Projeto Mateiros do Brasil
Entrevista de José Ribamar Pereira de Souza (Ravengar)
Entrevistado por Glaydes Bento Coutinho e Lucas Torigoe
Serra Pelada, 02/08/2025
Entrevista n.º: MAT_HV007
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista e editada por Bruna Oliveira
R - Tudo resolvido, né? Tá legal.
(00:00:43)
P/1 - Vou começar aqui umas perguntas, e aí depois eu passo para a Glaydes, tá bom?
R - Tá bom.
(00:00:48)
P/1 - A primeira pergunta é muito difícil, tá?
R - Para mim, tudo é fácil.
(00:00:52)
P/1 - Vamos ver, ó. Qual é o seu nome completo?
R - José Ribamar Pereira de Souza.
(00:00:57)
P/1 - Que dia o senhor nasceu?
R - Hein?
P/1 - Dia que o senhor nasceu?
R - No dia de 3 de junho de 1959.
P/1 - E que cidade foi?
R - Cidade... No interior de Tuntum (MA).
(00:01:14)
P/1 - E... Me fala uma coisa, como é a família do seu pai?
R - Hein?
P/1 - Como que era a família do seu pai?
R - Pobre, roça, outra coisa não tem.
P/1 - E eles são de onde?
R - Maranhão e Piauí, pai Maranhense, mãe ,Piauí.
(00:01:34)
P/1 - E... Conta mais um pouquinho dos seus avós, quem eram seus avós?
R - Não, eu não conheci os avós, conheci só o nome. Meu avô paterno chama-se Cândido Bernaldo, e a avó materna chama-se Sabina, o resto eu não sei mais. Eu sou o último da família, é difícil saber. Mas tá ligado aqui.
(00:01:57)
P/1 - O senhor tem irmãos, é isso? Irmãs?
R - Tinha um irmão, faleceu, tenho 5 irmãs, uma faleceu, só tenho 4 agora.
P/1 - E o senhor... pode relaxar, viu?
R - Não, tô de boa, tô de boa.
P/1 - Você é o mais novo, é isso?
R - É, o último da família, o mais novo, cinco mulheres e um homem, que é eu, o outro morreu.
P/1 - E como é que é nascer nessa escadinha? Qual é a diferença entre os irmãos?
R - Isso aí eu não sei não, porque o mais novo não sabe de nada. Mas nascendo eu não tô sabendo. Só sei que eu tenho cinco irmãos, um morreu, só tem quatro e o irmão morreu,...
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Entrevista de José Ribamar Pereira de Souza (Ravengar)
Entrevistado por Glaydes Bento Coutinho e Lucas Torigoe
Serra Pelada, 02/08/2025
Entrevista n.º: MAT_HV007
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista e editada por Bruna Oliveira
R - Tudo resolvido, né? Tá legal.
(00:00:43)
P/1 - Vou começar aqui umas perguntas, e aí depois eu passo para a Glaydes, tá bom?
R - Tá bom.
(00:00:48)
P/1 - A primeira pergunta é muito difícil, tá?
R - Para mim, tudo é fácil.
(00:00:52)
P/1 - Vamos ver, ó. Qual é o seu nome completo?
R - José Ribamar Pereira de Souza.
(00:00:57)
P/1 - Que dia o senhor nasceu?
R - Hein?
P/1 - Dia que o senhor nasceu?
R - No dia de 3 de junho de 1959.
P/1 - E que cidade foi?
R - Cidade... No interior de Tuntum (MA).
(00:01:14)
P/1 - E... Me fala uma coisa, como é a família do seu pai?
R - Hein?
P/1 - Como que era a família do seu pai?
R - Pobre, roça, outra coisa não tem.
P/1 - E eles são de onde?
R - Maranhão e Piauí, pai Maranhense, mãe ,Piauí.
(00:01:34)
P/1 - E... Conta mais um pouquinho dos seus avós, quem eram seus avós?
R - Não, eu não conheci os avós, conheci só o nome. Meu avô paterno chama-se Cândido Bernaldo, e a avó materna chama-se Sabina, o resto eu não sei mais. Eu sou o último da família, é difícil saber. Mas tá ligado aqui.
(00:01:57)
P/1 - O senhor tem irmãos, é isso? Irmãs?
R - Tinha um irmão, faleceu, tenho 5 irmãs, uma faleceu, só tenho 4 agora.
P/1 - E o senhor... pode relaxar, viu?
R - Não, tô de boa, tô de boa.
P/1 - Você é o mais novo, é isso?
R - É, o último da família, o mais novo, cinco mulheres e um homem, que é eu, o outro morreu.
P/1 - E como é que é nascer nessa escadinha? Qual é a diferença entre os irmãos?
R - Isso aí eu não sei não, porque o mais novo não sabe de nada. Mas nascendo eu não tô sabendo. Só sei que eu tenho cinco irmãos, um morreu, só tem quatro e o irmão morreu, só tem eu.
(00:02:40)
P/1 - E a família da sua mãe, como que é a família? Você conheceu mais?
R - Não, não conheci, eu sou o último. Só ela falou que era piauiense. Só sei o nome do pai dela e da mãe dos avôs, outros não sei. Porque ela me falava, que eu não conheci nenhum. Ela me falava, né? E eu, como curioso, conheci o nome, né? Até agora nunca acabou.
(00:03:02)
P/1 - E... você sabe como é que seus pais se conheceram?
R - Também não. É porque, o último não sabe de nada, né? Deve ser no forró do interior, morava no interior.
P/1 - Então, o senhor nasceu em Tuntum?
R - Tuntum, Maranhão, município.
(00:03:22)
P/1 - E quais são as primeiras lembranças que você tem da sua vida, assim, você puxar lá atrás?
R - A minha lembrança é pegar um anzol, pegar caralho (peixe) e comer, pescando, matando passarinho de baladeira (estilingue), brincando na floresta com aquelas brincadeiras de criança. É isso aí... Brincando com baladeira, jogando pedra na casa dos vizinhos, que os moleques, sabe como é que é, né? Aí depois pescando, brincando, no interior lá não tem nada, lá não tinha nada, lá é só chapada, caçando pequi, caju e comendo e brincando, pra mim era uma riqueza, hoje pra mim é uma pobreza.
(00:04:03)
P/1 - E o seu pai fazia o quê?
R - Pescando, trabalhando na roça, essas coisas assim.
P/1 - E a sua mãe?
R - Quebrando o coco, tirando o azeite pra nós fritar peixe pra comer, não é bom demais? É só isso aí, pobreza é assim.
(00:04:24)
P/1 - Mas como era a casa de vocês?
R - Casinha velha de palha, colchão de talo de coco, a cama de talo de coco, pronto. Interior é assim, naqueles tempos não tinha nada no interior. Hoje eu estou dormindo em 2 camas boas aí, ainda acho ruim ainda, mas naquele tempo, dormia no chão forrado com palha de coco, rapaz, até é bom, né? [risadinha] é isso aí.
(00:04:50)
P/1 - E você começou a trabalhar cedo?
R - Hein?
P/1 - Você começou a trabalhar cedo?
R - No Maranhão, naquele tempo, o cara trabalhava cedo. Ia pegar abóbora na roça de madrugada pra chegar e o trabalhador fazia comida cedo, cortar arroz, feijão, fazia comida cedo, cedo, cedo, cedo, cedo, viu?
Eu com 12 anos de idade botava selim de roça, palha de arroz, era um jumento... abóbora, melancia. Depois que eu fiquei velho pra cá, pro garimpo aqui, fiquei preguiçoso. No garimpo, o cara quer enriquecer de dia pra noite, não enriquece... Esperando enricar e nada... então agora eu tô assim.
(00:05:33)
P/1 - E quem que ensinou o senhor a trabalhar na terra?
R - O velho, meu pai me ensinava, aí quando ele faleceu, ele deixou aquilo na minha cabeça, e eu aqui! metia a foiçona lá, fazia selim de roça, moleque novo, né? Arroz e abóbora, melancia... aí, minha mãe, minhas irmãs passavam o tempo comendo arroz lá. Ninguém nem comprava, no interior não comprava... Aonde? Não tinha onde comprar, tinha que botar pra trabalhar mesmo. Aí comecei a trabalhar, e aí vim pro garimpo, aí fiquei preguiçoso, não vou mentir não... garimpo, preguiçoso.
P/1 - E o seu pai explicava como?
R - Explicava: “Olha, tem que trabalhar pra quando quiser comer, não ficar pedindo ninguém nem roubar”. Aí quando ele morreu, de meter foice mesmo, eu... Deu certo, né? De uma linha pra um dia, lá dava arroz demais, cê é doido!
(00:06:30)
P/1 - Como é que planta arroz, como é que colhe?
R - Nós plantávamos naquele tempo, quando não tinha máquina, era no Chacho: - Facãozão da cara larga e tchó! tchó! metendo o arroz dentro, mas depois com a enxada, fazia as covas e minhas irmãs botavam o arroz e tampava.
Aí depois apareceu aquela máquina... Tchó, tchó, aligeirou demais, foi melhor com aquelas máquinas de plantar, apareceu as máquinas, melhorou demais, _______ pra num dia, tchó, já fica logo o arroz, tchó, tchó, tchó, de boa, aí arroz demais.
(00:07:07)
P/1 - Vocês criavam bichos também lá?
R - Criava porcos, gado, gado pouco, pobre não cria muito. Pato, galinha, guiné, essas coisas, aí, quando for matar uma guiné, uma galinha e pronto e a farinha, ralava a mandioca no ralo, aquele ralo furado assim, ó, espremia no pano, jogava no panelão lá e torrava, fazia farinha e comia. Não tinha nada, no interior, moço, não tinha nada não. Bombril ninguém usava, era cinza com aquela folha, tem uma folha no mato que é igual a bombril. Interiorzão doido, só escapa quem tem coragem de escapar mesmo.
(00:07:55)
P/1 - E vocês sobreviveram bem lá?
R - Não, bem não, mas... Minhas irmãs eram todas bonitas. Ia para as festas, até os caras brigavam por causa dela, que ela era bonita demais, o feio era eu mesmo. Pois é, ia comprar o vestidinho lá, ia dançar lá e se virava lá, o mais feio sou eu mesmo, da família, o mais feio é eu.
P/2- Quantos anos o senhor tinha quando seu pai faleceu?
R - Eu tinha 12 anos.
(00:08:21)
P/2 - A partir dali, quem tomou conta da família?
R - Eu.
P/2 - O senhor tomava conta?
R - E meu irmão mais velho, [tinha] 10 anos a mais que eu, nós dois.
P/2 - Do que ele faleceu?
R - Meu pai?
P/2 - Sim.
R - Morreu engasgado.
(00:08:35)
P/2 - Pode contar essa história pra nós?
R - Posso, meu pai morreu engasgado com o dedo do Mambira não tem esses bichos do mato do rabão aquele da unhona? aí ele fritou o Mambira e comeu comendo ele, muito gulomido... aí na derradeira enganchou o osso na goela aí morreu mas morreu com 1 ano, engasgado. Chamava para ir para o médico, e ele não ia... só babando, bebia só no canudo assim, até que morreu, o velho era ruim, morreu engasgado.
(00:09:12)
P/2 - O senhor tem mais lembranças com seu pai?
R - Tenho. Estava com 12 anos já. É... João Bernaldo é o nome dele.
P/2 - Qual é a lembrança com seu pai que mais lhe marcou?
R - A lembrança?
(00:09:27)
P/2 - Sim.
R - Uma pisa que ele me deu com a raiz de jaca. Foi a taca que eu... O velho era ruim, ele pegou no braço aqui e ó…
P/2 - E o que o senhor fez para apanhar?
R - Hein?
P/2 - O que o senhor fez para apanhar?
R - Que menino faz? Malino. Mata Guiné, mata pato, quebra prato, esse negócio brabo, eu era maligno, né? Todo menino é assim... Mas nunca neguei, né? Perguntava, (eu dizia) - foi eu que quebrei... Esse dia foi uma taca feia.
(00:09:53)
P/1 - E a sua mãe, qual que era o nome dela?
R - Cecília Pereira de Souza
P/1 - Ela é viva?
R - Não, faleceu tá com uns 20 anos, já, ou mais.
P/1 - Como que era a figura dela?
R - Ela era uma mulher morena clara, não era muito alta, nem baixa. Morreu com os seus setenta e tantos anos. Eu nem vi ela morrendo, porque eu ‘tava’ no garimpo, não sei nem onde ela está sepultada até agora, só notícia, né? Telefone. Pronto.
00:10:28
P/1 - E qual a lembrança que o senhor tem com ela?
R - Com ela? A lembrança que eu tenho é que ela me deu uma pisa com um cipó de Mororó, que eu saí deitado no chão, rolando, com medo, taca, lá foi taca fia...
Aí eu achei que ela não fez muito bom, que ela mandou levar a cachorra pra lavar, a cachorra era brava, eu era criança novinha, não segurei a cachorra, aí a cachorra correu e ela foi e me deu uma lapada, eu lembro tanto isso aí, eu nunca esqueci isso daí, ela não devia ter me batido, a cachorra era grande, eu era criança, não segurava a cachorra, mano, isso aí que eu... mas não tenho raiva dela não, é lembrança isso aí, é que eu tenho lembrança, o mais é tudo é de boa.
