Nome do Projeto: Memória Petrobras
Depoimento de Leopoldino Martins
Entrevistado por Cláudia Fonseca e Murilo Selbe
Betim/MG
Betim, 25/8/2004
Realização Museu da Pessoa
Código do depoente PETRO_CB472
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Bom, gostaria de começar a entrevista com você dizendo para a gente o seu nome
completo, local e a data do seu nascimento.
R – Leopoldino Ferreira de Paula Martins, eu nasci em Governador Valadares, Minas Gerais,
no dia 31 de maio de 1961.
P/1 – Leopoldino, quando você entrou na Petrobras?
R – Eu entrei na Petrobras 20 de dezembro de 1984.
P/1 – Presente de natal?
R – Foi. Para mim, foi um presente de natal.
P/1 – Então, como é que foi, você fez concurso, como foi?
R – Eu iniciei aqui na Petrobras, na área da Petrobras, em 83, trabalhei na empreiteira, em maio
de 83, eu entrei aqui para dentro da Petrobras, trabalhei em várias empreiteiras, vivi a vida que
os companheiros de empreiteira passam pela vida de hoje e que antes era bem pior e depois
houve um concurso para a Petrobras no setor da manutenção complementar, eu fiz o concurso e
fui aproveitado e passei no concurso e ingressei na Petrobras em dezembro de 1984.
P/1 – E na empreiteira, que atividade que você tinha?
R – Eu era supervisor da empreiteira e fiz o concurso para oficial de manutenção
complementar, que era o antigo (Ceple?) que existia, que era da Diman, antiga Diman, que era
divisão de manutenção.
P/1 – Porque a sua formação é de...? Que você fez?
R – Eu fiz curco técnico e depois eu fiz o vestibular para engenharia. Fiz o primeiro período lá
em Governador Valadares mas, devido as condições financeiras da minha família eu vim tentar
emprego aqui, em Belo Horizonte.
P/1 – E quando é que você mudou para cá? Que idade você tinha?
R – Eu tinha 22 anos, vinte dois anos e entrei na Petrobras com 23 anos.
P/1 – Mas, quando você de Governador Valadares você já vem para cá pensando em Petrobras?
R – Não. Eu vim para tentar emprego em várias empresas. E consegui na empreiteira aqui
dentro da Petrobras.
P/1 – E essa empreiteira ela fazia o que, especificamente. Que atividade ela desenvolvia?
R – Ela fazia serviços de manutenção aqui dentro da Petrobras. Serviços da parte de
caldeiraria, parte de limpeza de tanque, essas coisas todas, que era a Convaço, uma empreiteira
lá de Ipatinga. Que eu já havia trabalho nessa empresa na Siderúrgica Belgo-Mineira, em
Molevade. E, aí, devido ela estar aqui dentro eu vi pelo jornal que a Convaço tava aqui dentro
vim e, estava precisando de supervisor, ingressei na Convaço que era uma empreiteira da região
lá de Governador Valadares.
P/1 – Quando você entra na Petrobras você vai fazer uma atividade diferente da que você fazia?
R – Não. Eu fiz a mesma atividade. O concurso que eu fiz para a Petrobras foi o concurso
dentro daquilo que eu já trabalhava na empreiteira, que era na manutenção, na manutenção
complementar.
P/1 – Então você não teve dificuldades nessa passagem?
R – Não. Inclusive era no próprio setor que eu trabalhava da empreiteira que abriu o concurso
e que eu passei no concurso para Petrobras.
P/1 – Quer dizer que essa atividade deixou de ser terceirizada, é isso?
R – Não. Ela manteve a terceirização. A Petrobras é que abriu mais concursos. A Petrobras é
que abriu concurso para essa área, mas continuou terceirização nessa atividade.
P/1 – E nesse teu período aí são 20 anos de Petrobras, é isso?
R – Vou fazer 20 anos agora no final do ano, em dezembro de 2004.
P/1 – E esse período todo de 20 anos, que lembranças que você tem da Petrobras?
