Identificação Museu da Pessoa - Para começar eu gostaria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento. Laércio - Meu nome completo é Laércio Guillardi Júnior, eu nasci em São Paulo, capital, sou paulistano, e o que mais você queria? MP - Em que dia, mês e ano? Laércio - No dia 2 de dezembro de 1960. MP - Sempre morou em São Paulo? Laércio - Sempre, com um pezinho no interior porque a família é do interior, por parte de pai. O pessoal é de Salto, o conhecido como Salto de Itu, mas não é mais, é só Salto. Pais e avós MP - O nome dos seus pais? Laércio- Meu pai, Laércio Guillardi, taí o Júnior. E minha mãe, Madalena Bosque Guillardi. MP - Então você estava dizendo que a família do seu pai é do interior, e da sua mãe? Laércio- Paulistanos. MP - E você sabe um pouquinho da história da família do seu pai? Laércio - Olha, do meu pai eu sei muito mais que da minha mãe, para falar a verdade, porque são parentes vivos, ainda mantenho contato com eles. A minha avó ainda é viva, graças a Deus, que é uma luz para a família, porque concilia a gente em situações difíceis. Apesar da idade, ela é totalmente lúcida e isso é importante, é um ponto de equilíbrio da família. Meu avô chamava Frederico, minha avó chama Alzira, ela teve vários filhos, como a família paulista do interior. Perdeu dois e ficou uma família, que são três tios, o Leonel, o Sérgio e o Laércio, que era o meu pai. Uma família que tem aquela empolgação e união, fazia questão de estar sempre junta no fim de semana, era santificado um almoço ou um jantar junto, então era uma família bem unida. MP - Lá em Salto o que seus avós paternos faziam? Laércio - Olha, o meu avô trabalhava em uma fábrica, mas se você me perguntar o que ele fazia, minha memória não vai ajudar, acho que era a única que tinha. (risos) Minha avó era dona de casa. E uma parte boa da minha infância, das lembranças de Salto,...
Continuar leituraIdentificação Museu da Pessoa - Para começar eu gostaria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento. Laércio - Meu nome completo é Laércio Guillardi Júnior, eu nasci em São Paulo, capital, sou paulistano, e o que mais você queria? MP - Em que dia, mês e ano? Laércio - No dia 2 de dezembro de 1960. MP - Sempre morou em São Paulo? Laércio - Sempre, com um pezinho no interior porque a família é do interior, por parte de pai. O pessoal é de Salto, o conhecido como Salto de Itu, mas não é mais, é só Salto. Pais e avós MP - O nome dos seus pais? Laércio- Meu pai, Laércio Guillardi, taí o Júnior. E minha mãe, Madalena Bosque Guillardi. MP - Então você estava dizendo que a família do seu pai é do interior, e da sua mãe? Laércio- Paulistanos. MP - E você sabe um pouquinho da história da família do seu pai? Laércio - Olha, do meu pai eu sei muito mais que da minha mãe, para falar a verdade, porque são parentes vivos, ainda mantenho contato com eles. A minha avó ainda é viva, graças a Deus, que é uma luz para a família, porque concilia a gente em situações difíceis. Apesar da idade, ela é totalmente lúcida e isso é importante, é um ponto de equilíbrio da família. Meu avô chamava Frederico, minha avó chama Alzira, ela teve vários filhos, como a família paulista do interior. Perdeu dois e ficou uma família, que são três tios, o Leonel, o Sérgio e o Laércio, que era o meu pai. Uma família que tem aquela empolgação e união, fazia questão de estar sempre junta no fim de semana, era santificado um almoço ou um jantar junto, então era uma família bem unida. MP - Lá em Salto o que seus avós paternos faziam? Laércio - Olha, o meu avô trabalhava em uma fábrica, mas se você me perguntar o que ele fazia, minha memória não vai ajudar, acho que era a única que tinha. (risos) Minha avó era dona de casa. E uma parte boa da minha infância, das lembranças de Salto, é que todas as casas lá eram enormes, tinham pomares, eu andava afogando as galinhas na privada... (risos) Casa dos avós MP - Você se lembra dessa casa dos seus avós? Laércio - Lembro. Era uma casa grande na frente, dando a impressão de ser uma casa grande, mas você saía na porta do fundo no quintal e ficava maravilhado: era pomar, galinheiro, aquela coisa bem do interior mesmo. Muito bonita a casa, então, por exemplo, se você queria jabuticaba, pegava no pé; abacate, tinha o pé de abacate; mamão... O contato com animais, coisas com que, por exemplo, nossas crianças não interagem hoje, não tem essa oportunidade, é uma pena. Foi uma infância muito boa. MP - Você passava férias lá? Laércio - Não, não passava as férias, mas praticamente todo fim de semana a gente ia. Era uma opção de almoço num lugar diferente. Meu pai era uma pessoa que gostava muito de viajar, muito. Então quando a gente não ia para o interior, acabava indo para o litoral, ficava em Santos, mas o passeio preferido era para o interior, porque podia entrar no mato, caçar, coisas que até hoje eu gosto, pescar. MP - E nesse almoço o que tinha? Laércio - (risos) Geralmente um bichinho dançava, uma galinha sempre era o alvo do almoço. Aquele almoço bem caseiro, temperos fortes, família metade italiana, metade espanhola. O pessoal se reunia e contava história, mexia muito com o nosso ego, brincava, fazia com que as crianças tivessem um desenvolvimento gostoso. Não tinha video game, tinha várias brincadeiras, nos empolgavam com brincadeiras, que por exemplo, se eu falar hoje acho que já não existem mais, como esconde-esconde, beijo, abraço e aperto de mão, e tantas outras que hoje a gente perdeu na história. MP - Além de você e seus pais, seus primos também iam para lá aos domingos? Laércio - Sim, todos, eram pontos de encontro, assim como na minha profissão tem o ponto de encontro, nessa época também era o ponto de encontro, onde a família se reunia, dava risada, se divertia, era muito bom. Pais e avós MP - E você sabe por que o seu