Projeto Diversidade Cultural Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de João de Deus Falcão dos Santos (João Quemodess)
Entrevistado por Aline Mendes e Sofia Tapajós
Itaúnas, 21 de março de 2026
Código: DCC_HV010
P/1 - Bom, tio, para começar, eu gostaria que o senhor dissesse o nome completo do senhor e como que o senhor é conhecido aqui na comunidade de Itaúnas.
R - Ó, meu nome chama João de Deus Falcão dos Santos. Primeira coisa eu digo para vocês, eu fui conhecido desde Itaúnas velha. Nasci e criei lá, me casei lá, fui brincador do Ticumbi de Itaúnas, comecei com 14 anos, fui a 60 anos. Eu fui congo, fui secretário, fui mestre e vim mestre agora de Ticumbi.
P/1 - E aqui na vila, como que o senhor é conhecido?
R - Eu sou conhecido aqui por João Quemodes.
P/1 - O senhor nasceu no território de Itaúnas Velha, né? Fala um pouquinho sobre isso.
R - É, eu nasci em Itaúnas Velha. Itaúnas Velha quando começou a se aterrar, eu vi areia. Na primeira rua, eu já vi areia chegando. Então, a areia batia na porta da cozinha, a cozinha ficava para o lado do mar, da praia. Aí ela batia dentro da cozinha, a minha mãe começava a barrer, barrer, ela vinha chegando. Não é só mamãe, todas as mães que tinha. Vinha chegando, vinha chegando, elas vinham barrendo, barrendo, barrendo, até que aterrou.
P/1 - E como que era essa casa que você morava?
R- É, a casa que nós morava era de estuque, eu lembro de estuque é quando você faz uma casa de baldrame, finca os esteio e faz uma casa de estuque.
P/1 – Qual que era o nome dos seus pais?
R - Era Antero Pulchério Alves dos Santos, Cidadina Falcão Gouveia.
P/1 – O que que os seus pais faziam?
R - O meu pai é o seguinte, ele primeiro começou a trabalhar na roça, ele e minha mãe, com nós. Ficamos trabalhando na roça, dali, daqui, dali, daqui... Depois nós viemos para o comércio de Itaúnas.
P/1 – E o que que eles plantavam?
R - Aí...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de João de Deus Falcão dos Santos (João Quemodess)
Entrevistado por Aline Mendes e Sofia Tapajós
Itaúnas, 21 de março de 2026
Código: DCC_HV010
P/1 - Bom, tio, para começar, eu gostaria que o senhor dissesse o nome completo do senhor e como que o senhor é conhecido aqui na comunidade de Itaúnas.
R - Ó, meu nome chama João de Deus Falcão dos Santos. Primeira coisa eu digo para vocês, eu fui conhecido desde Itaúnas velha. Nasci e criei lá, me casei lá, fui brincador do Ticumbi de Itaúnas, comecei com 14 anos, fui a 60 anos. Eu fui congo, fui secretário, fui mestre e vim mestre agora de Ticumbi.
P/1 - E aqui na vila, como que o senhor é conhecido?
R - Eu sou conhecido aqui por João Quemodes.
P/1 - O senhor nasceu no território de Itaúnas Velha, né? Fala um pouquinho sobre isso.
R - É, eu nasci em Itaúnas Velha. Itaúnas Velha quando começou a se aterrar, eu vi areia. Na primeira rua, eu já vi areia chegando. Então, a areia batia na porta da cozinha, a cozinha ficava para o lado do mar, da praia. Aí ela batia dentro da cozinha, a minha mãe começava a barrer, barrer, ela vinha chegando. Não é só mamãe, todas as mães que tinha. Vinha chegando, vinha chegando, elas vinham barrendo, barrendo, barrendo, até que aterrou.
P/1 - E como que era essa casa que você morava?
R- É, a casa que nós morava era de estuque, eu lembro de estuque é quando você faz uma casa de baldrame, finca os esteio e faz uma casa de estuque.
P/1 – Qual que era o nome dos seus pais?
R - Era Antero Pulchério Alves dos Santos, Cidadina Falcão Gouveia.
P/1 – O que que os seus pais faziam?
R - O meu pai é o seguinte, ele primeiro começou a trabalhar na roça, ele e minha mãe, com nós. Ficamos trabalhando na roça, dali, daqui, dali, daqui... Depois nós viemos para o comércio de Itaúnas.
P/1 – E o que que eles plantavam?
R - Aí nós plantava abóbora, plantava melancia, plantava... é... tudo quanto é troço nós plantava: cana, banana, plantava tudo.
P/1 - Esses produtos eram para consumo ou vendia?
R - Consumo e vendia.
P/1 - Além da atividade agrícola, tinha outra atividade que o seu pai fazia?
R - Fazia muita farinha, atingia 200 sacos de farinha, entendeu? Aí ela vendia para Itaúnas velha. E aí é o seguinte, ensacava tudo, carregava... naquele tempo era caminhozinho pequeno. Carregava nos burro, no cavalo e vinha para Itaúnas velha para entrega.
P/1 - E como que era esse processo de fazer a farinha?
R - A farinha nós fazia no forno. É na base da roda, naquele tempo não tinha motor, não tinha nada, e nós fazia na base da roda. Da roda e cevando. Depois imprensava na prensa e depois a gente, no outro dia, tirava, peneirava ela, peneirava, e depois jogava pro forno e ia torrar.
P/1 - Toda família participava desse processo na produção?
R - Toda família, para todo mundo que... que começa a fazer a farinha, todo mundo trabalha. Se está numa fila aqui, todo mundo vai trabalhar. Que a mandioca é uma desgrama. Para relar tem muito trabalho. Quem pega na faca para rapar, pega. Quem pega lá para fazer a lenha para mexer no forno para torrar, pega. Daquele tempo... Hoje não, hoje é moleza. Mas naquele tempo era assim.
P/1 - A vila antiga de Itaúnas era muito próxima ao mar. Tinha alguma atividade que vocês praticavam no recurso desse mar?
R - Olha, o problema do mar é o seguinte, quando a gente começou a conhecer a areia que vem chegando nesse mar, eu até hoje ainda tenho dúvida desse mar que essa areia vinha do mar. A moça “ah não”. Eu acredito que vinha, porque a parte do mar, lá onde hoje você vai lá naquelas cabanas é tudo seco. Lá não tem areia nenhuma. A areia só vinha para cima, então era tocar do mar, se parece que tinha uma vala por baixo que ela passava e dobrava para cima.
P/1 - E aí na sua infância lá em Itaúnas velha, o que que você brincava?
R - Olha, então na verdade eu brincava isso que eu tô falando, eu brincava de congo. Quando era menino ia para praia brincar mais os meninos, eu era menino, mas quando eu comecei a ficar rapazinho já fui para o cordão dos congos. Meu pai era mestre, entendeu? Eu fui para a brincadeira. Como eu fui para brincadeira, aí foi, foi, foi, eu passei por isso que eu falei, passei por mestre, passei por congo, passei por secretário, tive uma boa responsabilidade, aí quando meu pai morreu, entregou a brincadeira para mim.
P/1 - Esses amigos que você brincava na praia, quem que era?
R - É, esses amigos que eu brincava na praia, pra te contar com certeza já tem muitos que já foi embora. Mas tem uns por aí ainda. Mas tem alguns, que tinha um vovô ali, que nós era amigo. Tem o menino lá que mora na Bahia, que é o irmão de Gripe (Gripe?). Entendeu? Eles vieram brincar, mas muitos já... Assim foi, eu acho que ainda tá restando é só eu. O resto... foi embora. Ah, tem um amigo bom meu aí, ó, pai Juca, de Osmar, entendeu? Pingo, já trombei de Eugênio Lyra (Lyra?). Então, nós tinha essa amizade todinha. E eu falo sempre pro meu irmão aqui, que mora aí, “rapaz, eu gostava daquele tempo. Era um tempo bom, era aquele tempo. Não tinha essa doençada que tem hoje. Você comia um peixe sadio, você comia uma carne sadia, hoje você come tudo no veneno. Então, eu não gostei desse tempo hoje não. Eu gostava daquele tempo. Nem que eu relava a mandioca na roda, mas gostava”. Aí ele reta comigo, “não, aquele tempo não prestava não!” “Eu gostava daquele tempo”. E era bom. Eu tinha que era bom.
