Página Inicial | História de vida
Ilma de Souza, nascida no Rio de Janeiro em 11 de outubro de 1960, formou-se técnica de enfermagem e serviu na Polícia Militar do RJ (1982). Ingressou na Petrobras em 1989 e trabalhou dez anos embarcada em plataformas como profissional de saúde. Destacou-se pela criação da Rádio Scherne 2 FM e pelo uso do teatro em palestras de saúde.
Áudio na íntegra
(não disponível)
Projeto Memória dos Trabalhadores Petrobras
Depoimento de Ilma de Souza
Entrevistado por Rosana Miziara
Macaé, 26 de março de 2003
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB113
Transcrito por Transkiptor
00:00:41 R - Eu nasci no Rio de Janeiro e a data do meu nascimento é 11 de outubro de 1960. Eu sou técnica de enfermagem, a nível de segundo grau e atualmente eu curso pedagogia na Fafima, na faculdade de filosofia e letras aqui de Macaé.
00:01:13 P/1 - Em que ano você se endereçou na Petrobras?
00:01:16 R - 1989 Você tinha algum desejo assim, vou.
00:01:21 P/1 - Trabalhar na Petrobras, intenção? Como é que foi sua entrada aqui? Por que você escolheu trabalhar na Petrobras?
00:01:26 R - A realidade, eu até ingressei na PM no Rio de Janeiro em 1982 e estava bastante inconformada na época, não estava atendendo as minhas expectativas. Eu nem sabia que tinha plataformas de petróleo. Porque aqui, Bacia de Campos, plataforma de petróleo, é em 1977, né? Então, em 80, em 79, 80, eu nem sabia dessas coisas. E na PM, por essa insatisfação, Polícia Militar do Rio de Janeiro. eu soube da questão do curso de enfermagem do trabalho para que você pudesse fazer, trabalhar em empresas. Eu estava trabalhando em hospital na época, mesmo dentro da PM, mas na parte de hospital, na parte de saúde. Aí eu fiz o curso de enfermagem do trabalho e foi muito engraçado, porque na época do curso eu chamei algumas colegas minhas, que hoje ainda estão lá no hospital da PM, E falei... Poxa, já imaginou amanhã nós fazermos uma prova pra Petrobras e passarmos? Aí fiquei assim com a mão na cintura, andando pra um lado e pro outro Mas por que Petrobras? Não, porque era... porque era não, porque é a maior empresa da América Latina, né? E eu, como brasileira, eu tenho orgulho. E tinha como parâmetro... Ah, Petrobras. Mas eu não sabia da questão de plataforma de petróleo, nada disso. Queria trabalhar na Petrobras. Fiz a prova, passei. E tive que...
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Depoimento de Ilma de Souza
Entrevistado por Rosana Miziara
Macaé, 26 de março de 2003
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB113
Transcrito por Transkiptor
00:00:41 R - Eu nasci no Rio de Janeiro e a data do meu nascimento é 11 de outubro de 1960. Eu sou técnica de enfermagem, a nível de segundo grau e atualmente eu curso pedagogia na Fafima, na faculdade de filosofia e letras aqui de Macaé.
00:01:13 P/1 - Em que ano você se endereçou na Petrobras?
00:01:16 R - 1989 Você tinha algum desejo assim, vou.
00:01:21 P/1 - Trabalhar na Petrobras, intenção? Como é que foi sua entrada aqui? Por que você escolheu trabalhar na Petrobras?
00:01:26 R - A realidade, eu até ingressei na PM no Rio de Janeiro em 1982 e estava bastante inconformada na época, não estava atendendo as minhas expectativas. Eu nem sabia que tinha plataformas de petróleo. Porque aqui, Bacia de Campos, plataforma de petróleo, é em 1977, né? Então, em 80, em 79, 80, eu nem sabia dessas coisas. E na PM, por essa insatisfação, Polícia Militar do Rio de Janeiro. eu soube da questão do curso de enfermagem do trabalho para que você pudesse fazer, trabalhar em empresas. Eu estava trabalhando em hospital na época, mesmo dentro da PM, mas na parte de hospital, na parte de saúde. Aí eu fiz o curso de enfermagem do trabalho e foi muito engraçado, porque na época do curso eu chamei algumas colegas minhas, que hoje ainda estão lá no hospital da PM, E falei... Poxa, já imaginou amanhã nós fazermos uma prova pra Petrobras e passarmos? Aí fiquei assim com a mão na cintura, andando pra um lado e pro outro Mas por que Petrobras? Não, porque era... porque era não, porque é a maior empresa da América Latina, né? E eu, como brasileira, eu tenho orgulho. E tinha como parâmetro... Ah, Petrobras. Mas eu não sabia da questão de plataforma de petróleo, nada disso. Queria trabalhar na Petrobras. Fiz a prova, passei. E tive que dar baixa e vir pra cá. Estou muito feliz pelas expectativas, o investimento.
