida”. Fiz comida, arrumei tudo, quando meu marido chegou tava a comida pronta, o dinheiro dele ir trabalhar, os meninos todos contentes, felizes, ele só olhou pra mim e falou: “O que foi que você fez?”, eu falei: “Não fiz nada, Deus fez tudo. Deus fez tudo”. Eu estou contando isso, eu não sei se eu estou sendo, mas como é pra contar o que passou comigo. Então você vê, eu passei por tudo isso, entendeu? Mas eu quero chegar e dizer a minha atividade que Deus me dá. Quando foi na sexta-feira que ele chegou com o dinheirinho da semana eu falei: “Olha aqui, nunca mais vai acontecer o que aconteceu comigo essa semana, nunca mais. Porque eu vou trabalhar. Eu vou tomar uma atitude e isso não pode acontecer”. Foi na segunda-feira, era perto de Guaianazes, eu fui pra Guianazes. Primeiro serviço que eu fui arrumar, vi lá uma plaquinha que precisava de gente, era uma quitanda. Aí o japonês olhava assim pra mim e falava assim: “A senhora não fala?” “Eu to falando” “Mas a senhora não fala?”. Minha Nossa Senhora, eu feito uma besta mesmo ali, ele falou assim. Cadê o dente? Tava me faltando um dente. “Senhora, pra trabalhar no comércio não pode trabalhar faltando um dente porque a senhora vai falar com o público”. Eu falei: “Louvado seja Deus, mais uma”. Tá bom. Aí eu falei: “Tá bom”. Eu tava com dinheiro e falei: “Pera aí”, tinha aqueles caixotinhos que vai laranja. Eu falei: “O senhor me vende umas bananas dessas?” “Vendo” “Me dá o caixote mesmo”. Eu peguei e comprei banana, comprei tomate, comprei laranja, pus dentro do caixote, contei quantas davam por quilo, pus na cabeça e saí vendendo. Agora vou vender essas bananas, daqui pra chegar em casa eu vendo, e eu vou chegar em casa com dinheiro. E nunca mais eu passo a humilhação que eu já passei na minha vida. Aí cheguei em casa, tinha um topete assim, tinha muitas casinhas. Ah pois a mulherada comprou, eu vendi a laranja, eu sabia quanto a laranja tinha dado o quilo, quanto saía e quanto eu vendi. Aí vendi, quando cheguei no topo da serra, você sabe que eu tava com o dobro do meu dinheiro que eu tinha pago lá embaixo, eu falei: “Vou voltar, vou comprar mais, que é pra eu levar pra casa agora”. Voltei de novo, comprei fruta por outro lado, cheguei em casa eu tava com mais dinheiro do que eu saí de casa. Levei banana, levei laranja e voltei pra casa.
P/1 – E como a senhora fazia a venda? A senhora chegava na casa das pessoas, como a senhora falava?
R – Ah, eu oferecia. Eu batia palma: “A senhora não quer comprar uma bananinha? Não quer comprar não sei o quê”. Tinha uma senhora, até uma morenona, ela falou assim pra mim: “Se a senhora passar todo dia eu não vou mais comprar na feira só pra lhe ajudar, com dó da senhora, que eu to vendo”. Eu grávida. “Eu vou comprar pra lhe ajudar e ainda vou arrumar”. Eu passei uns dois meses fazendo isso e pronto, acabou-se a fome, acabou-se a falta de dinheiro, acabou-se tudo. Aí agora vamos esperar eu ter a minha filha, que tive, que também é outra história meio triste, a minha caçula, pra neném nascer pra depois eu arrumar o serviço. Eu vou arrumar um serviço, aqui eu não vou ficar. Desse jeito não vou ficar.
P/1 – E o que o seu marido achou da senhora começar a fazer essas vendas
R – Ele achava assim, que ele não tinha coragem, como é que eu tive coragem de fazer aquilo. Eu falei: “O quê, meu filho? Eu vou morrer aqui?”. Não era porque ele não trabalhava, não era porque ele era um vagabundo, mas o que ele trabalhava não cobria. E naquela época tinha que esperar receber. Então eu fiz tudo isso. Aí antes de acontecer essa, ainda foi outra humilhação. Eu passei humilhação, meu filho, eu passei humilhação na minha vida. Tinham duas vizinhas dela assim, estavam lá conversando e ela falou: “Sabe, lá no Parque Dom Pedro, no mercadão do parque Dom Pedro, o pessoal da muita coisa. A dona Cremilda, a dona não sei quem vai e volta com aquelas sacolas cheias, cheias de verdura, cheias de frutas. Você vá com ela, vá com ela que você traz. Pega o ônibus”, pegava o ônibus na Curuçá, “e vá buscar”. Meu filho, Jesus Cristo do céu, eu falei, pra ela não dizer que eu tava orgulhosa, porque você dentro da casa dos outros, você também vai dizer: “Não, eu não vou”. Mas olha, a gente foi. Quando eles foram no Parque Dom Pedro, naquele mercado. Até hoje quando eu passo lá comprando aquelas coisas gostosas eu imagino, meu Deus! Aí, quando eu cheguei lá, a mulherada, um monte de pinhão lá por debaixo dos caminhões, aquele monte de coisas espalhadas por debaixo dos caminhões, aquele resto que sobra. Tinha muita coisa mesmo, aquilo tudo catando do chão. As mulheres por debaixo dos caminhões, os caras tirando uma com a cara delas. Eu só cheguei pra mulher e falei: “Olha, me diga como eu volto porque eu não sei voltar. Qual é o ônibus que eu pego de volta?” “Ah, mas você é orgulhosa!”, eu falei: “Não, minha filha, eu não vim aqui pra escutar piada debaixo de um caminhão catando coisa, não, eu vou embora”. Peguei o ônibus de volta, vim embora pra casa. Deixei até a sacola com ela, falei: “Fica com a sacola que eu vou embora”. Quando eu cheguei e falei pra minha cunhada: “Minha filha, você já foi lá?”, ela falou: “Ah, eu nunca fui”. Eu falei: “Pois olha, é triste e eu não vim pra São Paulo pra ir pra lá não, viu? Eu não vou pra lá. Eu tenho capacidade de trabalhar, mas não pra assistir isso”. Então você quem chega de lá aqui e que não tem uma atividade, o que é passa e como é que vai ficar na situação. Eu passei pro tudo isso. Agora, quando a minha filha nasceu, a minha filha caçula também foi outra coisa. Com minhas amizades deram berço, deram roupinhas pra ela, deram tudo. Aí a minha filha mais velha, duas foram trabalhar em casa de família e a outra mais velha ficou por conta dos meninos para eu ir trabalhar. Meu primeiro serviço foi vender carnê do Silvio Santos. E ganhei dinheiro
P/1 – E como é que a senhora arrumou esse emprego?