P/1 - E quais que eram os principais costumes da sua família, além de falar de jogos?
R - Ah, a minha família é como eu falei a você, a minha família vivia em roça. A minha família trabalhava em roça. Entendeu? Trabalhava em roça, apanhava café, mexia com tudo quanto é coisa. Porco, essas coisas... então nossa família era desse jeito, era de roça. Entendeu? E aí quando nós mudamos para Itaúnas, nós viramos tudo pescador. Nós fomos para... Meu pai era pescador, pescava e nós filhos viramos pescador, os meus irmãos tudo virou pescador.
R - Como que vocês pescavam? Tinha alguma técnica?
P/1 - Nós pescava aqui, nós pescava de canoa. Na base da canoa, era na canoa e remo. Entendeu? Hoje é bote e motor, hoje naquele tempo era remo.
(pausa)
P/1 - Eu vou repetir a pergunta só para ter registrado, tá? Pode ser. Então, se você puder falar como que eram essas técnicas para pesca, como que vocês pescavam?
R - Olha, problema é o seguinte, na época que nós pescava não existia essa linha plástico. Nós fazia de tucum. Aí nós pregava, nós fazíamos um bicho assim, agarrava um pau, aí nós ia amarrando, amarrando, amarrando, amarrando, até nós fazer uma cordinha dar... E era forte, hein? Aí, aí nós pegava, enrolava, enrolava, enrolava. Nós pescava no mar porque não tinha hoje e tinha esse conforto que tem. Assim nós pescava. Na linha de tucum.
P/1 - Além da linha utilizava remo...
R - Remo, na reta, nós ia no mato, pocava o pau, eu metia o facão, papai ajeitava, era na base de facão. Tinha motor, não tinha nada, pá pá pá até ajeitar o remo para ir para fora pro mar. Era no remo.
P/1 - As canoas? também?
R - Nas canoas. A canoa é tirada também no na base do facão e o machado.
P/1 – Esculpida?
R - Hein?
P/1 - Esculpida?
R – É. Machado. Entendeu?
P/1 - Você gostava de ouvir histórias, tio, na sua infância?
R - Bom, eu já fui criado ouvindo história. Eu fui criado com minha tia, meu pai nas histórias. Mas tinha vez que eu era garoto, eu apanhava um ovo, dois ovos mamãe para levar para minha tia para ela contar história. Aí eu e esse que tá aí, o Humberto (Humberto?), agir para ela contar história para lá, que a gente gostava de ver uma história. E eu sei contar história. Se for possível eu amanheço o dia contando história. Só que eu hoje não quero mais essa... Entendeu?
P/1 - Tem alguma dessas histórias que te marcou que o senhor gosta de contar e ainda lembra?
R - Rapaz, eu pra te contar com certeza, eu ainda lembro de uma história... Aí o Bocage falou assim... Ó, vocês desculpem, hein? Que eu vou falar bobagem, do Bocage, vou contar essa história do Bocage. Aí o Bocage era muito sabido. Aí o Bocage... Aí o rei falou assim: "Eu vou pegar esse Bocage, que ele é sabido, eu vou pegar ele". Aí o Bocage foi e casou. Casou. Aí que quando foi na base ir, ele falou: "Bocage, amanhã você passa por aqui e me dá bom dia, que eu quero ver se você vai ver o sol entrar. O sol sair.” Tá bom. Chega o Bocage foi, subiu, foi lá em cima e fez um corte. Ficou de lá olhando pra dentro do quarto. Aí o Bocage foi lá. Depois a rainha também, mesma coisa... “Rainha, troço é esse?” “É o inferno entrando no capeta!” Eles começaram pá pá pá. E o Bocage tá olhando lá. E aí o Bocage disse assim “Bom dia, rei, meu senhor!”, “Bom dia, Bocage! Que horas você chegou aqui?” “Eu cheguei na hora que o capeta tava entrando no inferno” Ah, aí o rei ficou arretado com ela. Eu sei coisa, rapaz, sei coisa bacana! Bocage foi e falou assim e o rei falou: “Olha, Bocage, de agora para frente, eu não quero que você passe aqui na minha nos meus barro aqui de jeito nenhum. Se eu não quero que você me passe aqui mais de jeito nenhum”. “Mas, rei, como é que eu posso fazer? Eu tenho que passar aqui porque eu eu eu ...” Aí Bocage “Ó, se você passar aí amanhã, você vai ver o que vai acontecer com você”. “E se eu passar nos meus barro?” Ele disse assim: "Ó, eu te dou tanto". Ele “tá certo”. O Bocage foi para lá, fez um carrinho de pau. Aí encheu de barro no carrinho, pá, pá, fez uma roda em pau. Aí pegou um pau, quando foi de carinho, ele começou. Ele vem, ele vem, ele vem... Bocage... O rei só espiando. E ele vem, ele vem... Quando ele chegou: "Bom dia, rei, meu senhor!. “Olha, eu não te falei para você não passar no meu barro”. “Não, eu tô no meu! Olha aqui".
P/1 - Qual é a lembrança que o senhor tem da escola?
R - Olha, o problema que eu tenho da escola, eu tenho arrependimento até hoje. A lembrança que eu tenho da escola e tenho arrependimento até hoje. Naquele tempo eu era malandro, não queria saber de estudar. Papai batia, mamãe batia em nós para estudar, estudar, e eu não ia. Eu pegava meu bodoque, eu e meus irmãos. Ainda botava meus irmãos a perder, ainda. Imagina, esse de lá não aprendeu, esse que morreu aqui não aprendeu, quem aprendeu isso aqui, quer ver? Quando era pequeno foi embora e nós não aprendemos. Por causa de quê? Pegava os bodoque e ia pescar passarinho, ia matar passarinho de ____, pintar o sete, e ele chega lá a pregar a mentira que nós ia para escola. Mentira, tava pelotando.
P/1 - É, quando você começou a sair sozinho com os seus amigos, o que é que vocês faziam?
R - Olha, eu quando saía com meus amigos... Ora, o que acontece? Naquele tempo, eu nos meus 14 anos, 15 anos, 20 anos, a gente não era iludido em cachaça, em essas coisas não. Saía para brincar, de _____, brincar de pique, entendeu? Isso que nós fazia. Entendeu? Não caçava problema nenhum. Agora depois que a gente começou a ficar já rapazinho, já fui subir para brincadeira, tal, já mexi nessas coisas.
P/2 - Como que era essa brincadeira?
R - Brincadeira é isso aí, Ticumbi. Ou quando não era isso, era samba, era baile, entendeu? Aí a gente já batia num pandeirinho, pá pá pá. Já ia pra boca da sanfona, às vezes arranjava uma garota lá e tal, o pau quebrava.
P/1 - Como eram esses bailes?
R - Bailes era aquele baile de sanfoninha pan pan pan pan pan e o pau quebrava, o pandeirinho tá topado e a gente tá lá dançando, tocava um forró e lá cabeça e água.
P/2 - Tem alguma música dessa época que você lembra? Tem alguma música desses bailes que você lembra?
R - Ah, naquele tempo tinha... Mas naquele tempo a gente tinha aquelas musicazinha antiga. A gente tem, tinha elas... Hoje até se esqueci, mas ainda tinha elas ali. Entendeu? Tinha... Tinha verso. Entendeu? A gente tinha muito verso, a gente cantava, tal. Eu sabia, mas aí vai indo, vai indo ai já comecei a parar. Mas eu sei ainda. Se for cantar, ainda canto.
P/1 - Tem algum verso que você lembre? Você queira
R - Não, não, não. Não, não, não vai lembrar não. Eu lembro, eu lembro que eu tenho uma, é, a gente fizemos umas marchas lindas, desses grupos aí de Ticumbi, eu que fiz uma umas duas marchas. Os amigos, também, que morreu, fez também. E elas tá rolando até hoje, de vez em quando nós toca ela.