pai veio para São Paulo? Laércio - Meu pai veio jovem para São Paulo, atrás de oportunidades, de grandes empresas, quem sonhava em crescer tinha que procurar uma grande empresa. Ele se situou numa boa empresa, ele se aposentou nessa empresa, foi a primeira e última empresa dele, coisas que não são tão comuns hoje em dia. MP - Ele já estava casado quando veio para São Paulo? Laércio - Não, ele conheceu minha mãe em São Paulo, nos famosos bailes de bairro que tinham, não vou te falar como eram esses bailes, mas tinham uns bailes que eram realizados por clubes e eles se encontraram, se conheceram num desses bailes. MP - E seu pai veio para São Paulo morar em que bairro? Laércio - Inicialmente, ele morava no Brás, do pouco que eu sei, morava no Brás. E como o Brás faz divisa com o Belém, num bailinho aqui e em outro lá, ele conheceu minha mãe. (risos) MP - E da família da sua mãe o que você sabe? Laércio - Eu sei muito pouco, porque é a parte italiana. Então eu, por exemplo, não sei o nome do meu avô, não se chamam por nomes, era o Pepino, Titina, Ernesta, não sei o quê. Até hoje eu tenho minhas tias vivas, e onde eu moro tem uma grande concentração da família, elas vão em casa e estão meio caducas, pessoal bem velho mesmo. E não sabem nem falar o nome, é Ernesta, Titina, Pepino, é isso. MP - E sobre seus avós maternos você não sabe se eles vieram da Itália, quando vieram, se foram os bisavós? Laércio - Minha avó casou com um espanhol. Ela nasceu em São Paulo, mas era neta e filha de italianos, aí começou a bagunçar a raça. Casa da infância MP - E essa casa do Belém você conhece? Laércio - Qual você fala? MP - Você conheceu a casa dos seus avós maternos? Laércio - Veja bem, a primeira residência da minha avó eu não conheci, mas a casa em que eu moro hoje é uma casa de herança, já está com a família há muito tempo, era da minha avó, passou para minha mãe, e da minha mãe para mim. Minha mãe é viúva, mora comigo, nós temos essa casa há 70 anos, no mínimo. Boa parte da minha lembrança é nessa casa, é muito antiga. MP - Então seus pais se conheceram aqui, se casaram e foram morar nessa casa? E como é essa casa? Laércio - Essa casa é agora bem diferente do que era, já sofreu várias reformas, devido até mesmo à situação, a família cresceu, um filho a mais. Eu me lembro dela quando era térrea, eu gostava muito quando ela era térrea. Hoje ela tem três andares, são casas conjugadas, qualquer barulho o vizinho sai na porta. Onde eu moro é um lugar que não tem violência, há 41 anos que eu moro nessa vila, nunca teve um relato de violência, de agressividade, assaltos, então é um lugar bom para educar e fazer com que os filhos cresçam saudáveis. Porque o pior de tudo é ter receio de deixar seu filho sair para uma festinha, ou ir na escola porque de repente vai sofrer uma agressão, ser assaltado, ou quem sabe até morto. E essa vila é um lugar tranqüilo, onde eu cresci, minha mãe cresceu, e onde eu quero que meus filhos cresçam. MP - As lembranças mais antigas dessa casa e da vizinhança, quais são? Quando menino, por exemplo? Laércio - Só as reclamações. A gente crescia com uma certa liberdade, o passatempo favorito da molecada era quebrar vidro, bater nas portas, mexer com os mais velhos, tudo de forma saudável sem barbarizar ninguém. Era: "Seu filho quebrou o vidro da minha casa" "Seu filho pôs um espantalho e me assustou" "Ficaram jogando aranha em casa" Esse tipo de brincadeira eu me lembro bem. Comigo cresceu uma turma, perdi contato com muitos, mas sempre que eu encontro um desses amigos é sempre bom ver que ele está bem, estabilizado, com família, é muito legal. Lembranças do pai e da mãe MP - Sua família é de muitos irmãos? Você tem quantos irmãos, Laércio? Laércio - Eu sou filho único, é uma parte que faltou em mim. Não pelo fato de ser filho único, eu sempre tive o que quis e meu pai, graças a Deus, sempre recebeu um bom salário. Ele era o tipo do pai que mimava. MP - No que ele trabalhava? Laércio - Ele trabalhava na Engenharia Badra, com construção civil. Tinha um bom salário, era aquele homem que chegava cedo em casa, gostava muito da família, uma pessoa muito bacana, sinto muita falta do meu pai. MP - Como você o descreveria fisicamente? Laércio - Uns 40 centímetros maior, na altura e na barriga, (risos) porque ele gostava de uma cervejinha, de um bate papo, uma pessoa super agradável. Também tinha uma quedinha de ser valentão, mas era gente boa, tinha um bom coração. MP - E sua mãe ainda está viva, você disse que ela é viúva, e ela trabalhava fora de casa? Laércio - Ela trabalhou pouco tempo, durante o casamento acho que ajudou meu pai por uns cinco anos, depois ela teve minha irmã, que faleceu logo após o nascimento e logo que ela me teve acho que se preocupou, por já ter perdido um filho, não quis trabalhar mais. E como meu pai tinha uma situação boa e podia mantê-la em casa... Não sei, até hoje ela... E eu, enquanto puder mantê-la na mesma situação, eu vou tentar. Primeira escola MP - Você lembra da primeira escola em que você estudou? Laércio - Lembro. MP - Na região do Belém? Laércio - Na região do Belém. MP - Como se chamava? Laércio - É o SESI, SESI Catumbi. É ativo até hoje, de Colégio do Estado é um dos melhores. Oferece um suporte para o aluno, alimentação adequada, se preocupa com futuras atividades, ensina a parte técnica. É um colégio muito bom, claro que comparado a um particular, até que perde um pouco, mas é um bom colégio. MP - Como era essa escola, a sala de aula, o uniforme? Laércio - Uniforme era o convencional da época, o tradicional, a calça de tergal azul e a camisa branca escrito SESI em vermelho. E tinha uma gravatinha também, (risos) muito esquisita. Era um colégio em que você tinha que aprender a se virar, porque como tinha gente do bem, também tinha do mal, os maiores sempre