Projeto: Memória Petrobras
Depoimento de Liomar Colares
Entrevistado por Márcia de Paiva e Murilo Sebe
Local de gravação: Betim, MG
Data: 26 de agosto de 2004
Realização Museu da Pessoa
Código do depoente PETRO_CB480
Transcrito por Andréa Penna
P/1 – Bom dia! Nós gostaríamos de começar essa entrevista perguntando seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Meu nome é Liomar Malaguti Colares. Nasci em Belo Horizonte, em 22 de dezembro de 1949.
P/1 – Liomar, conta pra gente como você entrou pra Petrobras, o que você fazia antes.
R – Antes de trabalhar na Petrobras, eu trabalhei na Cemig durante oito anos, depois eu tive uma pequena empresa, eu trabalhava com café.Teve um concurso na Petrobras, eu me inscrevi nesse concurso, fui aprovado. Eu tinha um problema, eu entrei em 1976, mas poderia ter entrado um tempo antes porque me faltou um documento lá, na época do regime militar. O documento que me faltava era o certificado militar, eu tinha perdido o certificado, aí me atrasou. Demorei dois anos pra entrar na Petrobras por isso, passei no concurso e fiquei 2 anos pra entrar até que conseguisse o certificado. Eu entrei em 1976, aqui em Belo Horizonte na obra de ampliação da refinaria Gabriel Pasquim, em Betim, né? Na ampliação da refinaria aqui.
P/1 – Conta um pouco dos locais onde você trabalhou aqui na Petrobras
R – Eu sempre trabalhei na área de material, na área de suprimento. Comecei, fiquei uns dois ou três meses emprestado pra refinaria ate que se estruturasse o setor de suprimento da obra de ampliação, depois eu passei pra obra de ampliação mesmo, propriamente. Fiquei nessa obra de 1976, trabalhava no final da área industrial aqui, numa área de armazenamento de tubos e conexões, trabalhei lá durante uns dois ou três anos, depois eu vim trabalhar no armazém, que é mais próximo das unidades industriais. Nesse armazém eu fiquei ate 1983, janeiro de 1983. No final da obra, num processo de...
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Depoimento de Liomar Colares
Entrevistado por Márcia de Paiva e Murilo Sebe
Local de gravação: Betim, MG
Data: 26 de agosto de 2004
Realização Museu da Pessoa
Código do depoente PETRO_CB480
Transcrito por Andréa Penna
P/1 – Bom dia! Nós gostaríamos de começar essa entrevista perguntando seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Meu nome é Liomar Malaguti Colares. Nasci em Belo Horizonte, em 22 de dezembro de 1949.
P/1 – Liomar, conta pra gente como você entrou pra Petrobras, o que você fazia antes.
R – Antes de trabalhar na Petrobras, eu trabalhei na Cemig durante oito anos, depois eu tive uma pequena empresa, eu trabalhava com café.Teve um concurso na Petrobras, eu me inscrevi nesse concurso, fui aprovado. Eu tinha um problema, eu entrei em 1976, mas poderia ter entrado um tempo antes porque me faltou um documento lá, na época do regime militar. O documento que me faltava era o certificado militar, eu tinha perdido o certificado, aí me atrasou. Demorei dois anos pra entrar na Petrobras por isso, passei no concurso e fiquei 2 anos pra entrar até que conseguisse o certificado. Eu entrei em 1976, aqui em Belo Horizonte na obra de ampliação da refinaria Gabriel Pasquim, em Betim, né? Na ampliação da refinaria aqui.
