Projeto Memórias da Vila Nova Esperança
Entrevista de Severino Pedro da Silva
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 27 de outubro de 2025
Entrevista MVE_HV009
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
P/1 - Eu vou pedir pro senhor começar me dizendo o nome inteiro, o dia e o mês, o ano e a cidade onde o senhor nasceu.
R - Eu nasci no dia 24 do um de 1963.
P/1 - E o nome inteiro?
R - Severino Pedro da Silva.
P/1 - Como é que chamam? Como costuma ser seu nome?
R - As pessoas me chamam de Severo do ferro velho, Severo da padaria, porque antigamente eu tinha uma padaria e também já tive outros ferro velho. Aí as pessoas hoje me chamam Severo do Ferro Velho, que é um apelido que me colocaram.
E uma época que eu saí candidato a vereador, sai não, colocaram eu assim completar o quadro das pessoas. Você sabe que tem um limite de pessoas que é adequado para que o prefeito acorra (concorra) uma eleição, né? Infelizmente foram lá em casa. Eu digo: “rapaz, eu não quero isso, esse negócio aí.” Isso aí é uma coisa que para mim não serve, porque é... uma campanha para você fazer ela, ela tem um recurso, e eu não tinha um recurso que eu não ia colocar dinheiro meu para fazer uma campanha, porque eu sou assim, quando eu jogo, eu joguei muita bola e eu nunca joguei pra perder.
P/1 - Seu Severo, eu vou querer saber disso tudo, eu vou chegar nesse lugar.
R - Sim.
P/1 - Mas antes, conta para mim, onde o senhor nasceu?
R - Nasci no Pernambuco, município de Itambé. Camutanga.
P/1 - Como chama?
R - Camutanga.
P/1 - Camutanga.
R - Isso.
P/1 - O senhor nasceu e ficou quanto tempo morando por lá?
R - 8 anos
P/1 - Só os primeiros 8 anos?
R - Sim.
P/1 - Quem eram os pais do senhor?
R - Meu pai era Pedro Hermínio Joaquim e a minha mãe chamava-se Luiza Francisca da Conceição.
P/1 - O que eles faziam?
R - O meu pai era agricultor e a minha mãe era uma...
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Entrevista de Severino Pedro da Silva
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 27 de outubro de 2025
Entrevista MVE_HV009
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
P/1 - Eu vou pedir pro senhor começar me dizendo o nome inteiro, o dia e o mês, o ano e a cidade onde o senhor nasceu.
R - Eu nasci no dia 24 do um de 1963.
P/1 - E o nome inteiro?
R - Severino Pedro da Silva.
P/1 - Como é que chamam? Como costuma ser seu nome?
R - As pessoas me chamam de Severo do ferro velho, Severo da padaria, porque antigamente eu tinha uma padaria e também já tive outros ferro velho. Aí as pessoas hoje me chamam Severo do Ferro Velho, que é um apelido que me colocaram.
E uma época que eu saí candidato a vereador, sai não, colocaram eu assim completar o quadro das pessoas. Você sabe que tem um limite de pessoas que é adequado para que o prefeito acorra (concorra) uma eleição, né? Infelizmente foram lá em casa. Eu digo: “rapaz, eu não quero isso, esse negócio aí.” Isso aí é uma coisa que para mim não serve, porque é... uma campanha para você fazer ela, ela tem um recurso, e eu não tinha um recurso que eu não ia colocar dinheiro meu para fazer uma campanha, porque eu sou assim, quando eu jogo, eu joguei muita bola e eu nunca joguei pra perder.
P/1 - Seu Severo, eu vou querer saber disso tudo, eu vou chegar nesse lugar.
R - Sim.
P/1 - Mas antes, conta para mim, onde o senhor nasceu?
R - Nasci no Pernambuco, município de Itambé. Camutanga.
P/1 - Como chama?
R - Camutanga.
P/1 - Camutanga.
R - Isso.
P/1 - O senhor nasceu e ficou quanto tempo morando por lá?
R - 8 anos
P/1 - Só os primeiros 8 anos?
R - Sim.
P/1 - Quem eram os pais do senhor?
R - Meu pai era Pedro Hermínio Joaquim e a minha mãe chamava-se Luiza Francisca da Conceição.
P/1 - O que eles faziam?
R - O meu pai era agricultor e a minha mãe era uma senhora, dona de casa e cuidava da casa, cuidava da gente e da casa e, infelizmente, com 8 anos eu perdi meu pai e eu tinha... Nós somos 15 irmãos, só que hoje devem ter 11 vivos.
P/1 - Qual a ordem que o Sr. senhor está…
R - Eu sou um dos mais novos. Tem eu e mais uma menina que mora aqui do lado, aqui na Vila Esperança. Nós somos os caçulas, como diz o ditado.
P/1 - Quando o senhor nasceu, como era a vida dessa família nessa cidadezinha?
R - A nossa família sempre foi uma família assim, humilde e nunca faltou nada pra gente, porque o meu pai, ele sempre... e os meus irmãos mais velhos. Só que aí os meus irmãos vêm tudo pra cá, né? Veio, veio um, veio outro, só ficou lá 3. O resto veio tudo pra cá.
Só que aí os 3 casou e eu, a minha mãe, eu era... você sabe que o filho mais novo, ele é a companhia da mãe, inclusive, até eu não pude nem servir o exército por causa disso aí. Porque também eu não tinha um estudo para servir o exército. E aí eu vim para cá, minha mãe mandou a minha cunhada trazer eu vim para cá e fui morar na Vila Parisi.
P/1 - Antes de vir para cá, como era a vida de vocês lá na cidadezinha? O que o senhor gostava de fazer? Você tem memória de lá?
R - Tenho. Eu estou aqui, mas parece que eu estou vendo lá o lugarzinho onde nós ficávamos, se reunia para jogar futebol. Lá, eu depois que meu pai faleceu, a minha mãe veio visitar os meus irmãos aqui e ficou por aqui, e aí eu fiquei lá. Só que aí eu sobrevivia assim, eu tinha um cunhado que era casado com a minha irmã e ele arrumou para mim carregar almoço. A única coisa que meu pai deixou para mim foi uma bicicletinha Monareta. Não sei se você já chegou a ver, é uma bicicletinha que tem o quadro assim e eu carregava 18 almoço pros motoristas na usina.
P/1 - Quantos anos o senhor tinha?
R - 8 anos.
P/1 - E o pai do senhor morreu do quê?
R - Meu pai morreu… não sei se foi cirrose, foi uma coisa assim, eu sei que ele se internou e morreu. Eu não tenho muita lembrança assim, porque lá, naquele lugar pra lá, é uma coisa assim, as pessoas... às vezes até ele morreu e nós não fizemos o enterro dele.
Porque quando nós fomos lá na sexta-feira, eu e a minha mãe fomos lá visitar, ele já tinha sido enterrado 3 dias antes.
P/1 - Então ele foi para o hospital e o senhor não soube que ele morreu? A família...
R - Não, nós foi lá, visitou ele uma sexta-feira. A visita era na sexta-feira e quando foi na outra sexta-feira que nós fomos lá, ele já tinha se enterrado fazia 3 dias. Então morreu assim que a gente nem sabe como foi direito.
P/1 - Quantos anos ele tinha?
R - Ele tinha 63 anos, a minha idade hoje praticamente.
P/1 - E a sua mãe?
R - A minha mãe tinha uns 5... a minha mãe, eu acho que é mais nova do que ele, uns 3 anos, 4 anos. A minha mãe... ela morreu com 94 anos.
P/1 - Na época ela ficou viúva, jovem, né?
R - Ela ficou viúva, mas não quis mais marido, ficou jovem e ela dedicou a vida dela cuidando da gente, né?
Aí ela veio para cá e eu fiquei lá trabalhando, carregando almoço, eu ganhava dez cruzeiros de cada um dos motoristas. Isso formava uns 180 cruzeiros por semana, era por semana, não era por mês, certo?
P/1 - Fazia o quê com esse dinheiro?
R - Esse dinheiro eu fazia uma feira com 80 cruzeiros, 100 cruzeiros, sobrava, né? Então eu guardava, guardava um pouco. Eu gostava de, às vezes, nas minhas horas vagas, jogar bola de gude, essas coisinhas assim, entendeu? Então, aí eu comprava algumas coisas, eu fazia lanche, mas com 80 cruzeiros naquela época eu fazia uma feira que um carrinho de mão não trazia. Era uma época muito boa mesmo, eu sinto uma maior saudade, mesmo você sendo uma pessoa sofrida…
P/1 - Seu Severo, o senhor era uma criança, mas já tinha que lidar com coisas de adulto.
R - Para sobreviver, né? Porque os meus irmãos, eles casaram, né? E é assim... eu coloquei na mente que a gente tem que depender da gente em algumas coisas. Nós não convive sozinho, mas nós convivemos com todas as coisas, todas as espécies de gente, animal, qualquer coisa do mundo, eu convivo com tudo. E eu coloquei isso na minha mente: que eu tinha que fazer alguma coisa para sobreviver, para que não dependesse dos meus irmãos. Eu morava na mesma casa, tá entendendo? Mas eu dependia de mim. Isso aí é uma coisa que eu carrego hoje, como eu posso dizer, meu Deus? É ter o privilégio de você sobreviver.
P/1 - Mas você tinha 8 anos...
R - 8 anos. Foi a única coisa que meu pai deixou para mim, foi essa bicicleta. E com essa bicicleta eu evoluí e hoje estou aqui, né?
P/1 - O senhor Brincava também?
R - Brincava. Só não consegui estudar porque era uma correria que eu vou lhe falar, 10h eu saía na casa dos motoristas, ia na casa de um, na casa de outro, na casa de outro e aquilo ali, quando dava 01h da tarde, meio-dia, 01h da tarde, eu estava na usina com o almoço deles.
P/1 - E quem fazia o almoço para vender?
R - A mulher dos motoristas, né?
P/1 - Aí o Sr. só entregava.
R - Eu só entregava. Eu saía em casa, em casa, e pegava o almoço de cada uma marmitex assim, normalmente era assim. Então eu fiz um caixote mais ou menos assim e colocava aquelas marmitinhas quadradas, uma em cima da outra, e levava, era pesado para uma criança de oito anos... era pesado, não era fácil.
P/1 - Nesse tempo, a sua mãe estava lá?
R - Não, a minha mãe veio embora pra cá. Viajou pra cá. Ela, como que eu posso dizer? Naquela época, ela não tinha um benefício ainda, depois que ela veio pra cá, quando meu pai faleceu, aí o meu irmão mandou, pediu para que ela viesse aqui, ela veio e ficou 1 ano, mais ou menos. Ela ficou assim, pra lá e pra cá, né? Só viajando, depois que ela conseguiu se aposentar, aí ela ficou... viajava, daqui para o Norte, do Norte para cá.
P/1 - E ela deixava o senhor lá com quem?
R - Não, eu fiquei lá pouco tempo, depois que ela veio pra cá, eu fiquei lá aproximadamente 1 ano e pouco, quase 2 anos e esse tempo que eu fiquei lá, eu já carregava o almoço para ajudar, né? Mesmo ela estando lá, eu já carregava os almoços pros motoristas.
Porque lá é assim... na época não existia esse negócio de... eu acredito que você trabalhar não é defeito, né? Independente do que você é, a forma que você é, a idade que você é. Se você puder trabalhar, trabalhe, para não depender dos outros e não dar trabalho aos outros.
P/1 - E faltava alguma coisa?
R - Não. Nunca me faltou nada. Por isso que eu coloquei isso na minha cabeça. Eu tenho o privilégio de falar que nunca passei necessidade nenhuma, até porque eu trabalho noite e dia, se for possível, para que não dependa de estar pedindo uma coisa disso, aquilo outro. Eu trabalho noite e dia para sobreviver.
P/1 - Enquanto eu era criança, também não faltava nada.
R - Não. Não me faltou não,
P/1 - Nem brinquedo?
R - Pelo contrário, me sobrava. Naquela época, me sobrava mais dinheiro do que hoje. Porque o recurso era mínimo, nem me lembro quanto era um quilo de arroz, feijão, essas coisas aí nós não comprava. Nós comprava alguma coisa, só assim, mistura alguma coisa, nós comprava, tinha que comprar... batata doce, inhame, mandioca que aqui que o pessoal ... lá chama macaxeira, mas aqui já é mandioca.
P/1 - E vocês plantavam né?
R - É, nós plantava. Até hoje eu tenho um irmão lá que ele planta ainda. Ele sobrevive lá e planta.
P/1 - E quem era importante na vida do senhor nessa fase de idade eram os irmãos.
R - Todas as pessoas.
P/1 - Eles cuidavam do senhor?
R - Cuidavam também, isso aí é uma coisa que eu não posso falar... Os meus irmãos, eles são umas pessoas, que nenhum nunca me fez vergonha, o mais sem vergonha que tem sou eu. [risos] Ai meu Deus! Eu não gosto de falar dessa época que emociona a gente, mas infelizmente a gente tem que falar, né?
P/1 - Ele foi buscar um papelzinho, tá.
R - Tá, sem problema.
P/1 - Mas essas lágrimas aí são do quê?
R - Ah, sim, eu acredito que o passado... a gente quando lembra do... as pessoas dizem: “Não, não olha para trás.” Por que não? Se eu vou numa linha, numa linha de trem, ou numa estrada e eu não olhar para trás, um carro pode me atropelar e eu posso morrer.
P/1 - É a tua história!
R - Então eu tenho que olhar para tudo que é lado: para trás, para frente, para cima, para todo lado.
P/1 - Mas bate… o que o senhor sente?
R - Eu me sinto feliz.
P/1 - E saudade, né?
R - Saudade do lugar, da gente, das coisas que a gente fazia. O lugar, o local onde a gente se reunia pra jogar bola, brincar. Parece que eu estou vendo lá a calçadinha do mesmo jeito. Eu estive lá uma vez só, nesse tempo que eu estou aqui, aproximadamente uns dez anos eu estive lá. Mas tudo (está) diferente. Nossa! As pessoas que conviviam comigo, aquelas pessoas da infância, da criançada... alguns jogados, a cara inchada de cachaça.