Aí quando ela, quando ela me bateu, eu, parece que eu sou meio ruim mesmo, né? Amarrei aquele relógio num caminho, tem um mato assim, eu amarrei. Ela ia com a cabaça d’água e caiu no chão rapaz, eu fiquei com pena, mas foi o jeito. Ela caiu, amarrei o relógio aqui, tem um mato aqui, eu amarrei e ela ia com a cabaça d’água, ela enganchou as pernas e bum! E eu (pensei) - ela já me pagou, essa aí é a lembrança que eu tenho, malino, menino é malino, né?
(00:11:33)
P/1 - E antes de você sair de Tuntum, o que mais você lembra que te marca lá de Tuntum, daquele período?
R - Onde eu saí de Tuntum pra Serra Pelada!
(00:11:43)
P/1 - É, mas antes de ir pra Serra Pelada, o que você guarda desse período aí, desse momento?
R - Minha família ficou chorando, pedindo pra não ir, fui criado na mão, minhas irmãs gostavam de mim demais, ficaram todas chorando, pra ir pra um garimpo desse, sem saber nem onde era... e eu digo: - eu tenho que ir.
Aí ficou irmã, irmão, mãe, sobrinho, sobrinha, tudo me amava não, ainda me ama. Aí eu tive que vazar, digo: - não, tenho que ir.
Aí agora, com muito tempo, me acharam aqui na Serra Pelada, aí o telefone não para, é sobrinha, sobrinha não sei de onde, Estados Unidos, todo lugar tem, (dizem) - vamos pra cá, vem pra cá, (eu digo) - Não vou... Agora mesmo telefonei, agora, falei com elas agora, aí é lembrança aí.
(00:12:36)
P/2 - E como foi sua juventude?
R - Hein?
P/2 - Como foi sua juventude?
R - Jogando bola, comendo pequi, na beira da chapada lá no interior. Só jogando bola. Jogava bola. Eu era goleiro. Goleiro bom, o pessoal me buscava de longe, iam nos carros lá. Jogava bola. Aí... Fim de semana jogava bola. No meio da semana era pescando e brincando, comendo caju na chapada, pegando pequi, brincando, montado em jumento, é só isso aí. Interior é assim.
(00:13:07)
P/1 - Você já torcia para algum time?
R - Não, nesse tempo ninguém... Ninguém se ligava não, é que no tempo do atrasado, né? O time era o que eu jogava mesmo, só isso aí. Tinha time não, agora eu sou Flamengão, depois que eu fiquei mais inteligente, né? Agora eu sou Mengão, sou Mengão.
(00:13:27)
P/1 - E por que você foi ser goleiro? Por que você foi ser goleiro?
R - É porque eu atuava bem na parte de goleiro. Os treinadores treinavam, disse assim: - esse aqui é goleiro. Esse aqui é bom pra goleiro. Aí o povo começou a fazer a fama. Aí começou... A região começou a me olhar e disse: - não, é goleiro, goleiro, goleiro.
Aí começaram... Os outros times contratavam, mas não ganhava nada, não, nesse time não ganhava nada, não, comia só, comia carne de porco lá no dia da festa. Então, isso aí. Hoje, se fosse hoje, eu tava que nem o Neymar! Aí vinha buscar de longe, de carro, minha mãe não deixava.
(Diziam): - Vim buscar seu filho,
(minha mãe respondia): - Pra quê?
(e eles diziam) - Pra pegar bola pra nós...
(e ela falava): - Não, não vai não,
(eles respondiam): - Senhora, esse homem é bom de bola!
(Eu era) moleque, moleque.
(minha mãe dizia): - Mas não vai...
Aí tinha um rapaz que me levava, que é o dono do time lá, se não ser ele, não leva não. Aí ele vinha, é que me levava, né? Só um pião me levava, porque é responsável, né? No meio do time lá.
(00:14:25)
P/1 - E vocês tinham rádio, ouvia futebol, né?
R - Rádio, aquele radinho velho, de anteninha, aquele miudinho assim, aí eu ouvia, eu ouvia isso aí, mas não me ligava. Agora, quando chegou agora, que eu me liguei de ir me informando, nesse tempo ninguém sabia, não, torcia só para nós mesmos.
(00:14:42)
P/1 - E você veio para Serra Pelada direto de Tuntum, é isso?
R - É, no município de Tuntum. Não! Nasci em Tuntum, morei em Grajaú, quando eu vim pra cá eu tava em Grajaú já, no município de Grajaú.
P/1 - E você foi pra Grajaú com que idade mais ou menos?
R - Ah, tava com uns 20 e tantos anos já.
(00:15:02)
P/1 - Grajaú é no Maranhão?
R - É no Maranhão. Aí 27 anos, por aí assim, eu vim pra Serra Pelada, de Grajaú.
(00:15:09)
P/1 - E antes da gente ir pra Grajaú, como é que era a mata lá de Tuntum?
R - Lá é mais chapada. A mata lá é difícil. Se tivesse mato, nós estávamos ricos em rancho. No sertão não dá nada, né? O rancho lá é pouco, plantar legumes não dá. Agora cheguei lá no Grajaú, na mata lá, aí deu ranchinho, aí nós comemos bem. Aí de lá eu vim pra Serra Pelada, de Grajaú.
(00:15:37)
P/1 - Tinha água lá em Grajaú?
R - Água demais, lagoa, córrego e tudo, rio, pegava peixe de canoa, de barco, era bom demais, era perto de Itaipava uma cidade que é meu amor. Nunca fui lá, depois que passou a cidade, mas eu vou lá com fé em Deus, Itaipava, Maranhão, mora um sobrinho meu lá, me chama todo dia: - vamos lá? (eu digo): - Não, eu não vou não.
(00:15:59 )
P/1 - E em Grajaú, em Tuntum, você tinha índio por perto ou não?
R - O índio tinha no Tuntum. Nós passamos uma noite dentro de uma ilha cheia de água, cheia de criança, com a rede armada nas ramas, com medo dos índios que ia atacar o nosso povoado lá. Aí meu pai teve que armar a rede dentro de uns córregos, tava tudo cheio, era cheia né. Amarrava nas ramas assim, a rede das crianças, nós dormindo lá pra noite todinha... Muriçoca! E os índios atacando o pessoal lá, no interior lá, pra não morrer tem que fazer isso, no Tuntum.
Eu era moleque novo, ainda me lembro... Os índios atacaram lá, agora tá manso, tudo manso lá agora. Passamos uma noite, todinha dentro de uma ilha, amarrado nas ramas dos paus, as redes dentro da água correndo assim, ó, aquela cheiona, né? E as muriçocas assim (zumbindo), amarrado nas ramas, que nem cameleão.
P/1 - Tava se escondendo, né?
R - Escondendo, pra não morrer, pô, eles matavam mesmo.
(00:17:03)
P/2 - Por que que eles matavam? Por causa de terra?
R - Eu não sei, naquele tempo os índios eram bravos, né? Agora tá mais manso, agora os índios tão morrendo agora, né? É... medo das flechas, eles tinham umas flechas lá...
O meu pai foi esperar tinha montado em cima do pau lá, amarrou a rede, né? Aí, quando tava trovando, olha no trovado, escutou pisar, disse, - é um veado, pegou a espingarda elevou (e viu que) era um índio, velho, com a flecha, olha o tamanho da flecha... - Ih, meu Deus!
Mas ele tem faro (o índio), chegou no pé do pau, ele sentiu e olhou, meu pai tava lá em cima...
O índio: - Ah, tá aqui, compadre! Vim matar agora, ele pegou a flechona... e meu pai (pensou) morri, morri....
Tum! (o índio lançou a flecha)
A valença dele (meu pai) é que tinha um pau aqui na frente, um lugar de pau, a flecha entrou e ficou balançando, já tava trovando, só tinha uma flecha, se tivesse duas, tinha matado. Aí, o índio pegou as folhas, foi e botou aqui, deitou (como) dizendo: - amanhã eu te mato, meu pai lá morrendo de medo, (pensando): - Se eu descer, o índio me mata, ficou quietinho lá.
Aí, quando foi umas 8h da noite, assuntou...
[O entrevistado interrompe para perguntar: - Tá gravando, tá?]
Assuntou o índio roncar: - Meu Deus! Será que dá pra descer? Ele ficou com medo de descer, né? - Rapaz, se eu descer o índio vai acordar.
Ele demorou um pouquinho, aí escutou uma pisada assim e pensou: - Outro índio tô morto, tem outro índio. (som das pisadas)
E o índio roncando lá embaixo do pau, e ele - Meu Deus, outro índio! (o som da pisada foi se aproximando) aí parou lá, quando parou foi “Pooom”, “Roaaar” [som de rugido de onça] A onça pulou no índio e matou o índio, saiu arrastando, aí (ele ouviu) só o estralo dos ossos [quebrando]. Comeu e lá embaixo, lá num tabuque que tinha assim. Meu pai: - Foi a onça, graças a Deus, meu pai desceu ligeiro e saiu vazando de noite. Correndo pela veredinha, quase não achando a vereda. Aí quando foi de manhã, chamou o pessoal, foram lá... Rapaz, tem um negócio aí, chegaram lá, tava só o bagaço, comeu isso aqui tudo [aponta a região do peito]. Foi a valença dele, ele morria, ele morria. Ele morria, ele morria.
(00:19:17)
P/1 - E conhecia muito dos bichos da floresta?
R - Não, conhecia. Meu pai, ele passava 15 dias no mato, sem farinha, sem sal e sem água, ele cortava aquelas ramas, aí bebia, né? As frutinhas que ele achava, ele comia. Uma vez ele passou 15 dias, minha mãe falou: - tá morto, tá morto já, chamou os vizinhos: - vamos caçar.
Aí quando ia caçar ele, no outro dia, de noite, minha mãe assuntou só [som de algo sendo chupado] - Oxente? No interior, trás de casa lá... ela chorando aqui, ó, pegou a lamparina, né? Alumiando, lumiando... (aparece) meu pai, ó... seco, seco, seco, 15 dias sem comer...
(Minha mãe disse): - João Bernardo que tá fazendo aí? (E ele respondeu): - Chupando uma cana.
Pegou a cana no vizinho lá, morreu de sede e de fome, pegou... Até que ele tava chorando, chupando cana com casca e tudo, morto de fome, meu pai era louco demais, tem isso aí que eu tenho lembrado dele, só isso aí.
(00:20:15)
P/1 - E o senhor fazia isso também? Ia pra mata?
R - Fazia, ainda faço ainda eu faço também, eu faço....
(00:20:23)
P/1 - Você lembra a primeira vez que o senhor entrou na mata fechada assim?
R - Eu era muito novinho, mas me lembro.
P/1 - Como é que foi?
R - Tinha uns cachorros bons de caça, bons de caça, meus cachorros, no interior, lá no Grajaú, eu era moleque novo, pequeninho, minha mãe disse: - meu filho, tu vai sozinho? Lá na mata tem cascavel, tem surucucu, tem tudo.... - Meu filho, cê vai? Eu digo: - eu vou. Sozinho.
Eu peguei os cachorros e saí, uma mata chamada Mata do Jatobá, uma serra muito doida. Lá tinha um cemitério no meio da mata só de botar quem matasse, né? Morria de _____, né? Não, era separado! Morria de _____, era no cemitério, criança é em outro lugar, e morrer de doença é em outro cemitério, 3 cemitérios.
Aí eu peguei os cachorros e saí pro mato lá, no meio da mata lá, matei, os cachorros mataram umas pebas (Tatu-Peba) lá, uma porção de caça lá, eu quase não podia trazer, era pesado demais, era grande, cheguei no cemitério, os cachorros ficaram pra trás chamava, chamava, não veio, - eu vou dormir no cemitério, em cima da sepultura do menino, amigo meu da escola, que ele morreu de congestão, ele morreu, amigo meu de escola, né? Sepultura, ele tava aqui, eu dormi em cima do meu amigo aqui, eu dormi. Peguei o saco, botei aqui, os cachorros eu chamava, não vinha, esperei aqui no cemitério, dentro da mata, cozeirão grande, dentro da mata, dentro da mata, só uma estradinha assim, na beirada; quando eu acordei, os bichos me lambendo, - rapaz, será que é meu amigo que morreu? Meu Deus! Os cachorros chegaram, me lambendo aí. Digo, - vamos embora, aí, no caminho, aí pegaram um peba deste tamanho. Eu peguei a peba e trouxe, minha mãe disse: - rapaz, trouxe um peba vivo! Eu disse: - Peguei agora esse peba aí, vamos matar esse peba, senão amanhã ele vai embora... Eu peguei no rabo do peba, peguei um cacete de quebra-coco e Pá! E o peba não deu um peido? Moço, um peido igual um jumento... Pum! Minha mãe disse, tu é doido? Nunca tinha visto um peba peidar... A lembrança que eu tenho é isso aí, quando eu era moleque novo, né? Ainda hoje eu me lembro, né? Pra dar vontade de sorrir. Mas tem que dizer, né?
(00:22:30)
P/1 - E que outras viagens lá na mata que você lembra bem? Que você gosta de lembrar? Outras expedições que você fez?
R - Nós tava... Nós tinha uma roça no meio da mata, meu pai trabalhava lá e minha mãe mandava levar o almoço pra ele, não era muito longe da casa, mas dentro da mata lá. Quando eu chego lá no barraco lá, meu pai e uma meninazinha, digo: - oxente, que menina é essa? Meu pai, que menina é essa? (Ele responde): - Não sei de nada não, meu filho, chegou um velho da barbona aqui, já bem velhinho, com essa menina aqui, e fez uma linguagem, eu não conhecia a linguagem dele, deixou essa menina aqui e até agora não veio buscar essa menina.