P/1 – Conta um pouco dos locais onde você trabalhou aqui na Petrobras
R – Eu sempre trabalhei na área de material, na área de suprimento. Comecei, fiquei uns dois ou três meses emprestado pra refinaria ate que se estruturasse o setor de suprimento da obra de ampliação, depois eu passei pra obra de ampliação mesmo, propriamente. Fiquei nessa obra de 1976, trabalhava no final da área industrial aqui, numa área de armazenamento de tubos e conexões, trabalhei lá durante uns dois ou três anos, depois eu vim trabalhar no armazém, que é mais próximo das unidades industriais. Nesse armazém eu fiquei ate 1983, janeiro de 1983. No final da obra, num processo de desmobilização, eu sai daqui, fui transferido para trabalhar na Relam. Na Relam eu trabalhei também subordinado ao serviço de engenharia, antigo Serviço de Engenharia, Segen, numa obra de construção de uma fabrica de parafinas, na Relam. Fiquei lá de janeiro de 1983 até novembro de 1983. Quando foi dezembro eu voltei pra Belo Horizonte, pra Regap, pra Betim aqui, já trabalhando no antigo departamento industrial Depin. Trabalhei no Depin de 1984 ate 1999. Foi quando eu aposentei, em 1999. Sempre na área de suprimento, na área de materiais.
P/1 – Desses anos todos de trabalho, o que foi um momento marcante, uma história marcante, que você destaca daqui da Regap?
R – A vivência nossa aqui, isso aqui é uma rotina, um dia-a-dia. A gente tá sempre lembrando de acontecimentos de colegas, de fatos. Quando eu fui convidado por um amigo meu, que nós trabalhamos juntos, o Amauri, pra vir aqui, eu falei “Puxa vida, eu nem sabia do que me lembrar, que coisas a gente pode contar?” Eu não sei que tipo de acontecimentos, de fatos teria mais interesse, que a gente poderia lembrar. É difícil a gente afirmar isso, eu não sei, muitas coisas acontece, a gente vive aqui dentro, os relacionamentos, os amigos, as pessoas, a gente acaba se envolvendo muito mais do que profissionalmente com as pessoas e acaba ficando íntimo das pessoas, vivenciando coisas que podem ter algum interesse ou às vezes não ter. Eu não saberia te dizer com certeza, coisas que aconteceram, historias de colegas nossos, historias engraçadas, eu não lembro só de engraçadas, historias às vezes mais tristes vivenciadas aqui dentro. Uma historia que aconteceu, uma historia que não é engraçada, mas é uma historia que eu me lembro, assim mais antiga: um rapaz aqui sofreu um acidente numa empilhadeira. A empilhadeira tem uma torre. E essa torre é transcópica, ela sobe e desce, e ela tem umas travessas. Aí esse rapaz, trabalhando num fim de semana, colocou o pé lá, nessa torre tem um travessão, ele colocou o pé no travessão, porque ele tava olhando o material na prateleira. Aí ele subiu em cima, colocou o pé, e o operador, manobrando a empilhadeira, olhou pra trás e não viu, desceu a torre, aí cortou 3 dedos do pé desse rapaz. Aí todo mundo ficou apavorado, o rapaz veio pro setor médico e o operador ficou muito nervoso também com isso. Aí ele chegou lá e “olha o que me aconteceu isso”, eles eram até muitos amigos, e “olha como é que aconteceu”, chegou lá colocou o pé dele, desceu, cortou o pé dele também. As duas pessoas no mesmo dia, na mesma hora, em seqüência. Uma reconstrução...
P/1 – Inusitada, né?
R – Inusitada. Tantas coisas a gente lembra, as brincadeiras que tinha. Aqui tinha um senhor, era até capitão reformado do Exército, trabalhou aqui dentro, chamava senhor Câmara. Era uma pessoa muito engraçada, muito querida, senhor muito pitoresco, cheio de historias. Talvez num programa desse tipo, ele fosse uma pessoa cheia de memórias, porque ele tinha muitas histórias. E todo mundo brincava muito com ele. E ele, na hora do almoço sempre fazia uns lanchinhos lá. Sempre fazia uns sanduichinhos para comer de tarde. Aí ele fazia os sanduíches e botava na gaveta. Um dia foi servido uma lingüiça frita na hora do almoço. Ele pegou uma lingüiça, colocou dentro de um pão, embrulhou e deixou na gaveta dele para comer a tarde. Aí o pessoal foi lá e descobriu, dentro da gaveta dele, o sanduíche. Abriu o embrulho e comeram a lingüiça, cortaram um pedaço de cabo de vassoura, poliram aquela vassoura, pintaram com pincel atômico e colocaram dentro do pão dele. Aí Seu Camara ficou uma fera. Ele era muito engraçado, nunca se aborrecia com as pessoas.
