Projeto Memória dos Trabalhadores Petrobras
Depoimento de José Francisco Gomes
Entrevistado por Débora Santos
Natal, 27 de maio de 2003
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB156
Transcrito por Transkiptor
00:00:06 P/1 - Você poderia me dizer o seu nome completo, local e data de nascimento?
00:00:25 R - Meu nome é José Francisco Gomes, eu nasci no dia 18 de nove de 1959, na cidade de Igaraçu, Pernambuco.
00:00:33 P/1 - E quando foi a sua entrada aqui na Petrobras?
00:00:36 R - No dia 22 de março de 1984.
00:00:40 P/1 - No cargo?
00:00:41 R - De auxiliar de segurança interna.
00:00:43 P/1 - E você sempre trabalhou nesse cargo?
00:00:46 R - Sempre na segurança interna, sempre. Nunca mudei de função, não. Fui promovido a inspetor de segurança interna, mas sempre.
00:00:54 P/1 - E foi sempre aqui no Natal?
00:00:57 R - Não, eu ingressei na empresa e fui trabalhar na estação de compressores de Ubarana, localizada em Guamaré, que hoje chama-se UTPF, Unidade de Tratamento de Fluidos. E hoje, lá trabalhei dois anos, Também morei com a família na cidade de Macau, que era a cidade mais próxima, que é exatamente essa história que eu vou contar dessa vivência de lá. Nós fomos morar em Macau, mais preciso no bairro de Macauzinho. Era uma cidade abandonada por uma empresa que queria montar lá alguma coisa na área de sal e não deu certo e as casas ficaram lá praticamente abandonadas e foram alugadas aos empregados da Petrobras. Eu fui com a minha mulher e os dois filhos menores, um com 4 anos e o outro com 2 anos. Macau fica a 32 km de Guamaré. Todos os dias, nós íamos no ônibus do turno. E como não havia estrada de asfalto, todas as estradas lá eram de barro. Na época das chuvas, Era um sacrifício pra chegar no trabalho e um sacrifício maior pra retornar. Porque geralmente nós voltávamos à noite e as estradas esburacadas, com muita lama. E muitas vezes nós saímos de zero hora pensando em chegar em casa de uma da...
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Projeto Memória dos Trabalhadores Petrobras
Depoimento de José Francisco Gomes
Entrevistado por Débora Santos
Natal, 27 de maio de 2003
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB156
Transcrito por Transkiptor
00:00:06 P/1 - Você poderia me dizer o seu nome completo, local e data de nascimento?
00:00:25 R - Meu nome é José Francisco Gomes, eu nasci no dia 18 de nove de 1959, na cidade de Igaraçu, Pernambuco.
00:00:33 P/1 - E quando foi a sua entrada aqui na Petrobras?
00:00:36 R - No dia 22 de março de 1984.
00:00:40 P/1 - No cargo?
00:00:41 R - De auxiliar de segurança interna.
00:00:43 P/1 - E você sempre trabalhou nesse cargo?
00:00:46 R - Sempre na segurança interna, sempre. Nunca mudei de função, não. Fui promovido a inspetor de segurança interna, mas sempre.
00:00:54 P/1 - E foi sempre aqui no Natal?