R – Um amigo nosso que falou que no Silvio Santos estavam pegando pra trabalhar. Aí eu peguei e fui pra lá, quando eu cheguei lá era registrada, tinha o salário e ganhava comissão. Eu falei: “É comigo mesmo!”. Agora eu saía de São Miguel até o Largo da Concórdia de ônibus porque ia na Rua Jaceguai que é o Silvio Santos lá. Eu ia do Largo da Concórdia pra Rua Jaceguai a pé, pra estar lá oito horas, pra sair numa perua com os vendedores. Os vendedores tudo chiques, as vendedoras tudo chiques, bonitas, arrumadas e eu, sabe Deus como. Mas ele é um homem que paga muito bem, então a gente tinha o dinheiro de comer só que eu não comia na rua, nos restaurantes que eles iam, eu ficava com meu dinheirinho pra comprar um pão, fazer um lanche e levar o dinheiro pra casa, pros filhos, o dinheiro do vale. Todo dia eles davam, que fosse cinco reais naquele tempo, eu nem me lembro. E era assim, você vendia o carnê, ainda hoje é assim, vende o carnê por aquele valor. A primeira prestação que aquela pessoa pagou, aí você ganha dobrado, você ganha uma comissão extraordinária, mas aquela primeira, foi confirmada a venda, confirmação da venda. Era uma beleza, eu só vendia confirmada. Porque eu contava a verdade, a mulher dizia: “Eu vou ganhar um carro?”, eu dizia: “Não sei, a senhora vai comprar o carnê e vai esperar a sua sorte”. Eu nunca disse: “Você vai ganhar um carro, você vai ganhar uma casa”, nunca disso. Elas iam na fé e pagavam. Quando eu ia receber eu sempre recebia quase o mesmo tanto do meu salário de comissão porque eu faço uma venda bem feita. Eu cheguei a ganhar dinheiro, nunca que esqueço, meu primeiro ordenado, quando eu cheguei em casa meu marido falou: “Poxa vida, tu ganhasse mais do que eu!” Eu trabalhei dois anos lá e, infelizmente, eu podia hoje ser uma pessoa muito bem aposentada. Tinha os inspetores e saía aquela mulherada, tudo. Eles vendiam dez, doze carnês de uma vez, mas eles não queriam saber se iam pagar nada, só pra dizer que vendeu e saiu, passar o dia todinho lá pra beira das praias, tudo e dizia que vendia os carnês. E eu ficava só naquela rodinha por ali, mas vendia bem. Ganhei muito dinheiro. Depois saí e fui vender bomba de poço no pico do Jaraguá. Vendi. Depois fui vender produto de limpeza nas casas, de uniforme, aqueles amarelinhos na rua, a gente vendia que era uma beleza. Mas a gente passou fazendo a propaganda, dando aquele produto especial, quando foi depois foi pra vender, quando passou pra vender botaram porcaria e a mulher não queria mais comprar . Depois fui vender chuva jangada, também era outra malandragem muito grande porque botava tantas peças e quando ia entregar não entregava a mercadoria, o povo se zangava. Aí fui vender cortina com um japonês. Nunca na minha vida tinha posto uma cortina , quando cheguei a mulher disse: “Eu compro, mas só se você por”. Eu falei: “Eu ponho”. Eu nem sabia como punha, mas eu entuchei lá a cortina. Mas não deu certo. Depois fui trabalhar na Credimodas que era pra vender roupa nas portas, enxoval. Pode acreditar, era um edredon, uma manta, um acolchoado grande, um jogo de cama, um jogo de banho, tudo pra você levar, carregar. Eu carregava. Ele mandava a perua levar no setor e lá a gente se virava pra vender, aí tinha que sair pra vender. Essas são as cartas que aconteceram na vida. Aí, deixava a gente lá e não podia vender nem pra homem, nem pra preto e nem pra empregada doméstica, só podia vender pra dona de casa com tudo muito bem feito. Só que a gente vendia num dia e no outro passava o fiscal pra saber se fez a venda bem feita. Chegasse e achasse uma casa muito bagunçada na frente não era pra vender. Era um horror, mas ele pagava muito bem, também pagava um salário e a comissão. Trabalhei, trabalhei, eu trabalhava, chegava. E fazia tudo pra vender pra não vir com aquelas coisas no ônibus de volta. Se não tinha que voltar no ônibus com aquilo todinho. Trabalhei uns três, quatro anos, mas ele era muito carrasco, muito carrasco. Aí quando foi um dia tava precisando de dinheiro, era até minha filha que precisava pra ir pra escola. Eu cheguei lá e falei: “Seu João, dá pro senhor dar um vale porque eu estou sem dinheiro” “Eu já dei vale, que vale é só dia 25” “Filha da mãe, tá bom”. E tinha uma morena que trabalhava comigo que era muito legal, a gente sai pra trabalhar sem ter o que comer, sem nada. Daí a gente foi eu falei: “Jordelina, hoje eu vou fazer uma sacanagem com aquele homem. Eu não vou roubar ele, mas vou aprontar”. Aí ela saiu de um lado vendendo e eu saí do outro porque era assim, cada uma fazia. Primeiro