R – Lembranças que eu tenho é do início meu na empreiteira, das dificuldades que nós
tínhamos, não tínhamos transporte nas empreiteiras, não tínhamos comida. Você teria que
trazer comida de casa, esquentar a comida em algumas válvulas, tinha uns lugares que a gente
tinha que colocar as marmitas, esquentar. Eu, às vezes, até os companheiros da Petrobras,
muitos companheiros levava comida para a gente, no restaurante serviam a gente. E, as
dificuldades, não tinha uniforme; é... vestiário também, um vestiário era um banho frio,
naquela época; transporte, que eu já disse; era pouco, algumas empreiteiras forneciam comida,
outras não forneciam, algumas forneciam uniforme, não forneciam. Mas, eu peguei, claro que
eu não tinha uniforme, aí a gente teria que depois ver questão de uniforme, a empreiteira vendia
o uniforme para a gente. Essas coisas todas que foi o início meu na Petrobras, que eu nunca
vou esquecer. Que é a minha passagem que eu passei pela empreiteira e hoje, eu como
sindicalista, vejo a situação dos companheiro da empreiteira que são explorados ainda,
continuam explorados. Melhorou? Melhorou, mas a gente defende que esse companheiro,
como eu entrei na Petrobras, sejam também contratados da Petrobras. Porque hoje, na
Petrobras é mais segurança. Depois que eu entrei na Petrobras, que eu me considero, foi um
presente de natal, é a segurança que trás para você, para a sua família. E, aí me lembro do meu
companheiro Marco Melo, que depois nós dois entramos para a Petrobras juntos, no mesmo
concurso, dos companheiros da empreiteira. Tivemos companheiros da empreiteira que
trabalharam 25 anos na empreiteira e eram competentes, tinha todas as condições para ser
funcionário da Petrobras, por conta de doença-de-chagas que ele não pode ser, foi impedido de
ser contratado pela Petrobras. Mas, serviu para ficar 25 anos aqui dentro, trabalhando. E,
depois também, nós tivemo o caso desse companheiro que em 1995, coitado, ele perdeu um
filho num acidente aqui na Petrobras. Uma pessoa que, para mim, foi discriminado pela
Petrobras porque, ele não serviu para ser; passou no concurso da Petrobras nesse mesmo setor
que eu trabalhava, ele não serviu por causa de doença de chagas, mas para a empreiteira ficar
aqui dentro, ele serviu. Ele sempre sonhou em entrar na Petrobras, que é o sonho é de todos
que trabalham na empreiteira, é entrar na Petrobras. E ele tinha condições para isso e depois
em 1995 ele perde um filho dele aqui dentro. E depois disso, ele ficou mais um ano saiu daqui
e aposentou. Todos daqui conheciam.
P/1 – E, Leopoldino, você então é do sindicato?
R – Sou.
P/1 – Você é diretor do sindicato?
R – Sou diretor do Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais.
P/1 – Desde de quando? Quando você entrou no sindicato?
R – Eu disputei uma eleição em 1987 e em 1990 já participei da diretoria do sindicato e estou
até hoje na direção do sindicato, um mandato que termina agora no ano de 2005, vão ter novas
eleições no sindicato.
P/1 – Mas, você se sindicalizou logo que você entrou na empresa?
R – Me sindicalizei logo que eu entrei na Empresa. Logo no início, eu me lembro que era o
Senhor João Mendes. Era um sindicalista, procurava a gente, sindicalizava e eu me sindicalizei
logo no início e participei da primeira.... aí, teve umas manifestações aqui na Petrobras, que era
as primeiras manifestações nossas, era passeata, aquela questão de usar adesivo. Em 1989 foi a
primeira greve, foi na greve dia três e quatro de maio contra o Plano Verão, contra a
implantação do Plano Verão do Governo Sarney. Foi a primeira greve que houve na Petrobras,
eu participei. Antes, teve vigília aqui dentro, eu participei. E teve a greve que nós tivemos
nove companheiros demitidos. E depois dessa greve, houve aquelas questões de buscar os
companheiros, e aí assisti, foi dois companheiros foram demitidos e que foram buscados lá
embaixo pela vigilância e retirados de dentro da refinaria. Um modo de intimidar os
trabalhadores. E, daí pra frente, houve mais greves. Me lembro de uma greve histórica_ a
gente não esquece_ foi a greve de 1994 e 1995, uma greve que nós fizemos, que paramos a
refinaria aqui em 1994. E a outra, em 1995, em maio, que foi uma greve mais tensa nossa, que
a gente não esquece aquela questão dos helicópteros das polícias tá dentro dos carros, dentro
dos ônibus da Petrobras. Impediam a gente de parar os ônibus, a gente não conseguia parar os
ônibus. Todos os ônibus da Petrobras, desde o início, isso também foi em 1989, entrava polícia
com o cacetete, não conseguia parar os ônibus, todos os ônibus. Tinham as rádio-patrulhas
acompanhando. Também me lembro, antes da greve teve uma reunião nossa lá no Sindicato
dos Metalúrgicos, em 1989, prá gente preparar a greve, que a gente estava lá reunido e tal.