Curuminzinha assim, uma índia, era uma índia desse tamanho assim, eu (disse): - meu pai e aí agora? (E ele respondeu): - Não, não sei não, meu filho, já tá na hora de nós ir embora, tem que levar essa menina, aí ele levou pra casa a menina, a índia, né? Aí chegou em casa, minha mãe: - que menina é essa aí, João Bernardo? Meu pai: -Não, meu filho, o véio deixou essa menina aí e não apareceu e pra não deixar sozinha, trouxe pra cá, e minha mãe (disse): - Vamos criar. Na hora da menina ir lá comer, pense que ela comia? E agora, no mato, oxente, que diabo é isso aqui?
Isso aí é índia, rapaz, sapeca aí, dá pra ela... Ela pegou uma carne velha, ela sapecou e deu pra... a menina... costumava comer coisa... Era índia, era índia.
E a menina tava grandinha e nada, nada, nada, nada, quando foi um dia, chegou um índio lá, conheceu: -É, essa aqui é a filha nossa. Aí meu pai contou a história, eles quiseram matar meu pai, ele contou a história pra eles, não acreditaram. Aí levaram. Já tava grandinha já, índia já, aí levaram de volta. Meu pai: - graças a Deus. Ela já tava comendo normal, comida normal, mas pra comer foi luta, moço, não queria comer não, quando sapecava, ela comia.
Aí a gente soube que mataram... Mataram o velho lá, naquele tempo tinha briga de índio com os brancos, né? Foi triste aí, ó, a criancinha ia morrendo, meu pai salvou ela, alguns índios conheceram e levaram, meu pai falou assim: - não, pode levar, é de vocês aí.
(00:24:52)
P/1 - Como é que era caçar e ir no mato com ele, com seu pai?
R - Não, eu não cacei com meu pai que eu era muito criança, né? Ele ia sozinho, né? Ele ia sozinho.
P/1 - Mas aí lá no Grajaú você começou aí...
R - Não, no Grajaú eu comecei a caçar de cachorro, cachorro, cachorro. Aqui... é lá no Grajaú, no Grajaú, comecei a caçar de cachorro.
(00:25:16)
P/1 - E vocês pegavam plantas, também frutas?
R - Pegava as plantas pra fazer remédio, minha mãe usava uma rama chamada Caninana (Turnera subulata), sofresse qualquer dor, pisava, botava na cachaça e bebia. A minha mãe fazia isso aqui porque ela gostava de cachaça, ela inventava, eu conheci, quando ela queria beber ela falava: - Bernardo, traz a caninana pra mim aí, e o pai trazia aquelas ramas, ela pisava, botava na cachaça, pra beber, a velha gostava, que nem eu também, ela pensava que eu sou besta...
(00:25:48)
P/1 - Mas a canina não serve pra quê?
R - É aquelas dores que dá assim, tem umas dores que dá assim, cruzado, né? Nós chamamos dores de “incrusidade”, que ela “incruza” assim ó, deixa o cara sem fôlego, tipo a pneumonia, mas não é... Mas é bom mesmo, a rama é boa, a gente bota na cachaça, pisa ela e bebe, ela gostava de beber isso aí.
(00:26:10)
P/1 - O que mais vocês colhiam, que vocês pegavam?
R - Oxi (ou uxi-amarelo, Endopleura uchi), o oxi é uma planta boa pra inflamação de mulheres e homens, cura próstata, em mulher, qualquer inflamação, pega a casca, bota na água de molho, aí todo dia bebe uma copada. Inflamação no fígado, em qualquer lugar da pessoa, né? Oxi, Oxi da mata, tem de casca e o da mata? É o da mata, né? Aí nós usávamos isso aí.
E a Copaíba (Copaifera langsdorffii), nós tirava o óleo. Viu? Tivesse com negócio de privação, bebia um pouquinho, passa em corte pra sarar também, é bom.
Aí nós usava também o leite da Mucuíba (Virola Sebifera), o leite da Mucuíba é uma planta que dá em beira de grota, ele é um pau muito grande, você corta ele aqui, apara o leite dele e bota no vidrinho, se você pegar um corte hoje, se não ser muito grande, né? cortinho, você passa aqui, ó mas você jura que está sarado, viu? jura que está sarado, agora você se é forte, tudo bem, tem que costurar, né? só passar o leite aquele lá, prega de boa, tá com gastrite? comeu a comida, está ruim? toma um pouquinho com um pouco de água de boa, de boa, de boa.
Aí nós temos o Mel do Arapuá, aquele que dá uma abelha, que dá no pau, ele é muito valente, né? Tira o mel dele, coloca, mistura com o Saborá (Polen fermentado), que tem o Saborá e tem o mel, mistura, bota no vidrinho, ó, - eu tava quase cego, ó, - tô bonzinho, eu tava quase cego. Eu atirava, não tava matando nada, agora tô enxrgando, olha lá o burro, tá na cabeça, de longe... aí bota no olho, mel de Arapuá.
Aí nós tem também o... Uma fruta, aqui é planta, plantinha, dá no mato também, esqueci o nome da planta... Eu tenho aí, eu tenho aí... A gente pega o fato dela, espreme num pano e bota no olho. Eu tenho aí. Minha vista é boa demais, esqueci o nome... esquecí…
(00:28:28)
P/1 - Que bicho você gosta mais?
R - Bicho pra comer?
P/1 - Não, para comer também, mas você gosta de ver, de ouvir, de se relacionar?
R - Que eu gosto de me relacionar? Isso! Primeiro eu gosto do canto da Arara, eu acho bonito ela comendo açaí. Viu? Uma bichinha daquela ali, eu nem espanto ela, eu fico quietinho para ela não me ver, porque ela é braba... Au! Já vai embora. Eu acho bonito aquilo ali. E os macaquinhos comendo frutos também, eu sou... São muito fodas os macaquinhos comendo frutas, né? Entendeu? O que eu acho mais bonito no mundo também é uma Lambu (Nhambu?) bebendo num córrego. Nossa! Aquelas ___ bebendo num córrego, eu acho bonito demais. Ela faz... Ela é velhaca, fica... Rapaz, muito lindo ali, tu é doido, eu não dou um tiro no bicho daquela, tu é doido, ela é malandra, ela... Com medo dos predadores, nossa! Moço eu fico quietinho até ela ir embora. Deus me livre.
(00:29:29)
P/1 - Você teve algum bicho que era de estimação do senhor?
R - Do mato? Ô comandante teve, teve, senhor. Dá vontade de chorar quando eu falo isso aí.
P/1 - É? Quem que era?
R - O vagabundo tava esperando, no mutá, aí chegou em casa com a mateira. Vagabundo lá, amigo nosso lá, disse: - rapaz eu matei uma mateira (Veado Mateiro), só que ela estava com o filhote, eu digo: - rapaz, pelo amor de Jesus Cristo, não faz um coisa dessa não, (eu perguntei): - Aonde foi? Eu sabia onde era, ele disse: - naquele pé de gameleira, assim, assim.
(Eu falei): - E cadê a materinha? Ele: - Ficou lá.
Digo: - Rapaz, tu é criminoso, moço, vou buscar agora, era grande? (Ele falou): - Não, estava novinha, eu digo: - rapaz, é crime.
Fui lá, peguei a materinha, viu? Trouxe para casa. Lá não tinha gado, era leite de cabra, né? Eu dava uma mamadeira de cabra, a bichona ficou... Olha como é que estava o tamanho da bichona já, ela comia foi de batata. Moço, eu não trabalho não, ia da escola para cuidar dessa bichona. Ela estava grandona, depois eu botei um... Um pano vermelho no pescoço dela e ela ia e voltava, meu pai (disse), - vão matar essa mateira rapaz, ela está indo e voltando, daqui a pouco ela não volta mais não. Aí meu irmão gostava de ir para o mato, aí foi... Esperar os bichos lá, quando ele foi lá, ouviu as pisadas, (levantou) a espingarda e - Olha lá a Materona, é ela, ele falou - mandei embora... Meu pai disse: - nunca mais você vê ela... Nunca mais apareceu, quase choro com essa mateira.
P/1 - Ela tinha nome?
R - Nesse tempo não. Chamava só Veadinha, Veadinha. Minha irmã até falou uma música: - Veadinha corredeira, xô, xô, veada nova. Nesse tempo, Veadinha corredeira era o nome dela, pois é, foi embora, meu irmão só não matou ela... ele era malandro, ele era caçador, morreu já.
(00:31:36)
P/1 - E que bicho que você gosta mais de comer, de caçar?
R - Rapaz, eu não gosto de caçar muito não. Eu gosto de andar no mato para pegar açaí, cupu. Viu? Agora eu digo uma coisa, se eu estou com fome, até sapo eu como. Sou ruim demais, Mucuro, já comi Mucuro no mato, agoniado, você não vai morrer, né?
O negócio de ficar matando bicho pra vender, pra comer... não, eu... Eu estando agoniado, no mato, ninguém vai morrer de fome, pegar um peixinho, se tiver anzol, pego, acho bom no é anzol, né? Pega um carazinho, uma piabinha e come. Agora, no mato eu acho bom mesmo, caçar açaí, cupu, tirar a casca dos paus que as pessoas me encomendam aí... Tem a copaíba, eu queria me lembrar daquela hora aí, a Copaíba, remédio muito bom, é o óleo e a casca, Oxi, muito bom, é um remédio muito bom.
Aí, no meio dessas plantas medicinais, existe uma venenosa que a pessoa tem que ter cuidado. Viu? Que é o leite da Janaúba, aquelas doenças que dá, ficando branca as pessoas, o leite dela cura: Janaúba. Agora tem que saber qual é o leite, se não conhecer, vai matar as pessoas. No meio dessas plantas medicinais, tem umas que é fatal, chama-se o Mata-Menino (Datura stramonium), ele é conhecido por Mata-Menino e o Mata-Calado, né? Lá no Maranhão é o Mata-Menino, aqui é o Mata-Calado, então essa planta, ela é tão perigosa... ela é muito bonitinha, bonitinha, os pauzinhos bonitinhos, a folhinha bonitinha... Aí você tá no mato fazendo um espeto pra assar a carne, ela entra no pau, não tore não... assa a carne, coma, todo mundo olha (morre), só de assar a carne no pau dela e já era, verde, né? A gente tem que ter cuidado.
(00:33:29)
P/2 - Quem foi que lhe ensinou a diferenciar as plantas medicinais?
R - Estudei um livro chamado “Planta Cura, entre folhas de casca e raízes”, desde criança que eu estudo isso aí. É um livro chamado “Planta Cura, entre folhas de casca e raízes”. E além disso aí, eu trabalho com os Mentores de Bezerra de Menezes, ciências ocultas também, isso aí tudo ensina, né? A gente chama os médicos lá e eles ensinam tudo. Com isso aí eu aprendi.
P/1 - Antes de vim pra cá?
R - É.... os “Mentores de Bezerra de Menezes”. Pois é.
(00:34:01 )
P/1 - Quem que deu esse livro pro senhor?
R - Eu peguei do Instituto de Investigação das Linhas Negras. Eu estudei Caravaca, Perpétuo Moderno, Wilson Cipriano, Capa Preta, Livro Proibido, Bruxa Eva, São Marco e São Manso, estudei tudo isso aí, aí a gente vai tirando vai estudando, né?
P/1 - Pegava esses livros e ficava...
R - É, estudando., aí eu fui dedicando e dá certo mesmo, né? viu?
(00:34:42)
P/1 - Qual que é o nome deles?
R - É muitos livros Capa preta, Livro proibido Cipriano, Antigo breviário, Reza de Mandinga e Oração, Seu Marabó, Seu Exu, Seu Oxá, Iemanjá, Lindas Almas, Preto Velho, Umbanda e Quimbanda, é tudo, eu estudei muito; Dr. Eu sou quase doido, é, eu estudei demais, só que eu não mexo, não mexo. ________. Não, eu só sei... Eu sei fazer, mas não trabalho, não trabalho, não trabalho, mas eu sei, sei... Pois é...
Aí o peão teimou comigo: - Eu não acredito nisso aí, não.
Digo: - Não?
Ele: - Não.
Pergunto: - Tenho certeza?
Ele: - Não.
Ele namorava com a menina chamada Duquinha, a coisa mais linda do mundo.
Ele disse: - Eu não acredito.
Eu digo: - rapaz, essa menina é belíssima, se eu quiser, ela namora comigo, eu sei... Ele é bonito, ele é bonitão demais, ele é lindo demais. Eu estou falando que é bonito porque eu sei que ele é bonito, se o cara é bonito, tem que ser bonito. Viu? Eu sou mais bonito do que um macaco, e muito! Tu tem que dizer que o macaco lá é feio, pronto, pois é...
Aí, Ele disse: - duvido.
Eu digo: - tu quer ver? Ela andar atrás de mim mesmo, mesmo sendo uma maravilha?
Ele: - Duvido.
Eu peguei o livrão e fui lá para a encruzilhada e rezei a oração. O nome dela aqui ( no chão), ó no meio em cruz, botei o pé em cima... _______ O nome dele é Duquinha. Diz, Duquinha, com dois eu te vejo, com três eu te ato. Sangue que te bebo, coração que te parto. Teje (esteja) apartada, teje abrandada, hoje por todo dia, por toda tua vida. Assim como Deus abrandou a céu, a terra e ao mar, abrande o teu coração, um mito para mim, tu me amar, me querer bem.
No outro dia, a mulher veio chorando:
- Ah, cadê o Ravinha? me dá, me dá?
Aí eu digo: - olha isso, filhão, e ele chorando: - Cadê minha namorada?
Digo: - Tá aqui, ó...
Só que eu não quis, não quis não, disse: - Vá ficar pra lá com sua namorada, malandro, foi teimando...
