Projeto Memórias do Desenvolvimento Solidário
Entrevista de Jamira Alves Muniz
Entrevistado por Bruna Oliveira (P/1) e Marcelo Justo (P/2) e Sofia Petro (P/3)
São Paulo e Salvador, 09/05/2026
Entrevista n.º: MDS_HV004
Realizado por Museu da Pessoa
Transcrito por Selma Paiva
Revisado por Bruna Oliveira
(00:00:23) P/1 - Jamira, para começar eu queria que você contasse o seu nome completo, a data e onde você nasceu.
R - Meu nome é Jamira Alves Muniz, nasci em Itiúba, Bahia, em 1º de julho de 1963.
(00:00:46) P/1 - E me conta qual é o nome dos seus pais.
R - José Marcelino Muniz e Maria da Conceição Alves, ambos falecidos.
(00:00:59) P/1 - E com o que eles trabalhavam, você sabe?
R - Como? Não entendi a pergunta.
(00:01:08) P/1 - Com o que seus pais trabalhavam?
R - Meu pai era ferroviário da Leste, na época, e minha mãe, [era] lavadeira.
(00:01:22) P/1 - E como você os descreveria? Como eles se conheceram?
R - Eu não me lembro muito, porque a conversa sobre eles era muito difícil. Primeiro que meu pai tinha outra família. Então, minha mãe quase não falava muito dele e eu só sei dizer que ele foi uma pessoa que perdeu os dois dedos no trem, na linha do trem e ficou afastado, depois retornou, como ele gostava muito de trabalhar. Então, muita informação sobre como eles se encontraram, como foi que aconteceu para morar junto ou casar, não sei. Mas só sei dizer que, aparentemente, meu pai foi uma pessoa que não era muito estável com ninguém, entendeu?
(00:02:23) P/1 - E a sua mãe, como é que era?
R - A minha mãe era uma pessoa muito calada, mas fazia mais ações do que falava. E sempre lavou roupa de ganho, sempre protegeu e, ao mesmo tempo que protegia, ela queria o máximo melhor para a gente, que ela achava que não ia dar. Ela pensava que o melhor para a gente seria morar com alguém que tivesse condições de criar, que ela não tinha.
(00:02:59) P/1 - E isso chegou a acontecer, ou não?
R - Várias vezes. Primeiro comigo, minha irmã não. Minha irmã decidiu, aos quinze anos, ir embora. Eu estava com sete, por aí e ela decidiu, com quinze anos, acompanhar uma moça que ia para São Paulo, que era amiga de minha mãe e foi embora, de vez mesmo. Levou cinquenta anos fora, entendeu? E minha mãe tentou, eu já com oito, nove anos, com uma moça que tinha uma filha, única filha e que essa filha, toda vez que minha mãe ia lavar roupa na casa dela, eu ia para lá, para conversar com ela, brincar com ela. E a mulher, a senhora se interessou em me levar para fazer companhia à filha dela, porque achou que eu tinha amadurecimento, que era uma menina diferente, educada e que tinha um referencial muito forte e poderia ajudar a filha dela, que ia para os Estados Unidos. E aí minha mãe não me disse nada, me levou para onde? Para a ideia de que eu ia morar com ela, de que eu ia viajar, que eu ia ser feliz, que um dia eu ia voltar, diferente, pá, pá, pá. E que ela não sabia onde era direito, mas que a moça sabia. Tentou até me levar, viu? Levou, conversou e eu perguntava à menina, a menina começou a me dizer. E aí eu disse: “Eu não quero ir”. Aí minha mãe: “Não, mas é necessário, você vai ser feliz, a moça disse que você é uma menina muito inteligente, que você vai estudar”. Eu disse: “Oxe, estudar em um lugar que eu não conheço? Eu não estudo aqui, que está perto? Eu estou na banca ainda, imagine fora” “E aí, por isso mesmo que você vai para a escola”. Aí aconteceu uma noite, aí ela foi comigo, me levou lá, com as roupinhas que eu tinha e me deixou lá, conversando com a moça, a moça perguntou, aí eu perguntei a ela tudo sobre o país que ela estava falando, aí ela falou que era frio, papapá. E aí eu decidi ficar na minha, sentada, brincando, conversando. Quando foi de madrugada, eu peguei a chave que estava pendurada, abri a porta, levei minha roupa e voltei para casa, entendeu? Andando, porque eu conhecia onde eu morava, eu conhecia as pessoas e voltei para casa. Quando eu voltei para casa, minha mãe se assustou, porque aquilo era a hora de andar na rua, não sei o quê. Eu digo: “Eu não vou mais para lugar nenhum, não vou para um lugar que faz frio, deve ser frio mesmo, ninguém deve se conhecer e aí eu preciso não sair daqui. Eu pretendo ficar aqui, eu gosto de ficar com a senhora e não tem jeito, eu vou ficar aqui. Se me ‘botar’ para ir embora de novo eu fujo, entendeu?”
(00:06:16) P/1 - E quantos anos você tinha?
R - Estava... é porque as idades são terríveis. Quando se fala de idade, chega um tempo na nossa vida e a gente vai perdendo a memória de coisas. Eu acho que eu estava... é uma história, primeiro, para poder chegar a isso, eu tenho que chegar a uma história que foi o seguinte: meu pai e minha mãe saíram de casa, minha mãe saiu de casa porque descobriu que ele tinha outra mulher e foi morar com a gente na rua, preferiu ir para a rua do que ficar na casa dele. E daí a história toda começa quando eu começo a me defender na rua e a trabalhar, para poder ter o sustento. Vira e volta, eu estou sempre andando na rua e aí ela conheceu essa moça... não, foi ao contrário, foi eu que conheci a moça e ela foi lavar roupa lá, porque não tinha onde morar. Essa história que eu não gosto muito de contar, mas foi por aí que aconteceu. Ela teve que ir para lá, conheceu a moça, a menina gostar de mim, a mãe também e aí tratar a gente como se fosse uma pessoa que fosse um parente próximo e aí ela começou a trazer isso à tona, dessa ideia de quando for embora: “Você vai embora, que pena, a gente não vai mais poder se ver”. Ela: “Não, a gente vai se ver sim, Jamira” - a menina, acho que ela tinha mais idade que eu, era doze – “vamos se ver, sim”. Aí eu disse a ela na conversa que não, que a mãe dela estava dizendo que ia embora. Ela: “Mas você pode ir junto”. Deixei a conversa rolando, mas não tinha interesse. Eu moro com minha mãe, quero ficar com minha mãe. E aí pronto, foi daí que comecei a andar e um dia caí em uma rua que era perto de um lixão enorme. Hoje foi feito um espaço de depósito, que tem algumas academias, algumas coisas, mas era um lixão, que você via um mato, tipo uma ilha. Ao mesmo tempo que você via lixo, você via também uma possibilidade de uma maré de uma ilha. Era um restinho de maré que ainda existia. Então, eu ia muito para lá, para poder ver, para catar ferro, papelão. Sempre apareciam algumas coisas, assim, para vender. E foi nessa rua, nessa entrada, que eu descobri essa rua, que era a Rua Elias Kalile e aí eu comecei a ir lá, porque era uma rua pequena, me interessei mesmo de ir e fui. Chegando lá perto, tinha uma senhora que toda... minha mãe sempre me ensinou a dar a benção aos mais velhos. E aí tinha uma senhora que ficava na porta da casa e toda vez que eu passava, ela: “Deus lhe faça feliz”, eu dava a benção a ela. “Deus lhe faça feliz, Deus lhe proteja”. E aí foi nessa condição que um dia ela me chamou para conversar, entendeu? E aí, ela conversando comigo, fez assim: “Onde você mora?” Eu digo assim: “Moro onde não mora ninguém, na rua. Que se é lugar de morar, esse lugar não é lugar. É um espaço onde ninguém pode viver bem. Tenta viver, mas não consegue”. Aí ela começou a criar uma relação comigo, que tinha um espaço, ela tinha uma avenida e dessa avenida ela tinha uma casa que estava vagando, um barraquinho que estava vagando e se é possível a minha mãe alugar. Aí disse: “Depende do valor”. Aí fui, disse a ela: “Mas a minha mãe lava roupa de ganho, lava roupa com uma moça e tem outras pessoas também, então ela pode lavar, se ela tiver moradia. Aí ela fez: “É. Então, por que você não traz sua mãe aqui?” Aí eu peguei e trouxe minha mãe, para ela conhecer. No outro dia eu trouxe e ela morava ali, não ia sair dali. Aí minha mãe perguntou: “O que você está querendo?” Eu disse: “Não, tem uma moça aqui que quer alugar uma casa, mas que quer conhecer a senhora. Me conheceu, já tem os dois dias que eu sempre passo dou a benção a ela, ela me responde. Aí, quando foi um dia, ela me chamou. E foi ontem que ela me chamou. E aí pediu para trazer a senhora. Como já está urgente de sair da rua, a gente pode alugar, a senhora já lava a roupa, eu já vendo o ferro, vendo todo o material e a gente vai”. Aí ela pegou e foi. Chegando lá, ela se apresentou à moça e entrou. Aí ela fez assim: “É muito barato”. Eu não me lembro se foi réis, dinheiro réis, não me lembro desse valor. Mas foi um valor que ela escreveu num papel de embrulho e disse: “Esse é o valor que a senhora vai pagar todo mês. E a senhora pode morar aí o tempo que a senhora quiser. E o aumento, não vou aumentar o aluguel porque, se a senhora não tem condições agora, não vai poder pagar mais”. Aí minha mãe fez: “Olhe, vê se dá para pagar, porque o que eu recebo já vou pegar um rapaz da padaria e os meninos da padaria que trabalham, moram aqui em Salvador, mas a família não mora, eles moram em quartos de aluguel, da padaria mesmo. Tem um menino que mora na própria padaria, porque não tem onde morar e aí vou lavar a roupa dele e eles vão pagar pouco, mas o que junta todo mundo e com esse que a moça me paga, ainda porque a moça vai embora, eu não sei quando, eu vou aceitar pagar. Porque a Jani também trabalha, dá o dinheiro para mim, para poder ajeitar as coisas, então dá para juntar. E a gente acredita que vai dar para a gente pagar”. Ela: “No dia que a senhora estiver muito apertada, a senhora me avisa, eu gostei muito da sua filha”. E aí conversa vai, conversa vem, a gente veio morar com ela, morar nesse barraquinho, que era um quarto e sala, um beco, onde moravam outras pessoas, que a gente passou a conhecer: Vila; Maria José; Dona Madalena; tinha um homem no meio, que era ‘seu’ Alfredo, hoje todos eles falecidos. Dona Dejanira e Maria de Lourdes, que essa veio falecer agora, já tem um ano, ela era mais jovem. E a gente tinha uma casa junto de ‘seu’ Alfredo e de Dona Madalena, entre eles dois. E aí a gente foi para lá, morar lá. E eu continuei trabalhando na rua, aumentando a minha carga, porque eu ia lá para o Terminal da França, que tinha algumas pessoas que já guardavam material de ferro, de carro, que não prestava, aí eu ‘botava’ no carro. E isso com o meu irmão que, na verdade, ele era mais velho do que eu, mas ele era muito doente, então ele ia mais para... por exemplo: ou ele empurrava o carro um pouquinho, depois eu o ‘botava’ em cima do carro e empurrava, para poder tomar conta mesmo. Era como se fosse garantia, sabe, ter um homem. Olha que coisa terrível! Hoje eu vejo isso como um processo de formação mesmo, de humano, de ser humano. Você precisar do outro e não interessa, o outro é preciso ser. Naquela época, era meu irmão, que poderia ter sido minha irmã, mas que não foi. E esse irmão, que andava comigo, ele não pegava muito peso, ele não fazia certas coisas, andava muito no carro, empurrando. Quem empurrava era eu, mais do que ele. Quando ele empurrava, era porque eu já estava... e não sentava em cima do carro, para não ficar muito pesado. Quando o carro vinha pesado, eu tinha que trazer. Então, ele empurrava na hora que estava leve. Quando estava pesado, eu que tinha que trazer, mas era importante a presença dele. Depois, essas coisas, eu começo a entender quantas datas, quando a gente começa a contar nossa história, a gente perde os anos, as datas de nascimento, o processo de quando aconteceu isso, quando aconteceu aquilo. Às vezes, a gente mistura e talvez seja a ausência de você ter contado isso no processo de infância, de adolescência, porque isso bagunça muito a memória. Quando a gente começa a envelhecer um pouquinho, a memória se perde. Eu comecei a continuar trabalhando, depois a gente começou... a rua era muito pequena, que tinha casa fechando o lado de lá e esse muro, que era um tipo lixão, que eu chamava de um lugar que era o lugar da gente conversar. De noite todo mundo tinha medo também de ir para lá. Mas, de dia, era muita gente lá catando, vendo as coisas. E, na ponta, tinha uma venda de ‘seu’ Portuga, um português terrível. Ele era terrível. Ao mesmo tempo, ele era uma figura que eu o observava, ele era uma pessoa que dava as coisas, mas queria coisas em troca. Na época, eu sempre fui malandra. Eu aprendi, eu acho, quando em convivência na rua, de que a gente não deve vacilar com algumas pessoas. Primeiro, observar. Como ele já era branco, eu tinha dificuldade muito do tratamento que eles davam, porque eu via as pessoas na rua, eu via a forma de como as pessoas tratavam o outro quando não tinha dinheiro, quando estava sujo. Não só a mim, como também outros, porque essas relações, você não trava só em você. Você trata com o outro também. Então, todos que moravam na rua eram tratados diferentes, porque faziam medo: “Cuidado, vai roubar”, entendeu? E aí, quando eu o observava, ele dava muitas coisas de menina. E a menina também. Mas sempre ele chamava depois, para conversar. Aí, um dia, ele me chamou. Eu fui comprar lá. Aí, eu fui comprar e ele achava que eu era muito sabida. Ele dizia assim: “Você ninguém engana no dinheiro, né?” Eu fiz: “Não, porque eu aprendi. Eu vendo há muito tempo”. E aprendi, de fato, a matemática. Toma lá, dá cá. É tudo exato. Não tem nada de se, não se. Dois mais dois são quatro. Se você separar os números, um mais um, mais um, mais um, dá quatro. Então, não tem, em qualquer lado que você usar os números, vai dar quatro. Aí ele: “É. Mas você trabalha por quê?” Eu digo: “Porque minha mãe precisa e eu também, porque eu quero. Eu gosto de trabalhar e gosto de ter o que é meu. Não gosto que ninguém me dê nada, assim, porque eu sei que tem troca”. Ele: “Ah, mas nem sempre as pessoas são assim”. Mas eu ouvindo, fui conhecendo-o e percebi que ele usava de abuso. Na época, se eu dissesse isso, minha mãe quebrava a minha boca. (risos) “Ah, respeite os mais velhos”. Nesse respeita os mais velhos, eu quase corto o dedo dele, porque ele veio... tinha uma menina chamada Nery, que eu não vou dar o nome dela todo. Eu chamava sempre assim. Ela foi comigo comprar açúcar para a mãe dela e eu estava na porta e ele não me viu. Eu acho que ele estava tão desnorteado. Era um ‘coroa’ já, um velho já, rabugento. E aí ele a chamou e fez assim: “Eu lhe dou o açúcar e lhe dou um chocolate. Vem aqui”. Aí ela fez: “Não, não, não, não, não vou, não vou. Vou fazer o que aí dentro?” Aí quando me chamou a atenção. Aí eu entrei. Quando eu entrei, ele estava segurando o braço dela. Aí eu peguei um prego, preguinho que fica com a cabeça assim, deitada e fui em cima dele. Quando ele veio para cima de mim, aí ‘botou’ a mão e eu plac no dedo dele. Furou aqui. Rasgou o dedo dele. Ele aí fez uma presepada e a gente saiu correndo e ele foi dizer à minha mãe que eu era um marginal, que era uma criança marginal, que não ia mais querer eu na vida dele. Olha o que eu fiz com ele. Minha mãe me deu uma surra, criatura. E eu digo a você uma coisa: “Eita, que surra! Nunca mais eu vou apanhar assim”. Todo dia eu me prometia: “Nunca mais eu vou apanhar assim”. E aí passei a não ir para a vila dele, mas sempre vigiar todo mundo que entrava. Tinha algumas que queriam. Não era querer, como todo mundo diz, era necessidade. (choro) Quando eu as chamava, eu já conversava muito, eu as chamava para falar que não era a necessidade, tinha que trabalhar para ter o que a gente usasse, que nosso corpo tocasse na gente. Porque eu sabia disso. Na rua era risco. Eu dormia direto com uma faquinha na mão. E era ruim. As tentativas de abuso eram muito constantes. E quando eu tinha minha mãe do lado, ela me defendia. E quando a gente não tem alguém do lado, a gente perde a defesa. Fica indefesa. E aí eu comecei a dizer para elas que não era para deixar ser tocada. Dizer para a mãe, para ver se a mãe acreditava, porque a minha mãe não acreditava, não. Ela não queria acreditar. Porque acreditar, todo mundo acredita. Todo mundo. Mas não queria acreditar. Porque era algo que era muito, sabe, o dar e receber. E querendo ou não, eu vejo que era essa necessidade dos pais, de autodefesa, mas querendo o melhor. Que nem sempre o melhor para eles seria só trabalho, trabalho, trabalho, mas ser alguém que pudesse cuidar do filho. Eu não levo isso muito do passado, não, porque teve uma cena que eu presenciei aqui em Alagados, que uma menina foi morar com um homem, a menina de dez anos foi morar com um homem, porque ele ia cuidar dela. Ele tinha trinta anos, ele ia cuidar dela e casou com ela, virou esposa dele. Então, não foi uma coisa de passado. Foi uma coisa, não é agora, mas foi lá para a década de 1980, por aí. 1980 ou 1990. Então, não é uma coisa do passado, não é uma coisa de quinhentos anos. É coisa de presente mesmo, de presente. O tempo inteiro pode existir e muitas meninas ainda, que as mães preferem entregar a um homem mais velho, para poder garantir o futuro dela, não é da mãe, mas da filha, porque a gente diz logo: “Está vendendo a filha por que quer ganhar dinheiro?” Não. Pelo que eu conheci de minha mãe, ela faria qualquer coisa para poder me tirar da rua, entendeu? Mas essas coisas...
