Projeto Memórias de Vila Nova Esperança
Entrevista de Sebastião Ribeiro do Nascimento (Zumbi)
Entrevistado por Lígia Scalise e Nataniel Torres.
Cubatão, 28 de outubro de 2025
Entrevista MVE_HV0011
Transcrita por Miriam Allodi
Revisada por Nataniel Torres
P/1 - Eu vou pedir pra começar por você falando seu nome inteiro, sua data de nascimento e a cidade onde você nasceu.
R - O meu nome é Sebastião Ribeiro do Nascimento. Eu nasci em Caxias, no Maranhão, em 8 de dezembro de 1968.
P/1 - Quantos anos você tem hoje?
R - Hoje eu tenho 57.
P/1 - Quando você nasceu lá no Maranhão? Como era a vida dos seus pais?
R - Olha, eu fui separado do meu pai quando eu tinha quatro anos. Aí quem me criou desde então foi minha mãe, a Martinha Ribeiro.
P/1 - Martinha?
R - Martinha Ribeiro, e eu fiquei no Maranhão até os 12 anos, né? Aí lá foi uma vida na roça, onde eu acordava às 04h00 para ir trabalhar junto com minha mãe, buscar coco. E aos 12 anos a gente veio para o estado de São Paulo. A gente foi lá para a Vila Parisi. Esse bairro não existe mais, era um bairro dentro da zona industrial e, na sequência, a gente veio para Vila Esperança, nós somos a sexta família aqui.
P/1 - Então, antes de chegar aqui, a sua mãe. Ela trabalhava com o quê? Exatamente, na roça?
R - A minha mãe trabalhava como agricultora. Ela trabalhava um pouco, capinando na enxada e outro pouco, na época que não tinha safra, ela trabalhava, ela ia nos açougues e aquele resto de carne que sobrava, né? Ela pedia para lavar o açougue do matadouro, aí, em troca, os donos dos matadouros deixavam ela pegar uns pedacinho de carne.
P/1 - Morava só você e sua mãe, ou tinha mais gente?
R - Nós somos 6 irmãos. Sempre morou juntos os 6. Como o meu pai deixou a maioria menor, então ela teve que criar todo mundo sozinha.
P/1 - Você é o mais velho, o mais novo?
R - Sou o caçula, sou o mais novo.
P/1 - Xodó da sua mãe.
R - É, com certeza.
P/1 - O que...
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Entrevista de Sebastião Ribeiro do Nascimento (Zumbi)
Entrevistado por Lígia Scalise e Nataniel Torres.
Cubatão, 28 de outubro de 2025
Entrevista MVE_HV0011
Transcrita por Miriam Allodi
Revisada por Nataniel Torres
P/1 - Eu vou pedir pra começar por você falando seu nome inteiro, sua data de nascimento e a cidade onde você nasceu.
R - O meu nome é Sebastião Ribeiro do Nascimento. Eu nasci em Caxias, no Maranhão, em 8 de dezembro de 1968.
P/1 - Quantos anos você tem hoje?
R - Hoje eu tenho 57.
P/1 - Quando você nasceu lá no Maranhão? Como era a vida dos seus pais?
R - Olha, eu fui separado do meu pai quando eu tinha quatro anos. Aí quem me criou desde então foi minha mãe, a Martinha Ribeiro.
P/1 - Martinha?
R - Martinha Ribeiro, e eu fiquei no Maranhão até os 12 anos, né? Aí lá foi uma vida na roça, onde eu acordava às 04h00 para ir trabalhar junto com minha mãe, buscar coco. E aos 12 anos a gente veio para o estado de São Paulo. A gente foi lá para a Vila Parisi. Esse bairro não existe mais, era um bairro dentro da zona industrial e, na sequência, a gente veio para Vila Esperança, nós somos a sexta família aqui.
P/1 - Então, antes de chegar aqui, a sua mãe. Ela trabalhava com o quê? Exatamente, na roça?
R - A minha mãe trabalhava como agricultora. Ela trabalhava um pouco, capinando na enxada e outro pouco, na época que não tinha safra, ela trabalhava, ela ia nos açougues e aquele resto de carne que sobrava, né? Ela pedia para lavar o açougue do matadouro, aí, em troca, os donos dos matadouros deixavam ela pegar uns pedacinho de carne.
P/1 - Morava só você e sua mãe, ou tinha mais gente?
R - Nós somos 6 irmãos. Sempre morou juntos os 6. Como o meu pai deixou a maioria menor, então ela teve que criar todo mundo sozinha.
P/1 - Você é o mais velho, o mais novo?
R - Sou o caçula, sou o mais novo.
P/1 - Xodó da sua mãe.
R - É, com certeza.
P/1 - O que aconteceu com o seu pai? Para onde ele foi? O que você soube?
R - Meu pai, o que eu me lembro, ainda nessa pouca idade, ele tentou agredir minha mãe e minha mãe então falou, ela sempre contava... Ela disse que homem nenhum bateria nela. Quando ele tentou agredir ela, ela saiu de casa e a noite ela voltou. De madrugada, ela saiu de casa comigo e minha irmã mais nova, e à noite, ela voltou para pegar os outros filhos. Desde então, nunca tive convivência com meu pai.
P/1 - A sua mãe buscou vocês e levou para onde?
R - Aí ela mudou pra outra cidade no Maranhão, para uma cidade chamada Gonçalves Dias, e lá ela buscou acolhida na casa de amigos e, na sequência, ela continuou trabalhando para sustentar a gente.
P/1 - Você teve alguma referência paterna?
R - Não.
P/1 - Alguém que fez o papel de pai?
R - Não. Não tive por que minha mãe dizia que ela tinha medo de arrumar outro marido e ele maltratar a gente. Então ela disse que não queria isso.
P/1 - E avô?
R - Avô também eu não tive. Meus avós morreram cedo. Minha avó morreu, foi atropelada de bicicleta. E meu avô também morreu muito cedo, o pessoal na roça, eles quando chegavam, naquela época a 40 anos era muito, né? É porque você não tinha assistência médica, não tinha nada, então a maioria quando chegasse a 40 anos, já chegou na idade máxima. Hoje não, né? Atualmente mudou, né?
P/1 - E quando você era pequenininho, você já ajudava a sua mãe?
R - Ajudava. Eu sempre fui empreendedor, né? Eu, com 8 anos eu já era vendedor de laranja e cigarro. Eu comprava um maço de cigarro e vendia por unidade.
P/1 - Saia andando vendendo?
R - Sai andando e vendendo. E vendia nas festas. Eu lembro que uma vez eu comprei uma caixa de laranja e fui vender no festejo de São Benedito. Só que tava uma chuva, um frio, aí eu descasquei a laranja e chegou um cara com uma Vespa, aí ele disse “Neguinho toma de conta da minha Vespa”. Só que tava muito frio e a Vespa tava com o motor quente, aí eu encostei na Vespa e dormi. Quando acordei de manhã, não vendi uma laranja, que eu sempre fui vendedor.
P/1 - E esse dinheirinho...
R - Vespa, para quem não conhece, é a atual Biz, hoje essas motinhas pequenas.
P/1 - Estava cansado, né?
R - Não era criança, eu tinha oito anos. Aí eu sempre saía na noite pra vender, né? Minha mãe saía de um lado e saía do outro.
P/1 - Você ia com ela, então?
R - Então, nesse dia eu fui sozinho.
P/1 - E aí vi esse dinheirinho que você ganhava, você usava de que forma?
R - Aí eu dava pra ela e ela comprava arroz e feijão, né?
P/1 - Você estudou enquanto menino?
R - No Maranhão minha mãe sempre me levou pra escola, mas eu não conseguia estudar, porque naquela época tinha palmatória, então eu não conseguia acertar a lição, e levava palmatória de tudo quanto é lado. Eu tinha pavor de ir pra escola.
P/1 - Aí então lá você não ia para a escola?
R - Não, eu ia, mas chegava lá, eu sempre ia parar de castigo, de joelhos em cima do muro e palmatória. Naquele tempo era assim.
P/1 - E brincar, você brincou?
R - Brinquei muito, eu aprontei muito, subia em árvore, pulava do Rio. Lá no Maranhão tem uma ponte, quase 30 metros de altura, meu divertimento era subir na ponte e pular no rio.
P/1 - Que coragem!
R - Mas toda criança fazia isso, né?
P/1 - Então tinha que trabalhar, mas também conseguia ser criança?
R - A brincadeira da gente era subir na ponte, pular no rio embaixo, morreu muita gente nessa ponte.
P/1 - E a Martinha era uma mãe…
R - Minha mãe era uma mãe que valorizava muito o trabalho e a educação, né? Ela sempre sonhou os filhos se formar e estudar. Mas era rígida, né? Se eu chegasse com alguma coisa em casa, ela ia atrás de quem deu e porque deu. Ela não aceitava que a gente aceitasse presente de ninguém, né?
P/1 - Aconteceu alguma vez?
R - Aconteceu. Ela só aceitava alguma coisa se fosse em troca de trabalho.
P/1 - O que aconteceu? Me conta uma história dessa.
R - Uma história que eu lembro é que um rapaz me deu uma roda de bicicleta, que meu sonho era ter uma bicicleta. Aí ela foi atrás, queria saber por quê. Aí, como ele não explicou direito, ela disse “devolve à roda”. E aí eu sonhava, eu digo “Eu vou começar ganhando as rodas... vou comprando até montar uma bicicleta.”
P/1 - Aí devolveu?
R - Aí devolvi. Aí eu virei adulto e não tive uma bicicleta.
P/1 - Até hoje?
R - Até hoje aí, depois eu me tornei líder comunitário e a gente começou a dar bicicletas e mais bicicletas...
P/1 - Em que momento a sua mãe falou “vou sair do Maranhão”?
R - Na verdade, ela não falou. Meu irmão do meio, quando faltou trabalho, porque nós morávamos no interior de Caxias e teve uma seca, o bairro inteiro foi embora, porque você só vivia da plantação de laranja, inclusive a gente tinha uma casa que vendia laranja e aí veio a seca, nós não tivemos produção nenhuma. Aí meu irmão, conhecia um amigo que disse “ó, vamos para Cubatão.” Aí ele conseguiu a passagem e veio. Quando ele chegou aqui, isso aqui era emprego. Aí ele foi buscando um por um aí minha mãe e eu, foi por último.
P/1 - Sua mãe queria vir?
R - Minha mãe não queria vir, ninguém queria vir. Mas lá não tinha mais como escapar da seca. Na verdade, a seca expulsou muita gente, né? Que o nosso ganha pão era plantar e vender laranja, quando veio a seca acabou, tudo.
P/1 - Chegou a passar necessidade lá?
R - Necessidade eu não digo aquela fome braba, mas, por exemplo, a gente era em 6, minha mãe fazia um prato de comida e colocava os 6 para comer, né? Aí quem era mais rápido comia um pouquinho mais.
P/1 - Você era rápido?
R - Nada. Eu sempre ficava com vontade.
P/1 - Deixava para os outros?
R - Não, não é deixava, você tinha um prato ali, e 6 para comer no prato, né?
P/1 - Não dava tempo?
R - Não dava tempo.
P/1 - E aí, quando a sua mãe falou “então vamos embora” vocês vieram como?
R - Ah criança, a gente ficou alegre, dissemos “Vamos para São Paulo”. Meu sonho era ter uma TV, diziam que aqui em São Paulo todo mundo tinha TV. Aí, quando a gente chegou aqui, meus irmãos começaram a trabalhar, ela também, ela fazia cocada e eu saía vendendo em Cubatão, né?
P/1 - Vocês vieram de ônibus?
R - A gente veio de ônibus 3 dias, né? Aí eu vendia as cocadas que ela fazia, e aí a gente comprou uma TV nas Casas Bahia em 12 prestações, foi o dia mais feliz da gente, TV preto e branco.
P/1 - Onde vocês foram morar exatamente quando vocês chegaram?
R - Aí a gente já estava na Vila Parisi, eu passei 1 mês lá e depois a gente veio morar aqui na Vila Esperança.
P/1 - Como era, primeiro, essa chegada na Vila Parisi e saiu do Maranhão. Chegou em São Paulo. Tudo muito diferente?
R - Tudo diferente, tudo grande. Eu nunca tinha visto um supermercado tão grande que era o antigo Peralta. A gente chega aqui, a gente vê oportunidade demais. Você sai do Maranhão, aí eu via gente reclamando da vida e a gente só alegria, porque quem reclama não vê as possibilidades, né? Aí eu digo “Meu Deus, como que esse povo reclama de um lugar desse?”
P/1 - Mas dava saudade de casa lá?
R - Nos primeiros anos a saudade aperta, viu? Até uns 10 anos você chora querendo voltar. E aí você trabalha sempre pra voltar, aí o tempo vai passando, vai passando, você vai criando raízes, mas o sonho de quem vem para São Paulo é voltar, né?
P/1 - Imagino! E aí, vocês foram pra Vila Parisi, e era uma comunidade?
R - Vila Parisi era uma das maiores favelas de Cubatão.
P/1 - Assustou?
R - Assustou porque lá nós chegamos numa época que o bairro era o bairro mais violento do estado de São Paulo. Você tinha gente de todo lugar, as pessoas tiravam a vida dos outros brincando, o que eu vi de gente sendo morta. Coisa horrível.
P/1 - Mesmo ficando só um pouquinho lá?
R - Só um pouquinho, era um bairro muito violento.
P/1 - Que ano que você chegou?
R - Em 1980.
P/1 - E aí a sua mãe falou “aqui não dá para ficar.”
R - “Aqui, não dá”, porque toda hora você via um matando o outro.
P/1 - Então ficaram só 1 mês nessa Vila Parisi?
R - Só um mês só.
P/1 - E aí, como é que a sua mãe soube da Vila Esperança?
R - É que minha mãe, ela não queria pagar aluguel. Aí meu irmão soube, por meio de um conhecido do trabalho, que aqui estava começando, podia pegar um terreno e construir.
P/1 - Invadir?
R - É, invadiu. Aí ele veio aqui, ganhou um pedaço de terreno aqui do lado, aí a gente não tinha dinheiro para construir, e a linha do trem tinha muito dormente, que eles tiravam para substituir. Aí meu irmão pegou os dormentes, pegou porta de guarda-roupa que ele achou na rua e montou nosso primeiro barraco, aí ele disse “Mãe, vamos mudar hoje mesmo” e a gente mudou.
P/1 - O que vocês tinham para carregar?
R - A gente não tinha nada, só a trouxa, que a gente fala, a gente juntou as roupas. E o barraco era de dormente, a gente ficou tão feliz de dizer “essa casa é nossa”, né?
P/1 - Como era esse barraco?
R - É dormente, a linha do trem tem umas peças de madeira que vai embaixo da linha e quando ela apodrece ou danifica, a rede, tira. Nessa época tinha muito aqui, aí meu irmão pegou para… (intervenção) Deixa eu ver... trem não, lá no Norte... Ah não, eu já tinha visto, lá no Maranhão tem trem.
P/1 - Eu imagino, chegando aqui na Vila Esperança, já tinha trem, né?
R - Já tinha trem.
P/1 - Não assustava esse negócio passando aí?
R - Não é criança né? criança, nunca se assusta, não.
P/1 - É? Aí fizeram esse barracão, era um quarto para todos?
R - Não, era um cômodo só, era um barraquinho, dormia todo mundo no mesmo espaço.
P/1 - E já tinha gente morando?
R - Tinha 5 famílias aqui, que era tipo sítio, criava porco e a gente veio morar, não tinha água, a gente pegava água no balde de uma bica aqui na frente.
P/1 - De balde?
R - De balde. Aí, depois, com o tempo, a gente se juntou e fizemos umas mangueiras. Aí levava água na mangueira.
P/1 - E energia elétrica?
R - Energia elétrica já tinha, a gente puxou direto do poste, que é o que a gente chama do “gato”, né? Que aqui era passagem de energia para outras comunidades, a gente só pegou.
P/1 - Vocês tiveram que pedir pra alguém pra morar aqui? falar com as famílias que já estavam?