Eu tinha um amigo lá, ele tinha uma barraca, ele era um fiscal da prefeitura. Porque lá no lugarzinho onde eu fiquei esse tempo não tem prefeitura; tem do lado da Paraíba, lá é uma cidade dividida no meio: de um lado é Paraíba, do outro lado é Pernambuco.
E eu, esse, esse, esse cidadão, ele sempre falava em mim, na minha pessoa. Porque lá no meu lugar o pessoal me chama de Cunha, né? Me chamava de Cunha.
E ele falava: “Poxa, eu vou morrer....” Ele tinha... na época eu tinha 8 anos, pra 10 anos, ele tinha 55 anos, e nós jogava bola juntos, e quando ele formava um time, ave Maria! Se ele não colocasse eu no time dele, não... entendeu? A primeira pessoa que ele chamava, separava, era eu.
P/1 - Era o preferido, né?
R - Então ele era um senhor muito apegado a mim, porque... não sei por quê. Assim, as pessoas... tem umas pessoas que a gente se apega mais. Por exemplo, ele era um homem muito honesto e tinha os defeitos dele, como eu e qualquer outra pessoa tem, mas isso aí são coisas que eu não posso olhar os seus defeitos, e nem você olhar o meu. E se eu for olhar o seu, eu não vejo os meus, certo?
Então ele era uma pessoa assim, era um fiscal da prefeitura, me dava muita atenção, eu ficava com ele lá na barraca dele. Ele tinha uma boa família, a família dele também era uma família muito decente comigo, né? E por aí ia.
Eu acho que a gente sente saudade, mas infelizmente é a vida, né? A gente tem que ser o que a gente é. Não adianta eu querer ser uma coisa que eu não sou.
P/1 - E o que o senhor lembra que te dá mais saudade lá da tua terra?
R - O futebol que a gente jogava. Era um racha que eu vou te falar, viu? A quadra era esburacada. Eu estive lá dez anos atrás. Eles fizeram uma quadra... como é que eu posso falar? É toda no tapete, tá entendendo? No gramado, assim, é coberta. Então já melhorou, né?
Mas antigamente, na minha época, não, era cada um buraco que fazia medo. Quantas vezes eu ia pra casa com a unha arrancada? [risos]
P/1 - Perdia a unha do pé.
R - Aquilo era uma agonia pra jogar, aquilo... Eu tomava... botava tudo que era qualidade de remédio para ficar bom logo, para voltar a jogar.
P/1 - E o que o senhor queria ser quando era criança?
R - Eu queria ser uma pessoa que é o que eu sou hoje.
P/1 - É?
R - Sim, porque não adianta você querer ser uma coisa sem você ter condições.
P/1 - Mas às vezes um menino pensa: “Quero ser jogador de futebol.”
R - Não. Na minha época eu não pensaria isso, certo, de ser um jogador de futebol. Até porque muita das pessoas veem um jogador de futebol, mas você não sabe o sofrimento daquele cara. E na época eu não sabia, não tive uma pessoa que me orientasse, um treinamento físico que um jogador, pra ser um jogador... o que faz o cara ser um jogador desde que você tenha um domínio com a bola, uma boa visão, a perfeição do passe da bola. Se você tiver um bom alimento e um bom preparo físico, não tem como você não ser um jogador.
P/1 - Mas às vezes é só um sonho também?
R - Pra isso aí é uma coisa que eu conheço, tá entendendo? Mas eu não tive uma pessoa que me, por exemplo assim, me ajudasse na época. Eu, quando saí de lá, eu vim morar aqui, fui trabalhar na feira. Não fiquei à toa.
P/1 - Então o senhor veio pra cá com quantos anos?
R - 10 anos, mais ou menos.
P/1 - Veio como?
R - De ônibus, minha cunhada foi lá e me trouxe.
P/1 - Quantos dias de viagem?
R - 3 dias.
P/1 - 3?
R - 3 dias.
P/1 - E aí chegou aonde?
R - Aqui em São Paulo, São Paulo, nós lá da rodoviária, nós pegamos um ônibus pra Cubatão. Na época, Cubatão não tinha essa rodoviária. A rodoviária de Cubatão era lá próximo à avenida, ali numa ruazinha que tinha assim um terminalzinho e uma Kombi pra levar o pessoal em São Paulo. Algumas pessoas que iam viajar e compravam a passagem aqui, essa Kombi conduzia até o Jabaquara e do Jabaquara ia embora.
P/1 - Aí desceu em Cubatão, mas onde, em Cubatão, o pessoal foi morar...
R - Na Vila Parisi.
P/1 - Na Vila Parisi?
R - Sim.
P/1 - E quando chegou, como foi enxergar uma cidade tão diferente?
R - Eu fiquei uns 15, 20 dias dentro de casa sem nem ter noção disso aí, porque eu via muita coisa assim, muitas coisas erradas, né? E aí eu fiquei foi com medo daquilo ali.
P/1 - Do que o senhor ficou com medo?
R - A Vila Parisi era uma vila perigosíssima, todo dia morria um, não na Vila Parisi, no Maracá, um (lugar) lá próximo, certo? Então nós era moleque, nós brincava em uns pés de carrapateira, não sei se você já ouviu falar: mamona, chama-se a mamona.
E nós subíamos em cima, nos galhos pra brincar, e nós víamos muito assim, coisa... pessoas mortas, algumas coisas assim parecidas. Mas aquilo lá... seria a maioria dessas pessoas, era aquele pessoal bravo que vinha do Nordeste pra cá e um acho que matava o outro, outros era o pessoal lá que matava, não sei como era lá. Eu sei que eu vi muita coisa errada ali, ruim.
P/1 - Quando o senhor chegou, já encontrou sua mãe?
R - Sim.
P/1 - Tava com saudade?
R - Tava. Nossa! Tem alguma coisa melhor do que a mãe? Se tiver, pode falar que eu não conheço.
P/1 - Como é que ela recebeu o senhor?
R - Nossa, me deu um abraço. (emoção) Foi muita felicidade, né? E fiquei aqui com ela, e ela viajava sempre pra lá e pra cá. E eu fui trabalhar na feira. Trabalhei na feira até os 14, até os 18 anos... 17 anos e seis meses.
Aí fui, cuidei em tirar meus documentos e pá, e isso e aquilo outro. Então, olha, você vê que eu ganhava, não sei se era 10 cruzeiros na feira por dia, mas eu ganhava muita caixinha. Eu com 14 anos de idade, na época, eu consegui comprar uma moto nova, zero bala. E eu nem pude comprar a moto na loja, quem comprou foi o senhor Antônio, ele era japonês, eu trabalhava com ele. Chinês, ele era chinês, e todo dia, 06h00, o caminhão estava carregado e lonado...
P/1- E o que o senhor fazia?
R - Carregava o caminhão, as caixas de verdura, tomate, cebola, pimentão, coentro, tudo. O caminhão, na época, ia chapado, voltava só as caixas batendo.
P/1 - E na feira trabalhava vendendo ou cuidava?
R - Sim, cuidava também vendia, cuidava. Eu era muito atencioso e o homem gostava muito de mim.
P/1 - E todo dia tinha feira?
R - Todo santo dia tinha uma feira, né? Tinha feira na Vila Parisi, feira em Cubatão, feira no Casqueiro, no Bolsão. Então, para todo lado tinha feira, onde tinha uma feira, todo dia nós estava lá.
P/1 - E você estava morando com a sua mãe?
R - Sim, morando com minha mãe. Quando eu vim para cá, a minha mãe, o meu irmão já tinha uma... Ele pagava aluguel, né? Depois nós veio para a Vila São José, ali onde incendiou, e aí o meu irmão comprou um barraquinho lá, um lugarzinho na beirada da pista ali da Anchieta e ficamos morando lá até o incêndio. Quando incendiou, nós saiu de lá.
P/1 - Como que era esse barraquinho?
R - Era um barraco bom, em vista de outros que tinham lá, eu considero uma coisa razoável, que dá para uma pessoa morar. Eu cheguei a ver em São Paulo, eu fui um dia em Interlagos e fomos lá numa fábrica de remédio que tem lá. Eu esqueci o nome da fábrica lá, esqueci o nome, um negócio de remédio que tem lá.
Então nós foi fazer um serviço lá e eu passei em uma favela, em Interlagos ali, Interlagos para cá. E eu cheguei a ver barraco feito de caixote de peixe, desses caixotes de madeira, essas tabuinhas, desse tamanho, dessa largura.
Quem estava dentro via quem estava fora, e quem estava fora via quem estava dentro. Então eu acho que onde eu morava era um lugar, não era um bom lugar, mas era um lugar adequado e que dava pra viver.
P/1 - Nesse barraco tinha energia elétrica?
R - Tudo. Tinha tudo lá. Água, luz, tinha tudo.
P/1 - Tinha esgoto?
R - Não. Esgoto não tinha. Mas tinha água e luz.
P/1 - E o senhor foi atrás dos documentos?
R - Sim. Aí eu tirei meus documentos, tudo, e fichei na Latina, fui trabalhar na Latina (Construtora e Pavimentadora Latina)
P/1 - Recolhendo latinha?
R - A Latina é uma empresa, ela faz asfalto, entendeu? Era uma grande empresa aqui em Cubatão.
P/1 - E aí o senhor começou a trabalhar nessa empresa?
R - Aí comecei com meus 18 anos comecei a trabalhar nessa empresa, trabalhei nela, fiquei quase 8 anos nela.
P/1 - O que você fazia lá?
R - Eu fazia tudo lá. Nós fazia estrada. Asfalto, bloquetes, calçamento, guias, sarjetas, tubulação, tudo nós fazia lá, e eu aprendi, eu tenho o privilégio de falar que eu aprendi muita coisa lá.
P/1 - Fez amigos também?
R - Muitos amigos! Eu tenho o Macaro que mora no México, (o) 70, infelizmente ele faleceu, eu conheço as pessoas mais pelo apelido, o Zé do Rolo, Instalação, Seu Pedro, Marcha Lenta, Marcha Rápida e um monte de gente, entendeu? Se eu for falar as pessoas, nossa!
P/1 - Enquanto estava morando lá na Vila São José, isso?
R - E aí, depois que incendiou, o Naldinho me levou, o rapaz que trabalhava no caminhão, eu trabalhava no caminhão do piche também, eu fazia de tudo lá, e esse rapaz me levou pra casa dele e eu fiquei lá. Na época, a minha mãe não estava aqui, ela viajou para o norte, aí eu fui morar na casa dele, por causa do trabalho, né?
Que a Latina, ela tinha uma filial em São Vicente, a Latina mesmo era (ficava como) quem vai aqui para Itanhaém, antes de chegar naquele posto de guarda rodoviário à direita, quem vai daqui para lá?
Só que ela tinha uma filial em São Vicente e a filial que eu falo seria tipo uma casa dessa e uma outra casa noutro local. Aí fiquei morando na casa dele, trabalhando, aí, depois de um tempo a Latina não teve mais serviço em lugar nenhum. Aí só ficou eu e um encarregado que chamava Macaro, que era o meu encarregado; infelizmente, o Cleber que era o administrativo da empresa, me chamou lá no escritório e perguntou para mim se eu queria ficar ou queria sair... O que eu ia fazer? “Como eu vou ficar num lugar daqueles sozinho?
Não tem condições, lá é um esquisito que faz medo”, e eu digo: “não, aí você vê o que faz... Aí eu vou ficar sozinho aqui? num negócio desse aqui? Não tem como...”, (eu ficaria) cuidando da máquina, alguma coisa, limpando uma máquina, ajeitando... Aí, eu falei: “Não, se você puder mandar eu ir embora...”
Aí eu saí da Latina, fiquei um tempo tocando obra por minha conta.
P/1 - Obra de construção?
R - Sim, tudo: guias, sarjetas, inclusive essa obra ali do Costa Muniz (Costa Muniz Indústria e Comércio), do lado de lá da linha do trem, foi uma das obras que eu trabalhei, na época, cheguei a fazer aquilo ali. Só que eu não pegava a obra da empresa, né? Por exemplo, assim, da Prefeitura ou da Cursan (Cursan Companhia Cubatense de Urbanização e Saneamento), que era uma empresa contratada da prefeitura. E eu pegava assim: uma empresa pegava o serviço lá da prefeitura e repassava para mim fazer, pelo conhecimento que eu tinha com o prefeito Nei Serra, foi prefeito muito bom, ele tem os problemas dele, os defeitos dele, mas isso é coisa dele.
P/1 - Quantos anos nessa época? Uns 20?
R - Aí eu estava com 20 e tantos anos, já estava beirando os 30 já.
P/1 - Ah, é?
R - Sim.
P/1 - Mas não tinha vindo pra Vila Esperança ainda?
R - Nessa época, quando eu comecei a trabalhar lá por conta, eu morava na Vila Natal, passei a morar na Vila Natal
P/1 - Sozinho?
R - Não, com um irmão meu, ele tinha uma casa na Vila Natal e eu morava com ele. Depois eu comprei um barraco aqui na entrada da Vila Esperança, ajeitei e aterrei tudo, deixei tudo no piso, tudo no azulejo. Aí casei não, eu fui morar com a mulher.
P/1 - Ela era daqui da Vila Esperança?
R - Sim, era de pertinho, perto de mim.
P/1 - Como você se conheceram?
R - Se conhecer é assim, né? Sempre eu fui uma pessoa assim que eu nunca fui em lugar nenhum atrás de ninguém. Sempre as pessoas me procuram, não sei o porquê, né?