00:03:09 P/1 - Mas você passou e veio trabalhar aqui em Macaé?
00:03:11 R - Aí eu passei, na época eu estava casada, estava casada recentemente, em torno de um ano, dois anos, e pensei que eu ia trabalhar em terra, num hospital. Aí quando eu cheguei eu soube que o trabalho era numa plataforma de petróleo, numa escala 14 por 14. Aí o marido ficou meio enciumado, entendeu? Mas aí eu falei, não, não abre mão disso. Eu vou, porque se você tiver que ser infiel à minha pessoa, eu trabalhando em terra ou embarcado, você vai ser. Então, eu não abro mão da minha parte profissional. E vim. E hoje eu tô divorciada, e feliz.
00:03:52 P/1 - Se eu vivo?
00:03:56 R - Não, na época eu residi em Campo Grande, no Rio de Janeiro, e durante o período da folga eu ia embora pra casa. Aí dois anos depois eu... Foi um verdadeiro desafio, né? Mas como eu também me orgulho de ter estado na Polícia Militar, né? Lá trabalha muito essa questão da postura, né? Postura, disciplina. Então, isso pra mim não foi difícil, porque a plataforma em si, ela é É um trabalho meio, como é que eu posso dizer, vai de encontro a questão social, ainda mais no caso da mulher. Existe um confinamento dentro do confinamento, porque o número de mulheres são muito menores em relação aos homens e você realmente fica assim, confinada dentro do confinamento. Então foi difícil, mas foi um desafio. muito grande e na época me dava muito orgulho era depois de completar meus 15 dias de trabalho poder desembarcar com aquela sensação assim eu fui importante para o meu país porque lá não tem período de carnaval, de natal, dia de finado, dia de vivo, não tem nada disso aqui as pessoas podem estar de folga lá nós estamos trabalhando 24 horas por dia Quer dizer, salvo, lógico, né? Tirar para almoçar, dormir, descansar. Mas, por exemplo, no meu caso, na área de saúde, o profissional de saúde está 24 horas por dia à disposição.
00:05:26 P/1 - O que você atendia lá? O que fazia nos casos? Com o que você trabalhava?
00:05:31 R - Olha, os casos mais comuns na plataforma são doenças do aparelho gastrointestinal, empregados que muitas das vezes, por não ter uma fartura de alimento até nas suas casas, porque a diferença sócio-econômica é muito grande e vem assim de vários locais do país. Então eu chegar lá e ver aquela oferta de comida e anteriormente você tinha café da manhã às sete horas, antes da hora do almoço um lanche onde eram servidos muito salgadinhos, frituras, e com o tempo o setor de saúde foi trabalhando e a gente foi reduzindo esse tipo, essa oferta de comida, né? Então, pessoas assim que comiam demais, aí tem problema azia, diarreia, vômitos, dor de cabeça, mas tudo em decorrência de uma alimentação incorreta. Casos de problemas dentários, Acidentes que o profissional tem que estar apto para prestar os primeiros socorros e muito bem, porque você não tem... Que tipo de acidentes? Acidentes graves. Eu, com um ano e meio de empresa, peguei um evento, um acidente envolvendo 12 empregados ou mais, onde três pessoas estavam gravemente feridas. Queimadura, grande queimado. traumatismo, diversos, por causa de quedas. Graças a Deus há uma redução, mas isso aí é uma realidade dentro da parte de exploração de petróleo.
00:07:12 P/1 - E quanto tempo você ficou embarcada?
00:07:15 R - Durante dez anos.
00:07:17 P/1 - Qual foi o momento mais marcante seu lá dentro?