castigavam os menores. Então era o tipo de lugar que se você não quisesse ser molestado, aprenda a se defender, se esquive... E isso foi bom também para a minha formação. MP - E você era um bom aluno? Laércio - (Risos) Precisa perguntar isso? Eu me considerava um bom aluno, não por ter as melhores notas, mas por me dedicar ao máximo. Eu achava que ia conseguir e ficava meio enciumado quando a professora falava para o outro: "Você tirou a melhor nota" E eu ficava: "Poxa, eu não consigo..." Mas eu continuava tentando sempre. MP - E qual a lembrança mais marcante dessa escola? Laércio - O lado humano. Recentemente houve um encontro de alunos que teve comparecimento tanto dos alunos, como dos professores que estão vivos, então foi muito legal, o pessoal chorando, se olhando: "Poxa, mas não é você, você está diferente" Isso marcou, não sei se agora na escola existe esse lado humano. Mas isso marcou, o lado humano. Os professores sabiam o nome do aluno, o nome do pai, você sabia onde morava o professor, você podia contar com o professor na hora de pedir um conselho, isso faz falta, a sinceridade, o lado humano que existia nesse colégio. MP - Você estudou até que série no SESI? Laércio - Até a oitava série. Brincadeiras da infância MP - E as brincadeiras mais marcantes nesse período da escola? Laércio - Tinha quadra poliesportiva, então eu praticava esporte, tinha handboll, futebol de salão, educação física mesmo, que era aula obrigatória, isso que marcava. Tinha o recreio, mas aí a gente tirava só para aprontar, perturbar os menores. MP - O que era aprontar? Laércio - (risos) Tem que falar essas maldades? P - Umazinha pelo menos. (risos) Laércio - Eu adorava derrubar sopa nos outros, o pessoal estava com conchinha na mão e eu passava e batia de maldade. (risos) Diversão na adolescência MP - E a sua adolescência passada no Belenzinho, como era sua diversão nos finais de semana? Laércio- Gozado, quando começa a adolescência desperta em você também a vontade de conhecer lugares diferentes, então eu não tive muito da adolescência no Belém. Eu sempre fui uma pessoa de viajar, encontrava os amigos: "Vamos para tal cidade ou para aquela..." Então a gente nunca ficava no mesmo local, sempre numa cidade diferente, sempre fazendo amizades, tive namoradas em outras cidades. Me diverti muito na adolescência, fiz amizades, tem situações de relacionamentos que eu guardo até hoje, as pessoas me ligam, eu ligo, foi um lado muito positivo da adolescência. MP - Nessas viagens tinha bailinho, quando você ia para essas cidades, clubes? Laércio - Geralmente, a gente optava por regiões que tivessem, propriamente dito, situações de gandaia. (risos) Litoral, onde você pudesse sair à noite e tivesse um show na praia, ou se você fosse para uma cidade do interior, já ia direto para esses clubes que faziam esses bailinhos na época. É interessante porque o pessoal do interior percebe quem não é da cidade, então a gente fazia sucesso. (risos) Aparecia num lugar que nunca... Às vezes apanhava, mas fazia sucesso. Primeiro emprego MP - E você começou trabalhar a partir de que idade? Laércio - Com 16 anos. MP - Qual foi seu primeiro emprego? Laércio - Meu primeiro emprego foi como office boy na Indústria de Balanças Filizola. Eu gostava muito. MP - Você ficou lá até quando? Laércio - Eu fiquei dois anos e meio na Filizola e só parei porque apareceu uma oportunidade de curso na Protec, que era um curso de desenho arquitetônico e eu sempre me identifiquei com desenho, aí eu fui fazer esse curso. Mas lamento muito de ter deixado a empresa, porque tinha um lado gostoso lá, o pessoal se gostava. MP - Você estudou até quando, Laércio? Laércio- Eu cheguei a fazer o Colegial completo. Não se pode falar até quando, eu continuo estudando muito, a minha profissão exige isso e eu gosto. Agora eu vou fazer uma faculdade, futuramente eu vou fazer um curso porque não tem idade para isso, né? Basta você querer criar horizontes, querer conhecer mais, isso eu acho importante. Enquanto a pessoa tem esse hábito, essa curiosidade, eu acho que o mundo está para ele. MP - E depois da Filizola você trabalhou em que outro lugar? Laércio - Aí eu passei a trabalhar no Banco Auxiliar, fiquei dois anos e meio também no Banco Auxiliar. Porque eu era jovem, e você até não tinha afinidade com aquele tipo de emprego. No Banco Auxiliar o meu contato era com o público, isso eu gostava e sempre gostei. Mas o meu serviço era muito chato, era cobrança, mexia com duplicatas, borderô, resolução 693 e não sei o quê, isso eu não gostava. Aí apareceu a oportunidade de sair do Banco Auxiliar e eu fui para a Fábrica de pneus Goodyear. Eu gostei também, uma boa fábrica, trabalhei cinco anos na Goodyear. MP - Em que função? Laércio - Na época eu tinha uma formação, mas não tinham vagas, então eu entrei na fábrica mesmo, comecei a trabalhar na vulcanização. E foi bom para mim porque o pessoal notava que eu tinha um pouco mais de cultura, que eu era uma pessoa mais educada e as portas foram se abrindo até eu parar no laboratório Físico-Químico da empresa, onde eu fiquei um bom tempo. MP - E é de lá que você entra no Aché? Laércio - É da Goodyear que eu entro no Aché. Entrada no Aché MP - E como foi a entrada? Você já tinha ouvido falar do Aché? Laércio - É, tinha um colega meu que trabalhava no Aché. E um fato marcante é que um dia eu encontrei com eles no campo de trabalho, na Celso Garcia, eles visitavam os médicos ali. Encontrei com eles muito bem alinhados, na época era paletó, gravata. Eu pensei: "Puxa, que legal, o cara cresceu na vida." Então eu, que estava desempregado, disse: "Pô, Salvatore, vê se me apresenta, eu quero ficar bonito também, trabalhar numa empresa igual à sua." Ele disse: "Eu te apresento, só que com uma condição: como você é meu amigo, eu vou te cobrar muito mais