Memória Petrobras
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Iassodara Silva
Entrevistado por Ana Laje
Mossoró, 16 de fevereiro de 2005
Código: CB-RNCE-14
Revisado por Letícia Fernandes Farias
P- Bom dia, Iassodara.
R- Bom dia, Ana.
P- Eu gostaria de começar perguntando o seu nome completo, local e data de nascimento.
R- Meu nome é Iassodara Maria Ferreira e Silva, eu nasci em Fortaleza, em 29 de maio de 1965.
P- Conta um pouco como foi o seu ingresso na Petrobras?
R- Eu trabalhava com uma contratada, a Araújo SA, lá na ASFOR, em Fortaleza.
P- ASFOR é o que?
R- É a fábrica de Asfalto, hoje é a Lubnor. E trabalhava nessa contratada e lá dentro, eu fiquei sabendo desse concurso pra instrumentista. Fiz assim sem muita esperança, não sabia nem o que era, nem instrumentação. E passei e fui chamada pra vim pra cá logo, diretamente pra Mossoró.
P- E o que é instrumentação?
R- É a área que é responsável pela parte de calibração de toda instrumentação de grandes máquinas, calibração de instrumentos em geral.
P- Aí você veio pra Mossoró e foi trabalhar na instrumentação?
R- É, já no campo diretamente.
P- Conta pra mim como era o trabalho no campo?
R- A princípio foi muito ruim, porque só existia eu de mulher, né? Então o pessoal até se admirava muito, só tinha homens operadores, então chega causar um certo impacto, né? As instalações não eram apropriadas pra mulher, na época não tinha nem sequer banheiro feminino. E o trabalho em si é muito bom. Eu me identifiquei totalmente com essa parte de instrumentação. Aprendi demais. A Petrobras ela te dá, assim, um espaço enorme pra aprender. Você aprende mesmo, se você quiser você aprende até tudo, se você quiser, né? depende muito de você somente. E o trabalho em si é muito desgastante, porque no campo, aqui por ser uma área muito árida, né, então tem a questão do sol, que é uma questão muito ruim, a questão climática, né? E o...
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Memória Petrobras
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Iassodara Silva
Entrevistado por Ana Laje
Mossoró, 16 de fevereiro de 2005
Código: CB-RNCE-14
Revisado por Letícia Fernandes Farias
P- Bom dia, Iassodara.
R- Bom dia, Ana.
P- Eu gostaria de começar perguntando o seu nome completo, local e data de nascimento.
R- Meu nome é Iassodara Maria Ferreira e Silva, eu nasci em Fortaleza, em 29 de maio de 1965.
P- Conta um pouco como foi o seu ingresso na Petrobras?
R- Eu trabalhava com uma contratada, a Araújo SA, lá na ASFOR, em Fortaleza.
P- ASFOR é o que?
R- É a fábrica de Asfalto, hoje é a Lubnor. E trabalhava nessa contratada e lá dentro, eu fiquei sabendo desse concurso pra instrumentista. Fiz assim sem muita esperança, não sabia nem o que era, nem instrumentação. E passei e fui chamada pra vim pra cá logo, diretamente pra Mossoró.
P- E o que é instrumentação?
R- É a área que é responsável pela parte de calibração de toda instrumentação de grandes máquinas, calibração de instrumentos em geral.
P- Aí você veio pra Mossoró e foi trabalhar na instrumentação?
R- É, já no campo diretamente.
P- Conta pra mim como era o trabalho no campo?
R- A princípio foi muito ruim, porque só existia eu de mulher, né? Então o pessoal até se admirava muito, só tinha homens operadores, então chega causar um certo impacto, né? As instalações não eram apropriadas pra mulher, na época não tinha nem sequer banheiro feminino. E o trabalho em si é muito bom. Eu me identifiquei totalmente com essa parte de instrumentação. Aprendi demais. A Petrobras ela te dá, assim, um espaço enorme pra aprender. Você aprende mesmo, se você quiser você aprende até tudo, se você quiser, né? depende muito de você somente. E o trabalho em si é muito desgastante, porque no campo, aqui por ser uma área muito árida, né, então tem a questão do sol, que é uma questão muito ruim, a questão climática, né? E o fato em si de trabalhar só com homens durante muito...
