EXPERIÊNCIAS
“Não somos seres humanos vivenciando experiências espirituais, somos seres espirituais vivenciando experiências humanas”
INSTITUTO SANTO ANTÔNIO
Instituto Santo Antônio, Barra da Tijuca, Pedra da Gávea, Itanhangá chegando aos oito anos de idade, ano de 1956. Me lembro de estar subindo uma rua de pedra, paralelepípedos, de mãos dadas com minha mãe a procura do internato onde deveria passar os próximos cinco anos. Meus medos e a certeza de que não teria volta. Me lembro de haver dito: - Não estamos encontrando a escola é melhor voltar para casa e tentar de novo em outro dia.
Tentava convencê-la a voltar para casa, sabia que não haveria retorno se chegasse a cruzar a entrada. Se as palavras não foram exatamente essas, essa era a intenção e ela sabia disso. Com certeza tinha o coração apertado e lágrimas nos olhos que jamais deixaria que eu visse.
Abandonada pelo marido, meu pai, desde que eu tinha 4 anos de idade, já havia internado em um Colégio para meninas minha única irmã que tinha 11 meses a mais do que eu, agora era minha vez. Ela, minha mãe não tinha como manter-se e os filhos precisando trabalhar como balconista de uma loja de departamento com um salário extremamente irrisório. Mas vai tentar explicar isso a uma criança. Impossível!
Lembro de várias coisas desta época e da vida com meus pais ainda juntos, do colégio infantil em Paracambi, dos passeios de escovão quando minha mãe encerava a casa, dos banhos de bica no tanque, das palmadas quando era surpreendido brincando no valão em frente a nossa casa. Eu sempre fui um moleque “safo”.
Uma vez brincando de casinha com minha irmã enrolei em um tapete azul desses de banheiro a única boneca que ele possuía e a deixei cair de cabeça em um chão cimentado quebrando-a.
Foi uma choradeira monumental, não apanhei ou pelo menos não lembro de haver apanhado, mas eles tiveram que comprar uma outra boneca horrorosa na venda próximo a...
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“Não somos seres humanos vivenciando experiências espirituais, somos seres espirituais vivenciando experiências humanas”
INSTITUTO SANTO ANTÔNIO
Instituto Santo Antônio, Barra da Tijuca, Pedra da Gávea, Itanhangá chegando aos oito anos de idade, ano de 1956. Me lembro de estar subindo uma rua de pedra, paralelepípedos, de mãos dadas com minha mãe a procura do internato onde deveria passar os próximos cinco anos. Meus medos e a certeza de que não teria volta. Me lembro de haver dito: - Não estamos encontrando a escola é melhor voltar para casa e tentar de novo em outro dia.
Tentava convencê-la a voltar para casa, sabia que não haveria retorno se chegasse a cruzar a entrada. Se as palavras não foram exatamente essas, essa era a intenção e ela sabia disso. Com certeza tinha o coração apertado e lágrimas nos olhos que jamais deixaria que eu visse.
Abandonada pelo marido, meu pai, desde que eu tinha 4 anos de idade, já havia internado em um Colégio para meninas minha única irmã que tinha 11 meses a mais do que eu, agora era minha vez. Ela, minha mãe não tinha como manter-se e os filhos precisando trabalhar como balconista de uma loja de departamento com um salário extremamente irrisório. Mas vai tentar explicar isso a uma criança. Impossível!
Lembro de várias coisas desta época e da vida com meus pais ainda juntos, do colégio infantil em Paracambi, dos passeios de escovão quando minha mãe encerava a casa, dos banhos de bica no tanque, das palmadas quando era surpreendido brincando no valão em frente a nossa casa. Eu sempre fui um moleque “safo”.
Uma vez brincando de casinha com minha irmã enrolei em um tapete azul desses de banheiro a única boneca que ele possuía e a deixei cair de cabeça em um chão cimentado quebrando-a.
Foi uma choradeira monumental, não apanhei ou pelo menos não lembro de haver apanhado, mas eles tiveram que comprar uma outra boneca horrorosa na venda próximo a escola, no dia seguinte brincávamos com uma boneca de cabeça quebrada e outra muito feia que em poucos minutos perdia a feiura e assim a vida seguia seu curso.
O nome desta primeira boneca era “Fidéia.” Mais tarde já adolescente fiquei sabendo por minha mãe que esse nome batismal havia sido escolhido por mim, porque toda as vezes que alguém perguntava – De quem é essa boneca? Alguém respondia, esse é o “filho dela” referindo-se a minha irmã. E assim eu passei a chamá-la...