P/1 – Ele chegou a morder o cabo da vassoura?
R – Chegou a morder.
P/1 – Não quebrou os dentes?
R – Não, não. Brincadeira esse pessoal...As coisinhas que vão acontecendo...Deixa ver o que mais? É meio difícil. A gente fica lembrando das coisas...
P/1 – Liomar, você também passou pela ampliação, você estava contando aqui.
R – Passei. Passei. Exato.
P/1 – O que você pode contar para a gente dessa obra de ampliação. O que foi que você pegou ampliando?
R – Quando eu entrei na Petrobras, a ampliação estava no princípio ainda. Estava fazendo a Unidade de Craqueamento II e Destilação II, porque só tinha uma Unidade aqui. Foi uma época de muita atividade, de muito material. Naquele tempo, a Petrobras comprava o material e armazenava ele todinho antes de começar, para poder não ter problema. O mercado fornecedor não era tão confiável como é hoje. Não é que ele seja tão confiável, mas o atendimento era mais precário. Tinha muito trabalho. Muito trabalho físico mesmo de armazenamento. Volumes imensos de materiais. Quando fizemos um parque lá embaixo – hoje a gente nem vê isso – tubulações, grandes quantidades armazenadas. A Petrobras hoje tem um sistema de fornecimento contratado que é, praticamente no tempo de uso. Mas os estoques eram muito grandes. Então, a gente trabalhava muito com isso. Foi esse o processo. A gente trabalhou durante alguns anos armazenando material. E durante a obra de ampliação, nós tivemos uma interrupção temporária por questões orçamentárias da Empresa. Ficamos, durante uns seis meses, praticamente sem fazer nada porque parou de comprar tudo. A Petrobras, não sei se direcionando os recursos para outros empreendimentos, outros interesses da Empresa, a obra aqui parou. Nós ficamos aqui seis meses praticamente só atendendo necessidades pequenas, rápidas. Foi uma retomada de fôlego para poder retomar depois. Essa obra foi um aprendizado para todo mundo, para mim, principalmente, que entrei aqui e não conhecia nada de material. Aprendi muito. Muitas pessoas competentes. Muitas pessoas tinham conhecimentos técnicos que me passaram isso de forma muito amiga, muita generosa até. E esse tempo que eu trabalhei aqui, as pessoas com quem eu convivi, até hoje a gente tem relacionamentos de amizade até fora da Empresa. Acredito que foi muito proveitoso para mim. Eu aprendi muito mais de material durante esse tempo dessa obra do que depois. Depois, a gente foi só aperfeiçoando, conhecendo um pouco mais, procurando aprofundar. Mas o tempo da obra foi um tempo maravilhoso. Eu acho que até 83 foi um tempo de muito trabalho, mas altamente gratificante.
P/1 – Você falou da parada da obra em função da situação financeira da Empresa. Você acha que existe uma distribuição de recursos para as Unidades por igual ou isso se dá como?
R – Eu acho que uma Empresa do porte da Petrobras tem um planejamento estratégico que ela procura cumprir. Mas acontece que o próprio mercado é quem dita as regras de uma Empresa e, coitada, ela tem que atender o consumidor e o cliente da Empresa. Então, de repente você faz um planejamento e, de repente, ela necessita redirecionar recursos ou redirecionar a mão-de-obra e priorizar algum empreendimento. Isso é que eu acho que aconteceu. Agora mesmo está acontecendo aqui. Nós tivemos um projeto, em fase até adiantada, com alguns equipamentos já contratados o fornecimento, e até uns já entregues, e que teve que ser adiada a implantação, a implementação desse projeto, que é o Revap do (FCCII?). E nós temos alguns equipamentos já comprados aí, em virtude de necessidade, de conjuntura de mercado, a Empresa às vezes direcionada recursos dela porque ela precisa fazer isso.
P/1 – Liomar, dentro dos 50 anos da Petrobras, o que você destaca da Empresa?