P- E como é que era isso, os homens tinham algum preconceito?
R- Ah, tinha bastante. No começo, você sequer nem podia falar, né? Aí eu ficava pensando: "Não. Tenho que arrumar uma forma de também ter voz aí. Porque desse jeito, não dá, né?” Então a única forma que eu via era conhecimento. Vou ter que ter conhecimento pra poder saber o que e eu estou fazendo e daí eu ter o reconhecimento. Então foi daí que eu parti, né? Eu comecei, eu aprendi muita coisa, participei de pré-operações, na Área Sul de Mossoró. Eu fui uma pioneira, inclusive, porque eu participei desde de toda a construção, pré-operação e tudo. E hoje a área está aí, enorme e produzindo muito gás, óleo. E isso pra mim é uma satisfação enorme, né?
P- Você trabalhou lá durante quanto tempo?
R- 12 anos. Eu gostava demais de trabalhar no campo, mas eu só saí porque estava já na segunda gravidez, é que, depois de 1 ano, que eu resolvi sair, a pedidos, todo mundo dizia que eu deveria vim, né? E realmente precisava de uma maior atenção, às crianças, mas por mim, eu ainda estaria lá sem problemas. Não que eu não goste de estar aqui. Porque eu na base também, o serviço é ótimo, é com instrumentação, continua sendo, né, que eu não quero sair dessa área, mas no campo eu ainda acho melhor. Muito bom o serviço, é assim extremamente gratificante, você chegar próximo de uma máquina daquela, enorme, que está com um problema. Você chega lá e vai lá e tira o problema. você ver que você dominou a máquina, então isso é, pessoalmente, é assim, tudo. acho que nada se compara a isso.
P- E depois vieram outras mulheres ou só você mesmo.
R- Não. Ainda passou uma lá, 1 ano. Que eu tentei a todo custo ver se eu conseguia convencer de ficar também.
P- Não aguentou?
R- Não, infelizmente não aguentou. Mas eu tentei várias vezes. E eu sentia falta. porque tem coisas que, tem dias que você quer conversar coisas de mulher, né? Não tem como, por melhor que sejam seus amigos homens e tudo, tem coisa que você quer ter uma amiga mulher pra ouvir certas coisas e foi muito difícil.
P- Conta pra mim quais as suas lembranças marcantes da empresa. A minha lembrança mais marcante foi o primeiro dia que eu cheguei aqui e fui pro campo. A gente ia só lá trocar uma garrafa de nitrogênio, lá num determinado vaso separador, lá em Leste de PX, que é uma área...
P- Como?
R- Leste de PX. E a gente estava programado pra ir e voltar antes do almoço, sem problemas. Só que quando chegou lá apareceram vários outros problemas de instrumentação. A gente teve que reparar. A gente acabou ficando até às três da tarde, sem água, sem almoço, sem nada, né? Então quando foi lá pelas três horas, eu disse que não aguentava mais de sede. Que a gente tinha que procurar uma casinha, alguma coisa pra gente tomar água, paramos assim e tinha uma poça de água barrenta mesmo. Aí a gente olhou pra água barrenta, com uma sede tremenda. Aí o meu colega disse: "Não, Iassodara, aí você não vai beber não." Eu digo: "Está bom, eu vou pelo menos lavar as mãos." Lavei, né, a mão naquela água barrenta. Lá na frente a gente achou um casebrezinho de taipa, aí batemos palma, chegamos, apresentamos, mostramos o crachá, falamos o que era, que a gente estava com muita sede, que a gente estava trabalhando, esquecemos de trazer água. Aí a senhora entrou e trouxe. A água idêntica a que estava lá, a mesma cor barrenta. Eu olhei pro meu colega, ele olhou pra mim Aí, fazer o que, a sede que eu estava, acho que eu tomava uns 10 copos daqueles, sem problemas. E tomei satisfeita que só e fomos embora. No caminho ficamos conversando, como é que pode, né? Porque eu ia tomar mesmo da poça, porque a sede que eu tava era insuportável e quando a gente chega na casa era a mesma água, que era a água que ela tinha pra beber, então pronto. Aí aquilo me marcou , acho que foi aquela água ali que fez com que eu ficasse ali tanto tempo. Ainda hoje eu penso: "Meus Deus, deve ter sido aquela água, né?" Porque eu gostar tanto de trabalhar ali, onde muitas pessoas não gostavam. Devido ao trabalho ser muito rude. E as instalações não eram apropriadas pra mulheres na época.