Não lembro em nenhum momento de presenciar meus pais brigando ou falando alto um com outro, para nós tudo era maravilhoso. Lembro de um tombo de bicicleta quando caímos nós quatro em uma grama próximo a ponte que ligava os dois lados do valão, rimos muito e nos abraçamos tentando acalmar nosso pai que ficou nervoso e preocupado.
Me lembro também de haver “pego” caxumba e em um carro preto velho do patrão do meu pai, sair na madrugada para o pronto socorro, eu com muita febre.
Acho que esse tipo de vida assustou meu pai que nos levou a morar em uma “cabeça de porco” no Catete na cidade do Rio de Janeiro.
Deste local, lembro de ser um quarto com móveis antigos composto de uma cama e uma penteadeira. Nossas roupas ficavam na mala onde um dia eu tropecei e abri uma viela embaixo da sobrancelha esquerda, falha que carrego até hoje.
Na cidade grande ele ficou deslumbrado e começou então a vida dura que minha mãe passou a levar, abandonada. E por uma carta deixada sobre a cômoda soube que estava só e com duas crianças para cuidar e viver.
Ele, meu pai sumira no mundo para não ter que pagar qualquer tipo de pensão, seus irmãos e irmãs jamais disseram como encontra-lo e quando ele vinha visita-los minha mãe jamais soube, acho que para evitar qualquer tipo de contato.
Eles protegiam o “Soneca”, assim ele era conhecido pela família paterna. Que bosta de padrinho e madrinha eu tinha, seus irmãos.
Fomos morar em Copacabana com minha tia Branca que já cuidava de minha vó, mãe da minha mãe. Vó Morena já idosa tinha o mal de Parkinson e precisava de alguém para cuidar dela. Tia Branca era a irmã mais velha e cuidava dela e de um neto de 14 anos, meu primo Jayme César.
Neste local passei também minhas férias escolares. Claro que o primo tinha interesses próprios da idade e não me dava muita atenção, porém eu gostava muito dele, além de não implicar comigo deixava eu brincar com seus brinquedos que ele já havia abandonado.
Tinha um verdadeiro pelotão de soldados de chumbo e organizávamos no corredor do nono andar onde morávamos, épicas batalhas dignas dos heróis da segunda grande guerra.
Meu amigo na época era um menino de quem não recordo o nome, mas ele morava no segundo andar e era filho de um dos componentes do Trio Irakitan, muito famoso, porém não tínhamos qualquer ideia da dimensão disso. Ele possuía brinquedos e soldados melhores e mais completos então era nossa diversão levar a guerra dos soldadinhos prateados entre os andares, as vezes no segundo andar e as vezes no nono andar.
Nosso prédio tinha uma portaria dourada envelhecida e o porteiro se chamava “Caneca” localizava-se sobre o Mercadinho Azul, muito conhecido na época e que nem existe mais. Minha tia administrava uma pensão onde pessoas de baixa renda almoçavam diariamente em uma mesa grande na sala. Nessa mesa dei muita cabeçada em correrias infantis aos gritos de – CUIDADO! – Proferidos por minha tia, mas nem sempre obedecidos.
Ela alugava também vagas para moças que trabalhavam ali no bairro e aí se juntou Eny – minha mãe - e seus dois filhos, motivo pelo qual se fazia necessário as internações em escolas para desafogar os cuidados de Tia Branca, uma gaúcha sanfoneira muito guerreira que sabia tocar “La Cumparsita” e “Cama na Varanda” sucessos do Sul.
O tempo passava e hoje consigo entender os sufocos sem ajuda e com a obrigação de criar duas crianças cujo crime foi nascer em berço pobre e mal preparado.
Minha irmã foi para um Colégio em Campo Grande, internato para meninas e eu para um outro chamado “Instituto Arruda Câmara” no Bairro da Freguesia em Jacarepaguá. Lá os alunos possuíam um uniforme de gala muito elegante e tenho fotos até hoje fazendo continência para a vida e para os amigos com a mão esquerda.
Não tenho ideia de porque fui retirado desta escola, porém imagino que saindo para casa as sextas feiras para passar o final de semana em casa, o problema crianças cuidadas pela tia Branca continuavam existindo. Ela possuía então os dois filhos da Eny e o filho adolescente do Tio Jayme Wallace que era taxista e trabalhava o dia inteiro na rua.
