Projeto Mateiros do Brasi
Entrevista de Sandro Lima Dourado
Entrevistado por Aparecida Silva e Glaydes Coutinho
Serra Pelada, 08/08/2025
Entrevista N.º: MAT_HV009
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista e editada por Bruna Oliveira
[00:01:31]
P/1 - Sandro, vamos começar com uma pergunta muito difícil, qual é o seu nome, o Local em que você nasceu e seu local de nascimento
R - Meu nome é Sandro Lima Dourado, nasci no Maranhão em 1977.
[00:01:42]
P/1 - Alguém contou pro senhor como foi que foi o dia do seu nascimento?
R - Só minha mãe mesmo.
[00:01:49]
P/1 - E como é que era a sua mãe?
R - Ainda hoje é, ela tá bem na idade, tá com uma idadezinha boa, mas que nem o Carlinho um dia falou, que nem parece que tem 91 anos, mas ela tá bem, aí, ninguém nem vê.
[00:02:04]
P/1 - Como é a estatura da sua mãe?
R - É assim uma pessoa que tem mais ou menos de 68 a 72 anos, mais ou menos, que é a feição assim dela.
[00:02:17]
P/1 - Tem alguma lembrança boa dela, da infância?
R - Muitas.
[00:02:22]
P/1 - Pode contar uma pra nós?
R - É complicado agora, porque é ruim, que a gente não anda lembrando assim, mas... agora meu pai não conheci.
[00:02:34]
P/1 - Sua mãe criou você sozinha, então?
R - Sozinha.
[00:02:38]
P/1 - Tem irmãos?
R - Tem. Tem 3 irmãos ainda. Morreu 2.
[00:02:47]
P/1 - E como foi a sua infância Sandro?
R - Minha infância, eu posso dizer que foi bom até demais. Foi legal, porque estou aqui, né? Estou vivo, graças a Deus não sou adoentado.... não, tenho minha saúde, graças a Deus.
[00:03:07]
P/1 - Como era a casa onde vocês viviam?
R - Era bem fraca no Maranhão, né? Aqui foi que deu uma minimizada. Tá mais ou menos, mas lá onde eu nasci era bem precário mesmo.
[00:03:22]
P/1 - Como é que era feita?
R - De taipa.
P/1 - O que é uma casa feita de taipa? Como é que é a construção dela?
R - É feita de barro e palha de coco, que lá no Maranhão tem muitas. Eu acho...
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Entrevista de Sandro Lima Dourado
Entrevistado por Aparecida Silva e Glaydes Coutinho
Serra Pelada, 08/08/2025
Entrevista N.º: MAT_HV009
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista e editada por Bruna Oliveira
[00:01:31]
P/1 - Sandro, vamos começar com uma pergunta muito difícil, qual é o seu nome, o Local em que você nasceu e seu local de nascimento
R - Meu nome é Sandro Lima Dourado, nasci no Maranhão em 1977.
[00:01:42]
P/1 - Alguém contou pro senhor como foi que foi o dia do seu nascimento?
R - Só minha mãe mesmo.
[00:01:49]
P/1 - E como é que era a sua mãe?
R - Ainda hoje é, ela tá bem na idade, tá com uma idadezinha boa, mas que nem o Carlinho um dia falou, que nem parece que tem 91 anos, mas ela tá bem, aí, ninguém nem vê.
[00:02:04]
P/1 - Como é a estatura da sua mãe?
R - É assim uma pessoa que tem mais ou menos de 68 a 72 anos, mais ou menos, que é a feição assim dela.
[00:02:17]
P/1 - Tem alguma lembrança boa dela, da infância?
R - Muitas.
[00:02:22]
P/1 - Pode contar uma pra nós?
R - É complicado agora, porque é ruim, que a gente não anda lembrando assim, mas... agora meu pai não conheci.
[00:02:34]
P/1 - Sua mãe criou você sozinha, então?
R - Sozinha.
[00:02:38]
P/1 - Tem irmãos?
R - Tem. Tem 3 irmãos ainda. Morreu 2.
[00:02:47]
P/1 - E como foi a sua infância Sandro?
R - Minha infância, eu posso dizer que foi bom até demais. Foi legal, porque estou aqui, né? Estou vivo, graças a Deus não sou adoentado.... não, tenho minha saúde, graças a Deus.
[00:03:07]
P/1 - Como era a casa onde vocês viviam?
R - Era bem fraca no Maranhão, né? Aqui foi que deu uma minimizada. Tá mais ou menos, mas lá onde eu nasci era bem precário mesmo.
[00:03:22]
P/1 - Como é que era feita?
R - De taipa.
P/1 - O que é uma casa feita de taipa? Como é que é a construção dela?
R - É feita de barro e palha de coco, que lá no Maranhão tem muitas. Eu acho que é por isso que tem esse pé de coco aqui, para dar uma recordação. É isso.
[00:03:54]
P/1 - E o senhor tem boas lembranças da casa, da infância. E o que é que vocês gostavam de brincar?
R - Eu gostava mesmo, não era nem de tanto assim uma brincadeira, para mim era só andar dentro do mato, passarinhando, pescando, fazendo isso... Quando eu era moleque.
[00:04:15]
P/1 - O Sr. lembra a primeira vez que entrou dentro do mato?
R - Rapaz, isso eu tinha mais ou menos uns 9 anos. 9, 10 anos.
P/1 - Não tinha medo?
R - Não. Nunca tive medo.
[00:04:31]
P/1 - E qual era a renda de vocês naquela época? O que faziam para sobreviver?
R - Minha mãe trabalhava como doméstica.
[00:04:41]
P/1 - Você falou quantos irmãos vocês eram? Quantos irmãos você tinha?
R - Nós éramos 6.
P/1 - 6.
R - Seis Agora. Hoje só está em 4.
[00:04:56]
P/1 - Conheceu seus avós?
R - Também não.
[00:05:10]
P/1 - Dentre seus irmãos. O senhor era o mais velho ou mais novo?
R - Eu sou o mais novo. Mais novo.
[00:05:17]
P/1 - E não tinha parentes próximos?
R - Tinha lá no Maranhão, mas sempre teve uns parentes lá, mas mais por parte da minha mãe, porque na verdade eu sou filho de um pai e meus irmãos, é que já é irmão mesmo de pai e mãe, e eu sou solo, eu sou irmão só deles, desses meus irmãos, só por parte de mãe.