P/2 - Tem algum trecho dessa marcha que o senhor pode contar pra gente?
R - Tem. Tem, a gente tem uma marcha primeiro, quando Itaúnas Velha dizia assim: (entrevistado canta) "ô meu povo vem ver, ô, que glórias tão bonito. O meu povo, vem ver, ô que glórias tão bonito. É o seu devoto, ô São Benedito. É o seu devoto, oh São Benedito”. Tudo isso é mais na descida da canoa. Isso nós vem aí em 30 pessoas tudo dentro do barco. Entendeu? É muita gente.
P/2 - Vocês chegavam de barco?
R - Chegava não. chega, todo ano a gente chega. Com muita gente, só gente nossa, é muito bom, muita gente. Entendeu? Esse ano eu ainda fiz... Eu fiz uma graça para eles ainda, porque eu faço a... Quem faz a subida sou eu. Eu já do jeito que tô nessa cadeira, minha menina empurrou, eu já fiz a subida ainda, que eu faço a subida, sabe? Toda vida eu fiz a subida. Porque aqui os menino novo, ninguém tá por dentro. Agora que eu tô ensinando, sentando lá quem for lá pra aprender, eu tô ensinando. É difícil aprender porque é muito difícil, porque já chega...
P/1 - Como que é, tio, essa subida?
R - Essa subida é uma coisa que você pega a espada e o secretário chega assim “Oh depressa, praça, praça, olha quanto em seu lugar. Às 14 será instalado que meu rei vai pra lá”. Aí o rei passa, “oh meu rei secretário nós vamos um passo à frente com glória no coração para ver se encontra São Benedito pertinho de São Sebastião. Olha meu secretário se não encontra São Benedito pertinho de São Sebastião hoje mesmo chegou o dia de nós fazermos a nossa grande oração. Então, meu secretário, vejo um palácio aceso. E tanta luz a alumiar. Será que aqui é que é a casa de São Benedito que nós temos que festejar? Oh, meu rei é aqui é a casa de São Benedito, que nós temos festejar. Nós temos que botar a mão para cima e São Benedito louvar. Ajoelha, meu secretário, vamos fazer o pelo sinal, fazer um pelo sinal da cruz que é o sinal pela, pelo sinal do divino que Jesus Cristo____ O bom São Benedito é o pai do retorno. Eu não entendo, será que a estrada é bem segura? É aí que o povo fala ‘me valha meu santo puro’. Ô, meu secretário, se eu venho de lá tão longe, o município tem que andar. Será que o senhor não me arruma, uma cadeira para mim assentar, perto de São Benedito olhando pro pessoal”. Aí o secretário fala assim: “Ô, meu rei, se eu mandei eu buscar em pressa, cadeira rica em Portugal. Há um assento devoto, meu rei, pode sentar” naquele pequenininho, o lugar. É uma cuca cabeça dos negro da África. Porque você tem que ter cabeça se não tiver...
P/2 - E quem que te ensinou?
R - Eu aprendi com os mais velho. Entendeu? Igual os menino hoje aprende comigo. Eu aprendi com os velho, porque eu prestava muita atenção, porque a gente que brinca essas coisas, você tem que prestar bem atenção nessas coisas. Entendeu?
P/2 - Quem que eram esses mais velhos?
R - Ah, já morreu. Aí mesmo que já morreu. Aí, aquele ali morreu, brincava com nós. Meu pai morreu, brincava com nós. Pingo aí morreu, Argemiro morreu, então tem muita gente que morreu aí. Entendeu? E eu tô aí.
P/1 - Além do seu pai e da sua mãe, teve alguma outra pessoa que se destacou na sua criação?
R - Muito. O Titio Lino foi um grande profissional, é isso aí. Foi um grande profissional. Ele foi um grande... Ele com a começava pelo... Do governo ia terminar no prefeito. Ele é bom de... era bom disso aqui. Era meu tio.
P/1 - Que que ele te ensinou?
R - O que ele ensinou é isso aqui que é a mesma coisa. O que ele fazia e eu também é a mesma coisa. Aprendi a fazer porque eu também era bom de cabeça. Entendeu? Tinha uma memória boa. Tinha não, tenho até hoje, graças a Deus.
P/1 - O senhor comentou sobre ter nascido lá em Itaúnas Velha e depois que soterrou a vila, vocês vieram morar aqui. Como foi esse processo?
R - Olha, o problema é o seguinte, nós fomos derradeiros que saímos de lá. Nós morávamos mais na descida de beira do brejo. Para cima ela começou a aterrar logo, foi começando até o povo foi saindo. Foi nós que... os povo... nós saímos mais para o derradeiro. Quando começou a aterrar nós, lá já tava tudo enterrado. Aí nós já tinha... fizemos barraco aqui e íamos embora para aqui.
P/2 - E como que era aqui?
R - Aqui era a capoeira. Era uma capoeira, tudo mato. Entendeu? Aí entrando para aqui, o outro foi roçando, o outro foi roçando, o outro foi roçando. Roçava um chão, era um era uma capoeira, um pelambuco desgramado. Vocês tinham que bater na enxada para tirar aquele pelambuco para poder fazer o chão da casa, entendeu? Para casa de estuque, fazia casa de lajota, pintava o sete. Entendeu?
P/1 - Quando a sua família mudou para cá, o senhor já era casado?
R - Era casado, já. Eu já tinha. Eu casei novo, eu casei com com 14 anos. 14 anos a minha mulher tinha 13. Entendeu? Aí já mudei, já tinha... Já mudei para cá, já tinha Renilton já na pança lá.
P/2 - E como que você conheceu a sua mulher?
R - Eu conheci minha mulher na roça, a mesma coisa, na roça. Entendeu? Aquele tempo você não casava, quando você gostava você tirava de casa. Aí você viajava à noite até o lugar que você ia. Aí depois se dava bem também. Hoje não, hoje a menina namora, amanhã tá casada. Não. Primeiro você conhece a pessoa para poder você... você pode botar até dentro de casa. Mas você conhece a pessoa para poder você depois casar. E se não prestar? Você fica “entrapalhado”. Então é bom você conhecer, tirando de casa mesmo, conhecer e tal. Mas naquele tempo não. Naquele tempo você tirava de casa, no outro dia você tinha que casar, porque o oficial de justiça ele mandava buscar na hora para casar. Entendeu?
P/1 - Quanto tempo que o senhor é casado? Vocês são casados?
R - Eu tenho 60 anos casado.
P/1 - Quantos filhos?
R - De filho mesmo, eu tenho seis.
P/1 - Quantos?
R - Seis. Atingi 13. Perdeu, morreu... Fui a 13. Minha mulher teve 13 filhos. Mas agora eu tenho seis de vivo, graças a Deus.
P/1 - Quais eram os lugares que você frequentava aqui que hoje não existem mais?
R – Frequentava aqui essa beira dessa estrada que dá para lá, nessa rua que dá pra lá, na beira daquela ponte lá, tudo ali era a casa. Que ali metiam a braga e “embraguearam”. Que o rio passava por lá beirando a praia. Então, ali tudo é casa. Ali frequentava, ali tinha baile, tinha casa de baile, tinha forró, tinha tudo. Eu frequentava ali. Meu pai chegou a ter até ali onde é aquela bala, meu pai teve um teve um bar ali que era que de papai, boteco.
P/2 - Como que era esse bar?
R - O bar é... botava três garrafinhas de cachaça, 3 L de cachaça, botava lenha, tudo para vender e nós tinha isso. Entendeu?
P/1 – Você ia bastante nesse bar?
R – Bastante, os cara vinha direto beber cachaça com a gente. Entendeu?
P/1 - Quando vocês mudaram para cá... Lá, vocês praticavam a agricultura, pesca e quando mudou para cá essas atividades quais foram?