Bom, aqui estou eu chegando ao novo colégio, neste novo internato as visitas se realizavam todo segundo domingo de cada mês, porém as saídas para casa apenas seriam no final de dezembro, antes do Natal, com a volta marcada para logo após o Carnaval.
O colégio não era ruim, tinha uma vista maravilhosa da praia da Barra onde o professor Newton levava os alunos de bom comportamento ou de boas notas para passar um dia inteiro brincando na areia e as crianças levavam sacos de tecido para trazer na volta frutas catadas pelo caminho. Era um número reduzido pois ele e o Sr. Adelino – monitor precisavam de muita atenção para não perder qualquer criança.
Os sacos vinham carregados de amora, abil, limão, cajá manga, manga rosa, carambola e principalmente jaca. A jaca tinha a vantagem de poder ser fartamente distribuída entre a criançada e seu caroço ia sendo juntado em uma enorme panela onde depois de cozido com sal e era redistribuído como se fosse castanha. Que coisa boa!
Apenas me lembro de ter ido em cinco anos uma só vez, já na quinta série por haver recebido elogios de um trabalho de pesquisa sobre o povo indígena no Brasil. Neste ano de ótimo desempenho escolar li aquele que seria o livro que deu nome à minha primeira filha muitos anos depois. O Guarani tinha uma personagem para quem eu havia ofertado meu coração; Cecília – éramos dois apaixonados eu e o índio Peri.
Levei cinco anos para fazer o passeio, mas enfim me tornara um bom aluno e mesmo sendo obrigado a fazer uma falcatrua consegui enganar a Professora Elvira, disfarçando um pequeno machucado no pé direito já que quem tivesse algum tipo de ferida, febre ou resfriado era sumariamente abortado. Ela descobriu isso na volta e por isso nunca me perdoou.
Às sextas feiras aguardávamos ansiosos o Professor Newton voltar em seu velho carro preto que como um morcego abria na frente duas azas deixando ver um motor sujo e caquético. Ele trazia em uma enorme caixa o filme do final de semana que sempre era um seriado semanal e filmes em preto e branco do Carlitos, de vez em quando vinha também um filme colorido o que era raro, mais fazia o maior sucesso.
A sexta feira era dedicada aos alunos de bom comportamento, aqueles que não possuíam qualquer mácula ou repreensão. Eu só assistia as sextas feiras quando rolava um perdão geral. Na entrada do refeitório era distribuído doce tipo de leite, de abobora, de batata roxa, de coco e coisas assim típicas de festa de Santo Antônio.
Na manhã seguinte, sábado fervilhavam perguntas aos que haviam assistido, um número reduzido do qual eu nunca pude fazer parte. Porque quando era no perdão geral não havia mais curiosidade.
Muitas vezes comi meu doce dentro da seção mais em outras ocasiões guardei ou busquei com outros meninos outro doce sobressalente para comer com pão no café da manhã do dia seguinte, era muito bom.
Me lembro de duas coisas além dos filmes do Charles Chaplin, de um grande seriado em treze capítulos “A Ilha Misteriosa” com John Wayne que sempre terminava com ele caindo do mais alto precipício para ser salvo no capítulo seguinte e de um filme especialmente chamado “Chicago” que não me lembro de nada da estória mais que tinha um título digno de crianças até 12 anos. Muito sugestivo e engraçado.
Outra coisa que nós gostávamos de fazer era ouvir na Rádio Nacional com as novelas diárias e juvenis. As seis horas – O Cavaleiro da Noite, caracterização de Dom Marcos, um Gentil Homem que lutava pela liberdade do povo contra opressores, As Aventuras do Anjo, um policial da cidade grande, usavam metralhadora e outras armas avançadas, tinham a “Lurdinha” que cantavam forte contra o crime organizado e em sequência o imbatível Jerônimo, O Herói do Sertão que vivia em Serro Bravo, seu cavalo Príncipe, a noiva Aninha e o ajudante para todo o serviço, amigo e conselheiro Moleque Saci. Depois vinha a Voz do Brasil, mas nós já estávamos a caminho dos dormitórios.
Acho que não passávamos de 150 alunos, todos da LBA – Legião Brasileira de Assistência destinadas as mães pobres e trabalhadeiras.