[00:05:47]
P/1 - E sua mãe casou depois?
R - Casou aqui na Serra já.
[00:05:55]
P/1 - Pode passar por coisa agora falada.
[00:06:00]
P/2 - Como foi a convivência depois que o pai separou da mãe? Como foi a história assim de vocês?
R - O meu pai aqui? ele faleceu, na verdade, que foi o...
P/2 - E o pai dos outros filhos?
R - Ah não, agora, aí também eu já não sei por que quando a mãe eles separaram lá e passou o tempo, eu né? Aí eu não conheço, não me recordo bem não.
[00:06:32]
P/1 - E como era o lugar? Tipo, onde vocês moravam? Como era lá?
R - Lá era tipo o interiorzinho lá, dentro da cidadezinha, mas só que era bem afastado. Era perto já do dos matos, né? Nossa casa era uma das últimas da rua, que nós morávamos.
P/1 - E você estudou?
R - Estudei um pouco.
[00:07:01]
P/1 - A escola era próxima ou era muito longe da sua casa?
R - Não, era perto, bem pertinho.
[00:07:07]
P/1 - Seus irmãos também?
R - També, todos.
[00:07:12]
P/1 - E você gostava?
R - Não muito. Gostava mesmo é do mato, como ainda hoje.
P/1 - Por que não gostava da escola?
R - Não sei... Por isso que eu sou do jeito que eu sou... sou meio... [risos]
[00:07:29]
P/1 - E a sua adolescência foi lá ou aqui?
R - Foi aqui.
P/1 - Veio pra cá tinha quantos anos?
R - Cheguei aqui eu tinha mais ou menos de 10 a 11 anos, mais ou menos isso.
[00:07:44]
P/1 - E por que decidiram vir pra cá? Pra Serra Pelada.
R - Em busca de ouro que minha mãe veio, junto ao meu tio, que morava aí. Ele quem trouxe ela para cá.
[00:07:57]
P/1 - Nessa época ela era casada?
R - Era não, não, veio casar aqui na Serra, de novo.
[00:08:06]
P/1 - E você lembra quando chegou em Serra Pelada? Lembra como é que foi?
R - É... Para mim foi bom demais, porque quando a gente chegou aqui uma, eu quase que eu não queria acostumar. Mas também depois que acostumei, não tem... eu não. Daqui eu não quero sair mais nem amarrado.
[00:08:32]
P/1 - Sandro, você lembra quando chegou aqui? Qual foi a sua primeira impressão de Serra Pelada?
R - A minha primeira impressão era que eu pensava que eu não ia acostumar aqui, porque, como acostumado lá onde eu vivia e, lá era mais capoeira. Aqui, quando eu fui conhecer a mata, aqui conheci as florestas e tal, onde eu digo: - não aqui que é o meu lugar... lá era só pastozinho, essas coisinhas. Mas tinha vida baixa, e aqui, depois que eu conheci aqui o mundo de mata, pronto. Daqui eu não quero sair mais.
[00:09:16]
P/1 - E como era ser criança em Serra Pelada naquela época?
R - Era muito bom, porque antigamente aqui, nós só viviamos brincando. Não era que nem uns que tem por aqui, que hoje em dia não é nem bom contar, né? Porque é uma coisa... mais era legal, aqui a gente requeava... o dinheiro que a gente pegava, era só pra merendar, como você sabe, que era aqui, era bom demais. Nossas brincadeiras, tudo sadia. Hoje não existe mais brincadeiras como antigamente.
[00:09:52]
P/1 - O que é requear?
R - Atrás de ouro.
P/1 - E o que é que significa essa palavra? Técnica, requear?
R - É que a gente chegava nesses garimpos aí onde eles... dia de pescar, aí a gente ia lá, quando ele terminava de pescar, nós pegava e raspava aquele restante de material que tinha, nós raspava e botava na bateia e ia batear... e aqui e acolá ainda dava um bom resultado ainda mesmo na bateia, Mesmo depois que eles tiravam tiravam ouro, ainda ficava... porque diz o ditado, diz que o ouro não acaba assim, logo... sempre tem que ficar um pouco.
[00:10:35]
P/1 - E conte um pouco pra nós como foi sua adolescência aqui?
R - Minha adolescência aqui foi assim, meia a lá e meia cá, mas não assim tão ruim não. Para mim foi ótimo demais. Foi muito bom.
P/1 - Aqui o que você gostava de fazer na adolescência?
R - Eu gostava mesmo era de estar no mato, como eu acho que era os meus amigos, agora não, que saíram um para um lado e outro para o outro, mas antigamente nós caía para o mato, aí nós brincava aí dentro dessas grotas, aí virava o bicho, aí era bom demais. Eu achava bom.
[00:11:17]
P/1 - Que legal Sandro, o senhor lembra como foi que surgiu sua relação com a natureza?
R - Foi. Eu acho que foi quando eu me deparei por aqui, que eu andando aí, foi que aquilo dali para mim, eu nasci de novo. Sempre gostei e vou gostar e é como minha família todinha são mateiros, minha mãe aqui é tipo índia, até o nome dela Aquinauã, é nome indígena.
[00:11:54]
P/1 - Você sabe o significado desse nome? Ela já lhe falou alguma vez?
R - Não, mas já é indígena, O povo, eu acho que no tempo deles, lá no Maranhão, para lá, para onde eles moravam, era coligado com índio. Acho que não sei se era meu avô, se era minha avó, que era índia. Eu não sei. Aí também nem, ela está bem ali. Também nem posso explicar isso aí.
[00:12:25]
P/2 - Você acha que a sua relação com a natureza ela tem a ver com o histórico da sua mãe, dos seus antepassados?
R - Eu acho que sim. Eu acho que sim, porque a pessoa não vai assim, gostar de uma coisa a força. Não é? Então aí ninguém me obrigou a fazer isso, a gostar da natureza assim. Então é assim.
[00:12:56]
P/1 - O senhor lembra como que o senhor começou a aprender sobre a mata, sobre a natureza?
R - Eu tinha mais ou menos uns 10 anos, 10, 12 anos era, foi quando eu, o meu irmão, nós saíamos junto com a turma aqui, nós saíamos junto. Aí que a gente, quando saía, só ia por aí, voltava logo. Aí inventaram uma caçada e eu peguei e fui, lá os meninos começaram a matar bicho matando coisa e eu digo: Ah, uma hora eu venho só por aqui, eu venho.