E aí nós se conhecemos, eu conheci ela através de uma amiga dela, né? A dona Néa. Inclusive hoje ela mora lá ainda, eu acho. Acredito que ela mora na Vila Esperança ali ainda, eu tinha um fusca vermelho e tinha um menino que, essa senhora, ela nunca teve um filho, certo? E ela era assim, apaixonada para criar uma criança, ou dela, que seja dela ou de outra pessoa e uma senhora que não tinha condições nenhuma e estava grávida de um filho e estava procurando uma pessoa para doar aquele filho, uma pessoa que tivesse condições de cuidar dele. E aí ela foi, conversou com essa mulher, conversaram. Eu não sei qual foi a conversa dela lá, né? Eu não apreciei a conversa delas, e eu fui um dos candidatos a ir lá pegar o menino lá na maternidade.
P/1 - Pra levar pra essa senhora?
R - Pra trazer pra essa senhora que também morava aqui, e ela trouxe esse menino. Hoje ele é um homem, não sei como é que ele tá, o que que ele faz, o que deixa de não fazer, até porque o meu tempo é curto, né? E eu quase não tô andando mais, muito...
P/1 - Mas você foi buscar esse bebê na época?
R - Na época fui buscar, na época trouxe, ela trouxe a criança, ela cuidou muito bem desse menino, tá entendendo? Não sei hoje como está. Então eu conheci essa menina através dela, né?
P/1 - Mas só pra entender de quem a gente tá falando: a sua esposa, na época, foi quem adotou?
R - Não, foi outra senhora, né? Uma senhora que adotou esse menino
P/1 - Esse menino é filho de quem?
R - Ele é filho de uma mulher lá, eu não sei o que... ela conseguiu ir lá conversar com a mulher e a mulher adotou a criança pra ela. Entendeu?
P/1 - Mas como é que o senhor conheceu sua ex-esposa nisso tudo?
R - Nesse dia que eu fui pegar a criança lá com o Fusca e ela foi junto, aí nós se conheceu e por aí nós começamos a conversar e conversa vai, conversa vem e chegamos à conclusão de nós namorar, né? Mas ela era uma menina muito nova na época, e eu sempre falava para ela: “menina, procura uma pessoa nova, eu já sou um cara de 30 anos, quase 30 anos, como é que eu vou casar com uma menina de 15, 16 anos? Tu é maluca?”
Mas aí, infelizmente, tem pessoas assim, eu não sei se é o pensamento dela, porque jamais eu vou entrar na sua mente, não tem como eu entrar na sua mente, certo? Eu acho que cada um de nós pensa diferente, pensa uma coisa. Mas eu sempre procurei uma pessoa direita, que eu visse que era, vamos supor, não da esquerda, da direita, certo?
Então era uma pessoa, uma família muito humilde, a casa delas era... o pai dela era uma pessoa muito humilde, era um carpinteiro e a mãe era sofrida, também, como eu sofri... e cheguei a uma conclusão, aí começamos a namorar, eu fui e falei com os pais dela e expliquei para eles: “Não é eu, é ela que quer, se ela não quiser hoje, ela pode arrumar uma pessoa melhor do que eu... Eu não faço questão! Eu não quero que amanhã ou depois diga que eu forcei a barra ou alguma coisa que o outra, não.”
Tudo bem, de boa, aí falei com os pais dela e eles falaram: “Não tudo bem, vou fazer o quê? Não é eu que vou namorar mesmo” foi o que ele me falou, né? Então ficamos namorando, ficamos 4 anos namorando e quando foi com mais ou menos quando ela completou uns 17 ou 18 anos, aí nós ficamos juntos.
Eu cheguei nela e expliquei para ela, falei para ela: “Você pode procurar uma pessoa melhor do que eu, você é uma menina nova e pá. E não é bem assim” ela disse “Mas eu não quero, eu quero você”, eu digo: “se você quer eu, nós temos 2 opções, ou nós vamos casar ou nós vamos morar junto ou alguma coisa”, porque tem outras pessoas que às vezes fica falando algumas coisas... mas aquilo ali eu já nem ligo para essas coisas, porque eu sei que o xabu, sempre tem, né?
Aí ficamos juntos e infelizmente tivemos um casal de filhos. Há uns 15 anos atrás não deu para nós viver, eu falei para ela “não tem como nós viver dessa forma.” Eu construí uma padaria, aí tem muita coisa que se passou, que eu nem gosto de falar, porque se eu for falar dela...ela é a mãe dos meus filhos, eu não posso falar dela.
P/1 - Vocês ficaram juntos bastante tempo?
R - Ficamos, ficamos juntos 15, 16 anos aproximadamente.
P/1 - Na Vila Esperança?
R - É tudo da Vila Esperança para cá. Aí eu construí aquele sobrado ali, se virando aqui, virando ali na Santa Marta, aquele sobrado ali eu construí do baldrame ao segundo andar.
P/1 - Saiu do barracão e foi para o sobrado?
R - Aí construí uma padaria embaixo e a moradia em cima. Mas assim, com um determinado tempo ocorrem coisas e fatos na vida da gente que não deu certo para a gente viver. Eu fui para um lado, ela foi pro outro, ela ficou lá. Eu deixei a casa lá para eles, eles moram até hoje. O meu filho mora lá, a minha filha mora no Vale Verde.
P/1 - Como é que eles chamam os filhos?
R - Claudinei e Claudete?
P/1 - Quantos anos eles têm hoje?
R - A minha filha tem aproximadamente 30 anos, 28 anos a 30 anos. O meu filho tem 19 anos.
P/1 - É jovem?
R - É jovem.
P/1 - Seu Severo, quando o senhor veio para a Vila Esperança, quem convidou o senhor para vir para Vila Esperança? O senhor já conhecia? Tinha algum amigo aqui? Por que Vila Esperança?
R - Eu estive morando na Vila Natal, e a Vila Esperança, era eu não sei se... mas Vila Esperança, eu acho que a 25 anos, 30 anos aproximadamente atrás, ela não foi urbanizada, (mas) tiraram todas as pessoas dali da avenida, que antigamente a Vila Esperança era só a avenida, e depois construíram tudo de volta de novo.
P/1 - Foi invasão?
R - Sim, invadiram outra talvez. Mas é a Vila Esperança, teve uma época aí que eu não sei se o prefeito foi Passarelli ou se foi Nei Serra, foi um desses dois prefeitos, eles tiraram todas as pessoas dali, daquela avenida. E depois o pessoal voltaram tudo pro mesmo lugar, e estão aí hoje.
Só que naquela época era uma casa aqui, outra com 30 metros, 50 metros, 100 metros, era longe. Hoje você vê como é que está, né? Mas o que fez eu vir aqui à Vila Esperança, foi que eu morei na Vila Natal e eu achei aqui um lugar adequado para viver, né?
P/1 - Era melhor?
R - Era naquela época, era bom. Hoje também eu não tenho assim muita coisa... Eu só reclamo assim, às vezes, da segurança pública, eu não servia para ser um secretário de Segurança Pública, porque ou as pessoas iam me matar logo ou eu acabava com muita coisa ruim, viu?
P/1 - Quando o senhor chegou aqui, como que era? As ruas, as casas.
R - Ah, isso aqui era... Aqui atrás era um campo de futebol, quando eu vim para cá, para esse local, aqui era um campo de futebol e esse campo de futebol, ele virou uma invasão, porque pessoas de, como posso dizer, de alto escalão, as pessoas que se acham o dono da vida, dos outros e das coisas dos outros. Eles foram os primeiros a invadir e acabou o campo e alastrou tudo isso aqui por aqui. E se não há um prefeito aqui igual Ademário, isso aqui já estava lá no Frango Assado lá na Imigrantes. Porque ele chegou e botou ordem.
P/1 - Mas antes, bem lá atrás, tinha muita gente morando aqui?
R - Há quantos anos aproximadamente?
P/1 - Quando o Sr. chegou faz 30 anos, né?
R - Tinha. Já tinha bastante gente.
P/1 - Já tinha bastante gente?
R - Tinha gente, bastante gente.
P/1 - Tinha bastante barraco?
R - Bastante. Quando eu cheguei aqui, eu montei uma padaria e eu vendia na época, para você ter uma ideia, só eu que tinha uma padaria aqui, mas eu vendia 6000 pães.
P/1 - Por dia?
R - Por dia, e sábado e no domingo era 8000 pães que eu vendia.
P/1 - Caramba! Então tinha tudo isso de gente?
R - Tinha muita gente. Nossa Senhora... isso aí eu tô falando, só tinha eu aqui e o Olavo lá no Morro do Índio.
P/1 - De padaria?
R - De padaria.
P/1 - Mas tinha mercado?
R - Lá. Era uma padaria e mercado, aqui tinha o mercado da finada Dona Maria e o finado Lourenço.
P/1 - Tinha postinho de saúde, tinha energia elétrica?
R - Não, aqui, aproximadamente, assim, quando eu cheguei, não tinha posto de saúde, o posto de saúde daqui sempre foi na Vila Natal. Hoje tem, um lá embaixo... e aqui colocaram um aqui, eu não sei por que não funcionou. Também. Eu acredito que foi através de aluguel, né? Porque é assim, as pessoas hoje têm muitas coisas erradas nesse negócio aí de licitação.
Eu não gosto de estar falando essas coisas, mas o aluguel de algumas coisas, licitação é uma coisa muito perigosíssima, eu tenho medo disso, desse negócio de quando tem uma licitação para fazer uma obra... porque a gente não sabe o que ocorre ali e ninguém diz, né?
P/1 - Quando o senhor chegou, o senhor comprou o barraco de quem?
R - Eu comprei um terreno de um rapaz, não era...Quando eu cheguei lá, eu comprei um barraco, eu não me lembro se eu comprei ou como foi, se eu fiz um barraquinho, alguma coisa assim... Não me lembro que o dono do barraco... Agora, o daqui eu lembro que era um terreno e eu troquei em uma caminhonete que eu tinha e construí. Mas o de lá eu não lembro.
P/1 - Porque a maior parte das pessoas foram chegando, e foram construindo, né?
R - Sim, foram construindo.
P/1 - E gente de todos os lugares?
R - Gente para todo lado, aquela avenida ali era cheia de gente até o viaduto. Do viaduto para lá já foi era aos Pingos... Um barraco aqui, outro lá embaixo, era assim. E hoje virou uma cidade.
P/1 - Virou uma cidade. Quando você chegou, já passava o trem?
R - Sim, o trem. Esse trem aí, eu acompanho ele desde que eu estou aqui. Como também essa roubalheira do trem... há 50 e tantos anos, eu conheço isso aí há 50 e tantos anos, e ninguém nunca acabou.
Não sei o que que tem, que o pessoal hoje está mais devagar, mas se você visse antes, nossa Senhora! Dava medo, era assim um vandalismo tremendo, olha, era vagão de milho jogado, soja, sem contar os trens de carne que eles roubavam aí...
E ficou uma coisa assim, sem domínio, sabe? E um negócio desse derramado de soja, que prejuízo não dá a essa empresa, gente! De milho? De vez em quando eu vejo aí um zum zum zum aí, gente vendendo carne, e aí de onde vem? Eu não sei, né? Mas isso aí, o cara (que está vendendo) já diz que é do trem, então, alguma coisa tem, né?
P/1 - E quando o senhor chegou, tinha alguém que botava ordem aqui na Vila Esperança?
R - Sempre teve. Isso aí é uma coisa assim... Hoje nós vivemos aqui dominados pelo crime organizado, que a gente não pode fazer nada, não pode falar nada, você tá entendendo? Mas só quem sabe é quem convive, sobrevive aqui, ou quem conviveu e saiu daqui.
Teve uma época aqui que uma senhora estava vendendo uma casa ali, próximo a um local onde fica esse pessoal. Eu não tenho nada contra eles, não tenho nada contra ninguém. E veio uma senhora, eu não sei se foi do Casqueiro, de um local aí, veio comprar a casa deles, o filho é um amigo meu.
E essa mulher, quando chegou aí, viu um arsenal de armas que assustou “Nossa Senhora! Meu Deus do céu!” E a mulher foi embora, não quis mais nem conversa.
As pessoas lá fora, meu filho treinava lá no Santos (Santos F.C), ele treinava lá com seu Zé Luiz, e eu cheguei lá, ele falou: “Nossa, vocês moram ali?” Olha, tá vendo (o preconceito)? Por quê? É um lugar mal visto pelas pessoas que conhecem, quem não conhece a periferia diz assim: “Não, mas nós estamos aqui, ninguém vai vir mexer conosco aqui.” Mas a gente não sabe o que se passa ao redor da gente...
P/1 - Você nunca teve medo?
R - Não, eu não tenho medo de nada. Eu só tenho medo dos castigos de Deus. Só. Até porque um homem, ele não deve temer a morte. Porque todos nós sabemos que vamos morrer... Do que? Só Deus sabe, aqui eu conheci muita gente assim, da quebrada que nem diz o ditado. Eles me chamavam eu de “Malandro Maneiro”, porque você vê uma pessoa que veio da Vila Parisi, Vila São José, Vila Nova, Vila Natal pra Vila Esperança.
Então, eu conheço muita gente, só que eu não conheço as pessoas por nome. Se me perguntar o nome e eu conheci alguns pelo nome, então eles me chamavam de Malandro Maneiro, os grandes malandros diziam: “Esse Severo é Malandro Maneiro…” Porque eu sou uma pessoa que eu vejo, e faço que não vejo né? E então todos que eu conheci, a maioria desses daí, tudo são finados: o finado Pedrão, Finado Zé Galego, finado Binha, finado Basto, finado Xuxa, finado Chicão. Então todos são finados, e eu, com a minha cara de besta, estou por aqui. E são as pessoas que eram da minha época, só que eu nunca procurei o caminho errado. Eles viviam no caminho deles para lá e eu no meu.
P/1 - Chegavam a chamar o senhor para o caminho errado?
R - Não porque ele sabia que eu era uma pessoa diferente deles. Quando você tem assim, eu tenho o privilégio de falar, quando você passa a fazer um trabalho desse igual vocês fazem e são diferentes de outras coisas. Ninguém é diferente de ninguém assim, fisicamente, entendeu? Mas mentalmente existe uma diferença.