00:07:21 R - O passagem? São muitas, né? Por exemplo, coisas assim que... Me desculpa, eu sou muito chorona. São momentos, por exemplo, em várias plataformas que eu passei, como o Xerne 2, onde nós fazíamos todo um trabalho social, eventos de samba, de Semana Santa, onde eu procurava trabalhar junto com uma equipe, com várias pessoas que Deus colocou no meu caminho. A gente... Fazia determinados eventos que trabalhava com todo mundo unido, petobrás e contratado. Então, por exemplo, você tinha eventos como samba, festival de poesia, a gravação da rádio Scherne 2 FM, que muitos ainda me encontram no aeroporto e falam assim, e foi uma coisa que me marcou muito, foi depois de dois anos que eu estou em terra. E um companheiro me encontrou no aeroporto e falou pra mim assim, Ilma, aquela sua rádio lá em Sherne 2, me lembrava um filme Bom Dia Vietnã. Você lembra desse filme, Ilma? Eu nunca tinha visto o filme. E ele falou que... Aí ele me conta a história, né? De um radialista, no tempo da guerra, que foi contratado, que era pra divertir os soldados, né? Mas olha o que o camarada associava.
00:08:59 P/1 - Você inventou essa rádio?
00:09:01 R - Foi. Como é que foi?
00:09:02 P/1 - Quem fazia parte dela?
00:09:03 R - Todas as pessoas que estavam embarcadas e que queriam participar. Eu trabalhava minhas 12 horas na enfermaria, depois eu ia para a sala de rádio com uma fitinha lá, uma fita, e chamava, por exemplo, o pessoal da cozinha para fazer a sonoplastia. Então eles escolhiam as músicas que iam tocar junto com a Ana, uma moça da hotelaria, uma recepcionista. Então, por exemplo, a parte de sonoplastia ficava por conta dele, do xerri, da Ana, do Sr. Adilson. E aí eu ia pra sala de rádio, né, e fazia programação, colocava várias coisas, mas assim, tipo, dicas de saúde, de meio ambiente, de segurança. Aí mexia com o pessoal da hotelaria dizer que a nossa Rádio Valar, com o patrocínio do restaurante do Zé Maria, que era o nome do cozinheiro da hotelaria, entendeu? E mexia. Aí eu gravava no dia seguinte, na hora do almoço, colocava aquilo no som. É Rádio Scherne 2 FM. Esse aqui é um pedacinho da... Era mais ou menos assim. Alô, galera de Cherne 2, a nossa rádio entra no ar de novo pra dizer qual é a boa, galerinha. Hoje nós vamos ter na oficina um showzaço, show de pagode, música. Vai lá, galera, participa.
00:10:31 P/1 - Que ótimo!
00:10:32 R - Aí, por exemplo, e Cherne 2, eu falo com muito carinho, mas quero destacar que houve várias unidades, Seife e Jasmina, P26, P21, que deixaram saudades em mim, tá? Mas P22 foi muito especial porque era um berço de talentos. Então, tinha uma turma, inclusive os coplates, que eram os coordenadores da comunidade, que eram jovens. Então, Erval, Fortunato, e aí era o máximo, porque esse povo descia para a oficina, oficina mesmo, lá com com aquelas roldanas, com graxa, com óleo, e tocavam guitarra, violão. Então tinha pessoas que aqui fora mexiam com música. Então eles compravam todos os equipamentos. Então você tinha guitarra, violão, microfone na plataforma. filmadora. Então, por exemplo, essas coisas tudo eram filmadas, depois a gente assistia. Na época, Fortunato, Herval dançavam. Eu, normalmente, ficava assim, na apresentação e dançando. Aí dançava e daqui a pouco tinha um grupo perto de mim dançando. Todo mundo assim, numa boa, fazendo passos coreografados. E aí eu ficava na coreografia e fazendo o elo, né? Então, por exemplo, programa de rádio, quando eu sabia que alguém que embarcou já trabalhou em teatro, em conjunto, já gravou CD, eu convidava para o programa de rádio. Aí eu falava, alô, galera, hoje nós estamos aqui, como se fosse ao vivo, desde que eu gravei, né? Hoje nós estamos aqui com o seu fulano de tal. E deixava o camarada falar, né? Contando quantos discos ele gravou, entendeu? É isso aí. Então, isso aí foi muito legal. E, na realidade, a minha grande escola foi o Seife Jasmine, um hotel flutuante, que a maioria eram empregados de contratado, né? E