lá, você vai ter que ser o melhor." Isso foi muito bom pra mim, porque durante o curso que eu estava, na fase de entrar ou não na empresa, eu fiquei preocupado e estudei muito, ficava até tarde estudando, me dediquei muito. MP - Como era o curso, Laércio? Laércio - Era mais ou menos assim: eram 10 a 20 dias estudando o material, o MIP, o B1, B2, B3. Deixa eu explicar melhor, que seria a vida do produto, o que ele faz, o mecanismo de ação, como atua, isso. E logo em seguida tinha uma prova. Você tinha que estudar, assimilar e fazer uma prova. E tinha que ficar preocupado também em se apegar à linguagem que você nunca tinha usado na vida, por exemplo, substâncias, sais, como a desoxirribonuclease. Eu não sabia nem falar, então foi uma época estressante. MP - E nesse período de curso você já tava contratado pelo Aché? Laércio - Não, era eliminatório. Os que se destacavam continuavam. Se não, eram convidados a ir para uma sala do lado e sempre saíam tristes. Mas eu, graças a Deus, saí contente, mas me dediquei muito. MP - E em que ano foi isso? Laércio - Em 89. MP - E quando você soube que tinha sido contratado, qual foi a sensação? Laércio - Uma sensação muito agradável mesmo, não só pelo fato de saber que está entrando numa empresa, que já na época dava um suporte bom, que você ia ter um salário muito bom, ia conseguir comprar coisas que estava almejando e não tinha dinheiro. Fiquei contente também pelo fato de saber que eu ia ser uma pessoa diferenciada. Assim, trabalhar diferenciado, eu só tinha colocado terno em casamento, e de repente... Aquilo foi importante para mim, começar a trabalhar com terno, me valorizar mais como pessoa. Quando você começa a se valorizar, aí você começa a se policiar: "Poxa, eu vou falar com o médico. Preciso saber se todas as palavras estão certas, eu preciso ler um pouco mais, estar mais a par das notícias..." Isso é legal, começam a valorizar você como ser humano. Primeiro dia de trabalho MP - Você lembra dos primeiros dias de propaganda médica? Como foram? Laércio - Lembro. O primeiro dia foi muito constrangedor, porque eu sabia que ia estar de frente a um profissional altamente qualificado, que dedicou anos da vida para fazer o que ele mais gosta, que é a medicina e eu fiquei me perguntando: "Bom, o que você vai falar, a mensagem? Mas e se ele perguntar alguma coisa, eu vou me enrolar, porque ele estudou anos e eu estou entrando agora nisso." Eu lembro que antes de começar a propaganda, eu entrava me justificando, não me desculpando, porque eu não tava fazendo nada de errado. Eu estava aprendendo minha nova profissão, mas eu falava: "Doutor, eu estou iniciando, pode ser que eu fale alguma coisa que não seja comum às coisas que o senhor ouve e estuda, mas eu estou me dedicando e quero ter um bom relacionamento com o senhor porque eu sou aquele cara que vai vir uma vez por mês conversar sobre produtos farmacêuticos." E foi legal, aparece aquela afinidade, você começa a ter um vínculo com o médico, um relacionamento, é muito legal. MP - Você lembra a região em que você começou? Laércio - Lembro. Eu comecei fazendo a minha própria região, que era o Belém e um pedaço do Pari. A Carlos de Campos, pegava um pedaço da Água Rasa, Avenida Celso Garcia. Eu já conhecia tudo, era muito bom. Carro próprio MP - E como você se deslocava de um lugar para outro, você tinha carro próprio? Laércio - Todos tinham que ter carro próprio na época, claro que não eram totalmente confiáveis como os que a gente tem hoje. MP - E que carro você tinha? Laércio - Eu tinha um Opala, acho que era, pelo menos no documento estava Opala, um carro antigo, mas me serviu durante um bom tempo. MP - Alguma situação que você tenha vivido com o Opala? Laércio - Uma vez, eu estava muito preocupado, foi um outro Opala, mas como estamos falando em Opala você me fez lembrar desse caso. Tem uma praça no Tatuapé, que chama Henrique Lindeberg, que sai da Celso Garcia e adentra para o Tatuapé e eu estava com muita pressa, preocupado em chegar no ponto de encontro certinho, e cheguei bem antes. Parei o carro na praça e falei: "Meu Deus, deixa eu ver se não estou esquecendo de nada." Eu fazia uma lista das atribuições do dia, aí eu estava fazendo e lembrei que tinha uma coisa que eu esqueci com o médico e naquele desespero abri a porta e a porta sumiu. (risos) Porque vinha vindo um carro e levou a porta embora, (risos) quer dizer, são situações que você está preocupado e não presta atenção no resto do mundo. Agora eu lembro e acho engraçado, mas no dia eu tive um belo susto. Alterações no trabalho MP - Imagino. E além dessa região que você já conhecia, o Aché era muito diferente do que é hoje? Trabalhar há dez anos atrás é muito diferente do que você faz hoje? Laércio - Eu acho. Era assim: você tinha que se dedicar muito, porque além da visita médica, que sempre foi o forte do laboratório, esse contato, a gente tinha as vendas. Nessa época eu era um vendedor, um cobrador e propagandista, então eu tinha que tentar intercalar essas três profissões em uma só, era complicado. Eu sentia dificuldades, eu ficava preocupado porque às vezes minha visitação não atingia o desejado e eu não ficava só preocupado por mim, mas pelo meu supervisor, porque o deixava numa situação delicada. Então eu ficava muito preocupado com isso, mas eu consegui tirar de letra. MP - Então hoje você só faz propaganda médica, essas duas outras funções se extinguiram? Laércio - Não, sempre fica no sangue a vontade de vender e cobrar. Mas assim, a gente passa de uma outra forma para a profissão, o objetivo é a propaganda, o institucional? É. Mas nada como cobrar que o médico te ajude: "Doutor, me ajuda nesse produto, faz isso?" Ficou o instinto de cobrança. E de vendas, se a gente não vender a idéia, está tudo errado. O nosso objetivo é fazer uma propaganda que