portão que eu bati não tinha ninguém, no outro tinha uma velhinha láááá no fundo do quintal, com uns pés de fruta assim na frente. Aí quando eu bati ela olhou assim pra mim, falou o que era, eu falei: “Cama, mesa, banho”. Ela falou: “Você tá sozinha?” “To” “Vem cá”. Eu fui, quando cheguei ela falou: “Minha filha, eu to precisando comprar duas cobertas, mas eu tenho medo de comprar porque às vezes passam uns homens aí e eu tenho medo. Mas de você eu compro”. Aí eu comecei a explicar como tinha que fazer a ficha porque era a prestação que a gente vendia. Ela falou: “Não, eu quero comprar à vista, to com dinheiro”. Eu falei: “É agora”. Em cada peça daquela ia marcada Credimoda e o preço, e era a roupa que eu sabia que na Rua 25 de Março não era nem metade do que ele vendia. Eu falei: “Hoje ele me paga”. A velhinha entrou, eu só rezando porque minha vida é rezar. Aí a velhinha saiu, o dinheiro tava cheirando a mofo. Olha, pelo preço que ele vendia era metade, você tá entendendo. Aí eu falei: “Louvado seja Deus”, fiz as duas rendas das duas peças mais pesadas que era a manta e o edredon, vendi as duas peças, saí, sabia a marca, todinho, tudinho direitinho. A manta era da Lobelia, com xadrez vermelho. Aí saí que saí doida atrás da neguinha lá. “Jordelina, nós vamos fazer uma coisa séria hoje aqui” “O que é?”. Vinha um ônibus que ia só até a São Judas e passava no Parque Dom Pedro. Você vai ficar aqui, se aparecer alguém você fala que eu fui entregar uma mercadoria e você tá me esperando. Eu vou no Parque Dom Pedro comprar as duas peças que depois a gente vende que o dinheiro que vai sobrar vai ser a metade, que ele vende muito caro. Tomamos pouco, era 90 reais cada peça e na 25 eu comprava por 30, 40, entendeu? Aí vim embora, peguei o ônibus. Cheguei na primeira loja, não achei, na segunda. Minha Nossa Senhora. Também se eu não achasse não tinha problema. Porque o dinheiro estava ali, eu punha a venda como eu tinha vendido, eu não fiz nada demais. Aí cheguei na loja, vi a colcha direitinho, direitinho. Quando eu perguntei e o moço disse o preço, eu não acredito. Aí comprei a manta que era xadrez vermelha, saí que saí doida, achei igualzinho porque era lá mesmo que ele comprava. Sei que pra encurtar a história, vamos supor que ficou 50 reais. Eu no ônibus, respirava, e medo dos outros. Aí quando cheguei lá a Jordelina tava sentada lá: “Eita minha filha, hoje nós vamos comer! Você tá com fome?” Aí sei que peguei. Sim, mas enquanto a velhinha entrou eu tirei as etiquetas e preguei na perna da calça porque se eu comprar outro eu tenho que por, se não vender, mas aquelas etiquetas não podiam sair dali, que era igualzinho. Levei as etiquetas, quando cheguei, as duas peças iguaizinhas, pus as etiquetas. Tive uma sorte tão grande que ainda vendi a manta depois. Mas aí saí com o dinheiro. Olha, a gente comeu, Jordelina falava assim: “Hoje a gente come”, a gente tomou guaraná até. Sei que a gente fez um belo de um lanche lá debaixo da árvore, foi trabalhar, ainda vendeu a roupa e levei dinheiro pra comprar as coisas pra casa. Meu filho, isso é uma história que vocês devem até dizer: “Que história é essa”. Mas pra dizer o que eu passei em São Paulo. E hoje, graças a Deus, eu sou feliz.
P/1 – E o que a senhora achava da cidade? Quando a senhora chegou com tantos filhos, sem saber direito para onde ir, depois a senhora aprendeu a vender, a se virar?
R – Achei muito acolhedora. Olha, eu perdi tempo de não ter vindo pra São Paulo nova porque se eu tivesse vindo com menos idade, com menos filhos eu tinha trabalhado e eu tinha estudado. Eu teria estudado, eu teria feito muita coisa. São Paulo é isso, você precisa pegar confiança nas pessoas, você precisa ser sincero, você precisa ter perseverança em tudo, fazer amizade. Porque é acolhedora. Agora existe muita coisa errada, muitas pessoas que fizeram fazer trair muito as pessoas. Tem, de tudo tem, você sabe. Mas eu estou aqui, você vai pra onde for, em São Paulo eu vou. O meu genro era, ele faleceu, ele era motorista, ele ia fazer uma entrega e falava: “Ó velha”, ele só me chamava de velha, “Ô velha, onde que é tal lugar?” “É assim, assim”, porque eu andei muito a pé. E você só aprende a andar na cidade se você anda a pé. Se você anda de carro não dá pra você aprender, mas tudo isso eu fiz e não sabia nada, nada. A minha filha ficou doente e fazia tratamento nas Clínicas, só Deus sabe como eu ia. Ia, sentava, ficava lá o dia todo e fui, enfrentava, enfrentava, tudo eu enfrentava. E eu sempre procurando aprender porque a gente não nasce sabendo.
