Projeto Memória dos Trabalhadores Petrobras
Depoimento de José Dilson Paula de Oliveira
Entrevistado por Miriam
Salvador, 30 de abril de 2003
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB150
Transcrito por Transkiptor
00:00:23 P/1 - Você podia falar pra gente seu nome completo, local e data de nascimento?
00:00:27 R - José Dilson Paula de Oliveira, data de nascimento 9 de 4 de 1940, Pujuca, Bahia.
00:00:36 P/1 - Como e quando se deu o seu ingresso na Petrobras?
00:00:41 R - Eu entrei na Petrobras em 4 de agosto de 1958, através de concurso.
00:00:50 P/1 - Fala um pouco então da sua trajetória na empresa, como foi a sua entrada, como foram os primeiros momentos.
00:00:56 R - Olha, eu entrei, como diz, de baixo. Eu entrei como ajudante de produção. Aí fui galgando todos os níveis e cheguei no ápice de nível médio, que é técnico de operações de produção. A luta no início foi árdua, porque nós pegamos a Petrobras ainda menina, com quatro anos. E nós tínhamos que erguê-la. E naquela época as condições de trabalho eram horríveis. Para se ter uma ideia, para a gente trabalhar, ia em cima de um caminhão. Estrada sem asfalto, a coisa era difícil. Mas nós superamos isso tudo, nós trabalhamos. Nós tínhamos e temos amor pela Petrobras. E talvez eu não veja isso hoje. Mas nós temos um amor muito grande, tanto que quando eu fui solicitado a estar aqui, eu vim de imediato, me prontifiquei de imediato, não vou. Então isso é fruto do amor que nós temos pela Petrobras. Tudo que eu fiz na vida foi pela Petrobras. Então, é o que eu falei, nós pegamos do início. atingindo metas, metas de 100 mil barris, metas de 250 mil barris, metas de 500 mil barris. A meta de um milhão já não estava na Petrobras, já tinha saído.
00:02:28 P/1 - O senhor sempre trabalhou na área de operações?
00:02:30 R - Sempre, sempre. A trajetória minha foi como operador de faca e registro, que consistia em descer uma ferramenta para desparar...
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Projeto Memória dos Trabalhadores Petrobras
Depoimento de José Dilson Paula de Oliveira
Entrevistado por Miriam
Salvador, 30 de abril de 2003
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB150
Transcrito por Transkiptor
00:00:23 P/1 - Você podia falar pra gente seu nome completo, local e data de nascimento?
00:00:27 R - José Dilson Paula de Oliveira, data de nascimento 9 de 4 de 1940, Pujuca, Bahia.
00:00:36 P/1 - Como e quando se deu o seu ingresso na Petrobras?
00:00:41 R - Eu entrei na Petrobras em 4 de agosto de 1958, através de concurso.
00:00:50 P/1 - Fala um pouco então da sua trajetória na empresa, como foi a sua entrada, como foram os primeiros momentos.
00:00:56 R - Olha, eu entrei, como diz, de baixo. Eu entrei como ajudante de produção. Aí fui galgando todos os níveis e cheguei no ápice de nível médio, que é técnico de operações de produção. A luta no início foi árdua, porque nós pegamos a Petrobras ainda menina, com quatro anos. E nós tínhamos que erguê-la. E naquela época as condições de trabalho eram horríveis. Para se ter uma ideia, para a gente trabalhar, ia em cima de um caminhão. Estrada sem asfalto, a coisa era difícil. Mas nós superamos isso tudo, nós trabalhamos. Nós tínhamos e temos amor pela Petrobras. E talvez eu não veja isso hoje. Mas nós temos um amor muito grande, tanto que quando eu fui solicitado a estar aqui, eu vim de imediato, me prontifiquei de imediato, não vou. Então isso é fruto do amor que nós temos pela Petrobras. Tudo que eu fiz na vida foi pela Petrobras. Então, é o que eu falei, nós pegamos do início. atingindo metas, metas de 100 mil barris, metas de 250 mil barris, metas de 500 mil barris. A meta de um milhão já não estava na Petrobras, já tinha saído.
00:02:28 P/1 - O senhor sempre trabalhou na área de operações?