venda, é o prioritário. Lançamento do Famox e do Gelusil MP - E alguns produtos marcaram mais nessa sua trajetória? Laércio - Sim, alguns marcaram muito. Um que marcou muito minha trajetória foi o lançamento do Famox, foi muito engraçado. A gente ia ao consultório, fazia a propaganda de um antagonista H2, ou seja, é um produto para úlcera, gastrite, esofagite de refluxo. Então falava com o médico, simulava uma situação: "Doutor, numa situação do dia a dia, na correria, o senhor faz isso ou aquilo?" Falava: "Doutor, se o senhor tomar um suco de laranja, numa situação assim, pode dar uma gastrite, o senhor pode estar um pouco mais nervoso..." E o médico, sempre aceitando: "Doutor, como hoje está muito quente, o senhor dá licença?" Batia na porta e do lado de fora tinha um garçom com uma bandeja, um suco de laranja e com o Famox, e também o Gelusil. Eu estou fazendo confusão; esse lançamento foi para o Gelusil. Então entrava, o médico tomava o suco de laranja e em seguida dava o Gelusil para ele e dizia: "Olha, doutor, para o senhor não ter gastrite, é anti-ácido". Voltando para o Famox, o que foi engraçado para mim é que quando nós lançamos usamos uma camisa que era um aquário que tinha um peixe para passar ao médico a sensação de tranqüilidade. E eu trabalhava na região da Água Rasa, na Moóca, e tem uma loja grande de aquários, que chama Ornamental, existe até hoje. E o pessoal me parava na rua para saber quanto eu cobrava para limpar aquário. Mas foi muito legal, marcou muito, foi um produto forte o lançamento. A família Biofenac também foi um lançamento forte, a linha é bem diferente que há dez anos atrás. Eu tenho um carinho muito grande por esses produtos, eles passam a ser companheiros: "Poxa, eu conheço o Tandrilax, o Biofenac, se o médico perguntar, não vou falar para o cara do Biofenac falar." Eu vou falar, fica sempre aquela vontade de falar do produto. Literatura médica MP - E ainda pensando nas transformações que ocorreram desse tempo para cá, quanto à literatura médica você acha que mudou bastante, Laércio? Laércio - A literatura mudou, mas não posso falar que bastante, sempre foi uma coisa de criatividade, tanto a velha como a nova. Sempre teve campanhas ligadas a elas, criativas. Eu lembro de uma campanha muito forte, era uma lâmina que falava: "Olha, doutor, existem situações..." Você fazia um comparativo: "Existe o jornal A Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, os dois são grandes jornais, os dois tem impressão de alta qualidade..." Sempre falando coisas que elevassem os dois jornais, de repente você mudava: "Doutor, e quanto a esse produto meu aqui, à base de bromazepam, esse concorrente é igual, mas o meu tem a metade do preço..." Então era bem agressiva e lembro que ao término da propaganda você entregava um dos jornais: "Doutor, qual jornal o senhor lê?" "Leio o Estado." Então deixava o jornal, então foi uma campanha legal, agressiva, mas legal. Eu não posso falar para você que as campanhas de hoje não sejam hiper legais, as campanhas de hoje são super inteligentes, a gente tem uma equipe muito boa, um suporte muito bom, mas não mudou em relação a isso. Em cada época que eu vivi essa literatura, nós vivemos, a literatura é essa, então eu não posso falar: "Aquele tempo foi pior, hoje é melhor." Sempre foi muito bom. Diferencial do Aché MP - E o que você acha que é o diferencial do Aché? Laércio - O grande diferencial é o homem, sempre foi. Isso é citado normalmente, porque você pode ter o material na mão, mas se você não tiver vontade de reverter esse material em receituário, em reverter em amizade, em relacionamento, isso vai ser só um material. Se eu pegar aquela caneta e te der na mão, e te falar "Toma a caneta", pode ser que você esteja precisando da caneta e você vai guardar. Mas se eu falar a vantagem, uma história dessa caneta, se eu criar uma situação com a caneta a coisa vai te marcar: "Poxa, o cara fez uma situação da caneta comigo, o cara é legal. Deu para conhecer um pouco dele, falando da caneta." Isso aí marca, então é importante. MP - E esses relacionamentos com médico, por exemplo, tem algum médico que foi mais marcante na sua trajetória? Amizades que surgiram? Laércio - Sempre, eu costumo falar que crio 365 amigos no setor. A gente tenta fazer o seguinte: o objetivo é fazer com que os médicos que você visita sejam seus amigos porque você vai ficar lá um, dois, três, dez, 15 anos, 17 anos, como no caso do Lobão, falando com aquelas pessoas que passam a te conhecer intimamente, sua família, seus hábitos, seus hobbies. Então passa de um lado frio, técnico, para uma coisa mais íntima. Você percebe quando o médico, dos que eu conheço, não está legal, está nervoso, não está no normal. Isso é bom, porque você se diferencia dos outros, quando você pega o médico numa situação dessas, não vai ficar insistindo, você vai pegá-lo numa outra oportunidade, que ele esteja bem, para você não ser inconveniente. E isso é importante porque a partir do momento que o representante começa a ser inconveniente no setor, para ele é a morte. Acho que a pessoa tem que ser sensível, saber a hora certa. MP - Além da literatura médica você disse que a criatividade sempre foi a marca do Aché. Isso é um diferencial em relação aos outros laboratórios? Laércio - Creio que sim, vou te falar por que. Porque o Laboratório Aché é um laboratório que tem uma equipe que se gosta. Então, por exemplo, um colega, quando não está bem, a gente percebe que o cara não está legal numa literatura, aí a gente fala: "Pô, o que está acontecendo, vamos treinar." E treina junto, o novo esquema de treinamento faz isso, põe a gente para treinar. Então o objetivo deles acho que é esse, fazer aquele que sabe mais passar um pouco para o outro, e aquele que pensa que sabe tudo, não sabe, ele vai receber um