(00:23:55) P/1 - Jamira.
R - Oi.
(00:23:58) P/1 - Não. Pode terminar, é que eu queria fazer uma pergunta, mas pode terminar.
R - Essas questões são muito melindre de coisa. E parece que eu (choro) nasci para dizer para mim mesma que não vale a pena ter o que é dos outros para poder ganhar lucro, ou ter lucro para poder ter o que é dos outros. É uma agonia muito grande, entendeu? Até hoje. Porque o coletivo é fundamental, porque foi ele que me salvou o tempo todo. Eu nasci de um pai e uma mãe, mesmo que o pai não quisesse, mas eu tinha mãe, para segurar. Depois eu tive essa senhora, Dona Hermínia, o nome dela, não esqueço. Depois foi um grupo de pessoas que moravam no mesmo beco que eu e compreendia. Era uma menina que tinha força de vontade para crescer. E depois a rua como um todo, depois desse homem que eu provei que ele era mau caráter, consegui provar isso, que ele era mau caráter, que ele abusava dos meninos e das meninas, ele teve que sair de lá. Tocaram fogo na venda dele, entendeu? Depois. E aí essas coisas me deram o direito de estar naquela rua e me sentir ao mesmo tempo cuidada e cuidando do outro, entendeu? Essa tem uma marca muito importante, que é a história dessa mulher que ficou com tuberculose e que eu cuidei dela sem medo de ficar tuberculosa, sem medo de tocar nela, sem medo de ‘botar’ na cama. E ela, depois, o pago, ela disse para mim: “Essa casa é sua”. De lá, sua mãe mora e não vai mais pagar o aluguel. É sua. Quando eu morrer, eu vou deixar em punho escrito, que essa barraca é sua. Por que também meus filhos não vão querer saber disso, porque meus filhos foram embora com o pai”. Foi o contrário de mim. Eu, pela minha mãe, fiquei. E eles foram pelo pai, seguiram o destino do pai, o caminho do pai para São Paulo e a deixou sozinha. E os filhos não iam brigar por esse conjunto de casa, que era tudo barraco. Tanto tempo que eles não a viam, tantos anos que ela não se comunicava com eles, que ela não ia precisar de ninguém brigar por aquelas casas, ia ser uma de cada pessoa que morava. Então, a gente vê pessoas muito legais, como também você vê pessoas muito ruins. E, talvez, cada um com sua história, não vou estar aqui julgando ninguém, cada um tem a sua história e ninguém pode dizer quem é bom, quem é ruim. A gente é ruim quando a gente se sente ameaçado. A gente é bom quando a gente sente prazer, quando a gente está com o outro, apostando e acreditando. Quando a gente recebe o outro com mau humor, o outro também vem com mau humor. Então, tudo é o jogo da vida, que a gente não consegue entender para onde, que lado segue, só no amadurecimento que a gente compreende disso, mas enquanto a gente é criança, quando a gente é adolescente, jovem, a gente pensa que existe gente ruim e gente boa. E eu achava assim. Ela era uma pessoa boa, estava sofrendo e ele era uma pessoa má, esse Portuga. Foi daí que tudo criou um vínculo, ainda mais afetivo a ela e as pessoas que, mesmo tinha umas que eu não gostava, dizia que eu fazia das meninas posse, dos meninos e das meninas. Eu sempre mandava em tudo. Aliás, eu sempre fui mandona. (risos) Mandona no sentido bom. Não é ruim, não. Talvez seja ruim, para quem veja do outro ângulo. Mas eu era mandona mesmo. Eu que armava as brincadeiras e dizia: “Vocês gostam dessa brincadeira?” “Ah, gosto” “Quer brincar?” “Vamos”. Agora, se não gostasse, eu também não insistia. Eu dizia: “Deixa. Você não gosta disso, tudo bem. Fulano gosta?” “Gosto” “Então, vou brincar com fulano e você fica olhando”. Eu sempre fui direcionando as coisas. Estava no meu DNA esse negócio. Mas também eu criei uma resistência de tudo que eu vivi, de ninguém mandar em mim, de ninguém ter posse sobre mim, a não ser a minha mãe. Mesmo assim, ela me escutava, entendeu? Mas me batia. Sabe? Tudo que eu fazia, ela me batia. E talvez foi isso que minha irmã foi embora também, que ela batia muito e ela não chorava. Ela dizia: “Pode bater”. Eu não, chorava, fazia um escândalo. Eu fazia um verdadeiro escândalo. Minha mãe: “Pelo amor de Deus!” “Não me bata, não. Socorro!” E as pessoas iam lá, (risos) me tirar de minha mãe, entendeu? Principalmente quem gostava de mim: “Epa, Dona Maria, pelo amor de Deus, não faça isso nela”. Me tirava e me levava: “Fica aí quietinha, vou comprar um chocolate”. Então, me agradava, para passar a dor. E minha irmã não. Minha irmã apanhava, sentada na cama e olhando assim. “Minha mãe, pare de bater nela”. E ela batendo. Quanto mais ela batia, mais minha irmã dizia: “Pode bater. Eu não vou chorar. Eu não vou sair daqui”. E aí minha mãe chegava a cansar o braço. E eu ficava dizendo: “Minha irmã, por que você é tão dura com você? Por que você é tão arredia com você mesma?” E ela dizia: “Eu quero sair daqui. Eu quero ser rica”. Aí eu dizia: “Oxe, para ser rica precisa morar em outro lugar?” Ela: “Precisa, sim, porque aqui ninguém vai dar emprego para a gente. Eu vejo direto a menina que está aqui, que a irmã está em São Paulo, está no Rio, está trabalhando, está comprando suas coisas, não sei o quê. Eu quero ir para São Paulo”. Ela sempre dizia isso para mim. Aí eu dizia: “Não vá, não. E eu vou ficar com quem? Só tenho você e meu irmão”. Ela: “Não, você fica com meu irmão. Quando eu ganhar o dinheiro, eu venho lhe buscar”. Aí eu: “Você vai levar todo mundo, então, não é?” Ela: “Não. Eu vou levar quem quer. Quem quer ir. Minha mãe não vai querer sair daqui. Meu irmão também não. Meu irmão é muito doente”. E assim minha mãe fez minha irmã fazer essa escolha, mesmo. Minha mãe dizia assim também: “Se ela ficar aqui, vai chegar ao ponto de eu matá-la e aí eu irei para a cadeia. E aí é melhor que ela segue o caminho dela” e aceitou que uma amiga dela a levasse, com 15 anos, para São Paulo. E pronto, sumiu da nossa memória, ela. Desapareceu da nossa memória. Engraçado, desapareceu da nossa memória. Quando chegou um período de que eu descobri que eu não era a Janice, que eu era Jamira, sabe? Eu não me lembro bem, doze, treze anos.
(00:31:56) P/1 - Como foi isso, que você descobriu que era a Jamira?
R - Quando eu falei com ela o tempo inteiro, que ela foi embora, aí minha mãe disse: “Filha, precisa estudar. Eu vou ‘botá-la’ na escola”. Ela me botou numa banca, que era dentro da própria rua, que era Nena, que era uma banca maravilhosa, preparava os meninos para ir para a escola pública. E eu estava preste a ir para a escola pública, mas se minha mãe aceitasse que meu pai me ‘botasse’ na escola ferroviária, entendeu? E aí, como ela diminuiu um pouco do orgulho, ela falou com ele e ele fez: “Olha aí, agora que ela está com essa idade, ela já vai entrar na primeira série - no primeiro ano, sei lá como era chamado - e aí o que vai acontecer? Ela tem que aprender a ler, para depois ela ir para lá, porque senão ela vai ficar perdida na escola. Aí minha mãe disse para mim... ele falou: “Você quer estudar?” Digo: “Eu quero estudar”. Aí vai para a banca e aí ele pagava essa tal dessa banca à moça, diretamente à moça, que era Nena. Eu nem sabia muito se era paga ou se não era, porque ele não aparecia lá e eu também não perguntava a ela. E aí, o que foi que aconteceu? Eu fui estudar na banca da rua mesmo e tinham algumas meninas, as próprias meninas que eu brincava, os meninos, a gente ia para lá. Todo mundo ia para a banca. E eu, na banca, ela ‘botou’ o meu nome, ajeitou tudo direitinho. Aí a professora começou a fazer, acho que no primeiro dia, a chamada e chamou todo mundo, menos eu. Aí eu achando que era menos eu. E aí ela fez Jamira Alves Muniz. Eu fiz: “Olha, eu vou parar um pouquinho para perguntar à senhora, vê se não está errado o meu nome. Não é Jamira não, meu nome é Janice” “Janice?” Eu fiz: “Sim, é Janice Alves Muniz”. Aí ela fez: “Então, deve ter errado mesmo. Vá lá na frente, converse com a menina que fica na secretaria, que ajeita ali os documentos, que recebe o pagamento e tudo”. Não era uma escola. Mas a menina tinha um suporte muito bom. Ela tinha uma pessoa que cuidava da finança. E ela só dava, porque ela era boa mesmo, ensinava bem. Aí ela fez: “Vá lá, procure Clarice lá, diga a ela que o seu nome está errado”. Aí, quando eu cheguei para Clarice, ela olhou para mim e disse: “Não, seu nome não está errado aqui”. Pegou o caderno, pegou os registros todos, as cópias e aí foi dizendo: “Aqui, cada uma do caderno tem um nome aqui, o registro, que a gente não vai parar de querer a escola, então a gente já vai organizando, desde a banca. Seu nome, está aqui seu registro. Seu pai assina, todo mês paga esse valor e você estuda aqui”. Aí eu fiz assim: “Com certeza ninguém veio olhar direito”. Ela fez assim: “Você já sabe ler?” Digo assim: “Mais ou menos, o meu nome eu sei fazer”. Aí escrevi, ela fez: “Não é esse o seu nome, o seu nome é esse aqui. Olhe para cá, diga como é o nome do seu pai, pelo menos, diga o nome do seu pai e de sua mãe”. Aí eu: “José Marcelino Muniz” “E sua mãe?” “Maria da Conceição Alves”. Aí fez: “Janice, está tudo errado. Seu pai é que errou o seu nome. E não eu que errei aqui”. Aí chegou lá na frente do caderno, ele tinha colocado Jamira, tudo, acompanhando o registro. “E aí eu acompanhei o registro e ele também. Então, deve ter algum equívoco aí. Você quer saber direito, seu nome não é esse, seu nome é Jamira”. E nisso eu fiquei ali, parada. (choro) Depois de muito tempo, já crescida, descobri que meu nome não era aquele que todo mundo me chamava. Aí eu peguei, fiz, saí correndo e fui em casa. E disse à minha mãe: “Mas minha mãe, a senhora me chama de Janice esse tempo todo e meu nome não é Janice, é Jamira?” Aí ela fez assim: “Seu nome é Janice. Olhe direito lá, olha aqui o registro”. Aí eu falei: “Minha mãe, a senhora foi enganada pelo meu pai, esse tempo todo, porque meu nome é Jamira, não é Janice”. Aí ela fez assim: “Olha direito, Jani, você já está sabendo ler?” Aí eu fiz: “Eu já, eu sei pelo menos escrever meu nome e sei saber identificar quem é meu pai, quem é minha mãe”. E foi isso. “Quero ir para lá, procure (37:18), nós vamos lá”. Aí ela foi lá. Chegou lá, a menina explicou para ela: “O nome da sua filha é Jamira. Seu marido errou o nome e ‘botou’ Jamira” E aí, como é que vai ser? A senhora vai ter que conversar com ele. Porque o nome dela é Jamira, ela vai ter que aceitar. Porque eu não vou poder chamá-la na sala de Janice. Mesmo que as meninas a chamem de Jani, eu não vou chamar, ‘botá-la’ Jamira”. Aí pronto, foi um arerê. Aí eu peguei e disse a ele, fiquei com raiva dele, muito ódio, sabe? E da minha mãe, no momento que eu tinha raiva, eu tinha... não sei se é pena, na época, talvez na época fosse pena, por ela não saber ler e ser enganada com quase doze anos, sabe? E aí, eu decidi ensiná-la a ler. Aprender a ler, para ensiná-la. Quando eu aprendi a ler e a escrever, o pouco que eu sabia, eu a ‘botava’ para escrever o nome. A identidade dela estava como analfabeta. Com o período de ensiná-la a escrever, ela aprendeu a fazer o nome dela, mesmo tortinho. E aí eu a levei para tirar a identidade, junto com ela. Então, foi um processo contínuo na vida dela e na minha. (choro) E aí doía muito, muito. Aí eu fui para escola ferroviária, estudei lá. Não gostei muito da escola, pedi para sair. Aí voltei para escola. Foi uma escola, Simões Filho, que era ali na Rua Direta, que hoje não é mais. Hoje está fora de lá. Acho que está no Caminho de Areia. E foi lá que eu encontrei duas professoras que me incentivaram a continuar. Primeiro porque eu era tão terrível, que ela dizia assim: “Essa menina parece que nasceu para guerrilhar”. Então, era a professora Nilvanda. E a outra era a Cecília, da secretaria. E essas duas recebiam queixa da sala de aula. Cecília, principalmente, me ‘botava’ para contar papel, ao invés de mandar embora. Contava papel de ofício, cem folhas, para mandar para sala. Esse era o meu castigo, para poder eu me conter na sala. E aí eu contava os papéis de ofício e aí ela pegava, mandava eu entregar na sala e eu entregava. Contava. E aí as professoras diziam: “A ‘bote’ aí, porque hoje não dá, ela pergunta demais. E quando ela não sabe, mais ainda. E eu não estou aguentando mais essa pressão de Jamira na sala, sabe, me perguntando as coisas que, às vezes, eu não sei responder”. E aí a Cecília disse para mim: “Para estudar, para aprender a ler e a escrever você fique em silêncio, Jamira, um pouco porque, se você ficar em silêncio, a professora lhe ensina”. Aí eu disse a ela: “Mas eu não consigo aprender da forma que ela ensina. Ela não deixa o dever parado, no quadro. Ela escreve, daqui a pouco apaga, não dá tempo de eu escrever. E não é só eu, não. Tem um monte na sala. Mas ela não, insiste em fazer isso. Aí eu vou falar com ela, faço uma pergunta para ela e ela não quer responder. Matemática eu falo para ela, eu sei a tabuada de cor e salteada. Ela não me deixa falar. Ela me priva de fazer, de ensinar as pessoas. Eu quero ensinar os meninos na hora que eles estão fazendo, ela não deixa. Aí é nessa hora que ela me ‘bota’ para fora da sala”. Então, assim, é um lugar, né? É um lugar. O lugar de cada um. Porque esse lugar de cada um mata o outro. No coletivo não faz, um aprende uma coisa, eu sei mais isso do que isso, então eu posso ensinar você aquilo que você não sabe. É o que eu digo aqui, no computador. Por isso que eu mandei você ‘botar’ direto pro e-mail. Não sei, até hoje, aliás, já aprendi. Não sei é burrice. Eu sei, mas é tão lento, que demora tanto tempo, que você pode começar e eu ainda não entrar. Então, eu prefiro o quê? Pedir a você que mande pelo e-mail, que eu já tô com o e-mail, já estava com o e-mail aberto, quando entrou eu fui lá, cliquei, toquei onde os meninos sempre me ensinaram. Menino é criança, adolescente, jovem, cada um tem o seu conhecimento, de acordo com o externo e com o período. Na minha época eu aprendia matemática tomando ‘bolo’ e vendendo. Você me dá dez, quanto é o picolé? Dois. Aí eu dava os cinco, né? Aí ele dizia: “Picolé é cinco reais?” “Calma, moço, eu estou dando os cinco, porque eu não preciso dele, eu só preciso desse outro cinco e vou lhe dar mais três, entendeu? Pronto. E depois lhe dou mais um, para poder completar e já está salvando o meu aqui” “Está certo?” Eu digo: “Está, o dinheiro está muito bem, está certo. Então, por que essa agonia? Eu preciso começar do grande, entregar você o grande e trabalhar com o pequeno”. Talvez porque também eu entendo hoje que, de tanto trabalhar contando moeda para comer, aí eu aprendi rápido a matemática e valorizar os centavos, entendeu? Então, foi com isso que eu me peguei a essas duas professoras, que uma era professora, mas estava na secretaria da escola, porque estava passando pro processo de saúde. E essa professora que era demais. Até eu chegar na sala dela, eu fui empurrada, assim: “Ah, a manda logo pro segundo ano. Manda lá pro terceiro”. Cheguei na quarta, na mão dessa criatura. Mas ela sempre me observava. Quando eu ia levar os papéis de ofício, ela dizia: “Olha, eu vou esperar você aqui. Eu vou estar viva, para esperar você vir” “Oxe, vai morrer agora? Está tão nova!” Aí ela: “Porque eu gosto muito de você, o seu jeito. Você tem um jeito muito bom, especial de ser com as pessoas e isso me agrada”. Não sabendo eu que ela estava com câncer. (choro) E queria só ensinar, mesmo com a doença. (choro) Aí eu continuei. (choro) Aí cheguei na quarta série, empurrada, sabe, dos professores não aguentarem comigo. (choro) Eu era terrível mesmo, sabe? (choro) E aí eu cheguei na sala dela e ela fazia, ela me respondia as perguntas, até as perguntas que não tinham nada a ver com a educação. E que eu acho que hoje, até hoje tem a ver com a educação. Aí ela começou a entender o meu processo de vida e eu me aproximar mais dela. Mas ela não me contou. E aí eu comecei a me acalmar mais. Mas aí o tempo já estava muito... eu já estava grande. Eu vim para o Polivalente com 14, ou 15 anos, não me lembro. E aí tem um processo assim que, na escola, você só estudava de dia, nessa série baixa, até os 14, 12, 13 anos, por aí. Você não podia ultrapassar. Por um lado, aquelas professoras todas contribuíram com a minha vida. Porque, se eu continuasse da segunda a terceira, talvez eu ia pro noturno no ginásio. Ou não. Mas elas contribuíram, por isso que eu digo que não tem pessoas boas e tem pessoas ruins. Não existe isso. Existem pessoas nos seus momentos bons e nos seus momentos ruins, porque elas me acompanharam, me empurrando para a série de seis meses, provando que eu tinha um QI muito alto na matemática, mas o resto não interessava a elas. E foi daí que eu entendi que eu, saindo da quarta série, se eu não saísse ali naquele ano com a base, eu não ia poder entrar na quinta série de dia, porque eu já ia entrar praticamente com 16, por aí. Então, foi muito sagaz, depois de grande, entender isso. E aí a professora começou a ficar mais tarde comigo. Além dela ter dado aula para todo mundo me liberar. Liberada foi, já foi. Viu? Liberada ela já foi. O que foi que aconteceu? Eu entendi que a professora tinha um carisma muito grande, afetivo. E aí ela ficava, dizia: “Jamira, termina a aula, você tem meia hora só. Se você tiver comendo, o lanche está aí, a gente come, para você... eu lhe ensinar a ler melhor. A ver, né? Porque ler, acho que você lê muito”. Aí eu dizia: “Eita, está pensando que eu leio muito, o que é que eu tô fazendo aqui na escola?” Aí ela dizia assim: “Você lê algo que está além. Um dia você vai conhecer um mestre chamado Paulo Freire”`. (choro) E aí eu fiquei dizendo: “Quem é essa figura?” Aí ela dizia: “Ele diz que todo ser humano tem que aprender a partir do contexto”. Aí eu dizia: “O que é contexto?” Aí ela dizia: “Por exemplo: você tem um nome que você gosta e você leva um nome que você não gosta. Talvez você não goste, porque você... da forma que foi dado. Então, para descobrir isso, a gente tem que ir vendo as possibilidades de conhecer a história do seu nome, de onde vem a origem do seu nome. E aí tudo isso o Paulo Freire diz que é você com o todo, você inteira. Não é só a cabeça. Não é só o que você... cortar a sua cabeça vai para qualquer lugar, todo mundo rouba seu conhecimento, mas seu corpo fica. O corpo tem que ir junto. Tudo seu tem que ir junto. Alma, corpo e o cérebro, o coração”. Aí eu ficava escutando-a. E aí comecei, ela começou a ensinar a ler. A ler de uma forma de ver. Ela dizia: “Você vai aprender, Jamira, a ver e não a ler”. Eu fiz assim. “E nisso as letras vão soar melhor em seu coração, em você, em tudo. Tudo que você fizer, você vai escrever, entendeu?” E aí eu fiquei ali o tempo todo aprendendo com essa mulher. E aí, quando chegou no final do ano, ela estava um pouco bem debilitada, já. Aí usava um torso na cabeça, aí eu dizia: “Por que a senhora passou a usar esse torso na cabeça? A senhora vivia de cabelo tão solto, depois amarrado, depois cortou”. E aí ela disse assim: “Agora você está preparada para ouvir”. Aí eu fiz assim: “Por que a gente tem que se preparar para ouvir?” Ela: “Porque, na verdade, tem gente que não aguenta ouvir o que eu vou dizer. E agora você está preparada para ouvir”. Aí ela contou que ela tinha câncer e que ela não estava mais reagindo à medicação, ia ter que parar, para ficar em casa e depois se internar e que ela não ia mais poder ensinar, que a vida dela até viveu ali, nessa escola, com esses alunos, que eram eu e outra turma que estava com ela e aí eu fiquei muito triste, muito triste. (choro) Mais uma para ferir meu coração. E aí a gente tirou uma foto com todo mundo junto e eu: “Como é que eu posso lhe ver?” Ela falou: “Só pensar em mim, pensar naquilo tudo que eu lhe falei, o que você aprendeu, o que você não aprendeu, o que você não quis escutar, você pode também pensar. Porque eu moro longe e eu vou ficar muito restrita à minha família”. Mas eu digo: “Você vai ficar viva, para poder voltar a ensinar”. Ela: “Não. Estou sendo sincera com você”. E aí eu fiquei sem querer chorar na frente dela, (choro) mas ela me deu um abraço muito aberto e disse a ela que ia lembrar de tudo, que tudo que ela tinha me ensinado (choro) foram coisas que serviram para minha vida”. E essa coisa toda eu ia continuar encarando a morte como uma coisa de saudade, de que foi embora, que não morreu, que foi embora. E isso ia me levar a pensar que cada dia tudo que a gente gosta, a gente perde. E é ruim. E eu falava isso com Deus. Ai, como Deus sofreu. Deus sofreu muito comigo. Eu dizia: “Por que você quer tirar isso de mim? Você me deve tanta coisa e fica dizendo que é o Deus, que é todo poderoso, mas tira tudo o que eu gosto. Tudo o que eu preciso. Tudo o que eu preciso para sobreviver. Como é que eu posso amar um homem ou um ser tão complicado?”
