Trago muitas lembranças de meus primeiros anos de vida. Penso que as lembranças de meus três, quatro e cinco anos são de momentos que atribui importância. Por volta dos dois ou três anos fui zoológico com minha família. O elefante de meu pensamento é muito maior, em virtude de meu “tamanhozinho” na época. A chegada de minha avó num dia chuvoso, trazendo uma torta de banana. Que alegria Uma manhã acordei chorando, ela pegou-me no colo. Então, me ensinou a dobrar a língua de um jeito curioso. Quando dobro minha língua lembro-me dela. Herança é muito mais que dinheiro. É algo que carregamos no coração. Que saudade de minha vovozinha.
Quando tinha quatro anos o homem chegou à lua. Meu pai, um homem que só fez até o segundo ano primário, comprou uma revista impressionante. Eu ainda não sabia ler, mas na capa havia uma pegada enorme que o homem deixou ao pisar na lua. Foi um momento importante para o mundo inteiro. À noite, eu olhei para o céu buscando ver o homem na lua.
Meu irmão mais velho já estava na escola. Muitas vezes eu ficava ao lado dele enquanto fazia seus trabalhos. Foi quando começou meu interesse por desenho. Ele havia desenhado, ou estava em seu livro, a figura de uma menina com um vestido xadrez. Achei tão bonito que passei a ter intimidade com o lápis. Eu fazia muitas perguntas a esse irmão mais velho, e ele acabou reclamando.
No ano seguinte minha mãe engravidara do quinto filho. Até então eu era a única menina, dois irmãos mais velhos e um irmão mais novo um ano. Eu tinha certeza que teria uma irmãzinha, não queria ser a única menina no meio de três meninos. Apesar de pequenina eu sabia que se fosse a única menina seria muito pressionada. Nasceu Elisabete. Após seu nascimento uma tristeza e angustia se apoderou de mim. Deixei de ter a atenção de meu pai, o que foi observado pela família e pelos parentes. Mas mesmo assim tratei muito bem minha irmã.
Antes de completar sete anos, sou de março,...
Continuar leituraTrago muitas lembranças de meus primeiros anos de vida. Penso que as lembranças de meus três, quatro e cinco anos são de momentos que atribui importância. Por volta dos dois ou três anos fui zoológico com minha família. O elefante de meu pensamento é muito maior, em virtude de meu “tamanhozinho” na época. A chegada de minha avó num dia chuvoso, trazendo uma torta de banana. Que alegria Uma manhã acordei chorando, ela pegou-me no colo. Então, me ensinou a dobrar a língua de um jeito curioso. Quando dobro minha língua lembro-me dela. Herança é muito mais que dinheiro. É algo que carregamos no coração. Que saudade de minha vovozinha.
Quando tinha quatro anos o homem chegou à lua. Meu pai, um homem que só fez até o segundo ano primário, comprou uma revista impressionante. Eu ainda não sabia ler, mas na capa havia uma pegada enorme que o homem deixou ao pisar na lua. Foi um momento importante para o mundo inteiro. À noite, eu olhei para o céu buscando ver o homem na lua.
Meu irmão mais velho já estava na escola. Muitas vezes eu ficava ao lado dele enquanto fazia seus trabalhos. Foi quando começou meu interesse por desenho. Ele havia desenhado, ou estava em seu livro, a figura de uma menina com um vestido xadrez. Achei tão bonito que passei a ter intimidade com o lápis. Eu fazia muitas perguntas a esse irmão mais velho, e ele acabou reclamando.
No ano seguinte minha mãe engravidara do quinto filho. Até então eu era a única menina, dois irmãos mais velhos e um irmão mais novo um ano. Eu tinha certeza que teria uma irmãzinha, não queria ser a única menina no meio de três meninos. Apesar de pequenina eu sabia que se fosse a única menina seria muito pressionada. Nasceu Elisabete. Após seu nascimento uma tristeza e angustia se apoderou de mim. Deixei de ter a atenção de meu pai, o que foi observado pela família e pelos parentes. Mas mesmo assim tratei muito bem minha irmã.
Antes de completar sete anos, sou de março, entrei para o primeiro ano escolar em uma escola da rede municipal. Eu era uma linda menininha lourinha que adorava conversar. A escola era bonita e alegre, bem arrumada. Meu uniforme era saia plissada azul-marinho, camisa branca com cordão na cintura, uma fita branca que eu adorava.