R - Foi. Tinha uma vizinha que já morava aqui, ela disse “Não, é só fazer aí do lado”. Quem chegou primeiro era só fazer.
P/1 - E era já na (Avenida) Principal?
R - Era na Principal, que é a Principal, era uma estradinha beirando a linha do trem. Só tinha passagem de um carro só.
P/1 - Era tudo mangue?
R - Não, a principal já era aterrada porque lá, quando foi fazer a linha férrea, eles aterraram de fora a fora, e deixaram uma estradinha de serviço.
P/1 - O mangue então, era para dentro.
R - Era para dentro.
P/1 - Vocês andavam por aí?
R - Eu acredito que antes até a linha era mangue, mas aí a rede naquela época, para instalar a rede, eles aterraram boa parte da frente e deixaram a passagem de serviço, né?
P/1 - E vocês caminhavam pelo mangue?
R - Caminhava. O mangue, na verdade, no começo era o sustento, a gente ia no mangue pegar desde fruta, coco que tinha muito, coquinho, né? E também o caranguejo, porque aí a gente pegava e vendia na pista.
P/1 - Como é que era isso? Você ia lá no meio, enfiava a mão?
R - É só ir no mangue, a gente vai lá, enfia a mão, aí às vezes vem cobra, vêm caranguejo, vem tudo... que na toca mora de tudo, né?
P/1 - E era uma fartura, né?
R - Como aqui o mangue era saudável, e tinha pouca gente, então tinha muita espécie, né?
P/1 - E por quanto tempo vocês ficaram nesse barraquinho?
R - A gente ficou até hoje, né? O que aconteceu foi que o barraco foi se transformando, a gente ficou um tempo, aterramos, depois fomos fazendo piso, depois a água era de balde, a gente comprou mangueira, encanou a água e aí foi evoluindo, foi melhorando. Depois veio o banheiro, a gente fez banheiro.
P/1 - Que até então não tinha, né?
R - Não tinha, como era tudo mato, a gente fazia no mato, no penico, no saco, ia se virando.
P/1 - E tomava banho de caneca?
R - De caneca.
P/1 - Água gelada?
R - Água geladinha mesmo.
P/1 - E no frio também?
R - No frio... não tinha...
P/1 - E aí, nesses primeiros anos 1980, já ia pra escola aqui?
R - Aí já foi, aí eu, com 12 anos, eu me matriculei na escola, no Centro, que fica daqui uns 10 Km. Aí não tinha ônibus porque a Vila Esperança não existia, aí minha mãe me levava, eu estudava de manhã, tinha que estar lá às 07h. Ela me levava todo dia, eu e minha irmã, e às 11h30 ela ia me buscar.
P/1 - E essa escola? Você gostava?
R - Gostava. Júlio Conceição, eu gosto dela até hoje, em 1 mês eu fui alfabetizado, aí já foi o contrário.
P/1 - Então era a pé?
R - O caminho era a pé, 10 Km para ir, 10 para vir na lama, na chuva, mas minha mãe não deixava a gente só, ela levava de manhã, aí voltava, e depois ia buscar.
P/1 - E nessa época sua mãe trabalhou com o quê?
R - Como?
P/1 - Sua mãe trabalhava?
R - Minha mãe vendia cocada, ela fazia cocada, quando eu chegava da escola, ela me dava um tabuleiro e eu ia vender na cidade.
P/1 - Vendia tudo?
R - Vendia tudo.
P/1 - E era o suficiente para manter vocês?
R - Nada, as cocada era barato, aí depois eu digo “Mãe, esse negócio não tá dando muito” - que não dava muita renda. Aí eu fui vender água na pista, aí já dava mais...
P/1 - Você atravessava?
R - É, a pista era aí em cima, eu atravessava, aí eu vendia água, aí já meu negócio começou a melhorar.
P/1 - Mas só quando tinha trânsito?
R - Só quando... todo final de semana tinha.
P/1 - Como é que era para você uma criança de 10, 12 anos trabalhando, vendendo água para um monte de carro, para um monte de gente?
R - Eu me divertia, porque vendia muito. Eu cheguei a vender 40 caixas de água numa noite.
P/1 - Você carregava essa água daqui para lá, como?
R - Daqui para lá, a gente botava, colocava na geladeira, depois colocava no isopor e minha mãe também ia lá vender. Aí depois, com o tempo, eu digo “mãe, é perigoso, que tem muita moto. A senhora pode ser atropelada” - porque tinha que ser rápido, né? E minha mãe com certa idade, eu digo “a senhora fica na beira da pista e eu fico entre os carros, né?” Eu digo “eu tenho mais agilidade de me desviar de moto, de carro.”
P/1 - Tinha muito acidente?
R - Não, não tinha não. Criança é rápida, eu sempre fui ligeiro, né?
P/1 - E para chegar na pista, qual era o caminho?
R - É só subir aqui, ó, onde a gente está, subir um pouquinho e já tava na pista.
P/1 - E aí vocês compravam mercadoria, água, onde?
R - Comprava no centro, no centro da cidade.
P/1 - Então tinha uma logística, tinha que ir lá, comprar.
R - Lá, comprar de bicicleta, depois trazer, pôr na geladeira, subir.
P/1 - E assim a vida foi melhorando?
R - Foi melhorando, vendendo água eu ganhei muito dinheiro. Depois eu fiquei maior e comprei três carros, pra você ter uma ideia, comprei uma Kombi na época, poucas pessoas tinham. Aí eu já enchia a Kombi de água e o negócio cresceu, mas depois veio a concorrência, todo mundo queria vender água, aí as vendas caíram.
P/1 - Isso com que idade que você começou?
R - Eu já comecei com 12. Fui até os 20 anos mais ou menos.
P/1 - Vendendo?
R - Vendendo, e a vida tava boa, viu? Mas aí o pessoal começou a ver a gente melhorando, aí era mais vendedor do que carro, aí o negócio caiu.
P/1 - E me conta, enquanto você crescia, a Vila Esperança também?
R - A Vila Esperança cresceu rápido e a prefeitura tirou à Vila Esperança 3 vezes. Aí ela tirou e botava na Vila Natal. Tirou a primeira e minha mãe não quis ir. Tirou a segunda, minha mãe não quis, a terceira, não quis ir. Ela disse “Não, vou ficar aqui.” Aí na quarta Vila Esperança, aí já desembestou, a vila cresceu, aí não tinha mais espaço pra tirar.
P/1 - Quando você fala tirou, o que era tirar?
R - Tirar, a prefeitura, vir, removia todas as famílias. Colocou na Vila Natal, que é uma comunidade aqui do lado.
P/1 - Mas como é que isso era feito, era conversado?
R - Era conversado, o prefeito mandava assistente social, e dizia “vocês vão ser removidos”, aí dava o terreno e um e um kit de material de construção para fazer isso.
P/1 - E sua mãe não foi?
R - A minha mãe não quis ir.
P/1 - E deixaram ela ficar?
R - Então deixaram.
P/1 - E por que ela não ia?
R - Ela disse que não ia porque lá o terreno era pequeno e ia acumular muita gente. Ela queria um espaço mais tranquilo. E ela acertou, viu? A maioria das famílias que foram lá, os filhos se perderam depois, vieram a praticar a coisa errada, porque a comunidade cresceu. Tenho certeza de que ela acertou. Se a gente tivesse ido, talvez minha história teria sido outra.
P/1 - Mas aqui também cresceu, né?
R - É, mas cresceu mais devagar.
P/1 - Que ano que você acha que a coisa aconteceu aqui?
R - Aqui aconteceu na década de 90. A Vila cresceu muito, veio gente de tudo quanto é lugar, foi aí que começou já a venda de droga, etc e tal.
P/1 - Teve algum motivo para chegar tanta gente ao mesmo tempo?
R - Eu acho assim na década de 80 tinha emprego sobrando, você ia no centro da cidade, e as empresas imploravam para você entrar numa empresa, aí da década de 90 até a atualidade. O que que acontece? Aí virou o jogo, já é o trabalhador que implora por uma vaga, e aí, o que que aconteceu? Muita gente no aluguel etc. e tal... Muita gente foi saindo da empresa que dava alojamento, aí não ficou alternativa, o cara veio, e foi empurrado para cá.
P/1 - A verdade é que a vinda para cá, era gente que não tinha como pagar aluguel?
R - Aqui era a última opção, né? A pessoa perdeu o emprego, não tinha como pagar aluguel aí pensava ”Opa, Vila Esperança, lá eu me viro, né?”
P/1 - Você que está aqui desde o começo, de onde surgiu esse nome, Vila Esperança?
R - Vila Esperança começou, a nossa família se juntou com a família do Miúdo, que ele já faleceu, e eu lembro que o Miúdo tinha vários nomes (possíveis), ele disse vamos colocar esperança, que era uma um grilozinho verde, ele disse, “porque a gente tem que ter esperança, tem que ser esperança.” Aí, a partir daí, começou o nome.
P/1 - Vocês batizaram?
R - Batizamos, porque não tinha nada disso, a gente tem que ter algo de esperança.
P/1 - O que você fez aqui na construção da Vila Esperança? Abriu rua? Derrubou mato? Como é que foi?
R - Eu, enquanto líder comunitário, nós começamos a minha experiência, foi num núcleo chamado Ilha Bela, que eu tive a oportunidade de dirigir esse bairro por vários anos. E ali eu vi que se a gente não colocasse a mão na massa, não fizesse alguma coisa, não ia acontecer. Então, desde a instalação de linha de ônibus, de luz, de água, de fazer estrada, tudo era a gente que fazia.
P/1 - Mas isso quando você já estava maior?
R - Isso, maior de idade.
P/1 - Como é que começou, até chegar nesse lugar de virar um líder comunitário?
R - Começou quando eu parei de vender água, que eu lhe falei que eu vendia muita água, aí chegou uma hora que tinha mais vendedor do que gente, aí meu negócio acabou, e eu tentei voltar para a indústria. Eu lembro que eu queria ser motorista na indústria, aí, teve um amigo meu que disse “Eu resolvo”, aí ele esquentou minha carteira, antigamente fazia isso, porque eles não contratavam sem experiência, antigamente não, até hoje, né?
P/1 - Aí vai lá e coloca...
R - Aí ele pegou me colocou meus dados, eu lembro até hoje, da CBPO, que era uma empresa famosa, aí eu tinha carteira, ele disse “tem carteira ?” digo “tenho, dirijo caminhão, eu nasci dirigindo caminhão”, - mas nunca tinha entrado num caminhão. Mas eu via os caras dirigindo, digo “isso é fácil,” né?
Aí ele colocou lá 2 anos e 7 meses (de experiência).
Aí teve um amigo meu que me botou dentro do ônibus, e eu entrei na empresa, chegou lá, eu conversei com o encarregado e ele perguntou “Tu é motorista?” digo “sou” aí ele “Opa, nós estamos precisando”, aí me apresentou um caminhão gigante, eu nunca tinha visto um caminhão daquele. Aí eu digo “Meu Deus! Deu zebra.” Aí ele disse “pode dar uma volta na fábrica.” Eu sempre tive responsabilidade, e eu falei para ele “Chefe, deixa comigo, só me mostra onde é o freio que o resto eu resolvo.” Aí ele foi muito assim, digamos assim, - Cara insensível, né? Pegou para mim, apontou e disse “pelo mesmo caminho que você veio, vai embora.” Não deixou nem eu dar uma voltinha no caminhão. Aí todas as tentativas que eu tentei de emprego fracassou. Aí, quando não tinha mais nada, aí eu fui nas reuniões da sociedade, eu digo “já que eu não sirvo para nada, vou trabalhar de graça.” Aí eu comecei trabalhando de graça, capinando, fazendo tudo que a comunidade pedia, eu fazia.
P/1 - De graça?
R - De graça. Aí o pessoal foi me vendo, me vendo e foram me chamando para as reuniões, fui participando, até participei de uma eleição, ganhei, aí comecei minha história assim.
P/1 - A primeira eleição foi quando?
R - Acho que foi no ano 2000, na Ilha Bela.
P/1 - E aí já era eleição para ser líder?
R - E vice-presidente.
P/1 - Da comunidade?
R - Isso aí, nós ganhamos uma chapa. Depois, em 2004, eu fui ser presidente, já de fato.
P/1 - Quando você fala presidente, é presidente da Vila Esperança?
R - Da Ilha Bela, era só um núcleo só.
P/1 - E o que você tinha que fazer lá?
R - Tudo, né? Depois que você vira presidente, o pessoal te cobra tudo, vaga de creche, estrada, ônibus. Como é a pessoa mais próxima que representa, então eles te cobram tudo que você imagina e você vai pegando o gás e chega uma hora que você está resolvendo praticamente quase tudo.
P/1 - Mesmo morando aqui na Principal, você foi cuidar de lá.
R - Isso, eu morava com minha mãe. Aí lá eu invadi um pedaço que que atualmente é a Capela Irmã Dulce e ali era onde eu fazia meus trabalhos, eu cheguei a ter 12 projetos lá, implantei curso de alfabetização para comunidade, alfabetizar as pessoas, curso de inglês, curso de karatê, capoeira, violino, tudo que você imaginar a gente trouxe aqui pra dentro da comunidade informática.
P/1 - Caramba, isso vinha da sua cabeça ou do pedido do povo?
R - Não, vinha da minha cabeça, digo “Vou montar um curso de inglês. Eu quero que todo mundo fale inglês”. Aí montamos uma escolinha, tá até hoje a escola, né?
P/1 - Você já cuidava de quantas pessoas?
R - Aí o trabalho da Ilha Bela, começou a eu cuidar da Ilha Bela, do Sítio Novo, da Vila Esperança, expandiu...
P/1 - Quando, de repente, você era o líder de quantos?
R - De toda a comunidade.
P/1 - A gente tá falando de quantas pessoas?
R - Naquela época devia ter umas 15.000 pessoas.
P/1 - Zumbi, que responsabilidade! Você ganhava para isso?
R - Não. Não ganhava. Quando eu chegava em casa, muitas vezes quem me sustentava era minha mãe. Eu chegava em casa, minha mãe tinha um salário mínimo, a geladeira vazia, e a comunidade vê a gente como se a gente não come, não bebe, porque o trabalho era 24 horas. Por isso que eu sou grato a minha mãe, esse tempo todo, quem me bancou foi minha mãe.
P/1 - Ela apoiava?
R - Apoiava.
P/1 - Mesmo você não ganhando?
R - Porque, imagine você trabalhar 12, 14h00 para a comunidade, você chega em casa sem um tostão, né?
P/1 - Então ela não falava “Filho, vai trabalhar e ganhar dinheiro”?
R - Não, ela sempre me apoiou. Ela dizia “um dia você vai vencer, meu filho”, ela nunca falou isso, ela só tinha fé que ia mudar, né?
P/1 - E ela trabalhava com o quê para sustentar vocês?
R - Minha mãe. Ela foi para o norte, ganhou LOAS, né? Aí ela conseguiu LOAS do governo federal era o nosso ganha pão.
P/1 - O que é isso?
R - Loas. É um benefício de Prestação continuada, a pessoa que não tem estudo, ela tinha 85 anos. Aí era o ganha pão dela, é um benefício social do governo federal.
P/1 - Como se fosse um salário mínimo?
R - É um salário mínimo.
P/1 - Isso era o suficiente?
R - Na verdade, sobrava. Ela administrava tão bem que...
P/1 - Era só vocês dois. Nessa época?
R - Era eu, ela sempre ajudou os 6 irmãos, nessa época, quem estava em casa, dependendo dela, era só eu.
P/1 - E os irmãos moravam aqui?
R - Moravam. Os irmãos já foram casados, aí sobrou eu e ela.
P/1 - E qual era o seu objetivo quando você virou um líder comunitário? O que você queria?
R - Na verdade, eu queria o bairro urbanizado, né? Aí, por exemplo, eu comecei, como tinha dia que eu não tinha o que comer, né? Aí eu ia buscar os projetos baseado na minha necessidade, a gente criou um projeto aqui “Nosso Pão”.