É o livro que ensina. Só que eu não trabalho não, não trabalho não. Mas se pintar R$ 200 eu faço uma ______ pra você casar com a filha do Trump, né?
(00:36:41)
P/1 - Você queria só demonstrar, só.
R - É, demonstrar. Só pra demonstrar pra ele. (Ela) vinha atrás de mim, minha irmã dizendo: - tá aqui...
Digo: - Ah, tá? Mande pra lá.
Minha irmã: - Ah, essa menina é bonita.
Digo: - Deixa pra lá, moço...
(00:36:52)
P/1 - Mas alguém começou esse interesse com o senhor ou o senhor foi correndo atrás sozinho?
R - Não, a gente vai estudando, vai conhecendo, aí o cara é curioso, né? É que nem o cara que fuma, chega um cigarro diferente, eu quero saber se é bom. A bebida é diferente? quer saber se é boa. Isso aí vai começando, é uma coisa...
00:37:11
P/1 - E como é que é mexer com essas coisas? É a natureza? É Deus?
R - Não, isso aí eu não sei quem é não. Eu não sei quem é Deus. Eu sei que Deus, ele mexe com a bíblia, né? Viu? Só que a Bíblia Sagrada fala no nome de Satanás, mais do que no nome de Deus, né? Não fala? Só que dizendo que ele é ruim, não que ele é bom, né? Toda hora me fala em Satanás, não fala? Toda hora, mas não é dizendo que ele é bom, né? Aí a pessoa fica confundindo uma coisa com a outra. Viu? Nós temos uma passagem na bíblia, você sabe que o que traiu Deus lá foi o... o... o... Aquele vagabundo, Deus lá, o céu lá, o...
P/1 - O anjo, não é?
R - É, aquele anjo, velho.
P/2 - Lúcifer?
R - Lúcio (Lúcifer)! É seu Lúcio! Ele traiu o Deus lá, não sabe? Sabe que ele expulsou ele de lá. Eu não acredito que ele expulsou, não. Expulsou, não. O seu Lúcio traiu o Deus lá, mas tem uma passagem na Bíblia que diz assim: Satanás traiu... Não, não. Deus, na Bíblia fala assim: Deus aguentou Satanás até muito tempo, nunca tirou ele de sua função. Ainda hoje, a Bíblia fala assim, se o diabo se arrepender... Deus perdoa, né? Deus é bom, né? Pois é, isso aí que é o problema. Traiu ele, mas ainda não deu uma função, nunca tirou de sua função. No dia que o Satanás se arrepender, Deus tem um coração bom. Perdoa ele, né? Olha que homem bom, né? Se fosse eu, não perdoaria não.
(00:39:00)
P/2 - O senhor já viu alguma coisa na mata?
R - Alguma coisa do tipo? Já, já, já, já. Já vi.
P/2 - Como foi?
R - Não, já vi, já vi mortos na mata, já vi mortos, houve um acidente na balsa que eu trabalhava lá, minério do diamante. Eu vigiava 5 balsas mineradoras do diamante, no Tocantins aí, lá pertinho aí. Aí mataram um cidadão lá, amigo meu, muito amigo, amigo, amigo, amigo demais, aí eu vigiava sozinho na hora lá, só que tinha tempo que tinha muita gente, mas tinha tempo que ficava sozinho, era uma ilha, mata, pé de coco, coco assim, de babaçu, uma ilha grande.
Aí me deixaram sozinho uma vez lá e eu fiquei sozinho, aí o cara que mataram, eu fiquei com as roupas dele, com as bolsas, com a redinha dele, pra não jogar na água, o bichinho era meu amigo, né? Aí eu fiquei sozinho, eu fui pro mato, dar uma voltinha pra ver se matava um bicho pra comer, eu tava morrendo de fome, né? De noite, né? Aí deu um vento, querendo chover, digo: - vou pra casa.
Quando eu vou sair na vereda assim, o rapaz tá na minha frente, o rapaz é meu amigo, acostumado _______, nós juntos aí. Falei: - Rapaz, e aí, moço? Não falou não, eu disse: - Moço não morreu, você aí?
Sabe o que ele fez? Ele era forte, precisava ser, ele me jogou lá no outro lado da estrada! Aí eu me zanguei, eu peguei a arma, armei, cheguei lá até, não vi mais ninguém. Rapaz... Eu não tava bêbado, não tava doente não, tava bom, moço, tava caçando... Fui pra casa, nervoso, cheguei lá, tomei um café, sozinho, cachorro demais, né? Aí eu fui, aquela porta e um carpete assim, fazia assim (como cortina). Botei a carabina aqui e fui dormir, aí quando eu me deitei arribaram o carpete, arribou... Quando eu ia, era ele de novo. Digo, meu Deus, moço, tem que matar esse cara de novo. Eu peguei a espingarda, ele soltou o carpete, eu... Os cachorros tudo aqui, cachorro perigoso, tu é doido, moço. Não vi nem um azul... essas 2 vezes. Não tava bêbado, não tava doente, tava normal, tava caçando. Isso aí que eu sei falar dos mortos que eu já vi na mata.
(00:41:17)
P/1 - Já viu alguma visagem também?
R - Já.
P/1 - Do que?
R - Ví uma visagem pesada, eu tava em cima do mutá, sozinho, numa mata muito longe, que hoje eu não vou mais não. Nessa idade que eu tô, eu não vou mais não. Não me garanto mais não. Tava em cima do mutá, já tava na madrugada já.
P/2 - O que é o mutá?
R - A gente faz um trapézio em cima, amarreia (amarra) pra ficar em cima, pro barro não pegar a gente. Dá dois paus aqui, aí amarreia daqui pra tu ficar em cima, pra onça não pular na gente, né? Porque a onça é perigosa. Eu tô lá, já tava quase dormindo, assuntei: Tchá, tchá, e uns gritos, ô, ô, ô.
- Oxê! trazendo gado aqui, hora dessas, dentro da mata, aqui não tem... Não tem nenhuma solta aqui, de gado aqui. Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô... Coloquei a espingarda na perna e fiquei, e lá vem quebradeira, moço! Igual o gado... Digo: - Oxente! Lá e vem, lá vem, lá vem
Joguei a lanterna, olha... vinha anta, vinha veado, vinha caititu, vinha porcão, vinha paca, todo tipo de caça vinha. Aí quando eu olho lá, vem um peãozinho, olha o tamanho (pequeno)! Um neguinho, velho, puxa!
Eu apaguei a lanterna, eu vi aquele neguinho, digo, rapaz... Aí as caças passaram aqui, o neguinho parou e olhou pra cima: - Ei, moço, o que tu faz aí? Digo: - Eu estou esperando o bicho aqui. Sabe o que ele falou? Disse, - olha, arruma outra espingarda. Sua espingarda tá só baleando o bicho, e era mesmo, eu baleava, eu caçava e não matava nada, moço, não matava nada.
(Ele falou): - Tá tudo... olha, isso aí ó, que tá cuidando é eu, olha, só baleia e não mata, olha aí... Rapaz, nessa hora eu fiquei junto, tu é doido, moço, tu é doido... Aí eu digo, - será que eu tô é dormindo? Eu pensei que era um sonho, que eu tava com sonho. Aí eu fechei os olhos assim, rapaz, será que eu tô é dormindo? Pensei que era sonho, pensei que era um sonho. Digo, - não é sonho não, vamos embora, eu até desconfio que pode ser um sonho isso aí, ó. Até desconfio que pode ser um sonho, porque eu não acredito num negócio desse aí. Moço! eu joguei a rede no chão e fui embora de novo, nervoso, nervoso, nervoso.
E o meu pai também sofreu um desse aí, meu pai foi para o mato matar uns porcos. E os porcos, ele matou um porcão. Aí o outro, ele matou 2 porcão, meu pai. Ele me contava, isso aí eu não vi não. Ele me contava que eu era criança, né? Aí, e não posso levar não, não tem onde levar, ele pegou, fez um cofo, (cesta de palha) de palha de coco, né? Aqueles cofos, né? Pequenininho, que só coubesse o porco. Aí botou o porco dentro, pegou um cipó e amarrou. Quase não cabe o porco, né? Um cofo bem pequeno, né? Deixou o outro (porco), daqui a pouco ele buscava, meu filho ia buscar, meu irmão mais velho.
Aí ele pegou o porco e foi nas costas e foi embora, na frente lá veio um neguinho, olha o tamanho do neguinho (pequeno), falou: - Ei, moço, tu vem da onde?
- Venho da mata,
- o que foi o que tu matou?
- Matei um porcão.
- Cadê o outro?
- Tá ali.
- Tu não levou por quê?
- Ah, eu não posso levar.
- Por que tu matou?
- Não, no cofo só cabe isso aqui.
- Não, vem pra cá.
O neguinho falou - Tira aquele olho de palha bem alí,
o pai tirou o olho de palha, né? O neguinho, foi um minuto, fez um cofo, mais pequeno do que o que meu pai fez e botou os 2 porcos dentro, meu pai disse: - como é que cabe, moço? Botou os 2 porcos dentro (entrevistado faz movimento representando a visagem e levantando o Cofo com os 2 porcos e entregando para o pai do entrevistado) e disse: - Vai embora, não bota no chão, só quando chega na sua casa. Meu pai saiu, saiu e o neguinho foi embora. Meu pai disse, - rapaz, esse porco não está aqui não, que naquele cofo maior não cabia não e tem dois porcos aqui... Não cabe, aquele nego me roubou, botou no chão. Quando ele botou no chão, tirou um porco, foi botar o outro e não coube mais, disse: - e agora? Fica de novo, tu não levar. Só o deixou do lado, o neguinho está... Ei, rapaz, cadê o outro porco? Meu pai - Deixei lá.
(O negro disse): - Rapaz, não te falei...
(Meu pai): - Não, mano, eu pensei que...
O negro, disse que arrancou a rama, (o entrevistado faz movimento de chibatada) lá foi taco, olha, passou foi um mês no mastruz também, no mastruz, a taca, mais cheia do mundo, meu pai nunca mais foi pro mato, e existe coisa no mato, assim, existe, existe, existe, existe. Eu já vi, meu pai já viu. Pensei que era mentira dele. Fui lá matar um bicho lá, quando chegou, um tatu passou assim, quando viu a espingarda, o tatu fez assim, ó (movimento unindo as mãos) rezando assim, botando as mãos assim.
- Meu Deus, tatu rezando? vou atirar! Quando fez “Tum”, o tiro foi lá e veio em cima de mim assim, ó, caí no chão desmaiado, tá doido, nunca mais eu faço uma coisa dessa. Tem coisa feia no mato, moço.
(00:45:56)
P/1 - Você acha que foi o Curupira isso aí?
R - Rapaz, eu não sei se tem isso daí não, mas o que eu vejo perto de dizer, eu tenho que falar que é... hum...não pode não, moço! Hum
Nós tava com fome na mata, morto de fome, mortinho, sem comer nada, tinha um jabuti desse tamanho, botei no fogo para nós comer, boto pra sapeca, não tinha tempo de tratar não, fome demais, na brasa lá, fiquemos aqui, irmão, com um companheiro lá. O jabuti começou a inchar assim, ó, começou a inchar, começou a inchar, começou a inchar, eu digo: - rapaz está inchando, vai explodir!
Nós corremos, aí o bicho explodiu: “PUM”... moço, olha, o barraquinho esbagaçou tudo, olha, nós não achamos nem um casco desse jabuti, nem um casco! Fiquemos com a mesma fome, foi botar no fogo e ele começou a inchar assim, ó - Rapaz, tá inchando, vai explodir, nós corremos, o bicho explodiu, pum! Chegamos lá, com vontade de comer pelo menos um pedacinho da perna... Nada, ninguém achou nada. Voltemos morto de fome! digo aí: - tá vendo aí? Toma cuidado, toma cuidado... o mato não é brincadeira não.
(00:47:01)
P/2 - Na água o senhor já viu alguma coisa?
R - Já vi. Já vi, já vi, já vi alguma coisa. Já vi, já vi. Olha, eu durmo aqui, mas a meia noite passo todinha rodando por aí nos córregos aí. Viu?
P/2 - O que foi que o senhor viu? Na água?
R - Minha mãe mandou eu buscar um sabão lá na fonte que ela lavava roupa, um corguinho (corregozinho) lá.
- Meu filho, vou buscar aquele sabão lá, cedinho, tenho que lavar as vasilhas aqui. Antes de truva, né? Aí eu fui, um menino com um badalguinho na mão, brincando, aí eu fui. De longe, cheguei, (ví) a mulher lavando assim o negócio, assim, digo: - Puxa, a mulher tá pelada. Será que tá pelada? Fiquei com medo, né? Criança tinha medo naquele tempo, hoje em dia, não, eles fazem é olhar né? [riso]. Naquele tempo, a gente tinha medo, né? A mulher tava vestida, né? (digo) - (vou) encostar!
Quando eu cheguei perto, quando eu fui falar pra ela, que ela olhou pra mim, ela... ela era um açude fundo, assim, ó (Faz movimento que sinaliza que era muito fundo).
Digo: - oxê, a mulher é doida? (pensei) - Não, ela só mergulhou e daqui a pouco ela levanta, Hum...Truvou, ela não voltou mais.... Digo: - meu Deus!
Eu digo, - mãe, a mulher morreu.
(mãe) - Como assim, menino?
Digo: - A mulher tava banhando naquele poço fundo lá, quando ela me viu, ela caiu na água. Até agora não levantou, não tem mais jeito, pra tá morta, não. Então morreu mesmo, porque lá era fundo, não tinha pra não sair, era fundo, só ia pra cá.