De vez em quando rolava uma fuga pelas descidas íngremes, eu nunca fiz parte dessas aventuras porque eu tinha como certa a visita de minha mãe no segundo domingo de cada mês que eu podia ver do salão principal, ela era sempre uma das primeiras a chegar. Sabia do desespero daqueles que não viam rostos familiares e que se contorciam em incertezas.
Pior ainda para aqueles que se achavam abandonados porque jamais receberam visitas e no final do ano ninguém vinha buscá-los.
Ao se aproximar a hora de abertura dos portões a presença de minha mãe as vezes acompanhada de minha irmã e uma vez somente acompanhada também de meu pai. Mas quem somos nós naquela idade ou mesmo hoje para julgá-lo, que esta seja a missão de Deus e de sua própria consciência.
Os meninos que fugiam sempre retornavam, demorava um pouco, talvez no dia seguinte ou em três dias, mas eles retornavam. Contavam estórias mirabolantes de aventuras vividas, mais na verdade nunca mais tentavam novamente. E acho que os diretores tinham certeza disso, porém praia naquele ano com certeza não iriam mesmo.
O nome local, do bairro é Itanhangá que em língua indígena significa pedra do diabo (ita=pedra, anhangá=diabo). Porque até a época da escola a singular forma côncava do local antes dos milhares de prédios e casas construídas tinha o poder de reproduzir por eco aquilo que se gritava da frente da casa grande.
Alguns alunos gritavam MÃE! E a pedra respondia ãe, ãe, ãe... Doce esperança de se fazer ouvir e vir buscar cada um de nós.
Assim, Anhanguera (diabo velho) atribuído ao Bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva que ao tocar fogo em uma cuia cheia de cachaça dizendo ser água, disse aos indígenas que poderia fazer secar todos os rios e lagos se não informassem onde estavam as minas de ouro. Os silvícolas apavorados entregaram tudo que tinham e o levaram as nascentes onde se encontrava o minério.
O colégio tinha uma frente enorme e de espessura tão grande que a abertura das janelas se davam dentro dos limites das paredes. Salas de aula, refeitório, cozinha, sala da diretoria e de professores ficavam dentro da casa grande. Atrás um corredor mais moderno levava aos dormitórios onde os meninos dormiam em camas beliche. Os mijões em camas de baixo e os mais espertos em camas de cima. Nunca fiquei em cama de baixo porque não era do grupo “ih! Fiz sem querer”
A noite assustávamos aqueles que iam ao banheiro para obrigá-los a ter medo de andar no escuro. Tinha garoto carola que até já tinha visto Nossa Senhora nos corredores e os mais temerosos já tinham até visto o demônio.
Conseguíamos com os mais velhos que ajudavam na cantina, fósforos que acessos e depois apagados provocavam uma espécie de fogo entre os dentes que faziam a galera correr, gritar e chorar irritando os monitores.
O Professor Newton dizia em sala de aula para todos; - se você vir uma assombração com boca de fogo e gemendo, pegue seu sapato (marca TANK) e jogue com toda a força possível. Se bater e cair no chão mande mais sapatos porque é gente, porém se atravessar e cair depois do Ser.... corra porque a coisa está preta. Nós riamos muito, sabíamos que ele estava certo, mas que eles não teriam coragem de pagar para ver.
Em frente aos dormitórios acompanhando os fundos da Casa Sede, tínhamos um campo de futebol, ali brincávamos, jogávamos bola, montávamos nossos times e organizávamos os campeonatos. Nas festas juninas, Santo Antônio, São João e São Pedro eram os homenageados. Tínhamos nossa fogueira, milhares de bandeirinhas, balõezinhos japoneses e estalinhos inocentes, fogos somente nas mãos dos Professores e de Monitores.
Mais tarde pude descobrir que o motivo pelo qual jamais pude me tornar um craque de futebol estava no mal-uso daquele campo. Nos sábados de manhã após o café todos iam para a sala de aula e lá tinham que responder em diversas oportunidades dadas pelos monitores a tabela de multiplicação e de divisão, a terrível tabuada, aqueles que não conseguiam só eram liberados após acertar.
Eu jamais consegui acertar e era liberado por último junto com aqueles que como eu não conseguiam efetuar as contas propostas. Quanto futebol perdido, quanta oportunidade de gol desperdiçada. Às vezes Dona Laura vinha nos salvar liberando-nos com a promessa de que semana que vem faríamos melhor. Nunca consegui!