Eu cheguei no prefeito na época e disse “prefeito, o povo tá passando fome”, mas na verdade quem tava era eu, aí ele disse “O que que você sugere?” eu respondi: “Vamos criar uma sopa reforçada. Leite para as crianças.” E ele aceitou. Mas todo projeto nascia da minha necessidade pessoal, porque tinha dia que eu não tinha o que comer, né?
P/1 - E essa relação com prefeito, era você que batia lá na porta?
R - Era eu que batia. Porque a gente estava em tudo, né? Aí eu dava a ideia. Muitas delas eram... Nesse projeto Nosso Pão, a gente dava sopa todo dia, de segunda a sexta, uma sopa, vinha pronta e eu servia, e para as crianças tinha leite, amido de milho e açúcar, era um kit. Mas a maioria dos projetos eles surgem de uma necessidade pessoal minha, que eu digo, “outros também estão passando”. Aí eu digo “Poxa, já que eu tô aqui, vamos lutar por essa causa aí do Nosso Pão.”
Hoje, depois a roda da vida virou, eu fui ser secretário de assistência e eu lutei para um projeto maior, que é o Bom Prato, aí eu instalei o Bom Prato em Cubatão e na Vila Esperança o Bom Prato Móvel.
P/1 - Que legal! Lá no Nosso Pão você ia de casa em casa, ou tinha um lugar?
R - Lá na Ilha Bela, eu tinha uma sede, eu servia 600 pratos por dia. Aí quando dava 10 horas em diante, estava uma fila lá gigante, as pessoas levavam Tuppeware e a gente colocava a sopa, e eles iam comer em casa.
P/1 - Eu tô aqui pensando que o poder público não veio aqui bater na porta de vocês e perguntar o que vocês precisavam?
R - Não.
P/1 - Isso é uma luta, não é?
R - É uma luta, eu costumo dizer que o Bom Prato quando estava aqui, algumas pessoas diziam “Ah, foi o governador que trouxe, né?” Aí eu dizia “É, o governador passou, olhou para você, e disse eu vou pôr um Bom Prato aqui.”
Não foi assim, foi muitas idas a São Paulo, muitos não ouvidos, muito choro, muito convencimento, até ele dizer sim, né?
P/1 - E você que articulava essa conversa, você que ia lá negociar as coisas?
R - Na verdade era conversa e briga, né? Para ter água na Vila Esperança, a gente fechou o sistema da Baixada Santista 3 vezes. Hoje eu posso falar isso, na época eu nem podia senão eu ia preso, mas a gente fechou a pista, ninguém descia e ninguém subia, para chamar a atenção para as autoridades atender a gente.
P/1 - Como é que você fazia essa movimentação? Você chamava o povo?
R - Eu chamava o povo, algumas pessoas secretamente e uma logística que eu não podia divulgar, porque senão seria preso, então tinha uma equipe de 2 ou 3 pessoas para juntar pneu de madrugada, de confiança, que não podia vazar e 05h00 tinha essa equipe de 2 ou 3 pessoas que tocava fogo nos pneus na pista, aí você fechou a pista para tudo, naquela época eu não poderia nem falar isso, né? Senão seria... Quantas vezes eu tive que fugir daqui para não ser preso? Tinha investigador andando atrás de mim? Aí, quando a gente fazia isso, vinha promotor, vinha prefeito, vinha secretário. Foi aí que a gente começou a ser ouvido.
P/1 - Não era uma coisa que você queria, mas era o único jeito?
R - Eu não queria. Só que você batia na porta da Justiça, não te atendia, batia na porta do prefeito, não te atendia, então foi a único jeito que eu tive. Eu digo “Ó gente a única coisa é ir para luta.”
Aí uma vez eu assisti o filme do Rambo, né? E toda vez que eu ia pra luta, eu botava uma fita na cabeça, eu colocava aquilo ali, eu chorava porque eu não sabia se eu ia voltar. Aí eu acordava 04h00, colocava uma fita na cabeça, aquilo ali era... minha mãe chorava que ela sabia que eu estava indo para luta.
P/1 - O que passava pela cabeça, né?
R - É que eu não sabia se ia voltar, né? Minha mãe ficava chorando.
P/1 - E você ia lutar?
R - Ia lutar, literalmente.
P/1 - E voltava para casa?
R - Na esperança de voltar. Aí, depois da pista, aí vinha promotor, vinha juiz. Tentaram me prender várias vezes. Eu tinha que fugir. E o povo não sabe, né? Porque o povo achou que a água chegou...
P/1 - Só você sabe, né? Caramba!
R - Aí, graças a Deus, depois disso, nunca mais eu tive que colocar essa fita na cabeça que era horrível, né? Podia morrer, gente, né? Porque para você parar um caminhão, eu lembro que a gente ia pra pista, os caminhões passando. O cara tentava atropelar a gente, porque você parar a pista não é fácil, aí era estratégia, a gente ia pra pista 04h00, eu dizia “pessoal, nós temos que fechar entre 10 minutos para às 5h, que é a hora que os ônibus estão cheio de trabalhador, olha, a hora que a gente parar o primeiro caminhão, o primeiro ônibus, todo mundo desce, cria tumulto.”
E o pessoal achava que a gente era muita gente, não chegava a dez pessoas, é que tinha toda uma estratégia. Eu digo, 05h00 vêm os ônibus, você desceu, um ônibus já enche, e os trabalhadores ficava do nosso lado, né?
P/1 - Não tinha uma confusão de briga, essas coisas?
R - Não. Eu orientava, dizia “Não saqueie, não queime carro, senão a gente vai ser preso aí”. E eu ficava no meio ali, para ninguém queimar um carro, não bater em ninguém e fugindo da polícia. O pessoal vinha perguntar, eu digo “não tem líder”, chegavam pra um e perguntavam “Quem é o líder?” -“Não tem líder.” Mas mesmo assim vazava, que eles vinham atrás da gente.
P/1 - Em algum momento alguém veio aqui, bateu na sua casa, te chamou?
R - Não. Depois desses eventos, eu me escondia. Eu ficava 2 ou 3 dias sem vir em casa, que a gente via movimentação de carro passando.
P/1 - Imagina a dificuldade. Era assim que era o jeito, né?
R - Era o único jeito. Mas depois disso, as portas foram se abrindo.
P/1 - O que você fez com a faixa? Jogou fora? Guardou?
R - Eu joguei fora. Eu espero não usá-la nunca mais.
P/1 - E o mangue, me fala do mangue, como que vocês foram lidando com ele, né?
R - O mangue começou no Ministério Público. A gente ia pedir regularização de água e de luz, nós tínhamos uma promotora, Dra. Liliane, ela disse “não dá pra... se a Sabesp colocar água aqui, a gente entra na Justiça contra Sabesp” e a gente ia na Sabesp, e a Sabesp dizia ”Se o Ministério Público autorizar, a gente põe aí.
Um dia eu falei numa reunião, eu digo gente, “a única coisa a gente ganhar o coração da promotora”, aí eu digo “é a única estratégia, é ela ver a gente com bons olhos, que ela não vê.”
Aí eu digo “vamos limpar o mangue” e a gente começou limpar o mangue todo ano, chamar a imprensa e até a Folha de São Paulo destacar a gente na primeira página, dessa ação ambiental. Aí, depois disso, a gente ganhou o coração da promotora, ela virou aliada nossa, e então virou o contrário, ela começou a propor solução para o prefeito, assinamos um Termo de Ajustamento de Conduta, Prefeitura, Estado. Por isso que a Vila Esperança está sendo reurbanizada hoje, que ela disse “Eu vou entrar com ação contra a prefeitura, para prefeitura buscar projeto de reurbanizar o bairro.”
P/1 - Olha só.
R - Ela disse “mas vou autorizar a água provisória. Desde que a prefeitura busca a reurbanização do bairro”, então a reurbanização da Vila Esperança foi puxada pelo Ministério Público.
P/1 - Na verdade, pelo mangue, né?
R - Pelo mangue à limpeza do mangue.
P/1 - Era um mutirão?
R - Eu fazia mutirões, até uns 2 anos atrás a gente fez.
P/1 - Juntava muita gente?
R - Muita gente. Era um dia cívico, tinha ação social, corte de cabelo. Era uma festa que a gente fazia, né?
P/1 - E limpava o mangue?
R - Limpava o mangue.
P/1 - Tirava muita coisa?
R - Tirava muita, educava para as pessoas não jogarem lixo no mangue. Aí, depois disso, a gente criou a moeda do mangue para trocar o lixo por cesta básica.
P/1 - Qual que é a moeda? Me conta tudo.
R - A moeda, a gente criou uma moeda chamada mangue de R$ 1, 2, 5 e 10. Aí a pessoa vinha aqui nos pontos destacados, trocava seu material reciclável por cesta básica, em vez da gente dar a cesta básica, a cesta vinha de graça. A gente queria só estimular as pessoas.
P/1 - A cesta vinha de graça?
R - A cesta eu pedia às empresas, as empresas me davam. Em vez de eu dar, toma lá, eu dizia “olha, me traga aí 5 garrafas pet, me traga alguma coisa que você ia jogar no mangue e leva a cesta”. E com isso a gente ia educando as pessoas a não jogar lixo no mangue.
P/1 - Mas quem inventou essa moeda?
R - Essa moeda nasceu da ideia da limpeza do mangue, porque a gente tirava tanto material reciclável do mangue que a prefeitura levava 3 ou 4 dias para recolher esse lixo. E nesse período muita gente ficava garimpando. Aí onde me veio a ideia, eu digo “esse lixo tem valor”, né? E realmente você tinha ferro, só tinha plástico. As pessoas ficavam 3, 4 dias garimpando.
P/1 - E essa moeda circulou na Vila?
R - Ela circulou muito tempo na Vila. Hoje, com a entrada do PIX, com a entrada da nova realidade, quase não faz mais sentido, né?
P/1 - Ninguém usa papel, né?
R - Ninguém usa papel mais. Mas ela teve um papel assim, digamos assim, importantíssimo, de trazer também a visibilidade do bairro. A imprensa do Brasil inteiro veio pra cá, filmou, viu as atividades.
P/1 - Que ano que foi isso?
R - Isso faz uns 15 anos atrás.
P/1 - Em 2011.
R - Por aí. 2011, 2010.
P/1 - E aí trocava a cesta básica por?
R - Moeda e também a pessoa vinha aqui, pegava moeda e comprava no mercado também.
P/1 - Então os estabelecimentos podiam receber?
R - Cadastrei todos os estabelecimentos, eles aceitavam a moeda também.
P/1 - E depois trocava por dinheiro?
R - Depois eu vinha aqui, resgatava, a gente ia lá e a pessoa diz “olha, eu tenho uma certa quantidade.” A gente ia lá, entregava o dinheiro que a gente trabalhava com material reciclável também, então esse dinheiro era da venda do material.
P/1 - Fazia tipo a economia circular?
R - Isso, exatamente.
P/1 - Tinha uma loja solidária?
R - Tinha. A gente tinha aqui na frente. A gente tinha loja de troca também.
P/1 - E ela era cheia de coisas?
R - Era cheia de coisa, doação. Às vezes a pessoa vinha com dois Mangues e levava uma cesta, levavam um kit de limpeza, porque a ideia era eles ver o valor do mangue, né?
P/1 - Você acha que essa atitude da moeda ajudou em quê na Vila Esperança?
R - Ajudou muito a conscientização. Hoje as pessoas, eu acredito que as pessoas tenham mais conscientização de que o mangue é um aliado nosso. Ele não é inimigo. Se eu jogar tudo que eu produzo nele, uma hora volta pra mim, volta em sujeira, volta em doença, volta em mais rato, volta um monte de coisa, então é ter essa consciência que o cuidar do ambiente onde eu vivo.
P/1 - Onde você aprendeu isso?
R - Eu aprendi conforme a gente foi trabalhando, da limpeza do mangue, eu aprendi que aquilo que era lixo tinha um valor econômico. E aí a gente foi só adaptando essas ideias.
P/1 - Porque uma área, eu não sei, tô pedindo pra você me ensinar, inclusive, uma área ambiental que tenha um mangue, o que pode ser feito nela? O que não pode ser feito no mangue?
R - Quando eu entrei na sociedade, eu achava que o mangue era algo assim horrível. Aí minhas visitas no Ministério Público, eu comecei a estudar do mangue. O mangue, por exemplo, ele é o berço do oceano. A maré, quando vêm até o mangue, ela vem pra que? Ela vem fazer compras, né? Então ela leva de volta sais minerais, ela leva de volta alimento, os peixes vêm se alimentar. A vida marinha se alimenta nos mangues. Então a maré, eu costumo dizer que a maré é a mãe dos oceanos, toda vez que ela sai do mar e vem para os mangues, ela vem fazer compras, vem buscar alimento para os filhotes grandes que estão nos oceanos. E aí quando eu chego, quando a mãe vem comprar e chega aqui, tem lixo, tem plástico, o que que ela vai levar para os filhotes? Ela vai levar plástico, vai levar lixo, vai levar poluição. Então eu conto essa historinha, não é técnica, mas é uma historinha que cabe todo mundo entender. A maré é a mãe. E lá no oceano tem o tubarão, tem a tartaruga, tem o peixe que eles precisam se alimentar e lá não tem, onde é que está a fonte de alimento? Nos manguezais. Agora, quando eu invado o mangue, eu faço a minha casa, eu jogo tudo no mangue, eu estou comprometendo toda a vida marinha. Então, como que a gente tem uma vida pacífica? Já que eu fui empurrado para cá que ninguém tem culpa de morar em cima do mangue, qual é o ser humano que foi que nasceu na vida e disse “Olha, eu vou morar dentro do mangue.” Isso não passa, a gente foi empurrado, agora, já que a gente está aqui, vamos cuidar do que tem.
P/1 - De que forma?
R - Mantendo a limpeza, o mínimo que nós podemos fazer é manter a limpeza.
P/1 - Como é que você faz para construir uma casa se essa é a única opção? Tem que aterrar o mangue.
R - No começo, você faz com palafitas, você coloca madeira e faz a casa em cima. Com o tempo, todo mundo quer uma casa com piso, com estrutura, aí vai aterrando.
P/1 - E vai matando?
R - Isso, em aterrar você, logicamente, você mata o mangue. Você diminui a área de alimentação da mãe, que precisa alimentar os filhos, então é ter essa consciência. Ninguém aqui é culpado por estar aqui. A circunstância da vida, trouxe a gente para cá. Agora, já que eu estou aqui, eu tenho que contribuir, eu tenho que limpar, né?
P/1 - Por isso que o nome da sua associação?
R - É Associação de Educação Ambiental Cubatão De bem com o Mangue.
P/1 - De bem com o mangue?
R - Essa é a missão. E a gente tá bem com o mangue, né? E hoje a gente fez. Há 15 anos a gente cercou todo esse bairro, nós tivemos uma cerca exatamente para impedir novas invasões. Por que o que que aconteceu na Vila Esperança? Eu moro 40 anos aqui, eu podia ser dono da metade da Vila Esperança, que era só pegar. Mas eu entendi, minha família entendeu que a gente tinha que pegar o suficiente para viver. Chegou uma hora que teve gente que, além de ter ocupado, começou a ocupar pra vender. Aí você começa a ter o ciclo econômico, que é perverso, quem trabalha com essa visão não tem amor, ele não pensa em fazer rua, ele não pensa em luz, ele quer ganhar dinheiro. Já quem ocupa para viver, para criar sua família, quer a rua, quer a escola, quer viver bem, não quer usufruir.
P/1 - Porque uma coisa é você entrar e outra coisa é você vender?
R - Aí o que que nós fizemos? Nós fizemos uma proposta na contramão disso. Vamos cercar o mangue, vamos estudar. Nós temos que parar esse crescimento desordenado. Você quer ganhar dinheiro? Você estuda? Você vai trabalhar na indústria? Não invadir um mangue? Sou totalmente contrário, me desculpe quem pensa o contrário. Aí a gente faz a cerca, depois a cerca deu certo e agora o Ministério Público e todos os órgãos ambientais autorizou o poder público fazer uma perimetral no mesmo perímetro da cerca.
P/1 - Vocês que mediram o espaço da cerca?