R - Continuamos, continuamos. Continuamos na pesca, continuamos na cultura, e ficamos e tamo até hoje.
P/2 - E voltando lá para o congo, você lembra a primeira vez que você ouviu o congo?
R - Não. Eu, para te contar com certeza, quando eu era garoto, com meu pai. Eu era garoto, meu pai pegava o cavalo, eu tava... ia junto mais ele. A vez quando ele não me levava, eu “desgramava” a chorar. Porque eu era invocado muito para ir para brincadeira, entendeu? Aí mamãe dizia assim, meu pai me tratava nego. Ô, Cidadina, o que é que esse nego tá chorando? Aí mamãe dizia assim: Ó, você não sabe o que que ele tá chorando? Ele tá doido pra ir para o ensaio. Arruma a roupa, vamos, rapaz. Eu ía. Mas fez bem ou não fez? Quem tomou conta da brincadeira foi eu, faz já 60 anos, tomei conta e dei conta aí. Eu?
P/2 - Como que eram esses ensaios?
R - Esses ensaios, hoje tinha na sua casa, que eu morava na roça, amanhã tinha na casa dela, amanhã ele pedia para ser lá na casa dele, e era assim, chegava lá matava uma galinha, mas dava três ensaios, hoje eu dou um. Naquele tempo era três ensaios. Ave Maria! Matava com a gente. Naquele tempo meu pai, o Pedro Bongar (Pedro Bongar?), nós dava três ensaios. Era assim que era naquele tempo. Entendeu? Um ensaio na casa de um, na casa de outro, na casa de um, na casa de outro. E tinha umas coisas, tinha ainda tinha uma tal de leitoa que matava um capado e o couro comendo e eu comia.
P/1 - Essa comida, esses animais que eram matado, quem preparava essas comidas dos ensaios?
R - Ah, essa comida quem preparava era as próprias donas da casa. A dona da casa que preparava a comida. Ela que fazia a comida. E dava ainda tinha uma farofinha de manhã para ir embora.
P/1 - Qual era a sua, você lembra a primeira vez que você participou mesmo do congo, qual foi a sua função?
R - Olha, quando eu comecei, a minha função foi derradeiro congo. Derradeiro congo é o cara lá atrás. Então eu comecei por derradeiro Congo. Só que eu fui um cara muito experiente de cabeça, cuca. Esse ano eu fui para derradeiro, no outro ano eu já subi. Fui para primeiro Congo. De primeiro Congo, eu subi lá, teve um bate-papo, sempre tinha essas coisas, uma briga, secretário não veio, não vinha mais, pá, pá, pá, pá, eu fui para secretário. Entendeu? Eu fui para secretário. E de secretário, eu fiquei, fiquei, fiquei, e eu fui para Reis. Esse que eu estou como cantei aqui. Fui para reis. E de rei, eu vim para mestre.
P/2 - Você pode falar um pouco qual que é a função do primeiro Congo, do secretário?
R - Não, o do secretário é que é guerra, para briga. Tem o secretário de rei de Congo e tem o secretário de rei de Bamba. Aí começa a ensaiar os 12 Congo, tal, tal. Depois nós vamos ter uma briga, ali dentro. Quatro espadas, nós vamos ter uma briga ali dentro. Aí depois nós demos a mão de amigo, um vai para lá, outro para cá e bom, não é briga.
P/2 - E o rei, que que faz?
R - É isso aí que eu tô dizendo. É isso aí que eu tô falando.
P/1 - Como o senhor vê a importância dessa cultura do Ticumbi, do território de Itaúnas?
R - Ó, problema é o seguinte, a cultura do folclore começa por aí. Hoje não é aquilo mais de que eu toquei. Porque naquele tempo acabou que era bom, entendeu? Era bom de memória, bom de tudo, então era... tocava tudo. Hoje você tá botando uma garotada nova aí para... Pra eu que entendo de brincadeira acabou a brincadeira, por onde seja bom, brincadeira... Mas para mim ela ainda não tá 100% igual eu nasci e criei na brincadeira.
P/2 - Que que mudou?
R - Mudou. Porque porque tem muita gente lá que quando vai dizer o verso na boca da viola, não sabe tirar o verso e quando tira é “dessilabiado”. Então, aquilo ali acaba com a brincadeira. Mas por ali a gente tampa. Tampa aquele buraco.
P/1 - De que forma o senhor acha que pode valorizar e melhorar mais a estrutura, a cultura do Ticumbi?
R - Olha, o problema...
(pausa)
P/2 – Seu João, quando você chegou a ser mestre como você se sentiu?
R - Olha, o problema é o seguinte, quando eu cheguei a ser mestre, meu pai passou a brincadeira para mim, eu... o que acontece.. Eu imaginei, pô... porque na época do meu pai, não tinha pela ruim. Ele coitado, se batia, mas nunca deixou a peteca cair. Se batia, ia lá em Camurugi, ‘panhava um porquinho, relava uma mandioca, trazia nos cavalo e vinha para cá, chegava aí para dar um almoço aos congo. Entendeu? Aí dormia uma noite lá, ficava o dia, quando é de tarde, os meninos de lá parentes dele, vinha trazer de um burro, cá até, dormia, no outro dia ia embora. Era uma luta para meu pai, para caramba. Mas tudo acontece... depois que eu entrei de mestre, o que é que eu fiz? Comecei a botar festeiro para senador para... entendeu? Aí melhorou para mim, já não tinha mais tranquilidade. Ah, é, vamos o almoço lá na Pedrolina o que que é? o almoço lá na Pedrolina, é, quem pagava era o festeiro. Festeiro ia lá, acertava tudo, tal, tal, tal, tal. Aí “ficava quanto Dona Pedrolina?” e pá, pá, pá, ficava tanto, ele ia pagar. Fogos tinha festeiro que dava. Então, eu consegui mexer com isso. O que acontece? Já era esse festeiro esse ano, o outro já chegava em outro, já chegava já era outro terceiro. Então, fui fazendo, fui fazendo, fui fazendo até chegar. Eu não trabalhava sozinho. Trabalhava com pessoal. Entendeu? E meu pai, coitado, não sabia nada. Tava já um pouco velho, ele não tinha aquela paciência, eu cansei de sair por aqui, entendeu, quando a peteca tava caindo, passar nas grandes pousadas por aí e consegui fazer uma lista na folha e chegava lá, batia, tal, tal, 100, 200, 300, pá pá pra fazer a festa. Sei que eu comprava o garrote, mas meu ensaio geral é todo ano é um garrote. Então, é um churrasco arrumado. Pau quebra, o coro come até o dia clarear. Entendeu? Agora não, agora meu filho vai ser um mestre, é o mestre da brincadeira. Mas não tá que nem eu? Tá segurando a barra, mas não tá quem nem eu. Porque essas mulher de hoje em dia, vamos falar, a mulher de hoje em dia não é igual a minha mulher, igual a minha mãe. Entendeu? Elas hoje se o marido delas sair, quando você é casar de novo, ele é um mestre, sair e fica lá quer quer. Que as menina, que o contrário, as menina.. ave maria! O seu João e papo tu, papo tu, que... é mestre? e papo tu, papo tu. Se minha mulher for uma mulher ciumenta ela vai querer pegar na minha guela. Papo tu, então essas mulher de hoje em dia não dá para o seu marido ser mestre por causa disso. Entendeu? Nil mesmo, ave maria a mulher quer pegar na garganta da de outra mulher. Só porque fica pegando na mão dele, papo tu, mestre. Tem que pegar. Então, aí o bicho pega.
P/1 - O senhor comentou que agora o seu filho tá a frente, mas que o senhor ainda não deixou totalmente.
R - Não. Não, não, não e eu não deixo. Só deixo quando morrer, eu não vou... se eu não aguentar falar mais, cantar no encontro. Se eu tiver vivo. Eu vou almoçar lá em casa, entendeu? Eu tô dentro para descer, para poder a peteca a seguir. Se eu não tiver, não vai. Eu e a mãe não tiver, não vai. Tem que estar. Entendeu?