Só que aí a gente veio, eles mataram lá uns bichos, aí quando foi uns 15 dias me deu uma doideira assim. Eu tinha 12 anos mesmo, eu digo: - eu vou já no mato, saí até escondido, aí fui pro mato e aí matei uma paca. Pense numa alegria que eu fiquei! É uma emoção assim, sei lá, que eu, besta saí no meio da rua aí, quando eu vim no outro dia de manhã, parecia que eu tinha agarrado assim uns 10 quilos de ouro alegre. [riso] pois é... eu tinha mais ou menos de 12 a 13 anos, uns 12 anos.
[00:14:29]
P/2 - Realmente, de caçar, de viver da floresta. Foi a primeira experiência?
R - Foi. Foi assim para ir para o mato ficar só, á noite no mato, porque eu já tinha ido, mas só durante o dia, a gente vinha, ia de dia e voltava mesmo assim... Mas a noite... eu fui mais uns meninos, meu irmão, aí lá, eles mataram alguma coisa lá, um bichozinho. Aí eu: - vou também matar... porque que eles não me entregavam a espingarda. E eu digo: - Uma hora eu venho, peguei a espingarda e saí no mundo sozinho, me deu um pouco de medo...
Assim, quando foi chegando a noite, eu digo: - Meu Deus, eu sozinho aqui! Mas eu vim, eu vejo os outros, aí vem, meu irmão vem só por que que eu não fico só? Fiquei...
[00:15:26]
P/1 - Quem te ensinou a atirar?
R - Eu mesmo? Ninguém me ensinou, eu mesmo que comecei a atirar eu só, até porque eu peguei escondido a espingarda para ir para mato.
[00:15:39]
P/2 - Na primeira vez você matou...
R - Matei uma paca.
[00:15:44]
P/1 - Sandro, você consegue diferenciar as plantas dentro da mata?
R - Eu aqui, acolá, eu sei. Tem muitas que eu não conheço, o que eu conheço mais é aquelas que a gente gosta de esperar, que os bichos vão comer, né?
Aí sim, eu posso dizer: - isso aqui é um pé de jambo, daqui é um Toari, um Matá mata, um jambo e assim sucessivamente vai indo... tem o pequi, tem castanha, tem Orea, eu acho que você nem sabe o que é isso, burangí, que eu também creio que vocês não sabem...
P/1 - o que é?
R - Burangí, é um pau. Ele é grande assim quase que nem. Vou ver quase que nesse pé de azeitona pé de jambo aqui, mas só que ele dá mais grosso e tem uma florzinha. De longe a gente sente o cheiro gostoso. Bom demais, muito cheiroso. De longe a gente sente.
P/1 - É comestível?
R - Eu nunca vi ninguém comendo não... assim, agora, só que por ela ser tão cheirosa, uma vez eu fiz um chá, peguei um bocado de flor e: - vou fazer chá, e fiz, e tomei... Todo mundo gostou, lá no barraco do João.
[00:17:18]
P/2 - Tornando aqui na sua adolescência, como foi você chegar da primeira caçada? Você com 13 anos? Qual foi a emoção sendo a sua mãe? O que que aconteceu quando você chegou pela manhã?
R - Minha mãe estava para ficar pirada porque eu cheguei mesmo, eu fui sem avisar, eu só disse que eu ia ali, peguei a espingarda escondida, no tempo tinha um Bastião que morava bem aqui, um vizinho meu, finado Bastião. E aí eu peguei a espingarda dele, já deixei no jeito lá e quando foi assim, umas 16h00, aí eu peguei e saí.
Aí já peguei lá e sem avisar... Quando eu chego, eu cheguei era mais ou menos umas 11h ou 12h da noite, eu cheguei... no pé e no pezão.
Isso foi uma confusão, aí, aqui em casa, o meu pai, finado Bigode, que é meu pai mesmo... Ele faltou foi arrancar a minha orelha, pra mim não fazer isso...
Mas não adiantou não. [risos] pois é...
A mãe, essa? Ave Maria! quase morre... sem saber para onde eu estava, quando pensa que não cheguei aí 12h00 d noite, aí chamei logo o vizinho, ali, o Bastião. Aí já fui falar pra ele: - ó aí o que eu matei... alegre! eu estou lhe dizendo que parecia que eu tinha pegado uns 10 quilos de ouro. Pois foi assim.
[00:19:01]
P1- [ininteligível]
R - Foi. Para mim, foi.
[00:19:09]
P/1 - Sandro, dessas plantas você conhece, alguma serve para remédio?
R - Tem muitas que serve, como copaíba, Jatobá, aquele cipó do índio, disse que o cipó de escada também é bom, agora não sei para quê... A casca, a casca não, a resina da castanheira também diz que é bom, e a casca também... Agora para quê? Eu não sei, mas dizem... que tem muita gente me encomendando para mim levar umas cascas e eu não to podendo ir no mato agora, como estão me pedindo Cumaru também, aí eu não sei se eu vou, eu acho que eu não vou não porque eu tô trabalhando... Pois é, aí tem esse cumaru também, eu acho que você sabe, Cumaru é muito bom para... diz que para a asma, para tosse, para um bocado de coisa...
[00:20:23]
P/1 - Então esta é a melhor forma que você encontrou de contribuir para a sua comunidade?
R - Justo.
[00:20:29]
P/1 - E o senhor. chega a trazer?
R - Trago. Tem vez que quando eu estou sem fazer nada porque o mato é assim, o mato não é para gente estar vivendo dali, ganhando diretamente só dali, porque aí não dá certo. Porque se ficar direto assim, pensa, se todos os caçadores, ficassem só no mato? não existia mais quase nada. Existia? Não... Então mato é assim, o mato é uma aventura. Tem o que fazer? Mato zero.
Quando está sem fazer nada, aí sim: - Rapaz, eu estou sem fazer nada, vou ver se eu arrumo ali um negócio pra mim vender ou comer mesmo, né? Aí a gente sai, aí traz um cumaru, traz uma caça, porque quem gosta, que não é todos que gostam? Eu mesmo, eu gosto de quase tudo, pois é... aí eu também não gosto de estar vendendo caça, não. Quando eu vou no mato assim, eu se eu vir um bando de porco, eu mato 1 só, eu vou matar um.