R - Foi na época, foi nós que decidimos, e agora para a prefeitura ter o autorizo para fazer a estrada, qual foi a recomendação do Ministério Público? O mesmo traçado da cerca que foi feito lá atrás é onde vai passar a estrada. E essa estrada é simbólica, porque pós-estrada não terá mais, tolerância zero de invasão. Então a gente regulariza todo mundo que está aqui, mas me desculpe os gananciosos, que vão ter ganância em outro lugar, não aqui. Aqui é para morar e para pertencimento, criar família, ganhar dinheiro com questão imobiliária, não cabe mais aqui.
P/1 - E essa cerca tem quantos quilômetros Zumbi?
R - Ela total, rodeando o bairro todo, ela tem 10 km que ela começa na Vila Natal. Fecha a Vila Caic, Ilha Bela, Sítio Novo e Ponto Final, toda a Vila Esperança, é o traçado da perimetral.
P/1 - Ela é feita com o que, essa cerca?
R - Ela foi feita com estacas de concreto e tela, né?
P/1 - Ninguém derrubou?
R - Com o tempo nós tivemos alguns, como é que se diz assim? Alguns vandalismos, mas essa cerca, nós fizemos muito trabalho de conscientização antes de fazer, nós ficamos 2 anos conscientizando a comunidade da importância da cerca, porque foi 2 anos com um concurso ”Fale bem da cerca” indo nas escolas, concurso “De Bem com Mangue” fanfarra, tudo com tema (para) cuidar da cerca.
P/1 - Isso para as crianças e adolescentes?
R - Crianças, adolescentes, os pais, e foi após a cerca que a Vila Esperança renasceu. Aí nós tivemos regularização de água, regularização de luz, projeto de reurbanização. O governo federal passou da cerca para dentro, toda a área que era da União veio para a prefeitura. Hoje, toda essa área aqui da Vila Esperança, cerca para dentro, pertence ao município.
P/1 - Então a cerca protege o mangue, protege vocês?
R - Protege a gente. E a gente passa a ter uma relação com as autoridades ambientais, uma relação de harmonia.
P/1 - Que ano que foi isso?
R - Isso foi em 2002, começou todo esse processo.
P/1 - Então, em 2002, a cerca e em 2011, a moeda, isso?
R - Todas essas ações voltadas para… E a sociedade da Ilha Bela se chamava “Associação de Melhoramento”, eu mudei o nome para “Associação de Bem com o Mangue.”
P/1 - O que que é essa “Associação de Melhoramento”?
R - A mesma que é a de Educação Ambiental, que trabalha a educação ambiental e trabalha o bem-estar social e ambiental.
P/1 - E isso você continuou trabalhando voluntariamente?
R - Voluntariamente.
P/1 - Por quanto tempo você foi voluntário?
R - Acho que a vida toda é algo que me faz bem, né? Lógico que de lá para cá, o voluntariado me trouxe o conhecimento de saber que tem porta para você estudar, se abriram portas de Senai para a comunidade, para mim, abriram portas de eu conhecer instituições que me preparou para passar no Enem. Eu era cego em relação ao estudo, hoje eu sei as portas que você trilha para chegar numa faculdade pública, o pobre estudar. Eu não tive um líder que tinha a consciência que eu tenho, o líder que eu tive. Ele não tinha foco em educação.
P/1 - Quem era seu líder?
R - É melhor não falar.
P/1 - Tá bom.
R - Mas o meu líder, se o meu líder fosse, tivesse a visão que eu tenho de dizer “Olha, a única coisa que vai tirar suas algemas, não é emprego na prefeitura, não é emprego na indústria, é estudo, é qualificação.” Eu não tive um líder que chegava numa reunião assim: “Você tem que estudar, você tem que se preparar.” Meu líder, não, meu líder, tinha outra vocação.
Hoje eu prefiro ser um líder, o cara pode até não gostar, tem gente que não gosta, tem gente que sai daqui cuspindo fogo e fala: “Zumbi, eu estou desempregado,” e eu digo que “se você não se preparar, você vai morrer desempregado. Você tem que fazer um curso no Senai, é de graça. Você tem que fazer um Enem e de graça. Uma faculdade é de graça.” - A pessoa sai daqui bufando, fogo, mas depois de um ano, dois me encontra e diz “eu continuo desempregado” (eu digo) “Se tivesse feito o que eu falei”, porque o líder, a gente está aqui, não é pra dizer o que a pessoa quer ouvir, a gente está aqui para apontar caminhos e os caminhos é muito duro. O cara que tá desempregado hoje, com fome, hoje você dizer que ele tem que fazer um Senai de 5 ou 6 meses, é duro, só que vai resolver a vida dele até o último dia.
P/1 - Geralmente as pessoas querem soluções imediatas.
R - E não existe. O líder tem que ter essa clareza de dizer “não existe esse milagre”.
P/1 - Você foi estudar?
R - Eu fui estudar, tentei passar no Enem durante 5 anos depois de fazer cursinho. Por isso que o voluntariado, não só abre portas, mas abre a mente. Eu entrei no movimento comunitário, passei 5 anos fazendo o Enem, passei. Eu fiz uma coisa que eu até falo para um amigo meu que é o Andinho e o Ademário, que foi prefeito de Cubatão “Talvez apareça um doido igual eu, mas até hoje não apareceu”. Eu ganhei uma bolsa para estudar em Santos e a bolsa só tinha vaga de manhã, porque à noite, eu dei tanta zebra porque a noite tem transporte, tem ônibus gratuito, só que de manhã não tem.
A prefeitura entende que quem estuda de manhã tem condições, e eu ganhei minha bolsa de manhã... Não tinha, e eu desempregado, fui para Santos, o senhor vê, 22 km para ir e 22 km para voltar daqui de Cubatão à Ponta da Praia. Eu ia os primeiros anos de bicicleta
P/1 - Todo dia?
R - Por isso que eu digo tá pra nascer ainda um doido igual eu, em dia de chuva eu ia chorando viu... Saía daqui às 04h00 na minha bicicleta, pedalando. Não era uma bicicleta saudável, caía a corrente e eu dizia “Deus, isso tem algum sentido? Tem que ter”, durante 5 anos.
P/1 - O que você estava estudando?
R - Direito.
P/1 - Você se formou em Direito?
R - Me formei sem a comunidade saber que eu saía daqui 04h00, chegava meio-dia, quase ninguém me via, o meu sacrifício, só Deus.
P/1 - E você não falava?
R - Não falava.
P/1 - Por quê?
R - Porque eu tinha medo de não chegar até o final, que é a faculdade, entrar é difícil permanecer mais ainda, porque se eu ficasse duas vezes de DP, eu perdia a bolsa. Isso me apavorava. Eu digo “eu levei 5 anos para conseguir a bolsa, se eu perder, eu não tenho mais idade para esperar mais tempo.”
P/1 - Com quantos anos você entrou na faculdade?
R - Com 35 anos
P/1 - Como é que foi?
R - Para mim, foi tranquilo. O movimento comunitário me ajudou numa faculdade onde só tinha playboy, gente rica, gente branca. Eu era o único negro da classe, pobre, chegava fedendo na faculdade que depois de pedalar 22 km, não tinha roupa, agora o meu emocional é que me segurou, porque aqui na comunidade eu enfrentei tudo. Então, cara feia, desdém, isso para mim foi tranquilo. Agora, se eu não tivesse vindo de comunidade, o emocional não aguentava não. Você está numa sala de aula de playboy, de rico, cheirando mal, porque imagina, não tinha dinheiro para comprar um creme desodorante, então não cheirava bem depois de pedalar 22 km...
P/1 - Como é que você se sentia?
R - Não, aquilo para mim era tranquilo, porque o meu emocional estava bem. Tudo é o emocional, se aqui a cabeça estiver bem, não existe crítica, não existe nada.
P/1 - E aí você estudando uma teoria difícil, mas a prática você vivia?
R - E aí, quando deu, no terceiro ano em diante, teve uma pessoa que viu meu sacrifício, que foi seu Oscar, aí ele mandou eu comprar um carro, ele disse “olha, fiquei sabendo que você está fazendo.” Aí ele me disse “vai na loja,” eu comprei um Celtinha, eles compram um carro. Ele é um cara muito rico. Ele não mandou eu escolher o carro e eu fui na Chevrolet vi um seminovo que era um Celta mais barato, aí ele disse “só me manda o nome da empresa,” ele depositou e comecei a andar de carro.
P/1 - Então de onde saiu esse homem?
R - Esse homem foi Deus. Deus vai colocando as pessoas.
P/1 - Mas ele é daqui?
R - Não. Ele não é daqui. Ele é lá de Cotia.
P/1 - Como é que ele te conheceu?
R - É Deus. Ele uma vez veio na Petrobras, eu estava lá, ele apertou minha mão. Depois de um ano, ele apareceu. Ele disse no apertar de mão. Ele disse que sentiu uma energia boa. Aí, nós estamos juntos até hoje.
P/1 - Virou seu amigo?
R - Virou.
P/1 - E esse carro então melhorou a vida?
R - Melhorou a vida. Aí depois eu tentei fazer meu estágio e não consegui. Depois eu entendi, que eu pedia para os amigos “olha, me dá uma chance de ir pro escritório.” Ninguém me deu, aí minha mãe um dia disse “Meu filho, ninguém vai te dar, faça concurso”. Aí eu entrei no site do Tribunal da Justiça, fiz um concurso pra estagiário, passei e fui trabalhar no tribunal. E na época eu sonhava com salário, quando eu fui ver o salário de estagiário, eu ganhava 4 vezes mais do que eu sonhei, eu digo “Meu Deus, estudar vale a pena”.
P/1 - E aí, como é que foi o estágio?
R - O estágio? Aí o que era negativo para os meus colegas, colega não, as pessoas da cidade que que eu tentei estágio não me deram, eu os entendi eles, não iam pôr um cara negro e velho pra fazer estágio. Aí, já no tribunal virou o contrário, cheguei lá, o meu desembargador Dr. Gildo, ele disse, “já que você é o mais experiente de todos, toma conta dos jovens.” Aí eu fui ser chefe dos estagiários no tribunal.
P/1 - Foi legal essa experiência?
R - Muito, rapaz. Eu era tratado assim como juiz, foi a experiência mais... Eu fazia audiência, fazia tudo, aprendi o que que é o Direito na prática, que minha mãe veio da área jurídica, na minha família, ninguém. Então, você imagina, eu não sabia nem o que era um cartório, como iniciar um processo, e lá eu aprendi, trabalhei no cartório, aprendi como começa um processo. Eu fazia petição na hora, chegava um munícipe, digitava na hora, só levava para o desembargador assinar.
P/1 - O que você acha que a tua experiência aqui na Vila Esperança te ajudava lá?
R - Lá foi tudo, viu? Eu sou uma pessoa tímida, sem conhecimento jurídico, se não fosse aqui eu, como líder, fui conversar com juiz, conversar com promotor, conversar com autoridade, a faculdade, eu não teria concluído ela em 5 anos, mas nem... (Tendo) vindo de escola pública, uma deficiência terrível, eu fui estudar uma área que não estava na raiz da minha família, o Direito não é... A maioria dos meus colegas na faculdade vinha de raíz, vinha de família.
P/1 - Por que você escolheu o direito?
R - Eu escolhi direito porque aqui tudo que eu ia fazer em termos de associação, você vai tratar da questão ambiental, eu não sabia que tinha um código ambiental é uma lei, eu vou tratar de cuidar do Idoso, tem um estatuto do Idoso, eu vou cuidar de política para as crianças, se eu não souber que tem um Estatuto da Criança, eu posso estar ajudando e me ferrar. Então tudo é lei, eu digo, “estudar jurídico vai me ajudar na minha caminhada”.
P/1 - Enquanto você fazia estágio, você abandonou aqui ou não?
R - Não, porque eu estudava de manhã, por volta de meio dia eu estava aqui de volta. Por isso que a comunidade não me viu estudar.
P/1 - Quando é que chegou o diploma?
R - O diploma chegou logo depois, chegou o diploma, na faculdade de direito a gente não comemora o diploma, né? O diploma saiu, nem fui buscar, o que a gente comemora quando a gente passa na OAB.
P/1 - Você passou?
R - Passei, graças a Deus.
P/1 - E aí?
R - Aí foi felicidade, não foi mais porque eu comemorei o estatuto, a minha carteira da OAB no hospital. Minha mãe, eu tirei a OAB e 2 dias depois, minha mãe foi embora. Eu tive a chance ainda, quando eu abri o site da OAB que vem lá (escrito): Passou - aí eu estava em Cubatão, eu fui na sala do Ademário, que eu não tinha computador, não tinha nada o Ademário, tinha uma sala, e eu digo “Eu posso usar teu computador?” A secretária dele disse “pode”.
Aí eu abri (e ví) que tava aquilo, foi uma alegria tão grande... mas ao mesmo tempo tristeza. Eu tinha uma moto, eu corri para o Hospital Guilherme Álvaro, onde minha mãe tava. Aí cheguei lá, ela tava deitadinha já nos últimos dias, eu digo “mãe”, peguei a mão dela, eu digo “essas suas mãozinhas fez um advogado, né? Passei na OAB.” Ela olhou para o resultado, 2 dias depois, ela foi embora.
Aí eu fiquei uns 3 meses sem olhar para minha carteira porque depois que minha mãe foi embora eu fiquei sabendo que ela estava com câncer. Todo mundo aqui sabia, só eu não sabia. Aí ela falava para os vizinhos que não falava para mim porque não queria atrapalhar meus estudos. Eu olhava a carteira da OAB e via o sangue da minha mãe, eu não conseguia advogar por quase 1 ano, olha, aquilo lá eu via como uma, sei lá, uma maldição e depois veio o entendimento de que era aquilo que ela queria.
P/1 - Ela entendeu que você conseguiu passar na OAB. Ela teve ainda consciência?
R - Teve. Ela viu.
P/1 - E ela falou alguma coisa?
R - Mas foi muito doído. Quando eu soube o que eu sentia alguma coisa estranha com ela, ela escondeu de mim, porque para passar na OAB exige 8h de estudo, todo dia. Ela, doente, já em fase final, não me falava.
P/1 - Hoje você entende?
R - Hoje eu entendo. E foi um dia que eu cheguei aqui que vi o braço dela amarrado com um pano e ela disse “eu não aguento mais”. Aí eu peguei ela, levei para o hospital e fomos fazer os exames.
P/1 - Então adoeceu e foi rápido?
R - Foi rápido, ela durou 2 meses de tratamento.
P/1 - E foi câncer?
R - Foi câncer. Um dia eu cheguei aqui da faculdade e ela estava com os braços todo amarrado, ela disse que sentia dor e ela foi amarrando os braços para ver se passava.
P/1 - Caramba! E aí, como é que foi voltar para casa sem essa mãe? Como é que foi construir de novo, né? A vida.
R - Foi triste, né? O nosso sonho, ela não estava aqui para ver um filho formado, né?
P/1 - Ela soube, né?
R - No dia de pegar a carteirinha, foi tão alegre e triste, que ela não estava lá, né? Aí começou uma nova vida, né?
P/1 - Como é que foi?
R - No começo não fazia muito sentido, né? As portas se abriram para mim, eu fui fazer palestra, fui advogar, mas nada fazia sentido. Aí, com o tempo, a gente vai entendendo que todo mundo tem seu tempo aqui. Hoje eu já entendo isso, mas é difícil, porque na vida comunitária a minha base era ela. Aí depois Deus, nessa caminhada, Deus colocou Adriana, que é a minha esposa.
P/1 - Quanto tempo depois que você conheceu Adriana?
R - Acho que foi nesse período, acho que no meio da faculdade, mais ou menos por aí, Deus colocou ela, né?
P/1 - Como é que vocês se conheceram?
R - A gente se conheceu na igreja que eu frequento, a igreja a Adriana cantava na igreja e foi um encontro de Deus mesmo.
P/1 - Na Vila Nova?
R - Na Vila Nova.
P/1 - Se apaixonaram?
R - É, e Deus juntou a gente. Olha, ele sabia o que ia acontecer. Aí colocou uma pessoa para ajudar a gente carregar, até a gente se recuperar, né?