- Eí, meu Deus, então a mulher morreu, moço, bora buscar lá de noite, meu pai foi lá de noite, com um bocado de gente, nada de aboiá (boiar).
- Amanhã não acha a mulher... Então todo mundo arrumou cedinho, caçaram em redor lá e nada.
Aí um velho disse: - não, isso aí é a mãe d'água, é a mãe d'água. Viu? Antes dela pular, ela pegou um negócio aqui, ó. Pegou um negócio e pulou na água, né?
Pois é... Alguém fala de mãe d'água? Tem uns que critica: - Não, isso é lenda. Isso é mentira. Mas quem sabe é quem passa por ela, né? Viu? A minha mãe mandou buscar um sabão lá na fonte, que ela bateu roupa, antes de trovar, né? Quando eu chego lá, vi uma mulher em cima da tabua, pensei que era a vizinha nossa lá.
(00:49:25)
P/2 - E como ela era?
R - Ein?
P/2 - Como ela era?
R - Rapaz, eu não vi que tinha uma parte dentro da água e a outra tava fora na tábua eu não sei como ela era Só pra cá era gente, né? Mas pra cá diz que é peixe, né? Tô sabendo, né? Eu vi uma mulher, bonitona, cabelão, lavando o negócio assim
Aí eu digo: - será que tá pelada? Meu Deus!
Naquele tempo a pessoa tinha medo de ver mulher pelada, as crianças ficavam nervosas, hoje em dia não faz é olhar, né? Pois é, eu vi que a mulher tava vestida, vi uma blusa aqui, eu digo: - não, tá vestida, blusa não, tipo um pano... Eu não conhecia, e eu conhecia todo mundo... digo: - Tá estranho...Vou falar: - ei senhora? Quando eu falei: - ei senhora, Ave Maria, ela “Tchum” na água, só que ela pegou o negócio que tava aqui, ela pegou, caiu na água.
Eu digo: - não, meu Deus, quando ela sair, eu digo: - é eu, sou seu vizinho... Hum... Nunca mais saiu, quase truva, e a mulher não saiu... digo: - morreu! Porque dentro da água ninguém aguenta, né? Fui lá pro meu pai, minha mãe e digo: - olha, tem uma mulher morta lá na água, lá.
Ele: - Que mulher?
- Tem uma mulher que caiu na água, ela não boiou mais nunca.
- Não boiou?
- Não, então tá morta mesmo.
Aí chamaram um bocado de vizinho, foram lá e nada, nada, nada. De manhã, vamos lá... Nada, nada. Aí um velho falou assim: - não, que essa mulher, é o cabelão, não, toda hora ela fica lá, todo dia eu vejo ela lá, essas horas... É a mãe dá água, quando ela pulou, ela não pegou o negócio daqui?
Digo: - Pegou.
Ele disse: - Era o pente, se tu pega aquele pente ali, tu tava rico! Se pegar o pente dela, já era, fica rico, rico.
Digo: - meu Deus. Todo dia ia lá, nunca mais ví, [risos] com vontade de pegar o pente da mãe d'água. Se pegar o pente, fica só minério, rica, rica, rica. Aí, a história da mãe d'água é essa aqui.
Aí tem o pai da Mãe D'água, o marido, que é o Nego Velho, Cabeça de cuia, Cabeça de cuia. É um negro preto, preto, cabelo igual a uma Coité (ou cuieira, cabaça), assim. E o pai chegou lá com aquele negro banhando...
- Que negro é esse? Nunca vi esse negro aqui.
Ele falou: - ei, rapaz! Quando foi, tchum! Na água e nunca subiu, nunca subiu, nunca subiu, nunca subiu, nunca subiu.
Aí o velho (disse), - rapaz, esse é o marido da Mãe D’água, é o negro velho, cabelo de cuia...Viu?
Aí meu pai tinha uma casa lá perto da cidade, lá a beira d'água lá. Meu pai tinha uma filha lá, uma molequinha nova, né? Chegou um rapazinho lá, conversou com ela aí, começou a conversar na calçada lá, começaram a namorar.
Ela perguntava, tu mora ali? Nunca ele falou onde morava e nunca levou ela lá, né? Toda hora eles estavam lá.
Meu pai disse: - rapaz, onde é que esse cara mora?
Ela disse: - Eu pergunto pra ele, ele não me diz onde é, diz que ele mora ali.
Leve... vamos lá, meu pai chamou ele (que disse): - Não... eu moro... Enrolou meu pai. Meu pai: - tá errado, tá errado, tá errado, tá errado, tá errado. Esse cara chega do nada daqui bem da água? daqui ele não vem, vem de onde?
Meu irmão disse, eu vou pesquisar, meu irmão se escondeu, dentro do rio lá, a água ficava aqui, perto da casa. Quando lá vem aquele negócio na água... Era um boto, era um boto, era um boto! Meu irmão se escondido assim, quando saiu, o namorado da minha irmã, dentro da água lá, arrumou uma roupa aqui e entrou: - Boa noite, boa noite, eles começaram a....
Meu irmão falou: - Meu pai, esse cara aí mora nas águas, eu vi o homem da água aí, moço, ele trouxe, saiu da água agora ainda.
Meu pai disse: - Rapaz, é mesmo? Meu pai: - eu vou ficar lá quando ele ir embora, eu vou ver, meu pai escondeu lá pra ver ele ir embora. Eles despediu, tchau, tchau, e ele saiu, e ele, tchuuum, na água.
Era um boto encantado, Boto Encantado, o boto encanta. O boto gosta de mulher. Ser macho gosta de homem. Se é mulher gosta de homem. O boto é desse jeito...
E eu pensava que era brincadeira... entrei numa bucha no Tocantins: Vigiava uma balsa. Cinco balsas mineradoras de diamante. O pessoal tava brincando na balsa lá, trabalhando lá, e eu cheguei lá de canoa, tinha um boto brincando assim. E eu com brincadeira: - Eu vou brincar com esse boto aí agora... o velho falou assim: - rapaz, larga esse boto de mão...
E eu com brincadeira: - Vou namorar com a bota, eu com brincadeira, bebendo pinga, brincando.
- Rapaz, não fala isso aí... Digo: - Vou num barco com a bota e boto lá no meio do rio lá, e eu peguei a canoinha e fui. Ô dona, quando eu cheguei lá, parou tudo, não vi mais nada, - ahhh, vou embora, tão com medo de mim.
Ô, quando eu dei fé: Bubu, bubu, borbulhando embaixo, Buuuuu, só era boto fazendo Tchum! (entrevistado gesticula e sinaliza os botos pulando por cima dele por todos os lados), outro, tchum! Tchum!
Nossa, eu quase morro de medo, e o pessoal, (gritando) vem pra cá ligeiro, moço! Pegaram o barco, me salvaram lá, do boto _____, e eu com brincadeira com o boto, e eu falei, ninguém escutou não. Eu tava longe, eles adivinham, moço, e a mulher estando grávida, aí que ele gosta. Nunca mais eu brinco nas águas com o Boto, o Boto entende mais que nós. Ele não ouviu falar, eu tava longe, o cara falou: - rapaz, o Boto entende, eu não entendi não, o velho conhecia, eu: - vou namorar com essa Boto aí agora, eu fui lá, cheguei lá.
(00:55:10)
P/1 - O Boto ia levar sua irmã, né?
R - Não, o Boto, o Boto namorava com a minha irmã, vai namorando, ele era moço. Eu não sei o que é aquilo não, moço, ele virava em Boto, virava em gente.
P/1 - Ele ia levar a sua irmã pra água, né?
R - Com certeza que ele ia levar ela. Aí depois que descobriram, meu pai correu atrás dele, nunca mais veio, mas ia levar, ia levar... Encantado, lá era boto, se era aqui ele era um cristão, um rapaz bonito, chegava todo molhado: - Não, porque eu fui lá, me molhei ali... Aí meu irmão disse: - rapaz, o negócio tá errado, vou vigiar. Quando ele viu, o moleque veio dentro da água, aí, tchum, tchum, aí saiu fora: - Rapaz... Falando...
(00:55:59)
P/1 - O senhor ouviu a Matita Pereira também, não?
R - Quem?
P/1 - O senhor viu a Matita Pereira também?
R - Não conheço, não
P/1 - Não?
R - O que que é? É das águas ou da mata?
P/1 - É da mata, é a senhora da mata?
R - É, Matinta Pereira?
P/1 - A velha da mata?
R - Devo ter conhecido por outro nome. É tipo uma bruxa, né? Ah, eu conheço aí, mas não é esse nome não.
P/1 - Como é que é o nome que você conhece?
R - Rapaz, eu tô esquecido, mas esse nome aí eu não conheço não. Matinta Pereira. Conheço não, esse nome eu não conheço não.
00:56:32
P/1 - Mas o senhor já viu bruxa já?
R - Não, a bruxa eu já vi. Eu vi uma bruxa. Eu vi uma bruxa.
P/1 - Como é que foi?
R - Eu tava dormindo perto de uma pedra, esperando, a rede armada, viu? Aí, quando eu ouvi quebrar, pisando, pisando, pisando, pisando, eu peguei logo a espingardinha, digo: - rapaz, será que foi a onça? Aí, quando eu joguei a lanterna, vi uma velha do cabelo amarrado, um chapéu florado, sabia meu nome, meu nome não, é apelido, Ravengar.
O que ela dizia?
- Ravengar, Ravengar, agora eu vou te pegar, Ravengar, Ravengar.
Minha dona, deixei a rede, até a espingarda ficou, rapaz! saí doido. Só pode ser essa miséria que tu tá falando aí. Essa bicha é doida, mas é porque eu gostava de andar no mato demais, eu era muito malvado pra mata mesmo. É, eu gostava.
- Ravengar, Ravengar, agora eu vou te pegar...
eu digo: - será que eu tô sonhando? Quando eu vi que não era sonho, vazei, espingarda, facão, lanterna... saí no escuro, batendo meus paus, fui-me embora, aí a estrada tava pertinho assim, fui embora. Quem foi pegar minhas coisas foi um sobrinho meu, buscar a espingarda, tudo, tudo.
Aí minha mãe falou assim: - meu filho, para de andar no mato.
Digo: - Não paro. Não paro mais não.
Aí quando eu vi que tatu rezava, aí eu fiquei doido, rapaz, o tatu rezando! moço. Nunca tinha visto na minha vida um tatu rezando.
(00:58:10)
P/2 - Já teve alguma vez que o senhor quase morreu no mato? Já teve alguma vez que o senhor quase morreu no mato?
R - Uma não. Umas. Umas.
P/2 - Conte um pouco.
R - Umas. Umas. Eu vim da mata. Minha lanterna queimou o Foquite e eu fiquei na beira do rio Tocantins esperando um barco passar pra ir pra casa. Viu? A minha canoa, os pessoal carregaram, uns meninos brincaram, e não achei mais a canoa, fiquei ilhado, aí passou num barco chamado Bajarão, aí eu dei com a mão, o cara parou, tinha uns conhecidos meus, minha valença né?
- Ah, rapaz, porque eu tô ilhado aqui...
Era subindo, tinha que subir, minha viagem era subindo, né?
Aí me deixaram lá no acampamento, eu trabalhava em uma balsa lá, 5 balsas de diamante, aí me levaram. Aí quando eu cheguei no meio do rio, me jogaram dentro da água... Só amigo meu, amigo meu, tinha até uns vizinhos da brincadeira, negócio de viola tocando, de pinga lá.
Aí quando eu deixei, eu tava dentro da água, me jogaram, só que ninguém viu, aí quando eu caí, o barco ia passar por cima, eu me afundei e o barco passou por cima e me cortou aqui, tava mais de palma que torou aqui (o corte), ninguém viu, todo mundo bêbado, né? Foram embora. Subindo pra uma vila, a Vila Belém.
Aí quando chegou lá: - cadê o Ravengar? Ele não tava aí não, não tá aí não. Cadê o Ravengar?
Aí o motorista do barco disse:
- rapaz... eu senti o barco pegou num negócio... Foi ele, foi ele... tá morto, tá morto, tá morto. Muito embaixo, no meio de uma ilha lá, o Rio Tocantins é grande demais, tá doido?
- Ah, então morreu, deixa pra amanhã nós acha.
- Não, vamos agora, vamos agora.
Camisa grande, chinela no pé, e eu em cima d'água, cheio de sangue, sangue, sangue, sangue, tudo cortou aqui, ó, isso aqui (sinaliza o tamanho do corte), ó no rim aqui, ó, aquele negócio do motor, aí (vem) um barco, tuc, tuc, tuc...
- Ó, ele tá ali. Será que é ele? o branco ali, ó, camisa branca, né? É ele, Ravengar, diga aí, ô moço.
- Moço, suba aqui no barco!
e eu: - Subo mais não.
- Tu é doido, de boa, suba, bora.
- Não, subo mais não.
Aí eu tinha uma namoradinha lá, a Ediné, né? A Ediné, né? - Sobe na canoa e te levo. - Não, também não vou não.
- Ah, rapaz que é isso? vai morrer.
- Não, eu vou subindo e nadando, subindo de água assim, furado aqui (o corte no rim).
- Não, vai embora, eu vou com Ediné, ela remando e eu encostado na canoa, ó, nadando, uns 3 quilômetros de água pra cima, até chegar lá.
Chegou lá, todo mundo tá...
- Cadê o cara? Tá vivo, tá vivo?
- Rapaz, não acredito não.