já trabalhei com 600 homens embarcados, só eu de profissional e só eu de mulher. embarcada numa unidade, e 600 homens embarcados, né? Então era, parecia ter uma serra pelada, porque esse safe jasmine era um hotel flutuante, então ele parava próximo a uma unidade, tinha uma ponte, né, que ligava o safe à plataforma, então pela manhã esses trabalhadores saíam do safe, era um dormitório mesmo, ia pra plataforma, trabalhava, na hora do almoço voltava, pra dormir, pra comer no safe jasmine, a ser atendido na área de saúde, também no Seif Jasmine. E ali foi a minha grande escola. Trabalhei com pessoas incríveis de contratado, pessoal de piranga, que até hoje... como passa? Aí quando eu encontro um outro na rua, eu lembro da senhora de 1900. Abafo caso, não precisa falar a data. Não precisa falar a data, mas é muito legal. Não, porque fala assim de 1900. Nós estamos em 2003. Aí eu lembro da senhora fazendo um briefing, que é uma palestra logo assim que a turma chega, que você fala sobre dicas de saúde, de segurança e tudo mais, que eu falava assim, Na hora que você for se alimentar, coma um prato colorido. E um prato colorido é o quê? É você colocar um tipo de legume, um tipo de fruta, de verdura. Quanto mais colorido, melhor você tá comendo. Não é comer demais. E tem gente que encontra comigo e fala isso. Eu lembro de você em 1900. falando isso. Aí eu acho super legal. E uma coisa que me marcou muito no Safe foi um teatro que eu fiz sobre AIDS e eu coloquei pra essas pessoas que eles fossem elos de educação pra saúde, que eles falassem porque eles ainda estavam tendo acesso à informação e tinha gente que não tem, né? Então que quando eles estivessem jogando na igreja, jogando bola brincando com as suas famílias, que eles falassem do que eles ouviram, né? Dissesse, olha, a AIDS se previne assim e assim assado, a camisinha tem que colocar assim e assim assado, né? Aí eu falava para um público assim, no mínimo, 150 pessoas. Aí depois os meus amigos não entendem porque que eu sou tão espaçosa assim. Aí ela parece uma Carmem Miranda, fala com caras e bocas, mas era aquilo, eu tinha que dar show mesmo. Eu ia fazer um briefing, o mínimo era 150 pessoas. Como é que eu podia entrar lá assim? Boa tarde, eu sou Ioma, técnica de enfermagem. Olha, quando você for almoçar, lave as mãos, não almoça mal. Não dava para ser assim, né? Não dava. O camarada vinha da Bahia, de Sergipe, do Sul, de tudo quanto é lugar. Como é que eu ia falar de AIDS em 1989? Era praticamente um auge da AIDS no nosso país. E falar pra homens que tem que usar camisinha. Eu vou chegar lá falando isso. Aí o que eu fazia? Eu comecei a usar o teatro como ferramenta naquelas ações de saúde. Então comecei a montar peças de teatro, mas o que eu fazia? Eu era diretora. Eu escrevia e dirigia a eles, eles que faziam as peças, entendeu? E todo mundo entendia. Porque depois, quando eu chegava com a teoria, quando eu falava em linfócitos, em glóbulos brancos, soldados de defesa do nosso organismo, aí eles entendiam. Foi quando ela falou, que aí eu contava uma história. Era uma vez, na circulação, não era um nem duas células de defesa, eram milhões. Aí o que eu fazia? Colocava a pessoa que estava me ajudando em cena, com um capacete, com uma máscara, né? Assim, tipo Zé Gotinho, uma coisa bem simples mesmo, uma carinha alegre e ele andando assim como um soldado e eu contando a história. E eis que surge um micro-organismo invasor e botava um com uma máscara de monstro. Vamos ver o que acontece. Aí um que estava com rádio. Atenção, atenção, estamos sendo atacados. Aí aquele que estava para defender ia e tirava o vírus do organismo, do local, né? Aí vamos ver o que acontece no organismo, que a pessoa fuma, cheira cocaína, não come direito, não tem hábitos de higiene, transa hoje com uma, amanhã com outra, ou seja, a pessoa tá largada na vida, né? Eis que surge o micro-organismo invasor, aí surgiu o outro com cara de monstro, né? Aí aquela célula que tinha