P/1 - Quais são os maiores desafios que o senhor acha para manter viva a tradição do Ticumbi?
R - Olha, o maior desafio que tem dentro da brincadeira, para poder fazer a brincadeira ficar bonita, você tem que ter dois secretários bom, igual eu tenho. Você tem que ter dois reis bom, igual eu tenho. E tem uma coisa, para poder eles discutir na base da cabeça, funcionar, tirar as embaixadas, entendeu? Depois bate a espada uma com a outra, entendeu? É aquela que é faz bonito aquilo ali.
P/1 - E sobre a devoção a São Benedito?
R - Olha, a primeira coisa que a gente tem que que ter, é a devoção São Benedito. São Benedito é o seguinte, eu como mestre, qualquer um deles aí, se eu sair daqui. O ensaio geral é lá no rio, igual você sabe, é lá no rio. Eles tomaram chuva, vocês tomaram chuva porque quiseram. Porque eu já fiz e não foi só eu, não. A Bahia, que mexe com samba, fez também. Se você vem tomar muito chuva, você abre a... ali a janelinha ali, e se eu vou tomar chuva, o São Benedito também vai. Bota ele senta embaixo de chuva. Sol esquenta que eu nunca vi. E eu faço. Se eu estou tomando chuva, ele toma também, porque eu estou fazendo a festa é para ele. É. Pronto.
P/1 – Além da devoção a São Benedito, tinha outras práticas de religião que o senhor praticava?
R - Samba. Eu era... eu gostava de um samba que ele vinha da Bahia. Ainda tem hoje, passa uns doido aí, para aí, com a caixinha, com ____, mas não era igual no meu tempo de primeira, entendeu? Cansou papai, cansou... Família dormia aqui, samba comia até de manhã cedo, entendeu? Hoje não tem mais, mas ainda quebra um galho ainda, ainda quebra um galho. Eu ainda sambo ainda. Eu ainda sambo dessa idade que eu tenho, ainda sambo ainda. Entendeu? Fui acostumado, minha família todinha é de samba. Entendeu? Todos nós sabe essas coisas. Entendeu?
P/2 - Como que era esse samba? O instrumento?
R - Ah, o instrumento é pandeiro. É pandeiro, caixa. E aí eu sei como é. Olé maninho velho, eu de manhã vou-me embora, peixe que deu na praia, não era baleia não. Se quiser que eu sou cantor, se quiser que eu choro, eu choro, peixe que deu na praia, era baleia não. Caiu um peixe tão grande que foi puxado a trator. Eu mesmo comi do peixe que meu amigo mandou. Eu mesmo comi do peixe que meu amigo mandou. E as mulher todas dançando, pau tá quebrando. A mulher tá dançando, os homens tão ocupado. Então foi uma coisa também que tá se acabando porque querem. É uma coisa de... há muitos anos, eu conhecia, eu fui de... o velho Bendito procurador, Patrício. Eu vou te contar a você, era muita gente que vinha atrás de samba. Ave Maria, nego ia longe. Mas nego de matar boi. Você comendo... era, muita gente que ia à noite pro samba.
P/1 - O senhor comentou que isso é algo que está se acabando. Por qual motivo o senhor acha que não está...
R - Olha, eu acredito que a brincadeira ela está se ela está se acabando porque o próprio mandão está comendo dinheiro. O próprio mandão está comendo dinheiro. Vez em quando vem um dinheiro para a cultura. Vamos dizer, o dinheiro vem para a prefeitura. Vamos dizer. Para a cultura. E vamos dizer. Vem 500 mil. Olha, isso é dá cultura. Quando chega na cultura, chega 200. 300 já ficou para lá. Então, só vai acabar. Por que que eles não botam? Olha, uma época, eu nós fomos na reunião que eu sempre tinha reunião em Vitória. Uma época eu falei na época para Paulo Hartung que era... eu falei: Rapaz, se desse um salário que é três meses ensaiando, três meses ensaiando, se desse um salário, não desse um salário, desse ao menos meio, salário, a turma brincava com boa vontade, porque não perdia um ensaio, nego eu tinha que estar no ensaio, a cultura ia para frente de toda forma. Entendeu? Com certeza. Agora o nego não ganha nada. A gente faz o projeto aí, quando ganha, compra sapato, só falta levar a sunga, então veste a sunga. Né? Então, de pouco a pouco tá se acabando. Hoje ainda tem a festa aí de não sei do lado de vocês para lá. Aqui ainda tem uma festa bonita no Espírito Santo. É o nosso aqui, Itaúnas. Que cai dia 20, 19. Entendeu? Ela começa dia 17, quando cai no dia, quando não cai no dia, no meio a gente faz. Cai sexta, é, cai quinta, sexta, sábado e domingo. É quatro dias em festa aqui.
P/1 - Quais são os festejos dessa festa?
R - O festejo, é igual que eu tô falando. O festejo para você, essa festa que nós fazemos, ela fica bonita, porque nós chegamos do ensaio geral. Primeiro, quando deu cinco horas, nós vamos enterrar o mastro, entendeu? Depois do mastro, nós vem para aqui, tira as roupas, prepara, tal, tal. No outro dia dez horas nós estamos na missa, representando. Depois que nós já representa, às cinco horas vamos para a procissão. Os congo vai para a procissão, somos nós. Depois da vocês estão, vamos na casa do festeiro, da casa do festeiro aí nós vamos farrear o que quiser, se quiser ir no boteco vai lá beber, pá, pá, pá. Estão por conta, não tô mais na responsabilidade. Só eu que eu nunca deixei. Não, se vai para boteco, chega lá o cara, vai lá e bota doido. Por que o senhor não quer beber dois litro de cachaça, dois litro de... vai deixar esses homem morto? Não. Pode, pode, pode. Aí eu parei. Eu tranquei, não deixei nada. Se o cara quiser dar um perdido, bom. Bota e berra para cá, mas não quero não. Nunca fui mais, acabou. Só na casa do festeiro, festeiro. Para a igreja aqui termina aqui depois embora.
P/1 - Como que é esse momento de levantar o mastro?
R - Ah, o problema de levantar o mastro é uma tradição que tá. Aí você tem muitos anos, desde Itaúnas velha, nós tem essa tradição, levantar o mastro de São Sebastião. Aqui já tem do do mesmo jeito, vamos enterrar às cinco horas, é marcado para se o mestre marcou para cinco horas, e o é às cinco horas mesmo, uma hora dessa o povo tá chegando. O povo já tá chegando, povo já tá chegando, já tá vendo isso aqui tudo cheio de gente já. E aí nós tira mastro aqui dentro, entendeu? E aí vamos, o mastro já tá pintado ali, naquela beira do rio ali, tá pintada, aí junta uns 20, 30, 40 homens, já bota aquilo nas costas e já carrega, passa por lá, roda por lá e vai topar na igreja de São Sebastião de____.
P/2 - Tem alguma marcha, alguma música?
R - Tem, tem uma marcha que a gente diz assim “Ô glorioso Benedito, São Sebastião vamo enterrar o mastro de São Sebastião/ isso é de todo dia, isso é de todo ano/ isso é de todo dia, nós fazemos todo ano/ é a marcha para enterrar o mastro.
P/1 – O senhor falou que só sai da brincadeira quando o senhor não aguentar mais... O que que mudaria na sua vida se você deixasse de praticar?
R - Eu acho que o seguinte, se eu não estivesse sentado olhando para... Ensaio não, ensaio não tô ligando para isso não, ensaio às vezes vou um, dois, tal, não tô para ir lá não, ensaio eles sai e faz do jeito que quiser. Agora representação eu tô aqui, enterração de mastro eu tô aqui, entendeu? Tudo. Almoço eu tô aqui, almoço eu não fui lá esse ano porque tá, mas agora eu vou. Tem que tá olhando, porque a primeira coisa digo para você, você vai, você é congo, aí o que acontece? Quando você vai almoçar, você leva sua filha, leva seu filho, você leva seu marido, você leva, pô, aí a cultura não vai para frente. Por que que não almoça para você que é o congo, leva seu marido e almoça também? Vai levar a família toda? Não. Tá errado. Eu já reclamei com o mestre há muito tempo, que eu cortava tudo isso. Entendeu?