pouquinho, sempre vai pegar a idéia de outro, aprimorando. Esse é o lado positivo do Aché, que eu acho que não tem nos outros laboratórios, a gente sente as coisas mais frias. A gente não vê o pessoal falar: "Eu gosto do cara tal, tal... Eu vou almoçar com ele." Porque o pessoal do Aché costuma até almoçar em grupo. MP - Você falou do ponto de encontro, onde é esse ponto, hoje? Laércio - Ele é feito pelo representante, de acordo com as necessidades. No caso da minha linha, que é a institucional, a prioridade é marcar esse ponto nos hospitais, no meu caso dentro do Hospital das Clínicas. Mas isso nada impede que os outros representantes das linhas, um, dois, três e quatro marquem esse ponto de encontro no consultório do médico, na porta do prédio do médico, então são diversos pontos. A gente fala ponto de encontro e dá a sensação de que vai muita gente, mas nem sempre acontece. Mas é isso, um lugar alvo, que você vai começar o planejamento do seu trabalho diário. MP - Mas vocês têm tempo de se encontrar para almoçar juntos? Laércio - Sim, aí a gente fala dos setores. É assim: trabalham quatro, cinco, às vezes dez, no meu caso eu pego dois, três setores dentro do mesmo hospital. Aí chega a hora do almoço, tem um ponto de referência em que a gente se encontra, que é a saída do hospital e fala: "Vamos almoçar em tal lugar." E vai em equipe, como posso falar, passeata. MP - Comitiva. Laércio - Comitiva, exatamente, e a gente costuma almoçar juntos. E nesse almoço a gente sempre troca idéias: "Ah, fulano de tal está precisando de tal produto seu." Ou apareceu uma oportunidade: "Olha, aquilo é para a linha institucional e não para nós." Aí eu já fico atento: "Está passando para mim, aquele médico tem valor." Então acaba tendo essa troca de informações, que é preciso para o dia a dia, é muito legal. MP - E tem encontros na filial? Laércio - Tem, esses encontros são as reuniões do bi-ciclo. Essas reuniões são muito importantes, são marcos para um início de ciclo. É para avaliar? É, mas a gente não pode levar nesse aspecto a avaliação. Você encontra o seu amigo, troca idéias, você está aprendendo. Mudou muito o formato da reunião... MP - Elas sempre existiram? Laércio - Sempre existiram, elas já foram muito mais pesadas. Hoje em dia, não, ela passa a essência, você sai com o que realmente você precisa saber, tem objetividade, você não fica se martirizando, você vai usar. Os gerentes passam as informações de uma forma bem mais clara e transparente as informações. Então são muito importantes essas reuniões. MP - Os canais de comunicação que você tem com o Aché, quais são? Laércio - Bom, até recentemente tinha o que nós chamávamos de praça, que seria um local de encontro onde conversasse sobre assuntos da empresa, pegasse informações objetivando realizar os novos trabalhos e exercícios. Recentemente, na minha linha institucional ela foi abolida, porque nós estamos evoluindo muito, então a gente já pode fazer com que esse tipo de trabalho seja informatizado. Então eu criei o hábito de abrir os e-mails todo dia e também de passar alguns e-mails para o meu gerente, então facilitou muito. Então quando o gerente fala: "Vamos nos encontrar." É porque a equipe tem que se encontrar e trocar idéias, mas ficou uma coisa bem suave, era um dos aspectos de encontro. O outro é a reunião bimestral, e ainda tem o terceiro que é o setor, que você está ali dia a dia com os parceiros e é isso que diferencia o Aché. Se um colega meu, vou até citar o nome, o Clodoaldo, está visitando um reumatologista e está precisando de um produto tal e tal, ele não precisa esperar, ele vai chegar e pedir: "Ô, Laércio, o médico está precisando de isso e isso..." E a gente já resolve, é diferente de um laboratório que tem que avisar o gerente. É muito rápido, o Aché é um excelente prestador de serviços. Dia-a-dia no trabalho MP - E tem alguma iniciativa pessoal sua ou do seu setor que tenha marcado bastante? Porque nem todas as atividades do propagandista dependem das determinações da matriz. Vocês podem tomar iniciativas também, na propaganda, então tem alguma coisa que tenha marcado bastante? Laércio - Eu diria que todas as atividades marcam, por exemplo, vou falar pela minha linha, mas com certeza as outras linhas são semelhantes. Eu achei que se fizesse um cartão pessoal diferenciado e nele eu usasse o lado institucional, tivesse os produtos inseridos nesse cartão fosse mais impactante. Utilizei e deu certo, os médicos olham o cartão e dizem: "Nossa, que legal o seu cartão" Eu digo: "Não só o cartão, a linha é legal, os produtos são bons..." E eu aproveito para abrir um diálogo, procuro fazer com que o médico venha para o nosso lado. Então eu citei um detalhe. No dia a dia de repente você nota que se conseguir colocar o microondas num tal lugar, vai abranger tal quantidade de médicos, aí fala com o gerente e ele diz: "Se você acha que vai dar resultado, então faz." Aí dá resultado, e é legal, porque você começa a observar ao redor que existem oportunidades que em valor é banal, mas o retorno vai ser muito grande. Aí vai da sensibilidade, de ter a tranqüilidade de parar, olhar e pensar: "Vamos fazer isso que vai dar certo, ninguém fez, olha que hora boa de fazer." É criatividade. Relação com propagandistas MP - E sua relação com os propagandistas concorrentes, como é? Laércio - (Risos) Pergunta delicada. É a melhor possível, porque na verdade você tem que ser amigo, porque você também convive com eles diariamente, como convive com o parceiro de setor. Eles têm família, estão lutando pelo emprego, fazendo um trabalho muito parecido com o seu, mas você sabe que tem que superá-los, mas não como pessoa, tem que fazer uma coisa diferente. Na última pergunta você falou de fazer algo com um diferencial que dê um "tchan", aí sim. Mas eles têm que ser tratados