que estar, o soldado que tinha que falar, já não falava mais, né? Falava, atenção, atenção, né? Aí nisso o vírus chegava, mas nós sabemos que o vírus da AIDS, ele não destrói a célula. Ele usa a parte reprodutora da célula para gerar mais vírus para ele. Então o que eu fazia? Eu usava a figura de um coração vermelho, que mostrava, o vírus mostrava aquele coração, como que ele trocava um lance legal. Rolava um clima entre ele e o soldado. as células de defesa saíam de cena e todos colocavam a máscara de bactéria de vírus quando eles retornavam fazendo uma bagunça aí eu falava assim, o senhor atrás entendeu o que aconteceu? aí ele explicava com as palavras dele aí o outro aqui da frente explicava com as palavras dele quer dizer, quando terminava a explicação e eu entrava e falava assim ó eu vou falar em linfócito, mas não precisa ficar nervoso, não. É só pra quem, quando pegar um livro, lê lá, linfócito, glóbulos brancos, já sabe. Ah, é o soldado de defesa, entendeu? Então, quem tinha condições de ir mais profundo e ir numa leitura, quem não, dava pra entender muito bem. Aí, mas o gancho, Meu irmão, um dos meus irmãos no Rio de Janeiro, certa vez falou pra mim que estava tomando uma cerveja num bar, lá em Padre Miguel. Aí o camarada chegou e começou a falar sobre... Trabalhava embarcado e tinha uma enfermeira que era danada. Porque eles falam assim, né? Eu sou técnica de enfermagem. Mas eles generalizam todo mundo, lá em cima eles chamam a gente de doutora, né? Ela falou assim, olha, tinha uma enfermeira, a mulher era o bicho, ela explicou como é que colocava camisinha na banana, e isso e aquilo, e começou a dizer, né? Tudo que eu falei, ele falando no bar. Aí o meu irmão, pela descrição que ele tava dando, disse que deu uma catucada no camarada e falou assim, escuta aqui, qual o nome dessa enfermeira? Aí quando ele falou Yuma, ele falou assim, ah camarada, você leu, olha, mas você deixou de... de ganhar agora um sopapo se eu estivesse falando mal, porque ela é minha irmã. Aí o cara ficou todo emocionado. Aí meu irmão chegou em casa olhando pra mim assim, mamãe, a senhora tinha que ver como o homem estava falando da Ima. Aí eu me dei conta de como o meu trabalho, o meu trabalho que eu falo, o trabalho dos profissionais na Bacia de Campos, do qual eu muito me orgulho da equipe de saúde, o trabalho pioneiro e o trabalho maravilhoso que a gente faz, a gente muda a cara desse país. Porque essas pessoas estão na bacia de campos, mas quando elas estão de folga, elas voltam para o seu estado, para o seu bairro, para a sua cidade. Diferente, né? Dependendo do que você vai fazer. Então hoje, eu estou trabalhando no Ativo Nordeste SMS, trabalho num escritório, embarco eventualmente para fazer palestras, auditorias nesse sentido, mas ao mesmo tempo dentro do próprio gestão agora desse programa que foi implantado e implementado dentro de segurança, meio ambiente e saúde essas pessoas, esses empregados contratados em Petrobras ao receberem essas informações na Petrobras nas nossas unidades, ao retornarem para os seus estados, para as suas casas, são cidadãos que estão tipo vírus mesmo, eles estão contaminados. Gente, pesa! Depois de você saber toda a questão de aspectos, aspecto e impacto, você acabar de tomar um refrigerante e jogar essa lata no chão. Você acender um cigarro, sabe? E jogar aquela guimba no chão. De você tragar esse cigarro, sabe? E você sabe o que o negócio tá fazendo com você.
00:21:35 P/1 - Eu não adeixo de te perguntar agora, só pra direcionar. É você sindicalizada?
00:21:39 R - Sou. Desde 96. Isso até é fruto do que eu trouxe da PM, né? Porque, veja bem, como é que acontecia. Eu, na PM, eu fazia parte da repressão, né? Então, quando eu cheguei na empresa em 89, eu só me sindicalizei em 96, porque eu não... Não batia essa coisa dentro da minha cabeça de sindicato e empregado, entendeu? Eu era bem sargentona mesmo, bem celibata.
00:22:08 P/1 - E aí você decidiu se sindicalizar por quê?