P/1 - E aí o senhor via o que acontecia?
R - Sim, mas não ligava.
P/1 - Não se metia?
R - Porque a maioria desses bandidos aí eles eram tudo ladrão de carga, de calça jeans, tênis, essas coisas aí, naquela época era uma época muito fácil pra eles, né? Roubar e sumir com a carreta. Agora, acredito eu, quantos pais de família eles amarravam o pai de família na mata?
Eu acredito que até eles matavam alguns deles, né? Agora você imagina a família de uma dessas pessoas? Como que ficou? Como você vê? Você vê casos e mais casos aí de o cara matar um policial? Nossa, um policial, ele também tem uma família igual você tem um, eu tenho outra.
P/1 - Mas isso aqui aconteceu viu, acontecendo muitas vezes umas confusões aqui na Vila Esperança?
R - Se tem alguma confusão, assim.
P/1 - Se o Sr. via conforme os anos iam passando. Tinha muito?
R - Ah! Sempre teve. Aqui sempre teve coisas. Aqui eu já vi coisas aqui que sinceramente, eu não gosto nem de falar, porque a gente tem que ter um limite das coisas para tudo tem um limite. Então não é bom a gente estar falando as coisas porque a gente estamos aqui, mas tem pessoas aí que ficam de olho assim, entendeu?
Eu estou aqui, nós estamos aqui, mas se, por exemplo, tiver uma blitz ou alguma coisa, ou vier uma viatura, todos nós aqui vamos ficar sabendo, porque você vai ver a correria de gente correndo, armado, com saco nas costas para lá e para cá. [intervenção]
P/1 - Então o senhor ia se virando. Tipo, como é que sobrevivendo a tudo isso?
R - Isso, tem um ditado que (diz) “a gente vai empurrando com a barriga,” né? A gente vê, não pode fazer nada, não tem como nós fazer nada. A única coisa que nós podemos fazer é o silêncio.
Eu já vi, amigo meu, pessoas conhecidas, com esse negócio aí de tribunal do crime, aí... (acontecer de) hoje eu vejo os caras conversando às 3h da tarde, e no outro dia levarem ele para matar... pessoas que eu conheci assim de vista, não é amigo meu...
Isso aí é uma coisa que marca na vida da gente, mas infelizmente tem pessoas que não acredita, às vezes no abestado que mora na periferia. Porque eu admiro uma pessoa que tem a teoria, mas eu também admiro uma pessoa que tem a prática, eu acredito que a teoria sem a prática é a prática sem a teoria não funciona. Seria a mesma coisa de um açúcar com café, você tem que misturar para poder dar aquele café saboroso.
P/1 - E quais eram os conselhos aos teus filhos quando eles começaram a crescer para viver?
R - Aos meus filhos, eu fiz o seguinte eu... foi uma história assim, meus filhos, eu nunca dei um beliscão, em nenhum deles. Mas eu sempre falava para eles, sempre eu sentava com ele e falava: “Olha, você nunca viu o seu pai em lugar errado fazendo coisa errada E vou lhe pedir uma coisa se um dia você procurar esse caminho das drogas, onde está mexendo nas coisas dos outros ou tirando a vida de alguém, nunca diga a ninguém que eu sou seu pai” e o meu filho, ele falava: “Não, pai”, ele com 10 anos mais ou menos, aproximadamente 12 anos. “O senhor pode ficar certo de que eu nunca vou lhe decepcionar.” E hoje ele trabalha no Krill (Rede Krill Supermercados), é um menino muito bom, inclusive o dono do Krill, acho que gosta muito dele, e ele é um menino que não dá trabalho a ninguém.
P/1 - O que é o Krill?
R - O Krill é um mercado que tem na saída aqui.
P/1 - Ele trabalha lá?
R - Ele trabalha lá, eu não sei o que ele faz lá, mas trabalha lá. E o homem lá gosta muito dele.
P/1 - E a filha também foi pelo caminho?
R - A minha filha, eu consegui formar ela em professora de ballet e contabilidade. Hoje ela é casada com um engenheiro e eu acredito que está fazendo engenharia civil também.
P/1 - Orgulho, né?
R - Eu mesmo não tenho nada a reclamar dos meus filhos não, eu assumi até eles completarem a idade deles. É uma coisa que eu lhe digo, eu vejo aqui algumas coisas assim, que não sei se é errado, mas eu não sei se é certo o pai deixar um filho sofrer e passar necessidade.
E eu já vi isso aqui, tem muita coisa que está errada, que se, por exemplo, um Conselho Tutelar, eles estão lá...não sei o que fazem lá.... porque não tem um fiscal, uma fiscalização pra andar fiscalizando isso? Eu acredito que um fiscal, antigamente, eu lembro que tinha um fiscal, tinha aquele pessoal da malária que andava voando, matando inseto com as bombas, tá entendendo? Hoje ninguém não vê mais isso.
Aqui, se você correr, se eu fosse um fiscal daqui de um Conselho Tutelar, olha, eu não sei nem o tanto de ocorrência que era feito aqui dentro! Porque eu conheço aqui pai, mãe que usa droga e os filhos andam de qualquer jeito, passam necessidade, e as pessoas que estão lá não estão vendo... Se você não andar... igual, vocês saíram, vocês são de?
P/1 - São Paulo.
R - São Paulo, olha onde vocês estão... Vocês estão andando nas periferias, em tudo que é lugar, provavelmente, o que eu estou passando para vocês aqui, vocês vão ver aqui, algumas coisas.
P/1 - Como é que o Senhor criou os filhos do senhor? Foi com a padaria?
R - Os meus filhos foi uma coisa assim, quando eu me separei, eu chamei a minha, a minha.
P/1 - Mas até se separar se criou bastante, né?
R - Não, até eu me separar, os meus filhos eram bem-criados. A minha filha sempre estudou balé, sempre, e você sabe que pessoas que faz (atividade) física têm fome, né? E eu como assim, não sabia de nada... A minha filha falou “Pai, as minhas colegas todo dia, quando nós paramos o treino, elas vão para uma lanchonete para (comer) “eu falei “ah é? e ela “É” ... E aí todo dia, na época eu deixava, há 15 anos atrás, R$50 debaixo da garrafa do café (e dizia) “está aí para você fazer seu lanche mais suas colegas”, certo?
Então, eu sempre os meus filhos, sempre é uma coisa assim, eu me separei da minha esposa, mas chamei ela para ir até o fórum e ela disse que não ia, bateu o pé e falou que só ia se matasse ela, porque assim, eu acredito que ela sabia que eu nunca ia deixar os meus filhos passar necessidade. Então eu contratei o Dr. Renato, infelizmente ele morreu, era um advogado que convivia com nós aqui, ele morava em Cubatão, mas ele tinha um sobrado ali, vendeu ____ a mulher, a esposa dele. E ela disse que o oficial de justiça veio aí. Ela (a ex esposa) disse que não ia lá, só ia se eu matasse ela. E eu fui lá, o juiz perguntou o quanto eu ganhava. Eu falei pra ele “Olha, excelência, eu acho que R$1.000 eu ganho”. Ele falou assim “mas o senhor tem alguma renda? Eu disse: “Não, eu não tenho renda nenhuma, mas (pelo menos) R$1.000 eu ganho”. Aí ele falou assim “Seu Severino, o senhor pode pagar R$250?”, eu falei “Excelência, eu acredito que R$250 não é um dinheiro suficiente para que alimente os meus filhos”. Porque se é assim, as pessoas acham que R$250 é um dinheiro que alimenta uma criança, mas e quem vai cuidar daquela criança? Será que tem tempo para trabalhar também?
Porque eu às vezes eu tenho falado para as pessoas, eu sou homem, e qualquer homem vai falar que uma senhora dona do seu lar, ela trabalha 2 ou 3 vezes, até mais, do que o esposo dela.
É muita coisa, Nossa Senhora! para você cuidar dos filhos ali, no eixo. Porque para você que quer criar uma família num local desse, aqui, nessa periferia aqui, nossa! Se você não tiver “ordem e progresso” que nem diz o ditado, não consegue....
Então o juiz perguntou, eu falei “Olha, excelência, eu posso dar R$300, mas eu tinha na minha cabeça que aqueles R$300 ainda não daria para manter a minha família, né? Porque de uma certa forma, é família, mesmo que eu larguei dela ou ela largou de mim, somos uma família, e aí ele olhou, cruzou as pernas e falou assim “Nossa, mas eu nunca vi uma coisa dessa, o homem que veio aqui dá o direito aos filhos dele”.
Eu falei “Excelência, os filhos, os nossos filhos, eles não têm nada a ver com problema entre marido e mulher, o meu problema com ela”, ele falou “O senhor não quer fazer uma conciliação? Não sei o que...” eu falei não, não dava para sobreviver com isso, para nós viver. Porque ela ficou teimosa e não é certo o homem estar brigando com a companheira dele. Como é que eu vou brigar com uma mulher agora de manhã e de noite dormir com ela? Não tem jeito.”
Aí o juiz olhou assim para mim, olhou e disse” O senhor pode pagar R$300?” Eu disse” posso, a não ser que eu adoeça, ou ainda eu acho que eu, com uma perna só, um braço só, eu consigo pagar ela”. Ele disse “eu nunca vi um caso desse.” E aí, ele assinou as papeladas lá e fez tudo. Mas aí eu dava R$300 a ela e liberava R$300 pra ela comprar no mercado da frente.
O rapaz ali é meu amigo, o Cláudio, ele pode confirmar o que eu estou falando aqui. Eu não tenho como eu inventar uma história dessas, entendeu? Aí eu vim embora, mas assumi até a minha filha fazer os 21 anos, o meu filho fazer 19 anos. Aí falei para ela “você fica com essa parte de cima”. Eu tinha o salão que eu tinha, já não tinha mais padaria, não tinha mais nada, até porque eu não....
Aí peguei o salão e vendi, né? E O rapaz (que comprou) ficou pagando até hoje, você vê, eu pagava...O juiz mandou eu pagar R$300, o rapaz ali da Ilha Bela, que comprou o salão, ele pagou até o meu filho, fazer 19 anos, R$500 e de vez em quando eu ia lá, ajudava ele.
Eu paguei 1 ano pra ele treinar lá no Santos, só que assim essa molecada de hoje... A mulher do professor, ela falou pra mim que essa molecada de hoje quando ele faz 17 anos, a mente deles parece que muda, não é mais a mesma, e eu (dos) 8 anos até a idade que eu estou hoje, os meus pensamentos são os mesmos, de progredir.
Você pode não ter o objetivo de ser aquela pessoa que você é, mas você tem que progredir e o outro vem (com) o bem e o mal, um constrói, o outro destrói e por aí vai...
Então eu, [pedaço fora da continuidade] eu fui um cara que joguei muita bola, muito futebol por aí, joguei no Vila Natal, joguei no 31, joguei no Vera Cruz, tudo futebol de várzea, nenhum futebol assim de que tinha um profissional, né? Joguei no Light, o Light, ele tem um time que é tudo ex profissional, tinha, não sei se ainda tem, e os caras que eram ex profissional gostava de jogar comigo.
P/1 - E o Sr. se divertia?
R - É porque eu tinha um time, eu formei e eu fiz um time aqui, “Esporte Clube, Sítio Novo”, e saí catando um numa esquina, um na outra, e fizemos um time de futebol, porque aqui é na várzea, existe aquela coisa, em todo lugar tem uma malandragem, aonde você vai, tem uma malandragem, é parente não sei de quem, é colega de não sei de quem... é irmão, não sei de quem, e lá vai... Tem aquela coisa e eu não gosto disso, eu sou duro na queda que nem diz o ditado. Eu gosto das minhas coisas mais ou menos, porque certo, só Deus, certo? Então levei o meu filho lá e expliquei pra ele “Filho, olha”, ele tem uma boa altura, é um menino magro, entendeu? E tem um físico bom, eu disse: “e você tem um domínio de futebol? De uma bola? Tem”.
Ele sabe jogar bola, mas infelizmente a cabeça deles é diferente da minha, olha, eu coloquei ele na academia, eu treinava ele 2 vezes por semana e 2 vezes ele treinava lá no Santos, por semana também, 2 vezes. Eu treinava ele e ele saiu da academia, disse que estava cansado. Aí ele fez uma partida lá que ele tem no celular dele e que eu não trouxe o celular, mas tem no meu celular também.
E eu falei para ele “se você jogar 3 ou 5 partidas desse jeito, qualquer um time vem atrás de tu, besta, mas precisa se dedicar na academia, que é o que faz você jogar é a academia, físico, preparo físico”. E acabou aquela época de você se achar um jogador bom, sem um físico... não tem mais. Tem que ter aquela física braba que nem dizem.
P/1 - Tem que treinar né?
R - Tem que treinar muito, é muito treinamento, eu tenho assim mais ou menos, uma um uma consciência mais ou menos como que é um treinamento de um jogador de futebol, é duro, não é fácil não.
P/1 - Eu queria que ele seguisse por esse caminho?
R - Sim, porque ele queria, né? Foi uma das funções que ele... eu não tive o privilégio de ser, eu digo, “você quer ser um jogador, só que você tem que seguir uma regra, luta, lutar, preparo físico”. E olha, é tanta coisa que você nem imagina, até você chegar a ser um jogador profissional, você vai comer o pão que o diabo amassou. Porque não é fácil um moleque da periferia chegar lá e ser um jogador de futebol, não é fácil, não. A maioria é tudo, filho de Ronaldinho Gaúcho é filho não sei de quem...
Por quê? Porque se chegar um filho meu, ou um filho seu, ou um filho de Ronaldinho fenômeno, as pessoas vão dizer “isso aqui é o filho do Ronaldinho, e esse aqui é filho de quem? É o filho do Severo da padaria” ..., pô, então tem uma diferença.