Tenho saudade da Dona Laura Drummond – nossa Diretora e dona do colégio, uma senhora de cabelos brancos, uma doçura de compreensão e de dedicação ao bem-estar de todos nós. Carinhosa passava aos menores a imagem de mãezona, todos a respeitavam e a amavam muito. Magrinha e elegante tinha sobre o cabelo alvo aquelas redes para manter o penteado que a fazia estar sempre arrumada e em condições de conversar com todos nós e com os pais da gente.
O domingo quanto não era de visita era convertido em missa pela manhã ou a oração com o terço lideradas por D. Elvira que durante a semana dava aula de português e implicava comigo. Acho que ela tinha apenas essas funções. Muito gorda e cadeiruda passava o tempo fora da sala de aula ensinando as crianças a serem comportadas e ameaçando-as com a promessa de não estarem na lista da praia no domingo seguinte.
Os finais de semana chuvosos eram tristes, tínhamos a permissão para invadir a biblioteca da escola a retirar de lá todos os livros possíveis. Eu gostava muito de ler. Meus livros preferidos eram “O Guarani” – obra de José de Alencar que pela paixão li muitas e muitas vezes e a coleção de capa preta e letras douradas “Tesouro da Juventude”. Ali aprendi muita coisa sobre a vida, sobre curiosidades do mundo. Copiei, recortei e colei jogos e brincadeiras para fazer com meus amigos. Era uma coleção de muitos volumes e falava sobre tudo.
Aprendi a gostar de Monteiro Lobato e toda a coleção do Sitio do Pica Pau Amarelo, das Reinações de Narizinho até aos 12 trabalhos de Hércules. Eram livros vermelhos sem gravura na capa com letras também douradas que convidavam você a leitura pela facilidade de acompanhamento.
Minha mãe me trouxe em uma das visitas um livro pequeno sobre animais estranhos e suas curiosidades, na capa a figura do Ornitorrinco, tadinho, feio e desajeitado, uma mistura de tudo que um bicho poderia ser para ter uma vida atrapalhada. Eu gostava dele porque imaginava que ele não tinha amigos. Também, tão desajeitado! Dentro e fora da agua. Eu tinha pena dele e em minha imaginação eu era esse amigo.
Um dia D. Elvira me viu folheando na sala de aula dela esse livro. Me chamou a atenção, cortou minha ida a praia daquela semana e confiscou meu livro. Um presente de minha mãezinha.
Passaram-se vários dias, meses talvez e em um novo dia chuvoso ao adentrar na biblioteca deparei com meu livro, abri e lá estava a dedicatória feita pela minha mãe cheia de carinho e amor com aquela letra bonita que ela tinha. Peguei-o de volta, escondi dentro da roupa e quando tive oportunidade levei para minha cama e lá ele ficou me fazendo companhia eternamente sem que D. Elvira pudesse confisca-lo novamente.
Cinco anos se passaram, Festas de Natal e Ano Novo sempre na casa de minha tia, irmã de minha mãe que era casada com um cara de quem eu gostava muito. Meu tio Ney, sempre brincalhão adivinhava meus problemas e mesmo tendo que dar atenção a sete filhos deixava sobrar para o sobrinho um pouquinho de atenção e carinho.
Sofríamos um pouco com as comparações absurdas feitas pelos avós paternos dos primos como se criança pudesse ser confrontada, eles nos faziam sentir pessoas de terceira categoria. Olha como nossa neta mais velha é tão inteligente, um gênio escolar. Será sem dúvida a maior cientista brasileira que o mundo verá.
Os outros primos sempre lindos e cheirosos a nata pronta da nova sociedade. Mas eles não tinham culpa de nada, nós éramos amigos, primos e isso bastava. Na rua de paralelepípedo em Botafogo jogávamos bola brincávamos de pique-pega e queimado. Para mim e para minha irmã eram férias maravilhosas em vidas que jamais teríamos.
Mais tarde pude trabalhar com essa prima que coloquei como secretária na empresa onde eu era o Contador e Controlador Financeiro. Ela pela inteligência e pela cultura havia se formado como professora primária mais por motivos que eu nunca soube não exerceu a profissão. Pela capacidade intelectual era admirada pelo Presidente da Empresa que confiava a ela as maiores responsabilidades e a tinha em alto grau de satisfação profissional.