Tem gente que vai e enquanto tiver porco e munição, eles estão matando. E aí não, isso, eu não concordo com isso, só mato aquilo que eu posso levar, as vezes é 2 (pessoas), mata 2 (porcos), um leva e um leva outro, e assim mesmo ainda nem gosto. Eu só mato um, aquilo só deu pra mim ali... tá bom.
Mas aqui e acolá eu chego aqui, eu libero um pedaço pra um, tal aí assim, nunca gostei de vender... Agora remédio, assim que lá os cara pede, aí, como estão me pedindo para me trazer umas 4 latas de Cumaru para mim trazer cada uma a R$100, aí eu ainda não fui, mas se eu for, eu sei onde é que tem, dá de encher saco.
P/1 - [Inaudível]
R - Para tosse, pra asma... Gripe em geral, gripe... dizem que é bom.
[00:22:47]
P/1 - Você já chegou a usar algum tipo de medicamento?
R - E já é o que eu mais eu uso. É que nem, tem um parceiro meu, que nem eu te falo, Carlinho: O João, o João Caçador, o João, eu acho que ele foi no hospital, 1 vez, que eu acho que tu sabe disso, né? Foi quando ele levou umas facãozada nas costas e no braço, pegou 198 pontos e foi a única vez que ele foi no hospital, quando foi para costurar, o resto é lá dentro... Lá ele tem casca de jatobá, casca de muita coisa de cipó, vários tipos de cipó, cipó do índio, cipó de escada, cipó de fogo, muconan, que é outro cipó que tem água também, que bebe e assim é, que ele não sente uma dor em nada...
[00:23:54]
P/1 - O senhor já se perdeu na mata?
R - Já.
P/1 - Como é que foi?
R - Eu, graças a Deus, eu. Quando eu me perco, eu não entro em pânico, não... Uma que eu já levo minha barraca nas costas, eu levo um plástico. Eu não me importo que eu me perca, não.
Agora, uma vez eu levei dois camaradas aqui, aí lá eles passaram 6 dias no mato perdidos, e eu atrás deles, até o povo estavam dizendo que eu era quem tinha matado esses dois...
Eu acho que tu sabe dessa história, porque é aquele finado Alanzinho e o irmão do Bruno, que tinha bem aqui, que era da J.B.?
É porque, a gente foi pro mato, eles doido para andar no mato, aí a gente foi.
Aí, vamos para cá... e os meninos ficaram no barraco, ficou uns e eu saí mais outros lá, mais o Júnior e o Alan, e quando a gente chegou num pé de Taturubá, eu digo: - meninos aqui tá bom de bicho!
Aí nós ficamos ali, assim... aí eu digo: - Vocês não saem daqui enquanto eu não chegar, e nisso vinha vindo um bando de porco. Aí eles, esse Júnior pegou e disse:
- Eu vou ver se eu mato um bicho desse aí e já pegou a espingarda do Alan, pegou lá errou o porco, e eu disse: - vocês... Aí eu fui, eu falei: - então eu vou (atrás dos porcos), vocês não saem daqui enquanto não eu chegar... e eu saí.
Lá eu matei um porco, até se perdeu, aí eu peguei e larguei esse porco lá, eu tava longe... aí eu voltei. Quando eu chego, cadê os meninos? Eu digo: - Rapaz, não acredito nisso!
Saí atrás dele. Eu já voltando. Eu fui no rastro dele. Até na beira da grota eu vi o rastro, eu digo eles estão no barraco... aí fui lá no barraco, não tava... Eu digo: - Meu Deus do céu! E agora?
Aí eu torno voltar, aí eu olhei quando eles atravessaram a grota, que era para eles ir e fazer isso, eles atravessaram a grota para lá eles se embananaram e voltaram de novo, Certo?
Foi 6 dias eles perdido lá que o povo tava até achando que eu era quem tinha tirado a vida deles. E eu sofrendo, comendo só melancia e todo dia gritando, o irmão desse rapaz, do Júnior ia lá, eu pegava e falava para ele (para ir procurar os meninos), ele pegava e dizia: - não, eu vou nada, quando daqui um mês eu vou... e eu dizia: - ô moço vamos atrás dos rapazes, e ele respondia: não, e saía, vinha para rua de novo...
E eu passei lá 6 dias comendo melancia, porque ainda bem que lá no João tinha um plantio de melancia, aquilo lá tinha melancia. Aí eu comia a melancia e fazia um pouco de arroz ali, porque eu não tava nem com vontade... atirava, mas a toa, para ver se os meninos vinham.
Aí nada deu certo, que foi 6 dias certo, foi bombeiro, foi a equipe todinha da JB, tudo para lá. Esse corpo de bombeiro não me deixava sair daqui, mandava eu voltar: - Não, vem cá, não vai sair para fora não.
Eu não podia sair porque eles achavam que se eu saísse, eu ia pegar o mato e ia embora. E aí certo que eu fiquei, eu não saía para lugar nenhum.
Aí chegou o Careca e o Pinguinho, eu disse: - seus meninos, vocês vão aí na captura aí deles aí, eu vi um corte novo, eu acho que eles estão para aí.
Aí o careca disse: - tá bom Sandro. Eu digo por que que tu não vai? Os caras... não dá... Aí um gordo já chegou, armado e disse: - Não, ele aqui não...
É certo que a gente foi um dia, aí nós viemos na Toyota, no outro dia voltamos de novo, dormiram aqui na porta de casa, para não me deixar eu sair, menino, eu sofri nesse dia aí...
Certo que quando foi com 6 dias, aí a gente veio já umas 5h, umas 4h a gente chegou aí, e (tinha) gente falando: - Aí, tem que matar ele, por que ele quem matou os meninos, tem que prender...
O irmão desse Alan, pegou e disse: - Olha, coração de mãe não mente não, é tu quem matou meu irmão..
Eu fui e disse assim: - Pois nem tu e nem tua mãe tem fé em Deus, que eu não matei ninguém não.
Ele: - Tu ainda vem falar um negócio desse? os caras com 6 dias? Aí
Eu digo: - Pois é, pois vocês têm fé em Deus não, porque eu não fiz nada com ninguém não. Se eu tivesse feito, eu não tava aqui não, e ninguém tinha me encontrado lá no mato, não... Perturbado lá é o irmão do Júnior que tava perdido lá, e também ia lá, ele lá não se preocupou com nada. Só eu que fiquei na coisa lá... Tu acha que se eu tivesse matado, eu tava aqui? Não… ele falou: - Mas tu vai ver e eu disse: - Tu é que sabe.... Isso, lá no mato, lá, aí foi que um gordão corpo de bombeiro falou: - Sai fora aí que o cara, ele tá aqui, se ele tivesse feito alguma coisa aqui, ele não tava aqui não.