P/1 - Aí vocês começaram a namorar?
R - Foi
P/1 - E aí?
R - Aí depois a gente ficou junto até hoje. Vamos fazer aí mais de 15 anos, né?
P/1 - Aí ela foi morar lá com você. Onde você morava com a sua mãe?
R - Não. Na época, eu morava num quarto na minha mãe, aí depois eu fiz uma promessa para Nossa Senhora, né? A minha sede lá na Ilha Bela se tornou pequeno, aí eu fiz, eu sempre gostei de fazer promessa, aí eu conversei com ela. Eu digo “se a senhora me ajudar a fazer a aquisição de uma sede maior, eu dou aquele espaço para para honra, para os trabalhos referente a Nossa Senhora.
P/1 - Para a Igreja?
R - Para a Igreja. Aí um dia eu passei aqui e tinha uma placa, eu passava aqui direto, eu fiquei quase 1 ano passando nesse terreno, tinha uma placa, era um barraco que a mãe de um colega tinha morrido, só que o preço não estava na minha realidade. Aí um dia eu encostei, eu digo “poxa, você não quer me vender esse terreno?”
Aí ele pegou e disse, “escuta, é R$15.000”, na época, e eu não tinha esse dinheiro, mas nem R$2.000, aí eu digo “mas como é que faz para pagar?” - Ele disse ”tu me dá R$ 3.000 de entrada e o resto facilita”.
Na época eu estava ganhando R$ 500,00, ele disse “tu me dá R$3.000 e, tu me dá R$500,00 por mês, até pagar”.
Ele parece que viu o meu salário, eu digo “olha, não dá (para ser) R$400,00?” - que eu pensei “eu ganho R$500,00, e eu vivo com R$100,00”. Ele disse “não, R$500,00”. Eu digo “fechou” - do nada. Aí eu vendi tudo o que eu tinha, eu tinha uma moto, vendi tudo, eu não estava estudando nessa época, aí juntei os R$3.000, dei para ele e comecei a pagar.
P/1 - E era aqui?
R - É. E aí depois, aí eu tinha até esquecido da promessa, e trabalhando lá na Ilha Bela, que eu sonhava com esse espaço maior, né? E tudo que eu sonhei está acontecendo, os cursos, as pessoas trabalhando. Aí eu comecei um dia a construir, e um dia eu me lembrei da promessa, que já estava mais ou menos.
Aí eu digo “Caramba, eu vou ter que dar”, eu chamei o padre, comecei a mudança aos poucos, eu digo “padre, esse espaço todo, eu quero que seja uma capela.” Aí o padre aceitou, e nesse ínterim foi que eu conheci a Adriana, na compra deste terreno, aí a gente começou a ficar, e ficamos aqui, ela veio morar comigo, a gente começou a lutar e construir esse sonho.
P/1 - E aí, quando você começou a construir isso aqui, já desse jeito?
R - Não, isso aqui era um buraco, por isso que ficou tantos anos para vender, tinha um barraco de madeira todo estragado, quem vinha comprar não comprava, e um buraco, aqui tem mais de 200 caminhões de aterro, neste local, inclusive, tem um lá fora, agora a gente não aterrou, tem o quê? Mais de 20 anos que eu ainda estou terminando. Chegou um hoje aí para concluir, então, somando tudo, tem mais de 200.
Aí tinha gente que dava risada quando eu sonhava que aqui ia ser a sede, as pessoas davam risada, “Como que o Zumbi é um sonhador? Vai fazer sala de aula, salão?”
E eu digo “não, nós vamos conseguir.”
Eu pedia aterro para um, pedia para outro. E as paredes foi eu e a Adriana que fizemos. Aí a gente foi, foi e foi até chegar hoje e estar quase pronto, né? Aí eu lembrei da promessa e doei aquilo para o padre e concentrei todo o meu trabalho aqui, e lá hoje é uma capela da Irmã Dulce e teve também o pedido da minha mãe, nesse ínterim, eu recebi a visita de Nossa Senhora.
P/1 - Como assim?
R - Eu estava na Ilha Bela. Ilha Bela foi um bairro muito violento, e eu era o líder, né? E teve um dia, que tinha uma ameaça de morte contra a minha pessoa, porque a gente levava o bem, e ali foi muito violento. E aí eu pensei nesse dia - a pessoa que ia tirar a minha vida, ela dizia que eu tinha duas opções, ou matava ela ou fugia.
E eu digo “fugir, eu não vou, eu tenho toda a minha história aqui, matar também eu não vou.” Aí eu me preparei para receber a sentença, né? Aí, antes disso, que ele tinha dado um prazo, que era a noite, eu comecei a rezar o terço lá no meu barraquinho, que era a sede, um barraquinho bem baixinho, estava um calor e eu comecei a conversar com Nossa Senhora dizendo “Cuida de mim aí do outro lado que eu tô chegando. E eu chorava.”
Não tinha como escapar, né? Aí comecei a rezar o terço, me preparar espiritualmente para a partida. Aí, quando de repente eu estava rezando o terço, estava um calor de quase 40º e do nada, esfriou e começou um vulto me cercar, passar no meu corpo que eu estava de joelho e de repente, (senti) um cheiro de rosas. E eu rezando o terço a Nossa Senhora, e naquele momento eu fiquei calmo e eu entendi que era a visita dela, porque um cheiro que eu nunca tinha visto na minha vida. Aí, quando passou, de repente, parou tudo isso, o calor voltou, o cheiro foi embora e deu uns 5 minutos, bateu uma pessoa na minha porta dizendo “Zumbi, Zumbi, vem ver o que aconteceu.”- Aí essa pessoa teve a vida ceifada.
P/1 - Alguém que tava vindo te fazer mal...
R - É, encontrou o próprio mal.
P/1 - Alguém matou esta pessoa?
R - Alguém matou.
P/1 - E como estava lá?
R - Estava lá. Aí eu fui dessa visita aí, quando minha mãe também, outra coisa, antes de eu doar a capela, minha mãe antes de morrer, ela disse “meu filho, aquele lugar ali é muito complicado para você, você sofre tanto, doa aquele negócio para a igreja, para fazer uma capela.” Aí eu digo “pode deixar mãe” e aí juntou a visita de Nossa Senhora, o pedido da minha mãe, mais a promessa.
Aí eu digo antes que aconteça uma coisa comigo, eu chamei o padre. O padre também, que recebeu a doação, morreu. Aí, para surpresa minha, do mesmo jeito que era a sede, ele pegou, fez a capela, a frente continua igualzinha, né? Só que dentro é uma linda capela da Irmã Dulce.
P/1 - É a Irmã Dulce que tem algum significado?
R - Tem. Eu nunca imaginei de ser ela, a o padre veio aqui e disse eu vou fazer uma capela da Irmã Dulce? “Olha, quando eu fui ver a história da Irmã Dulce, ela é uma líder comunitária mais superior do que a gente. Tudo, ela não tinha nada, sonhou com hospital na Bahia. Aí se você vê a história de Irmã Dulce... o nosso hospital aqui, ele tem 320 leitos, é um monstro, né? Ela montou um hospital do nada, de 400 leitos, para cuidar dos pobres, aí eu digo “Meu Deus, como as coisas de Deus é.” Então aquela capela ter o nome dela, faz todo o sentido.
P/1 - Eu estou aqui pensando sobre essas ameaças que você recebia, recebe, não sei, elas vinham por onde? Por quem?
R - Eu penso assim, a gente pratica o bem, né? E às vezes você não prejudica ninguém, mas tem gente que se sente prejudicado pelo seu trabalho, deve ser isso.
P/1 - Mas você estava fazendo o bem.
R - É o tempo todo a gente está fazendo o bem, hoje eu entendo. Se você for ver biblicamente, a história bíblica, o que que fez Jesus Cristo para ser crucificado? O que que fez os apóstolos de mau? Então eu falo para o pessoal que está começando hoje, “se você escolher praticar o bem, se fortaleça espiritualmente, que você provoca a ira de muita gente”. Não por fazer mal a ninguém, porque você escolheu um lado.
P/1 - Mas a Vila Esperança, ela foi crescendo e foram ganhando pessoas de todos os tipos, que faziam todos os tipos de coisas e aí sim...
R - A Vila Esperança hoje cresceu, você tem muita gente trabalhando no movimento comunitário, cresceu as entidades religiosas, que faz um trabalho maravilhoso, independente de bandeira, que a Vila cresceu, então você tem igreja, você tem dono de bar que faz trabalho social, você tem, todo mundo aí enxergou que você precisa contribuir um pouquinho com as crianças, com os adolescentes.
E isso é bom, né? Que lá atrás você não era identificado pela questão social. Então, eu creio que o social dentro da Vila Esperança hoje, ele está muito evoluído e muita gente mais dando importância e hoje abre espaço para mim atuar na área do esporte, na área da cultura, em outras áreas que antes a gente tinha que cuidar especificamente mais do atendimento às pessoas em situação de vulnerabilidade. Hoje a gente já pode planejar a cultura, música, outras coisas, né?
P/1 - Mas também crescem os conflitos?
R - Conflitos, onde tem ser humano, nós vamos ter sempre que administrar relacionamentos. A solução, está no ser humano, mas o problema também está no ser humano, o que a gente faz hoje muito em administrar relacionamento que não é fácil e que também não é só aqui, em tudo você tem em casa, tem nas empresas, tem tudo. E aliás, quem não souber fazer isso, tem que aprender, porque é o aprendizado do século: - como equacionar interesses, né?
P/1 - Então, imagino que você teve que aprender a conversar muito bem com as pessoas, ouvir o problema das pessoas.
R - Aqui ensina, o movimento comunitário ensina você ouvir, a hora de falar, a hora de ficar calado. Hoje eu fico mais calado do que falo.
P/1 - Por quê?
R - Porque eu acho que o silêncio muitas vezes é a resposta de muitas coisas. Porque tem gente que não quer ouvir seu lado, então você tem que ficar calado, né?
P/1 - Você sempre foi assim?
R - Sempre foi assim no movimento comunitário, ninguém dura se não tiver esse entendimento.
P/1 - Não dá para entrar brigando, né?
R - Não, brigando não existe conquista, como eu lhe falei, minha briga de fechar a pista foi muito lá atrás, porque a gente teve que fazer aquilo para abrir porta. Hoje, graças a Deus, acho que não precisa mais, hoje é mais relacionamento e diálogo que requer tempo. Hoje eu, por exemplo, eu termino todas as minhas atividades aqui do dia e eu vou para a praça, onde eu tenho um container que eu não vivo daquilo, mas muita gente sabe, os mais próximos, porque eu estou ali, para trabalhar, a questão de mais relacionamento, mais vínculo.
P/1 - O que tem nesse container?
R - Esse container eu faço atendimento social lá dentro, e também vendo meus coquinhos.
P/1 - Coquinho?
R - Coco da praia. Então é a hora que a pessoa se senta à mesa, toma uma água de coco ali, eu sou o psicólogo, eu sou o conselheiro e estou fora da sociedade. Então ali é um Zumbi, outro Zumbi, o Zumbi psicólogo que escuta, que brinca, que dança. Ali é outra roupagem nova que eu estou nesse ano criando.
P/1 - Então vamos começar. Aqui, essa associação que a gente está agora, nasceu quando?
R - Essa associação nasceu há 26 anos atrás, em 2000, oficialmente, né? Antes disso, a gente já trabalhava, mas oficialmente em 2000.
P/1 - Quando é que ela inaugurou?
R - Ela inaugurou em dia 22 de março de 2000.
P/1 - Teve uma festa?
R - Não, não teve uma festa. Foi uma criação só.
P/1 - E aí, quando ela virou isso que eu tô vendo hoje?
R - Isso aqui tem uns 15 a 16 anos.
P/1 - E aí, a partir disso, você começou a ter o seu ganha pão daqui?
R - Daqui hoje ele é o trabalho social. Eu comecei a ter o meu ganha pão depois que eu me formei, que eu comecei a advogar. Depois eu me tornei secretário por 8 anos da assistência, aí tive mais entendimento de projeto, mais visão, a minha mente se abriu mais ainda.
P/1 - Secretário do quê?
R - De Assistência Social de Cubatão?
P/1 - E aí seu trabalho era para Cubatão?
R - E era Cubatão inteiro. Aí foi um período assim, que eu tive que deixar a Associação, porque eu não podia trabalhar mais só na Vila Esperança, eu tive que olhar toda a cidade. Então eu, como secretário, deixei para a cidade hoje, como política pública, contratei 180 funcionários públicos.
Aliás, hoje, dia 28 de outubro, é o Dia do Funcionário, então realizei concurso, as pessoas estudaram, passaram.
Abri 2 CRAS novos. Aqui na Vila Natal, abri 2 centros de convivência que é para atender criança e idoso com as políticas da criança e do idoso. Abri 2 Bom Prato, 1 no centro e outro na móvel para toda a toda Cubatão, a Ilha Caraguatá abriga um CRAS, o centro abriga um CRAS, 2 CRAS.
Aliás, criei o Programa de Fortalecimento que hoje tem 320 idosos participando, fazendo curso, médico, viagem e mais 300 para jovens e adolescentes.
P/1 - Foram quantos anos de secretário?
R - Eu fiquei 8 anos.
P/1 - 2 mandatos?
R - 2 mandatos.
P/1 - E aí pra Vila Esperança, você conseguiu também fazer coisas?
R - Pra Vila Esperança eu abri 2 centros de convivência, que aqui a gente não tinha. terreno e eu abri na Vila Natal. Então tem 1 na Vila Natal, 1 no caminho 2 e no projeto de urbanização eu deixei pronto, o projeto do CRAS da Vila Esperança.
P/1 - Já foi feito?
R - Não, não foi feito que está dentro do projeto de reurbanização. Aí eu já alinhei com a gestão, digo “olha só que vai ser um CRAS”.
P/1 - Quando é que acabou o seu trabalho na secretaria?
R - Acabou em 2020. Isso foi em 2024, aliás...
P/1 - O ano passado?
R - O ano passado.
P/1 - E aí você tem a ambição de continuar na política?
R - Não. A política está em tudo, né? A política está em tudo. A política, eu gosto da política. Hoje a gente teve um líder comunitário aqui, que foi o Ademário, que ficou prefeito durante 8 anos. A reurbanização da Vila Esperança só está acontecendo porque nós levamos essa pauta pra dentro da prefeitura.
Então a gente parava toda a prefeitura pra dizer - “vamos regularizar primeiro, regularizar regularização fundiária, depois transferência da área.” Foi tudo a gente que puxava, a gente pautou isso. Depois, alocar recursos para complementar a verba do Estado e do governo federal para fazer as 1.010 habitações.
P/1 - 1.010?
R - 1.010 habitações, que estão sendo concluídas agora, 160 já foram entregues, agora tem mais 800 e poucas, que vai ser entregue em agosto. A Perimetral que é um orçamento de R$260 milhões, dinheiro municipal, licitação pronta até final do ano.
Se você não tem um líder comunitário de secretário e outro de prefeito, ninguém ia pautar isso para gente. Isso só foi possível porque a gente passou por lá e o atual prefeito está seguindo essas políticas.
P/1 - Para quem não sabe, o projeto de reurbanização significa o quê?
R - Projetos de reurbanização, a Vila foi criada, a única via de acesso que ela tem é uma única, que é a Avenida Principal. Com a reurbanização, todos os becos, que são aqueles caminhos que mal passam (as pessoas com) um guarda-chuva aberto, vão dar lugar a rua, então todas as casas vão ter sua rua, vão ter seu espaço para guardar o carro na garagem; E na parte dos fundos da Perimetral, que é um anel, nós vamos cercar a Vila com a estrada. Então, depois dessa pista não tem mais nada, e é a preservação do mangue. Que o mangue preservado nós vamos atrair outra coisa que ninguém está vendo, que eu já vejo, o mangue preservado, nós vamos atrair o turismo, nós vamos atrair a pesca, nós vamos atrair tudo de bom para cá, para complementar a renda do nosso povo.