P/1 - Ele desistiu, ele desistiu?
R - É porque ele saiu da academia e eu não gosto, eu falei para ele “você quer ser um jogador? Vai ter que seguir a minha regra também” Senão eu saio quando você completar, quando completou 18 anos, ele saiu da academia, não quis mais fazer academia, arrumou uma namoradinha, filha de um cara lá na Praia Grande e era não sei o que... era tanta mulher no celular do menino que fazia medo, e eu ficava do lado de fora com o celular dele e eu via as mensagens, e outras pedindo WhatsApp dele e não sei o que lá vai. ...
Aí eu sempre falava pra ele “Filho, um homem ter uma namorada, não é defeito”. Agora, ele querer as mulheres todas do mundo pra ele, aí já é outra coisa…
E aí ele saiu da academia, se sentiu, disse que estava cansado e não sei o que, eu disse: “Tudo bem, se você quer sair, então você tudo o que nós fez vai de água abaixo”. Então, hoje ele está no Krill, mas é um menino feliz, né? Tem saúde, não fuma, não usa droga, não faz coisas erradas. Até hoje eu nunca soube que ele fez coisas erradas, muito pelo contrário, dificilmente as pessoas vêem ele, ele é do trabalho dele para casa.
P/1 - Mas quanto tempo o senhor separou?
R - Tem uns 15 anos. 17 anos.
P/1 - Mas se ele tem 19?
R - Quando eu separei da mãe dele, ele tinha 6 anos.
P/1 - Então ele tem um pouquinho mais de 19. É isso?
R - Por aí. Ele tem 19, eu não sei a idade, e o tempo que eu me separei dela, mas a idade dele hoje deve ser 19, 20 anos por aí.
P/1 - E aí, depois da padaria, o senhor se separou e parou com a padaria?
R - Eu já tinha parado. Eu já tinha um ferro velho quando eu me separei.
P/1 - Quando é que começou o ferro velho?
R - O ferro velho? Eu comecei quando... Por exemplo, às vezes você faz uma coisa aqui, aí o outro vê, quer fazer outro (igual) ali, aí o outro vê, quer fazer outro ali. Então uma padaria não é uma coisa assim... você tem despesa, você tem empregado? A minha padaria, eu não tinha uma empresa assim, digamos assim, chamava-se “Panificadora Santa Marta”, mas eu não tinha uma empresa, eu tinha um CGC para trabalhar, que é um documento do Estado, né? E eu tinha que pagar, eu pagava férias, 13.º e aviso, só não pagava o fundo de garantia. Mas tudo que eu pagava os funcionários e ...
P/1 - E tinha quantos funcionários?
R - Seis.
P/1 - E trabalhava dia e noite.
R - Dia e noite, sem parar.
P/1 - E aí, quando é que começou o ferro velho?
R - Não entendi.
P/1 - O ferro velho quando começou?
R - Aí eu. Eu não aguentei a padaria e aluguei a padaria e fui descansar um pouco na Vila Natal. Fiquei um tempo morando lá e aí quando o menino (que alugou) me entregou, era padaria pra todo lado aqui, fazia até medo.
Aí eu falei, aí eu digo assim “Meu Deus! Mas nem só do pão o homem viverá.” Tem essa palavra na Bíblia, né? Eu não sou religioso, mas a gente tem que ver as coisas como ela é, e aí eu digo “meu Deus, me dê uma direção, alguma coisa pra mim fazer aqui”.
Ninguém tinha um ferro velho por aqui. Ninguém tinha. Só um rapaz lá perto da ponte que tinha um. E aí eu comecei a comprar coisa e a juntar coisa e fui ajuntando, fui ajuntando. Quando tinha um caminhão de plástico, um caminhão de ferro, um de papelão e algumas coisas lá, uns alumínios.... algumas coisas, aí eu abri as portas. Aí comecei o ferro velho e aí, com um determinado tempo começaram a montar ferro velho. Até o churrasqueiro estava comprando cobre e alumínio, aí eu olhei para um canto assim, olhei para o outro, falei “Vou parar com o ferro velho”. Aí parei com o ferro velho e foi na época que veio a separação. E aí eu fui morar para lá e depois voltei para cá de volta e hoje estou aqui.
P/1 - E aí voltou com o ferro velho?
R - Aí eu voltei com ferro velho, porque eu procurei uma coisa para fazer. Tem pessoas que é assim, você tem que ter uma visão das coisas. Por exemplo, assim eu posso não ter uma visão de ganhar muito dinheiro, até eu não quero essa visão, porque eu acho que você tem que ganhar alguma coisa com honestidade e dignidade, não com sem vergonhice e com safadeza, tá entendendo?
Então, aí eu olhei pra um canto, olhei para o outro e é um monte de ferro velho já por aqui, ferro velho que não se acaba mais. Olha para quem tinha 1 e hoje tem 10 a 11 por aí aproximadamente, então a coisa cresceu 9 ou 10%.
P/1 - E o ferro velho começou a dar dinheiro e deu certo?
R - Não, é que o ferro velho é assim, você ganha centavos, mas é uma coisa assim. Eu não tenho nada doado, tudo meu é comprado, é diferente de você ter a doação. Por exemplo, quando você tem a doação de alguma coisa, é muito fácil você ganhar uma coisa, agora você comprar é outra coisa, é diferente, então você tem que saber comprar e saber vender.
P/1 - E tem bastante coisa para pegar por aqui, pela região?
R - Não, eu não tenho, é assim eu compro coisa dessas pessoas... e até eu não sei se estou ajudando eles ou se então se estou atrapalhando eles, porque eu procurei um caminho bom para mim, agora, se a pessoa procura um caminho ruim para ele, o problema é dele. Eu não posso, né? Quem sou eu? Eu não sou a medicina e nem sou Jesus.
Eu acho que eu procuro coisas boas para mim, eu vou procurar coisa ruim?
P/1 - Não.
R - Então as pessoas procuram as coisas ruim para eles, e depois fica igual a a zumbi, não dorme, não deixa, perturba os outros.
P/1 - O que você costuma vender lá no ferro velho?
R - Lá eu compro de tudo: plástico, ferro, papelão, algum pouquinho de cobre, algumas coisas, eu compro alumínio, eu não gosto de comprar muito cobre, porque vamos assim... é uma suposição: o cara tem coragem de arrancar isso aqui e queimar lá e me vender, e como eu vou saber que ele arrancou isso aqui? Foi lá me vender? Não tem como, porque eu estou lá.
Nós estamos aqui, mas estamos sabendo o que está ocorrendo aqui ao redor de nós, não sabe? Então é por esse motivo que eu não gosto muito de comprar cobre, eu gosto de comprar mais assim, plástico, ferro, alumínio. Então o lucro da gente chama-se centavos, ele não chama-se dólar, nem milhões, nem isso, nem aquilo outro.
Agora há uma diferença de quando você compra e quando você ganha, existe uma sociedade aqui, uma associação, mas essa associação é uma coisa muito bem organizada, ela tem empilhadeira, ela tem caminhão, tem tudo. Está entendendo? Ela recebe a doação de todas as empresas, a maioria das empresas, não sei se a refinaria ainda está doando alguma coisa.
Você já imaginou? Eu monto um ferro velho que tem uma doação da refinaria, da Cosipa ou que eu compre alguma coisa da Cosipa, que a Cosipa, Refinaria, União Carvalho, Cabo Cloro, essas grandes empresas elas têm... chama-se “sucata rica”, aí você compra uma sucata dessas, você comprando uma sucata dessa rica, aí você consegue alguma coisa.
Mas essas coisas que têm por aqui, eu chamo isso aí, eu considero isso aí com a limpeza urbana.
P/1 - Como é que funciona? O senhor vai andando? Ou eles que vão até o senhor?
R - Não, eu não vou andando, as pessoas, que andam, eles catam e levam para mim e eu compro deles.
P/1 - E aí depois o senhor revende para quem?
R - Aí depois eu revendo para algumas pessoas, eu tenho um rapaz no Costa e Silva que me compra o plástico e o ferro e outras coisas também, se eu tiver, né? Mas tem algumas coisas também que eu levo pra São Paulo, assim, umas coisas que em São Paulo o preço é outro, tem uma diferença tremenda.
P/1 - Então são coisas pequenas?
R - Sim.
P/1 - Não é alguém que chega com uma porta dessas de alumínio pra vender, por exemplo?
R - Não. Aí, eu já não compro, só se ela tiver esbagaçada ou alguma coisa. Mas se chegar uma porta dessa, uma bicicleta inteira, um celular, coisa da Ecovia, da Prefeitura e da Rede Ferrovia. Aí eu digo “cidadão, você me desculpe, mas vá lá e pegue suas coisas e vá embora daqui”.
P/1 - Por que o senhor não compra?
R - Porque são produto de roubo. E o ferro velho, ele já é uma coisa mal vista até pelas grandes autoridades. Mas só que na verdade, se você for analisar, o ladrão pode ser aquele coitado que roubou aquilo ali. Por exemplo, chega a polícia na minha casa encontra 1 quilo, 2 kg, 3 kg de cobre, se ele quiser, ele pode me autuar em flagrante, ainda que ele não tem uma prova que aquele material foi roubado ali ou ali ou acolá, uma coisa assim, mas que na verdade, se você chegar nos grandes compradores, você vai encontrar Big Bag, que dá 3 freezers desse daí cheia de cobre dentro e ninguém vê, porque corre moeda, né? Alguma coisa tem...
P/1 - Então o senhor tem sempre essa preocupação?
R - Tenho. Eu tenho muita preocupação, porque eu acho que como eu fui criado num regime, não é um regime militar, é um regime que a gente procura pra gente mesmo, ser honesto e direito e andar com suas coisas certas, não é um defeito, entendeu? Não é um regime militar, mas...
Para mim, se chegar uma pessoa aí, uma autoridade, eu conheci várias autoridades aqui o finado Dr. Abimael, finado Dr. Pedrinho. Dr. Wanderley, esse pessoal era tudo meus amigos, entendeu? Amigo assim, mas eles para lá e eu porque eles têm o trabalho deles, e eu tenho o meu para cá... mas eu acredito que se uma autoridade chegar e falar que eu estou preso, eu acredito que eu caio para trás, morro na hora, eu penso assim, né? Porque eu faço por onde andar com o certo no meu caminho, mesmo assim eu tenho falha, não vou dizer que eu... entendeu?
P/1 - E já aconteceu alguma coisa nesses anos de ferro velho. Uma história que o senhor conta para gente assim? Comprou uma coisa, vendeu alguma coisa?
R - Não. Assim, é difícil de eu calcular o que eu compro e vendo, né? Eu só tenho assim medo de comprar essas coisas aí é tão tal que, graças a Deus, e felizmente nunca foi uma polícia na minha porta. Muito pelo contrário, eles passam, me cumprimentam, tá entendendo?
P/1 - Quantos anos o senhor tem o ferro velho?
R - Há aproximadamente uns 15 anos por aí.
P/1 - Bastante, né? E o senhor falou que é quase como se fosse um projeto de limpeza.
R - Sim.
P/1 - Por quê?
R - Porque limpa. Ajuda a limpar a cidade, eu acho que, na verdade, o que esses meninos faz, que a maioria deles são viciados, né? São pessoas carentes que necessitam daquilo ali. Tem alguns errados? Tem. Mas eu considero isso aí, como ajudar a limpar a cidade, já imaginou, uma suposição: eu vendo uma tonelada de plástico por mês, uma suposição ou por semana, ou... você imaginou essa tonelada de material jogada dentro desses manguezais por aí?
P/1 - Iá dar muito trabalho.
R - Nossa! E, segundo os estudos, eles me relatam, essa coisa aí, um plástico desses dura 100 anos para ali naquele local para poder ser consumido aquilo lá. Então, esse material eu considero como uma limpeza municipal, né? São umas coisas que... o lixo tem muita coisa que é reaproveitado no lixo.
P/1 - Tem muita coisa no lixo, né?
R - Tem muita coisa que é aproveitável e ajuda o município a limpar a cidade, não é tudo... tem coisas erradas? Tem, mas não sou eu, eu não vou sair da minha casa para ir lá fazer uma coisa errada, se eu ver o cara chegar com um negócio desse aqui, eu não vou comprar dele, porque não é qualquer pessoa que tem uma coisa dessa.
P/1 - Sr. Severo, o senhor falou do lixo, como que é o lixo da Vila Esperança? O pessoal cuida do lixo, não cuida do lixo, separa lixo? [intervenção] Porque tem 35.000 pessoas, né? Tem muito lixo, naturalmente.
R - Sim. Nós temos uma empresa, não sei se é, mas deve ser ela ainda aqui. Chama-se Terracom essa empresa, ela é responsável pelo lixo de Cubatão, na Baixada Santista e quase todo litoral por aqui e acredito que até em São Paulo ela já deve estar, é uma fortaleza essa empresa. E nós temos um terminal de lixo, quem vai para o Guarujá, desceu a serra, à direita de lá de cima da serra, você vai ver. Então ele tem um trabalho que eles fazem, eu não sei se eles, o que que ele faz com aquilo ali. Eu nunca estive lá. Nunca. Também nunca estudei, eles sabem o que fazem. Mas esse lixo é conduzido para esse local e geralmente o lixo de Santos vai para a Alemoa e dali eles embolam aquilo tudo. Não sei o que que eles fazem dali e eles conduzem ele para aquele local. Então é uma coisa assim. Eu não tenho um certo conhecimento, mas eu acredito que não é jogado de qualquer jeito. O lixo, não o lixo. Ele tem um lugar adequado para que ele seja colocado.
P/1 - Então, andando pela Vila Esperança, o senhor vê o lixo organizado?
R - Não, nós vê algumas lixeiras, algumas coisas jogadas no meio da rua. Por exemplo aqui… [intervenção] Não tem pessoas assim adequadas para que veja esse tipo de coisa, né? Como também não tem uma fiscalização, na rua, não tem nada, de nada, não sei o porquê, mas não tem. Deveria ter.