00:02:30 R - Sempre, sempre. A trajetória minha foi como operador de faca e registro, que consistia em descer uma ferramenta para desparar finapóstolos. Depois eu fui trabalhar em Wairilani, que também era mais difícil, mas era Wairilani. Operações com arame. Nós fazíamos pescaria, colocávamos válvulas em poços. As válvulas, o que são as válvulas? Válvulas para tirar o petróleo. Quando acaba o gás nos poços, então nós fazemos a recuperação terciária. O que é isso? A gente injeta gás de acordo com a profundidade do poço, que vai até 2.300 metros de profundidade aqui na Bahia. Então nós temos um sistema nessa coluna de válvulas. Então você injeta uma pressão X em uma válvula, Ela dispara, joga o óleo pra outra, outra dispara, joga o óleo pra outra e assim sucessivamente até chegar na estação, na estação coletora. Depois eu fui trabalhar, fui trabalhar no CEMAG, Setor de Movimentação de Água. Então, trabalhando na Petrobras, mas eu trabalhava com água, entendeu? Já a recuperação, o que eu lhe falei anterior, a recuperação secundária, já ia a recuperação terciária. Tudo isso era feito através de água. O que é isso? A água, todos nós sabemos que o óleo é mais leve do que a água. A densidade da água é bem maior. Então nós injetamos água para quê? Para levantar a camada de óleo dentro da tubulação, nos poços, e daí com o sistema secundário, que é o gas lift, a injeção de gás. Aí, em 1978, eu fui classificado técnico. Não, eu fui classificado encarregado de produção. Aí eu já era o comandante de uma equipe, ou de várias equipes. Depois a Petrobras modificou o quadro. De encarregado, eu passei a técnico de operações de produção. Mas o sistema é o mesmo, o trabalho é o mesmo. Então foi essa a minha vida na empresa. Fiz com muito carinho, trabalhei com muito carinho, entendeu? Procurando dar o máximo de mim. Esse rapaz que estava aqui comigo foi meu subordinado. Então nós mantemos, porque eu era um encarregado diferente. Eu sempre dei mais, não seria valor, mas o correspondente ao homem do que ao equipamento. Na minha concepção, o equipamento é feito em série. Em um dia faz milhares. E um homem a gente faz em 15, em 20 anos. E nós fazemos aquela parte, criança, adolescente, né? E um homem pra trabalho a gente só tem ele a partir dos 18 anos. Então eu tinha muito mais cuidado com meus homens, que trabalhavam comigo, do que com o equipamento. Agora, como eu fazia ver a eles que O equipamento era tão importante quanto eles. Nós devíamos cuidar. A Petrobras queria que nós dessemos as nossas oito horas com honestidade. Então a minha equipe era uma equipe coesa e consciente das suas obrigações. Então essa foi a minha vida na Petrobras. E hoje eu me sinto honrado em ter saído já há 13 anos, 14 anos que eu saí em 89, eu aposentei em 89. E hoje ser querido pelos colegas, ser indicado por colegas para dar esse depoimento. Então isso para mim é um motivo de orgulho.
00:06:26 P/1 - Você lembra de alguma história interessante do tempo que você trabalhou?
00:06:31 R - Ah, tem história, mas o linguajar de petroleiro às vezes não é o... Mas tem muitas histórias. Uma vez, no campo de Catu, um bobeador subiu no tanque para medir. E hoje é tudo eletronicamente. Naquela época a gente subia 12 metros para jogar uma trena na boca daquele tanque, saindo gás. Tinha que medir aquilo de hora em hora para colocar no boletim. Aí ele caiu, ele escorregou. O tanque tinha 12 metros.
00:07:03 P/1 - Dentro ou fora?
00:07:04 R - Caiu fora. Graças a Deus ele caiu fora. A boca sempre ficava no meio do tanque. E a medição seria na beirada do tanque. Ele escorregou e caiu. Caiu de costa. Na hora que eu for falar, desliga aí, mas não sai. Aí ele caiu de costas e lascou os testículos. Caramba! Aí o chefe do campo, na época era o doutor Garcia Chaves, ele não achou, ele era peruano, ele não achou palavra. para descrever o episódio. Ele disse, olha, faz a comunicação a ele, que ele caiu de costas e lascou o saco. Só um caso verídico isso. Mas tem muitos outros casos que aconteceram. Mas esse foi o mais engraçado ao longo disso tudo. Mas tem muita coisa que aconteceu. Muitos desastres que também deixavam a gente entristecido. Tive um colega morrer, como eu vi vários morrerem. Então, mas isso fazia parte do ofício. E a gente não perdia aquela emoção de estar trabalhando, aquele carinho que a gente tinha por presente, não perdia. O que é, então, para o senhor.
00:08:31 P/1 - Trabalhar, ter trabalhado em uma empresa como a Petrobras, ter ajudado a construir essa empresa?