Durante o ano a professora foi substituída várias vezes. Isso não me incomodava, todas me tratavam bem. Era época da rainha da primavera e quase fui eleita pela minha turma. Sabia que se ganhasse teria que vender os votos. Minha mãe, muito brava, iria brigar comigo. A cada voto ao invés de alegria meu coração batia forte de medo. Felizmente fiquei em segundo lugar. Uma outra menina, também loura, ganhou.
As aulas não me interessavam muito. Detestava matemática. Todas as questões tinham o enunciado “Problema”, com p maiúsculo. Eu não queria saber de problemas. Já bastava os de casa: minha mãe tinha crises depressivas, meus pais brigavam muito. Eu adorava desenhar nas margens dos cadernos. Em casa, ouvia que meus irmãos não rabiscavam no caderno e eram mais caprichosos. Entretanto, para mim eram desenhos, e não parei de faze-los, mesmo que não fossem compreendidos. Hoje, após vários cursos de desenhos, sei que eu estava treinando sem saber. Muitos dos rabiscos que eu fazia são estratégias dos cursos para que o aluno solte a mão, preparando-a para o desenho.
Na aula prestava atenção quando interessava. Mas não conseguia prender a atenção por muito tempo sobre a mesma coisa. Hoje percebo o quanto a ansiedade me atrapalhou na vida escolar e aprender coisas que não via sentido e significado eram desestimuladoras. Não lembro como aprendi a ler e escrever sendo tão desatenta. Passei com notas baixas. Uma vizinha aconselhou minha mãe a matricular-me novamente no primeiro ano. Porém, minha mãe pensou que se fui aprovada deveria fazer a série seguinte. Se eu tivesse voltado para o primeiro ano teriam assinado minha sentença de fracasso. Talvez nunca mais me recuperasse. Jamais repeti um ano se quer.
No ano seguinte eu e meus irmãos fomos estudar numa escola um pouco distante. Pertencia a rede estadual. Era feia, suja, minha saia era um cinza horrível. Tinha muito nojo desta escola. Uma tristeza e um silêncio se apoderaram de mim. Eu continuava detestando matemática e a palavra que a enunciava: “Problema”. Quando aprendi a multiplicar um número por dois (por exemplo 12 x 25) eu montava a conta diferente. Era como eu havia entendido, e sempre acertava o resultado. Provavelmente a professora pensou que eu havia colado de outra criança e sempre dava como errada as minhas contas. Aos poucos fui me adequando a regra. Hoje não sei explicar como eu montava a conta e conseguia acertar o cálculo.
No terceiro ano tive uma professora que ficava nervosa e mostrava a língua para os alunos xingando-os. Porém, ela nunca encostou a mão num aluno. Coitada, era neurótica.
Meu pai gostava de levar-nos para passear. Sem que ele soubesse, comecei a gostar de visitar museu. Mesmo que tivesse um bichinho empalhado, a tigela de um índio, eu gostava de apreciar. Quando adulta fiz uma excursão a Petrópolis. Tivemos que optar ir ao Palácio de Cristal ou ao Museu. Optei pelo Museu, e vi coisas lindas por lá.
Os anos foram passando Nada de significativo ou extraordinário acontecia na escola. Em casa, aos nove anos, eu tomava conta de minha irmã de três anos e da casa para que minha mãe fosse trabalhar. Eu dava banho, contava historia e falava coisas que eu achava importante ela saber. Nesta época minha professora era uma amiga de minha mãe. Um dia, quando subi as escadas, ela viu minhas pernas e me chamou preocupada. “Terezinha”, ela disse, “você esta carregando peso? Minha filha você está com uma marca de varizes na perna...”, eu não confirmei, mas carregava um peso chamado Elisabete.
Aos 11 anos estava na quinta série. Tinha professores severos. Nos obrigavam a ficar em pé quando entravam na sala e a cada vez que viesse um adulto. Isso já era praticado nas séries iniciais, mas não com tanta severidade. Eu tinha muito medo deles.
A professora de música ensinava sobre as notas musicais. Sei que são sete e tem a linda clave de sol. Mas nunca entendi como preencher as linhas corretamente com as notas musicais. Era mais uma aula que não gostava. Júlia, a professora de história, falava sem parar. Suas tarefas eram copiar do grosso livro em nosso caderno. Nas férias do mês de julho ela deu muitas copias para fazermos. Eu passei o mês pensando na lição mas não conseguia pegar no caderno. Eu queria brincar. Nos últimos dias é que comecei a fazer. Para minha mãe, eu era muito sossegada e fazia as coisas em cima da hora. Porém dentro de mim havia uma ansiedade e medo paralisante somada a cobrança que eu fazia de mim mesma: dar conta das atividades escolares.