00:22:11 R - Porque quando eu fui trabalhar offshore, vendo a realidade do trabalhador, me emocionando com as situações nas nossas unidades, vendo a deficiência das empresas, a forma como essas pessoas eram tratadas, Porque algumas vezes é muito cruel, sabe? Aquela coisa do menor... É como se o outro não fosse ser humano, não sentisse dor, não sofresse. E tem toda uma pressão psicológica ali em cima. E aí eu achei... foi necessidade pra mim. Aí também me sindicalizei em 96, mas eu estou realmente atuando, né? Depois que eu vim trabalhar em terra, que eu tive mais acesso às assembleias, de ver a turma aqui na porta. Hoje eu faço parte da direção sindical, né? Em junho de... em 2002, a Chapa 1, a qual eu fiz parte, foi eleita e hoje eu faço parte, sou diretora de saúde do colegiado, ou seja, eu não fiquei dispensada para estar no sindicato. Eu tenho minhas tarefas, minha vida aqui dentro da empresa e duas, três vezes por semana, quando há necessidade, eu vou à sede do sindicato. E lá a gente procura interagir de tudo quanto é forma, intercedendo junto à consciência do trabalhador. Então agora teve um evento do Dia da Muné, foi o primeiro evento lá no sindicato, aqui na Sede Nova, no centro de Macaé, e foi maravilhoso. E porque também que eu e a Conceição, na época, Aceitamos o convite para o estado do sindicato. Foi dito para a gente que o sindicato, o Sindipetro de Macaé, NF, cria uma nova cara para o sindicato, onde a comunidade, os filhos do sindicalizado, a comunidade, a família, os empregados que não são sindicalizados, tivesse uma outra visão do sindicato, não essa coisa, porque eu acho que fica bem arraigado na gente, a coisa assim, sindicato é briga, é paulada, é o sindicalista, sabe, estressado, apavorado, entendeu? E não é assim, os tempos são outros, as pessoas têm que mudar, e quem tem que mudar essa história somos nós, trabalhadores. E eu acho que a minha presença, da Conceição e de tantas outras pessoas que interagem, mesmo os homens que nos convidaram, é porque realmente querem uma mudança. Só que a mudança gera, assim, rever conceitos, rever preconceitos. E nós, como mulheres, temos segurado nossa onda, mas eu acho que faz parte do processo.
00:25:06 P/1 - Como é que foi essa campanha pra Chapa 1? Como foi o convite para você participar?
00:25:13 R - Eu fui convidada tanto pelo pessoal na época da oposição, quanto da situação. E por uma questão de ideologia, do que foi apresentado para mim como proposta, mexeu muito, porque eu acho assim, o sindicato, eu não posso como petroleira, como empregada da Petrobras, olhar só para o meu umbigo. O Sindicato Petro de Macaé, ele está aqui na cidade de Macaé. Eu trabalho na Petrobras, mas eu sou cidadã desse município. Então eu não quero olhar só para o meu umbigo, eu quero melhores salários, tudo para mim, enquanto empregada da Petrobras. E os contratados que estão trabalhando aqui conosco? E a minha cidade? E o absurdo e as coisas que a gente vê acontecendo em todas as esferas, né? O mais simples é o mais complexo, né, cidade? Ah, eu vou me deixar, eu só quero saber de mim? Então a proposta da Chapa 1 na época, né? do pessoal da situação que estavam lá, me agradou mais. Essa coisa da comunidade, de apresentar mudança, de integrar a comunidade, de ter uma rádio comunitária. Aí tudo isso, rádio comunitária! Rebobinei a fita, foi lá e enxergue dois. Eu tô louca pra estar nessa rádio, né? Porque aí vai ter uma abrangência muito maior.
00:26:40 P/1 - Como é que você via a relação? de estar tocando esse projeto Memória dos Trabalhadores em função dos 50 anos de trabalho dos trabalhadores?