00:00:57 R - Não, eu ingressei na empresa e fui trabalhar na estação de compressores de Ubarana, localizada em Guamaré, que hoje chama-se UTPF, Unidade de Tratamento de Fluidos. E hoje, lá trabalhei dois anos, Também morei com a família na cidade de Macau, que era a cidade mais próxima, que é exatamente essa história que eu vou contar dessa vivência de lá. Nós fomos morar em Macau, mais preciso no bairro de Macauzinho. Era uma cidade abandonada por uma empresa que queria montar lá alguma coisa na área de sal e não deu certo e as casas ficaram lá praticamente abandonadas e foram alugadas aos empregados da Petrobras. Eu fui com a minha mulher e os dois filhos menores, um com 4 anos e o outro com 2 anos. Macau fica a 32 km de Guamaré. Todos os dias, nós íamos no ônibus do turno. E como não havia estrada de asfalto, todas as estradas lá eram de barro. Na época das chuvas, Era um sacrifício pra chegar no trabalho e um sacrifício maior pra retornar. Porque geralmente nós voltávamos à noite e as estradas esburacadas, com muita lama. E muitas vezes nós saímos de zero hora pensando em chegar em casa de uma da manhã. Esse processo retardava um pouco. Nós só íamos chegar em casa de três, quatro horas. Porque duas ou três vezes nós tínhamos que descer pra ajudar a desatolar o ônibus. Se não quisesse esperar pra o dia seguinte, pra esperar um retorno. Então, era um sacrifício grande, porque... Se bem que isso aí terminou virando uma rotina, né? A gente já sabia o que ia ocorrer. O ônibus não ia chegar, o ônibus ia demorar, o ônibus ia ter que parar porque a estrada estava cortada, coisa desse tipo. E nós acostumamos com essa rotina e já vivíamos aí. Depois que as estradas foram asfaltadas, que as coisas passaram a transcorrer normal, ficou tudo normal, foi quando nós vimos o quanto a gente sofria para manter a Petrobras funcionando, quer dizer, e também o nosso emprego. Mas a Petrobras lá em Guamaré foi esse sacrifício todo para manter a produção de petróleo e o processo de uma forma geral. Mais ou menos isso aí. Depois disso aí, vim aqui pra Natal. Passei dois anos em Natal. Fui trabalhar em Fortaleza. Passei mais dois anos. Depois retornei aqui pra Natal. Sempre na segurança. E foi onde eu descobri que a segurança tem um fator importante dentro da empresa. Porque tem uma coisa engraçada. Quando a segurança não estiver fazendo nada, é porque tá tudo bem. Ninguém gosta de ver a segurança trabalhando.
00:03:51 P/1 - E teve muita diferença o trabalho em si, de quando você estava em Guamaré e aqui em Natal, ou a mudança da empresa também, crescimento?
00:04:01 R - Houve algumas mudanças, houve alguma abertura desse período. Quando eu entrei na empresa, havia dois tipos de crachás, o crachá azul, que era, vamos dizer, o pessoal de nível médio, e havia o crachá vermelho, que era o pessoal de chefia, engenheiros, pessoal de nível superior. Depois disso, na época do governo Geisel, governo não, quando ele foi presidente da Petrobras, foi ele quem aboliu essa essa diferença que havia de crachá, que você olhava para o crachá azul e dizia qualquer um. E esse outro, tem crachá vermelho? Epa, isso aí é um chefe. Então, acabou, passou a ser o crachá transparente. E quanto ao serviço, como você perguntou, se há diferença de unidades, né, nessas unidades. Não, o trabalho da segurança é um só, com uma só finalidade, proteger a integridade física do empregado e do bem patrimonial da empresa. Mas cada área tem uma particularidade. Vamos dizer, lá em Guamaré hoje, por exemplo, só vai lá quem vai a negócio. Não tem muito visitante, não tem. Nós trabalhamos apenas para manter o... Já é diferente daqui da sede. Aqui da sede nós temos uma quantidade bem maior de pessoas. Nós temos contato com aposentados, nós temos contato com o visitante propriamente dele e é, como eu já falei, cada área tem uma particularidade. O nosso trabalho, por exemplo, de segurança interna na área de Mossoró, ele é diversificado lá, porque lá você muitas vezes tem até que fazer rondas noturnas no campo, onde você está passível de sofrer agressões por parte da marginalização e uma série de outras coisas.
00:05:43 P/1 - E assim, você acha que durante muito tempo não se teve uma preocupação com essa segurança, questão de prevenção? Você acha que na Petrobras sempre teve essa preocupação? Sempre foi uma coisa mantida pela empresa?
00:05:55 R - Desde que eu entrei na Petrobras que existe essa preocupação, essa manutenção da segurança interna com essa finalidade de proteger a integridade física do empregado. Nós, lógico, não fazemos o trabalho de polícia. Nós somos a polícia interna da Petrobras. Quando há necessidade de fazer o trabalho de polícia, nós temos que recorrer às autoridades públicas.
00:06:17 P/1 - Você falou que a mudança de trabalho não foi muito grande, mas o desenvolvimento da Petrobras foi muito maior durante esses quase 20 anos.