Aí a gente veio, quando a gente chega me botaram aqui, era pra mim ir lá pro alojamento deles, não era pra eu ficar aqui.
Eu digo: - tá, beleza, aí eu peguei e vim... tô aqui, arrumando as coisas e quando pensa que não, o xará peão chegou, chegou e já foi me abraçando: - Ei, moleque, vem aqui!
Eu disse: - O que foi?
Ele:- Tu tá livre moço, tu não fez nada com ninguém, não.
Aí começou a me abraçar, e aí os meninos aí tudinho, Bastião vieram aí, rapaz, vieram, fizeram uma algazarra aqui em casa.
O Salvador, eles tinham batido lá no barraco do finado Salvador e trouxeram ele. Mas só que o Junior, que é de Pernambuco, não ia aguentar mais não, ele não ia (aguentar) passar mais um dia ou dois. Não, não aguentava não, ele chegou bem debilitado, sim. E aí assim, foi esse, o único medo que eu passei foi esse.
Eu mesmo, eu sozinho quando eu vou, eu só, tem vez que eu, acostumado passar de 15 dias sozinho no mato, sozinho, sozinho, sozinho, sozinho, às vezes eu me rodo, aí quando eu me rodo aqui, eu digo eu estou perdido... Eu ando com minha bolsa, minha barraca nas costas, minha arma ali, armo a rede, vou fazer o que comer, pronto. Graças a Deus nunca tive medo.
[00:31:11]
P/1 - Nesses 6 dias eles passaram fome e sede dentro da mata?
R - E muito só não passaram porque na época tinha castanha e caju. Caju de janeiro, que eu acho que vocês não conhecem e palmito de açaí.
P/1 - Diante desse desafio, o senhor teve algum outro assim que ficou bem marcado?
R - Não. Acho que só esse mesmo.
P/1 - Ficou marcado mesmo.
R - É, só esse mesmo.
[00:31:43]
P/2 - Como é viver 15 dias dentro da floresta? Como é que é a vida assim? Como sobreviver?
R - Rapaz, a vida assim é... Isso é para quem gosta, isso é para quem gosta, para quem não tem medo. Porque eu creio que o cara que tem medo e não gosta e ele não gosta daquela coisa e ele vai para dentro do mato, ele se perde. Eu acho que a cabeça dele fica a mil ali, eu não sei. Agora eu não, eu dentro do mato aí, se eu me perder, bem, se eu não me perder, tá bem do mesmo jeito. Eu não tô nem aí não, sou acostumado a passar aí 15 dias aí só uma vez.
Agora me lembrei só uma vez que eu fiquei assim, com medo. Foi no Iriri, isso no Iriri, lá em São Félix do Xingu. Lá eu fiquei com um pouco de medo, não foi por causa de outra coisa, porque lá é onça até umas horas e eu passei uma noite, não, um dia, uma noite e outro dia, eu vim sair na estrada quase a noite, já assim umas 16h, 17h00. Aí sim, ali... não tava nem lembrando disso.
Aí eu digo: - é... escapei das onças, tá bom.
Agora, só que lá não é que nem aqui. Lá ninguém escuta zoada de trem, ninguém escuta zoada de avião, nem de carro. Lá perdeu, se você não encontrou o caminho certo para você sair por lá, você fica. Mas só que...
[00:33:36]
P/1 - Você ouvia o barulho das onças ou chegou a ver alguma?
R - Eu tanto vi, como já matei. [risos]
[00:33:45]
P/1 - Como foi nesse dia que você matou a onça? Conta a história pra nós.
R - Eu matei uma, que a gente tava caçando aqui, e quando penso que não, escutei um esturro assim esquisito e eu até pensei isso é porco...
E só aquela zoada esquisita, eu digo: - isso é porco. Aí eu peguei, avisei pro meu parceiro, eu digo: - Olha, aqui tem os porcos, eles estão vindo, aí
ele pegou e disse: - aí é mesmo.
Aí ele pegou, aí ele pegou e saiu assim e eu assim (cada um em uma direção diferente). Aí quando... eu andando, olhando, quando penso que não, eu vi ali, já vinha com a cabeça baixa e roncando: “RRRR” aí eu digo: - vixe!
Aí ela vinha vindo na minha direção, ela pegou e fez isso (mudou a direção). Por isso que eu digo, onça não bota em ninguém se a gente não mexer, ela vinha vindo certinho. Quando eu virei, eu tinha um pau assim, mais ou menos dessa grossura aqui, o mais fino eu peguei e me escorei nele, que assim, ela vinha vindo, mas ela de lá ela me viu e já cortou (mudou a direção), aí já saiu para lá... Eu matei mesmo, porque né? Aí eu pego, eu digo: - rapaz, aí foi cada vez ficando mais longe, quando ela chegou na varrida lá, e eu aqui e quando ela olhou para mim, eu chamei (atirei), mas não foi na cara não, e ela também só pulou para trás, “RRR!”, já escarrando. Saiu.
Aí eu, olha aí como era muito doido! E foi uma bate bucha, e eu peguei, porque eu atirei nessa onça e ela saiu, eu peguei e saí correndo atrás, sem carregar espingarda. Aí eu cheguei, aí o menino chegou: - E aí, o que foi? Eu digo: - Atirei na onça… ela vai para o fundo aí. Aí ele pegou e disse: - Se vim para cá, entra no chumbo... aí, aquietou. Aí ele pegou e veio, que ela saiu assim e ele foi assim, aí nós topamos.
Aí eu digo: - e aí não passou para ele não? Ele disse: - Não, aqui não... Eu digo: - mas ela aquietou bem por aí.
Aí já estava escurecendo, aí que eu fui me lembrar de carregar a espingarda. Eu peguei, eu digo: - não, Eu estou sem a espingarda, tá carregada não...
ele: - rapaz, tu é doido! Eu digo: - Pois é, agora vou... Encosta aí. Tinha um pauzão. Eu peguei, escorei, tô carregando aqui assim, aí eu olhei assim, um negócio .... digo: - Oxente! Já escurecendo, peguei quando eu passei a lanterna lá, aí fez bem assim fica tipo fugindo, né? Eu digo: - Não, a onça tá aqui, tá viva, pensei que ela tava viva. É porque a malha dela fica assim.