P- Hoje em dia já é?
R- Hoje já.
R- Tem mais outra história que você queira contar.
R- Eu queria falar que eu em 1995 fui escolhida Operária Padrão. Fui Operária Padrão da região. Isso também foi uma honra muito grande.
P- Mas você já trabalhava aqui?
R- Não, lá no campo ainda.Desde setembro de 2003 sou supervisora, sou a primeira supervisora mulher também, da Unidade de Negócios, UN-RNCE. Isso também foi uma honra. E trabalhar na Petrobras é tudo, eu amo essa empresa, eu adoro trabalhar aqui. Jamais pensei em sair e é isso.
P- Vamos mudar um pouco de assunto, você é filiada ao sindicato?
R- Sou.
P- Na sua opinião, quais foram as principais conquistas do sindicato pros empregados?
R- Eu acho que uma conquista grande, eu acho que a segurança do trabalho. Eu acho que ele se preocupa muito com isso. Eu tenho outro fato, que eu estava até comentando ali com Francinaldo, que em 1994, 1995, a gente lá em Riacho, fazendo aquela pré-operação a noite, chovendo, raios, sabe? A estação não tinha para-raio. Tudo no escuro, a gente com refletores lá. Então de qualquer maneira tinha que fazer aquela pré-operação naquela sexta-feira, véspera de carnaval, chovendo, então, hoje isso aí seria inadmissível, com toda a nossa política de segurança da Petrobras, hoje aquilo dali nem pensar uma coisa daquela. Então eu acho o sindicato bate muito nisso aí. Eu acho isso daí assim muito importante.
P- Tem alguma outra conquista que você acha importante?
R- Uma outra conquista, acho que pra mim a mais marcante é essa ai, eu acho que eles batem muito bem nesse ponto e é muito importante pra gente isso daí.
P- Como você vê hoje a relação do sindicato com a empresa,?
R- Hoje está bem melhor, né? Você nota que existe um certo diálogo? Antes era uma verdadeira guerra, né? Até um tempo atrás aí era batalha mesmo. Você notava que a coisa era triste. Então eu acho que com as novas gerências, a mudança de visão e tudo, hoje está um debate mais civilizado. Você nota claramente que está bem civilizado mesmo a coisa, ficou num nível mais racional, digamos assim.
P- Racional...
R- É.
P- Então pra gente encerrar a entrevista, eu queria que você me dissesse o que achou de ter sentado ai, de ter dado o depoimento, de ter participado do projeto memória. Você acha importante, por que?
R- Ah, acho muito importante. Inclusive quando eu fui chamada ontem pela Sheila, ah fiquei nervosa: "Ah meu Deus, o que eu vou falar" Passei a noite pensando, escrevi umas coisas. "Porque, mas o que eu tenho que falar?" "Você chega lá e conversa, fala alguma coisa, conta da tua experiência." "Eu disse: "Ah, então está bom. " Aí Sandra também. Então eu estou achando ótimo, se eu soubesse tinha vindo antes.
P- Quem bom, você disse que tinha escrito algumas coisas, tem mais alguma coisa que você queira falar?
R- Não, acho que foi, resumindo, foi isso aí que eu estava falando.
P- Foi isso?
R- É, fiquei me lembrando de alguns fatos assim.
P- Está, estão eu agradeço pela sua participação.
R- Ok! Obrigada!
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