No ano seguinte foi inaugurada uma bela escola, de arquitetura moderna, próxima de minha casa. Fui transferida para ela e comecei a sexta série. Era um ambiente limpo, tudo novo, quadras amplas, salas para laboratório. Aqui a professora de música ensinava musicas folclóricas e casos sobre o assunto. Já não tínhamos as terríveis notas musicais. Eu adorava essas aulas. A professora parecia uma senhora alemã, voz forte começava o canto e seguíamos. Certa vez pediu uma pesquisa sobre a Semana de Arte Moderna de 22. Minha prima estudava comigo e ajudávamos uma a outra. Minha tia, que aprendeu a ler e escrever pelo Mobral e, assim como meus pais dava muita importância aos estudos, nos levou ao centro da cidade para procurar revistas antigas sobre o assunto. Compramos revistas com fotos de belos quadros de artistas famosos, eu admirava Tarsila do Amaral. Mas não entendi nada do que havia sido esta semana que ninguém em casa nunca havia falado coisa alguma. Mesmo assim eu achei que devia ter sido uma semana muito importante e isso ficou em minha memória.
Estudávamos o francês, e achava belíssimo, mas lembro-me de algumas palavras. Nas aulas de desenho eu me saía muito bem e minha prima nem tanto. Ela me dava aulas em casa sobre matemática e assim eu conseguia acompanhar bem a matéria.
Quando eu fiz treze anos minha irmã começou a estudar. Eu a levei no seu primeiro dia de aula. Ao deixá-la no meio do pátio entre outras crianças desconhecidas senti vontade de chorar. Ela teve algumas dificuldades no inicio. Tínhamos uma pequena lousa em casa e comecei a ensinar porque duas letrinhas formam um som e uma sílaba. Buscava significado para que ela desse sentido e começasse a escrever, pois eu aprendia à medida que atribuía sentido às coisas.
Certa vez também fui dar aula para a filha de nossa vizinha. Era para durar uma hora por dia, mas a menina estava tão fraquinha que eu ficava muito mais tempo. Chamava-se Arlete Ramos, eu dizia que com esse nome um dia ela seria artista. Eu me empenhava em ensinar. Após alguns anos ela mudou-se para Minas Gerais, e quase não tive notícias dela, mas sei que atriz ela não é.
Na oitava série, nos primeiro dias de aula um professor de história começou dizendo: “Agora vocês vão aprender história geral. Ouvirão nomes estranhos como Nabucodonosor”. Ele falou e escreveu o nome do faraó, achamos muito engraçado, não houve um aluno que não desse gargalhada. Esse professor me ensinou a gostar de história. A partir daí comecei a prestar mais atenção nas aulas.
Era momento de pensar no colegial. Na escola os professores nos incentivavam a pesquisar sobre profissões, escolas técnicas. Eu e outras meninas resolvemos ir para a Escola Carlos de Campos, que fica entre a Rua Oriente e a Rua Monsenhor de Andrade no Brás. Optei por nutrição, influenciada pelas amigas. Nutrição era a coqueluche do momento. Eu e minha prima começamos a estudar duro para o vestibulinho. Conseguimos que nossos pais financiassem um professor de matemática. Eu estudava e não entendia o que ele tentava passar. Ficamos bastante estressadas na época. Mesmo assim eu não desistia.
Prestamos o vestibular e não atingi a média necessária para ingressar no curso de nutrição. Dessa forma fiquei com a segunda opção de desenho de comunicações. Foi uma escolha feliz, da qual tenho afinidades.
Carlos de Campos era uma boa escola, longe de casa. Tinha que acordar de madrugada para pegar ônibus e entrar as sete da manhã. Muitas vezes eu chegava atrasada e tinha que entrar pela porta da frente. Como eu subia as escadas correndo para não ser repreendida, torci o pé e o tornozelo muitas vezes.
Três professores marcaram essa época: o de geografia, o de física e o de matemática. O professor de geografia era um senhor que nos trazia pedras brasileiras semi-preciosas, falava muito sobre os mapas. Eu entendia bem o que explicava. O de física era um japonês, eu não entendia nada dessa disciplina. O que foi marcante é que como professor de uma matéria tão complexa ele não conseguia entender coisas simples, como por exemplo: uma brincadeira trazida pelas meninas. Como se diz popularmente: ele não entendia o espírito da coisa. A professora de matemática D. Meire, de idade muito avançada, era engraçada e apresentava sinais de caduquice. Ela sempre tinha nos bolsos migalhas de bolachas que comia durante a aula, andando de um lado para outro da sala.