00:06:26 R - Quando eu entrei na empresa, eu não tenho muita certeza, mas me parece que produzia 500 mil barris de petróleo por dia. Hoje nós estamos produzindo 2 milhões de barris de petróleo. Então a coisa é bem diferente. Houve um avanço em tudo. Desde a tecnologia, que na época que eu entrei na empresa não existia praticamente computador. Quando existia era num CPD. Quando apareceu o primeiro computador, todo mundo parava pra olhar. Então houve, lógico, uma abertura grande e houve também um desenvolvimento A segurança é que se manteve sempre naquele, naquele direito, procurando sempre se adequar ao ambiente, quer dizer, ao meio do que está circulando, né? As novas tecnologias e tudo mais.
00:07:08 P/1 - Vamos dizer, porque assim, você tá falando da diferença, quer dizer, aqui no, que é mais o escritório, na verdade, quer dizer, vocês não tem aquela preocupação de estar no campo, na verdade, na mercenária, né? Um pouco, acaba sendo um pouco mais tranquilo, será? Ou você acha que não, não tem diferença isso?
00:07:23 R - Existe uma coisa diferente do campo pra sede. Eu, por exemplo, sou uma pessoa que gosta muito de estar vivendo no campo. Eu gosto de estar no campo. Gosto de estar vendo isso, vendo aquilo. Um puço que tá produzindo não sei onde, passa por lá pra saber se tá funcionando. Eu gosto dessa coisa. Eu gosto também de trabalhar com contato pessoal aqui na sede. Mas, como é um trabalho diferente aqui, aqui nós temos banco pra fazer segurança. Lá no campo eu já não tenho. Então, existem essas coisas todas que há essa diferença. Eu prefiro trabalhar no campo, mas trabalho na sede porque paciência.
00:07:58 P/1 - E acaba sendo isso. O senhor é sindicalizado?
00:08:03 R - Eu sou sindicalizado.
00:08:04 P/1 - O senhor chegou a participar alguma vez de movimentos sindicais?
00:08:09 R - As duas maiores greves que houve na Petrobras nesse período que eu trabalho na empresa O próprio sindicato nos ajudava a nos manter trabalhando, porque nós precisávamos manter o patrimônio da empresa. Porque enquanto o empregado vai embora durante uma greve, o empregado não fica no local de trabalho. Então alguém tem que tomar conta daquilo. E somos nós da segurança. Nós não participávamos ativamente. Não, estou em greve, vou fazer greve. Nós somos solidários com o que está acontecendo naquele momento. Mas nós não podemos abandonar, porque somos nós que temos que tomar conta do patrimônio da empresa. Se bem que, para isso, existem as autoridades que, em outras situações, já foi convidado até o Exército para tomar conta do patrimônio da empresa. Mas o Exército não conhece tudo e a gente não. Nós sabemos o que é cada coisinha, cada poço, cada linha de petróleo. Então, fica mais fácil para a gente manter se trabalhando, mesmo nos movimentos de greve.
00:09:05 P/1 - Quer dizer, na verdade, vocês são quem fica durante a guerra. Então, solidariedade, mas são quem tem que ficar cuidando desse patrimônio. Então, tá. E assim, eu queria saber o que você achou de ter participado, de ter vindo aqui dar esse depoimento pra gente. E o que você acha de estar acontecendo esse projeto de memórias.
00:09:24 R - Eu acho, a primeira vez que eu vi isso na intranet, falando sobre esse projeto, eu adorei de início. Por quê? Eu acho que a gente tem que se manter. ter conhecimento do que foi o nosso passado. Então isso aí, com certeza, nós vamos ver a história todinha da Petrobras nesse grande Brasil que é diversificado, cada área tem uma coisa, cada área tem uma particularidade. Eu, de início, achei maravilhoso. Poxa, eu tenho que participar disso aí. Com pouco ou com muito, mas eu vou participar. E tô adorando. Acho que é importante porque temos que reconhecer as nossas raízes. Isso aqui é na Petrobras, é numa empresa, é em casa, é tudo. Eu acho que é importante a gente reconhecer.
00:10:08 P/1 - Então tá, a gente agradece muito. Tô esperando que você traga mais gente pra fazer depoimento, tá bom?
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