P/1 – E a senhora disse que mora na Penha. Como é que foi essa saída, a mudança? A senhora continuou vendendo?
R – Sim, aí depois da gente lá nessa dificuldade que eu falei, meu marido começou a trabalhar, minhas filhas começaram a trabalhar, e a gente morando sempre lá no Jardim Robru. Depois a minha filha trabalhava aqui na Concórdia ela falou: “Não mãe, lá na Penha eu vi uma placa de uma casa pra alugar e a gente vai embora pra lá porque aqui não dá pra gente morar, tá um lugar muito difícil, vamos embora pra lá”. Meu marido não queria muito, mas a gente veio morar na Penha. Já alugou uma casinha melhor e aí a gente ficou lá, morei lá 25 anos, quando a mulher quis vender a casa, eu imaginei: “Pronto, agora eu to ferrada porque a casa é num lugar bom e eu já faço parte dessa comunidade”, comecei a participar da igreja, a gente já tinha feito um ambiente maravilhoso. Eu falei: “E agora, o que a gente vai fazer?”. Ele falou: “Olha, a senhora vai dar a resposta se compra ou senão vai ter que desocupar”. Eu falei: “Tá bom”. Meu genro que morava em casa alugada, eu falei: “O que a gente vai fazer?” “Só não vamos vender os filhos, mas o que tiver agora a gente vai vender”. E vai comprar e vai comprar. Ele falou: “Vamos comprar, vamos comprar”. Porque são duas, é uma casona grande, tem uma casa embaixo, um sobrado em cima. Aí a gente juntou, ele juntou, vendeu, eu vendi também um telefone que foi vendendo, vendendo, vendendo e a gente comprou a casa. Aí fiquei na casa própria. Quando chegou na hora de pegar faltavam uns 900 reais, uma coisa assim, aí eu liguei pros meus primos pra ele emprestar o dinheiro e ele disse que me emprestava. Eu digo: “Eu não posso perder assim”, porque meu marido não tem coragem de fazer isso, tomar emprestado, comprar fiado, ele não faz. Mas eu sempre fui lá e cima. Aí peguei, a gente comprou a casa. No dia que a gente foi pra passar a escritura, quando chegou lá a dona, já bem de idade, ela olhou assim pra mim, eu estava já numa casa, mas a outra estava fechada. Aí ela pegou a chave, fez bem assim: “Isso aqui a senhora vai receber como um troféu, eu nunca tive um inquilino desses, a senhora nunca me pagou um aluguel atrasado. A senhora é merecedora de ser dona daquela casa”. Aí pronto, foi trabalhando, foi trabalhando, trabalhando. Mas com pouco tempo também eu tive um desgosto muito grande, a minha caçula, com 12 anos, ela sofreu um acidente num domingo de Páscoa e foi embora. Então, eu também passei muito, até hoje sinto, mas é o que aconteceu. Era um domingo de Páscoa, ela estava na casa de uma amiga e o dono da casa sempre levava as crianças pra passearem no Piqueri, ele saiu e quando chegou na Marginal um carro bateu, foi um tempo que tinha umas madeiras lá que iam fazer não sei o que lá. Morreram seis pessoas e a minha filha foi junto. Foi uma tragédia muito grande que eu passei. Era o homem, a mulher, a mulher estava grávida de uma bebezinha, e a minha e mais duas coleguinhas dela da mesma idade, que estudavam juntas. Foram seis pessoas mortas, então foi um dia de terror, até quando recebi era um domingo, na Páscoa. É tão interessante as coisas que acontecem. Eu tinha ido com ela fazer compra, tinha um mercado lá e eu fui fazer compra no sábado com ela, aí comprei os ovinhos pra eles. Aí, quando chegou tinha um carrinho de cachorro quente e naquela época eu tava ainda em muita dificuldade, era com muita dificuldade as coisas. Aí eu vi que ela olhou assim, eu falei: “Você quer um cachorro quente?” “Não mamãe, não quero não, a senhora vai comprar as coisas”. Falei: “Não, você vai comer o cachorro quente”. Peguei e mandei fazer o cachorro quente pra ela e a gente foi embora. Quando chegou em casa à noite a criançada, que eram todos pequenos, falaram assim: “Quero meu ovo” “É pra comer. Come hoje, amanhã, deixa pra lá, come filha, pode comer o seu”. E quando foi de manhã ela levantou e ela falou: “Mãe, eu vou pra casa da Luzia”, a mãe do meu genro, “vou almoçar com ela”. Falei: “Tá bom”. Ela saiu toda arrumadinha. Umas três horas da tarde tinha missa lá na Barraca, a gente começou a comunidade lá na Barraca. E eu saí. To chegando assim, aí, deu assim, foi três horas da tarde, me deu assim uma agonia, eu tava ali, mas