Naquela época era uma época difícil, porque quando a gente fazia reunião, do lado de fora era
cheio de carro de polícia querendo saber o resultado das assembléia. As pessoas participavam
das assembléias e tinham medo de ficar ali nas assembléias. E quando saía tinha muita gente
querendo informação, qual o resultado das assembléia e foi essas questões. Foi uma das
grandes batalhas nossa foi a greve de 1994 e 1995. E também a questão de confiscar os bens
do sindicato. Foi época difícil para nós, foi essa época do governo Fernando Henrique que nós
passamos. Foi uma triste memória para nós enquanto trabalhador, que foi o confisco dos bens
do sindicato, o sindicato sem condições de manter, muita demissão. E aí essa categoria foi
muito solidária que foi a questão que nenhuma categoria, é depositar o dinheiro através da
conta-corrente que nós tivemos, o pessoal fazer depósito automático para o sindicato. Nós
tivemos que reduzir a mensalidade e criar as associações pra manter o sindicato. Muitos
continuaram sindicalizados mas, felizmente, nós tivemos aqui em Minas em torno de 65% de
grande e valiosos companheiros que mantiveram o sindicato por esse período. Depois, é que
conseguimos reverter as multas do sindicato. Me lembro ainda, a questão de transportar os
bens do sindicato que a gente tinha de esconder, porque senão a justiça ia bloquear. E,
também, um momento que um companheiro, Márcio Nicolau, na época era presidente do
sindicato, que ele foi o responsável fiel por todos os bens do sindicato, foi quando a gente
tentava conversar com outras pessoas pra ser o responsável, outras pessoas tinha até medo de
ser responsável. E o Márcio Nicolau, nessa época, se responsabilizou tudo pra ele e outros
tinham até receio, que era legítimo das pessoas. Então hoje, que eu vejo, essa importância aí
da entrevista dos trabalhadores. É um marco para os trabalhadores. Porque nós temos um
governo hoje que nós trabalhamos pra eleger, foi em 2002, não vai resolver as coisas num
passe de mágica. Mas, voltar atrás, o que nós éramos antes e o que é hoje, o petroleiro saiu de
um patamar que ele tinha, cada ano enquanto que o dirigente sindical só pensava o seguinte:
“Essa Empresa vai ser privatizada.” E no final do governo Fernando Henrique nós passamos,
eu me lembro, outro dia eu falei isso no sindicato, foi uma das piores crises, também. Foi a
questão da migração pro plano Petrobras-Vida. Porque, nós do sindicato compramos aquela
briga da não migração e tinha muitos companheiro que seguiram a orientação do sindicato. Foi
uma menor parte dos aposentados. Se a gente não sai de um projeto vitorioso nas eleições de
2002, eu não sei o que seria dos sindicatos.
P/1 – Então, Leopoldino, eu ia te perguntar. Como é que você vê essa relação
Sindicato/Petrobras?
R – Hoje, eu vejo uma relação que a gente tem que manter a independência e autonomia
enquanto sindicato. Mas, vejo hoje, uma condição melhor pra se negociar e vejo que hoje a
categoria, principalmente, os petroleiro, estão tendo ganho melhor do que foi no passado.
Hoje, na atual conjuntura política do país, nós tamos tendo negociação e estamos
reconquistando aquilo que nós perdemos nos dez anos, doze anos de FHC e Collor pra cá.
P/1 – Bom, pra gente encerrar. Eu vou te fazer duas perguntas. O que você acha desse projeto
Memória Petrobras?
R – Eu acho ele importante porque, nós enquanto trabalhadores, a empresa já tem a sua história
e nós, enquanto trabalhadores, temos que fazer a nossa história. Vir aqui, dar o seu depoimento.
Dar o depoimento na visão dos trabalhadores, também falar sobre a Empresa, a importância da
Empresa. Entendemos que a Empresa é importante para a sociedade. Mas, uma Empresa que
invista também no social, como ela foi no passado, voltar a ser essa empresa.
P/1 – E, o que você achou de ter dado essa entrevista pra gente?
R- Eu acho que é bastante importante pra mim, pra vocês eu espero que seja bastante
importante também, para os trabalhadores também. Que é uma reflexão que a gente tem que
fazer do atual momento que nós estamos vivendo e que temos muitos desafios pela frente. E,
que certamente, não serão fáceis. E não esperar num passe de mágica que todas as soluções
alguém vai chegar e vai resolver. Nós, os trabalhadores, é que temos que fazer a nossa
independência e fazer a nossa luta de classe e buscar o que é melhor para o conjunto da classe
trabalhadora.
P/1 – Então tá bom Leopoldino, obrigada.
R – Obrigada
(Fim da fita Mpet / CB Regap 003)
(Ceple?)
(Diman?)
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