P/2 - Eu queria perguntar um pouco se você puder descrever como que é o Ticumbi, as roupas.
R - Olha, pra de contar com certeza é página. Para escrever a gente tem baile de Congo aí, eu não vou te dar agora porque... mas eu posso passar para Mariana, Mariana passa para você. Eu tenho baile Congo ali. Lá, tá lá em casa. Nas caixas que eu tenho baile Congo que você pega e vê. Baile Congo bom mesmo, baile Congo daquele tempo antigo. Baile de congo bom. Entendeu?
P/2 – E as roupas?
R - As roupas é o seguinte, as roupas é aquilo que você tá vendo, olha lá. Alá as roupa lá. Você vai ter que comprar um pano branco, você vai fazer uma calça branca para vestir. Depois, você vai fazer um saiote, que ele vai uma saia aqui, que é o calça-saiote. Depois, você vai comprar uma camisa de branco, mandar fazer de manga comprida, tudo pregado aqui e depois vem um capacete na cabeça, com um lenço embaixo. Pode olhar que todo mundo tá de lenço alá. Em cima de lenço olha. Esse aí que é o enfeite do Congo. E o rei não, o rei se leva a calça branca, o capacete, o capacete dele é diferente, e aí ó, aí o capacete dele é o que jeito, ali na frente aí. Aí que acontece, uma coberta em cima das costas dele e a espada na mão.
P/2 - Aí eu queria voltar um pouco então, você falou do seu casamento, da sua esposa, dos seus filhos. O que que você acha que mudou na sua vida quando você virou pai?
R - Ah, o pior é o seguinte, mudou na minha vida porque eu hoje eu falo com meu filho. Deus favorece que não puxa eu. Meu filho não puxou eu. Eu falo lá, as nora não gosta, né? Por que que o seu João fala que os filho não puxa ele? Porque eu vejo certas coisas das nora fazer com os filho, que comigo não faz. De você dizer assim: "Eu vou lá, eu vou no tal baile, minha mulher tava nova, me dizia que não ia, que eu ia mesmo. Mas dizia que eu ia e ia mesmo. Hoje não fala que vai, não e quando grita que vai, aí ele não vai não. Ele fica aqui com medo dela e não vai lá. E eu não, eu ia. Por isso que eu acho que mudou por causa disso, porque eu não tinha miséria comigo, eu ia mesmo. E eu não era fácil. Ia, não tinha miséria não. Entendeu? Agora acabou porque eu tô, mas vou só botar a prótese. Já tá inscrito já em São Paulo já pra botar a prótese a menina para trabalhar lá, a menina de… Tá ali embaixo. Ela trabalha lá e ela já, ela Simone já conseguiu já uma... Tá capaz de ainda fazer subida aí, ainda vou bancar de secretário ainda. Entendeu?
P/1 - Sobre a sua relação com seus festeiros, eles que procuram a... o senhor para fazer a festa ou já conhece vem de muito tempo?
R - Não, a gente já se conhece, já vem há muito tempo, esse cara mesmo que eu ando aí faz ensaio de vez em quando na casa dele, ele já vem porque tá... Porque tem ____ muito de ____ de troço, porque eu não deixo esse tanto que eu tô deixando. Mas como ele é muito legal, gente boa, eu ensaio na casa lá na casa dele, ele tá lá para Vitória, para o Rio, para... que ele trabalha fora, mas a mulher, não se estuda para fora, ele entrega a casa para mim na hora dos ensaios, ele entrega a parte de baixo para mim. Tá seu João, toma conta aí, pode ensaiar e pode mudar. Então por isso que eu estou segurando ele. Mas eu era para ter mudado de festeiro.
P/1 - E já tem mais festeiro?
R Ah, só querer. Só eu querer. Eu que não quis ainda. Porque o cara é bom, eu fico com ele.
P/1 - O senhor falou muito sobre ter aprendido com o seu pai, com pessoas que foram importantes. O que que representa esse saber das pessoas mais as velhas, a valorização...
R - É porque, a primeira coisa, você tem que prestar atenção. Agora é leitura, é isso? Agora é leitura. E aquele tempo não era leitura. Aquele tempo você tinha a boa cabeça. Se aqui, igual eu aprendi assim: aqui que o salão, o salão aqui os congo tava brincando. Que que eu fazia? Eu chegava, era menino, eu saía e ficava lá sentado no banco prestando atenção no que eles estavam fazendo. Entendeu? Todos os ensaios eu ia pra lá só para prestar atenção. Eles davam três ensaios, eu não dormia, só prestando atenção. Por que que hoje eu sou profissional? Porque eu prestava atenção nas coisas. E hoje o menino hoje não presta atenção ali que tá fazendo. Quando vai brincar sabe nada. Entendeu? Tá ali porque tá obrigado a tá ali, mas que sabe? Entendeu?
P/1 - Deixa eu voltar um pouquinho na atividade de pesca. O senhor falou que é pescador. Como que funcionava isso? As redes...
R - Olha, a pescaria é o seguinte. Eu não, eu não sou pescador de barco. Sou eu não sou pescador dali. Sou pescador de alto barco, ficar lá 10 dias, 15 dias fora no mar, entendeu? Pegar 80 toneladas, o barco é pegar 80 toneladas, entendeu? Eu chegar, de ficar 10 dias, 15 dias, que chegar e a mulher diz assim: Ó, larga essa roupa para lá. Vai se embora e larga para lá. Que você não tomava banho. Ficava 15 dias você não tomava banho. Você vinha de lá, vinha catingando mesmo, você tinha que passar no corpo três água para poder se limpar, que não tomava banho. Então eu fui criado nessas coisas, em barco grande fora. É, você não pisava no barco a não ser a caderneta embarcado. Então eu aprendi desse jeito.
P/1 - Algum dos seus filhos seguiu a profissão?
R - Renilton, Renilton. Renilton.
P/1 – Eles pescam como?
R - Agora hoje não, hoje eu eles tão a motor aqui na... Mas Renilton, o meu pescou tudo muito em barco. Renilton, Carreto tudo pescou... Só quem não voltou por enquanto em pesca, mas só Bertinho e Renilton.
P/1 - Seus filhos também trabalham com a cultura?
R – Trabalham, Bertinho trabalha com a cultura, ele não é da capoeira?
P/1 - Fala um pouquinho sobre isso dele.
R - É, ele é um menino inteligente. O Bertinho é um menino inteligente. Pra contar com certeza, hoje o pessoal tá dominando essas crianças. Dominado é tudo, tem as casa dele todinha, entendeu? E ele chama as criança vai mesmo. “Bertinho e tal” ele faz as roupa, ele faz projeto, faz as roupas das criança, prepara, a mãe leva a criança lá na casa dele, ou leva em casa e tal. Ó, Bertinho, a roupa que tá aqui de Fulano, Fulano é o tal... Vou levar o menino lá. O bicho é paciente... Mestre bom. Com certeza.
P/2 - E aí desse tempo que você era pescador, ficava 10, 15 dias no mar, teve alguma história que você passou?
R - Bom, história teve. Eu cheguei a me afundar duas vezes. Eu me afundei a primeira vez, vim de Ilhéus para Conceição da Barra num barco grande de 70 toneladas e o barco quando chegou aqui é pena chegou aqui como fosse Itaúnas. Você não era nascido não, era? Ele é quando chegou aqui, como se fosse Itaúnas aqui. Ele largou a tábua, eu liguei o motor, motor MWM, então fomo para beirada, ele afundou e nós baixemo, nademo, santelmo e ele foi pra casa do diabo. Acabou, acabou. Eu já passei muito perigo no mar. Eu.
P/1 - Praticou a atividade de pesca por quantos anos?
R - Ah, eu cheguei a pegar pescar mais ou menos assim uns 40 anos.
P/1 - E esses peixes eles eram entregues para quem?