Pegou um pau, sem nós querer gastar munição, aí fez a ponta aí, eu com a espingarda e ele com um pedaço, um toco com a ponta bem fininha. Aí nós chegamos lá, eu com a lanterna e a espingarda e ele futucando com o pau, eu digo: - moço, onça é morta. Ela morreu que enganchou, ela mordeu uma raiz assim, o que para a gente tirar a boca dela aqui? Assim, o jeito foi nós cortar a raiz, ela saiu com a raiz e tudo. A cabeça dela está ali na dona Baixinha do Ró___. Pois é, esse aí o meu medo, nem tive medo, pra falar a verdade.
[00:37:25]
P/1 - Sandro, já viu alguma coisa no mato? Alguma visagem? Alguma coisa assim?
R - Ilusão... Nunca vi não. Isso aí. Quem conta isso aí, diz que já viu coisa. Nunca vi... A não ser assim, a gente escuta aqui e acolá, é que nem o povo diz: - o medo...
Como é? Como é que se diz? “Quem faz o medo é a gente mesmo”. E se botar aquilo na cabeça que tá escutando, você vê. Foi você ver, grita aí, já os passarinhos gritando, cantando e tal... Tem uma folha que fica se mexendo. Cara, eu já vi gente, já que atirou em folha, porque fica que o vento fica balançando assim ela fica mexendo. O cara quando olha pensa que é gente, ou então outro bicho. Aí chega e atira, Aí diz que é visagem, não existe isso.
[00:38:26]
P/1 - Fora a experiência que você teve com os meninos na mata você já guiou outra pessoa?
R - Eu já, mas falando bem explicado, no entrar, eu digo: - Vocês vão, eu vou deixar vocês aí, daí vocês saem se quiser, eu não tenho responsabilidade mais de nada. Que nem eu vou, e aí os meninos chegam e dizem: - Não, Sandro, vamos embora, que tu sabe de umas espera aí... eu digo: - eu vou, eu sei, agora, só que é o seguinte: o que acontecer eu tô fora! e vocês já são de maior. Aquele tempo é porque o menino era de menor, o Alan, eu acho que foi porque pegou para mim assim.
[00:39:08]
P/1 - Sandro, você falou de esperas. Como é que elas são? Você mesmo que faz?
R - Achou um pé de fruta que bota fruta, que nem o jambo mesmo, porque tem o jambo da mata, é quase igual a esse aqui, que tá caindo? Aí a gente faz um trepeiro, bota uma vara de um pau para outro, duas varas ou então faz uma varrida ou então uma trincheira arrodeando o pau. Enfia umas palhas pro bicho não desconfiar. Mas melhor mesmo aí em cima, que tá livre de onça, de cobra...
[00:39:46]
P/1 - Vocês ficam esperando lá em cima então?
R - Em cima.
[00:39:49]
P/1 - E essa trincheira, como é que faz ela?
R - Do jeito que tá aí, a gente pega umas palhas de coco, aí sai botando aqui assim para bicho não vir. Ou então, é bota lá e fica lá dentro lá e espera os bichos chegar para comer. Maldade, né?
[00:40:10]
P/1 - E dos bichos da mata é o que mais lhe fascina.
R - Pois eu acho que todos.
P/1 - Tem algum que você gosta mais? do canto ou...
R - Ah, eu tenho um bicho que eu sou apaixonado, que se eu pudesse... Que eu nem mato mesmo, é o Mutum.
P/1 - Por quê?
R - Não sei. Porque eu acho ele muito bonito ali. Até porque ele também. O povo come. Tá aí uma caça, eu como. Mas eu não gosto. Por isso que eu digo: - eu como tudo, agora, gostar é uma coisa, e comer é outra; é um pássaro parece um peru. Olhá, tá vendo aquele peruzinho preto ali, que ele é mais ou menos desse tamanho.
Assim ele Preto com branco, tem ele todo mariscado, pedrês, tem ele todo preto da crista amarela. Tem uns que é do castanheiro tem uma crista vermelha que não é nem crista, assim tipo uma borracha na cabeça dele.
P/1 - Ou seja.
[00:41:29]
R - [Oi mãe, pera aí!]
[00:41:35]
P/1 - O seu Sandro, como que o senhor se prepara para ir para a mata, para uma expedição?
R - Rapaz, eu me preparo assim. Assim. Aí deu uma amnésia agora na cabeça.
[00:41:53]
P/1 - O que é que você leva?
R - Eu levo o que comer, né? Eu levo um arroz, uma farinha, um tomate, umas coisas básicas para a gente fazer lá, porque só também não gosto de levar outra coisa não. Porque lá eu já tô indo pro mato, tenho que me virar lá, assim como carne, peixe, essas coisas. Sal que é o principal da coisa. Eu acho que isso para mim mesmo quando eu vou pro mato, eu não gosto de estar levando coisa, só levo mesmo só o sal e a farinha e uma cebolinha só.
[00:42:34]
P/1 - E quais são os recursos naturais que o senhor usa assim da mata?
R - Rapaz, eu gosto bem mesmo de um açaí, pode ser assim, né? Um açaí e quando tem uma bacaba também? Também eu gosto de preparar um Oxi que vocês não sabem o que é, é muito bom também, Cupu quando está na época.
[00:43:06]
P/2 - Você comercializa aqui na comunidade esses frutos, as raízes? [inaudível]
R - Às vezes sim. Quando alguém me pede, aí eu... Se eu tô na ativa, eu vou. Aí eu trago, trago uma castanha, como eu sou castanheiro, também eu gosto. Toda época de castanha, se eu não tiver trabalhando, eu estou cortando castanha.
É onde dá uma renda. Eu acho que é uma das rendas melhores que tem dentro dessa mata. É a castanha. Aí o resto, é aquela coisa, um pede, a gente pega e leva, aí a gente não traz assim especificamente, trazer e botar ali para vender, para fazer, né? Não, ali é mais encomenda, como um cipó. Tem muita gente que pede uns cipós de índio, tucumã, cumaru. Quando assim a gente pega, traz, se acha, traz e entrega.
[00:44:19]
P/1 - Como você faz para buscar esse material?