eu tava agoniada, eu tinha que sair, eu tinha que sair. Aí eu saí. Quando cheguei na esquina só via gente corria prum lado, corria prum outro. Eu falei: “Gente, o que tá acontecendo? Brigaram no campo, o que foi?” Aí a moça falou: “Não, a senhora não tá sabendo? Teve um acidente e a sua filha tava junto”. Minha Nossa Senhora. Aí daí a pouco saiu da casa do moço, todo mundo gritando, quem tava no carro morreu todo mundo. Aí eu fui pra casa e daí a pouco o Calazans chegou, o padre, e falou: “Olha, você vai pra lá agora que ela vai ser velada lá na igreja. Se os outros também quiserem ser velado pode ser, agora a Dora vai ser velada na igreja”. Aí levou ela pra lá, então foram cuidar. Eu falei assim, porque não tem como você ter amigos, não tem. Aí tinha os amigos que a gente convivia com eles, o Roberto, eu falei pra ele ainda; “Pega o cheque, leva. Eu não vou, eu não quero ver ela morta lá na rua. Não quero. Leva o cheque que vai ter que comprar as coisas.” Aí o Roberto bateu assim no meu ombro e falou: “Você já tem muito o que sofrer, não fale em dinheiro que a gente vai assumir”. Eles foram embora pra lá, eu fui pra casa paroquial, passou a noite todinha no telefone porque tava no IML. Seis corpos (bate palmas) não é brincadeira. E aí, vinha. Olha, a comunidade, realmente, me ajudou a passar o calvário, viu? Eu ia pra lá. Também, quando no outro dia todo mundo pensava que eu tava com diabetes, eu bebia água. Eu nunca vi beber tanta água, eu só bebia água e andava, andava, andava, eu queria andar, só queria andar. Aí quando fez seis horas da manhã ligaram que os caixões estavam chegando na basílica aí eu falei: “Eu vou pra lá. Agora eu vou”. Quando eu fui, chegando assim, o primeiro caixão branco, eram mocinhas, tudo, aí eu perguntei pro moço assim: “Quem é?” “A Maria das Dores”. Já tava na frente do altar, estavam seis mesas. Aí eu peguei na alça do caixão e fui até a mesa. Quando chegou lá que descobriu, aí foi pesado. Eu só olhei assim. Olhei, olhei, tava com a cabeça toda enfaixada porque foi tudo na cabeça. Ela não queria ir, disse que tava muito cheio o carro. Aí a mulher falou: “Ele leva no colo”. Foram as duas que morreram primeiro. Você acha? Quando é destino. Aí peguei. Também só fiz isso. Abri, saí, olhei os outros todos. O Davi, ele tava assim, como quem diz, me acuda, ele tava assim. Uma coisa, como que ele morreu angustiado. Aí eu fui lá pra Capela do Santíssimo, me sentei. Cheguei lá e falei: “Meu Jesus, eu quero ver minha filha no sacrário, sem dor, eu não quero ver ela no caixão. Porque eu só vou ter forças se eu pensar assim”. Aí foi, foi o velório, foi o enterro. E mesmo na estrada. Teve gente que não conseguiu chegar porque eram seis pessoas. O homem trabalhava numa fábrica, não tinha. E ninguém queria acreditar, e repórter e tudo. E no caminho, porque depois saiu, e o povo perguntava: “Qual foi o famoso que morreu?”. E ele respondendo: “Não foi ninguém famoso, era gente querida”. Teve gente que quando chegou lá já tinham enterrado os seis. Daí por diante continuou minha vida, mas eu sabia que os outros também precisam de mim e eu trabalho. Mas foi muita saudade, muita saudade. Porque 12 anos não é brincadeira, era muito apegada comigo. Aí passou, quando foi. Outra coisa também que eu fiz e que acho que me ajuda. Ela tinha começado os estudos, quando foi na semana peguei tudo, os cadernos dela, tudo, os livros todos dela, as roupinhas, os uniformes da escola e fui levar na escola. Quando eu cheguei lá eu falei: “Dona Emília, tá aqui”, ela também conhecia, tudo, as professoras. Ela falou: “Antonita, você tem essa coragem?”. Eu falei: “Minha filha, minha filha já foi, esses cadernos estão novos, tem muita gente que precisa, como ela também já precisou. Pra que eu vou guardar esse caderno? Dê pra quem precisar porque ela não precisa mais de nada daqui”. Passaram uns dias, eu encontrei uma menininha que ia pra escola, ela falou: “Ahhh tia, o caderninho da Dora agora é meu”. Então, a pessoa no mundo passa por tudo isso e, às vezes, se a gente for pensar, eu passo por isso, não acredita que Deus dá coragem pra passar.
P/1 – E a senhora comentou da participação da senhora na Comunidade Barracão. Fala pra gente como começou.