R – A Petrobras, para mim, sempre representou a luta do povo brasileiro. Eu conheço a historia de petróleo por ler. Um dos primeiros livros que eu li chama-se “O que sabe você sobre petróleo?” Gondim da Fonseca, se não me engano, é o nome do autor. Ele falando sobre Petrobras e sobre petróleo. Eu nem trabalhava aqui ainda. E depois a gente conhece a Empresa, conhece as pessoas, o sistema de funcionamento, sabe a relação que ela tem com os empregados, com as pessoas, com fornecedores, com contratados. A Petrobras sempre foi uma Empresa assim. Para mim ela representa muito do que é o brasileiro. É muito calor humano, muita disposição para luta, muita determinação. A Petrobras para mim sempre foi o símbolo do brasileiro, da força do brasileiro, da determinação de buscar o petróleo quando todo mundo acreditava que não tinha. E ela foi fundada – anteontem mesmo foi aniversário da morte do Getúlio Vargas – e eu fiquei tão apaixonado quando eu li esse livro que eu decorei a carta testamento de Getúlio Vargas. E até hoje eu ainda sei trechos dela e achava interessante isso porque ele cita a Petrobras na carta testamento dele. E toda a resist6encia que teve contra a criação da Petrobras, a formação do monopólio estatal do petróleo, foi vencida com o êxito e com o sucesso da Petrobras.
P/2 – Bom, Senhor Liomar, durante esses anos que teve trabalhando aqui na Petrobras, o senhor era filiado ao Sindicato?
R – Sou. Sempre.
P/2 – Desde quando?
R – Desde de 76.
P/2 – E por que o interesse, logo na entrada na Petrobras, de se filiar ao Sindicato?
R – É um fato interessante. Eu antes de trabalhar na Petrobras, trabalhei na Cemig. Quando eu saí, o meu acordo foi homologado no Sindicato. Eu era sindicalizado na Cemig também. Eu tive, durante o tempo que trabalhei na Cemig, contato com uma pessoa que me influenciou muito politicamente na forma de pensar. Porque ele era uma pessoa extremamente inteligente. Um cara bastante lido, uma pessoa muito inteligente mesmo. Eu tinha um respeito muito grande por ele. E essa pessoa me influenciou muito. Esse moço tinha uma formação de esquerda. E eu, rapazinho, me entusiasmei com as idéias dele. Gostava muito. Lia muito sobre esses assuntos. Então eu fiquei no Sindicato na Cemig durante muito tempo. Quando eu saí, o meu acordo foi homologado pelo Sindicato. Depois que eu saí, eu fiquei sabendo que tinha direito a receber um dinheiro a mais, e esse dinheiro estava até sendo revertido para os funcionários da Cemig. Puxa vida! O Sindicato homologou o acordo e não se preocupou com isso. Eu fiquei até um pouco desiludido com Sindicato com isso. Quando eu entrei aqui na Petrobras, tinha um Senhor que era diretor do Sindicato, acho que já é falecido. Chamava-se João Mendes. Ele me chamou, e a gente conversou. “O Senhor quer entrar para o Sindicato? Eu vim aqui para o senhor se filiar.” Aí eu disse: “Olha, eu não sei. Tive uma experiência com o Sindicato que não foi positiva.” E nós conversamos bastante. “Cada Sindicato é uma coisa.” Aí eu resolvi me filiar. Me filiei, mesmo porque o Sindicato é a forma do trabalhador conversar . Não dá para o trabalhador chegar e procurar uma diretoria, uma alta gerência, alta administração e ter um contato mais efetivo. E a forma do trabalhar se comunicar com a Empresa é o Sindicato. Isso é um aspecto. Outro aspecto: eu sempre acreditei que o Sindicato tem uma força de reivindicação muito maior, claro, por ser uma Instituição organizada do que um grupo de funcionários reivindicar alguma coisa. Então eu sempre fui sindicalizado por isso. E quando saí daqui quando aposentei, quer dizer, o tempo todo que eu tive contato com a Petrobras, eu fui sindicalizado. Achei interessante, foi uma decisão acertada.
P/2 – Mas o Senhor exerceu algum cargo?
R – Não. Nunca fui diretor do Sindicato.