(00:54:13) P/1 - Você estava contando um pouco sobre a sua educação formal, como foi. Eu queria que você continuasse contando, mas eu queria fazer uma outra pergunta também. Aí você emenda uma coisa na outra. Eu queria saber como que era o bairro onde você morava. Como que era? Como que chamava? Como que você enxergava o bairro?
R - O bairro do Uruguai. Primeiro lá no Bom Gosto, eu não tive muita identidade. É na calçada, aquele largo. Era um largo com jardim e poucas lojas. E tinha a estação ferroviária, que era como se dissesse assim: o lugar onde a gente iria para onde a gente quisesse. Para o subúrbio, entendeu? De trem. Era ali o lugar que todo mundo parava. Quem vinha do subúrbio parava ali, para chegar na feira, já ia andando cedo, todo mundo. E muito carro, né? E o bairro do Uruguai era um bairro bem... na época ele tinha os aterros, as casas eram muito simples e a vizinhança era muito mais próxima uma da outra. Era aquela coisa de tudo todo mundo sabia. Para vir, quando... a escola, por exemplo, só tinha o Polivalente aqui. O resto era areia alva e praia. Mas que já estava aparecendo algumas casas e (56:04) no mar, na praia. São as primeiras casas que foram surgindo aí como ocupação, na maré. E, certo, antes da ocupação, tinha uma ponte. O bairro era, eu me lembro que tinha ponte, chamava ponte de ‘seu’ Germando. Por que ‘seu’ Germando? Porque ele mesmo construía ponte de um lugar para outro, ele construía essas pontes. E aí, onde eu morava não tinha maré, mas quando chovia a maré, os esgotos subiam, entravam dentro das casas. Mas porque existia a maré do lado do... qual era o nome? Vila Ruy Barbosa, que é um bairro hoje. Vila Ruy Barbosa. Então, tinha a ponte que ligava à Irmã Iracema, que é um prédio de uma Irmã que, não sei se ela era também Teresa de Calcutá, ou se era... não sei muito a história dela, só sei dizer que ela construiu um prédio, a Igreja construiu um prédio e ela ficava lá, com trabalho, auxiliando os trabalhos de bordado, costura. E dali para lá, para o outro lado do prédio, era maré. Esse prédio foi construído dentro da maré. Com viga, que diz que é um prédio muito forte, porque foi construído dentro da maré, com a maré ainda. E aí ela ergueu esse prédio, esse prédio foi erguido pela Igreja e foi uma coisa para acontecer ações lá dentro. Que tinha também yoga, que tinha um ‘cara’ que veio de fora, que fazia yoga, não sei se ele era indiano, ou se ele era francês, alguma coisa assim. Ele fazia as pessoas fazerem o trabalho de yoga, relaxar, entendeu? Trabalhar com a terapia, tipo uma terapia, que hoje é tanto nome que dão, mas ele trabalhava a partir do silêncio, das músicas e aí era chamado uma terapia, para acalmar, para deixar as pessoas menos cansadas, menos agressivas e também pelo que estavam vivendo, essa coisa da transformação do bairro, que começou a mexer muito com a construção do bairro, descendo mais, porque mais para onde eu morava, apesar de ainda ter um resíduo da maré, mas já tinha asfalto, já tinha algumas lojas, entendeu? Que é a Rua Direta. Então, já tinha algumas coisas, mas sempre uma feirinha, sempre se colocava uma feira, um vendedor, andando muito de carro de mão, vendendo, era muito isso. Então, a ponte transportava a gente para outro lugar, que era o lado do Jardim Cruzeiro, que é uma feira também. Então, o pessoal levava, vinha de barco, trazia as coisas e essa ponte fazia para a gente passar, para a gente ter acesso a outro bairro, entendeu? No período que eu vim para o Polivalente, que é educação, eu cheguei no Polivalente com... aqui, tudo atrás era mato. Aqui onde é o espaço cultural hoje. Era tudo mato e livre, não tinha parede, não tinha, como se diz? Muro, era tudo vazio. A escola, na verdade, ficava à mercê dos moradores, dos alunos, não era uma coisa de cadeia, com muro alto, essas coisas. E aí, a gente começava a estudar e tinha os meninos que não queriam estudar, não queriam estudar, que queriam ficar o tempo todo na rua e esses meninos que a gente confrontava muito. Então, quando eu vim para o Polivalente, aqui já tinha o aterro, já estava aqui no Polivalente, há muito tempo, na década de setenta, eu acho que foi de setenta que a escola veio, que foi construída, foi uma ideia de Polivalentes. Era primeiro do governo do estado, ACM era muito isso, de fazer programação da vida das pessoas. Polivalente de San Diego, Polivalente de Cabula, Polivalente de Amaralina e Polivalente de Feira de Santana, que eu morei lá e fui estudar no Polivalente de lá. Então, eram quatro Polivalentes e dentro desses quatro Polivalentes também tinha um processo de pensar como trabalhar essas escolas com o pedido da própria escola, de um setor que era chamado, na época, Prodasec. Mas a gente não sabia ainda, nem a diretora também, sabe? Mas já existia esse pensamento político do governador. E aí, o que a gente fez? Eu vim para cá, eu estava em quinze anos, quinze anos já porque, na verdade, era quinta série. Então, eu acho que era até os quinze anos que eu estudava de dia. E aí eu vim para cá. Fiz a quinta série, com sérios problemas com as professoras também. Só tinha uma professora que não falava muito, era muito fechada. A outra que exigia cabeçalho, ordem no caderno e tudo. E a outra que contava história, contava as histórias de Napoleão Bonaparte, como se ela estivesse contando a vida de alguém que estava presente. As guerras, como eram feitas. E a gente viajava, a maioria viajava na sala, porque ela contava tão bem. Ela contava e fazia uns gestos maravilhosos que, ainda, às vezes ela chamava o aluno para dizer assim: “Você é fulano e está aqui e para você passar, você precisa derrubar fulano”. Aí disse: “E precisa derrubar assim?” Aí eu sempre queria fazer essa parte. Aí ela: “Não, não é para empurrar, bater, é só para fazer, dar um toque assim e a pessoa vai, sai de cena. Aí você derrubou seu amigo, para poder matar o inimigo lá”. Aí isso mexia muito com a gente, mas ela diminuía muito a questão da violência, mostrando essas coisas. E Vanda era uma pessoa de química, ave Maria, maravilhosa. Mas ela era rigorosa. E eu gostava dela, porque ela me fez aprender química. (risos) Aprender aquelas coisas de H2O. Aí eu achava fantástico aquilo. Falava muito pouco, ela, mas ela dava aula que você ia, vivia, entrava até no laboratório. E existia um laboratório que é muito disso, né? De trazer algumas questões para os meninos entenderem essa coisa da mudança da terra, do óleo. E eu gostava muito. Me fascinava isso. E a outra professora que não gostava muito era de responder nada. Era o silêncio e risca. Tanto vermelho que eu recebia nas provas, que eu ficava zoada. Era a professora de português. E eu não entendia porquê, mas eu sabia que tinha alguma coisa que estava errada. E a letrinha, pequenas letras, ela passava um risco vermelho. Se faltasse o E, ela passava o risco. Se faltasse o Ç, ela passava o risco. E ela não respondia, né? Não tentava trazer a gente para isso. Aí teve alguns momentos que eu comecei junto com a turma toda, né? A gente começou a se juntar. Uma turma boa. Primeiro eu criei um programa dentro da minha cabeça, que era não deixar as coisas dessa escola morrer, porque era muito ‘massa’ ficar nessa escola. Eu gostava muito. Eu vinha para escola com muita vontade. Eu chegava até cedo e saía tarde. Sempre saía tarde. Mas sempre com essa ideia de Norma, sabe? Uma turma aí que eu não vou lembrar o nome, a gente brincava de baleado na frente da escola. E mesmo estudando para prova, a gente... na matemática eu ficava perguntando a elas que estavam pulando e elas iam pensando, para responder. E em português não, mas deixavam um texto para mim e eu, enquanto estava esperando a minha vez de voltar a jogar, ia respondendo. Então, tinha um coletivo disso. Tinha uma contribuição disso. E aí eu gostava. Apesar de Norma ter a vida dela com vários problemas com a questão da família, eu ter problemas não com a minha família, em si, diretamente, que era a mãe e o pai, mas que o pai estava lá e a mãe estava cá, segurando. E que tinha esse exercício de minha mãe permitir que minhas colegas fossem em casa, mesmo pobrezinha, aí ia todo mundo para lá, comer ovo: “Hoje só tem ovo”. Porque ela foi melhorando com o passar do tempo. Minha mãe foi vendo que não dava mais para brigar entre ela mesma. E eu me afastei do meu pai de vez. Fui lá na casa dele depois já de grande, 15, 16, já no Polivalente, eu fui lá dizer a ele que eu nunca mais queria vê-lo e que ele não precisava mais pensar em nada para mim, nem pensar em herança, porque o mais ódio que eu ia ter é se eu recebesse herança. Aí é que eu ia odiá-lo pro resto da vida, porque herança não ia pagar tudo o que ele fez em relação ao meu nome. E aí eu o deixei de lado, deixei de mão. Ele só ia na minha casa quando minha mãe dizia que eu estava na escola, para poder passar para ela um dinheirinho que ele passava e que eu sabia que aquele dinheiro não ia servir nada para mim. Nunca serviu. E aí eu continuei aqui no Polivalente, cheguei no Polivalente e agora, do Polivalente eu comecei a ver que a coisa mais linda do mundo era fazer cultura. Eu comecei a gostar de assistir, porque a professora deu uma oportunidade da gente assistir um espetáculo. Menina, que espetáculo, eu não me lembro o nome, mas foi um espetáculo tão lindo, que eu disse: “Poxa, eu queria fazer teatro”. E aí, nesse espetáculo, eu comecei também na rua a voltar dia da festa das mães. Toda vez que eu vejo Dia das Mães eu fico me lembrando. Passa uma imagem bonita, lembrança boa. Aí a gente fazia festa naquela rua, que era uma rua pequenininha, sabe? Rua que parece que era só de família. Tinha família que brigava, tinha família que não brigava, tinha família... era um escândalo, a gente ia todo mundo para salvar. Aí quando a família era cruel demais, a gente ia para se meter, todo mundo ia junto. Então, era uma rua de vizinhança muito mais íntima. Família. Porque família também briga, né? E aí a gente fazia a festa do Dia das Mães ave Maria! Todo mundo passava rifa para ajudar no Dia das Mães, pegava mais os homens. E quando era a festa do Dia dos Pais, a gente pegava mais as mulheres. E aí elas programavam, se juntavam. Aí eu comecei a fazer: “Olhe, gente, a gente tem que ser uma equipe”. E aí formou uma equipe de cinco meninas, porque os meninos não queriam nada de organização, só queriam mandar. Aí a gente começou a se organizar. Quem fazia isso, quem fazia aquilo. E também levá-los para passear, porque eu os levava, viu, a passear, quando eu cresci. Ia pro Carnaval, levá-los para conhecer o Carnaval. Para ir pro teatro, cinema. Eu lembro que Michael Jackson marcou, eu não me lembro da época aí, mas Michael Jackson marcou no cinema. No tempo da brilhantina. Rapaz, eu levava esses meninos pro (01:09:36). Pegava a ‘bomba’, porque todo mundo pagava a minha, né? Aí eu levava pro cinema. E saía, sempre saía com coletivo. Sempre fiz coisas com coletivo. E não saía disso. Nunca era individual. O individual eu não queria muito trabalha-lo. O coletivo era melhor. Muito mais forte. Ficava fortalecido. E aí, pronto, fazia festa e tudo e voltava para escola. E falava bem da escola, para todo mundo. E as meninas começaram, teve uma só que veio estudar aqui, no Polivalente. As outras não. E aí, quando eu comecei a estudar, de fato, no Polivalente, eu comecei a me interessar por outras coisas. Aí tinha uma menina que eu protegia muito. Ela era pequenininha. Ela nasceu de sete meses. E eu, até hoje, é minha amiga. Até hoje é minha amiga. A mãe dela, ave Maria! Não podia ver (01:10:38), pois ela inventava moda. Já que você tem tipo para ser vendedora, vou fazer uns bolos gostosos, para você vender. Um turno você está na escola, o outro você vende bolo. Mas o bolo, que bolo! Derretia na boca. Eu não tinha nem como... não tinha nem argumento mais. Só bastava dizer: “Coma um pedacinho”. Aí eu levava sempre um pedaço, porque eu não era besta. Comprava um, para poder devolver o dinheiro todinho, certinho, para ela, cortava os pedacinhos. E aí, quando eu ia vender o bolo nos lugares que o pessoal trabalha, era muita oficina, tinha muita lojinha pequena, mas não era loja individual, era loja de alguém, que tinha o poder aquisitivo maior. Aí eu chegava e apresentava: “Olha, vai querer um pouco?” “Não, não, já estou cheia, então hoje eu não posso” “Mas pode fiado também, agora tem que pagar, outro dia eu venho cobrar”. E aí, rapaz, eu tirava aqueles pedacinhos de bolo, na vasilha que eu levava e dava, a pessoa ‘botava’ o bolo na boca e fazia: “Meu Deus, que delícia!” Aí eu: “Está vendo? Que não basta só dizer que não quer. Agora, eu quero assim: se me pagar certinho, eu vou vender fiado”. Aí pronto. Menino, o bolo da criatura saía. E eu só chegava lá com a vasilha vazia. E a porcentagem que ela me prometia, ela me dava. E começou a fazer empada, também a mesma coisa. Ave Maria! Eu aí fazia a mesma coisa: a mandava fazer umas ‘pequichichicas’. Para quem você quer (01:12:23)?” “Eu quero essas pequenininhas, para eu comer. Agora, se alguém precisar provar para poder escolher, aí eu vou dar. A senhora que sabe quantas. Aí o valor da empada não é três reais? Senhora faz menor para mim, aí eu pago cinco reais por uma empada pequenininha” “Está certo, eu vou fazer”. Aí começou a fazer e eu levava as minhas também, do lado. Já pagas. Estavam pagas, já. E aí ela começou a entender que eu tinha tino pro negócio, que ia dar ‘pano para manga’. Aí eu comecei a vender tranquilo, as empadas, estudando, mesmo às vezes perigando para perder dinheiro na filha dela, me ensinava dever. A filha dela nasceu de sete meses, numa caixinha, como ela contava, de uma caixinha de sapato. Aí ela cuidou, sofreu para caramba para cuidar dessa filha, porque o pai também abandonou. Não quis a menina, nem quis ficar com ela, mais. E aí ela contava esse caso dela e eu ia escutando, ia vendo que o meu problema também tinha outras pessoas que tinham o mesmo problema. Parecido, não é o mesmo, mas era muito parecido. Era muito claro isso. Família, problema com família, né? E aí eu fui percebendo que a minha caminhada, eu não estava sofrendo sozinha. Eu estava sofrendo com outras pessoas também. Todo mundo era assim. E que eu também não precisava ficar tensa, pronta o tempo todo, porque isso nunca resolveria o problema. Acarretaria mais problema. E aí eu comecei a ter a aula lá com ela, a menina fez: “Jamira, você vem, quando vender o bolo, aí a gente senta para estudar”. E eu sempre a achei bem engraçadinha. E ela estudava no Polivalente. E aí eu achei um jeito de protegê-la, porque ela era muito inteligente e também era uma menina boa. Aí eu vinha com ela, passava: “’Bora’, vou lhe pegar na esquina”. A mãe dela a mandava sempre com o irmão. Aí, quando eu comecei na amizade, ela viu que eu tinha ‘testa de ferro’ mesmo para cuidar da menina, aí ela disse: “Olhe, meu filho vai vender as coisas que ele vende, os bolos e você vai com a Cristina para escola. Você pega a Cristina e leva, porque eu sei que a Cristina vai estar protegida com você”. Aí tirou um tempo, minha filha, que teve umas pessoas aí que vieram bater na menina. Uma mulher altona, gigante, que era grande, mas só tinha tamanho. A idade também gerava em torno de 14, 13 anos. A menina tinha dez. Aí eu: “Ah, não vou deixar, não”. Aí, quando eu soube, fui lá, dei porrada na menina e disse: “Olha, no dia