00:27:03 R - Eu aplaudo, aplaudo muito, muito, muito a iniciativa. Está de parabéns, estão de parabéns quem teve essa ideia, quem está formalizando, dando forma a isso. Por quê? Porque, na realidade, a Petrobras, né? A Petrobras como uma empresa, ela é uma empresa, por quê? Porque ela tem Pessoas, porque quem é que faz a Petrobras? Somos nós, trabalhadores. Nós, trabalhadores da empresa, da contratada, comunidade, todo mundo. Então, eu tenho muito orgulho, gente. Muito orgulho mesmo de trabalhar na empresa, na Petrobras. Tenho muito orgulho mesmo. Tenho um orgulho porque essa empresa é a maior empresa da América Latina. E isso mexe com a minha cabeça enquanto brasileira. Sabe? Mexe. Então, quando fala-se dessa questão de resgatar a memória, e resgatar a memória de quem? De quem fez essa história? Dos primeiros trabalhadores lá na Bahia, da coisa de quando teve a questão do petróleo, quando o primeiro poço trouxe lá o óleo, as pessoas se sujando no ouro negro. Gente, isso é ideais. Sem história, Sem história, não tem história. E uma história pra ser completa, ela tem que ter atores, ela tem que ter diretores, ela tem que ter o pessoal da sonoplastia, todo mundo, inclusive a plateia, que é o povo brasileiro que eu tenho certeza que, por exemplo, eu tô aqui dentro dessa empresa, eu sei o que que ela é, eu tenho orgulho, agora tem pessoas lá fora que não tem ideia do que que seja. E muita gente Até num... Posso entrar um pouquinho na questão política? Há bem pouco tempo, nesse avanço neoliberal dentro do nosso país, torcia até para que a empresa quebrasse. Torcia até para terceirização, para privatização da Petrobras. Por quê? Porque ele não conhece a história. Então, por exemplo, ele ouve Algumas pessoas, às vezes jogando conversa fiada fora, querendo bancar que são muito, tipo assim, que vivem como verdadeiros marajás, que não tem nada disso, mas então as pessoas, por exemplo, elas falam o que elas querem, algumas pessoas rotulam, ficam com aquele preconceito, ah, que nada, tem mais aqui. privatizar essa empresa, entendeu? Tem mais a que privatizar. E esquecendo que ela é um patrimônio do Brasil, que a partir do momento... E eu, por exemplo, enquanto trabalhadora, e depois que eu desembarquei, eu comecei a fazer auditorias em navios, E, gente, tinha momentos de eu chorar, de eu ir fazer uma auditoria num navio de bandeira holandesa, dentro das águas brasileiras, e é incrível o comportamento do estrangeiro aqui dentro do nosso território e do brasileiro. Entendeu? Então o trabalhador, lembram lá da história do Seif Jasmínia, né? O trabalhador alegre, participando e tudo mais, eles nesse navio, que é uma verdadeira representação do país, né? Essas pessoas ficavam, olha, quietinhas, submissas dentro daquela unidade. A questão do empregado, de nós orientarmos com a relação do capacete, as questões de segurança. E o estrangeiro, sem capacete, sem óculos, ou seja, ninguém me dá ordem, ninguém faz nada disso. E eu olhando aquilo tudo, gente, ó, sabe, dá uma coisa assim dentro da gente, eu que sou assim, sabe, muito emoção, muito... Eu ficava revoltada com uma coisa dessa, tipo assim, como é que pode? A coisa mesmo da língua inglesa chegar aqui, sabe? Nós temos a preocupação, como eu tenho, como todo profissional que quer se manter, se manter preparado, assim, se manter na roda viva aí da vida, eu já entrei num curso de inglês. Mas existe a preocupação de quem tá chegando aqui no nosso país aprender a língua portuguesa? Ao invés de chegar e ficar... E nós brasileiros ficamos com toda uma preocupação de... E ele olhando pra você assim, não faz a mínima questão de Não, eu acho que é legal, não tô sendo radical. Mas eu acho que deveria haver também alguma coisa assim de... de definição mesmo, tipo, vocês não estão vindo trabalhar no Brasil? A língua oficial do Brasil não é o inglês, não é a língua inglesa, é a língua portuguesa. Então, você engenheiro, você técnico que vem para o Brasil, tem que aprender a falar a língua portuguesa. Entendeu? E sim, até haver, porque acaba tendo toda uma integração. Mas de nós não termos, nós como brasileiro não temos essa coisa assim de nos fazermos entender mas falando a língua deles. Eles tem que também falar a nossa língua e tentar nos entender, nos compreender. E isso eu não via na bacia algum tempo atrás. Então tomara Deus mesmo agora com a questão do presidente do Luiz Inácio Lula da Silva e de uma mudança de postura de nós brasileiros mesmo de começar a resgatar esses valores, essa história.
00:32:47 P/1 - Obrigada, hein?
00:32:50 R - Tá bom. Obrigada.
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