P/1 - Mas os moradores têm consciência?
R - O morador, alguns têm, outros não. Porque você sabe que o vandalismo e as coisas boas e ruins, elas convivem no meio da sociedade, e quem sou eu para dividir as pessoas, né? Eu acredito que um tem um pensamento, o outro tem outro e um outro joga... lá mesmo onde eu estou, o Anderson (Andinho - líder comunitário do Sítio Novo) sabe, foi uma briga para conseguir a máquina, para tirar o lixo de lá, tirar a terra. Aí eu já estava até com medo. Porque é assim, às vezes, as pessoas se esqueceram daqui. Agora que está organizando, está vindo saneamento básico, tá melhorando, estão cuidando, fazendo uma limpeza, tirando o lixo. Mas sempre o caminhão do lixo passa lá na rua, mas algum cidadão que não sabe o que é uma garrafa dessa dentro do nosso meio ambiente, ele joga de qualquer jeito. Tá entendendo? Debaixo, até debaixo dos barracos.
P/1 - E vai juntando?
R - Aí vai juntando aquilo ali. É uma bagaceira. Se um dia as pessoas quiser fazer uma limpeza no mangue, você vai ver que 10 caminhão não tira o material que está jogado dentro desse manguezal aqui do meio ambiente. Eu, por exemplo, ainda pego uma garrafa ou um lixo e coloco na lixeira, mas será que o outro faz a mesma coisa?
P/1 - Tem algum trabalho social nisso de conscientização para as pessoas, para ensinar as pessoas?
R - Não, não tem. Que eu saiba, não. O trabalho que tem aqui é, por exemplo, assim, tem umas ONGs aí, tem associação, que eles deveriam fazer isso aí. Mas, infelizmente... Eu não posso dizer nada porque eu não sei qual o objetivo deles, das pessoas que eles focam tanto em uma coisa e se esquecem da outra?
P/1 - O trabalho com o ferro velho deu sustento para o senhor?
R - Sim. Sempre me deu o meu sustento. Eu gosto de me alimentar bem. Eu como bem, eu posso até passar da hora de comer, não tem problema. Mas eu tomo café de manhã, eu almoço e janto e à meia-noite eu como algumas coisinhas.
P/1 - Então nunca faltou com esse trabalho, que deu sempre pra manter?
R - Nunca me faltou o meu pão de cada dia, nem com o ferro velho, nem com a padaria, nem com outras coisas. Sempre fui uma pessoa que me dediquei a fazer alguma coisa. Eu adoeço se eu amanhecer o dia e não tiver nada para fazer, tem que ter alguma coisa para fazer, porque eu não sei ficar dentro de casa parado, a não ser que eu esteja dormindo assim, cansado.
Às vezes, por exemplo, eu estou com esse ferro velho lá, lá onde eu montei agora, vai fazer 1 ano agora em dezembro, né? E eu tive 1 dia de descanso só até hoje, 1 dia só... que eu fui para São Paulo, para a casa da minha irmã, e digo “o quê?” Saí voado.
P/1 - De que horas a que horas o senhor trabalha?
R - Eu trabalho das 7h, 8h às 3h
P/1 - Até às 3h da manhã?
R - Sim.
P/1 - Fazendo o quê?
R - Comprando.
P/1 - Sem parar?
R - Sem parar, não, às vezes dá um tempinho, chega um, chega outro.
P/1 - Estou aqui imaginando o seu dia a dia, o senhor chega às 7h da manhã, abre o ferro velho e fica lá?
R - Não, eu não abro de manhã, de dia assim, eu durmo um pouco e vou arrumar algumas coisas, botar os plásticos, separar alguma coisa, botar dentro dos Big Bag, ajeitar as latinhas, alguma coisa... pelo dia, né?
Só que aí eu durmo um pouco e, por exemplo, eu costumo falar que eu durmo 4 ou 5h por dia, e tem pessoas aí que dormem até menos do que eu, e são mais bem de vida do que eu e só durmo três ou 4h por dia.
P/1 - E aí o senhor abre o ferro velho a noite.
R - E eu só abro 8h da noite.
P/1 - Da noite. É por que o senhor prefere à noite?
R - Por causa que nós temos 10 ferro velho, uma suposição 9 trabalha de dia e eu trabalho à noite. Para não atrapalhar o outro, eu sempre as minhas coisas que eu faço são coisas que eu imagino que vou fazer para que um não atrapalhe o outro.
P/1 - Então o senhor é o ferro velho da noite?
R - É, mas já deve ter outro por ali também.
P/1 - E aí, tem movimento à noite?
R - Tem sim. O suficiente para sobreviver.
P/1 - O que o senhor gosta de fazer quando não está trabalhando?
R - Ah, sim, de vez em quando, quando eu tinha. Agora eu estou sem tempo. Eu gostava de correr, né? Eu às vezes eu ia no Parque das Bandeiras, no Vale Verde, sabe onde é o Vale? Ali não sabe, né? O Parque das Bandeiras? Pedágio, sabe onde é? Às vezes eu ia no pedágio, eu ia lá no presídio, sabe onde é o presídio? No mesmo caminho. Quando eu estava com boa (forma) assim, bem fisicamente, eu ia lá naquele posto de guarda rodoviária, em Itanhaém e eu gostava de jogar um futebol. Só que em determinado tempo eu não tenho tempo mais pra isso, né?
P/1 - Por quê?
R - Porque eu trabalho à noite, então quem trabalha à noite é diferente. Se você trabalha o dia, por exemplo, nós estamos aqui, chegamos em casa e vamos… [interrupção] Uma suposição, nós chegamos em casa e vamos cuidar de uma janta, vamos assistir uma novela, outro gosta de mexer num computador, outro gosta de ficar mexendo em celular, quando chega a hora de dormir, você vai dormir, no outro dia você está à vontade.
Mas se você trabalhar a noite, não é bom não, viu? No outro dia você amanhece com a vista embaçada...sono, aí você dorme, e quando você acorda, você não acorda bem. Você pode prestar atenção que se quando nós dormimos, e acorda, nós acordamos meio se espreguiçando e aquela coisa, até voltar (a ser) aquela pessoa que a gente é, né? Demora um pouco.
P/1 - Então faz 15 anos que o senhor trocou o dia pela noite?
R - Não. Provavelmente eu trabalhava com ferro velho antigamente, de dia. Só que aí, pelo motivo das outras pessoas trabalharem o dia para não atrapalhar eles. Porque eu acredito assim, qualquer pessoa, ele tem que ganhar o pão dele da forma que ele acha que tem que ganhar. Mas se você puder ganhar o pão sem atrapalhar o trabalho do outro... eu sei que vocês são umas pessoas profissional, mas nunca queira atrapalhar o serviço do seu amigo que está lá, que também é um profissional, porque amanhã ou depois vem as consequências.
P/1 - E o senhor sempre trabalhou por conta?
R - É, depois que eu saí da Latina, eu trabalhei um tempo, eu trabalhei na Araújo, o Seu Araújo, ele era um senhor muito conhecido meu, uma pessoa muito boa. Trabalhei na Cosipa uns dias de montador, aí saí da Araújo e fui trabalhar numa empresa chamada Omec de caldeireiro de São Sebastião. Saí da Omec e fui trabalhar numa empresa na refinaria, por nome de Itapuã, era uma empresa do Rio de Janeiro, de encanador, fichei nela pra trabalhar de encanador e depois que eu saí dela, eu comecei a fazer a minha vida construindo, né.
P/1 - O senhor prefere?
R - Não, eu gosto de construir, mas não, eu não acho mais assim, por exemplo, não tenho mais o conhecimento que eu tinha com os engenheiros de antigamente. Antigamente eu conhecia muito engenheiro assim, amigo, né? Tem o meu genro que tem uma empresa, mas é bom você trabalhar assim com família, tem a família da esposa dele que é, sou eu, tem a família do rapaz que é o pai e a mãe, né?
Então é uma coisa assim, eu não acho uma coisa muito certa, porque é uma família assim. Eu não digo que a minha família não é unida, nós somos unidos, né? Inclusive o meu genro, a minha filha. Nossa! Quer ver alguma coisa? Ele fala “Deixa comigo”, né? Aí eles são umas pessoas muito boas comigo, mas eu sou uma pessoa assim, eu não gosto porque, para mim, eu estou dando trabalho à pessoa.
P/1 - Entendi. O senhor prefere trabalhar no seu, fazer o seu próprio trabalho
R - Prefiro trabalhar no meu, que dá para mim sobreviver, que também se eu for trabalhar com ele, dá para sobreviver. Mas é, de uma certa forma, eu ajudo eles. Ele saiu candidato agora nessa eleição agora, e ele não ganhou, porque assim ele perdeu a eleição por 35 votos. É mole uma boca dessa? Mas é assim, ele é uma pessoa honesta e ele é da Igreja, eu não sou. Mas aí eu falei para ele: “Se você quer ser uma pessoa honesta, não entre nisso, porque essa coisa aí de política é uma coisa assim, ela é desonesta, ela não tem honestidade nenhuma em política”
P/1 - O senhor está falando da política. Eu fiquei pensando o senhor que está aqui há 30 anos, o senhor viu o envolvimento dos moradores com a prefeitura? Tem ajuda? Não tem aqui na Vila Esperança?
R - Olha, se tem alguma coisa aí, eu vi aí um negócio de umas cestas básicas, mas é uma coisa que não é a prefeitura que dá alguma coisa esquisita que manda, né? Por exemplo, assim é porque as pessoas, eles conseguem enganar, entrar na mente das pessoas.
Por exemplo, se eu falar para você que essa coisa aqui é boa, ela tem que ser boa. Eu não posso dizer para você que ela é boa sem ser boa. Eu tenho que lhe dizer que ela é boa, é uma coisa que ela é, vamos dizer, que ela dá uma visão.
P/1 - Mas a prefeitura ajuda a Vila Esperança?
R - Não, porque sabe. Eu mesmo nunca tive a ajuda de prefeitura, de nada.
P/1 - E tem associações, empresas que ajudam?
R - Têm associação, têm uma empresa aí, mas esse negócio eles mandam uma cesta básica aí. Mas e uma cesta básica meio mal-assombrada. Inclusive eu vi um menino dando uma entrevista, aí um cara falando no Google, a respeito disso aqui da periferia. E muita gente não acredita no abestado daquele, eu não tenho muito conhecimento com ele. Eu via ele por aqui e pá… Porque o caminho dele era um e o meu era outro. Você tá entendendo?
Só que hoje é assim, por exemplo, hoje você tá aqui, nós estamos fazendo uma entrevista, nós estamos de boa? Estamos.
Mas amanhã, como é que nós estamos? E se você mudar amanhã, querer mudar, eu vou duvidar da sua pessoa? Não posso. E eu vejo isso aí e eu estou aqui, na verdade verdadeira, para quem tem uma visão perfeita das coisas, tudo que o menino fala, é real, o que aquele menino fala, aquele Frank fala... não sei se você já chegou a ver ele? É a pura real.
P/1 - Mas o que ele fala? Ele fala a favor da comunidade.
R - Ele fala contra o crime da comunidade. Tudo. Ele está denunciando tudo que é coisa aí.
P/1 - Eita! Seu Severo, quem é que luta pela comunidade, como que vocês conseguem essa rua asfaltada aqui?
R - Aqui, praticamente foi a população aqui. Só que lá onde eu estou e outros bairros por aí, São Vicente, alguns lugares que tudo está em obra agora.
P/1 - Mas aqui na Vila Esperança, quem consegue as melhorias?
R - Quem conseguia as melhorias? Nós temos uma associação de melhoramento. Mas essa associação de melhoramento, para mim, ela não funciona. Ela funciona até algumas coisas, tem umas pessoas dando aula de uma coisa, tem umas pessoas fazendo o curso de alguma coisa, mas as pessoas não sobrevivem de curso. Eu não sou, não tenho curso nenhum, não sou concursado em nada. Mas se você me soltar dentro de uma mata dessa aí, se eu não morrer com 3 meses, eu não morro mais, então vamos dizer ah, isso aí chama se, curso, é teoria.
P/1 - A prática é outra.
R - Mas a prática é outra.
P/1 - Quando o senhor chegou aqui, tinha a rua só de terra?
R - Não era terra, era mangue.
P/1 - Era mangue?
R - Mangue.
P/1 - E quem aterrou?
R - A população.
P/1 - Então é uma força coletiva, o pessoal se junta?
R - Sim, cada um aterrou o seu, por exemplo, tinha isso aqui, ó, ______ aterrou, o outro tinha ali, foi aterrando, aterrando a rua, foi nós que nos reunimos e fizemos.
P/1 - O que mais vocês fizeram?
R - Hoje. Mudou, né? Hoje, através da... dessa obra que está construindo lá, ela tem um braço de uma ONG, né?
P/1 - A obra da Sabesp?
R - E foi citada a ONG, a ONG chegou lá: “O que necessita? O que precisa” e juntou? Um grupo de pessoas, a ONG juntou um grupo de pessoas e nós fomos lá, e falamos o que nós precisava, o que nós queria. E aí foi entrado com não sei se foi, deve ter sido e tido licitação, porque não é uma obra de R$150.000, porque uma obra de R$150.000 não precisa licitação, mas uma obra onde ela é programada para 2 anos, que exige 70 ou 50 a 80 funcionários, máquinas, um monte de coisa, é (custa) milhões, já é outras coisas e eu nem...
Então, através da ONG, e a população foi levado, feita a licitação e já era um programa do governo do Ademário, isso aí já era um um dos projetos dele, mas não tinha sido colocado em prática. Hoje colocou em prática.
P/1 - Hoje, aqui na Vila Esperança, todo mundo tem água encanada?
R - Aqui todo mundo tinha água encanada, só nós lá que, a maioria das pessoas daqui; e lá é um bairro novo que está surgindo agora.
P/1 - Lá onde?