Aí, o pessoal que conhecia o barco, disse:
- não, isso é mentira, ele não caiu do barco.
- Caiu, moço!
- Rapaz, esse barco, se você cair com 4 metros, ele esbagaça qualquer pessoa, ele chama (suga)... Ele é... é o Ekimê.
- Não, mano, cai do barco.
- Então, Jesus te protegeu.
Eu digo: - foi mesmo, na hora que eu caí, pensei - aqui só Jesus, eu vi quando a pessoa me pegou (movimento de afundar alguém na água), ele passou por cima aqui, se pega na Hélice, só o bagaço, só bagaço.
Camisona folgada... tá é doido!
O cara disse: - rapaz, tu confia em Jesus?
- eu confio,
- foi Jesus, esse motor bem aí, se tu caísse com 4 metros pra trás, ele te chupava, deixava só a bagaça, tu caiu na frente?
- na frente,
- então foi Jesus Cristo, foi mesmo.
E saí... vem da mata isso aí, da mata. Entendeu? Foi Deus que me salvou. Deus salva, quando ele quer salvar, ele salva, quando ele não quer ele mata.
P/1 - me conta agora, como é que o Sr. ficou sabendo de Serra Pelada? Como foi a notícia de Serra Pelada? O Sr. estava onde, fazendo o que?
R - Eu tava. Na beira do Rio Grajaú, pescando. Viu?
Lá, só saía pra jogar bola. A mãe da gente não deixava sair pra lugar nenhum, só da roça pro futebol, no fim de semana. Aí surgiu a notícia: - Serra Pelada
- Onde é?
- No Pará, dando muito ouro.
E eu brefado (gíria para estar sem dinheiro, duro), a minha chinela era couro de boi, cortava aqueles couro de boi, marcava assim, aí fazia aquele buraco, botava aquelas solas, metia aqui no pé pra ir pra roça, né? Blefado morto...
Eu digo, eu tenho que pegar o ouro... Aí, endoidei aí. Minha mãe: - meu filho, você nunca viajou pro lugar nenhum,
- Eu vou.
Aí vendi uns carneiros lá. Viu? Senão, mas lá, a viagem lá é grande, eu vendo essa porra aí e eu vou,
Eu vendi os carneiros lá, aí tinha umas pessoas pra ir mais eu também, vizinho lá, eu peguei isso aí e fui.
Serra Pelada, quando cheguei no 30, (KM) disse: - não, tem que ir furando, lá se for por aí o Federal prende, não tem carteira, né? Pegamos uma mata, era uma mata. Não pode beber, dá malária, eu com medo de malária, aqueles córregos né... Ah, pô, tinha medo, dá nada... Aí varemos, até chegar em Serra Pelada.
Quando cheguei, meu amigo! cadê mamãe? ...70 e tantos metros pra subir com o saco de terra, ah, não dou conta não, mas eu era novo, aguentei. Enfrentei, enfrentei, não ganhei nada, mudei de barranco, aí comecei a pegar michariazinha, mas nunca peguei nada de vantagem, aí rolou ouro, todo mundo pegava ouro, quem tinha sorte pegou, né? É por sorte, né? Deus dá pra quem quer, né? E eu até agora não peguei... Peguei michariazinha, eu sou malandro mesmo, gastei dinheiro com mulher no prazer, eu gastei mesmo, se eu tivesse guardado o meu dinheiro, eu tava rico. Mas é aquele negócio, né? Moleque novo naquele tempo lá. Minha foto aí é bonita demais, vocês querem minha foto aí? É bem aí.
(01:04:32)
P/2 - Depois nós vemos.
R - Não, é agora, é bem aí. Tá bem aqui na posição, é bem aí. Era bonito demais, era lindo demais, era novinho, Jesus cuida dele, quando fica velho, acho que é outra pessoa que cuida. Tá bom aqui? Tá bom, filho? Pra onde? Pra cá ou pra cá? Pra cá.
(01:04:58)
P/2 - Pronto. Pode continuar falando.
R - Eu tinha 27 anos, quando vim para o garimpo, entendeu? Criado no interior, sem estudo, sem estudo... Primeira série, sabe? Aí peguei um ouro aqui, não era muito não, mas deu pra curtir, né? Aí, quando eu vi o dinheiro no bolso muito avançado, eu ia botar no banco, carregando mulher casada e mocinha nova. Esse tempo era mocinha, naquele tempo podia, né? Hoje não pode não. A mocinha, que eu digo assim, moça nova, minha idade, né? E agora, acabou o dinheiro, e o velhote ficou blefado, e ficou o velho, viu? Caiu o cabelo, o dente acabou um pouquinho. E agora? E agora o velhinho?
(01:05:50)
P/2 - Você vai ver o que o senhor fez depois do garimpo. Quando acabou o ouro?
R - Fiquei andando nas beiras dos córregos, caçando e pescando, só. Caçando remédio, botando roça por aí, assim... Tenho uma terrinha aí.
(01:06:04)
P/2 - Aí o senhor voltou para a mata de novo?
R - Não, quando parou o garimpo, fiquei na mata direto. Na mata, e na casa, plantando, colhendo, pescando.
(01:06:15)
P/2 - Você ouviu alguma diferença entre a mata daqui, Serra Pelada, e a de Grajaú, onde você morava?
R - Com certeza que lá é sertão e aqui é mata virgem.
P/2 - Qual é a diferença das duas?
R - É porque lá tem mata, carrasco, chapada. E aqui é só mata e outra coisa nada. Aqui é só mata virgem e córrego. Lá tem mata, carrasco, chamam, matinha falhada e chapada.
(01:06:42)
P/2 - Quais são as habilidades que a pessoa precisa ter para ser um mateiro?
R - Primeira habilidade, ele tem o sonho de querer... Querer ficar na mata. Ou querer ir para a cidade. Aí cada um tem suas habilidades, né? A minha mesmo é mata. Tem gente que é rico, tem pai formado em Brasília e gosta da mata. Até escolhe o tráfico, né? Pois é. Cada um tem essa habilidade, né? Pois é. É o sonho da pessoa.
(01:07:26)
P/2 - E o que é que o senhor extraia da mata que o senhor usava, ou da natureza, pra renda pro senhor?
R - Pra renda? Açaí, castanha do Pará, casca de árvore, pra vender pras pessoas, remédios da mata, só isso aí.
P/2 - Como é que o senhor faz a extração?
R - Hein?
P/2 - Como é que o senhor faz a extração desse matéria-prima? Da castanha, por exemplo?
R - Castanha nós colhe o ouriço, corta e traz e vende. E o cupu, ele cai, você leva, tira a polpa, se tiver máquina pra fazer a polpa, faz, senão vende inteiro.
(01:08:02)
P/2 - E o açaí?
R - O açaí é as máquinas aqui, nós passa na máquina, mas nós acaba vende na rua. Vende em casa, em todo lugar. E as cascas de pau, o cara tá: - ei, mas aí, machucou aqui. Eu digo: - tem aqui, ó.
Ó aqui, ó. Eu não sei bem, ó. Tem um osso aí, ó. Atrás da sacola, tem um osso aí. Pega pra mim aí. Atrás. Tem um osso aí.
Isso aqui é o osso pra curar a doença do joelho, entendeu? Eu tava aleijado aqui. Olha, eu tava aleijado aí. Tava aleijado. Viu? Tava aleijado.
Você queima esse osso aqui, ó, bem queimado, aí pisa, bota no vinho, ou na cachaça e bebe. Olha, eu tava aleijado. Aí eu dou um pulo, dou um pulo lá que quebra o pé de cacau. Táva aleijado, fiquei bonzinho. Esse negócio aqui, da cartilagem, aqui vai... Tá acabada. Táva aleijado. Fiquei bonzinho.
(01:09:06)
P/2 - E esse osso é de qual animal?
R - Esse aqui é o osso da capivara. Você quer pegar a banha enganchada no arame. Aí nós pegamos osso pra fazer o remédio, ó. Pra curar o joelho. Pisa ele e bebe no vinho. Tava quase aleijado já.
(01:09:27)
P/2 - O senhor já guiou alguém pela mata?
R - Eu já.
P/2 - Como é que foi? Como é que foi guiar alguém pela mata?
R - Não, que a pessoa não entende bem, a gente vai e explica direitinho. Pra tomar cuidado, pra onde é que anda. Ver um riso ido, vê uma coisa diferente, para pra ver quem é... para não dar bobeira, né?
Olha, um chiado, olha, você está aqui, olha, tem uns cupins na mata que faz tch-tch-tch, você olha, cupim, tem uns cupim, cadê, tch-tch-tch, na folha, né? Mas ele não é cupim, é o rabo de uma serpente, né? Ela faz tch-tch-tch. Ele não é cupim, eu vou pisar em cima, pisa para ver! Toma cuidado, eu estava pescando na beira de um corrego, ouvi o tch-tch-tch, digo: - é cupim, alumiava, mas não ví cupim, digo: Óxente? aí eu tô pescando... tch-tch-tch, digo: - tá errado, peguei a lanterna, fui lá. Sabe o que era? Uma Jararaca que já tava assim ó (Gesticula representando uma serpente de boca aberta, posicionada para dar o bote). Se eu afasto, menos três dedos, ela (pica), se o cara tem experiência diz: - Não vou nessa não...
Tava na barrida, escutei chiar na folha. Digo é... - Deve ser um granguji, né? Alumiei e não ví, aí sai... ouço Tchhh... - hum, não é granguji, não... quando eu levo a lanterna de novo, olha como é que ela vinha (Gesticula mostrando a posição de uma cobra pronta para atacar), uma Pico de Jaca, aquela (cobra) que morde e espora, ela é fatal, pô, já era, lá não dá tempo nem chegar na rancharia, já morre. Olha como é que ela vinha (mostra novamente com as mãos), diga aí meu anjo, é eliminar mesmo, é o jeito, não pode, não pode, se deixar aqui, quando eu vou embora, será lá na frente, ela espera o cara, tem que eliminar, eliminar, eliminar. Pois é, tinha doença na coluna, doente qualquer parte do corpo de osso, né? [Interferência] não corre ninguém. Eu quero saber o que é que tá pegando aí. É polícia? É. Polícia é? não é polícia? Pois é, aqui ó. Você corta isso aqui, você pisa...
(01:11:27)
P/2 - Nas matas daqui de Serra Pelada, o senhor já viu alguma coisa, alguma visagem? Ou alguma dessas visagens o senhor viu aqui?
R - Na mata de Serra Pelada, não.
P/2 - Não?
R - Não vi, não. Fui lá para os Miranda, pra lá. Aqui não.
(01:11:41)
P/2 - O que foi que você ouviu nos Miranda?
R - Eu tô não falando. Eu vi essa bruxa.
P/2 - Essa bruxa foi lá, não foi?
R - E esse tatu rezando por cima de mim, aí eu encabulei. E alguém dizia e eu dizia: - mentira, aí quando eu vi, digo, não é mentira mesmo, não. Agora, não é mentira mesmo, não. E esse bicho que explodiu, esse jabuti que explodiu também lá, foi lá no Miranda. Aqui nunca vi, não.
(01:12:08)
P/2 - E pra alguém que nunca entrou numa mata, como é que o senhor... O que o senhor falaria pra essa pessoa que nunca entrou numa mata?
R - Primeira coisa, ele tem que ir com a pessoa que tem experiência. E siga as normas da pessoa experiente, porque se ele entrar de Caô de cena, vai só se machucar. Entendeu? Olha, na mata tem um bicho que faz... HUuuuuuu, você jura que é uma onça! mas não é onça, é o jacamim, tem gente que sai correndo, deixa tudo com medo. Mas não é o jacamim, o jacamim é um pássaro, um passarinho pretinho.
Você pensa que é um jumento - HUuuuuuu, HUuuuu... se o cabra tiver nervoso e não souber, sai correndo...
Moça, é o jacamim, tem um no caminho lá, sai correndo...
- Que foi?
Ela: - uma onça...
- Não é o jacamim, moça. Calma, calma.
- É mesmo.
Isso aí que é o problema. Andar com pessoas experientes.
P/2 - O senhor consegue diferenciar?
R - Sei.
P/2 - Qual é a diferença do som do jacamim para a da onça?
R - É porque a onça, ela dá o roncado, ela dá o roncado assim, ó. Hu, ho, hu E o jacamim, não? Huuuu, huuuu, huuu, ele demora mais, né? Huuuu, huuuu, huuu, e a onça... Hu, hu, hu, é diferente, não sabe? quando é demorado, não é onça e jacamim.
(01:13:25)
P/2 - Você já ficou perdido dentro da mata?
R - Já, fiquei perdido dentro do Xingu.
01:13:32
P/2 - E o que o senhor fez?
01:13:34
R - Ah, essa aqui vai ser boa. Fui chamado para trabalhar no Xingu, de extrair jaburandi, aquela folha de Jaborandí (Pilocarpus microphyllus) e castelita (Cassiterita?), com uma firma chamada Vegetex. Muitos companheiros meus, lá Butirana (Município do Maranhão), fomos lá, dentro da mata lá, o barracão dentro da mata lá, 9 h de viagem da cidade. Dentro da mata, não tem estrada...na mata, na mata, na mata. Rancharia lá, de boa, todo mundo ficava lá, aí, como eu gosto de caçar, eu digo: - rapaz, eu vou pegar a espingarda e vou caçar.
- Rapaz, isso aqui é perigoso, não pode ir, você não conhece a mata.
- Não, eu vou,
Eu fui, saí cedinho. Ficava todo mundo no barco lá. Um bocado de homem lá. Aí eu saí, saí, saí, saí, saí. Fui voltar... cadê Doninha? Não acertei o barraco, não acertei o barraco, digo: - e agora.?