com muito carinho, porque você depende deles. Quantas informações importantes eu já peguei com os concorrentes, quantos produtos que minha família usa ou que alguém do Aché usa que eu já não peguei com eles? Então se você não tem um relacionamento com eles, você não vai pegar um produto, ou uma informação, você não vai viver bem no local, você vai ser o fora da panela, você vai ser um anti-social, então é muito importante um bom relacionamento. MP - Tem alguns lugares na cidade que você acha que são pontos de propagandistas, por exemplo, um restaurante? Alguns pontos na cidade? Laércio - Eu diria que não conheço um ponto que não seja. (risos) São vários. O pessoal que faz Centro, geralmente almoça em shoppings, porque a comida sai rápido, você tem a praça de alimentação e tem várias opções de pratos e você encontra todo mundo, os concorrentes, o pessoal do Aché, acontece muito isso. Na minha região é o shopping Frei Caneca, que é o point dos propagandistas. Dia-a-dia de propagandista MP - Sua região hoje qual é, Laércio? Laércio - A minha região é bem extensa, graças a Deus. Eu pego a região do HC, pego o complexo do Instituto de Psiquiatria, o prédio central que tem várias especialidades, pego o Instituto da Criança, que é o ICR. Estamos objetivando aberturas no Instituto de Ortopedia e Traumatologia, tem um colega de equipe que faz o Incor, e aí a gente já faz o complexo inteiro. E tem as regiões, Vila Madalena, Pinheiros, um pedaço da Paulista e Jardins. MP - E como é a rotina nesses lugares? Laércio - Não tem rotina, cada dia é uma situação diferente. É bom porque você nunca vive a mesmice, tem um trabalho hoje que amanhã vai ser diferente. Você vive de situações e oportunidades, como eu disse, tem dia que o médico não está legal, tem dia que está legal. Isso pode variar um roteiro inteiro. MP - Você já viu muita coisa nesses lugares? Laércio - Que tipo de coisa? (risos) MP - Pacientes, casos de pessoas que te marcaram? R - Sim, por exemplo, eu trabalho no Hospital das Clínicas, que é um hospital referência no Brasil. E eu que sou um cara sensível no aspecto de ver uma criança ou idoso doente e ficar chateado, você tem que criar uma barreira, você tem que saber que aquilo faz parte do seu dia a dia e saber aceitar, porque senão você nunca vai estar bem consigo mesmo, porque todo dia no hospital tem um paciente muito ruim, uma criança queimada ou debilitada. E isso machuca. Tem colegas no Aché, a gente até brinca, parceiro do Aché, que faz o mesmo setor, que toda vez que a gente está junto aparece uma criança aleijada ou queimada e a gente fala: "Poxa, o nosso carma é chorar junto." Porque é muito marcante, mas a gente sabe que é até bom ver porque você se sensibiliza, você explora o seu lado humano. Para aqueles que não vêem não faz diferença, então isso valoriza a pessoa, porque a gente pensa se tem alguma forma de ajudar, se um dia vou chegar nesse paciente e conversar com ele de um jeito legal, sem que ele sinta que eu estou com dó. É legal isso. MP - E você também lida, além dos médicos, com estudantes. Qual é a estratégia com estudantes de medicina? Laércio - É assim, compensadora, apaixonante. É uma linguagem diferente porque eles são jovens, eu gosto de me aproximar muito dos jovens. Você está sempre curtindo, eles estão sempre dando risada, fazem brincadeiras com o stress. Sem dizer que para a empresa a gente está trabalhando para o futuro, ele vai ser o Doutor Fulano de tal, o cardiologista tal de tal hospital. A gente sabe que enquanto eles são estudantes não recebem atenção necessária dos laboratórios, o que é grave, eles marcam isso: "Pô, o cara ali virou as costas para mim." Eles marcam, como você marca, se alguém te der um tapa hoje, você pode perdoar a pessoa, mas nunca vai esquecer do tapa. Então o Aché acha isso fundamental, trabalhar o futuro, amanhã ou depois eles vão ter o CRM, ou vêm conhecer a empresa, ou querem participar mais, lembram: "Aquele cara do Aché fez isso pela gente, será que a gente consegue, a gente pode fazer isso por ele..." Há uma negociação, é muito legal. MP - Você conhece alguém da época de estudante que hoje está clinicando? Laércio - Vários. A linguagem é mais aberta: "Pô, e aí, agora está na hora de você ganhar dinheiro como cirurgião, heim?" "Ah, agora eu vou meter a faca em todo mundo." É um outro linguajar daquele cara que te conhece e vai se sentir à vontade de falar com você, não vai se policiar no português. É aquele cara que gosta de você, você gosta do cara, e fala: "Pô, me dá uma força, não esquece de mim." "Não, eu estou mandando bala no seu produto." Eu estou há um bom tempo nessa região do HC, eu saí do setor durante um tempo, fui um período bom pra mim, senti um pouco o que é a Zona Norte, aprendi muito lá, e depois tive a oportunidade de voltar para o antigo setor que é o HC, a pedido até do meu gerente: "Você conhece lá, e a gente está precisando de alguém que conhece." E foi muito legal, eu volto e vejo que o pessoal lembra de mim: "Ô, você voltou para cá" Com felicidade. Isso é sinal de que o meu trabalho foi gratificante, marcou, o pessoal me conhece, isso é muito importante. MP - A gente conversou com muitos propagandistas do Brasil, e principalmente quem é do interior tem lá os seus desafios, porque viaja de uma cidade para outra. E você dentro da cidade, também tem desafios para cortar a cidade, enchentes, tem casos para contar? Laércio - Atalhos, a gente tem mil. Porque a gente vive em regiões em que a chuva até que não compromete tanto, mas o trânsito é infernal. Então você tem que aprender a driblar, então você já sabe que se entrar na rua tal, vai sair em tal lugar, vai evitar a Paulista e a Rebouças, principalmente em horários de pico. Isso é importante porque você começa a planejar o trabalho, a se organizar de uma forma que você