R - É simples, é sair aí vamos, tem que ter o local certo também, porque a gente chega aí só para ir lá pegar assim. Às vezes, a gente vai num setor, num numa área que não tenha, tem que andar até encontrar... Se no caso for na época, que se não for, nem adianta ir. Mas só que na época mesmo tem 1 ou 2 pés aqui que tem e tem 1 ou 2 ali que não tem. Aí fica complicado. Por isso, às vezes a gente vai pensando certinho, vamos lá naquele pé que tem. Chega lá. Não tem.
[00:45:05]
P/1 - Qual é a época que dá castanha do Pará?
R - É em novembro, dezembro.
[00:45:11]
P/1 - E o açaí?
R - Junho, julho e agosto.
[00:45:18]
P/1 - O senhor já ensinou que o senhor sabe para outra pessoa?
R - Já
P/1 - Pra quem e como?
R - Já ensinei aqui para deixa eu vêr aqui, que tem um bocado de gente aqui que gosta do mato, que sabe, aí não sabe também como... é aquela coisa, não sabe, Só tem influência mesmo de só tratar no mato mesmo. Não tem aquela, aquela coisa de dizer mas isso daqui é bom, isso daqui presta, isso daqui vambora tirar? Eu digo: - vamos embora, é assim, assim. Eu acho que é ensinamento né.
[00:45:59]
P/1 - Seu Sandro e de que maneira que o senhor se especializou nisso?
R - À maneira. Rapaz, eu acho que a maneira mesmo assim que eu me expressar para mim fazer isso aqui foi também, eu tive que ter o conhecimento das pessoas que sabe ou, eu digo: - rapaz, eu vou fazer a mesma coisa assim, porque os caras vão e fazem aí e muita gente aqui também pedindo, então, por isso é que estão me pedindo. Como tem agora, um bocado de coisinha para mim trazer, mas só que não vai dar. Aí eu acho que foi assim, desse jeito, assim, entrou ali na mente, ali: - vou fazer a mesma coisa que esses camarada faz. Eu né?
[00:46:50]
P/2 - Sandro, as pessoas ainda procuram muito a questão da medicina natural?
R - Procura, procura. Aqui mesmo aqui e muita gente que me pede copaíba também tem umas copaíba também que e para mim poder tirar, que tem uns camarada que querem uns , aí agora eu não posso ir, porque a copaíba é agora mês de Agosto, esse mês aqui até o outro, tem a época também para furar copaíba, Furar errado também não tira, não sai nada.
[00:47:33]
P/1 - Dentre tantos medicamentos que a floresta oferece, qual é o mais pedido pela população?
R - Copaíba.
P/1 - Qual é a principal função dela?
R - Rapaz. Principal função... É isso aí. Eu. Eu vejo os caras dizendo que é bom para ferimentos, é bom para dor no osso. Aí, isso aí eu sei que é bom, agora só esse tipo aí. Agora o restante eu não sei.
[00:48:11]
P/2 - E hoje, como você vê a floresta? Assim, a questão ainda da diversidade dos produtos. Como está a floresta aqui nessa região?
R - Rapaz, a floresta que ela... tem região que está 100%, agora tem região que tá um desastre, tá acabada, fogo demais. Eu conheço região aí que tem, que não tem mais nem mata não, tem mais em cima aqueles paus altos, porque por baixo tudo sapecado. Isso dali é um atraso para natureza, ali onde os bichos saem fora, morrem. Vocês estão vendo? Olha essas araras que estão aqui, vem Araras, aqui e aqui. Espera aí, vem quatro, dois casais de Araras e dois casal ali na outra casa, na minha lá, comer Ingá. Araras bonitas, araras que antigamente ninguém via. E agora elas estão, por quê? fogo demais estão destruindo, e outra, e esses venenos estão acabando com a nossa fauna aqui, essa nossa mata aqui. Pois é desse jeito. Por isso que eles estão vindo de lá para cá, porque não encontra mais comida na mata aí, aí estão vendo aqui como está? Na época da Ingá e é muitos aqui, direto vem aqui, aqui mesmo. Eu não sei como ainda não veio hoje. Aí tem um casal que vem aqui 2, 4 araras aqui.
[00:49:53]
P/1 - E qual é o seu principal cuidado com a natureza?
R - Meu principal cuidado com a natureza é questão de fogo. Porque eu não, tem gente aí que vai para o mato e eles não tá nem aí. Eles querem fazer um fogo no lugar onde não é adequado, se for fazer, tem uns que tem a consciência que limpa ali faz o fogo e quando sai, caça meios de jogar uma água ali. Mas tem uns, que não faz isso, se tiver por isso que aparece muito fogo aí, se todo mundo tivesse cuidado, chegasse lá, limpasse o lugar de fazer o fogo, fazia. Faz o que tem que fazer, retorna as coisas lá, joga uma água e coisa lá. Porque às vezes a gente pensa que apaga, e não apaga;Dali é onde vai crescer o fogo? Porque o fogo, o fogo é bicho... principalmente nessa época, dentro de uma mata. Aí se alastra ligeiro demais. Fogo! Aí então, o meu cuidado, que eu tenho muito. É isso aí.
[00:51:13]
P/1 - Sandro. Você conhece outros mateiros aqui na região?
[00:51:16]
R - Vários.
[00:51:18]
P/1 - O que é que eles fazem de diferente de você.
[00:51:21]
R - Rapaz? Tem uns que faz igual eu faço agora. Tem uns que, eu não posso nem dizer. Não é à toa que estão trancando aí, não estão querendo deixar mais ninguém entrar. Por conta disso.
[00:51:47]
P/2 - Os fazendeiros não deixam os mateiros adentrar mais as florestas? [inaudível]
[00:51:52]
R - Uma que quando eles chegam assim que tá a noite, eles não têm coragem de pegar a chave, quebra. Quando não quebram ou afrouxa arame, passa a moto por baixo... e fogo, eles vão fazer um acampamento lá, eles acendem um fogo, que nem já pegou fogo um tempo aí... acende, aí quando vem embora larga o fogo que fica ali, porque ele vê que tá só uma coisinha dessa assim... se tiver um fogo bem aqui no meio do jeito que tá, essas palhinhas aqui assim e ali, vai pegando, aí é que nem pólvora, aí vai pegando devagarzinho até encontrar uma raiz, uma coisa, aí vai indo, é onde o fogo se alastra e queima. Aí é por isso que eles estavam não querendo deixar. Então meu cuidado que eu tenho é esse aí.