R - Para firma, para a pesca, _____, para tudo para entrega para lá. Entendeu? Tudo é entrega. Você já chegava, já tinha uns tirador de peixe, já chegava só tomar banho e pá, eles tomavam aqui, tomavam a conta e cuidavam que no mês dia 15 você já lá só receber.
P/1 - O senhor sempre morou em Itaúnas ou morou em alguma outra cidade?
R - Morei em Conceição da Barra 20 anos. Morei em Conceição da Barra aqui teve ruim. Itaúnas teve ruim. Itaúnas hoje quem não morar em Itaúnas é porque não quer. Mas Itaúnas foi ruim. Itaúnas você tinha que viver do peixe da água doce ali, fazer uma moqueca, sua mãe sabe disso, viver do pe... Itaúnas teve ruim. E nessa época de ruim fui obrigado a mudar. Mudei, cheguei a trabalhar na Aracruz. Aracruz trabalhei 11 em Aracruz.
P/1 - Na Aracruz você trabalhava com o quê?
R - Trabalhava em motosserra.
P/2 - Motosserra cortando o que?
R - Eucalipto.
P/1 - Como foi para você mudar de Itaúnas?
R - Ah, mudar de Itaúnas por Itaúnas. Eu tinha duas casas aqui em Itaúnas, duas casas naquele tempo né, a gente dizia duas casas hoje, mas hoje você faz dois barracos. Eu tinha duas casas aqui em Itaúnas, aí troquei uma em Conceição da Barra. Eu estava querendo trocar para mudar para lá. Dei sorte, troquei, aí mudei para minha casa em Itaúnas. Paguei aluguel “mudamo” pra lá.
P/2 - Você achou muito diferente?
R - Ó, pode contar com certeza, eu achei diferente uma parte. Que quando eu mudei aqui para Itaúnas, Itaúnas não valia nada. Itaúnas era preço de banana. Mas como eu passei lá meus 20 e poucos anos, Itaúnas virou, subiu que subiu virou depois, os barraquinhos que tinha na beirada dos fundo lá, você alugava. Você tinha um barraquinho de estuque lá, você alugava. E aqui foi montão de gente, foi montão de gente. Entendeu? Itaúnas subiu que subiu, falei quer saber de uma coisa? Vou mudar pra Itaúnas. Aí fui vendi minha casa lá, desimpreguei também, saí da pesca, e mudei pra Itaúnas. Cheguei aqui, mudei aqui pra casa que era do meu avô. E aí eu fui para pesca, que eu pescava, fui para pesca de canoa. Canoa, botei um churrasquinho ali, fui tocando e comecei a fazer a casa de lateral, fazer uma casa, hoje eu tenho três casas, entendeu? Pronto. Porque a vida é para frente.
P/1 - O senhor falou que quando mudou de Itaúnas as coisas aqui eram preço de banana, que depois valorizou muito. O que que aconteceu para valorizar?
R - É, valorizar do turismo. Turismo começou a chegar, deu... chegou, aí alugar. Alugar barraco que aqui de primeiro Itaúnas, quando era preço de banana, ninguém não podia fazer uma casa, a não ser o rico. Entendeu? O pobre não podia. Fazia uma casinha de estuque, barreava. Indo muito lá pra dentro fazendo o fundo, ficar com as frente, para ali, para aqui, para dali. Aí o povo foi conhecendo Itaúnas, conhecendo Itaúnas, foi enchendo, foi enchendo, Itaúnas hoje tá um falatório, porque foi na hora que eu mudei para cá. Peguei a hora certa também.
P/2 - É, além do trabalho e do congo, o que que você fazia também quando você voltou para Itaúna para se divertir? Você tinha alguma outra forma de lazer?
R - Não. Eu quando eu mudei para cá, é o que eu falei. Eu mudei para cá que eu vim da Barra que eu mudei pra cá, eu trabalhei nessa parte, pescava no mar, que era pescador, pescava no mar na canoa, no remo, fazia um churrasco à noite, entendeu? Vendia uma cachacinha à noite para tocar a vida para frente, fiz três casas ali. Entendeu?
P/1 - Em relação à sua atividade de pesca, tinha muito peixe?
R - E naquele tempo também é o que eu estou falando. Naquele tempo você botava três rede, você não aguentava trazer. Hoje você bota assim é 50, você traz e... no dedo.
P/2 - E que peixes que era essem?
R - Pescadinha.
P/2 - Qual?
R - Pescadinha, robalo, só o peixe dava. Mas ninguém nem fazia questão do roncador, calafate, ninguém fazia questão, que dava demais, demais, demais.
P/1 - Quando vocês voltavam do mar, como que fazia para tirar esses peixes?
R - Ah, a gente trazia a rede, a gente entrava no mar, botava a rede... Aí, quando subiu lá, você amarrava a rede, bem amarrado, enfiava embaixo do banco aqui, amarrava na corda, aí sentava e botava a o a canoa para cima e botava a rede na praia e ia despescar.
P/1 - Por que que não tem mais a mesma quantidade de peixe que tinha?
R - Ah, não tem, porque foi muito estrago...O povo... O homem acabou. O homem acabou. Eu conheci de Santo de barco passava aqui. De primeiro aqui você descia aqui, pegava canoa ou uma barqueira, você chegava lá, pegava dois, três sacos de peroá. Você hoje lá pega dois, seis, sete, vem com pouco. Veio de Santo, um barco grande, cheio de gelo dentro do frigorífico, tinha o frigorífico, começou a passar o balão, pegava três toneladas, só de uma vez. Acabou com peroá. Agora tá criando, mas tá criando daquele grande. Tá vendo? Só do grande. Pequeno sumiu. Aquele pequeno sumiu.
P/1 - Além do peixe, da pesca no mar, tinha outra prática de tirar recursos, marisco, pesca no rio?
R - Tinha o sururu. Sururu era demais, o pessoal vendia 1 L, 2 L, 3 L, 4 L, tirar o sururu naquele tempo. Hoje você não topa mais. Diz que tá tendo até tem um sururu lá agora na pedra. Vai lá. Eu vivia do sururu também. E muito sururu. Só via com mulher vinha de lá com saco na cabeça. Era na cabeça. Era um saco na cabeça, de Sururu.
P/1 – E aqui no rio, no rio Itaúnas?
R – O rio Itaúnas também foi rico: acará, traíra, robalo, foi rico também. Vivemos muito desse rio também, mas hoje você vai lá só tem bagre africano.
P/2 – Seu João, eu queria que falasse um pouco desse lugar que a gente tá. O que que ele é?