que você tocar nela, você vai se ver comigo”. Aí, paara você entender, foi tão forte isso, que gerou um produto, que eram os meninos que ficavam na porta, sentados na porta, porque a escola tem uma janela e que elas sempre fizeram parece um lugar para se sentar mesmo, que é colado. Tudo aqui, essa escola é de cimento armado, cimento bravo. Para poder quebrar isso aqui, vai ter que pegar a empilhadeira, para quebrar, que a escola era escola para maré, era escola para preto, era escola para pobre. Então, vamos fazer desse jeito, para não quebrar, entendeu? Para levar anos sem ir lá, sem reformar. E aí eu disse: “Meu Deus do céu!” Aí fazia os banquinhos, jogava (01:16:31) sentado e a área grandona na frente da escola. E aí bati nessa menina e briguei e disse que não. Aí os meninos que fumavam droga ficaram ligados lá: “Pô, aquela menina é virada na zorra para lá, deu porrada naquela menina e ela enfrenta”. E aí eu comecei a conversar com eles também. Por que é que eles ficavam fumando maconha? Eles diziam: “Sai daqui”. Eu dizia: “Por que vocês ficam fumando cigarro?” Na época eu chamava cigarro porque eu não sabia de fato o que era maconha. Só o pessoal falava do cheiro. Aí eu: “Por que vocês fumam tanto?” “Ah, eu não quero saber. É porque a gente fuma, porque gosta. Quer experimentar?” Eu digo: “Eu vou perder meu tempo em fumar? Eu vou perder meu tempo ali, jogando bola”. Aí jogava e Norma também dizia a mesma coisa e a outra também: “Pô, vocês são otários”. Aí eu falei: “Essas meninas já estão entrando na minha vida”. A gente criou uma resistência muito grande. Mas já tinha um requisito de que eles jogavam calango, fazia a professora ficar com medo deles, enfrentavam. E no meio deles tinha um tal chamado, o nome dele não era esse, era o apelido que a gente ‘botou’: Didoma. Porque era um ‘cara’ que, ao mesmo tempo que queria bater, queria ser amigo. E não conseguia. E ele morava colado com a escola. A casa dele era enorme. Tinha um bocado de irmão. Aí ele ficava, vinha e enfrentava a gente. Ele tem a mesma idade hoje. Não, ele é mais novo um ano. E enfrentava a gente para disputa mesmo. Aí ‘botava’ futebol, a gente jogava contra os meninos, os amigos dele. A gente até dizia para ele: “Vocês são fracos, ficam dizendo que maconha fica forte, não fica nada”. E a gente ria muito. Norma, ave Maria, fazia horrores. Dizia para eles: “Vou trazer os ‘caras’ aí com muchaco, que é meu namorado, vou trazê-lo para ‘botar’ vocês ficarem rodando e vocês não vão mostrar competência de vocês. É só fumar maconha? Abestalhado”. Norma o enfrentava mesmo, legal. Eu dizia: “Norma, vamos marcar com eles para jogar e trazer os meninos, seu namorado, para ensiná-los a jogar muchacho” “Eu vou ‘botar’ meu namorado para ensinar esses lechel a jogar muchaco? Eles vão ficar é mais valente, vai querer bater na gente”. Aí eu disse: “Tá”. Aí a gente estava jogando e eles olhando. Olhava. Aí um dia Didoma chegando, fez: “Vou marcar um campeonato aí, para gente jogar. Quem perder, vai ter que ter uma regra, criar uma regra aqui de local. Vocês vão ter que dar merenda de vocês durante um período de um mês”. Aí eu digo: “Eu vou deixar minha merenda para lhe dar?” Aí: “Não, mas não dá”. Norma logo pensou: “Criar uma regra para dar merenda, tudo bem, vamos aceitar, Jamira, depois a gente conversa sobre isso”. Aí eu disse: “Tá, vamos jogar”. E não é que a gente perdeu para os meninos? Não é baleado não, foi baba. A gente sabia lá jogar bola? Toda hora uma falta. Aí a gente ficou e fez: “E agora, o que é que a gente vai fazer com esse negócio de baba, de pagar nossa merenda para esses meninos? Nossa merenda paga não, que o estado dá. Mas, assim, foi tão gostosa a nossa merenda: Nescau, com pão com queijo e a gente vai ter que dar? Ah, Norma, você foi errada”. Aí todo mundo se juntou com ela: “Não, abestalhadas, a gente vai fazer assim: a gente vai pegar as merendas de quem joga para cima”. Aí eu disse: “Vixi, Maria, eu já tenho um bocado na minha lista” “E vai fazê-los darem à gente. Se jogar para cima, a gente vai dar porrada”. Aí eu fiz: “Eu topo”. Aí a outra também topa, topa, topa. Era um grupo de seis, mais ou menos. Seis a sete meninas. E aí a gente fez o quê? E, no meio, tinha o menino, que era Isael Barros, hoje meu companheiro, meu amigo, é companheiro de amizade dele. Vanderlei? Não, Vanderlei não estava ainda, não. Foi Isael e Baby, Carlos Baby, que já estava tocando umas musiquinhas aí. E tinha um amigo dele, que eu não consigo lembrar, que tocava violão. O Joilson. Aí eles também ficaram no meio da gente, né? No meio da confusão. Baby era mais para cantar. E a gente era mais para essas coisas de direcionar. Direção. Aí Baby chegava para cantar na beira da escola, no fundo, na frente. E a gente ia dar confusão de criar, para resolver os problemas. Aí não é que a gente pegou, colou em todo mundo e disse: “Olha aí, você vai entrar na fila, mas se você jogar esse pão no lixo ou na cara de alguém, a gente vai lhe pegar lá fora”. Pronto, os meninos ficaram com medo. E aí: “Por que a gente quer a merenda de vocês? Para dar aos meninos que não tem. E vocês ficam jogando fora? Não é por aí, não. Se vocês derem numa boa, a gente não faz nada. Mas se vocês criarem resistência, a gente vai bater em vocês lá fora. E é um grupo grande, viu? Não pense que é só essas, não, viu, que estão aí, não. Tem mais lá fora. King Kong, que era um rapaz que a gente chamava, eu não sei o nome dele, ele era imenso, grande, parecia realmente o gorila King Kong, na época, porque ele pegava eu pelo cabelo e me suspendia, pegava pela asa do braço e me suspendia. E a coragem do homem era muito forte. Aí a gente dizia: “Vai, mexa, você não sabe com o que está mexendo”. E aí, menina, não é que esses meninos, a gente pegou uma caixa, pediu à moça da cozinha: “Olha, a gente vai querer uma caixa, que agora os meninos não vão mais jogar merenda fora. Vai botar na caixa, para gente doar pro pessoal daí de fora, dos meninos daí de fora”. Aí eles começaram a ‘botar’ o pão e tinha um que dizia assim: “Ah, eu quero pão, eu só não quero Nescau”. Aí eu: “’Bota’ o Nescau e deixa o pão para você”. Aí a gente conseguiu, rapaz, juntar a merenda. Todo mês... esse mês inteiro, ele não ficou só em um mês, ficou direto. Chegou ao ponto de que os meninos já sabiam a hora que o caminhão vinha. Aí tinha uma ‘galera’ que queria jogar areia no nosso brinquedo, que veio de fora, de lá do Lobato. E aí criou uma perspectiva de assaltar o caminhão. Olhe praí! Aí eu chamei todo mundo para conversar com a gente e disse: “Olhe, o rapaz traz a merenda, vem por aqui por trás, abre o portão e aí vocês querem levar a merenda na tora para casa ou para vender? Não vai, não”. Aí o pessoal: “Vamos conversar, Jamira. Vamos conversar, Norma. Vamos se juntar aí, não vamos deixar, não, os ‘caras’ de lá virem para cá roubar, não”. Aí eles começaram a criar uma resistência e aí deu porrada nos ‘caras’, os ‘caras’ foram embora. Tudo jovem, adolescente, não era homem de arma na mão. E aí eles desistiram de vir e o rapaz ficava agradecido, do carro, vinha tranquilo e eles mesmo tomavam conta, ajudavam a ‘botar’ lá dentro. Quando terminava, o rapaz aí dizia: “Sobrou, sempre que sobrar uma eu vou dar para vocês”. Aí ‘botava’ no saquinho e dava a eles. E a gente levou isso o ano todo, com merenda. Eles comiam da merenda sem precisar estar na escola, porque eles não queriam entrar na escola, não queriam estudar. A gente não podia forçar. Mas essa turma nos ajudou muito, muito. Hoje só tem vivo, eu pensava que era só Didoma, mas eu encontrei Washington Pequeno. Caraca! Fiquei assustada aqui na porta desse teatro hoje, sabe? Nesse teatro de hoje. Eu fiquei assustada. Quando eu saí, meio dia, daqui, que estou saindo do espaço, olha quem me bate. Olha, eu digo: “É fantasma, meu Deus. Eu estou vendo um fantasma na minha frente”. Aí ele virou e fez assim: “Oi, Jamira, é você, né? Eu estou sabendo que você está aí, nesse espaço”. Eu fiz: “Por que você não me procurou?” “Porque eu estava viajando. Eu estou voltando aqui para dentro desse bairro de novo, depois de anos, depois daquelas besteiras todas que eu fiz, Jamira. Eu voltei por causa do meu filho. Eu tenho um filho aqui, que veio morar aqui. E aí eu estou aqui, já sei que ninguém se lembra de mim, até você ficou me olhando um tempão, pensando que era a visagem. Quem poderia me conhecer mais era Zezinho, ele não está mais aqui”. Aí foi chamando os nomes das pessoas, todas morreram. E aí eu disse assim: “Rapaz, e aí?” Ele fez assim: “Eu estou aqui. Didoma, que eu conheço, né? Didoma a gente conhece. Didoma está acabado. Ele ficou por aqui, mas ele não criou mais nada para ele. Mas eu saí daqui, fui pro interior, fugido pro interior e quando eu voltei... lá no interior eu achei muita guarida, Jamira, muito apoio. E aí eu fiquei trabalhando, trabalhando, trabalhando e aí ganhei... ganhei, não, de graça, um sitiozinho pequeno, que eu fiz minha casa e comecei a plantar, a fazer essas coisas e vender na feira. E consegui criar meu filho com a minha esposa, gente boa, menina boa do interior. E aí meu filho cresceu, casou com uma menina aqui de Salvador - olha como é o destino! - está morando aqui no bairro do Uruguai, perto de você, você nem sabia. E ela parece que estava mandando o menino ir para aí. E, quando eu cheguei, a primeira coisa que ela disse, quando eu falei: “Menina, está tudo mudado. A escola continua a mesma, o mesmo instrumento, a mesma parede, mas tem ali o espaço cultural. E o cineteatro que disseram que iam fazer para ficar bonito foi destruído”. Ela fez: “É, meu pai. Mas tem uma pessoa que o senhor vai lembrar, é Jamira”. O filho dele dizia: “É Jamira”. Aí ele ficou quieto. Rapaz, quando eu bati com esse homem aí na porta desse teatro, eu fiquei emocionada. E haja história para contar, né? Tentar lembrar de coisas que apagaram, às vezes, da nossa memória. E essas coisas na educação, eu estou te chamando a atenção, é que a cultura tem um papel fundamental: é de resgatar a história. Mas a educação, com ela, resgata duas coisas importantes: o todo, como diz a minha professora, e como escreve Paulo Freire, que é um conjunto, não pode ficar separado. Não pode ficar separado. A gente só separa quando a gente vai dizer: “Quem coordena cultura, tem que pensar cultura, tem que estudar cultura, tem que estrategicamente trabalhar com a cultura. Entender de cultura. Quem trabalha com educação, a mesma coisa. Então, existe duas coordenações: a coordenação de cultura e a coordenação de educação. Mesmo que, pedagogicamente, as duas precisam. Então, vai ter que ter, na cultura, coordenadores pedagógicos da cultura e coordenadores pedagógicos da escola. Porque quando eles se sentarem para discutir, cada um dentro do seu ‘umbigo’, que é a cultura e a educação separados, não separados propriamente dito, mas separados no momento de dizer: “Olha, eu tenho que responder aqui, mas eu também traço isso depois que eu respondo a minha parte de cultura, os documentos de cultura. E a educação, a mesma coisa. Só nessa hora que há uma gaveta, para poder entender a documentação de um e de outro. E essa escola tem um valor muito forte. Não é só para mim, não. Baby, Lurdinha, Leninha, sabe? Jandaira, Jacira, Deia, Raimundo, Mingo, Vanderlei, Isael, sabe? Deia, Neia, sabe? Tanta gente que ficou, conheceu essa escola e cada um construiu, de uma forma ou de outra, no coletivo e ao mesmo tempo nas caixinhas, os sonhos, porque todo mundo sonhava em alguma coisa, mas que junto a gente sabia da importância desse sonho. Para cada um, que um ajudava o outro a ajudar a sonhar. Entendeu? E aí foi que começou o teatro a vir e eu comecei a me descobrir outra Jamira. Entendeu? Jamira, não é mais Janice. Eu entendo que eu tenho uma irmã gêmea, que meu pai fez a confusão toda. Sabe, teve uma menina, nasceu uma filha no mesmo dia que eu, a diferença é de horas diferenciadas, né? Uma nasceu 11, parece, da manhã, a outra nasceu... eu, no meu caso, nasci às 11 da manhã, a outra deve ter nascido às 11 da noite ou vice-versa, que eu nem me lembro mais. É tanta história, é tanta coisa na minha vida. Entendeu? Mas o que mais me importa é que hoje eu consigo, através da educação, da cultura e das pessoas, da presença de cada um, ser Jamira. Jamira, você entendeu? Eu consegui ser Jamira. Tem algumas histórias que eu não conto toda, como eu disse para vocês. Tem histórias que vocês já vão ouvir lá no ‘coisa’, porque são fatiadas. E tem umas que dói até hoje em falar, né? E aí eu negava o tempo todo, porque eu não tinha condições nem de falar das pessoas importantes na minha vida e que foram embora num momento difícil também para mim, também. Mas o resto eu tô conseguindo, sabe? Falar claramente, sem dor porque, quando você coloca para fora, quando você fala paras pessoas, na roda, conta a sua história, para que o outro entenda que a sua história tem uma importância na vida deles, fica mais fácil você romper, né? Psicólogo, Ave Maria, seria ‘massa’, eu sempre tive alguém para mediar. Ave Maria, não posso esquecer, não! De presente, aos 16 anos, eu conheci uma mulher maravilhosa, maravilhosa que, sabe, dançava, fazia dança e aí conheceu, veio fazer uma formação e, poxa, queria ficar aqui. E me conheceu, conheceu também uma amiga minha, Norma, mas que Norma foi para outra escola, depois foi fazer... casou, viveu a vida dela e eu fiquei aqui. E ela apareceu, né? Já estava, acho, com 18. Norma não participou no teatro, não. Norma foi um período de início da escola. Norma, Gorete, Sílvia, Cecília e as outras, que eu não me lembro do nome agora. Elas foram de baleado, de esporte, mas o teatro veio essa ‘galera’ que eu disse agora, que está até hoje comigo, mas não estão fazendo as mesmas coisas que eu, mas eles estão fazendo algo que eles sonharam em fazer. Isael, por exemplo, continua fazendo formação com jovens. A cultura está ligada a ele, de uma forma de mais de educação. Raimundo está fazendo, ele é o... no início, logo, o Centro de Arte e Meio Ambiente, foi ele quem criou, porque ele é geógrafo e ele estudava aqui as ocupações, (01:34:23) e tudo. Então, todo mundo tem uma identidade que não foi a identidade das outras. Casaram, foram viver os filhos, os maridos e eu fiquei, não casei, entendeu? Não fui ter filhos ainda, eu tive meu filho já com 21 anos de idade, elas ficaram mais cedo, uma com 17, outra com 18, tiveram filho, foram morar, entendeu? Foi equilibrando-as de uma forma... não sei se foi ruim, eu não acho que é ruim, não. É o que elas fizeram com a vida delas, entendeu? Elas fizeram as escolhas delas. E aí, entra essa turma, que é para dizer ‘estou aqui’, entendeu? A gente vai fazer teatro. E foi entrando, fazendo teatro, que a gente se encontrou. Veio o projeto, a gente aceitou, com a diretora na frente dizendo que toparia, que seria bom, que ia apresentar, que não sei o quê. E a gente embarcou 25 alunos no turno dos maiores e vinte no turno dos menores. Foi aí que a gente conheceu o maior Metrô, que é Vanderlei. Foi aí que eu conheci, me aproximei deles. Deia, Metrô, Jacira, entendeu? Porque Jacira não era do nosso, mas Deia e o Metrô, a irmã de Boni, que é Dalnízia, da associação, Deia. Tinha outra menina também, Nécia, terrível. Eu não sei quem era mais terrível, eu ou ela. Acho que é por isso que eu a aguentava, porque eu já tinha sido muito terrível.