R – Nossa, essa foi muito, esta é muito comprida . A comunidade é assim, logo quando eu cheguei lá na comunidade, que eu nunca deixei a minha religião. E eu falei e todo mundo: “Não, em São Paulo não tem isso não, de ir à missa, ir pra igreja”. Falei: “Tem, em todo canto tem, e eu vou descobrir”. E eu comecei a ir na missa em Guaianazes, era até um padre que falava e eu não entendia a fala dele, mas eu ia todo domingo. Eu ia na feirinha e ia na missa. Depois quando eu mudei pra Penha eu falei: “Aqui tá mais ambientado, eu vou descobrir”. Aí começou essa minha filha falecida, todo sábado de tarde ela ia, chegava e dizia: “Mãe, eu fui na missa” “Onde que você foi na missa?” “Tem uma casa ali que no sábado de noite o padre vem celebrar a missa”. Eu falei: “Você tá indo pra missa ou tá indo pros crentes? Porque os crentes é que fazem isso”. Ela falou: “Não mãe, é missa mesmo”. Aí eu fui. Eu falei: “Deixa eu ir”. Aí fui, quando cheguei lá era perto da novena da Natal, era uma catequista que tava tendo uma missa lá. E era o padre João Carlos, um italiano. Nossa, fizeram aquela festa, o povo tudo era vizinho. Aí na hora ela já falou: “A senhora agora vai participar com a gente na novena de Natal. Vai mesmo”. Eu falei: “Ah, com muito gosto a gente vai”. Aí foi o Zezinho que era um ministro lá, no outro dia já foi me levar o livrinho da novena de Natal. E aí eu comecei fazendo as novenas, e a gente começou a fazer na casa. Aí tinha coordenador e vice-coordenador daquela comunidade. Aí logo saiu o vice-coordenador, aí eu fui a uma missa em outra casa, quando chegou lá o padre João Carlos falou assim pra mim: “Ahhh filha, é você mesmo. Ah, você participa mesmo, a dona Adélia já falou e você vai ser vice-coordenadora agora com a dona Nadir”. Eu falei: “Padre, eu vou participar, me põe pra fazer as coisas, mas não tenho capacidade pra isso”. E vai e vai, e sei que foi esse convite e depois eu tinha que ir pra Penha. No meio de padre, doutores, de pessoas tudo ali que já com mais possibilidade de assumir as coisas que eu, uma nordestina, analfabeta, pobre, misericórdia! . Aí quando eu cheguei fui participando e fui levando os problemas da comunidade pra lá porque ninguém levava. Um lugar de enchente, de fome, de miséria que era lá e ninguém levava os problemas pra lá. Eu comecei a levar e o negócio mudou. Teve um que um dia falou: “Mas você só traz problema”, eu falei: “Por quê? Só vem pra que por isso. Porque pra eu vir contar coisa bonita aqui, minha filha, isso não existe pra mim. Eu só conto coisa real. Não adianta eu chegar aqui, como hoje eu to aqui, dizer pra vocês que eu nasci num berço de ouro, o que eu vim fazer aqui? Eu só vim trazer problemas pra vocês ajudarem a resolver”. E aí eu comecei, comecei indo. Depois a coordenadora também saiu, me botaram pra coordenadora. Meu marido não era muito disso aí, ele era assim e depois você vê, a pessoa destrói. Tem pessoa que vem pro mundo pra destruir as coisas. Ele começou indo assim muito lento, aí um padre que gostava dele e tudo foi embora, saiu e outros disseram que tiraram o padre porque o padre, e que não era pra ele ir mais na igreja porque aquele padre era... Sabe, aquelas coisinhas assim? Ele vai, mas é meio assim. E eu assumi. Assumi, mas assumi pra valer mesmo. Aí ia nas casas, é um sacrifício, aí chegava naquelas casas, aquele povo pobre, pobre, pobre, pobre. Aquele monte de criança. Eu já trabalhava, fazia campanha, arrumava cesta básica, levava comida, levava roupa, ia arrumando um, arrumando o outro, e povo que não quer, quem não quer trabalhar já viu. E vai, vai, vai, aí veio um seminarista do Ceará. Quando ele chegou ele falou: “Não, a gente tem que arrumar um lugarzinho porque nas casas tá muito difícil porque as pessoas chegam, ficam até acanhadas”. E realmente era. Aí tinham terminado o serviço do viaduto Aricanduva, passa lá pertinho e tinham deixado uns barracos. Eu falei: “É ali que eu vou agora”. Aí fui passando, tinha um barraco lá e eu falei: “Vamos pra esse barraco”. Aí tinha um senhor que morava perto. “É, mas isso daqui não sei” “Isso aqui tá abandonado. Eu não vou invadir, eu vou limpar e a gente vai fazer reunião aqui, tá bom? Pode arrumar o dono, quando ele chegar”. Sei que foi uma história longa, mas a gente fez um barraco, tirou o lixo de dentro, arrumou, carregamos a porta do lixo, fiz um banheiro de madeira, fizemos o barraco. Nesse barraco teve bodas de prata, bodas de ouro; teve casamento, teve batizado, teve tudo.
P/2 – Barraca?