00:08:36 R - Olha, para mim, eu acho que... Acho não, para mim é um orgulho, é um prazer muito grande. Eu queria que ela tivesse o mesmo carinho com nós, aposentado, conosco, como nós tivemos com ela. E temos ainda, nós temos o maior respeito. Hoje eu sou o único empresário. Eu agradeço a Petrobras. Porque se não fosse ela, eu não teria dinheiro para montar a minha empresa, a minha minizinha empresa. Então eu agradeço a ela. Eu tenho o maior carinho, tanto como falei anteriormente, que foi com o maior carinho que eu vi. E gosto muito dela. a defendo. Tem muitas coisas. Olha, nós tínhamos, esse é um caso interessante, que ao longo do tempo nós fomos perdendo conquista por causa do próprio operário. E a Petrobras foi uma mãe para todos nós. Nós tínhamos a subsistência. O que era a subsistência? A gente recebia no campo, por exemplo, que eu trabalhei em vários campos, trabalhei em Catu, trabalhei em Dom João, trabalhei em Candês, Miranga, Araçaj, Buracica. Então nós tínhamos uma subsistência. Nós fazíamos a nota, vinha para aqui, para Salvador, para Jequitá, e no final do mês ia um caminhão cheio de compras para todos os operários. Além disso, nós tínhamos 300 litros de gasolina, tínhamos 50 litros de querosene e tínhamos dois botijões de gás liquefeito. Então, quem tinha gás liquefeito usava os bujões. Comprava bujão. Quem tinha fogão a gás, que naquela época existia, comprava o querosene. Ou quem tinha fogão a querosene, comprava o querosene. Quem tinha gás, comprava os botijões. E quem tinha carro, tinha os trezentos mil. Nós tínhamos isso. Mas tinha gente que fazia o seguinte, não tinha nem isso, só tinha um fogão e comprava tudo pra vender no armazém pra beber. Então nós fomos perdendo conquista. Perdemos, perdemos, perdemos, perdemos. Hoje nós estamos... Outra coisa também que é, o petroleiro ele gastava muito. Por isso que tem muita gente hoje sem condição nenhuma. Muitas mulheres, porque a empresa pagava bem, principalmente a partir de 1961, quando teve a equiparação. Porque nós ganhávamos aqui diferente do que quem ganhava no Rio de Janeiro, quem trabalhava no Rio de Janeiro. Então nós tivemos a equiparação. Então nós passamos a ganhar realmente melhor. Então o que é que faziam? Gastavam. Tanto que o índice ainda hoje, o índice de alcoolismo, hoje não, não sei, mas até 89, quando eu estava, era muito alto.
00:11:28 P/1 - Nos campos?
00:11:29 R - Nos campos. Então, eu sempre... eu gastei muito, mas também economizei. Se eu gastava meus 70%, eu deixava 30%. Entendeu? Então, a Petrobras pra mim foi... e é uma grande empresa, a maior da América do Sul. Entendeu? Da América Latina, não é da América do Sul, é da América Latina. E pra mim foi muito boa e foi benéfica. Eu entrei no nada, entrei carregando o tubo nas costas e saí como andante. É gratificante.
00:12:10 P/1 - O que o senhor acha desse projeto, que é uma parceria do sindicato e da empresa, para contar a sua história, a história da empresa, pela visão dos seus trabalhadores?
00:12:22 R - Eu acho de súmera importância. Eu acho que nós devemos, porque tem muita gente hoje que só fala mal da Petrobras, principalmente quem está aí fora. Mas ela não sabe realmente o que ela é. Ela tem tentado, ou está tentando, ou está fazendo, o quê? Modernizar. Ela está modernizando o sistema. Então hoje é tudo informatizado, mas é isso, esse é o progresso. Sem progresso ela estaria naquele patamar de 1958. Eu vou falar porque o que eu vejo, o que eu falo, o que eu não acho certo é hoje a gente não ter condições nem de entrar, principalmente aqui. Eu vou lhe contar um caso. Há uns seis meses atrás, eu estava aqui nesse shopping na frente, no Pituba Park Center, deixei de tirar um dinheiro. Aí eu digo, vou tirar dentro da minha empresa, que eu trabalhei lá. Quando eu cheguei na portaria, me identifiquei com o meu crachá, de aposentado, aí a moça disse, quem mandou o senhor tirar o dinheiro? Eu digo, meu amigo, o dinheiro é meu. Eu não preciso de ordem para tirar meu dinheiro. Ah, mas não pode não, tem que vir uma ordem de cima. Isso é humilhante para a gente, que é aposentado, que demos o nosso sangue por ela. Se a chefia alta lá em cima não sabe disso, procura averiguar isso aqui, que está existindo isso. E se existe também isso no Edício lá. Então isso pra gente é humilhante, porque nós demos nosso sangue. Muita gente morreu. Ainda morre até hoje. No ano passado morreram 11 ou 12. Eu conheço um rapaz que mora perto de mim e está em estado de choque ainda. Então isso pra gente é humilhante. Isso dói. Isso dói. Porque nós a fizemos crescer. É isso. Mas eu acho importante essa participação. É muito importante.
00:14:38 P/1 - O que o senhor achou de ter dado o seu depoimento aqui?
00:14:41 R - Não, às vezes por um depoimento, por um depoimento, a gente conserta muitas coisas. Talvez até isso se conserte. Eu não tenho necessidade de vir aqui sempre. Botaram atendimento aí. Tudo bem, botaram aí. Mas se a gente quer visitar um amigo, como esse amigo meu que está aqui, nós temos 12 anos que não nos vemos. Porque o petroleiro tem muito disso. Quando ele aposenta, ou ele se afasta, ou se afastam dele. Tem as duas vertentes. E quando o elemento é ruim lá no campo, então ninguém nem quer ver. Mas foi muito bom, foi muito gratificante.
00:15:24 P/1 - Tá bom, então Zito, né?
00:15:26 R - Zito, eu gosto do Zito. Minha sogra não sabe o meu nome.
00:15:29 P/1 - A gente queria lhe agradecer, então.
00:15:31 R - Não, não tem o que agradecer, não. Eu estou aqui com a maior satisfação.
00:15:34 P/1 - Obrigada.
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