R - Onde eu estou.
P/1 - Qual é o nome?
R - É Sítio Novo, a mesma coisa, só que é as ruas, pelo nome das ruas, a rua tem o nome da rua. Até no Google tem os nomes das ruas.
P/1 - Mas ainda Vila Esperança?
R - É Vila Esperança
P/2 - É o Sítio Novo se estendendo, vai lá pra frente.
R - Se estendendo. Então chama-se lá invasão, algumas pessoas chamam invasão, mas na verdade tem um nome de rua, né? E era uma programação do Ademário, nós tivemos uma reunião aqui com ele e uma senhora perguntou para ele “Ademário, o que nós temos que fazer na Rua da Benção? O que você pretende fazer na Rua da Benção?” E ele se dirigiu e falou “Senhora, a Rua da Benção está pronta” porque estava aterrada, né? “E a única coisa que nós temos que fazer na Rua da Bênção, é o saneamento básico, água, luz e rede de esgoto.” E ele tinha um projeto de passar o estradão, tem um mapeamento, nós temos o mapeamento que, na verdade, nós morávamos do lado de lá e ia ocorrer uma negociação entre ambas as partes, prefeitos e moradores, e nós fomos lá, trocamos um papo, batemos, trocamos umas ideias e conversamos que não é bem assim, pá.... E foi conversado pra que nós viesse para o lado de cá, e que cedesse o lado de lá, que ninguém ia mexer com nós. Foi o que ele falou na época, né?
P/1 - Cedesse pra quem? O lado de lá ia ficar pra quem?
R - O lado de lá é uma área ambiental, né? E precisa o mato crescer, que já cresceu, que é uma bênção lá, né? E só que também para que ninguém mexesse do lado de lá. E foi cumprido a lei, e até hoje ninguém mexeu do lado de lá. Todo mundo está do lado de cá, então existe um mapeamento, uma linha, um alinhamento. Ali só pode construir daquele alinhamento para cá, para lá, nós não podemos mexer em nada.
E foi cumprido a lei, então, eu acredito que tudo o que está ocorrendo aqui hoje foi programado por ele, isso aí já era uma programação dele. E aí o prefeito que entrou César (César Nascimento, prefeito desde janeiro de 2025) aqui também e deve dar encaminhamento a as obras que ele, as obras dele, algum projeto dele, alguma coisa assim parecida.
P/1 - Então não é que todo mundo tem ainda o saneamento básico? Isso está acontecendo?
R - Aqui tem, mas é um saneamento básico que foi nós mesmos que fizemos por aqui, essa região aqui. Só que lá vai ser tratado, tá entendendo? Não vai ser jogado de qualquer forma, até porque não é justo pegar e jogar uma tubulação de esgoto dentro de um manguezal, não é certo isso, não existe. Então eles vão ter que, não sei onde é o local, mas eles vão ter que arrumar um local, fazer um poço, um grande poço para que aquele esgoto seja tratado.
Deve ser uma coisa assim, parecida, creio eu, eles nunca me disseram nada, mas pelo pouco conhecimento que eu tenho e eu sei, que ele (Ademário) também não é capaz de pegar o esgoto e jogar de qualquer jeito, até porque o meio ambiente não vai aceitar isso. Então nós já temos já uma bagaceira danada aí... de barraca aí dentro do mangue, madeira, tudo que é coisa. Entendeu? Então, se não cuidar, se nós não cuidar… [intervenção] É porque eu acredito que não vai vir um (secretário do) Meio Ambiente do Rio de Janeiro, ou dos Estados Unidos para cuidar disso aqui, eles só vem quando tá a bagaceira, por exemplo a (ECOPAI?), eu vejo as coisas, eu não gosto de falar, mas eu vou falar: aterrou lá um mundo de coisa, até a linha do trem, aquilo ali não é certo, gente, o que fizeram ali não é certo... A gente... Eu sei, eu moro aqui, eu tenho um local ali, eu aterrei, eu não vou mentir, mas eu aterrei por necessidade. Eu não aterrei para fazer uma construtora, uma empresa, é diferente de você aterrar um local para você sobreviver, e você aterrar um local para montar uma grande empresa, um negócio de container, um monte de coisas, está entendendo?
Então, eu acho assim, às vezes eu não servia para ser um secretário de segurança pública, nem um fiscal, porque essas coisas aí, eu ia ver na cidade. Porque se nós não andar e não... eu não tenho medo de nada, se o cara disser que vai me matar, eu digo “Ué, eu já morri mesmo, pronto, acabou” eu vou morrer um dia, não sei de que, mas vou morrer...
Então eu não gosto de traidor; Se eu estiver com uma pessoa aqui comigo, vamos morrer eu e ele grudados, nós não vai morrer sozinho não, eu não gosto não, a pior coisa do mundo é a traição, gente. E é o que mais tem no Brasil. Nossa Senhora, eu nunca vi uma coisa dessa.
P/1 - Como morador, o senhor se sente como, quando vai para essas reuniões falar com o pessoal da prefeitura, falar com as empresas, falar com a associação?
R - Eu não... eu não costumo frequentar muito a reunião, porque, vamos dizer só assim... às vezes, quando tem alguma política, alguma coisa, o prefeito... assim, pelo conhecimento que eu tenho em Cubatão - que a pessoa que disser que não me conhece em Cubatão, está mentindo, ou está nascendo hoje - então eles me chamam para ir na reunião, eu vou, mas eu não gosto de frequentar muito reunião dessas pessoas, muitas coisas, porque, vamos dizer, existe muita mentira, muita coisa errada, muita falsidade.
Pense numa coisinha que tem falsidade: é a política, viu? Tremendo isso aí.
Eu, apesar de a vida da gente ser uma política, mas quem vai saber os meus pensamentos? Eu estou aqui hoje conversando com vocês, você vai saber os meus pensamentos? O que eu faço lá fora? Não sabe. Mas se eu disser para as pessoas que eu sou uma pessoa do bem, a pessoa vai ficar daquele jeito ali, não me conhece, não sabe o que eu sou...
P/1 - Mas numa dessas reuniões que o senhor foi, o senhor falou quais eram os problemas aqui do bairro, o que precisava melhorar?
R - Não. Até porque é assim, a gente tem que falar essas coisas para quem está lá, não adianta eu falar essas coisas para uma pessoa que quer vir para cá, numa suposição: que você queira vir para cá, para Cubatão.
P/1 - Não, eu digo o mesmo para quem está lá.
R - Sim, para quem está lá, nós não temos assim acesso de conversar essas coisas com ele, porque até aí ele já alega que não tem tempo pra nada. Vai numa reunião nos Estados Unidos, uma no Ceará, uma no Mato Grosso do Sul.
P/1 - E quando chamam o Sr. Para a reunião não é para escutar o que o senhor tem a dizer?
R - Mas é assim: você é um jornalista? A pergunta é sua e o respondente sou eu, uma suposição. Então eu tenho que responder o que você me pergunta, é a regra, né? É por regra? Então é...
P/1 - Mas o que eu estou aqui pensando é se eles escutam os moradores, as queixas, as pessoas.
R - Não escutam não. Porque se escutassem... assim, as pessoas às vezes falam, e tem pessoas até que têm problemas, né? Ele bebe, ele é um usuário, ele é uma coisa e outra, e fala muita coisa com coisa, mas um cara igual eu, ou algumas outras pessoas como o finado Miúdo, o finado Piauí, que morava próximo aqui, todo esse pessoal foi presidente da Associação de Melhoramentos, e eram todos meus amigos. E como é que eu posso dizer? São pessoas que dificilmente eles vão escutar você, eles não gostam, é igual uma pessoa, quando ele põe o nariz para frente e acha que ele é o dono da bola, o dono do mundo... e não é bem assim. Então ouvir as pessoas é uma coisa muito boa, eu acho que não tem coisa melhor do que você ouvir as pessoas, mas depois você vai chegar aonde você quer chegar. Mas ser ouvido é muito bom.
P/1 - Então conta para mim, senhor Severo, o que o senhor acha que poderia melhorar aqui na Vila Esperança?
R - Em primeiro lugar: a segurança pública, zero bala. Eu cheguei a fazer uma pergunta para um dos candidatos que ficou em segundo lugar aqui em Cubatão, chama-se Rodrigo Alemão, ele andou por aí nas igrejas, fazendo reunião e tal. Eu tive o privilégio de conhecer ele numa igrejinha lá, ele esteve lá conosco e começou a falar. E eu fiz uma pergunta a ele porque ele permitiu que a gente poderia fazer uma pergunta.
Eu digo, “eu tenho uma pergunta para fazer para ele”, me dirigi pra ele e perguntei “o que ele pretendia fazer com a nossa segurança pública?”
Porque eu, como morador de Cubatão, me sinto envergonhado, e ele me gaguejou e me respondeu uma coisa que… eu não acho que 2 viaturas da Guarda Municipal ou 3 viaturas, resolvam o lugar, numa cidade igual a essa de Cubatão, cheia de crime e cheia de coisa ruim, de tudo que não presta.
Tem muitas coisas boas, maravilhosas, lindas, mas tem muitas coisas ruim aqui, viu? Que, vou lhe falar, “só Deus”.
Então ele me respondeu isso aí, isso é resposta para um cara fazer? Pô! Se o cara é, por exemplo, um secretário de segurança pública, ele tem que ser duro na queda, ele não pode ser, com licença da palavra, um bunda mole... Ele tem que ser homem, rapaz!
Porque nós estamos nessa forma hoje aqui, com esse vandalismo, tudo que não presta, roubo pra tudo que é lado, é bandido pra tudo que é lado, é porque não tem segurança, poxa! Aí quer dizer: eu me candidato a prefeito, eu sou um prefeito, arrumo 5 ou 6 policiais para fazer a minha segurança. E eu como capim? Faz como o Bolsonaro falou: “o pessoal vai comer capim”. [risos] Ô, meu Deus do céu!
P/1 - Então, aqui na Vila Esperança, o que falta é segurança pública?
R - Para mim, sinceramente, com todo respeito, respeito todo mundo, da criança ao cidadão, mas eu, se fosse um funcionário público, eu tinha vergonha na cara. Porque isso é uma falta de vergonha, uma coisa dessa, gente, oxa! Eu não quero saber o quanto ele ganha e o cargo... cada um tem que fazer a sua parte. Ou é, ou não é. Porque para mim chegar e por exemplo, sair daqui para minha casa com medo? Eu não vou. Daqui eu vou embora.
P/1 - O senhor anda com medo?
R - Não. Nenhum, de nada, eu não tenho medo de uma formiga, eu não tenho medo, porque os bandidos que eu vejo aqui são tudo covardes. E a covardia, você sabe, existe desde o começo do mundo, mas eu procuro ficar longe dela. Eu só ando sozinho, gosto de fazer minhas coisas sozinho, e não gosto de confusão, não gosto de baile, eu nunca fui num baile assim, não sei nem como é isso aqui. Fazem um baile funk na rua e é uma vergonha! É criança, é pião armado, dando tiro. E a peste toda! Que lugar é esse, gente?
P/1 - Ainda bem que o senhor consegue andar tranquilo, né?
R - É porque eu sou da minha casa para o meu trabalho, o meu trabalho já é na minha casa. E quando saio para resolver alguma coisa...
P/1 - A segurança então é o ponto negativo. E o ponto positivo da Vila Esperança?
R - O ponto positivo da Vila Esperança seria... vou colocar assim: não tem aqui, mas amanhã ou depois pode ter. Educação Física precisa, né? Nossa, essas crianças daqui estudam todas fora: Vila Natal, Vila Nova, Costa e Silva.
P/1 - Mas já tem?
R - Lá tem. Aqui não.
P/1 - Então, o que tem aqui que o senhor aprecia, que o senhor fala que é bom?
R - O que tem de bom aqui são as pessoas do bem, o que eu acho que tem de bom aqui são as pessoas do bem. Ainda tem pessoas do bem, e é isso que eu acho que tem aqui de bom. Porque eu não posso chegar e falar outra coisa que eu não conheço, outra coisa.
P/1 - O senhor morou em vários lugares, contou. Mas faz tempo que o senhor mora aqui. Tem vontade de sair?
R - Não. A minha vontade é, um dia, me enterrar no meu lugar. Eu estou esperando ver se consigo me aposentar, né? Se eu chegar lá... Porque, estando aposentado, aonde eu chegar, eu vivo. Os meus filhos já estão criados. De vez em quando posso vir aqui, ou eles podem ir lá aonde eu estiver. É uma coisa assim... por causa dessas coisas aí.
P/1 - Mas a vontade do senhor é voltar pra sua terra?
R - Sim, um dia, né?
P/1 - Pra mesma cidade?
R - Mesmo lugar onde eu nasci.
P/1 - Mesmo estando tudo diferente lá?
R - Mesmo estando tudo diferente, porque a luta é uma coisa assim... eu tenho lutado aqui para sobreviver. Não é fácil você sobreviver dos 8 anos de idade até os 62, 63 anos. Não é fácil, e sem ter um recurso, um estudo, uma coisa assim, entendeu? Só que eu sou assim: às vezes eu vejo muitas pessoas estudadas, mas conheci engenheiro aí que eu botava no bolso, na obra.
P/1 - Mas a vontade do senhor é voltar para lá?
R - Não ficar morando lá direto, eu quero ficar viajando pra lá e pra cá, entendeu? Não é morar. Eu acho que tenho que voltar sempre lá no meu local. É muito bom, é um lugar muito bom. Pra você que quer saber, lá no local mesmo onde eu nasci... quando saí de lá tinha um comissário e um sargento, chamava- se Antônio Sargento e o comissário chamava Severino Cícero.
Eu voltei lá a 10 anos atrás, não tem uma polícia, que eu saiba, só teve 4 homicídios, que eu saiba, pode ter tido algum, que eu não fiquei sabendo... tem polícia do lado da Paraíba e em Itambé, mas lá onde nasci mesmo, lá tem aproximadamente 50 mil habitantes, se estendeu, é grande. Mas é um lugar de pessoas que não têm confusão, se tem agora eu não sei, com esse negócio que está pra todo lado, espalhado.