R – O pessoal chama ‘meu barraquinho’. Inclusive se um dia vocês tivessem oportunidade de ver meu barraquinho lá desenhado. Então a gente ficou naquele barraco. E trabalhando, e trabalhando e trabalhando. Os padres também começaram a ver as dificuldades. Sempre o padre Calazans do nosso lado. Os outros vinham e iam embora, mas ele sempre nos acompanhando. E as enchentes? Horrorosas. Dava enchente, enchente tenebrosa. Deu uma enchente lá em 80 que na minha casa ficaram mais de cem pessoas. Porque na minha casa não dá enchente. Fica no mesmo bairro, mas é um sobrado que não dá enchente. Então todo mundo ia pra lá. Foi uma coisa que meus filhos depois diziam: “Não tem mais casa”. Porque ficou roupa, calçado, eles iam comendo. Porque mandavam a sopa, mandavam a comida, mas não tinha onde botar porque nem o barraco dava pra chegar. Então ia tudo lá pra casa, foi uma coisa séria. Aí passando isso um dia o padre Calazans fala assim: “Minha filha, tem uma pessoa anônima que quer dar um terreno aqui pra fazer um barracão maior pra vocês”. Isso foi uma benção! E eu sabia que tinha um senhor que ia vender o barracão, era uma oficina de carro. Eu saí louca. Quando cheguei lá, perguntei pra ele, ele falou: “Eu vou vender”. Eu falei: “O padre vai comprar e ele compra dinheiro à vista, tudo na hora. É ele quem vai comprar. Apesar que ele disse que não é pra falar pra ninguém que vai ser anônimo quem deu, mas era com dinheiro, não quero saber”. Aí corri porque nessa época não tinha nem telefone, nem nada lá. Aí fui pra lá: “Padre, pelo amor de Deus vá logo porque senão o outro vai comprar” . Era a minha ansiedade. Comprou. Meu filho, uma sujeira, uma sujeira. É enorme, enorme, que hoje já tem até um salão de festas lá. Mas aquele terreno enorme, mas as paredes caindo, um horror. Aí graças a Deus ele comprou. Foi a maior alegria. E aí a gente começou a trabalhar com isso, trabalhar. Fazendo festinha, fazendo rifa. Olha, tudo, tudo, tudo. Foi arrumando, arrumando, arrumando, construiu um salãozão bonito, pintado, forrado. E daí por diante a gente foi dando continuidade, continuidade. Aí apareceu uma casa do lado também, ele comprou. E sei que hoje nós temos a sacristia, temos a sala de cataquese, temos a igrejinha, temos Sacrário Santíssimo lá que foi uma emoção muito grande também, que eu tive minhas alegrias também quando passou. Quando saí do barraco e a gente foi pra esse outro salão maior, que foi inaugurado como Centro Comunitário, não ficava o santíssimo, só no domingo quando ele vinha e trazia. E aí um dia oito, foi a missa de Nossa Senhora, quando eu ia saindo, ele pegou assim... Tá lá, uma caixinha assim de madeira. Ele falou: “Vou lhe dar mais uma responsabilidade, você agora vai levar o Santíssimo pra lá”. Gente, eu tremia, eu ficava assim, eu saía que nem sabia que era eu. Aí a gente colocou lá numa mesinha e daí já ficou o Santíssimo lá. Com o tempo compramos um sacrário maior, mas aí por causa das enchentes, que dava enchente também, aí já ficava mais perigoso, aí ele falou: “Vamos comigo, vamos comprar um”. E quando chegou lá ele falou assim. Eu falei: “Padre, é o que o senhor quiser, eu não posso dar opinião”. Ele falou: “Não, dê uma opinião”. Eu falei: “O senhor quer mesmo uma opinião? Então compre um embutido que aí não tem perigo de enchente” . Aí ele comprou, está lindo, alguma hora vai ter oportunidade de vocês verem, então a minha vida é aquilo lá, é’a comunidade, tem catequista, tem ministra da Eucaristia, agora tem um moço ensinando os meninos o judô lá e a gente vive ali trabalhando. Mas hoje mesmo, antes de vir pra cá, eu já fui lá mandar arrumar umas portas, mas sou eu quem administra lá.
P/1 – Falando desse hoje em dia, queria que a senhora falasse um pouco como é o seu dia a dia, o que a senhora faz? A senhora acorda e vai pra onde, como é que são suas atividades?
R – Agora você bateu numa ótima . Olha, o meu dia a dia, eu sempre levanto cedo, seis horas no máximo. Eu tomo meu café, tomo meu remédio da pressão. Faço algumas coisinhas em casa e saio à rua pra trabalhar. Eu vendo roupa, vendo pano de prato, vendo roupa de cama e mesa, vendo roupa de pessoa. Vou pra cidade, vou lá pra Concórdia, compro e vendo. Hoje, graças a Deus, eu não preciso mais disso porque agora eu vou voltar uma coisa pra dizer como começou essa venda minha. Quando eu trabalhava nas firmas, como eu falei pra você, um dia eu cheguei em casa e a minha filha, essa que morreu, estava com um bilhete que a professora mandou me chamar lá, precisava ir lá. Quando eu cheguei lá ela fala assim: “Você tem que dar um jeito porque a sua filha só chora, só chora. Todas as reuniões as mães vêm, todas as mães estão aí e a sua filha ninguém vem, ninguém vem. Você trabalha, mas você tem que dar um jeito”. Eu falei: “Pode deixar que eu vou dar um jeito”. Cheguei na firma no outro dia falei: “Olha, dá minha conta. Eu vou tomar outra atitude, vou trabalhar de outra maneira”. Porque eu acho que eu adivinhava que ela ia viver tão pouco. “Eu recebi uma reclamação na escola, a minha filha tá ficando muito triste e eu preciso acompanhar ela. Mas eu vou arrumar outro meio”. Eu já tinha muita prática em venda, colei até etiquetinha na perna . Eu já tinha desde muito tempo prática, eu falei: “Vou vender roupa por minha conta e vou acompanhar a minha filha na escola”. Então aí eu cheguei, fui comprando, comprava duas, três peças, vendia, voltava, comprava. Fui pegando confiança nas lojas e fui vendendo, fui vendendo. Faz 35 anos que eu vendo roupas. Aquele tempo da vaca gorda. Eu sempre vendia bastante e tinha confiança de comprar com cheque, com essas coisas. Eu sempre procurei ser pontual e sempre tenho confiança. Eu sou uma pessoa feliz porque em todo canto que eu chegar eu compro. Aí eu comecei a trabalhar assim, por causa da reclamação da minha filha e que eu queria acompanhar ela. Comecei e até hoje. E naquela época eu fiz as freguesas, eu sempre saía, vendia, ia vendendo, vendendo. Hoje eu não preciso mais sair pra bater nas portas pra vender, eu mantenho a minha clientela, entendeu?
P/1 – E que tipo de roupa?