Do segundo ao terceiro colegial passei a estudar as matérias técnicas. Já não tínhamos química, física, e outras disciplinas. Durante um ano foi lecionada filosofia e ética. A professora era firme e alegre. Ouvimos sobre Platão e a alegoria da caverna, mas não entendi nada. Faltava maturidade e pré-conhecimento para compreender.
Ao terminar o colégio me sentia incapaz de fazer uma faculdade. Senti-me sem chão. A maior parte de minha vida passei na escola. O que fazer agora? Então comecei a procurar emprego e fui admitida no Banco Real. O primeiro setor que trabalhei foi o de contabilidade. Ninguém queria esse trabalho. Tinha que lançar todas as entradas e saída, no final as duas teriam que ter o mesmo resultado, caso contrário havia erro. Muitas colegas do banco eram professoras. Foi quando resolvi fazer magistério.
Novo momento político. Era início da abertura política. Nas aulas de história do curso de magistério ouvi sobre o AI 5, os pesados anos da ditadura. "Como nunca soube disso?", perguntava-me atônita. Quem eram os terroristas que não eram terroristas? Uma estranha realidade se abria, a educação passava por um funil. Lembro-me do livro que mostrava um funil com um monte de alunos entrando e poucos saindo pelo bocal. Achei interessante o curso, aprendi bastante. Mas eu gostava do banco e não quis dar aula.
Na busca por melhores salários procurei outra empresa e pedi demissão do banco. Era uma administradora de cartões de crédito. Vivi verdadeiro inferno nesta multinacional. Éramos sempre vigiados e analisados, pressionados pela empresa e pelo cliente. As pessoas de meu setor, inclusive eu, vivíamos no ambulatório com problemas de saúde. Quando fui demitida fiquei aliviada de tamanha pressão.
Iniciou-se um novo ciclo em minha vida. Desempregada, fiz inscrição em concursos públicos. Passei a estudar por conta própria e com muito entusiasmo. Para aprender ou lembrar as equações de segundo grau, recorri a livros de séries iniciais. Estudei cada um deles inteiro, ao terminar pegava o da série seguinte. Fui aprendendo que matemática não era um bicho de sete cabeças. A dificuldade era apenas uma ilusão. Isso me deixava feliz e satisfeita comigo mesma.
Final
Certa vez quando dava aula particular para um garotinho, cuja mãe estava preocupada com seu aprendizado, fui ensinar matemática. Procurei delicadamente mostrar porque matemática é importante, partindo de algo que lhe interessasse. Eu disse: “Se você ganhar cem pipas e der dez para um menino, cinco para outro, mais duas aqui, doze lá, você tem que saber quantas pipas restaram”. Ele então respondeu: “Se eu ganhar 100 pipas não dou nenhuma para ninguém”. Eu ri e vi que o menino pensava rápido, era inteligente e podia aprender mais.
Penso que as coisas têm que ter um sentido para ser assimilada. A maior parte de minha vida escolar, infância e adolescência foi vivida no militarismo. Sinceramente hoje desabafo: o quanto essa atitude é descabida. Sou contra disciplina forçada, uma disciplina que não fazia sentido na época e muito menos hoje. Penso no respeito que precisa ser construído e cultivado. Disciplina é o meio de atingir um objetivo, é o momento que para ouvir o outro eu me calo, para dessa forma saber o que ele pensa, conhecê-lo, percebê-lo. Respeito e disciplina têm que ter sentido, caso contrario é um meio de controle.
Há poucos anos fiz vários cursos de artes e aprendi muito sobre a Semana da Arte Moderna. Compreendo a alegoria da caverna, da qual falou Platão. Mesmo não entendendo muitas coisas colocadas, elas ficam em minha mente e em outro momento tenho a compreensão.
Fui uma aluna não muito aplicada e sofri as conseqüências. Perdi muita coisa, procurei retomar. Fiz vários cursos de artes e as turmas desses cursos são as mais agradáveis do que outro qualquer. As pessoas interagem melhor umas com as outras.
Atualmente quando vejo alunos não levarem a sério seus estudos não os critico. Também não levava. Mas senti o prejuízo. Não os julgo, mas sei o quanto elas estão perdendo e as conseqüências que isso terá em suas vidas.
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