P/1 - Será que a vida lá é melhor do que a que o senhor tem hoje aqui?
R - Aonde eu chegar, eu vivo. Até porque eu não quero saber o que estão fazendo pra lá.
P/1 - E o senhor gosta da vida aqui?
R - Sim. Tudo que eu faço, eu gosto, porque eu não vou fazer uma coisa que eu não gosto de jeito nenhum. Se eu estiver fazendo algo errado e eu ver que estou errado, eu paro e volto. “Pelo amor de Deus, estou errado, meu Deus, me perdoa, Senhor.”
P/1 - O que o senhor gosta de fazer que deixa o senhor feliz hoje?
R - O que me deixa feliz? As pessoas que chegam lá: “Severo! Severo!” gritando, me deixa feliz, tem felicidade maior do que isso?
Eu não sou uma pessoa mal vista no bairro onde eu moro, eu sou bem-visto, graças a Deus, então é uma felicidade. Tem coisa melhor do que essa? Eu vou aonde eu quero, eu chego aonde eu quero. Não chego aonde eu quero, claro, tem ambiente aí aonde eu não posso chegar, mas aonde eu quiser ir, eu vou. Eu ando na rua, em qualquer lugar, é uma vida boa. Então eu me sinto feliz com isso.
P/1 - O senhor ainda tem algum sonho?
R - Meu sonho é não... não tenho sonho assim de nada... de ficar rico, nem de ficar pobre... é uma coisa assim... você sabe o destino de todos nós, né? A gente nasce; alguns nascem e têm uns dias para viver, outros nem vivem, morrem no na barriga da mãe ou no dia em que nascem, outros têm uns dias pra viver. E também tivemos um dia para morrer, isso aí, não resta dúvida. É uma coisa que está escrito.
P/1 - O senhor já tem netos?
R - Tenho 2.
P/1 - Quantos anos?
R - Uma menininha com 7 e um menino com 4.
P/1 - Como é ser avô?
R - É muito bom, né?
P/1 - Eles moram aqui?
R - Moram no Vale Verde.
P/1 - Não é Vila Esperança?
R - É, de vez em quando eles vêm aqui na casa da avó. Aí eu vou ver eles também. É uma sensação muito boa, né? Você ser avô é muito bom, é bom demais, eu me sinto feliz. Não é só pelas crianças que eu sou avô deles, é qualquer uma criança. Se eu passar no colégio, a molecada grita “Severo! Severo!”. Eu fico doidinho da cabeça, as molecadas daqui.
Aí eu falo: “Menino, vá pra lá, atenda sua professora, um beijo no coração de vocês”, e vou me embora, porque senão eles saem de lá e vêm pra perto de mim. Não é uma felicidade isso aí?
P/1 - Por que eles têm essa relação de carinho com o senhor?
R - Porque a criança, quando ele vê uma coisa... eles são iguais ao índio: o índio vê você com uma camisa e quer pra ele, e a criança não deixa de ser assim também.
P/1 - Mas o senhor brinca com eles?
R - Brinco. Tem uma senhora ali, eu levo bala e dou para o menininho dela. Como é que posso dizer? Pirulito. Nossa, eu chego lá e ele fala “Severo!”. Então isso é uma grande felicidade para mim.
P/1 - Conhecer a criançada do bairro, ver crescer
R - Sim, é muito bom. As crianças... todo mundo onde eu passo, sabem meu nome. Não sei como, pessoas que eu nem sei quem é, e eles sabem quem eu sou.
P/1 - O senhor é famoso aqui?
R - Não, não sou famoso. Eu sou um vivedor: aonde eu chegar, eu vivo. Porque, se eu ver uma criança, não é certo uma criança sofrendo, mal cuidada, eu não gosto. Os meus filhos foram bem cuidados, esse ponto aí eu sou sincero e falo a verdade: minha esposa cuidou muito bem dos meus filhos, não tenho nada para falar.
P/1 - Depois dela o senhor teve mais alguém de parceira?
R - Não. Não quis mais mulher pra viver comigo. Porque eu coloquei na cabeça que não gosto de dar trabalho a ninguém, e eu acho que eu não larguei ela por outra, não foi isso. Foi porque ela começou a ficar teimosa, e eu preferi cada um procurar seu lugar. Eu, por exemplo, assim, eu admiro uma mulher qualquer, uma mulher. Eu não quero saber o que ela é, o que ela foi, o que ela deixa de não ser, mas eu vi um filme… e eu, por exemplo, assim, você pode ser uma jornalista, você pode ser ter um escritório, você cuidar do escritório do seu esposo ou cuidar do seu trabalho, uma jornalista, ser uma professora, cuidar da sua casa.
Agora para tomar conta de um país e de um município, não porque ela não consiga, é porque a mulher tem um ponto frágil e o bandido consegue dominar ela. As pessoas que estão ali do lado... porque você nunca faz nada sozinha...
Você tem um escritório aqui, mas você vai conviver com outras pessoas e aquelas outras pessoas, se ela depende de você, ela, se ela trair, você já era. Então existe a traição ali naquela coisa, olha, eu conheci Márcia Rosa em Cubatão, não é má pessoa, é uma boa pessoa, foi uma boa professora, ainda é, eu acredito. Eu conheci Antonieta no Guarujá, uma grande mulher também. Eu conheci a Dilma, não cheguei a conhecer ela pessoalmente. Então, olha, a cidade de Cubatão ficou arrasada, o bandido tomou conta da cidade, no Guarujá, o bandido tomou conta da cidade, acabou com tudo, e em Brasília também não foi diferente.
P/1 - É um passo além, né, seu Severo, a gente falar sobre isso? Estou pensando aqui na Vila Esperança, na quantidade de gente que o senhor conheceu, fez muitos amigos, fez bons amigos por aqui?
R - Nossa! Demais! Todo mundo aqui é meu amigo, Eu não tenho um inimigo aqui, porque eu vejo as coisas...
P/1 - O senhor Mora sozinho, mas não está sozinho.
R - Eu moro sozinho, mas convivo com todo mundo. Ninguém vive sozinho no mundo. Eu convivo com qualquer coisa: gato, cachorro, ladrão, animal, gente boa, gente ruim. Eu convivo com tudo.
P/1 - Então fala pra mim: o que era a Vila Esperança antes e o que a Vila Esperança se tornou agora? Quando o senhor chegou e hoje?
R - A Vila Esperança antes ela era um, vamos supor assim, eu vou dizer uma vilinha, não era? Hoje ela virou uma cidade praticamente que elege um prefeito, então é difícil comparar de antes para hoje, a comparação que eu tenho de antes, de ontem para hoje, é que antigamente era difícil até você conversar com a pessoa, de tão longe que morava um do outro, e hoje você anda 2, 3, 4 passos e você já encontra uma pessoa. Então mudou muita coisa, nossa Senhora! tem muita diferença do antes pro hoje, né?
P/1 - E aí tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, né? é trem, é carro, é moto, obra....
R - Nossa! é tudo.
P/1 - Tudo junto.
R - Tudo junto, então, virou isso aqui. Futuramente, acredito eu, que vai ficar uma coisa muito boa, muito chique. Eu tenho uma fé que o prefeito vai fazer alguma coisa boa aqui.
P/1 - Vai ficar chique?
R - Vai, muito bom, primeiro que o estradão, se fizer o estradão que eles relatam fazer, que tá no projeto aí, entendeu? E é uma outra coisa, vai ter acesso para todo o lado aqui.
P/1 - Então o acesso é importante que tenha?
R - É importante, é rua onde não tem rua. É muito importante. Então, acredito eu, que é um dos projetos dele.
P/1 - Então, é segurança pública, o acesso das ruas.
R - Sim, faz parte, né? O acesso das ruas faz parte, porque, você vê aqui ó, um põe um carro de um lado, o outro põe outro carro do outro e vem um monte de carro de lá para cá, olha como é que fica? Então? É rua, ficou para carro andar? Tudo bem… eu não acredito que rua ficou para carro ficar estacionado, a não ser que tenha um estacionamento adequado.
P/1 - Então tem que organizar?
R - Tem que organizar. É que nem diz o ditado, não é? “Ordem e progresso”. Então, uma coisa que você está fazendo uma coisa, mas que fica outra coisa... você vê que ali na Vila Esperança, é carro na ciclovia...
Está entendendo? Você vai na ciclovia, vem carro de lá para cá, então, quer dizer, é um perigo aquilo ali.
Então, eu mesmo eu sou assim, eu ando por aí, mas eu olho para trás, de lado, para todo lado, porque? Se vir um carro doido, pra não me atropelar. Então, vamos dizer, tem muita coisa que precisa consertar, mas para consertar as coisas hoje, precisa de uma lei dura, se você não colocar uma lei dura dentro da sua casa, como é que vai ficar?
É uma lei que é o direito das pessoas, toda lei tem o direito, tem a condenação e tem o direito. E a maioria das pessoas, por passar a mão na cabeça dos filhos ou que seja, de qualquer pessoa e depois se torna uma ferida que não tem cura.
P/1 - Mas o senhor acredita que vai melhorar?
R - Mas vai melhorar muito, eu acredito que o nosso prefeito, o ex-prefeito Ademário, e a continuação do César, ele vai continuar e vai fazer muita coisa boa. Até porque em 2028 eu acredito que ele vai sair candidato de novo. Tem eleição de novo, é em 2028?
P/1 - 2026? Ah, pra prefeito.
R - E se ele não fizer um bom trabalho? Tem pessoas aí que estão assim de olho numa brechinha para poder entrar, né? Quem não quer uma…
P/1 - Seu Severo para a gente terminar a nossa conversa, tem alguma coisa, alguma história aqui da Vila Esperança que o senhor viveu, e que o senhor gostaria de deixar aqui registrado? Queria me contar alguma história que foi muito importante nesses seus anos por aqui?
R - A minha história que eu tenho, foi assim…de ter construído uma família aqui na Vila Esperança. E de hoje, ser uma família que nunca deu trabalho um ao outro, entendeu? Isso aí, eu tenho o privilégio de falar em qualquer lugar, porque não é fácil criar uma família aqui dentro.
A gente às vezes estamos na Avenida Paulista e no Rio de Janeiro, em algum lugar, é mais fácil você criar uma família, porque até o colégio é diferente. Eu não quero dizer que tem que separar uma criança da outra, mas quando você pode pagar um estudo particular para um filho seu? É bom, isso aí é uma coisa boa, eu não tiro o direito de ninguém.
Mas aqui, num lugar desse aqui, que é tudo junto, embolado e tudo estuda numa escola só, para você falar que criou 2 filhos, que nunca lhe fez vergonha de nada, não é pouco... Porque eu tenho muitos amigos aí que até perderam o filho aí, e outros vivem jogados, outros vivem por aí no lugar errado.
P/1 - Isso é motivo de orgulho para o senhor?
R - Pra mim, eu me orgulho disso aí. E os amigos que tive, que tenho ainda, essas pessoas que convivem comigo no dia a dia. Então, eu tenho orgulho disso aí, dos meus filhos, eu ter criado 2 filhos aqui, e uma é formada em professora e tem contabilidade, e tem a família dela. O esposo dela é engenheiro, tá entendendo? Ele é o Wesley, ele trabalha na prefeitura, acredito eu que ele tem um emprego na prefeitura, ele ficou de suplente de um cara lá, e eu acredito que ele deve ter um emprego lá.
P/1 - Então é um motivo de muito orgulho
R - Pra mim, é muito orgulho, sim.
P/1 - Como é que o senhor se sentiu hoje contando um pouco da sua história para gente?
R - Feliz também, e me distraí um pouco, parei de dormir um pouco, para não dormir muito. [risos] Oh, meu Deus!
P/1 - Se emocionou? Lembrou das pessoas?
R - É muito bom assim, às vezes a gente conhecer pessoas diferentes. Aí você vai saber… por que lidar com as pessoas daqui é muito fácil, desde que você saiba lidar. Mas as pessoas que vêm de fora, que não conhecem a gente, não sabem o que, o que as pessoas são capazes de fazer.
E é uma coisa assim, eu sempre falo para as pessoas que as pessoas que vêm de fora pra cá tem que ser bem tratado, bem servido. Não pode ser de qualquer jeito... Porque se vem uma pessoa igual, esse grupo de pessoas que vem de São Paulo para cá, eles têm um objetivo na vida deles, eles têm um profissionalismo e precisa ser bem cuidado, bem recebido, bem tratado, bem, entendeu?
P/1 - E o senhor, o que o senhor achou da ideia de a gente registrar as histórias e as memórias da Vila Esperança?
R - Muito bom. É bom porque outras pessoas vão ficar sabendo.
P/1 - É importante?
R - Importante, muito importante é... Cubatão, na verdade, ele precisa de muita coisa, de pessoas inteligentes assim como vocês, pessoas lindas, maravilhosas, que vêm de fora aqui nos ajudar. E precisa de várias coisas, tudo que é bom tem que vir para Cubatão, tudo de bom, o que não presta, eu não posso mandar para lá, mas que vão se afastando de perto da gente.
P/1 - Tá bom, muito obrigada.
R - Obrigado vocês, eu que tenho o privilégio de dar muito obrigado a vocês, e dizer que vocês são umas pessoas lindas, maravilhosas e vieram para cá com objetivos de pessoas boas, né?
P/1 - Ouvir pessoas como o senhor?
R - Sim.
P/1 - E agora, o senhor se emocionou?
R - É um pouco, porque as pessoas são assim, uns se emocionam, outros maltratam, né? Concorda comigo? Quantas pessoas têm que passar aqui no seu carro, na estrada e as pessoas maltratar ele, até dar tiro nele, mata ou toma tudo que ele tem? Então, pessoas que vêm de fora para o local da gente, tem que ser bem recebido.
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