(01:36:05) P/1 - Jamira.
R - Oi.
(01:36:07) P/1 - A associação já existia, nessa época?
R - Não, a associação em 1989.
(01:36:15) P/1 - É depois?
R - Foi. A Santa Luzia nasceu em 1989, entendeu? Mas ela dizia... Boni não, que Boni estava em casa, era a irmã dela que aparecia no teatro, cá. Lurdinha ainda estava fazendo na igreja, Lurdinha estava na igreja. Leninha estava tentando conhecer também a cidade, como eu. Foram duas pessoas que conseguiam ir para a cidade. Nesse período, ainda estava todo mundo em formação. Leninha e Lurdinha, que já tinha ido para outra escola, que não tinha segundo grau e aí ela foi estudar até o oitavo ano. E depois ela foi para outra escola, Costa e Silva, eu acho e João Florêncio. Aí se afastaram elas duas. Leninha e Lurdinha já tinham ido para lá. Elas começaram primeiro que eu, na escola Polivalente. E quando eu entrei eu acho que elas estavam saindo, entendeu? E aí a gente não se encontrou na escola. A gente se encontrou depois, vindo para cá, para o espaço cultural, que não é espaço cultural, a gente tinha a Visão Mundial, que fez uma proposta aqui e a gente veio para cá. Isael era o coordenador, foi coordenador aqui. Foi a partir daí que a gente começou a mexer, de fato, com o território, como um todo. E aí trazer pessoas, trazer a Associação Santa Luzia, que foi o convite e se juntar, para virar uma comissão de cultura, a Comissão de Cultura de Alagados. Foi aqui, nesse espaço, que era fechado, não era aberto, que a gente começou a se aproximar, na época de Isael. Foi na década de oitenta. Isael entrou em 1986, meu Deus? Não, 1982, já estava feito o espaço. Acho que 1982, filha, porque no Cine Teatro a gente não tinha Isael, o Isael foi embora, só ficou eu e duas meninas, que ficaram, para usar o espaço enquanto alternativa, para fazer oficinas com as pessoas que a gente já conhecia. E foi na época mais ruim. Também a queda do Cine Teatro foi retirada de todo o equipamento. São muitas histórias, que às vezes eu começo a contar minha história e aí mistura muito com as histórias do coletivo e aí eu perco os anos, assim, entendeu? O Cine Teatro foi na década de noventa. Não. Foi noventa? Foi. Não, eu troco, foi oitenta. Foi oitenta também, 1989 que foi esse teatro aqui, esse espaço cultural. Foi 1980, 1981 por aí, que eu estava fazendo já teatro com outras pessoas, que já tinham passado pelo processo de formação do Polivalente. E aí a gente caiu aqui, dentro desse espaço, para poder... a gente já tinha conseguido fazer esse espaço aqui com o Waldir Pires, foi no período do Waldir Pires e quando Isael foi o primeiro coordenador, 1989 nasceu esse espaço cultural, entendeu? E aí a gente fez o quê? Isael foi o primeiro coordenador e a gente começou a articular a Cammpi, que não é a Cammpi como nome, mas a Comissão de Cultura de Alagados, que aí veio Lurdinha, Leninha, veio outras pessoas da DOCE, Ana da DOCE, Raimundo, Mingo, uma turma, para discutir cultura, discutir... a ideia deles era discutir a Casa de Memória, que existia também Fafá, que hoje está lá em Pará, Belém, que foi uma pessoa que participou muito das lutas, com a gente. E aí a gente começou a pensar com Isael assumindo aqui. A gente levou, nesses dez anos, se articulando com a cidade, com o movimento de cultura, com o movimento de moradia, com todos os movimentos. E aí, quando a gente... Fafá veio e assumiu ficar por aqui, veio como assistente de Isael, na época, só que ela participava de todo o movimento, tudo. Se tivesse greve ela participava, se tivesse que ir para a rua ‘panelar’, ela ia. E aí chegou uma época que ela teve que fazer escolha, porque a Fundação Cultural perguntou a ela se ela estava do lado do estado ou se ela estava do lado do movimento, era para ela escolher. Ela escolheu ficar do lado do movimento e pediu demissão. E daí, quando Fafá pede demissão, a gente começa uma história mais ainda comprometedora, que é cada um se comprometer com o território. E aí Raimundo com o Centro de Arte e Meio Ambiente; Ana, da DOCE, com alimentação solidária; o pessoal do Camapet, que já foi um grupo que chegou mais adiante, depois da gente estar, na década de noventa, 2000, acho que foi 2000. Não, antes da Cammpi, antes de formar o nome Cammpi. Foi na década de noventa, não me lembro bem que ano foi. Mas aí o Camapet ocupou a área lá da... como é o nome? Leste. E chamou a gente. Chamou a associação, chamou o movimento como um todo. E nós fomos, principalmente a Associação Santa Luzia, porque ela tem um leque maior, um lastro maior da época, porque ela era escola. Então, a escola sempre... os professores vinham convidados para a luta, não vinham só convidados para dar aula, como é hoje. Hoje a gente convida para dar aula, mas as pessoas da luta continuam e trazendo outros, através da Rede Rebrotai. E aí, o que é que acontece? A gente foi, garantiu o espaço lá, dos meninos e a primeira formação que eles tiveram do estado, que eles ganharam, foi uma formação para criar uma cooperativa e, dentro dessa formação, tinha... eles chamaram eu, Baby, Lurdinha e outros profissionais da área de cooperativa. Tinha Lícia, Fafá. Fafá sempre foi uma assistente social, psicóloga. Eu a chamava de: “Eu não sei o que é que você quer ser quando crescer, - porque ela era baixinha e é baixinha até hoje - você é psicosocio. Psicosocio”. Aí ela dizia: “O que é que tem a ver isso?” Eu digo: “Porque você é uma assistente social completa. Além de você trabalhar com... não é assistencialismo. Você é assistente, entendeu? E psicóloga, porque você sabe lidar com as pessoas, quando você faz a formação”. E aí essa menina foi muito... construiu muita coisa junto com a gente. Muitas histórias, muitos documentos. Ela mais escrevia documentos, porque ela passou pelo estado. Ela teve acesso às informações. E essas informações não serviam para ela, serviam para o coletivo. E desse coletivo ampliou um monte de gente, para entender a política como uma coisa contínua, que não era só de quatro em quatro anos, mas que era a vida da gente o tempo inteiro dar continuidade nisso. E ela fez isso com a gente. Ela mostrou para a gente o real, a partir da prática que ela fez. E aí ela começou a inventar, mesmo. A querer construir junto com a gente coisas que a gente precisava formalizar, porque a gente, muito jovem e com pouca informação da cidade, só tinha duas pessoas que tentavam ir para a biblioteca, como eu. Leninha foi para o lado da questão racial e eu fui para o lado da questão da educação e da cultura. Que foi Cecup, Centro de Arte e Educação Popular. [na verdade Centro de Educação e Cultura Popular] Depois foi o CRIA, o MIAC, que o começo foi assim: o MIAC, hoje vai formar o CRIA, com o MIAC. E aí o movimento de meninos e meninas de rua, que foi ampliando, para que a gente pudesse ter parceria. E também, quando a gente conseguiu a Visão Mundial também, que ela contribuiu muito com a formação, naquela potência da associação, que é a Visão Mundial. Mesmo que todo mundo dissesse que os Estados Unidos só queriam jogar bomba aqui e jogar bomba lá, mas aí a gente dizia: “Então vamos pegar o dinheiro deles para curar a bomba, antes que eles venham tomar tudo”. E a gente decidiu, junto com a associação, foi a associação que decidiu isso, em muitas discussões do Movimento Negro, que a gente não estava achando que os Estados Unidos não era aquele, sabe, que o governo que estava lá prestava, mas a gente queria manter a relação, que era de uma ONG internacional que queria ajudar. Teve muita gente que disse que a gente estava aceitando o racismo, mas a gente descobriu que foi por esse viés que a Visão Mundial deu ‘asa para a gente voar’ cada vez mais, porque a gente não fazia o que a Visão Mundial só, queria. A Visão Mundial também faria o que a gente propõe. A gente tinha proposta com cultura, com educação, com saúde, entendeu? Então, a Visão Mundial sabia que a gente era uma potência. Que a gente, todas as mulheres juntas ali, com poucos homens, era potência. E vinha para cá visitar, fazer roda e perceber e as formações também, porque a formação é que mostra o caráter de cada um. Será que ninguém percebe a formação? Eu percebo aqui, com os meninos, só que eu não chamo de mau caráter porque é criança e adolescente estão formando o caráter, eles têm alguma coisa dentro deles, mas é formação, não tem que ter um caráter. Então, se você tem uma formação que mostra, que dá a possibilidade de fazer o menino, você ser o facilitador e ele ser o construtor da sua própria história, como diz o nosso mestre e eterno Paulo Freire, o nosso Cristo, nosso Deus, nosso Jeová, que é revolucionário, que consta que nenhuma historinha de Deus foi de chorar, a não ser chorar pela dor, como eu choro pela dor, mas é de revolução, é de saber que se destrói o outro, mas que constrói o outro de cá e que continua insistindo em manter as pessoas vivas no mundo, trazer as pessoas à tona para esse mundo, para elas aprenderem. Então, um homem desse não pode chamar de ser coitadinho. Por isso que eu acho que, quando eu brigava com ele na infância e na adolescência, era dizendo isso, o provocando, ele me provocando e ele me provocou muito, entendeu? Por isso que eu acho que eu não tenho religião, eu tenho espiritualidade, entendeu? Tenho respeito por uma casa que hoje a gente precisou fazê-la existir, porque esse lugar também não é de coitadinho. Não é um lugar de coitadinho, é um lugar de dizer: “Vamos construir cidadania também, a espiritualidade. Vamos construir cidadania, salvando a vida das pessoas, usando o que é de terra, o que é de bom, o que é de folha, o que é de material que dê para fazer xarope, para curar a tuberculose, entendeu?
(01:49:20) P/1 - Jamira.
R - Fala, minha filha. Desculpa.
(01:49:25) P/1 - Imagina, imagina, (risos) desculpa te interromper. Eu queria entender, nesse momento que você está contando, como é que surgiu? O que surgiu primeiro, então, foi o espaço cultural e depois veio a associação, ou tudo foi surgindo ao mesmo tempo? Como é que foi isso?
R - A escola foi em 1989. Ela nasceu praticamente no período do espaço cultural. A diferença é que a escola começou em julho e o espaço acho que foi em novembro. De verdade, com a coordenação, em novembro. Então, tem esses períodos que eu não consigo lembrar mesmo, só se olhar em documento, que a escola surgiu lá, em julho. Associação em julho, 1989, Associação de Moradores do Conjunto Santa Luzia, com o objetivo... a gente já estava aqui no espaço e aí, o que foi que aconteceu? Quando a escola nasceu, em 1990, pronto, peguei, o que foi que a gente fez? A cultura, através das discussões que tinha aqui, que Fafá estava junto com Isael, a gente ia fazer... Isael fazia o palhaço, na praça. Eu trabalhava com pintura, desenho, pintava o rosto dos meninos e ela fazia esse exercício, entendeu? Mas eu só vinha domingo, porque domingo eu trabalhava lá na Escola Sião e eu não tinha tempo de dia, então eu só vinha para sábado e domingo, ou no feriado, quando tinha um feriado. Então, essas coisas, essas conexões com Isael, eu permaneci aqui nesse espaço também, mas na época a gente fazia ensaio. Metrô estava fazendo um monólogo com Guilherme, Luiz, eu não queria fazer teatro na época, eu ficava montando alguns trabalhos com criança, de teatro. Eu não fazia o teatro, eu não queria ser atriz, eu queria fazer, dirigir espetáculo. Então, eu dirigia um espetáculo com os meninos pequenos, com quem queria fazer teatro, com adolescentes, e aí a gente apresentava sempre na pracinha da escola. Foi essa aproximação que fez a gente se ver melhor, mesmo morando perto, a distância é muito pouca, mas a gente, todo mundo era cada um no seu quadrado, a cultura aqui e a escola lá. E foi com a escola, nascida na escola, que a gente começou a perceber a importância de estar procurando essa escola comunitária, que eu também já conhecia e já ouvia falar que existia escolas comunitárias, entendeu? E aí a gente vai para lá. Nesse período que a gente... de noventa, nasceu, 1992 eu fui chamada para trabalhar lá. Foi quando eu precisei realmente de estar trabalhando, porque eu fazia tanta coisa, mas não tinha um emprego estável, não trabalhava lá no Sião. O Sião foi depois, ou eu já estava... não, não estava no Sião. Está complicado, eu não me lembro bem se essa passagem eu estava ou eu já estava aqui, entendeu? Porque eu fui, depois de muito tempo que eu fui, mas quando eu entrei na escola, entrei de cabeça, foi aí que eu não saí mais. Então o Sião, para mim, foi uma parte mais para trás. Eu estava desempregada já, eu estava fazendo jogo de bicho, na época, numa banca que Isael deixou, me apresentou a pessoa, eu estava fazendo jogo de bicho, para sobreviver. E aí também fui chamada para uma escola particular aqui, que não era particular, o ‘cara’ fez a escola e aí descobriu que Jandaíra... foi aí também que eu me ‘colo’ de novo com Jandaíra que, aliás, foi a única que a gente nunca se separou. Ela, Isael e Metrô, a gente nunca se separou, ficou junto. E aí, o que foi que aconteceu? Eu fui para essa escola convidada por Jandaíra, que a moça disse que ia querer que a gente... para poder acabar com a banca dela, porque a banca dela era forte e aí colocou a gente para trabalhar na escola. Só que chegou um momento, ela viu a escola cheia de meninos, porque Jandaíra levou todo mundo para lá, a banca era paga pouco, mas algumas mães que não podiam pagar, ela conversou com ela e aí começou a aceitar o que Jandaíra propõe, que os meninos vão para lá e que vá conversar, quem pode pagar, dava o carnê e os que não podiam pagar, mantinham a relação. E aí ela foi deixando. Depois, também, comigo, que já conhecia alguns meninos na comunidade, para ir para a escola, para matricular lá. Nesse período, que foi um sofrimento muito grande porque, quando eles descobriram que a escola estava cheia e tudo, eles começaram a querer formalizar a escola e eu e Jandaíra não tinha ainda o magistério, que era magistério na época, só tinha o segundo grau, eu contabilidade, Jandaíra administração, eles disseram que não dava para ficar, pepepe, pepepe, porque a gente não era formada no magistério. E a gente sai da escola, primeiro eu, depois Jandaíra e a gente... Jandaíra volta para a banca da casa dela e eu continuo com ela, dando banca ali, dando banca aqui, mas muito pouco ganhando. E eu já estava com o Tiago, já, meu Deus? Foi uma fase de 2021, acho que por aí. Isso aí são anos, é confuso. Eu tinha que pegar todas as datas, fazer um memorando, para poder lembrar, mas eu me lembro que eu estava com filho, o Tiago estava pequeno e minha mãe ficava com ele e eu trabalhava, só que o pouco que eu ganhava, eu dava, levava para ele lá e já estava morando na mesma casa que eu saí, quando a gente conseguiu alugar uma casa, porque minha irmã achou melhor alugar uma casa, que era muito pequena para todo mundo. E aí eu fiquei na casa e minha mãe ficou com o Tiago, mas eu só dormia na casa no final de semana e ia para lá ficar com ela, em Brotas. Depois eu decidi trazer o Tiago para perto de mim. Aí foi quando o Tiago foi... não, está confuso. 