P/2 – E, durante esse período que o Senhor foi sindicalizado, teve algum movimento de luta do Sindicato no qual o Senhor se envolveu que foi importante? O Senhor se recorda?
R – Sim, sim. Eu participei de algumas greves aqui na empresa. Participei de uma greve de 33 dias. Foi a única greve que teve parada de produção aqui na Regap e eu participei dessa greve. Fiquei 33 dias de greve. Teve outras também, de uns 14 dias. Eu era sindicalizado. Quando a gente participa de algum movimento, entra com um temor muito grande, porque a gente tem família, as conseqüências disso podem ser desastrosas. Mas até por uma questão de coerência com a forma de pensar, eu dizia: “Não posso ficar de fora. Tenho que tomar uma posição.” Essa greve, por exemplo, que nós tivemos de 33 dias, o problema foi muito mais do Governo Federal do que da Empresa. A Petrobras é uma Empresa estatal, é controlada pelo Governo Federal, então ela é impedida de tomar decisões que às vezes podem beneficiar muito mais os funcionários, em virtude de política econômica, em virtude de política mesmo, de política do Governo Federal. Então, por isso, a Petrobras na época tinha dado um aumento depois voltou atrás. Teve que recuar porque o Governo Federal exigiu que ela não desse esse aumento. Foi uma coisa assim. E tiveram muitos movimentos que a gente participou. Não tem todos, mas em muita reunião do Sindicato, principalmente em época de campanha salarial.
P/2 – Mas nesse período que o Senhor esteve na Petrobras e até mesmo agora, como aposentado, mas ainda tendo um forte vínculo com a empresa, como o Senhor vê a relação do Sindicato com a Petrobras?
R – Olha, hoje eu acredito que, não só o Sindicato daqui, mas a própria FUP – que é a Federação dos Petroleiros, mais ligada ao PT, ajudou a eleger o Presidente da República, que é o controlador da Empresa, em última instância, em última análise – então, o Sindicato hoje talvez não tem mais a, não é força, não, a força continua a mesma, porque a força quem faz é a base, isso eu acredito, ele era muito mais antagônico aos interesses do Governo Federal do que é hoje. O sindicato hoje é mais conciliador, procura mais os acordos. Eu acho que o sindicato consegue mais assim do que da forma que era. Da forma era ele era mais combatido e era muito mais massacrado. Ele pode não estar conseguindo tudo o que quer, pela conjuntura do País, pela situação que nós vivemos, mas eu acho que melhorou. Nesse aspecto, melhorou o relacionamento sindicato-empresa. Está mais positivo, dá mais pra conversar, dialogar mais.
P/2 – Quando e como o Senhor se aposentou aqui na Petrobras?
R – Aconteceu em 1999. Eu tinha interesse em até continuar um tempo maior. Eu queria ficar até 35 anos. Mas a gente estava com medo do Fernando Henrique Cardoso mudar a legislação. Ele conseguia tudo que ele queria no Congresso, tinha muito poder político no Congresso. Então, se ele mudasse a legislação, eu não conseguiria aposentar. Em vez de eu ficar mais quatro, cinco anos, teria que ficar mais 10, 12. Estavam falando em aposentadoria só aos 65 anos. Então eu falei assim: “É melhor sair agora, porque pelo menos fica garantido isso.” Eu saí pela conjuntura do momento. Eu não tinha intenção de me aposentar em 1999. Eu saí pelo temor mesmo de não conseguir me aposentar num prazo curto ou médio mesmo.
P/2 – E o que o Senhor acha que mudou a vida do Senhor depois de ter se aposentado?