Agora, quando você tem um mangue que o esgoto é despejado lá dentro, quando você tem um mangue, que é um berço dos oceanos, onde as pessoas invadem e às vezes nem precisa mais, mas alguns que estão invadindo com interesse financeiro, aí o bairro não cresce. Então, essa Nova Vila Esperança, nós vamos investir no turismo, nós vamos atrair para cá pessoas de fora para gastar aqui dentro, para ver a nossa cultura. Então, a partir de todas essas obras, nós vamos ter uma Nova Vila Esperança, uma nova história.
P/1 - Vai se chamar Nova Vila Esperança?
R - Nova Vila Esperança.
P/1 - E você me disse que estão sendo feitos prédios, para tirar pessoas de onde?
R - Esses prédios estão feitos numa antiga vila CAIC que não existe mais, então toda essa vila CAIC foi retirada, os moradores hoje estão em auxílio aluguel para dar lugar a esses 1.010 apartamentos, conforme está ficando pronto, essas pessoas que moravam lá, e estão no auxílio aluguel, está indo ocupar parte desses apartamentos.
A outra parte é para onde vai ser aberto ruas, então para transformar um beco em rua, você tem que tirar pessoas. Então aí a opção já vai estar pronta, - a rua vai passar, o assistente social vai lá, faz o cadastro e você vai ocupar um apartamento. Para quê? Para dar espaço para rua.
P/1 - E elas pagam aluguel do apartamento?
R - O apartamento vão ser delas.
P/1 - É dado?
R - E financiado.
P/1 - Ah, tá, elas compram?
R - Compram, né?
P/1 - Isso é o pessoal da palafita?
R - O pessoal da Palafitas e dos becos.
P/1 - E eles querem ir?
R - A maioria quer porque quem mora no Beco hoje não consegue ter dignidade em termo de moradia. Ele mora em cima do mangue, às vezes, quantas vezes já vi morador aqui com doença, as crianças com alergia do mangue, mosquito. O cara quer comprar um carro, não consegue pôr em casa. Então lá ele vai ter parquinho, vai ter escola, 2 novas escolas já estão prontas. O filho vai ter escola, vai ter estrada, vai ter garagem, vai ter moradia. Então, eu não acredito que alguém seja contra isso.
P/1 - Isso ainda é dentro da Vila Esperança?
R - Tudo dentro da Vila Esperança.
P/1 - O CDHU vai ser dentro da Vila Esperança.
R - Dentro da Vila Esperança, os prédios já estão prontos. A estrada começa agora no final do ano. É uma é uma obra de 3 anos, é rápido.
P/1 - Isso que eu ia perguntar, quando é que acaba?
R - Ela acaba agora, começando daqui, começa esse ano, agora para janeiro, e daqui a 3 anos está pronto. 2028, 29, no máximo, está pronto.
P/1 - E tem sua mão nisso?
R - Tem. Tem a nossa mão. Isso eu posso dizer que tem. Que esse era o sonho lá atrás, né? Quando muitos não acreditavam, eu sempre sonhei com isso.
P/1 - Que mais que você sonha?
R - Em termos de bairro, eu vejo assim tudo está encaminhado. Digamos se Deus me levasse hoje, se eu parasse hoje, tudo que a gente planejou não para mais, que não depende mais da gente. Dinheiro da obra estar em caixa, está licitado. Qualquer um que entrar lá diga “eu não vou fazer”, ele vai ter que explicar, não para nós da comunidade, tem que explicar para a Justiça - Por que parar isso?
Porque hoje a gente, graças a Deus, a gente conseguiu envolver Ministério Público e Poder Público, então, se um falhar, tem o outro, é uma dupla estrada que eu acho que vai chegar aonde a gente quer chegar.
Agora, o sonho daqui para frente, essa Nova Vila Esperança, eu falo para a comunidade “se prepare, se você quer ver a Nova Vila Esperança, porque ela vai ter custo, ela vai ter melhorias, vai ter qualidade de vida, mas tem preço. Então, o que que eu preciso para permanecer na Vila Esperança? Estudar, se qualificar, procurar ter renda, procurar ganhar mais, senão, você não vai permanecer na Nova Vila Esperança.” Falo isso, não é para meter medo em ninguém, é que é a realidade? Se eu não falar isso, vão dizer, depois - “não me falaram.”
Hoje, quem vive na palafita tem oportunidade, às vezes, de não pagar luz, de não pagar água, não pagar telefone, não pagar uma série de coisas, mas a Nova Vila Esperança a gente não pode iludir a comunidade, vai ter taxa de luz, vai ter taxa de lixo, vai ter condomínio, vai ter IPTU? Vai ter tudo.
P/1 - Tudo que regulariza.
R - E, aliás, todas as pessoas, todo cidadão tem essas despesas. E a gente não está tendo, por enquanto. Então, aproveite que você não está pagando essas despesas para se preparar.
P/1 - Hoje você vê a comunidade empregada, como é que você vê a realidade dos moradores?
R - Na verdade, Cubatão é um polo industrial. Vou falar o lado da indústria, eu frequento reuniões das indústrias que tem muito emprego, e a gente vive na comunidade que tem muita gente desempregado. Agora, por que não bate essa conta? O emprego da indústria exige alta qualificação, o cara que está aqui desempregado e ele sabe o que estou falando, ele precisa tomar a decisão de ir para o Senai, de se alfabetizar, de estudar para a gente ter esse equilíbrio.
Nós estamos numa área que tem muito emprego, mas você concorda que a indústria não pega ajudante geral, pega? A indústria hoje utiliza de mão de obra altamente qualificada.
E nós, Graças a Deus, nós temos 2 unidades do Senai na Baixada Santista, privilégio de Cubatão, que tem uma unidade aqui e a maioria dos cursos é gratuito, só precisa da decisão dos jovens, do cidadão dizer “eu vou me qualificar.” Entrou no Senai, a indústria vai te buscar lá dentro do Senai.
P/1 - E os jovens da Vila Esperança estão tendo essa consciência?
R - É isso que eu falo sempre em reuniões, se puderem me ouvir nesse vídeo, se prepare, porque o futuro é promissor, mas não existe futuro para quem não se qualifica.
P/1 - Mas você tem visto uma geração interessada?
R - Tem. Tem hoje e graças a Deus, está mudando, acho que as famílias estão entendendo isso, o pai que não teve oportunidade, agora é a hora dele dizer “Olha, eu não tive, mas você tem.” E eu dou exemplo, eu andava 22 km para ir buscar conhecimento em Santos, o Senai é bem ali, se você for a pé, você vem brincando. Não precisa seguir meu exemplo, que o meu, é loucura, viu? (risos)
P/1 - Já está um pouquinho mais fácil, né? Zumbi, eu andei aqui por dentro e aí eu vi que ainda tem rua de terra, nem tudo tá asfaltado, isso também está dentro do projeto?
R - Está dentro do projeto, o projeto de reurbanização calça e realiza o calçamento de todas as ruas, não é beco. O que você deve ter visto? Muito beco, beco não vai existir dentro de uma urbanização. Por isso que há 4 anos atrás se inicia a construção primeiro do projeto das unidades habitacionais, para quando você entrar aqui dentro com a reurbanização, você ter para onde levar as pessoas.
P/1 - E eu vejo também que tem muitas empresas ao redor disso tudo de vocês por aqui. Vocês têm relação com as empresas? Vocês dialogam com empresas?
R - Tem, hoje a relação com as empresas é bem melhor, né? Eu participo de um painel consultivo comunitário, que é no Ciesp, uma vez por mês, todos os líderes são convidados, e lá, o que que acontece lá? O objetivo dessa reunião é relacionamento. Então as empresas querem conhecer os líderes, porque muda, né? É muito rotativo, hoje está um, amanhã entra outro. Nas empresas é a mesma coisa, os diretores são rotativos, então esses encontros mensais são exatamente para um conhecer o outro. Às vezes você tem um relacionamento bom com o diretor da Usiminas, mas de repente muda o diretor. Aí você tem que começar tudo de novo, e vice-versa. Então, o diálogo hoje é muito mais fácil, né?
P/1 - É o que costuma acontecer. Que tipo de projeto que já aconteceu com as empresas por aqui hoje?
R - Lá no passado aconteceu mais coisa. Hoje, com compliance, as empresas não põem mais dinheiro direto, né? Essa mudança é que os líderes têm que entender, as empresas, nenhuma põe mais dinheiro direto, elas querem projetos incentivados. E hoje nós temos que se adaptar, elas colocam muito dinheiro, mas tem que ser incentivado.
P/1 - Já tem projetos incentivados?
R - Tem. Aqui mesmo, os que eu tenho aqui é pela Rumo, todos são incentivados, né?
P/1 - Então me fala quais são eles?
R - Nós temos Gerando Falcões incentivado, nós temos a Escola de Criadores é incentivado, eu tenho aqui informática, esse não, esse é particular, a gente faz com um Instituto lá de Santos, por meio de uma empresa que banca direto, que é a Aliança, mas são os poucos que bancam direto, o inglês que nós temos aqui é direto, porque faz 20 anos que que o empresário banca, isso não é incentivado, mas hoje, com compliance das grandes empresas, ela só entra se for incentivado.
E eu não tiro a razão deles, porque como que eles vão pôr dinheiro, se tem dinheiro de isenção, né?
Aí eles dão um curso de qualificação para os líderes, como fazer projeto, como entrar nos ministérios, mas eles não põem mais dinheiro direto, então você tem que usar essa ferramenta, e aí às vezes alguns vão nas reuniões, sai de lá chateado porque quer o recurso logo não existe mais, né? Pode chorar, pode espernear, porque essa é a regra atual.
P/1 - Então parte do seu trabalho é ficar criando projetos também.
R - E a parte agora do nosso trabalho, nós estamos nesse nível, de escrever projetos. Na pandemia, por exemplo, eu era secretário, e na pandemia eu tinha que alimentar as pessoas, eu tinha que levar alimento, cesta, desde kit de higiene, disse que “se eu for fazer uma licitação, vai levar seis meses, as pessoas já morreram de fome.” Aí eu chamei o pessoal da indústria, tinha uma lei de IPTU social, aliás, se chama Bom Empreendedor.
O que diz essa lei? É a mesma coisa do que as empresas, em vez de pagar o IPTU direto para prefeitura, elas antecipam, a gente se senta com a indústria por meio do Ciesp, eu digo o que eu quero e eles antecipam esse IPTU em forma do IPTU do Empreendedor. Então eu comprava, por exemplo, 10.000 cesta básica por mês, 10.000 kits. O que que eu fazia? A indústria compra para mim e eu faço a isenção no Imposto de renda. A indústria, numa semana, a cesta estava aqui, porque eles não têm licitação, aí eu pulei o processo de licitação para matar a fome das pessoas imediatamente.
E foi uma lei que nós criamos, que quando nós chegamos na prefeitura, não tinha. Aí a gente mandou para a Câmara, a Câmara aprovou e a gente começou a usar, aí as pessoas ficavam “Como tu consegue fazer tudo isso? Que o processo licitatório, se andar, tudo certo (demora) seis meses”.
P/1 - É uma brecha que você conseguiu.
R - A gente tem a lei federal, nós só copiamos a lei federal, adaptamos ela municipal e a gente trabalha com ela hoje para cultura, para o social e para a saúde.
P/1 - Eu vi que aqui na frente tem um contêiner de castração de bicho também.
R - Isso aí é uma política que a gente faz de apoio à causa animal, né? Desde a vacinação, desde a castração. E agora a gente conseguiu esse apoio aí da Associação OndeVar, que a gente só sai daqui quando castrar o último gato e cachorro.
P/1 - Está acontecendo?
R - Está acontecendo de segunda a sexta, todos os dias.
P/1 - Está terminando?
R - Não, tem bastante demanda ainda, gato já deu uma caída que no primeiro mês, foi gato que não acabava mais. Agora nós estamos, já estamos um mês castrando cachorro. Tem bastante ainda, porque daqui a gente não atende só Vila Esperança e a cidade toda, se a pessoa vier de outra comunidade, castra.
P/1 - As comunidades se dão bem?
R - Dão, as comunidades se dão bem.
P/1 - Então o projeto que você faz aqui você consegue aproveitar lá e vice-versa?
R - E vice-versa. Mas aqui acontece muita coisa, o castramóvel, ele ficar parado aqui mais de 2 meses, aqui é o único. Por que ele está aqui? Porque é grande, né? Geralmente quando ele vai numa comunidade, ele fica no máximo 2 semanas.
P/1 - Hoje você sabe me dizer quantas pessoas moram na Vila Esperança?
R - Sei, em 2023 foi feito o cadastro social pela prefeitura, nós saímos com 7.000 famílias e 21.000 moradores.
P/1 - 21.000?
R - 21.000.
P/1 - Você acha que esse número hoje já aumentou muito?
R - Não, esse número é de 2023. Eu acredito que se aumentou, não chega nem pular um dígito, porque é muito recente, né? Se você for observar, todas as casas estão com a plaquinha e aquela casa foi contada e feita a pesquisa social da família, quantas pessoas tem, quem trabalha. A prefeitura fez tudo, levou aí uns 3 anos, porque às vezes a pessoa não estava em casa, a pessoa viajou.
Mas todas as casas foram filmadas com drone? A prefeitura hoje tem um nome lá que me fugiu agora, né? A prefeitura contratou uma empresa, filmou casa por casa, beco por beco, tem imagem aérea, tem imagem interna. Hoje tem tudo, por exemplo, você pega, Deus o livre, pega fogo num beco aqui, a gente tem o histórico de todo mundo.
P/1 - Você consegue me dizer qual é o panorama? Quantos, não número, mas (tem) mais homem, mais mulher, mais criança, mais jovem, mais velhos?
R - A gente tem aqui um número muito grande de mulheres, eu não sei passar os dados, é bom a gente pegar os dados, que aí fica mais rico. Mas assim por cima, tem mais mulheres.
P/1 - Mãe solo?
R - Mãe solo também, tem uns dados interessantes que era bom a gente pegar apurado, para mim não falar algo fora da realidade.
P/1 - O que você vê hoje de projeto necessário para a Vila Esperança?
R - Ah, tem vários, mas o principal deles é a de qualificação profissional, não só para os jovens, mas para todas as idades, focadas para os empregos que nós temos, que é a parte do turismo, que é algo que está crescendo muito e também a indústria que nós temos. Nós temos uma indústria de base aqui em Cubatão, que lá na reunião do Ciesp, os empresários reclamam que não conseguem preencher vagas, é a reclamação que mais eu escuto do lado de lá dos empresários.
P/1 - E quais são as principais queixas ou pedidos dos moradores para você?
R - Emprego, né? Mas essa pessoa que às vezes vem pegar emprego é aquilo que eu lhe falei, às vezes falta qualificação, a pessoa quer um emprego de ajudante, de auxiliar e eu até brinco, eu digo “gente, sonha mais”, mas é porque a pessoa não se preparou, ela tem consciência da realidade. Só que essas vagas têm pouquíssimas com a automatização em todas as áreas, cada vez mais essas vagas estão sendo extintas, né?
P/1 - E aqui dentro da Vila Esperança gera emprego também?
R - Gera, aqui você tem serviços, né? O emprego na área de mercado que você tem lá. Tem mercado aí que tem 30 colaboradores, mas tudo na área de serviço, é vendedor, pessoal da limpeza, repositor, mas o forte nós não temos ainda, indústria, e nós temos comércio de serviço, nós temos bons bares, bons lojas de roupas, tudo que você vê aqui, nós estamos coisa de qualidade. Então isso gera, são negócios que eu digo familiares, né? Isso, a família está empregada e contrata mais um ou dois.
P/1 - E lazer, cultura?
R - Lazer é um negócio que a gente está querendo muito, no ano passado nós criamos a Praça Imigrantes, essa praça tem um parquinho pequeno, mas tem, tem um campo de futebol, agora está sendo feito o campo de Futebol Society. Nós temos uma área para expansão, onde a gente quer trazer pista de skate, onde a gente quer trazer um chafariz para o pessoal tomar banho. Então tem muita coisa, palco para shows. Nós temos uma área aqui para receber grandes atividades culturais, mas tudo nós estamos ainda correndo atrás de ajuda.
P/1 - Tem bastante artista por aqui?