1990 eu trabalhei no Sião. Quando eu cheguei lá no Sião, o Tiago já era nascido. E aí foi por isso que eu fui para lá. Depois que o Tiago já estava com seis anos, que eu saí, porque a Rutinha, diretora da escola, foi posta para fora pelo tio e aí eu não aceitei também, aí pedi demissão. Foi eu que pedi demissão. E aí, com essa demissão, eu voltei só, sem condições nenhuma de continuar criando meu filho. Tinha que voltar, fazer tudo o que eu fazia antes: bicho, trabalhar em paneleiro, trabalhar em mercado, foi muito mercado. Eu passei pelo mercado, o primeiro Bom Preço. Passei também pelo Paes Mendonça. Esse período todo que eu vivi todas essas experiências, eu continuava aqui, com o Isael, no domingo. Eu vinha para cá para ajudar, para assistir filme, para acompanhá-lo com as formações. E foi nesse período que eu estava assim que eu, conversando com o Fafá, Fafá disse: “Olha, tem uma vaga lá na Luiza Mahin. Eu vou pedir às meninas, porque eu sei que elas têm dificuldade de pessoas assim, que não levam a sério. Olha você, de sandalhão e de cabelo (01:58:20). Vai começar a dizer que você tem que ser professora” “Mas eu não sou professora, eu tenho o segundo grau, só”. Aí a gente foi para lá. Foi uma confusão terrível, porque a escola foi dividir uma turma. A sala era um escritório pequeno, que é embaixo hoje, que é a secretaria sozinha. Ela era a secretaria e do lado do beco tinha a cozinha. E a sala era ali. Era tudo pequenininho. E aí, quando a gente foi chegar lá, vixi Maria, a sala tinha menino até na porta, com a cadeira. E aí elas me disseram: “Olha, vai ser essa turma que você vai dividir com a professora Cristina”. Foi em 1992, em julho de 1992. Aí eu disse: “E vai ser aonde eu vou ensinar?” Aí ela fez: “A gente vai alugar uma casa”. Na rua onde Lurdinha mora mesmo tinha uma casa, que até hoje ela existe. Ela pegou e fez: “A gente vai lá, para aquela casa, uma casa aqui perto e você vai ficar com os meninos, a sua turma aqui, mas vai ter uma pessoa que vai trazer a merenda, você pode levar os meninos para brincar lá. Mas a gente precisa separar, porque tem muito menino que sabe ler e tem muitos meninos que não sabem ler. Tem meninos que brigam muito e a professora não está aguentando mais”. E eu também, só em ver o fato da sala estar cheia e a gente não pode evitar os meninos, para poder deixar os meninos fora da sala de aula”. Porque na época... a escola sempre foi um problema para a educação infantil. Aparecer foi muita luta, porque a educação infantil, até na década de noventa a gente não tinha uma escola, a não ser particular, para tratar da infância. E você sabe que particular era da vizinha, que fez a sua escola. Como formava a banca, depois virava escola particular e cobrava mais barato, mas em compensação o ensino era reduzido cada vez mais e a turma era sempre pequena. E nesse processo daí a Luísa Mahin, quando surgiu, surgiu não para resolver o problema de toda a população, mas sim resolver o problema que estava ali, dentro do conjunto, que a proposta delas era essa: respeitar os moradores, por isso que o nome da associação é esse, do Conjunto Santa Luzia. Então, a escola nasceu com esse intuito, de melhorar cada vez mais a educação e a saúde, para atender as crianças do Conjunto Santa Luzia. E aí foi quando começou a crescer, a ser vista como escolinha do bairro, que era de graça, era uma taxa que era tão irrisória que nem todo mundo pagava, foi que começou o ‘chamario’ e a gente, aí foi que elas aumentaram mais a turma e cresceu essa turma e essa sala não dava, não cabia. Aí, o que foi? Eu fui em 1992 dividir a turma e sair dali para uma casa alugada, que elas alugaram. Foi também numa época que chegou a Visão Mundial. Eu fui chegando, a Visão Mundial estava entrando e eu fui chegando com ela. Não passei a cerca que as meninas passaram, de ganhar um dinheirinho ali, um dinheirinho aqui, para poder continuar dando aula. E aí eu entrei já prestes a Visão Mundial a fazer o contrato com o projeto Programa de Desenvolvimento de Área, na Associação Santa Luzia, que era chamado de PDA. E aí eu peguei e entrei nessa hora boa também. E aí comecei, de noventa reais que eu ganhava na escola, eu passei a ganhar trezentos reais, para dar aula de manhã. E aí eu fiquei encantada. Eu disse: “Meu Deus, vou ganhar dinheiro e até poder pagar minhas contas e trazer meu filho também”. E aí foi que eu percebi que esse lugar tinha que melhorar cada vez mais, porque aquela proposta ali não era para matar ninguém, era para sobrevivência daquelas pessoas, porque Lurdinha e Leninha trabalhavam fora. Lurdinha era enfermeira, Leninha ensinava em uma escola. A primeira a sair foi ela, porque ela achava que o pessoal tinha muito racismo com ela. E aí ela se mandou. “Lurdinha, vou aproveitar, vou ficar aqui na associação”. E Lurdinha continuou na enfermagem, mas chegou um tempo que Lurdinha teve que também vir de volta, para dentro. Foi quando a Visão Mundial entrou de fato, de vez. E aí todo mundo rompeu com os trabalhos de massacre, que antes já estava sendo massacrada demais. E aí elas ficaram, eu sabia da existência, mas só indo para a cultura, para lá, para fazer as apresentações na praça, para ver as praças, brincar com os meninos, apresentar palhaço com Isael e Fafá. E aí foi que a gente se aproximou de Lurdinha e Leninha, de verdade. Agora a gente vai conhecer essas duas mulheres. E depois Fafá disse que estava precisando de uma vaga e me chamou, para ir me apresentar lá. Aí, quando eu cheguei lá, me apresentei, disse a elas que não tinha magistério, mas que eu dava banca e que também tinha uma menina que dava banca, se elas precisassem, eu ia chamá-la também e a gente ensinava os meninos a partir do que a gente aprendeu na vida. Aí ela: “Ah, gostei da sua conversa, não sei o que, eu só acho que você deve calçar sapato”. Aí começou aquela coisa, sabe, a coordenadora pedagógica. Não era coordenadora pedagógica, na época, a professora Diva. Ela fazia, porque você sabe que os meninos já são pobres, aí chega uma professora de sandalhão, de cabelo sem pentear, uma camisa grandona, certo? Aí os meninos vão dizer o quê? Nunca vão me respeitar como professora. Eu digo: “Mas eu não sou professora, eu sou educadora. E educadora não tem aparência, não. Tem uma coisa chamada que não pode suja, a unha suja, o cabelo sujo, mas o resto, a roupa que eu gosto, eu quero vestir”. Aí ela: “Mas pelo menos calça sapato”. Aí eu provei para ela que eu tinha um problema no calo, no pé, que eu não usava sapato, mas que eu poderia ‘botar’ uma sandalinha de couro para subir no pé, entendeu? E aí eu fui me adaptando às exigências, que foi bom também, por um lado foi bom, porque a gente nunca é ruim no que as pessoas nos ensinam e nos provocam, né? E aí eu comecei a ir, mas eu ia mais com uma sandália e avisava os meninos, eu tirava o pé e mostrava o calo, o mostrava e diziam: “É por isso que você não calça o sapato?” Eu digo: “É, filho, porque se eu calçar o sapato vai ficar doendo o meu pé e não vou conseguir nem pensar, porque o nosso cérebro também está no pé, está tudo ligado ao corpo, está tudo ligado”. E aí eu comecei a dizer aos meninos, os meninos iam de sapato, iam com a fardinha e nunca tive problema deles não irem de farda, como os que não tinham farda a gente dava, né? Os meninos diziam: “Jamira, não tem farda, não?” “Pode trazer, que eu vou dar a farda”. A fardinha era feita de máquina, rosinha, não esqueço, cheia de quadrinhos e aí os meninos vinham de farda e ela entendeu que eu poderia usar o que eu quisesse nos pés e também na roupa, que os meninos não iam fazer igual, porque eu estava na roda, dizendo aos meninos. Também Lurdinha percebeu, mais Leninha que, mesmo com toda a dificuldade de me entender, eu conseguia ser educadora e era isso que os meninos precisavam, de uma educadora e não de uma professora, no momento, formada, com título, com magistério e aí elas toparam fazer eu continuar e aí eu continuei na escola, fui seguindo, dando minha aula do meu jeito, do jeito que eu gostava de dar, entendeu? Do jeito que eu lia Paulo Freire, que eu comecei a ler Paulo Freire dentro do teatro, escutando a voz daquela mulher, que dizia: “Um dia você vai ler, um dia você vai entender o que ele fala, você vai aprender a ver”. E isso eu trouxe. Eu acho que todas elas que passaram, entendeu? Aí eu trouxe isso, então as meninas acreditaram nisso, Fafá ficou muito feliz e disse: “Mira, quando eu via você sentada na praça, no meio das crianças, conversando com as crianças, ensinando as crianças até a ver, como você diz, eu entendi que a escola Luiza Mahin, depois que eu conheci aquela escola, que eu comecei a juntar com outras pessoas, para fazer a proposta política pedagógica, eu entendi que aquela escola merecia ter você, porque vai ganhar o dinheiro, vai ser feliz e elas porque vai ganhar uma pessoa como você, entendeu?” Porque eu sempre garanti, mesmo fora da educação, eu sempre garanti na rua, na praça, esse lugar de educação, esse lugar de ensinar o menino a ver, não a ler, a ver, porque ninguém ensina nada a ninguém, a gente aprende com o outro, entendeu? E é uma troca muito especial isso. E aí ela fez... eu fiquei na escola, aí fui, fui, fui, fui vendo. Tive a oportunidade de conhecer Paulo Freire, sabe? Não cheguei perto, mas eu ganhei um convite do Cecup, não posso esquecer esse convite, foi maravilhoso para a minha vida. Conheci Paulo Freire e Emília Ferreiro, os dois. Quanto mais ela falava e ele falava, mais eu ficava emocionada, eu me emocionava. Eu me sentia uma educadora, nunca me senti professora, nunca, só me senti educadora. E fiquei feliz com esse presente de ir lá. E desse presente eu também ganhei uma formação, no período que Emília Ferreiro estava entrando nas escolas de Primeiro Mundo e o Cecup me indicou para eu fazer a formação na Lua Nova, a Escola Lua Nova, na Pituba. E foi lá que eu também entendi que todas as crianças, o conhecimento delas era muito parecido. Que o som das palavras, cada um escrevia como ouvia. E eu me apaixonei por educação, me apaixonei mesmo, de verdade. Eu ensinava para sobreviver, mas depois virou paixão. E aí eu comecei a viver um ano dentro da Lua Nova. E toda vez que eu levava o material dos meninos, a professora voltava junto com os outros meninos ricos, sem o nome na frente, claro, é até falta de ética isso, falar dos nomes. Às vezes eu falo, mas eu fico me pedindo perdão, mas de emoção eu falo. E aí eles começaram a perceber que a escrita era muito igual, quem era (02:10:44), quem era alfabetizado, quem não era. E aí fez: “Puxa, quando eu dizia...”, aí a professora dizia: “Esse daqui é da escola que Jamira está trazendo e esse daqui é de outra escola, esse daqui é de outra escola, o que é que vocês acharam?” Pronto. Todo mundo acreditava que Emília era o caminho certo, a pesquisa de Emília Ferreiro. E o mestre Paulo Freire, que não fica de lado. E pronto, eu voltei para a escola dizendo: “Gente, vamos pensar nisso, vamos pensar nessa metodologia”. Mas aí sonho que se sonha só, não é sonho. Você tem que convencer o outro, seu sonho. O outro só conhece o seu sonho se você falar, se você diz, se você expressa, se você mostra. Eu fiz na sala. Já que eu não podia falar, já que eu não podia me expressar, já que eu não podia levar todo mundo, eu comecei a fazer na minha sala música, metodologia que entrasse tudo que você pensasse, como um instrumento para alimentar a construção do conhecimento dos próprios alunos. Facilitar a vida deles, dar-lhes instrumento, para poder aprender a ler e escrever. E daí não parei mais. Foi quando Lurdinha me chamou para... estava cansada, já, a coordenadora pedagógica, Sônia, que já era desde... elas foram construtoras daquele lugar, elas começaram em 1990, respeitar aquilo que elas fizeram o tempo inteiro. Sem dinheiro, ganhando pouco, as pessoas pagavam, Lurdinha juntava, dava um pouquinho a um, um pouquinho a outro. Pelo momento que ela passou também, de escrever em papel de computador, não ter um computador, escrever tudo à mão. Isso tudo que ela construiu. Não era fácil. E aí ela estava indo, diminuindo a carga, porque ela estava recebendo também, mas ela não queria trabalhar nos turnos. Estava cansada, estava desgastada também. E aí Lurdinha me chamou para fazer uma dobradinha. Diva teve que se afastar, por causa da saúde e ficou Sônia. E Sônia também trabalhava muito com Diva, na coordenação pedagógica. E aí eu comecei a dividir com Sônia. Um turno era, um turno era Sônia, mas eu estava em sala de aula, eu continuava em sala de aula, porque eu gostava de ensinar. Aliás, eu gostava de aprender. (risos) Aí eu comecei a ficar com coordenação dos meninos maiores e Sônia ficou com os menores, educação infantil e a gente tinha (02:13:48) muito grande...
(02:13:48) P/1 - Jamira.
R - Diga.
(02:13:51) P/1 - Eu só queria pedir para você se afastar um pouco da tela, porque está cortando o seu rosto na metade. (risos) Pode continuar.
R - A cadeira anda, eu vou junto com ela.
(02:14:02) P/1 - Pode continuar.