R - Olha isso aqui vou te contar para você. Meu pai... Eu, rapaz, eu tenho que contar muita coisa porque eu tenho coisa pra contar. O meu pai, ele chegou brincar no Bongado. Quando o mestre do Bongado morreu, o que é que acontece? Morreu não, ele estava doente, mandou chamar meu pai para tomar conta da brincadeira. Meu pai veio, o nome dele é chamava seu Pedro. Pedro Bongado. Ele falou: "Seu Antero, eu quero que você toma conta da brincadeira. Porque eu não vou aguentar dessa vez, vou morrer. Aí meu pai falou: Seu Pedro, você não vai morrer não. Não, você pode tomar conta da brincadeira. Seu Pedro, o senhor tem seu filhos, dá para eles. Não. Não tinha responsabilidade. Porque vamos adiante e volta para trás. Se você brinca desse grupo aqui de Ticumbi, eu não sou dono da brincadeira não. Não fica pensando que eu sou dono da brincadeira que eu não sou não. Claro, porque a brincadeira é nossa aqui, mas eu não sou dono da brincadeira não. Todos vocês são dono da brincadeira. Se o ______ tem uma responsabilidade, sabe tratar todo mundo, sabe tratar, eu que sou mestre, tô olhando para ele o jeito que ele é, o jeito que tá. Amanhã eu saio e vou falar: Ó, você vai tocar aí. Tomar conta da brincadeira, está aqui. Ele tem responsabilidade, ele que vai tomar conta. Eu botei meu filho para tomar conta da brincadeira, porque não tinha outro dentro da brincadeira. Não tinha outro. E ele começou a brincar com 13 anos, entendeu? Aí botei ele para brincar de mestre, por causa disso. Aí, tudo bem. Aí, meu pai encontrava isso que você quer. Aí, meu pai disse assim: Nossa, que eu vou. Aí, para lá, brincamos lá pro Sertão, fomos brincando, fomos brincando. E nós tínhamos um São Benedito na Itaúnas Velha junto com o São Sebastião. Eu não sei o que que o padre fez, o padre porque disse que era preto. O povo fala que era preto e o padre não queria preto dentro da igreja, que é o sapo. Pegou o São Benedito e levou para São Mateus, botou no museu. E cá o Andronino, que era delegado e o outro delegado que trabalhou com ____ pegou São Benedito, foi lá, panhou São Benedito e trouxe. Aí foi na roça dele que era uma fazenda, fez uma igreja e botou São Benedito lá na fazenda. Falou: Ó, compadre, de agora para frente, Papai morava em Itaúnas Velha, de agora para frente, o senhor vai festejar São Benedito lá. Papai, bom. Quando chegar na época, Papai ia lá para brincava, tal, tal, tal. Aí ele foi, vende a fazenda. Mudou para Pedro Canário, comprou três casas, comprou uma para São Benedito. Aí veio na casa do meu pai: Chegou, olha, parente. Chamava compadre, ó compadre Antero, o senhor agora vai lá pra levar o São Benedito pra lá pra cá pra lá. Papai pegou, ajeitou nós, tinha cá... tinha eu, Alcindo, Agemiro, titio Lino , é, tinha outro. Estiveram em cinco, Agemiro, cinco, que brincava aqui. Pouquinho para lá levamos, pá, pá, pá, pá, que quando chegou lá e chamou o papai. Seu Antero. Oi. Olha, de agora para frente você vai festejar São Benedito aqui em Pedro Canário. Papai: não. Não. Cassimiro, faz favor. Ó, senhor ajeita a sua turma aí, pode ajeitar a sua turma aí que eu vou fazer uma brincadeira para mim em Itaúnas Velha, mas não venho festejar aqui. Pois dito certo. O Andronino ficou, o Andronino mais o Cassimiro ficou uns seis anos sem brincar e nós chegamos e tocamos a brincadeira para frente, juntamos com a turma do Angelino, turma do Orota, Seu Osmar, na casa do Seu Osmar, lá que nós ensaiávamos. Tocamos o pau, tocamos... Nós não tinha igreja. Aí papai foi ajeitando, foi ajeitando, ajeitou essa igrejinha aqui, no tempo era taubinha, depois botei para eternite. Aí de eternite, tudo bem. Aí o papai tava sem santo. Tinha o São Bendito. Aí teve uma mulher aqui que fez esse... tá vendo esse boneco aí? Ela teve aqui e fez esses boneco todinho. Aquele ali. Falou: Seu Antero, eu vou conseguir o São Bendito para o senhor. Que papai era... se eu sou falador, papai era pior do que eu. Aí tá bom. Aí passou um tempo, passou um tempo, passou um tempo. Aí morava aqui. Papai morava aqui mais mamãe. Disse assim, seu Antero, eu trouxe aqui esse bilhete aqui que uma menina mandou para o senhor ir no correio que tinha um presente lá pro senhor no correio. Papai ó, eu vou lá ver. Idalina, eu vou lá. Aí nesse tempo tinha um tal de Jula aqui que fazia correria aqui no Jeep. Aí pegou papai, ele levou, papai parou, papai pegou, chegou lá, pegou uma caixa. Aquela caixa tal, olha que coisa, chegou na cozinha lá em casa, aqui. Chegou na cozinha, foi desenrolar, desenrolou, pulou! Pulou São Benedito. Papai: estou como quero, agora eu tô como quero, graças a Deus tô como quero. Foi que vinha ali, pensei ali. Entendeu? Aí foi como quero. Aí pá, pronto, aí ele botou na igreja. Papai, aí falava assim: Antero, vai botar na igreja. O que, menino? Aí deixa esse povo carregar um, e vai carregar o meu, num boto de jeito... e não botou, e não botou, num botou de jeito nenhum. Aí tudo bem, rapaz, nós passamos por aqui, a igreja tava pronta. Aí como São Benedito, nós tocamos a vida para frente. Aí tudo bem. Aí ele foi e pediu a Rogério. Rogério, você não me ajeita um santo maior para mim tirar fazer procissão não? Porque o São Benedito pequeno é ruim fazer a procissão. Rogério, Antero, que ele é muito chegado do meu pai, hoje não tá aqui, tá nas últimas. Vou ajeitar. Aí foi, consegui esse São Benedito grande. É que faz a procissão, papai tomou conta. Aí, aí eu fiquei, aí eu entrei de mestre. Entrei de mestre, fiz um projeto da igreja tava... essa igreja tava caindo, ela ficou no pau comido de cupim, diabo a 4, fiz o projeto, dei, aí eu preparei isso aqui, tudo preparou foi eu, só madeira boa, ó. Tudo madeira boa. Aí, tudo isso aí era piso. Eu botei tudo azulejo foi eu fiz. Entendeu? Por isso nós criamos a igreja. E tem a peste aqui mesmo. Peste mesmo, peste para durinho. Então, eu tô na hora de almoçar, já tô demorando muito. Não tá na hora de almoçar, não, já? Já tô na hora de almoçar.
P/1 - É, já estamos finalizando. Quais são as coisas mais importantes para o senhor hoje?
R - Olha, para mim o coisa mais importante para mim hoje… Eu queria que a cultura subisse cada vez mais para mim, eu achava coisa bonita. Eu vi um reis bonito igual eu vi. Um reis bonito. Um Ticumbi igual eu já vi o Bongado bonito que é um caboquinho. Entendeu? Ticumbi de Itaúnas não digo, porque Ticumbi de Itaúnas sempre cresceu. Sempre cresceu porque o Ticumbi é igual o Flamengo, é igual o... é igual aquele time assim, cresce de um dia para noite, Ticumbi toda vida foi,que Ticumbi toda vida nunca perdeu ponto para ninguém não. Entendeu? Então isso que eu quero, quero que a cultura cresça. Tem uma pessoa que entra lá, entendeu? Vou ministrar a cultura para vê-la crescer, porque é bonito você chegar, ver um reis bonito, ver uns bicho brincando, bonito. Isso que eu queria. Entendeu?
P/1 - E como foi para o senhor contar a sua história? Hoje aqui. Contar a história da sua vida.
R - Ah, minha história da minha vida é essa aí que eu estou falando. É beber agora da agora para frente desse jeito, entendeu? Comer e beber e pronto. Não vai ter jeito de tá andando. É saí para tomar uma, né? De o primeiro tomava uma, agora não tomo mais.
P/1 - Várias.
P/2 - Mais uma pergunta que eu queria fazer. Que que o Ticumbi te ensinou na sua vida?
R - Olha, o Ticumbi não me ensinou nada. Eu aprendi por minha conta. Entendeu? Vai dizer, você Ticumbi não ensina nada a ninguém. Você tem que aprender por sua conta. Entendeu? Se você for esperar por Ticumbi ele não vai te ensinar nada. Entendeu? Agora você tem que aprender por sua conta. Você tem que ter memória. Você tem que pensar o que você vai cantar. Se vale com o você só vai responder. Muito que você vai preocupar, é a com o verso. Ai glorioso Benedito, oh Maria de São Sebastião, aí. Oi glorioso, Benedito, oh Maria de São Sebastião. Oh quem tiver o seu devoto, oh vai brincar no seu cordão, aí. É verso. Tem que ter essa memória para na cabeça… para tirar esses versos. Não tira. Viu? Ela sabe. Então, tem que ter. Tá bom?
P/2 - Tem mais alguma coisa?
R - Não, eu não tenho mais nada e eu já estou querendo almoçar já.
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