Rodei, rodei, a fome e sede, fome e sede. E eu com fome, vi uma frutinha assim peluda e eu comi. Comi, Hãaaa... Quando terminei de comer, [R - põe as mãos no pescoço) inchando e baba saindo. [som de vomito e dificuldade para respirar]
- Eu morri, eu morri, agarrava dentro tudo, veneno, veneno... (procurei e bebi) Água, água, babando, babando, aí começou a trovar. Ninguém agora, sem lanterna... Não, tinha lanterna, tinha lanterna, tinha lanterna, tinha lanterna, minha valença.
Aí eu rodei, rodei, entrei num lago com água por aqui (na cintura), jacaré por todo lado, e eu digo: - meu Deus, onde é que eu vou? Rodei, rodei, rodei, e eu digo, nós viemos daqui, do barraco lá, dentro da mata, né? Cheio de bota, peão de bota, né? E veio batido, né?
Digo: - Se eu achar a pisada nossa, eu acho meu barraco. Aí noiteceu, 8h da noite, eu, iluminando, rodando, onça corria, anta corria e onça. É quando eu vi a batida, quando eu vinha pro barraco lá. Peão de bota tu é doido, no inverno é um monte de rastro, né? Eu digo, é aqui, agora eu não sei se é pra cá ou pra cá, se eu souber pra onde tá o barraco, se eu ir pra cá eu me lasco, né? Aí eu digo, tem que andar até eu ver o rastro da bota que é pra cá, né? Aí eu saí, saí, saí, vi o rastro, vi o da bota pra cá, digo: - é pra cá, aí agora, rapaz, fiquei alegre demais. Eu falei: - tu é doido, eu sabia que era pra cá o barraco, veredão de botas, tu é doido?
Aí fui, fui, fui, escutei uns uns tiros - Tum, Tum... Já atirando pra me chamar né? não me chamaram, não me chamaram não. Cheguei perto do barraco, era uma descida assim ó [íngreme] assim, eu parei.
- Rapaz, aquele cara é louco, não, ele está morto, amanhã nós vamos atrás dele lá. Hoje não vem mais não, de noite...
E eu só assuntando, digo:
- rapaz, eu estou vivo aqui.
- Ô, rapaz, tu é doido, moço!
Isso aí foi uma aventura que eu ia morrendo, se eu não acerto com aquela vereda bem ali, vereda não, é só uma picada de botas (pegadas), ninguém cortava nenhum mato, não, se eu não acerto, tava morto. Fome e os índios... Lá tinha índio e pistoleiro. Pistoleiro, porque se entrar as outras terras lá, eles matavam, né?
Aí no outro dia, o patrão dizia:
- moço, não faça coisa dessa mais não, moço, você quase morre...
Digo: - rapaz, não tem perto de morrer mesmo. Se eu ando pro outro lado, táva morto. Mas eu sou cobra criada, digo: - tá pra cá, tem que sair, sai em cima da picada, a minha sorte, ó.
(01:16:55)
P/2 - O senhor acha que em Serra Pelada teria como vir turistas pra conhecer a mata?
R - Tem turista, só não tem... Pode vir turista. Mas só que aqui é uma coisa fraca de condição pra turista vir pra cá. Não tem uma coisa pra eles curtir. Até é vergonha vir turista pra cá.
P/2 - E o que o senhor acha que poderia fazer para melhorar isso?
R - Esses diversos políticos que investissem em cima de nós aqui. Que nós estamos aqui com 40 e tantos anos, viu? Nem nós não somos turistas, aqui nós somos é besta. Paga cooperativa, paga tudo, faz projeto, leva ouro, nós ficamos sem nada. Olha aqui, essa chinela aqui não era pra estar aqui, era pra estar no pé num sapatão aqui.
(01:17:38)
P/2 - Mas dentro da mata, o que seria pra fazer que pudesse levar pessoas?
R - Ah, dentro da mata... Não, na mata já... Já é nossa mansão. Chegando na mata, não precisa de nada não. A mata já tá tudo perfeito.
P/2 - Só de um guia, né?
R - É, só de um guia. A mata já tem tudo, tudo da mata tem. Viu? Só não tem água gelada, os córregos lá, tudo gelado também. Não, a mata já tá... Se depender da mata, não tem mais nada. O negócio é daqui, as condições de ficar na cidade pra nós ir pra lá.
(01:18:09)
P/1 - Seu Ravengar, conta a história do que que o seu nome é Ravengar, seu apelido.
R - Já falei, já falei, né?
P/1 - Você falou?
P/2 - Só lá fora. Pode falar de novo essa história pra nós?
(01:18:19)
R - Meu nome de Ravegar, trabalhei numa usina chamada Usina São Paulo. Meu patrão é de Belém. Não, o Gerente de Belém e o patrão, Marabá, Miguel Acórdes, sargento do Exército. Aí me chamaram pra trabalhar nessa usina aqui, pertinho aqui, bem aqui. Aí... Trabalhando, trabalhando, trabalhando. Aí surgiu uma novela chamada “Que Rei Sou Eu” Aí meu gerente gostava de brincar, dizia, rapaz, tu parece esse Ravengar da “Que Rei Sou Eu” É porque ele é cheio de coisa, cheio de coisa. Querendo ser bruxo. Bruxo, negócio de bruxo, aí com isso aí ele me chamou de Ravengar, o nome dele era Ravengar, “Que Rei Sou Eu”.
Aí tudo me chamava de Ravengá, Ravengá. Rapaz, cheguei na rua lá. Ravengar, Ravengar, viu? Ravengar? É, tu é Ravengar.
Aí ganhei esse nome. Meus parentes telefonavam lá. É o Ravengar? Não, não é meu parente não. É Ravengar teu parente? Não. Aí contavam. Agora tu não é Ravengar. Agora eu falei com minha sobrinha lá, meu sobrinho. Ei, Ravengar. Ah, agora é Ravengar agora? Ribinha, Ribinha de Assis nasceu esse meu nome lá, era goleiro. Aí todo mundo agora me chama de Ravengar, aquela novela.
(01:19:41)
P/2 - E para finalizar, quer dizer, para quase finalizar, como é que o senhor definiria estar dentro da mata para você? Como é estar dentro da mata para você?
R - Perdido?
P/2 - Não, normal.
R - Ah, normal.
(01:19:56)
P/2 - É, como é que é para você?
R - Para mim é o seguinte, eu não estando perdido, eu me sinto em casa. Eu acho melhor quando anoitece.
P/2 - Por quê? Por quê?
R - Porque à noite é mais silêncio. Você assunta até um grilo pisar, né? De dia não, tem um pau caindo, tem um vento. Pode uma onça se aproximar, você não tá nem sabendo. Agora à noite é bom. Se você ver um grito bizarro, você vai saber. Agora de dia é perigoso, você vê o vento... A onça tá pertinho de você, pisando, você não está se assustando. Quebra pra cá, quebra pra cá, você fica doido. Agora quando anoitece, me sinto mais feliz. Fica quietinho, o que pisar, eu tô sabendo que é um bicho, né? Ou pra atacar ou pra mim atacar ele, né? É que é o problema.
Sinto mais feliz quando eu anoiteço. Agora tem gente, que quando anoitece, fica nervoso, vamos embora, vamo embora, vamo embora, eu acho que é bom, quem tem costume. Quem não tem, chora, vem embora. Tem parceiro que eu levo pro mato. Quando é dia, tá de boa. Quando anoiteço, vai embora, vai embora, não aguenta não. Olha, fica com medo, não tem o costume. Pois é, isso aí que é o problema... E eu me sinto mais feliz quando é de noite. Viu? Fica tudo quieto. Só um medo que eu tenho à noite na mata.
(01:21:14)
P/2 - Qual é?
R - Olha, eu não tenho medo de onça. Não tenho medo de cobra. Não tenho medo de nada no mato. Eu posso estar sem espingarda só com a mão. Não tenho medo. Só tenho a coisa que sou nervoso. Vem a tempestade, chuva, trovoada. Aí é homem nervoso.
Se der tempo eu vou para o barraco, se tiver eu vou, se não tiver eu entro na furda, mas eu fico nervoso demais, tu é doido. Meu medo é isso aí... Raio, chuva, tempestade, eu tenho medo.
(01:21:47)
P/2 - Cai muito raio na mata?
R - É que a gente vê, os paus quebrando, a gente fica com medo, né? Aquilo ali é só raio, corisco, chama corisco, né? É raio...
(01:21:55)
P/2 - Qual foi a vez que o senhor passou mais tempo na mata? Quantos dias o senhor passou? Quantos dias o senhor já passou na mata, assim, mais tempo?
R - O mais tempo e o mais medo que eu tive na minha vida, que eu não morri por sorte, Jesus Cristo me livrou, eu fui pra uma mata chamada Paz da Onça. Eu criava um gato, esse gato não me largava pra lugar nenhum. Era longe. Era longe. Era longe. Aí eu fui, arrumei as coisas pra ir pro mato. Tardinha que foi. Quando eu cheguei lá na frente escutei um miado, miau, miau, meu, o gato me acompanhou, gato do meu coração. Eu digo, meu filho, volta, eu vou pra longe, enfim, até espantei ele e voltou. Aí eu fui, mais de quilômetros, que eu olho, e o gato atrás de mim. Digo: - não volto mais não, tem que ir agora, não tem mais jeito... Lá ele ia se perder, ia morrer, né? Bora? bora, dei uma carninha pra ele, bora, bora. Entrei de mata adentro e ele ali atrás, de mata adentro, e ele ali atrás, de mata adentro, e ele ali atrás.
Fiquei no pé de uma serra, achei lá um mutá, um muta lá, num pé de Oxi, botei um plástico assim, e ele de baixo, né? De boa, né? Eu: - tu quer, ficar aqui, tu fica, né? É longe, longe demais.
Aí, Doninha. Quando foi umas horas da noite, começou o relâmpago, Tch, Tch, Tch..., digo: - ei, tô morto, dentro de uma mata cheia de pau, tô doido. E o gato lá de baixo, aí eu vi o vento chegar, o vento chegar. Aí eu ouvi: Trrrrr, trrrrr.
- Hoje eu morro, sozinho, tinha ninguém. Começou a miar, miauuu, digo:- tu fica aí, agora tu tá, agora tu quis, tu quis. E o trovão Trrr, e miau, e o gato, miau. E aí lá vem chuva, trrrr, miau. E vento torcendo o pau, e o pau do mutá fazia assim, ó (balançando forte) digo, vou morrer, vou morrer, chega que clareava, ihhh, hoje é o meu dia... e o gato, miau, miau, querendo subir. Digo - sobe não! Fica aí, moço.
Dona, lá foi o sufoco, o pau que tava aí de amarrado, fazia assim tipo balançando. E o trovão, chega que lareava. Digo, hoje eu morri.
A minha valência que mais tarde parou tudo o meu o gatinho tava embolado lá embaixo__________ tu quer né, assim... Quando chegou de manhãzinha cedo, que eu desatei a rede, que eu joguei, já tava no ponto de viajar. Já tava... Vambora, Vambora, me acompanhou.
Chegou no meio da estrada lá, eu tô pelos Miranda lá, não dá pra fazer nada... [encontrou alguém]
- Rapaz, tu vem de onde?
- Venho do mato.
- Com esse gato?
- Pois é...
- Rapaz, tu é doido.
- Mas é o jeito, ele quis vir...
Nunca mais ele quis me acompanhar. Foi exemplo pra ele. [risos]
(01:24:45)
P/2 - Tem alguma história que o senhor ainda não contou que quer contar?
R - Doninha. A minha vida, se eu contar pra você, você tem que caçar um caderno de 300 matérias. Viu? Porque, olha, a minha história mais pior que eu tenho no mundo, foi quando eu me vi cristão, que eu me senti, sem entender das coisas, de falar de Lampião?
Digo:, - minha mãe, esse homem ainda existe?
- Meu filho, não sei. Uns falam que morreu, O que é?
- Que eu queria brigar com o Lampião. Eu tinha sonho de ser valente.
- Meu filho ouvi falar que já morreu esse homem.
Pô, tu sabia que eu peguei uma rede, botei numa sacola e saí...
- Onde é que é?
- Em Pernambuco.
Pô, eu saí procurando esse homem, sabia? Pra brigar com esse cara. Eu era doido, moleque novo era doido demais. Aí que eu chegava em todo lugar [diziam]
- Não, já morreu, já morreu.
- Não, morreu não. Se eu topasse o cara, eu ia brigar. Ele me matava que eu ia brigar com o cara. Só porque eu soube que ele pegou uma mocinha e esquentou o ferro quente e fez uma cruz na testa, e me zanguei com isso aí, me zanguei, fiquei doido pra conhecer o Lampião, eu ia matar o Lampião.
Posso falar uma historinha com ele aí? Posso?
P/2 - Pode.
R - Posso?
P/2 - Pode
R - Então isso aí que me fez eu procurar o Lampião quando eu soube. Foi até em romance, em verso, né? Ele pegou uma moça, matou os pais e queimou.
Moça, fiquei doido. Aí, para me certificar... Tá gravando?
P/2 - Tá.
R - Então, para me certificar da morte de Lampião,
arrumei meu matulão,
andei para me acabar.
Não escapou um lugar do Brasil ao estrangeiro.
Percorri o mundo inteiro procurando a realeza.
Até que eu tive a certeza da morte do cangaceiro.
Mas andei demais.
Eu andei nas Areias Gordas, Pilão, Sembocas e Macumba,
nas arribeira de Cazumba. Essas eu remexi todas.