R - E aí pronto, a gente começou a trocar. Aí eu comecei também a cutucar lá fora. Caiu um convite para escola... de luva, né? Porque tudo tem a mão do nosso Pai. É por isso que eu o chamo de revolucionário. Aí aparecia lá: “A Escola Comunitária Luiza Mahin tem uma formação, tal dia”, lá no CAB. Não no CAB, no IAT. Aí eu dizia: “Oxe, eu vou, Lurdinha. Você quer ir? Eu quero ir”. Aí me inscrevia e eu ia. Quando eu chegava lá, o pessoal ficava me perguntando: “Você é de que Direc?” Eu não sabia o que era. Aí eu perguntava: “Você é de que Direc?” Aí a pessoa respondia: “Eu sou da Direc 1A”. Aí eu fiz: “Bem, quantas Direcs têm? Você se lembra? Você é do interior de Salvador”. Jogava uma conversa, para poder conhecer o que era. E aí, minha amiga, um dia, nossa amada reikiana da vida, que é séria, que eu não vou esquecer essa mulher nunca, entendeu? Ela me chamou no canto e fez assim: “Vem cá, todo mundo assina e bota Direc, só você...”. Eu tô aqui olhando os papéis, para corrigir, porque tem que corrigir. É boa? A merenda era ótima, viu? Os lanches, minha filha, ave Maria, banquete. A qualidade do conteúdo de educação maravilhosa. Tudo que eu aprendi também lá, entendeu? Para entender teoria e prática, entendeu, foi lá. Não precisei só entrar, querer entrar na universidade, não. Foi lá, com grandes mestres, grandes professores, grandes contadores de história. E aí eu disse: “Tá, filha, é porque eu não tenho Direc”. Aí ela falou: “Você não tem, você está fazendo o que aqui? Você é de que escola?” “Escola Comunitária Luiza Mahin” “Ai, meu Deus!”, caiu a ficha dela. “Você é escola comunitária? Você não é que está lá no Rio Vermelho?” Eu digo: “Não. A gente nem conhece essa escola. A gente é do bairro do Uruguai, do Conjunto Santa Luzia”. Aí ela fez: “Porque é assim: todo mundo falou, a sua certificação, está aqui. Aí eu não mando, tô querendo ver a Direc para mandar e não consigo mandar”. Eu fiz: “Sabe de uma, filha? Vou contar a verdade para você: eu não sei nem o que é Direc, entendeu? Agora, quando fala de formação de educação, juro para você, eu largo qualquer coisa, para fazer”. Aí ela fez assim: “Menina, você está falando sério?” “Estou”. E aí comecei a contar a história da escola, como nasceu e tudo e como eu fui para lá. Ela: “Rapaz, que história, eu queria conhecer”. E digo: “Você pode ir lá qualquer hora que você quiser. Eu dou o endereço, você não precisa nem marcar”. Aí ela fez assim: “Eu vou pegar o seu contato, vou ‘botar’ o nome do contato da escola, que vocês ‘botaram’ aqui e vou começar a visitar essa escola”. Aí eu falei: “No dia que você visitar, você vai gostar muito e vai acreditar nela. Porque, na verdade, a gente toma formação não para poder ter diploma, certificado. A gente toma formação porque cada formação que vocês dão aqui que alimenta a minha alma”. Aí ela ficou emocionada, com isso. E aí veio um dia na escola, conheceu, falou com todo mundo, falou com os professores, fez uma roda. Foi aí que todo mundo pôde fazer a formação. Todo mundo. Aí eu ‘botava’ Célia mesmo, porque Célia adorava as oficinas de matemática. Eu nem pensar. Todas, se tivesse, eu estava lá. De literatura, de contação de história, de plano de formato de planejamento, proposta política pedagógica, eu estava lá, com todo mundo. E aí a escola cresceu ali dentro, de uma força muito grande. E o que foi que ela fez? Começou a dar outra brecha para a escola comunitária. Eu levei Selma, a outra menina e outra foi. Menina, a gente tomou formação que ganhou muita gente, muitos profissionais bons. E tem uma menina, que eu esqueci o nome dela, ela veio exclusivamente para formalizar nossa proposta política pedagógica. Ela escutou a gente muito tempo. E na hora de escrever, ela chamava cada um, para ouvir a história. Rapaz, foi uma proposta política pedagógica construída da criança ao adulto. E foi a coisa mais emocionante a entrega dessa proposta. E, nesse lugar, Lurdinha sempre gostou de moradia, sempre defendeu moradia. A saúde a gente não conseguiu, porque curativa tem que ser... a pessoa está doente, tem que indicar remédio, não sei o quê. A gente não é médico. E nem é, não tem nem auxiliar de médico. (risos) Porque, se existisse educadora social de médico, talvez as pessoas respeitassem e não ficassem com medo de morrer, porque tomar remédio, às vezes você pode morrer com remédio. Apesar de que ainda tem gente que receita remédio, receita folhas, chá natural, entendeu? E aí a gente começou a pensar na curativa. Helena e Odete estavam também na saúde e a gente pensou na curativa, não na preventiva, mas não dava certo, porque as pessoas só chegavam já na hora de misericórdia, de tomar aquele remédio para curar. E aí a gente começou a trabalhar com os meninos, na escola. Alimentação. A questão, por exemplo, de beber água, de trazer pessoas para falar sobre a higiene pessoal, a bucal. E aí a gente começou a prevenção dentro da própria escola. E da escola que a gente foi crescendo para os pais. E o posto não resistia. A gente estava ali, depois veio um, a gente conseguiu dentista, era de fora e esse dentista vinha para tratar a boca, não tirar os dentes. Mas aí tinha alguns casos que precisava extrair. E outros casos precisava só fazer obturação, essas coisas. E foi muito bom. Foi quando a gente acreditou, de fato, que a gente poderia trabalhar a partir do que era mais necessário na comunidade, que é a perda dos dentes. Muito grande a perda de muitas crianças, que começam a perder dente muito cedo. E não é porque cai. Nasce o permanente e desce rápido. E aí a gente começou a fazer esse levantamento. E aí vieram esses médicos e nos ajudaram muito, muito, muito, muito. Teve o tempo deles, eles não falavam a nossa língua, o representante que falava, mas eles conseguiam se comunicar a partir do que eles mostravam no dente. As pessoas tiravam a radiografia e fez um, na verdade, laboratório ali. E em cima eles dormiam, para não pagar hospedagem, para também não sair de perto da comunidade, viver a comunidade, entendeu? E aí foi daí que eu participei desses processos, de 1992 até hoje. Eu posso estar fora de lá quanto professora, quanto educadora, quanto gestão da escola, mas eu não perdi o laço com a associação. Ninguém vai poder tirar esse laço, porque esse laço é de construir junto, de entender que a história não pode ser sozinha. Não tem ninguém herói nessa história toda, nem Cristo era herói, porque ele foi... ele precisou de uma mulher, de um homem para poder vir, para poder as pessoas acreditarem que ele era de carne e osso, entendeu? Então, assim: a gente vive num mundo onde nada é para cima, é dos lados, é numa roda, é numa relação positiva de dor, que ninguém sofre sozinho, todo mundo também tem a... hoje eu posso estar fazendo aqui a conversa feliz, o outro também pode estar fazendo outra conversa feliz e o mundo é de todo mundo e a gente se encontra. Ninguém é único em nada. A gente só é único para Deus, porque Ele fez uma forma única de cada um, por Ele pensar que, se a gente fosse único, sozinho, a gente não ia gerar tanto produto que a gente gera em qualquer mundo, em qualquer lugar. Quando se tem pessoas para estar nessa parede, construir essa parede, essa parede só vai ter vida se tiver gente dentro dela. E com problemas ou sem problemas, a gente vai ter que se decidir como é que a gente vai resolver os bons problemas, os maus problemas e os problemas que não tem jeito, às vezes, que dependem mais de cada um isolado do que do coletivo. A gente aprendeu também, naquele mundo que eu venho desde criança e adolescente, que a vida, tudo acontece não é por acaso. A vida acontece porque a gente está ligada a um fio condutor espiritual muito bonito, que traz a gente para real situação, no qual a gente vai fazer parte. A missão não é puramente a profissão, porque se fosse, eu não chegava até onde eu cheguei, porque eu não tenho profissão até hoje. Eu me intitulo educadora social. Será que existe? Para universidade responder. Eu me intitulei. Tentaram, aqui na Secretaria de Cultura, me ‘botar’ um bocado de curso, para me descobrir quem eu era, porque eu era tanto, tinha tanta gente comigo, que eles disseram assim: “A Jamira é produtora, Jamira é mobilizadora, Jamira é coordenadora, Jamira é o que, mesmo?” Ave Maria! ‘Botou’ em tanto curso, que eu até dizia: “Parece comigo um pouquinho”, mas depois dizia: “Mas isso aí é uma profissão, não tem nada a ver”, entendeu? Então, captar profissão não significa que tem que ser amarrado. A gente é uma pessoa e, quando a gente é uma pessoa, a gente não vai precisar de profissão descrita. A gente vai precisar só da gente, do nosso caráter, da nossa dignidade, do nosso respeito, do nosso amor e da nossa compreensão. Fora disso, a profissão vem depois. Olha quanta coisa para chegar a profissão! Porque a profissão não significa que você só vai fazer aquilo. Porque, quando você tem o mundo aos seus pés, dentro daquilo que Paulo Freire sempre falou, você não pode se prender a uma profissão. Você pode ajudar a entender aquele processo de um corpo, de uma mente, de um produto, de um espaço, mas você não pode compreender a vida humana, se você não for humano. E quando você diz que o mundo pode se transformar em uma máquina, o mundo sempre teve máquina. Mas quem dominava a máquina sempre foi o homem, a mulher, o coletivo. A gente não vai mudar de história. A gente evoluiu também. As máquinas também evoluíram. As pessoas também evoluíram. Agora tem um coletivo. Ninguém mais trabalha só. Todo mundo se junta para, coletivamente, cada um respeitar o que o outro faz. Eu não preciso, na idade que eu estou, formalizar, entrar numa universidade, doutorar, mestrar, para que o outro me respeite enquanto membro, me respeite como mulher, me respeite como educadora, me respeite como mobilizadora, me respeite como agitadora de cultura. Eu não preciso. Agora, se eu sentir vontade, porque eu já tentei, eu já vim, eu já tentei entrar até no online, mas esqueço. Oxe, eu esqueci de dar aula. Se você deixar, Minas Gerais mesmo já deve dizer assim: “Eu não quero mais essa mulher para fazer, para entrar na universidade, porque ela nunca dá o alô, só faz escrever”. Porque não é para eu fazer isso. Que, se fosse, eu tinha ficado dentro das universidades que passei. Eu passei pelas universidades não foi para ensinar, foi para dizer que a educação tem um sentido muito maior do que centrá-la fechada no conhecimento só de um, dos livros, só de um que estudou e doutorou. A educação tem que ser vista a partir do outro que está dentro da sala, para construir junto, junto, junto, os saberes e depois escolher o que vai ser e vai estudar a partir da escolha e não porque tem que passar por tudo isso para fazer uma escolha que, às vezes, é tão sofrida, que chega a pesquisar para descobrir porque que as pessoas, uma é diferente da outra. E na hora que a gente olha na prática, a gente sente que cada criança tem o seu universo e o seu poder de construir algo que é seu, mas que no coletivo vai ficar grande. Aqui nesse espaço, digo para você ‘de cadeira’, vai olhar, ‘botar’ essa porta de vidro foi a melhor coisa, porque quando tinha a outra eu tinha que abrir e ficar com ela aberta e não tinha condições e todo mundo reclamava da zoada. Mas essa porta de vidro me deu uma sensação de pertencimento à educação dentro desse espaço. E mesmo respondendo documento, às vezes eu olho uma criança brincando e, quando ela brinca, eu aprendo com ela o momento dela estar dando ao outro, a outra criança, ao outro que está olhando-a, ao outro que está junto com ela, o aprendizado. Está ensinando. Se é para ensinar, como todo mundo quer, ela está ensinando. Quando ela canta, quando ela toca, quando ela ‘bota’ o brinquedo arrumado, de casinha, que pega uma florzinha daquela que está linda, vermelha, tira e ‘bota’ num vasinho ou num copo, em cima da mesa, ela está... vou ter que parar um pouquinho. Pode ser?
(02:31:18) [interrupção]
(02:32:28) P/1 - Fica tranquila.
R - É Lurdinha, porque ela, assim, quando ela vê eu demorar demais, sabe que eu estou aqui, não viu eu chegar. Já são, né, o horário. Aí ela esqueceu que eu tinha uma entrevista com vocês e aí ligou para perguntar, porque ela vai sair e vai deixar um material lá na mesa, para eu trazer. Me desculpe. Ela também pediu desculpa.
(02:32:51) P/1 - Imagina, não tem problema nenhum. Eu queria fazer uma pergunta para você. Você estava contando, quando a gente se falou pelo telefone, que tinha um protagonismo das mulheres na sua história, né? Eu queria que você contasse um pouco sobre isso e contasse também um pouco, se você puder, sobre o Mulheres na Laje.
R - O protagonismo dessas mulheres, você viu, desde a história que estou contando, sempre tem uma mulher, entendeu? A maioria é mulher. Nenhum homem me ensinou nada, a não ser agora, entendeu? Aliás, no período que eu entrei aqui, 2009, foi por um homem, que fez assim: “Você vai, sim, coordenar o espaço cultural, porque você tem competência para isso”. E foi um homem jovem, Ramon, entendeu? Ramon foi a figura que eu lembro a minha... porque ele me chama de tia: “Tia, você vai sim coordenar aquele espaço, porque se você for coordenar aquele espaço, a gente vai viver coisas diferentes. Já saímos da escola, já estamos na escola pública. Na escola pública eu não me identifiquei, mas eu estudei, porque a senhora dizia: ‘Vá lá e dê o recado, vá estudar’. E agora eu quero voltar para a Luiza Mahin. E eu, voltando para a Luiza Mahin, continuei fazendo as coisas que eu acredito, com a senhora. Então, agora a senhora vai assumir lá, sabe por quê? Porque, se a senhora assumir lá, a gente vai junto”. E a maioria era homem, mais jovem. Mas foi só esse lugar deles. O resto foi mulheres. A minha trajetória toda foi mulheres. Tudo que eu aprendi, tudo que eu sou, tudo que eu ainda pretendo ser, tem mulheres na jogada. São mulheres protagonistas, de verdade, com o todo. Se preocupa com o saber, o que você está aprendendo, do que você é, como é que você reage, por que você reage assim? Foi isso que me fez chegar até aqui. Porque cada um, até uma pessoa menos que dizia que não ia, não poderia ser uma pessoa que não ia mudar a vida de ninguém, conseguiu mudar, porque houve respeito. Também se trabalhou para poder fazer aquilo, com muitas professoras que me negavam. Elas se negavam, elas não negavam a mim. Elas se auto negavam, né? Hoje eu compreendo isso. Antes eu não compreendia, achava professora ruim, professora boa, mas hoje eu não acredito nisso, de quem é bonzinho, quem é ruinzinho. É aquilo que constrói, quem constrói quem recebe com você. Para quem você quer dar. Essa coisa de gratidão, de gentileza, isso sempre existiu. A palavra é que está forte agora. Mas a gente sempre teve alguém que fez gratidão para você. Mas também com um processo de construção com você, que construiu essa lógica dentro de você. Eu não sou boazinha. Eu costumo dizer aos meninos que eu sou tudo, depende da hora, porque se eu der um grito em alguém que está fazendo algo, eu vou gritar com pavor. Eu não vou gritar com amor. E, nessa hora, eu sou a pessoa que estou reagindo com a pessoa e aí o meu comportamento muda. Eu não vou ficar falando baixinho o tempo todo, mas eu preciso, às vezes, falar baixinho, para que o outro viaje na minha voz e entenda o que eu estou dizendo. Então, a gente não pode aceitar que a gente é coitadinha, que a gente é sofrida. A gente pode chorar. Todo mundo pode chorar. Homem e mulher. Agora, o que a gente não pode fazer desse choro é um lamento de grande dor, de coitadinha, que não vai para lugar nenhum. Eu vou para o lugar que eu quero. Eu estou querendo ficar aqui até hoje, mas a partir de amanhã, eu posso ir para outro lugar. Eu quero ficar aqui enquanto tem luta com essa diversidade que eu estou vivendo. Com brigas, com erro, com os acertos, com as dores, com os amores. Então, essas mulheres entenderam que, para a gente sobreviver, a gente tinha que se juntar, gostando ou não uma da outra e aí a gente aprendeu a se gostar, a se respeitar. Por causa disso, por causa desse pertencimento do local, pertencimento dos sonhos. Depois dessas mulheres que passaram todas na minha vida, estou dizendo a você, as que estão vivas eu continuo amiga, você entendeu? Eu continuo recebendo telefonema, às vezes: “Eu liguei para você porque eu sabia que o seu celular é o mesmo. Está lembrada de mim?”, entendeu? Essas coisas que traz. O único momento que eu tive homens que me ajudaram a construir espaços, mas mesmo assim tinha sete mulheres, foram os meninos que usavam... usuário de drogas, na frente da escola. Mas que eram tão frágeis, tão frágeis, que precisavam de mulheres para acabar com essa fragilidade. De entender que o processo de cada um é complexo no outro. As Mulheres da Laje foi quando a gente decidiu que não é o homem só que pode construir, mas que a gente pode contribuir com essa laje. E aí a gente foi trazendo outras mulheres, que foram as mais novas que estão aí. E que elas não podem dizer: “Eu não sou construtora desse espaço”. Eu sou, sim. Eu faço parte.
(02:39:16) P/1 - A gente já está encaminhando para o final, eu queria saber como você enxerga o futuro do território que você vive, no Uruguai? Qual que é o futuro, para você? E quais são os seus sonhos? Tanto coletivos, quanto pessoais.