R – Eu aposentei, fiquei dois anos em casa, porque eu aposentei em 1999 e só voltei a trabalhar em 2001. A princípio, eu queria sair. E quando você está para aposentar, é uma expectativa, você fica até ansioso esperando o dia chegar, esperando a carta do INSS. No dia que eu recebi essa carta, rapaz, eu fiquei triste, aborrecido, porque tem muitas pessoas que você convive aqui durante uma vida e se gosta das pessoas e não é a mesma coisa chamar as pessoas para ir na sua casa. O ambiente, o clima, aqui é um lugar em que você está com as pessoas, que você convive, é diferente. Eu saí, aí fiquei triste, fiquei voltando aqui uns 15 dias, depois duas vezes por semana, depois um mês, dois meses. Mas depois fui conseguindo me afastar. Fiquei em casa, sou muito de cozinha. Então eu ficava fazendo comida todo dia. Esses dois anos pra mim foram os dois anos que eu senti mais falta. No princípio a falta foi maior, uns três, quatro, cinco meses. Uma falta das pessoas e do ambiente. Depois você vai se ambientando, acostumando a fazer isso, acostumando a ficar em casa, arrumando outras atividades, outras formas de passar o tempo, de lazer. Eu comecei a mexer com outras coisas também.
P/1 – E quando o Senhor decidiu retornar?
R – Foi logo no princípio da implantação do SAP, do sistema R3 da SAP. Um amigo nosso, supervisor de suprimento, me chamou, me ligou na minha casa, me disse: “Você quer voltar? Nós estamos precisando cadastrar uns itens aí. É um trabalho de cadastramento que deve demorar uns 6, 8 meses.” Eu disse: “Pra mim, tranqüilamente. Eu posso voltar. Eu gosto.” Eu já tinha descansado demais, já estava enjoado de ficar à toa.
P/1 – E foi boa essa volta?
R – Nossa! Maravilhosa! Minha esposa falou: “Você mudou completamente depois que você voltou a trabalhar”. Você fica mais sossegado, mais tranqüilo, o humor muda. Nem é só a parte econômica, é claro que ela tem um peso, dinheiro é uma coisa muito boa, mas a parte emocional é maravilhoso...
P/1 – E o seu trabalho agora?
R – Eu fiz esse trabalho pro SAP até 2001. Até sete de janeiro de 2001 eu trabalhei aqui. Aí saí em janeiro, fiquei fevereiro e março. Quando foi no dia 26 de março de 2001, eu voltei e fiquei mais um mês no suprimento da Regap mesmo. E depois eu entrei para o IRR, que é a obra da implementação da unidade de tratamento de diesel, nova HDT – hidro-tratamento de diesel.
P/1 – O Senhor está enfrentando uma nova ampliação?
R – É, uma nova ampliação. E é o mesmo antigo (CG?), a engenharia que chama, né? E é um pessoal que já tem uma identidade entre eles muito grande, porque eles normalmente saem dos locais de origem e ficam andando pelo Brasil, trabalhando em obras pelo Brasil. Então as pessoas acabam se relacionando entre eles mesmo. Chegam nos lugares, não conhecem ninguém, então as famílias ficam amigas, começam a se relacionar ali mesmo. Então você acaba ficando amigo de todo mundo. É um clima diferente.
P/1 – Senhor Liomar, gostaria de perguntar o que o Senhor achou de ter participado dessa entrevista da Petrobras, para fazer o Projeto Memória com o acompanhamento do Museu da Pessoa.
R – Olha, eu acho que é importante pra uma empresa do tamanho da Petrobras que ela preserve a história dela. Esse projeto eu acho muito interessante. Puxa vida! É tanta coisa na cabeça de tanta gente. Tem pessoas que têm talento para contar casos, histórias, e essas pessoas estão todas aí. Às vezes você conversa com o sujeito e ele te conta tanta coisa, e depois você não se lembra. E é a história delas que tem que ficar, a gente, não. Às vezes eu lembro de uma coisinha ou outra. Possivelmente, depois eu vou me lembrar: “Puxa, podia ter comentado, falado sobre isso!” Depois acaba esquecendo. Mas tem pessoa não, que é uma enciclopédia. Ele é a própria história. O cara chega, lembra de tudo, sabe de tudo, nomes, pessoas, datas, tudo. Você não pode perder isso, né? Isso faz parte da história da Petrobras e isso também é Petrobras. Isso também é o nosso povo. Esse povo sofrido, mas guerreiro.
P/1 – O Senhor gostou de ter participado?
R – Gostei muito. Estou muito satisfeito. Muito bom.
P/1 – Nós gostaríamos de agradecer a sua participação.
R – Eu que agradeço.
P/1 – Obrigada.
R – Obrigado vocês.
(CG?)
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