R - Tem, tem, tem muito. Nós temos muitas bandas por aqui, o que falta agora esses investimentos na área para trazer entretenimento e lazer, que isso aí também gera muita oportunidade de renda. Você traz um artista de nível nacional aqui, você não tem ideia da renda que se gera. Então a gente quer atrair também essa prosperidade para cá, para Vila Esperança.
P/1 - De quanto em quanto tempo é formada a liderança? Vocês têm eleição ou não?
R - Não. O mandato ele é na lei, o Código Civil reza que cada mandato, ele pode ter até 4 anos com uma reeleição.
P/1 - O líder comunitário?
R - O líder comunitário, ele até 4. Cada entidade escolhe se quer mandato de 2, de 3, no máximo 4 e com uma reeleição, se você quiser ter a entidade toda regularizada, né?
P/1 - No seu caso?
R - A nossa é toda regularizada.
P/1 - Porque você é líder comunitário há muito tempo?
R - Isso. Eu já prestei serviço com a minha ONG para a Petrobras, para a Rumo, para Johnson e Johnson, porque a gente é regularizado, a prestação de contas. Teve época que eu fiz o Museu da Água, que a Petrobras fez, eu ganhei, que é um museu que tem aqui em Cubatão. Hoje já deixaram acabar, mas foi nossa ONG que levantou do chão até deixar pronto.
P/1 - Tem algum projeto seu que você quer muito que aconteça?
R - Como assim?
P/1 - Algum projeto que você está pensando em colocar, fazer acontecer ainda?
R - Olha um projeto que eu gosto muito, tem um que é parecido aqui, que é a Escola de Criadores para Jovens, mas o meu desejo aqui, é você ter uma escola para jovens e adolescentes na área de qualificação, até de atual, para a formatação de vídeo, muito parecido com jornalismo para jovens e transferência de renda para eles. Isso é algo que a gente está persistindo, porque o jovem precisa se qualificar e ter essa ajudinha para eles também. Na área de administração, na área de tecnologia, isso eu quero trazer aqui para dentro, porque aí eu dou o incentivo da formação e o incentivo financeiro, pelo menos para pagar as contas. Nós temos um hoje muito parecido, que é o Kondzilla, a Escola de Criadores, mas é um período curto, mas a gente quer entrar nessa linha.
P/1 - E a sua relação com a poesia?
R - Na verdade, com o passar do tempo, eu poderia dizer assim, que eu até me tornei um poeta, né? E outro dia eu brincava com o pessoal da equipe de vocês, que eu viajo o Brasil inteiro, no final de semana agora, eu vou para o Alagoas, todo ano me chamam, a última vez eu estive lá a convite do governador, né?
P/1 - Para fazer o quê?
R - Poesia. E aí, outro dia eu falava no bar do Cabeça, eu disse “Cabeça, você sabe o que eu faço no Brasil?” Ele disse “Eu acho que você vai passear”. O pessoal acham que quando eu viajo, eu vou passear, mas a culpa é minha, eu nunca falei que eu declamo poesia, eu escrevo poesia.
P/1 - Então você é convidado para falar sobre poesia?
R - Sou convidado para falar sobre poesia, sobre autoestima. É engraçado que na minha comunidade eu entendo que santo de casa não faz milagre, né?
Às vezes eu pergunto para as pessoas o que elas acham que eu faço aí fora, as pessoas dizem que acham que eu vou passear, e eu viajo esse país.
Já estive na Bolívia, já estive na Argentina, em vários países, a gente é convidado em Alagoas, praticamente eu vou todo ano, na semana de Zumbi dos Palmares, então, eu sou mais de Alagoas que muitos alagoanos.
P/1 - E aí você chega lá e declama?
R - Eu conto a minha história como eu conto para várias pessoas, e eu sempre declamo uma poesia que nasceu das nossas reuniões, a gente queria deixar as reuniões mais leve, com mais cultura, então a gente, eu penso que a poesia me faz bem e faz bem para quem escuta também, né?
P/1 - Você cria poesia, você escreve?
R - Eu tanto escrevo como modifico as já existentes, de grandes poetas.
P/1 - Me dá um exemplo.
R - Olavo Bilac, eu gosto muito de “Coragem”, de Olavo Bilac.
P/1 - Pode me falar?
R - Posso. Ele inicia assim:
“Coragem para fazer a viagem da vida sem hesitar.
É preciso de uma alma forte.
Sem ostentar valentia, dominar a covardia para o perigo enfrentar. “
- E ele diz ainda:
“Porque o medo é próprio do fraco, do pérfido e do pecador.
Não tem medo aquele que caminha com a sua consciência tranquila e o adversário aniquila, não pela força da razão, mas pela força da emoção e do bem.
Não abuse da bravura, não enfrente o inimigo, muito pelo contrário.
Diante dessas situações, pregue a paz, pregue a harmonia, prega o bem.
E ainda assim, se isso te parecer impossível, nunca desista.
Caia batalhando, porque se morreres lutando, morrerás feliz.”
É a minha vida.
P/1 - Que lindo! Essa é do Olavo?
R - Essa do Olavo, modificada.
P/1 - Modificada
R - Modificada.
P/1 - Qual trecho é seu?
R - Aí eu modifico do começo ao fim, se você pegar ela, ela é modificada, mas eu faço na hora, se eu contar ela 10 vezes, 10 vezes, eu entro com coisas novas.
P/1 - Você vai criando?
R - Vou criando.
P/1 - Você fez alguma para a Vila Esperança?
R - Fez o quê?
P/1 - Alguma poesia para Vila Esperança?
R - Não, aqui eu não faço. Eu não sei, é estranho, que santo de casa não faz milagres.
P/1 - Mas nem inspirado nela?
R - Não. Eu já fiz alguma coisa da Vila Esperança, mas eu tenho que olhar, que eu já esqueci já. E a Vila Esperança, eu fiz algo muito especial, que é o hino da Vila Esperança, foi eu e o compositor Régis, nós criamos o hino da Vila Esperança, está lá na internet, é só baixar no YouTube, o nome é Hino da Vila Esperança.
É lindo, a gente chamou o maestro Alexandre, que eu quero agradecer, ele colocou a melodia, colocou a banda sinfônica e o hino da Vila Esperança também é uma lei, foi votado na Câmara. E aí é uma criação minha e do compositor Régis.
P/1 - Você sabe o refrão?
R - Sei. “Vila Esperança, aqui eu nasci.” Tem um pedacinho - “aqui, eu nasci, aqui eu não me mudo, aqui tem a esperança de que todos venham para cá.” E assim segue em diante.
P/1 - Isso diz de você, né?
R - É, porque nós somos poucos bairros que tem um hino, né?
P/1 - E o pessoal sabe?
R - Tem uma frase do hino que a gente colocou assim “Daqui não me mudo nem que vem implorar. Vila Esperança aqui é paixão e fé.” Só quem canta esse hino e quem é Vila Esperança de coração, né?
P/1 - E você, o que você quer pro seu futuro?
R - No meu futuro eu praticamente já alcancei tudo. Eu acho que eu cheguei mais longe do que eu imaginei. Já pensou chegar em Cubatão com 12 anos, analfabeto e aos 35 se formar advogado, ser secretário municipal que eu nunca entrei numa prefeitura, de repente eu me tornar secretário municipal, ter a nossa mão em projetos gigantes como a urbanização.
Já me sinto muito contemplado para com Deus, Ele me contemplou muito, acho que mais do que eu merecia, de ter esse cantinho aqui que Nossa Senhora me emprestou, porque tudo nessa vida é emprestado. Ter aqui o espaço para a gente acolher as pessoas. Pessoas vem aqui, são acolhidas, me sinto muito contemplado. O que eu quero é só mais um tempinho por aqui, para ver essa comunidade do jeito que a gente sonhou, mas isso aí está na mão de Deus, né?
P/1 - Você tem filhos?
R - Eu tenho 3 filhos. A Marisol, 16 anos, o João com 12 e a Francisca, com 13, que já é escritora, tem um livro publicado. O primeiro celular dela, ela comprou vendendo livro de poesia.
P/1 - Poesia?
R - E a gente foi em São Paulo vender o livro, que chegou aqui e já foi direto comprar o celular dela.
P/1 - Puxou pro pai?
R - Ela escreve também na hora.
P/1 - Esses 3 filhos, algum é com Adriana?
R - Todos com Adriana.
P/1 - Com a Adriana?
R - Todos com Adriana. Eu não fui muito mulherengo nessa vida não, eu só tive uma única mulher. Hoje é um dia também muito feliz, minha filha, com 16 anos, tinha 15 vagas no Senai, oferecido pela Usiminas, onde ela vai aprender técnica de manutenção durante 2 anos, que é uma função que a indústria não acha com facilidade, então a indústria está incentivando o Senai, e abriram 15 vagas e é concorrido porque tem transferência de renda, cada jovem que passar vai ganhar um salário-mínimo por mês, e dessas 15 vagas, minha filha foi a segunda colocada concorrendo com a Baixada toda.
P/1 - Uau!
R - Então ela, escondida do pai, se inscreveu, estudou. Eu vi ela trancada no quarto direto, e ontem me deu a notícia. Eu fico feliz porque uma menina de 16 anos eu até falava para um amigo meu, disse que mais do que você falar, é fazer da sua vida um exemplo, sempre falo para os pais que os jovens veem o que a gente faz. Então ela com 16 anos não é de baile, não é de festa, não é de farra, mas é de estudo.
Agora, depois que ela tiver formada, trabalhando, eu digo “aí, vai farrear, minha filha!” Mas essa idade é para estudar e se preparar. Então, estou muito feliz hoje.
P/1 - Que legal! Parabéns pela filha, viu? Pelo exemplo que você deu para ela.
R - E dou esse recado “jovem, estude, viu?” Ela foi escondida do pai fazendo uma coisa tão linda dessa, estudou, se inscreveu. E janeiro ela já começa no cursinho dela, já está sonhando em comprar as coisinhas, fui lá e falei “Agora você pega, é um salário-mínimo, não é muito, mas pega a metade e guarda, para pagar a faculdade se precisar”.
P/1 - Ela quer fazer o quê na faculdade?
R - Ela quer fazer médico veterinário. Vai ser nosso sonho daqui para frente que a realização dela é meu sonho.
P/1 - 3 filhos na Vila Esperança, filhos daqui.
R - Filhos daqui. Tão feliz. Eu fiquei, mas assim, que eu achei que ela queria ser advogada, mas ela disse eu quero ser que ela fala com os bichos e os bichos, fica calmo com ela. Ela conversa com os animais, eu acho que é o caminho dela, é esse mesmo.
P/1 - É uma escritora, uma médica veterinária e a outro?
R - É o João. Ele quer ser youtuber, né?
P/1 - Ele quer ser o que?
R - Youtuber, ele faz vídeo, faz tudo.
P/1 - Tem talento pra isso?
R - Tem, ele mais Francisca faz vídeo, ganhou umas massinhas, eles fazem desenho em vídeo.
P/2 - Você sabe o nome do canal deles?
R - Não sei, depois eu chamo eles.
P/1 - Zumbi, eu tô aqui, a gente tá batendo esse papo todo, e toda hora tem um trem passando, fazendo barulho, como é que é a relação de vocês com o trem também?
R - É uma relação que lá atrás não era fácil, nem a empresa entendia a gente, nem a gente entendia a empresa, mas de uns anos pra cá, o diálogo tem sido bem, bem proveitoso, bem próspero, e como tem que ser, né? Aliás, o trem chegou primeiro do que a gente, então, por uma questão de hierarquia, a gente sempre tem essa compreensão, né?
P/1 - E eu vi também que tem um muro, que tem grafite.
R - É o muro é legal porque antes do muro morria muitos animais. Eu, por exemplo, eu gosto de coelho. Tentei criar coelho duas vezes. Eles iam para a linha mesmo alimentado com meus grãos. Com o muro deu essa segurança para cachorro, nós tínhamos muito acidente com cachorro, dá essa segurança. Eu não vejo o muro como uma separação, e o muro por ele ser concreto, quando você dá um embelezamento nele com grafite, com as crianças, fica melhor. Então a gente convive tranquilamente aí com a empresa.
P/1 - Você foi homenageado nesse muro?
R - Fui, nós temos o trabalho nosso, ali do Mangue, da ONG. Aliás, o muro traz os desenhos referentes às atividades da comunidade. Isso é outra particularidade também.
P/1 - Falando em homenagem, você se sente respeitado e reconhecido pelos pela comunidade?
R - Sinto, porque como eu sou fundador do bairro, onde a gente vai, sempre as pessoas respeitam a gente também pelo trabalho. A gente não deixa passar um Natal em branco. Tem festa aberta para comunidade, festa das crianças, festa das crianças mesmo, nós fizemos esse ano a 26.ª. Então isso faz com que a gente sempre fique na memória das crianças, dos adolescentes. Agora nós estamos programando uma festa cultural do Boi Bumbá. Estamos já em projeto de construção do boi. É um grande evento aí de cultural e geração de renda, está prevista aí para o ano que vem.
P/1 - Ideia sua.
R - Ideia minha.
P/1 - É uma cabeça que não para, né?
R - Porque a ideia do boi, eu quero brincar com a com o povo, né?
P/1 - O que você quer fazer?
R - A gente quer fazer como se fosse um bloco, né? O boi vai na frente, puxando toda a alegria, com música, com batuque, com tudo que tem direito, e no final a gente come um boi no rolete.
P/1 - O que te inspira, Zumbi?
R - O que me inspira é criar, eu acho que quando eu estou criando, parece que eu estou mais vivo, né? Cada projeto que a gente cria e põe ele em prática. Isso me fortalece.
P/1 - O que te deixa feliz?
R - Quando dá certo os projetos, quando dá certo um projeto, igual a festa das crianças mesmo, eu vi a previsão tinha 20% só de não chover, e eu tome joelho no chão Quando foi na sexta, mas caiu tanta água, caiu tanta água. Eu entendi: é benção de Deus. Quando foi no sábado, abriu aquele sol, né? Então deu tudo certo, por isso que eu digo, o que a gente faz aqui na terra. (ruído de caminhão)
Por isso que eu digo, o que a gente faz aqui na Terra, está muito conectado com o Criador. Se você achar que pode fazer alguma coisa excluindo ele, não vai dar certo. Então, é gratidão a Deus pela não chuva naquele dia, pela chuva no dia de hoje, tudo está conectado. Ainda mais eu que recebi a visita dEle, eu me sinto muito dEle, dEle não, Ele a gente recebe todo dia... da mãe dEle, né? O pessoal sempre me pergunta se eu vi ela, né? Eu digo “eu sou pecador ao extremo, como é que eu vou ter a graça de ver ela?” Mas sentir ela, ela ali me consolando, né?
P/1 - Você me falou que te faz feliz, o que te inspira, é teu orgulho?
R - Como?
P/1 - Um orgulho.
R - O orgulho, eu não tenho, eu tenho satisfação de ver meus filhos, graças a Deus, seguindo o caminho. Deus tem me dado força ainda para enfrentar desafios. Isso é uma satisfação, né?
P/1 - O seu legado?
R - O legado, eu posso dizer um: ter trazido um Bom Prato para Cubatão que era impossível. E a reurbanização acho que é um legado que vai ficar para o resto da vida.
P/1 - Tem alguma história que para você é muito importante contar que a gente não chegou nela.
R - Tem, a construção da cerca. Quando a Petrobras me bancou inicialmente , ela disse “a gente vai bancar esse teu projeto a metade, só que a outra metade tu te vira, tu vai atrás de outra empresa.”
E uma cerca dessa de quase 15 km era muito cara, né? E aí, a gente, eu digo “tá, nós vamos fazer.” E aí eu vim para a comunidade, essa história eu conto por que foi o projeto mais criticado dentro da comunidade. Porque quando a comunidade ficou sabendo que a gente ia cercar o bairro, os adversários, eles começaram a usar isso para colocar o povo contra nós, o nosso grupo, que ia fazer o projeto.