Fui nas Vazias das Poldras, fui na Baixa da Folia,
levei uma companhia, deixei no Bico da Pata,
passei nas Brechas da Gata, dormi na Boca da Gia,
fui na Serra do Cambão, Desci na Jumenta Prenha,
manda Chico tomar lenha, no Jene Filipão,
Pindoba de Damião, fica perto da Furada,
lá deixei um camarada,
viajei mais de uma légua, dormi na Baixa da Égua.
A pedra tava lascada.
Lá tem lugar feio. Maré tem lugar feio.
De lá fui na Kizanga,
no Engenho de São Mela,
subi pela Birimbela,
cheguei no chão da Munganga,
três cacete de Zepanga,
que já fica do outro lado,
fui no Cambito Quebrado,
do Rodete do Pinheiro,
e deixei meu companheiro na América do Cevado.
Pra saber de Lampião, qual foi a parada sua?
subi foi nas terras da lua, não sei o que de lá, escanchado num truvão,
Encontrei um ancião, velho, barbado e corcundo,
que vinha do outro mundo, me viu e foi me contando.
Eu vi São Pedro açoitando espírito vagabundo.
Digo, sei lá, era uma sérgima do céu, né?
Chegou no céu lampião, a porta tava fechada,
ele subiu na calçada, ali bateu com a mão,
ninguém prestou atenção.
Ele tornou a bater,
ouviu São Pedro dizer, demora aí quem é?
Tô tomando meu café, depois vou te receber.
São Pedro, depois da janta, gritou por Santa Zulmira,
traz um cigarro caipira, acendeu no de São Ponta,
apertou o nó da manta, vestiu a casaca e veio,
chegou na porta do meio, falou um pouco agastado,
triste do homem empregado.
Então ele chega, apirrei.
Quando vaza tu fala,
Abriu na frente o portão,
ficou na trave escorado, branco da cor do finado,
quando avistou o Lampião.
Sabe aquela do pião?
Que é o Lampião.
Mas com a trave na mão, não tem medo de falar.
Aposenta que é mau,
nessas portas não se dá, Lampião.
Não quer entrar em pau, acha bom se retirar.
Lampião disse que é isso, moleque?
Não me venha com esse assunto.
Você é um santo bruto.
Que ofensa lhe fez eu?
O céu aqui não é seu.
Você aqui é mandado.
Portão está já avisado.
Se não deixar eu entrar.
Vamos experimentar.
Quem é que tem a mão guardada?
Você não entra, servido.
São Pedro lhe disse assim.
Ingresso aqui é ruim.
Desas portas é proibido.
Tu não sabe que tu é bandido?
Roubador da vida humana.
Alma ferida e tirana.
Coração cruel e perverso.
Como é que tu quer um ingresso nessa mansão soberana?
Lampião diz, ó moleque
Pro São Pedro, lá no céu
É certo que eu fui bandido, arvoroso,
estrompo, e voraz.
Porém, quem foi não é mais.
É o mesmo que não ter sido.
Mesmo eu sou garantido,
pelo poeríbus que tenho.
Eu era escrito sobre um desenho, por pessoas elevadas,
o qual digo, águas passadas,
não dão volta em meu engenho.
Não quero estipulação.
Você que nada tem.
Mas é como você também,
respondeu Lampião.
É porque do seu patrão,
você transmite só o mandado.
E eu tenho visto empregado sair do trabalho expulso,
sem direção, sem recurso, por qualquer trabalho errado.
Ah, o São Paulo, estava na quinta, ouvindo a discussão,
apertou o cinturão, botou a faca na cinta,
encontrou o São José Jacinta,
que já vinha no caminho de Santo Agostinho,
retorcendo o bigode.
Reto é que não pode, vou pegar esse cabra sozinho.
Lampião.
Para o oriente de pegar,
desceu um grande corisco jogado por São Francisco
da porta do quinto andar, no temendo rebombar,
o trovão também desceu, o espaço escureceu,
veio um forte pé de vento.
Lampião nesse momento ali desapareceu,
mexeu com o santo e já era.
Os homens lá são perigosos,
lá não adianta,
aquele brigado no céu já foi, desapareceu.
Para o oriente de pegar, desceu um grande...
Ia terminar, ia terminar,
isso que é o bom cabeçalho.
Poeta, eu tenho liberdade,
o sagrado dom da natura
conforme a literatura,
escrevo o que eu tenho vontade,
também as propriedades,
é preciso dono ter,
pelo menos eu vou dizer,
se meu espírito não mente,
poeta também a gente,
preciso comer,
precisa fazer comida,
meu anjo.
(01:30:44)
P/2 - Ravengar.
R - Eu sou do sertão, do Maranhão, tá com 40 e tantos anos que eu saí do meu sertão do Maranhão, deixei minha filha, tudo lá, nunca pisei no meu... Você tá gravando?
P/2 - Sim.
R - Já? Eu nasci no sertão do Maranhão,
Tá com 40 e tantos anos, nunca pisei mais lá.
Tô aqui degradado, nesse garimpo Serra Pelada,
que até agora ninguém viu nada.
Mas a minha alma, ainda hoje, triste suspira.
A minha alma triste suspira, num deslumbrante desejo.
Eu choro por minha terra, há tempo que eu não vejo.
Só um suspiro arrancado do peito desse sertanejo.
Eu morro e não me esqueço,
Dei tudo que encerra aquela santa Terra,
Meu sagrado berço,
Meu sertão de apreço,
Solo abençoado.
Hoje eu vivo desterrado,
Me vejo proscrito, arrancando um grito no peito cansado
Deslumbra o alma que vejo,
Aqueles grandes Arrabal onde a brisa fresca e mansa
Bafeja o raio do sol
Pelas biqueiras da casa canta alegre o rouxinol
Lá as manhãs são saudosas as horas de amores,
quando os beija-flores, com asas garbosas, com pedra lustrosa,
vêm se ponderando e examinando,
vêm-se comará, ou maracujá até aguflorando.
As tardes lá são tão belas,
chama tudo a atenção,
que embranquece de momentos o mais duro coração.
Não há quem conta no mundo que nunca foi no meu sertão,
que nunca passou pelo Seridó,
pelo Caicó, nunca viajou, não saboreou o mel da abelha.
Um desses nasceu em hora esquecida, passou pela vida, porém não viveu.
Aquela terra de amor do meu coração não sai.
Visito sempre por sonho, à noite minha alma vai.
Vê a terra onde primeiro chamei mamãe e papai, onde que é bom.
Não posso deixar de cantar minha terra
De lá uma serra, não deixo passar
Meu amor, meu lar, meu bem, meu prazer
Pareca a viver, tando ausente dela
Eu olhando ela queria morrer
Ali nas noites de lua
As crianças no terreiro correndo descalço e nua, sabe né?
Filtrando os ninhos voeiros na mente que a lua vem, na senda atrás do zoiteiro.
Os meninos elevados em noite de glória, os pais contem histórias
dos séculos passados, príncipe encantado, fortuna dobrada, de reino de outra hora, até ver na hora que bate a coalhada do leite, que é bom, né?
Muitas dessas belas noites.
Passei, então, descansado, quando ainda era um sonho, a noite muito dourada,
O dia campo com flores e a noite berço enfeitado.
Não posso deixar de cantar minha terra.
De lá uma serra, não deixo passar, meu amor, meu lar, meu bem, meu prazer.
Parei aquele ver, estando ao centro dela, eu olhando ela queria morrer.
Ah, meu amigo, lá vindo descansado.
De agosto pra setembro.
Broca logo assim o roçado.
Toca esse fogo em novembro.
Fica esperando tu voar de dezembro, né?
Pra plantar, né?
Quando na espera do inverno estamos, de manhã olhamos para a atmosfera,
vemos na esfera o tempo mudado, o sol diferente,
já pelo nascente nevoeiro armado.
Na chuva, né?
O sol nasce muito branco e o vento desaparece.
De noite da lua dá ciclo.
O nascente escurece.
Os gado andam no campo.
E o chão da fazenda umedece a chuva.
Sangue aos nevoeiros. O chão se alagando.
As águas arrastando puindo os oiteiros,
buscando o ribeiro, para eles unir,
como ele extrair do céu um tesouro.
Esse rio de ouro faz tudo rir.
Aqui é do pensamento, aqui.
Chove, por exemplo, e hoje, eis o festim do agreste.
Canta o sapo na lagoa, o passarinho no campeste,
cupim, cria asa e voa, não é?
Um pouco mato se veste.
Flora o camará,
E ramou Pereira, Malva, Candoeira, Cancão, Trapiá,
Mofumbingá, Anji, Caroeira, Flora Caibeira e a Caatinga de Porco.
Demora um pouco, sem mais um cheiro.
Com a chegada da chuva os passarinhos folia.
Quando chove, né?
Com a chegada da chuva o passarinho folia
Parece de vestir para festejar um dia
É uma creche sublime, minha, festeja mais poesia
Os guriatões e os curió
No rio socão e as jaçanã
As maracanã, as meraquireira
Teteu levandeira, sals pirelâmpa
Os podos no campo formando carreira
O bode correndo, correndo os garrotes
Um dos filhotes a ponta molando
Cabrito saltando pelos tabuleiros
Desde os oiteiros às cavaparidas
São torcida para os padres chiqueiros aí para trás.
Isso aqui é muito bom, e quem sabe é eu.
Minha garganta já está ficando seca,
eu quero tomar uma bicha braba.
(01:36:08)
P/2 - O senhor tem algum...
R - Eu tenho muito, eu tenho muita coisa aí.
(01:36:10)
P/2 - Serra Pelada?
R - Hã?
P/2 - Serra pelada?
R -Só das moças, Serra Pelada.
(01:36:14)
P/2 - Fala aí pra nós.
R - Não, não posso não. Essa aqui é uma coisa... Ah, sim? É uma coisa... Entendi.
(01:36:19)
P/1 - Esse é misterioso.
R - É, os meninos gostam de... Não, eu gosto de brincar. No grupo de nós lá.
P/2 - Sim, sim.
R -
As moças em Serra Pelada, elas não sabem o que fazer.
Namora 5 rapazes.
Tem que vir e saber.
Lá tem um balneário.
Põe o balneário, tomar cerveja e beber aquele negócio aí.
Eles gostam. Eles gostam.
Lá, lá na faixa. Um moço lá. Aqui não faz um vídeo aí.
Nós somos loucos demais aqui.
O moleque me chama pra todo lugar.
Pra pescar e pra fazer fofoca.
(01:36:41)
P/2 - Ravengar?
R - Não, tô de boa.
P/2 - Como é que foi contar a sua história?
R - Hã?
(01:36:45)
P/2 - Como é que foi contar a sua história pra nós?
R - Como é que foi? É. Primeiro que vocês chegaram querendo saber e quem sabe é eu, e distribui tudo. E se quiser mais, tem mais ainda. Viu? Viu?
Do céu à terra.
Se você perguntar do céu à terra eu conheço.
Eu conheço o céu, a terra e as cavernas mais profundas.
Dei exemplo no Amazonas, que eu estremei com o Pará, o Pará com o Maranhão, Piauí com o Ceará.
E assim tem um, tem mais outro.
Eu duvido de lá.
Se você sair daqui, pretendendo viajar até o Rio de Janeiro, não querendo passar no Mar, eu te ensino todo o caminho.
Vai ter que se fechar, sai daqui.
Do Assum ao Mossoró, eu conheço tudo.
Conheço tudo.
Do céu a terra e as cavernas mais profundas.
(01:37:24)
P/2 - Pois muito obrigada.
R - Não, eu era bruxo antigamente. Agora eu parei. Eu era bruxo. Conhecia tudo. Não, vocês quiseram isso aí ou disso?
P/2 - Não, não.
P/1 - Não.
R - Eu não sou bruxo, mas eu estudei sobre bruxo, né? Bruxo é o seguinte, se você... É tipo uma seita, né? Você quer ser um crente, você vai lá e... Católico vai lá na igreja. Quer ser bruxo, se liga na bruxaria, por aí que é o problema, né? Bruxaria.
(01:37:58)
P/1 - E o bruxo mexeu?
R - Não, eu já fui bruxo uma vez. Já fui bruxo. Fui bruxo.
(01:38:02)
P/1 - E faz o quê?
R - Hein?
P/1 - O que que faz?
R - É, é, é... Reza pesada.
(01:38:07 )
P/2 - Olha, olha... E essas rezas servem pra quê?
R - A reza... A reza é o seguinte, você reza uma oração braba, que eu tenho um livro do... do Carto manso, do... dos antigos breviários. Olha, se você reza a oração na mulher, ela pode ser a mulher do Lula, vem bater na minha casa aqui. Bate aí. Rebenta a porta. A oração braba. É a oração da Beata Catarina. Viu? Aí tem a caba peita milagrosa. Eu era. Eu parei. Só fiz uma vez, porque ele estava teimando comigo. Teimou comigo, eu fiz. Mas não quero não.
(01:38:39)
P/2 - Tem reza pra curar?
R - Hein?
P/2 - Tem reza pra curar?
R - Curar o quê?
P/2 - Curar alguém.
R - Ah, claro que tem.
P/2 - Curar ferida.
R - Ferida. Viu?
(01:38:48)
P/2 - Tem alguma reza pra...
R - Eu tenho uma reza pra não embriagar. Eu tenho uma reza pra não embriagar.
(01:38:55)
P/1 - Como é que é essa reza?
R - É só não beber.
P/1 - Valeu, Ravengar!
[Fim da Entrevista]
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