R - Por exemplo: eu sonho com esse território, onde as pessoas pudessem ter uma integração. A escola, esse espaço de cultura. E que esse espaço de cultura sirva não só para cultura e educação, mas também para uma relação humana com o outro, que acontece quando você fala da espiritualidade, sem religião, mas da espiritualidade. Para que as pessoas pudessem se ouvir, se ver diante dessas relações. Que é quando a gente diz assim: psicólogo, psicopedagogo, um monte de coisa. A gente esquece de que não é o psicólogo para resolver questões que estão no coletivo, mas interna de cada ser humano. Mas precisa que tem um educador, psicólogo, para que ele possa gerar o que Fafá gerou, o que aquela professora minha gerou naquele passado, o que outra gerou recente, o que outras geram. A relação com o outro também ser responsável por aquilo que faz. E que isso não pague um preço uma pessoa única. Nesse território, a gente tem meio ambiente, educação, cultura, comida, trabalhadores, tipo com nome catadores, que é uma dessas que me mexe muito, que eu já passei por isso também. Então, além disso, a gente tem um lado imenso aqui, de ocupações. Tem duas ocupações. Então, essas ocupações não têm que ser escondidas, elas têm que ser vistas, mas de uma forma que dialogue com as pessoas, que dialogue com a roda, para que ela possa ser vista, ser organizada, sem precisar ter que se deslocar da sua casa, sair da sua casa, para poder ir para lugar nenhum. Tem moradores que têm anos que moram. Anos. Não é fácil perder o espaço onde você criou filhos e tudo. Então, o meu sonho é de pertencimento a esse espaço, a esse lugar, que cada um perceba que o pertencimento me dá o direito de ter um lugar para eu conversar, para eu trocar, para eu aprender com o outro. E essa escola tem um significado muito forte. Todos os problemas ela teve, mas ela teve pessoas dentro dela, que conseguiram se descobrir enquanto ser humano. E essas que estão aí estão ouvindo as histórias e elas precisam também se perceber enquanto ser humano. E parar de achar que a escola é a escola e que o espaço cultural é o espaço cultural, porque quem paga todo o serviço é um único, o governo do estado, o estado da Bahia. Não é a Secretaria de Cultura e a de Educação. A Secretaria de Educação e Cultura rege aquilo que o governo traz, como proposta e planejamento. Ninguém é dono de nada. O que a gente precisa entender é que esse lugar aqui, para virar sonho meu, talvez seja fora daqui. Eu não quero achar que tenho que morrer, para viver uma vida de sonho lá. Eu preciso construir isso aqui. É por isso que eu ainda não saí daqui, porque, para mim, dez anos na Luiza Mahin foi o suficiente para deixar aquelas meninas serem felizes e eu também ver a felicidade de ver a escola continuar. Eu não sou dona dos lugares, eu sou a passagem dos lugares. Então, hoje eu tenho a Luiza Mahin, eu respeito a biblioteca, eu chego lá: “Ah, eu queria um livro” “Ah, Jamira, pode pegar” “Não, pode pegar, não. Quem está responsável é você. Eu não posso pegar. Você me dá, eu assino e depois devolvo”. Porque não é meu, é público. Eu quero que as pessoas entendam que é público. Porque as pessoas parecem que fazem serviço para o outro. A gente faz serviço para a gente. Então, eu estou aqui ainda, porque cada vez que vem outro, que voa e vai embora e volta, quando voltar vai ter que ser o construtor disso aqui de novo. Não é meu, para eu dar de presente à pessoa. Não é meu para indicar, mas a pessoa vai estar com um nome parecido, igual ou diferente do meu e vai representar essa comunidade de novo. Porque foi Isael, depois foi Vanderlei, depois sou eu. Está faltando outro, porque eu não estou mais disponível para ficar repetindo documento. Eu estou disponível para dizer às pessoas que eu não quero o lugar de ninguém. Eu quero o meu lugar de educadora social no mundo. Eu não preciso de riqueza. Eu preciso de gente na praça para ser feliz. E aí eu estou ganhando as pessoas com os trabalhos que nós, mulheres, estamos fazendo. A gente com turismo, com base comunitária, a gente conseguiu trazer os professores com uma coordenadora pedagógica, para conhecer a história da comunidade, porque ouviu falar de Mulheres da Laje, ouviu falar de espaço cultural, ouviu falar que Jamira, que é coordenadora da Rede Rebrotai, que a Rede Rebrotai é isso, de repente começou a incomodar: “Quem são essas pessoas, quem é esse território que até hoje eu não consigo entender?” E aí, graças a Deus, fez um convite e a gente topou, as mulheres e os homens jovens dessa rede: “Vamos fazer, sim, Jamira” “Não tem dinheiro” “Não precisa, porque se a gente precisasse de dinheiro agora, a gente não teria praça na mão da gente, o povo. Então, vamos fazer, vamos se organizar, quem puder vir, os que podem vir, os que não podem, pronto”. Aí as Mulheres da Laje também entraram. Entrou Leninha, entrou Lurdinha, entrou Valquíria, entrou Tati, entrou eu, entrou Jandaíra. E os meninos, adolescentes, os jovens, se juntaram e disseram: “Eu posso tal dia, eu posso tal dia, eu posso tal dia” e a gente foi junto. E as professoras ficaram emocionadas, não era só aqui, não, foi no lugar que ela passou, ela passou pela escola, sobre a escola, viu todas essas personagens que estão lá. Chegou aqui no posto, compreendeu a moeda, para que essa moeda na comunidade, porque tem que ser essa moeda na comunidade. Ganhou duas professoras pegando a moeda já, ela passa o dia todo aqui, ela disse: “Porque eu vou ter que comprar onde a moeda não circula, eu vou pegar a moeda, vou pagar a moeda e vou fazê-la circular”. Então, a gente ganhou mais mulheres, ganhamos mais parceiros e eu estou prestes a sair daqui, porque eu estou com outro sonho, que está mais na minha frente, lá na minha frente. E aí eu vou poder deixar isso aqui, para dar lugar a outro, que vai construir seu saber, seu conhecimento, respeitar ou não o que eu deixei, construir comigo mesmo, eu vou voltar aqui e dizer: “E aí, como é que você está se sentindo?” Para entender se essa pessoa está aqui porque ela gosta, porque ela respeita, porque ela ama. E vou seguir em frente, com um coração cheio de amor para dar, sem peso nas minhas costas e sem levar o mundo nos meus pés. É ‘botar’ as pessoas para compreender isso, que cada um tem a responsabilidade sobre o que faz. E ninguém pode querer fazer responsabilidade sozinho, a responsabilidade é do coletivo e que, mesmo sabendo disso, as pessoas ainda tentam envolver as outras, sem entender qual é o seu papel perante isso. Por isso que eu digo para você, que Deus, esse revolucionário que eu chamo, que me trouxe aqui, não foi à toa, desde a hora que eu nasci, até chegar aqui, com altos e baixos, tinha hora que eu achava que ia morrer, mas eu me peguei à fé. A fé não é nenhuma cruz, não é em uma igreja, não é em um templo, a minha fé é nas pessoas. E sem pessoas eu não levo a nada a minha fé. Eu não sou sozinha, eu não nasci sozinha, não vou morrer sozinha, porque até morrer eu vou precisar de alguém para carregar o meu caixão. Então, eu não sou isolada do mundo. Eu sou, ainda sou a Mulheres da Laje, porque tem nome de Mulheres da Laje e outras que chegaram e também construíram, então vão construir mais ainda. A gente tem a Rede Rebrotai, porque não é um projetozinho que vai ficar aqui na história, é um projeto de sobrevivência no coletivo. Tem um banco, que se chama rotativo e que esse dinheiro gira nesse grupo e esse grupo respeita o outro, porque o outro também precisa pedir empréstimo, pagar o empréstimo, retornar o dinheiro e a gente vai. Porque a gente aprendeu assim, nessa casa, nessa comunidade, que tem uns que gostam e tem outros que não. Tem uns que ficam com raiva, tem outros que ficam, não. E tem uns que diz assim: “Passou a raiva, voltei” e a gente começa a conversar de novo. Então, é esse lugar que é sagrado, todo lugar, a nossa casa é sagrada porque, quando a gente recebe nossos filhos, nossos pais, a gente fica numa alegria só, porque ela não é uma casa para ficar vazia, fica vazia porque cada um vai cuidar da sua vida, mas na hora de voltar, no dia que volta, todo mundo é feliz. Fazer a festa, por isso que Deus deu festa: Natal, Ano Novo, porque as pessoas se encontram, mesmo que briguem o ano todo. Deus dá a possibilidade, nesse dia, trocarem olhares, trocarem presentes, trocarem afeto. Então, é assim que eu vejo o mundo, que vai gerar um produto dentro de uma comunidade, que é possível conviver com as diferenças, que é possível aceitar o outro e rever a postura do outro, ‘botar’ o outro para refletir e não é de boazinha porque, se eu fosse boazinha, meu Deus, eu estaria com tantos problemas hoje, que eu não saberia onde ‘botar’. Eu tenho hora para ser boazinha, eu tenho hora para ser questionadora, eu tenho hora para dizer, ‘botar’ a pessoa para responsabilidade, eu tenho hora para cuidar de mim. A minha vida, eu não moro, não tenho casa, eu moro com a minha irmã, que voltou depois, sabe, desses cinquenta anos, para conviver com a gente e, como ela não conhecia muito sobre a minha irmã que nasceu e só me conhece mais a mim e ao meu irmão que, graças a Deus, sobreviveu, mesmo com a doença, está aí, casado, já perdeu dois filhos, está com um, uma menina, uma neta, então ele é feliz do jeito dele. Ele, sempre quando me procura, me procura assim: “Jani, você precisa de alguma coisa? Quando eu precisar, eu posso contar com você?” “Pode, para qualquer hora, não é só quando precisar de empréstimo, não, é para qualquer hora, quando você precisar de algo que está lhe machucando também, que você não consegue resolver, pode me procurar, porque eu vou fazer o possível para conseguir outras pessoas para lhe ajudar”, que foi sempre assim a minha família. Eu não trabalho, eu não ajudo minha família sozinha. Meu filho é outro, que mora com tanta gente, que viveu a vida dele, hoje é independente, por ele mesmo, mas por alguém que conseguiu dar a ele o primeiro passo, e que não foi eu, que na época não tinha, foi um amigo meu, que confiou, porque ele dizia: “Ele é parecido demais com você. A diferença é que ele quer bens materiais, e você não. O que eu posso fazer?” Então, ele emprestou o primeiro... sabe, a casa dele, que ele comprou, ele emprestou seis mil. Ninguém faria isso, que não conhecesse a pessoa, ou talvez alguém desse, para poder se livrar, mas ele emprestou dizendo: “Você conhece sua mãe e se eu disser a ela, ela vai fazer os questionamentos”. “Você vai pagar com que dinheiro o empréstimo? Você tem condição de fazer isso? Porque ele pode ser meu amigo, mas ele não é besta, ninguém empresta dinheiro ao outro, se não entender que está ajudando o outro a uma forma de conseguir melhorar de vida. Então, se você quer casar, quer casa, você vai ter que arcar, porque eu não tenho herança, eu não sou de herança”. E aí ele disse: “Minha mãe, eu falei a mesma coisa para ele, eu vou pagá-lo, mas assim: eu só posso começar a pagar o empréstimo depois de três meses, porque eu sei que eu já comecei a trabalhar e vou ajeitar a minha vida e a senhora disse que tudo que a gente conquista por nós mesmos, a gente não tem nenhum conceito de dormir e acordar com a cabeça bem, porque foi a gente que conquistou, não foi ninguém que conquistou pela gente”. Então, assim, filha, o coletivo é para ajudar o outro a se perceber enquanto indivíduo, enquanto individual, mas que não é sozinho, tem um coletivo por ele. Então, assim: meu filho hoje encerrou o pagamento da casa dele, já pagou há muito tempo e eu não dei um centavo a ele, a não ser que ele é merecido, porque é um presente, é algo que eu posso dar e que o dinheiro é para ser gasto, não é para ser guardado, guardado para circular, a poupança diz isso: “Circula o dinheiro, gente”. Então, eu circulo o meu dinheiro que eu ganho, eu não aguento ficar com o dinheiro guardado, se a pessoa precisar. Aí ele aprendeu isso, hoje tem a casa, já está querendo até comprar um carro, mas não para ele, porque ele não dirige, tem pavor a dirigir, mas para mulher e ele tem um casamento estável, onde ele dialoga com a mulher e a mulher foi da Rede Rebrotai, que é a menina que estudou com ele, que saíram, foram estudar em outra escola e retornou para Rede Rebrotai e de repente se apaixonaram e casaram. Olha quanta coisa aconteceu nesse caminho, para que eles se encontrassem de novo! Então, ela está morando com ele e eu sempre pergunto como é que está a situação, ela: “Maravilhosa”. Ele lava roupa, ele cozinha, ela trabalha em um turno diferente do dele, toma conta do filho, ela também faz as coisas. Tem briga? Lógico, porque senão a gente ia dizer que está no paraíso e o paraíso é o céu... não, é a casa, nosso lar que é o paraíso. Então, a gente diz que ele está vivendo coisas que eu aprecio e que tem outro jovem da Rede Rebrotai que está vivendo também isso, então eu estou fazendo a minha parte e digo para você que o meu sonho é que os meninos, todos que passem por aqui, sejam aplaudidos, permitido a eles construir a sua história e isso eu vou cobrar de quem ficar aqui e eu não só vou cobrar, como eu também vou continuar uma roda com as crianças e com os adolescentes. Para onde eu vou é para cuidar daqueles que não sabem, nunca sonharam, porque o sonho foi interditado pelo ódio, sabe aquele ódio: “Eu fumo maconha, eu cheiro, eu faço isso, eu faço aquilo, eu mato, eu roubo, porque eu não tive amor”. Mentira, teve amor, só que ele não entendeu o gesto do amor e deixou-se levar pelo ódio e aí, para tirar o ódio, para arrancar o ódio de dentro, não tem dinheiro que paga, tem é fazer ele perceber que ele é vivo, que ele está presente no mundo e que não adianta ele se isolar das pessoas porque, quanto mais ele se isola, mais ele morre e morre por dentro, porque morrer, eu digo aos meninos, é fácil: está doente, foi pro médico, não deu jeito, morreu. Agora a pessoa que adoece todo dia, todo dia, morre, cada dia, cada dia por dentro e isso eu não vou parar de dizer, não vou parar de fazer e não vou parar para realimentar o desejo do outro. Eu não posso ser boazinha porque, se eu fosse boazinha, eu não ajudava as pessoas, eu as destruiria. Deus não é bonzinho, Jesus não é bonzinho, eles são pessoas que querem futucar a gente, mexer com a gente, para gente sentir dor e para gente também sentir amor. Agora, na hora que a gente está sentindo a dor, a gente tem que enxergar que somos seres humanos e que, para isso sair do lugar, eu precisava sentir a dor, para tirar o sapato com calo eu não posso esperar que o outro mande, eu tiro a hora que está doendo e aí essa dor explode e aí alivia, para poder falar com alguém, eu alivio essa dor, para carregar uma criança no colo, entendeu, filho? Então, esse mundo que a gente está querendo construir, não vamos ficar à mercês das máquinas, porque agora o mundo é das máquinas. O ser humano que vai operar as máquinas, as máquinas não vão só andar sozinhas, nunca andaram, ela tem a mão do ser humano, então vamos perceber isso e não vamos deixar que a máquina fique com todo o conhecimento porque, se ela cortar o pescoço, ela não vai servir para mais nada e a gente é o corpo todo. A máquina vai ter o sentimento delas também, mas o sentimento delas vai ser baseado no que a gente vai dar para elas, no retorno que ela vai dar para gente. Pensando, eu nunca vou ficar para trás, porque eu vou entender o mundo de acordo com o coletivo. Eu não sei operar a máquina, mas eu sei trabalhar com o ser humano que opera a máquina, eu vou trabalhar com gente, sempre com gente, porque gente é que transforma as vidas e não as máquinas. Ela muda o contexto do século, mas não muda o sentimento de quem está nessa caminhada, que chega até os cem anos, para provar que a morte só é alívio quando você tem condição de se sentir viva e isso eu vou ser sempre na minha vida. Eu sou viva, eu me dou para todo mundo e eu quero que as pessoas aprendam a viver assim, a partir do meu filho, a partir do meu neto, que está aqui, dia de terça-feira. Ah, não, segunda-feira. Ele estava terça-feira, mas agora ele está segunda-feira, porque ele disse assim: “Minha avó, eu quero aprender a tocar. Eu gosto muito de assistir filme, mas eu não posso vir segunda-feira e terça-feira, eu faço uma escolha, a senhora sempre diz que a gente tem que fazer uma escolha, eu quero ficar na música, porque eu quero aprender a tocar teclado e a tocar violão”. Aí eu fiz: “Pronto, vamos decidir agora como é que a gente vai fazer para você chegar aqui”. Já resolvemos. Os adultos precisam resolver em planejamento como ele vai chegar aqui e isso eu tive que levar de março, do começo de março até hoje, meado... final de abril, para poder entrar na aula de música e agora ele está vindo e tem pessoa para levá-lo e para trazer e ele fica em casa só. Termina o rapaz deixando-o no carro, em casa, ele toma banho, almoça e volta um amigo, amigo, amigo, estou dizendo porque é amigo, sai do trabalho, o pega, o traz, o leva de volta. Sabe porque eu digo que amigo? Porque essa amizade não foi feita em porta de botequim, foi feita por troca de ajuda. A filha dela está aqui e ela é uma menina que está com dez anos, que está sofrendo de... como é que chama? O que eu estou também, com a glicemia alta e, nessa história, ela consegue vir para cá, ir para escola, brincar aqui e comer aquilo que ela pode comer, junto comigo, porque eu também estou com meu açúcar alto e aí a gente troca a conversa, todo mundo comendo tudo e a gente só lá, nas frutinhas, nos suquinhos sem açúcar e isso eu lhe disse que não tem remédio que pague, como eu também vou dizer, que não tem remédio que pague ele levar meu neto de moto e trazer na hora, lá na porta e deixá-lo na porta. Então, isso é gente, não é máquina. A máquina moto tem que ter um condutor e aí ele faz isso. Então, eu valorizo cada coisinha que o outro faz, mas também chamo atenção do outro quando for necessário, porque eu não esqueci, como eu comecei, eu sou uma pessoa muito dura também. Eu sou muito, sabe o quê? Uma pessoa muito sensível, sensível.
(03:04:30) P/1 - Jamira.
R - Diga.
(03:04:41) P/1 - A gente precisa finalizar, mas eu queria te perguntar como foi contar um pouquinho dessa história hoje, para o Museu. O que você achou de ter contado um pouco dessa história?
R - Olha, eu não queria mais fazer isso, mas, assim, eu fui pensando, porque eu conheci esse ‘cara’ aí e gosto muito dele, ele me contou a história e também eu li a história do pai dele, entendeu? Aí eu disse assim: “Se eu morrer, o que é que eu vou deixar para o mundo?” Aí a gente tem que deixar pelo menos algo que seja registrado, para que algum dia alguém possa chegar lá e ver. Talvez a gente pense que muda as pessoas, porque a gente quer. Não, a gente muda as pessoas quando elas querem. As pessoas fazem as escolhas que elas querem. Então, para isso é que eu fiz isso aqui. E o que eu disse, ser diferenciado um pouco, porque é muita história, sabe? Se eu for relatar, eu tinha que estar com todo o documento aqui, para poder eu marcar aquilo que eu já falei para não falar de novo, ou então aquilo que eu não falei, falar. E eu fiz isso hoje. Eu consegui contar uma história que estava na minha vida, que eu não conseguia falar e hoje eu consegui. Então, por isso que é o tempo todo a gente se reconstruindo, aprendendo, se desconstruindo de novo, para aprender. Então, eu queria agradecer a ele, porque é uma pessoa muito sensível e por muitas histórias que ele deve ter também, ele consegue captar isso, que só pessoas muito sensíveis que captam isso. O TDX foi uma pessoa também sensível, um pessoal de lá, que também foi tudo indicação. E porque conhece a história daqui, porque conhece um pouco da gente. Então, é escolhido alguém para falar sobre o coletivo. Tem alguns que podem falar de outras coisas. Baby, por exemplo, eu gosto muito do formato que ele fala sobre a economia solidária, entendeu? Da luta que ele constrói. Mas eu vou na prática, com ele. Então, é assim: cada um aprendendo com o outro. Lurdinha. Poxa, que eu não consigo entender essa mulher. É inexplicável também. Mas ela não fala sobre ela, não consegue falar sobre. Então, eu fui marcada para isso, para falar sobre o que cada um... não é falar por eles, mas é falar o que eles representaram na minha vida. Então, isso, para mim, é o principal interesse de ter aceitado, entendeu? Porque a gente não fala da gente, só. A gente fala daquilo que foi construído com a gente e eles construíram comigo, todos eles. Do meu nascimento até hoje e vai ser daqui para frente. Como ela se preocupa, porque eu não cheguei para almoçar. Eu moro na casa. Durmo na casa de minha irmã e moro mais na casa de Lurdinha, porque almoço e janto, depois eu vou para casa. Mas eu tenho que passar lá para tomar um chazinho com ela, (03:08:49) e o cachorro, que agora a gente tem um cachorro. Tomo um chazinho, faço alguma coisa para ela no computador. Ela diz: “Jamira, preciso que você venha aqui, para poder escrever um negócio para mim”. Eu vou, porque até hoje ela não consegue sentar na frente do computador. Aí eu faço para ela, ela escreve, manda no zap, eu transcrevo. Tem algumas coisas que eu aprendi, avancei mais do que elas na máquina, mas eu não... quando eu digo a ela: “Isso eu não sei, espera aí que eu vou perguntar a um dos meus” ela espera, eu pergunto, aí digo: “Olha, só ele que vai fazer, porque eu não entendi, não”. Aí ela diz: “Então, que dia você vai marcar?” “Tal dia”. Então é assim: uma precisando da outra, uma trocando com a outra. Então, eu amo essa família, amo por demais. Essa família espiritual, que é Deus que mandou, tem mais valor do que a carnal. Porque a carnal passa, a gente se juntou só para fazer o serviço, um se perdoar e perdoa o outro. O de sangue. Para poder a gente ter o que ajudar, como ajudar, se a gente for tão... que não consiga tirar um dinheiro do bolso para dar a alguém, mas a gente faz para a família de sangue, porque a família de sangue a gente vai ter vergonha da pessoa olhar e ver nossa família de sangue passando fome. É só a diferença, essa.
(03:10:23) P/1 – Jamira.
R - Diga.
(03:10:26) P/1 - Eu queria agradecer muito, mas a gente vai precisar finalizar. Muito obrigada por contar sua história.
R - De nada, filha.
(03:10:38) P/1 - Não estou te vendo. [Pausa] Eu não estava te vendo. Eu queria agradecer. Eu queria agradecer em meu nome, em nome do Marcelo, do Museu da Pessoa, em nome da Sofia, que ela não conseguiu ficar até o final, mas ela estava super emocionada, te ouvindo. E muito obrigada por contar sua história.
R - Obrigada a vocês, por ter oportunizado esse momento, que vai ser muito especial. Eu sei disso. Porque, assim, a gente não... eu vou estar aqui ainda, para contar a história, não sei até quando.
[Fim da Entrevista]
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