Ela, porém, não era uma pessoa feliz, tinha filhos e um marido que o avô paterno considerava um filho gênio que não teve. Eu a vi chorando algumas vezes na mesa de trabalho, em respeito a ela e a nossa amizade, jamais perguntei o motivo. Apenas procurava alegrá-la e torcia para vê-la sair daquele vazio que com certeza se apresentava. Eu sempre orgulhoso dela e das palavras do nosso dirigente e ficava feliz em vê-la seguir em frente.
Um dia ela adoeceu e um “pai de santo” disse que ela era possuída por demônios internos que não a deixavam. Tadinha, nada disso! Ela sofria de asma e isso era muito doloroso, mas buscava-se um culpado e não a cura.
Ela foi internada e segundo eu soube, ela foi curada ou pelo menos aliviada das dores, mais que se recusava a voltar ao trabalho, a família, ao marido e assim se auto condenou a deixar a vida. Como nós somos vítimas de nós mesmos, do despreparo e da arrogância daqueles que nos cercam!
E assim ficou desfeito nosso relacionamento com os primos, cada um de nós tinha uma vida para cuidar. Se não éramos perfeitos, e não éramos em nenhuma circunstância, viver e ganhar a vida era nosso dever principal.
Mas gosto de lembrar deles e daquela rua onde eu e minha irmã nos sentíamos parte de alguma coisa maior, uma família comum. Uma vez, já bem adulto, passei na porta daquela casa onde meus primos moraram e fiquei parado em frente ao portão de garagem. Haviam modificações feitas com certeza por moradores posteriores. Mais eu gostaria de poder ter entrado para matar a saudade do local e de uma Senhora negra de cabelos branquinhos – Dona Adalgisa – Vó Gisa, que ficava sempre na cozinha fazendo quitutes maravilhosos que eu e minha irmã jamais teríamos experimentado.
Acho que fiquei ali parado por muito tempo e começou a juntar gente a minha volta. O que fazia ali uma pessoa do sexo masculino olhando para dentro daquela casa fechada? Quando dei por mim estava explicando coisas sem sentido às pessoas que eu não conhecia. Resolvi ir embora antes que chamassem a polícia para retirar um perigoso meliante ou mesmo um doido varrido. Mas fica registrado uma parte de minha infância e a felicidade de ter primos. E fim das férias, volta ao Colégio interno.
No colégio, meu último ano foi comandado pela ideia de fazer algo tipo dicionário de palavras indígenas pesquisada em livros da Biblioteca, reuni milhares de frases e de assuntos correlatos que transformaram um aluno considerado médio em outro de bom nível. Estudioso e empolgado em saber, pesquisei muito e me transformei naquele aluno que minha mãe gostaria que eu fosse. Na hora de passar para o livro em si toda a pesquisa, colar as figuras capturadas pela tesoura e também pelas imagens publicadas em uma famosa (na época) goma de mascar, de índios de diversas nações que habitavam o nosso território, fiquei envergonhado da minha caligrafia que eu considerava péssima.
Para que tudo saísse o melhor possível pedi ao um grande amigo que sempre me acompanhou desde o primeiro ano, que escrevesse com a letra bonita que ele tinha, minhas pesquisas na forma que eu as havia construído e ele assim o fez. Esse amigo participativo a quem devo muito, basta olhar os trechos com a minha letra e os trechos com a letra dele para dizer que se justificava totalmente essa ação.
Seu nome era Ubirajara, filho de uma cozinheira que trabalhava em uma casa de família no posto cinco em Copacabana. Ele era também uma referência de férias já que eu morava no posto quatro e a distância era pequena e cabia dentro de uma morcegada no bonde entre os dois postos pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Quando o cobrador se dirigia ao local em que estávamos sentados, já se avizinhava a hora de descer o que fazíamos sempre rindo, terminando o trajeto caminhando indo para minha casa ou para casa dele.
Meu Deus, gostaria muito de saber do meu amigo Ubirajara, por onde anda e o que fez da vida. Tenho para mim que o nome dele e a aparência física que guardo na memória justificava uma ascendência indígena. Mãe e filho eram amazonenses, porém eu jamais soube a verdade. Daí talvez a vontade dele de colaborar na obra, emprestando qualidade com a letra bonita que possuía como um dom.
Ali passei cinco anos, aprendi a ler, a viver em sociedade, a fazer amigos, a respeitar os mais velhos, ouvir conselhos e saber separa-los. As orações diárias acalmavam os ânimos e davam a esperança de dias melhores.
Nossos Diretores sempre foram dedicados e passavam aos alunos um mundo limpo, talvez utópico, mas que nos cabia viver ali dentro.
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