R – É roupa feminina, masculina. Roupa de cama, mesa e banho e agora eu faço muito pano de prato porque eu compro o pano, mando estampar e a minha filha põe o bico, fica muito bonito e eu vendo muito. É assim que eu faço. Aí eu volto, sempre venho pra casa, aí ajudo minha filha porque o meu esposo está com Alzheimer, doente, trabalhou muito tempo, mas está com quatro anos que está com Alzheimer e a gente precisa cuidar dele. A minha filha mais velha é quem vive comigo mesmo, que é viúva, é quem tá mais, mas até os meus netos dão banho nele, tudo. Ainda tem vez que ele toma por conta dele, mas ele não está bem. É uma doença traiçoeira e ele teve uma felicidade muito grande, ele trabalhou 22 anos numa firma e essa firma faliu. Ele também foi muito bem sucedido, era numa metalúrgica, mas ele trabalhava de jardineiro na firma. Ele fez plantio numa horta que passaram a dar almoço na firma por causa daquela horta, era muito querido, muito querido do patrão. E aí saiu, mas sabe, aí faliu, já viu o que acontece. Mas aí ele se aposentou. Quando ele se aposentou ele ficou muito nervoso, ficou desesperado, o que ia fazer, o que ia fazer, mas sempre um amigo aparece. E no Esportivo da Penha tem uns amigos da gente, inclusive da comunidade, aí eu falei pra ele: “Dá um jeito”. Ele falou: “O que ele faz?” “Ele é um ótimo jardineiro, ele põe a mão e parece que a planta já vai”. Ele falou: “Vou arrumar serviço pra ele. Tranquilo. Pode mandar ele que eu vou arrumar um serviço pra ele”. Fazem 18 anos que ele voltou a trabalhar lá. Agora quando ele ficou doente eu to vendo uma coisa que eu nunca vi, não sei se vocês já ouviram falar isso. Ele trabalhou, fizeram as contas dele, assim, fizeram todos os direitos e eles mantêm o ordenado dele todo mês. Eu nunca ouvi falar isso. Eles mantêm o convênio dele e o ordenado dele todo mês. É uma história pra gente falar, interessante. Também tem que falar o que é bom também. Acho que o tanto que a gente sofreu que no fim da vida tá tendo as vantagens. Ele recebe porque também é muito gasto, o convênio também, ele é uma pessoa tímida, pra atender pra lá jogado nos hospitais, a gente não tem coragem de fazer isso e não tem um acompanhamento nunca como você no médico particular que acompanha. Infelizmente não vem. A gente também mantém uma médica que cuida dele, todos os remédios, terapeuta em casa, tudo o que a gente pode fazer por ele a gente tá fazendo, mas a firma tá fazendo isso.
P/1 – E a senhora falou dos netos, filhos. Conta pra gente quantos são.
R – Ah, é uma beleza! Meus netos são uma benção. Eu tenho 16 netos e tenho 12 bisnetos.
P/1 – E quantos filhos?
R – Filhos são cinco.
P/1 – Fala o nome deles pra gente.
R – Sebastião Roberto e Severino Rogério. Maria Aparecida, Maria do Carmo, Maria das Graças, Maria do Socorro, Maria, são sete, cinco mulheres e dois homens.
P/1 – E como é pra senhora, depois de todo esse esforço, todo esse trabalho olhar pra essa família tão grande e todo mundo aí?
R – A maior felicidade. Falo a felicidade da minha vida é meus filhos, é minha família. Eu acho muito importante a família. Eu dou muito valor à família. Você vê os dedos das mãos da gente, não são iguais. Cada filho é um diferente do outro. Eu tenho as meninas, tenho os dois meninos, nenhum é igual. Mas todos eles têm carinho e você tem que ter eles, aceitar eles, cada um como ele é com o mesmo carinho. Eu tenho ouvido mãe dizer: “Ah meu filho mais velho, meu filho mais novo”, eu não tenho isso. A mais velha, mais nova, o mais do meio são iguais. O carinho dos meus filhos, eu estou sempre atenta naquele que está precisando mais de mim. Que tem os que estão mais estabilizados, agora tem um que tá precisando eu to sempre aí, continuo a mesma coisa com os meus netos. Tenho um neto que casou, ele ia pagar aluguel. E tem a nossa casa e tem uma pequena assim, que era um escritoriozinho, e formou-se uma casinha. Às vezes falam: “É a tua casa”, eu falo: “Pra que eu quero uma casa? Um quarto já está demais pra mim, uma casa desse tamanho”. Aí eu falei pra ele: “Você quer ficar morando naquela casinha ali, você vai morar ali pra você dali comprar a sua. Porque o dinheiro que você vai pagar do aluguel, você vai” “Ah vó, não sei o quê”. Arrumaram. Morou lá 11 anos, está num apartamento dele agora. Aí meu neto, o Léo, a casinha lá no canto, mas tinha de tudo lá, agora comprou um apartamento lá em Guarulhos, desse Minha Casa, Minha Vida, já foi pra la. Aí tinha um outro, meu neto também que é filho da minha mais velha. Morava ali no Tatuapé pagando mil reais de aluguel foram condomínio. Aí eu falei: “Vou falar com o Ricardo”. Falei: “Ricardo, vou falar uma coisa pra você, eu sei que a vó não tem tanta coisa pra oferecer, é casa de fundo, assim, assim, mas você viu o que aconteceu com o Alexandre. E se você quiser economizar esses mil reais, você vai lá. Vai morar naquela casinha e vai fazer a mesma coisa. Você combina com a sua mulher”. E ele tá lá. Um dia desses a mulher dele, também é muito trabalhadora, tem dois filhos, um dia desses ela falou: “Mas dona Socorro, que luz foi da dona Antonita. Já pensou como tá tudo difícil agora, escola dos meninos, tudo. E agora esse dinheirinho”. Estão lá morando.
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