fala: "Não só vou visitar os cinco ou dez médicos que eu quero visitar hoje, mas vai dar tempo, eu sei o caminho." Eu moro no Belém, eu pego a Radial Leste quase todo dia cheia, mas estou acostumado, fecho os vidros, coloco um sonzinho, tranqüilo, beleza, sem estressar. Alterações no trabalho MP - Você que já está há algum tempo no Aché, com a mudança do mercado farmacêutico, os genéricos, isso acabou interferindo no trabalho do propagandista? Laércio - Com certeza. Todas as mudanças que a gente vem sentindo nas empresas farmacêuticas, principalmente as demissões, o desligamento de funcionários, é comprometido pelos genéricos. Por estudos a gente sabia que nos EUA após 20 anos de utilização dos genéricos, se conseguiu um mercado de 30%. Mas a coisa aqui tinha um intuito político, e foi muito rápido, eles morderam a fatia deles muito rápido, então ficou aquela briga de cachorro bravo. Os laboratórios, as multinacionais querendo não perder para o genérico e o laboratório nacional, como o Aché, é super estruturado, não dividiu a fatia com ninguém, mas preocupou. Teve uma época que teve desligamentos, e graças a Deus teve várias recontratações do pessoal que infelizmente na época saiu, e voltou. Um pessoal que veste a camisa do Aché, investe na empresa. MP - Voltando um pouco, para a relação dos propagandistas entre si, na filial tem encontros, jogos, vocês já vieram para o Grêmio aqui no Aché? Laércio - Olha, eu sou um péssimo freqüentador. É ótima a estrutura, tem academia, um clube, tem até um lago de pesca maravilhoso, para quem quer praticar pesca esportiva, que eu adoro. Mas eu sou um péssimo freqüentador, então eu sei que o pessoal que vem, gosta, faz um churrasco. Vem para a empresa mas de uma forma diferente, está na empresa por lazer, jogando bola, eu não tenho esse hábito. MP - Mas os propagandistas de uma maneira geral têm? Laércio - Têm, muita gente vem de fim de semana, passa na casa do cunhado ou pega até um médico amigo e traz para conhecer, é legal isso, eu acho muito importante. Vida familiar MP - E nos finais de semana você faz o quê? Laércio - Eu sou um cara familiar, gosto de sair, gosto de ir ao cinema, não gosto muito de teatro, então tenho como hábito, um final de semana que está passando um bom filme, eu pego minha esposa e vou ao cinema. Em seguida, um jantar diferente, quem sabe uma comida japonesa, mas eu também tenho hobbies que me prendem em casa. MP - Quais são eles? Laércio - Eu coleciono DVD, eu tenho vários, eu tenho como hábito assistir o filme mais que uma vez, eu gosto de apreciar detalhes, situações que você não teve no cinema. Eu sou meio fissurado por isso, meio malucão por isso. MP - Eu acabei pulando essa parte, você casou, tem filhos? Laércio - Fui casado há dez anos com minha esposa. Tive uma filha maravilhosa com ela, a Sofia, que está com quase 16 anos agora, e infelizmente o casamento não deu certo. A gente sempre pensa que o casamento é eterno, que vai dar tudo certo e você vai viver feliz, mas infelizmente aparecem contratempos na vida da gente. E apareceu no meu, por bem nós sentamos, discutimos a situação e achamos que o casamento não era uma situação boa para nós. E nos separamos de uma forma muito tranqüila, como amigos, inclusive ela mora duas casas ao lado da minha. (risos) A gente tem respeito e amizade, coisa que não acontece em outras situações. E depois de um bom tempo eu conheci a Elaine, minha atual esposa, que é uma mulher que me apóia muito, inclusive ela trabalha no ramo farmacêutico, também. MP - Ah, o que ela faz? Laércio - Ela é propagandista. MP - De que laboratório? Laércio - De um laboratório que está chegando agora em São Paulo, que era forte em outras regiões e até há pouco tempo não estava em São Paulo. Quer dizer, ela vai pegar pedreira pela frente. Mas é uma pessoa que se identifica muito comigo, ela sabe que se eu me atraso, uma, duas ou três horas, não fica pensando besteira, porque sabe que eu sou um cara com o pé no chão e gosto, e a respeito muito, a família. Às vezes, um erro aparece como numa situação, assim, o encerramento do meu casamento. Foi ruim, mas depois veio uma coisa muito melhor que foi conhecer a Elaine, e ter um bom relacionamento. É uma pessoa que me compreende e eu a compreendo também, e temos um bom relacionamento. Sonhos para futuro MP - E quais são seus sonhos para o futuro? Laércio - É continuar no Aché, meu futuro é estar no Aché, porque eu investi muito na empresa, pessoalmente, a pessoa, o Laércio. Eu gosto do Aché, sei que os amigos que estão sendo recontratados, sentiram a mesma coisa, porque tinham no Aché uma estrutura familiar, então mesmo aparecendo outras oportunidades de bons empregos, como aparece, sentem falta do amigo do lado, do cara que dá conselho, então isso faz parte do meu presente, fez do passado e espero que faça do futuro. MP - E para o Aché o que você espera? Laércio - Tudo de bom, espero o crescimento tão merecido. Espero de coração que as situações conflitivas, de modo geral, global, sejam resolvidas. E que a gente desfrute de bons momentos nessa empresa ainda. Contar sua História MP - E a gente já está acabando, eu tenho uma pergunta ainda. O que você achou dessa experiência de contar sua história? Laércio - Eu fiquei um pouco nervoso, pelo fato de policiar as palavras, mas me senti muito à vontade. Falei coisas que vem do coração, que eu vivenciei no dia a dia. Quando eu falo do Aché, não falo só da empresa, falo do amigo que virá aqui fazer outra entrevista, do meu gerente que me apóia, do gerente regional, distrital, falo da diretoria, falo de um modo geral. O Aché é empresa, mas quem conduz a empresa é o lado humano. É isso, o Aché é o lado humano muito desenvolvido. MP - Muito obrigada. Laércio - Eu é que agradeço vocês.
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