E aí eu corri na Petrobras, na época a Lídice, eu disse “Lídice, o dinheiro está aí, mas não vamos começar a obra, vamos fazer um trabalho antes.” E aí a gente ficou 2 anos, a gente entendeu, fazendo. Nós fizemos o concurso da cerca porque todo mundo falava mal da cerca, aí nós fizemos o concurso “Fale bem da Cerca”. Aí demos como prêmio, bicicletas para os primeiros colocados. Depois fizemos a campanha ambiental, depois fizemos campanha de conscientização, reuniões no território.
Nós passamos 2 anos fazendo isso, porque se a gente faz a cerca primeiro, a indústria da invasão ia ficar contra a gente, aí eu falei para a nossa equipe, eu digo que “se a gente começa um projeto desse, esses caras vão minar tanto o projeto que nós não vamos fazer o primeiro metro. Então nós precisamos trazer a comunidade, que eles estão jogando contra, para o nosso lado.” Então a gente ficou 2 anos só em campanha, reuniões, fazendo dinâmica, peça de teatro. Depois de 2 anos, a gente começa o projeto. Por isso que a cerca durou, e ficou conhecida aí. Mas aí eu tinha uma coisa que me tirava o sono, faltava concluir, eu digo “vai ser um projeto igual o projeto que tem muitos que começa e pára no meio”, e isso me assustava. E quando estava terminando a cerca, a promotora Dra. Liliane, ela nunca me procurou, aí eu recebi um telefonema, ela dizendo “Vem no fórum agora.”
E eu saí daqui achando que ia ser preso. Eu digo: “Meu Deus, será que eu fiz alguma coisa errada?” Quando eu cheguei lá, essa mulher estava num sorriso, ela disse “eu tenho uma boa notícia” Aí meu ânimo baixou, né? Eu estava indo crente que eu ia ser preso. Aí ela disse “olha, eu consegui, eu multei uma empresa” - que era Ultra Fértil “e como compensação ambiental eu coloquei o término da sua cerca que eles vão ter que pagar, e um caminhão para o Corpo de Bombeiros, que eu sei que eles estão precisando.
Aí a Cerca, nem terminou o recurso da Petrobras, já entrou o recurso do Ministério Público, e concluímos. Então esse foi o projeto mais criticado, que virou o projeto mais favorável para nós. E a questão do recurso que eu comecei o projeto, quase que... a Lídice falou tão natural, eu disse, “mas Lídice, onde eu vou arrumar esse dinheiro?” e ela “Tu te vira. Qualquer empresa te dá.” E aí veio do Ministério Público, que eu nem imaginava e nem sabia que o Ministério Público podia transformar a multa em termo, né?
P/1 - As coisas se encaixam.
R - As coisas se encaixam.
P/1 - Imagino sua realização.
R - De ver a cerca pronta toda mão de obra, a maioria foi contratada daqui, que foi também um acordo que a gente fez.
P/1 - Zumbi você me disse que o pessoal nem sabe que você é poeta, que você estudou e o pessoal nem sabia que você estava estudando. Tem alguma coisa que você gostaria de deixar registrado que a sua comunidade não conhece sobre você, ou sobre o que você pensa?
R - Tem uma coisa pessoal, eu sou professor de dança também e eu adoro dançar e todo mundo pensa que eu sou quietinho, e eu comprava meus livros, dando aula de dança em Santos. Eu acho que isso ninguém sabe.
P/1 - Dança de quê?
R - Eu danço forró, danço bolero, danço tudo.
P/1 - Onde é que você dança?
R - Eu, e a Adriana ia comigo, eu danço no Centro Espanhol. Hoje eu não danço mais profissionalmente, quando eu estudava, para comprar meus livros, Santos é uma cidade turística e tem a função do monitor, Santos - São Paulo, então, minha professora me chamava para ser monitor na noite e aí todo final de semana eu ia para o Centro Espanhol, que era um centro famoso de Santos, com mais de 3.000 pessoas, e eu passava a noite dançando, chegava morto de cansado, e aí dava 2h, encerrava o meu tempo, recebia um dinheirinho, comia bem, bebia bem. São coisas que a comunidade não sabe, né?
P/1 - Vão saber agora.
R - Dava aula, então, hoje eu danço de graça, mas na época da faculdade eu recebia para dançar, que é algo assim, que eu que eu faço de graça.
P/1 - E hoje em dia, o que você faz para se divertir, você dança?
R - Hoje eu danço, eu saio daqui, vou para Santos, ontem mesmo esteve aqui. Eu adoro dançar, né? Às vezes eu não danço aqui na comunidade porque tem uns maridos brabos, às vezes acha que a gente tá, então eu prefiro ir para fora.
P/1 - E Adriana vai junto?
R - Vai junto. Quando dá, ela vai. Quando não dá, eu vou, porque eu adoro a dança. Eu não, se tem uma coisa que eu não consigo largar é a dança. Me diverte muito, é muito gostoso. Eu me sinto assim.
P/1 - E um projeto com dança?
R - Como?
P/1 - Um projeto, com dança?
R - Projeto com dança, aqui o que pega é zumba, a dança mesmo de forró, como eu lhe falei, talvez o pessoal não entenda o que é a dança, né? E aí tem a questão do ciúme, tem aquela coisa... aqui não funciona. Funciona mais, a zumba que eu já tive aqui é um sucesso. Aí a mulherada dança sozinha, o marido passa, olha e não tem homem, mais dança mesmo de forró pé de serra, aqui eu não ponho, porque eu sei que não funciona, porque precisa de uma compreensão. O cara pra deixar mulher dançar, ele tem que estar muito seguro. Eu, por exemplo, vou no forró, a Adriana eu digo “vá dançar com outro que comigo você já sabe” Porque eu tenho segurança. Tem homem muito inseguro, tem mulher muito segura. A dança eu sempre falo você tem que estar seguro do seu parceiro.
P/1 - Você gosta? Você se orgulha do homem que você se tornou?
R - Não, eu acho que eu tenho que melhorar muito, mas eu sou muito crítico comigo mesmo, eu acho que eu tenho que melhorar muito, sou muito crítico, e a gente está num processo de construção. Não vou dizer que eu me orgulho, e nem que não me orgulho, mas eu acho que a gente está num processo até o último dia de melhoria.
P/1 - Mas aquele menininho que veio lá do Maranhão, que chegou aqui, que é quem é hoje, fez muita coisa.
R - Acho que Deus deu muita oportunidade para a gente. Eu acho que foi a criação, com 8 anos, a minha mãe já me ensinou a levantar e ir para luta, né?
P/1 - Qual que é o seu maior aprendizado até hoje?
R - O maior aprendizado, é que minha mãe sempre me ensinou a humildade, né? Não importa aonde você chegue, você tem que manter a humildade. Eu falava aqui hoje você pode ser o que for, mas se você se achar melhor do que o outro, aí tem alguma coisa errada.
Aí eu cheguei na prefeitura de secretário, sentei à mesa, vieram me servir café, eu me senti mal, eu digo “Não, deixa que eu vou na cozinha”, e tinha um carro, que o cara disse “Vou lhe levar.” Eu digo “Não, eu prefiro dirigir o carro da prefeitura”.
E essas coisas, a gente não pode se acostumar, porque aquilo ali é provisório. Eu lembro que no primeiro ano comemoraram o meu aniversário, eu humildemente chamei a pessoa, ela contratou um buffet para fazer, digo “não faça mais isso”, digo “agradeço, mas não faça”, porque no meu entendimento, não estava fazendo para o Zumbi, estava fazendo para o secretário, que estava ali de passagem, e vai que eu me acostume com isso? O grande perigo dessas coisas é você se acostumar com o sistema, aí eu chamei carinhosamente, eu digo “eu não gosto de comemorar aniversário, mas agradeço”.
O Ademário também chegou para o secretário, “ó, não faço o meu aniversário”. E ele dizia “Zumba, não estão fazendo para nós, estamos fazendo para a figura do gestor que isso não é nosso”.
P/1 - Esse cargo, ele muda você.
R - Agora, se alguém da comunidade me trazer um bolinho, pode ser desse tamanho, eu sei que tá trazendo pra mim, né? Lá não, lá não lá tá trazendo para o secretário que é hoje, amanhã é outro, eu acho desnecessário, né?
P/1 - Como é que você se sentiu contando as suas memórias, falando as suas histórias pra gente hoje?
R - Muita coisa eu nem lembrava, até pedi pra Adriana, pra ela pegar o arquivo ali de foto. Muita coisa a gente nem lembrava. Olhando para trás, a gente faz um resumo e diz caramba! A gente trilhou muitos caminhos, né?
Mas o que vem na minha recordação fácil foi o começo, desses embates com o Estado, né? O embate com o Estado me trouxe a memória da gente enfrentando polícia, isso me trouxe a memória de um tempo bem difícil, né?
P/1 - Parece outra vida, né?
R - É, mas dizer que nunca fomos fora da lei, a gente tinha ali um objetivo. Você vê, até publiquei uma foto hoje, de uma frente de polícia com cassetete para enfrentar homens e mulheres desarmados. Por isso que eu fui estudar Direito, no Direito eu aprendi que o Estado é um monstro, se você não tiver pessoas equilibradas para controlar esse monstro...
P/1 - Quer fazer alguma pergunta?
P/2 - São duas, simples. Uma é: onde, conta pra gente, o Sebastião se torna o Zumbi?
R - Foi no começo da minha caminhada na escola, no último ano do ensino médio, que eu conheci a história do Zumbi, e nessa época eu tinha uma caminhonete que eu fazia carreta. Eu chorei com a história dele, eu não sabia que tinha uma pessoa no Brasil que fez tanto pela nossa raça, a nossa cultura, eu não sabia, aí eu me emocionei. Aí eu saí dali e botei na minha caminhonete, que estava completando 300 anos da partida de Zumbi, aí eu coloco: “Zumbi, 300 anos de luta” bem na porta da caminhonete, aí por onde eu andava, as pessoas viam e acabaram me apelidando, eu não queria, mas aí acabou ficando, e de certa forma, a gente se sente. Chega uma hora que você sente, que tem que ter essa responsabilidade, né? E aí ficou até hoje.
P/1 - Hoje você gosta do seu apelido?
R - Hoje é tranquilo, né? Não vou dizer que não gosto e nem gosto. Mas eu aceito tranquilo.
P/1 - Tem gente que nem sabe que seu nome é Sebastião.
R - É tem gente que nem sabe, se você for nos equipamentos, no Bom Prato, lá tem meu nome, é um negócio... Se você for em qualquer Bom Prato do Estado, não tem o nome de secretário, tem dois nomes lá, o do governador e o do prefeito, que é quem representa a cidade não é o secretário. Mas no Bom Prato eu botei a mão, o muro do Bom Prato fui eu que fiz, eu estava dentro da obra do começo ao fim. E quando a equipe do governador vinha, toda vez que vinha, eu estava lá trabalhando na obra, aí, quando eles trouxeram a placa, estava lá meu nome, para surpresa.
P/1 - Qual o nome? O Zumbi ou Sebastião?
R - Sebastião Ribeiro, porque não existe, em qualquer equipamento do Estado, só vem o nome do governador e do prefeito e lá tem os 2, tem o do prefeito e tem o meu, né?
P/2 - E a outra pergunta é assim, ouvindo agora toda a sua trajetória de dedicação, de luta, de sofrimento, de muitas conquistas, mas olhando ela assim como um todo, a minha pergunta é simples: por quê?
R - Olha, como eu falei no começo, tudo isso começou com minha necessidade pessoal, né? Eu quando eu comecei a ajudar as pessoas, eu não tinha nada, todas as portas se fecharam, e eu disse “e agora”?
E aí a gente começa no intuito de dizer: agora tem que fazer alguma coisa, essa “alguma coisa” eu comecei a servir, e aí eu comecei a servir, e vi o tempo passar, porque quando você está em apuros, o tempo não passa.
E aí eu tentei sair, quando eu tentei sair, eu vi que não tinha mais jeito, porque isso me fazia bem. Então tudo começa lá atrás, com a necessidade pessoal, que você quer suprir ela de alguma forma, e quando você vê, você percebe que o da esquerda e o da direita está no mesmo barco. Aí você vai se juntando com mais pessoas, quando você pensa que não, você já está em movimento, em projeto.
P/1 - E a gente tem às vezes, a impressão de que a gente está fazendo bem ao outro e isso volta, não volta?
R - Na verdade, quando você faz alguma coisa para alguém, o primeiro beneficiado é você. Eu falo que o segredo da vida não é você tirar algo de alguém, é você dar. Isso é um entendimento difícil. Como que você explica pra alguém que está na necessidade que ele tem que ajudar o outro? Se a pessoa não entender isso, ele vai continuar no zero.
P/1 - Qual é o maior desafio que você enfrenta como um líder comunitário?
R - É a compreensão. Aqui dentro, não é uma área bem, onde você é compreendido, aqui existem pessoas que estão desconfiadas das suas ações o tempo todo, o tempo todo tu tem que provar que não é aquilo. Então você enfrenta desconfiança, né? Por quê? Porque você está muito próximo, então as pessoas não julgam quem está longe, julga quem está próximo, mas isso tranquilo, a gente administra, faz parte, né?
P/1 - Se esse é o maior desafio, qual é a maior conquista?
R - A maior conquista? Quando a gente prova todo dia que eles estavam errados? Quando alguém diz “olha, ele fez errado”, você prova que está certo, e você vai provando, vai provando todo dia, não tem jeito, não adianta. Eu falo pra turma nova… [intervenção] Eu sempre falo, não tem jeito, não adianta reclamar, isso é imposto e foi assim desde o começo do mundo, a gente tem que provar todo dia o que você é, né?
P/1 - Você não se cansa?
R - Se eu me cansar, as pessoas que trilham o caminho do mal vão ter vencido e o bem, eu não acredito que o bem perca nunca. O bem ele perde, ele aparenta perder momentaneamente. Às vezes a gente sofre uma derrota, mas é momentânea, se você continuar fazendo o bem, vira. E o cansaço é o sinal da derrota, então a gente não pode descansar nunca.
P/1 - Como é que você descansa?
R - A gente se cansa em enfrentar as mesmas ondas. O que é as mesmas ondas? Às vezes você já provou 10 vezes que é aquilo, e você tem que estar, ao mesmo tempo conversando. Mas o homem que enxerga além... Por exemplo, o projeto de uma reurbanização, você acha que uma reurbanização é fácil? Que as pessoas que estão hoje acomodadas querem mudança? Elas querem para o vizinho, não para elas.
Mas se você não tiver consciência de onde você quer chegar, você fica no meio do caminho, então, primeiro você tem que visualizar aonde você quer chegar. A reurbanização vai me trazer “N” benefícios, é nisso que eu tenho que pensar.
Os efeitos disso é que tem gente que vai te entender mal, tem gente que vai criar histórias ao contrário, mas aí você tem que ter disposição para ir lá e explicar quantas vezes for necessário.
P/1 - Agora sim, a última pergunta, o que que a Vila Esperança significa pra você?
R - A Vila Esperança, hoje eu com 57 anos, ela significa tudo. Eu cheguei para cá, eu tinha 12, eu poderia, minha família poderia começar nossa história naquele tempo, em qualquer lugar da baixada. Praia Grande estava começando, São Vicente estava em expansão. Com 57 anos, eu tenho condições físicas e saúde mental para recomeçar? Eu respondo - não tenho, então a Vila Esperança foi onde a minha família e eu apostei 100% das minhas moedas. Foi aqui, então aqui é tudo, por isso que eu luto.
Aqui é o meu paraíso, e ainda não é, mas vai chegar aquilo que eu quero.
A diferença minha e de outros é que outros apostam 50%, 30% porque está de olho em voltar, eu não, não penso mais em voltar de onde eu vim; de onde eu vim, eu passei fome, de onde vim, eu perdi meu pai, meu pai tentou agredir minha mãe... Por que eu vou voltar para aquele passado? Aqui eu me formei, aqui eu tenho minha família, aqui eu apostei tudo. Então, aqui para mim é tudo. E esse é o conselho que eu dou para todo morador, aposte tudo na Vila Esperança, tudo que você tem, porque vale a pena.”
P/1 - Obrigada, Zumbi! Que linda a sua entrevista!
R - Obrigado.
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