[00:52:54]
P/1 - Não tem alguns mateiros que são mais voltados para a pesca, para caça ou para medicina aqui, para plantas medicinais?
R - Rapaz, que eu saiba, eu acho que só eu que gosta de estar pegando essas coisas assim para medicina. Tem uns que vai mesmo só para caçar mesmo, só de caçar mesmo, não se interessa de fazer outra coisa.
[00:53:27]
P/1 - Se você pudesse dar um conselho para quem está iniciando, sendo mateiro, qual conselho você daria?
R - O que eu daria? O conselho era que se fosse uma pessoa que você gosta do mato, pois preservar bem mata. Preserve para você ficar indo diariamente ou então o tempo que você quiser, tem que preservar. Se quiser ficar, se gosta, se realmente gosta, né? Da mata, então tem que preservar. Aí você vai ficar indo direto.
[00:54:08]
P/1 - Durante essas suas idas e vindas na mata. Já teve alguma parceria alguém querendo fazer parceria com você? Algum pesquisador? Algum biólogo?
R - Já.
P/1 - Você já chegou a levar?
R - Já.
P/1 - Como foi a experiência?
R - Foi. A gente foi para tirar folha de copaíba, fazer as amostras. Aí a copaíba que a gente ia marcando, ia tirando as folhas. A gente ia botar uma placa lá, numerada, não tem. Aí lá o cara pegava, já anotava, aí ficava, de São Paulo, Aí as folhas lá de cima era mais doído para tirar que eles levavam, me dava baladeira, para não atirar, para derrubar. Quando eu derrubava um olho que nem esta um olho assim. Se no caso chegar a derrubar ali, ó o cacau, eu acho que ia ser maior para eles, para eles, né? Por que do olho lá é que vai saber que copaíba é qual é a função? Isso daí eu aprendi com eles, aí meu serviço era esse. E assim a gente passou o que? Uns, uns 8 dias nessa arrumação boa que eu achava bom demais. Pois é.
[00:55:43]
P/1 - Sandro, por que você decidiu ser mateiro?
R - Rapaz. Eu acho que já veio de natureza.
[00:55:57]
P/1 - Existe alguma diferença no trabalho de vocês entre os mateiros que são mais velhos e os mateiros que são mais novos?
R - Não. Às vezes, os mais novos. Pega a mesma função da gente, os mais velhos... Agora têm uns mais novos aí que nem adianta também ir para o mato, que se perde, dá dor de cabeça para quem vai mais vezes lá. Não... medo demais, tem uns aí que vai para o mato mesmo, por aí mesmo, mas é no pé da gente, direto.
[00:56:36]
P/1 - E existe alguma diferença entre a mulher e o homem no mato?
R - Não, a diferença, é porque mulher, não todas, mulher, se a gente tiver aqui, e ela vê um calango ali, se ela não dá um grito para acolá... Não pode ver nada, um escorpião, coisa... mulher tem essa desvantagem. Mas tem umas também, que é o bicho, mas eu acho que em geral, todos são iguais. Não tem como a gente não...Mulher.
[00:57:20]
P/1 - Essas idas e vindas aí na mata que o senhor foi. Qual foi a melhor experiência que o senhor teve? A melhor pode ser uma muito boa, pode ser muito ruim, que aconteceu, que ficou bem marcante lá para você.
R - Assim foi essa que eu terminei de contar, essa dos meninos que foram, que foram. Essa daí foi uma das, sei lá, esse dia até chorei de raiva aí.
[00:57:52]
P/2 - Mas conseguiu provar tudo?
R - Provamos aí, fizeram até festa aí, me deram, o irmão do Bruno, que era dono da JB e ele botou o Corpo de Bombeiros, mas só que ele não mandou ninguém me prender, mas só que como estava muitos dias, esse menino perdido, eles achavam que eu que fiz algum mal, tinha feito o mal para eles e o Bruno estava para Pernambuco. De lá ele só mandava, e coisas, que ele já me conhecia também. Quando logo ele veio no outro dia, o menino foi achado hoje, amanhã ele chegou, como assim comparação. Ele chegou lá e já chegou e já foi me abraçando, ó moleque eu sabia que tu não tinha feito nada. Aí então tá aqui essa caminhoneta aqui, hoje ela é tua. O comércio, aí já foi fazer muita coisa... Eu digo não, moço, eu, uma que nem dirigir eu sei. Ele: - Pega o motorista que tu quiser... e eu digo: - também não.
Aí até que foi indo embora, quando pensa que não, o menino chega aí com a viatura. Aí chegou, aí até a mãe ficou assim meia... a viatura chegou aí, (falando) embora ali, agora, embora ali... eu digo: - pra onde, moço? Me levaram lá para a piscina, que eu fiquei com raiva porque eles chegaram desse jeito assim… porque minha mãe não pode estar passando por isso... E eles chegaram fazendo isso. E a mãe, já o que tava acontecendo? Aí chega polícia assim...
Foi, para ir lá para a piscina, para agradecer lá, para mim beber, olha, eu peguei e larguei de mão. Eu digo moço: - aqui é o seguinte, o que eu vou fazer? Eu peguei, eu digo Cazuza, vamos lá no Fogoió que no tempo tava Fogoió lá eu peguei e fiz um rancho... ele disse que era para me pegar o que eu quisesse... Eu fiz um rancho bom, vim, comprei uma munição, e aí eu digo: - agora, já que o carro vai ser para mim, agora tu vai lá no João, mas tu vai me deixar lá, aí eu vou para o mato, moço, não vou ficar aqui não. Aí eu peguei, saí, chamei só mais um parceiro. Aí nós foi para lá, para dentro. Lá eu passei 8 dias só comendo nesse rancho lá e pensando na safadeza e pensando que depois eu fui ver o Leandro lá, e o que ele fez ameaça me matar. Eu digo tu vai ver, nem vou contar isso aqui, pois é, pois é... isso aí ainda hoje eu tenho...
[01:00:52]
P/1 - Sandro você já ensinou assim como ser um mateiro para alguém, tudo que o senhor sabe.
R - Eu já, já ensinei sim.
P/1 - E como tu foi passar essa experiência para. [inaudível]
R - Nós E assim? Eu. Porque eu acho que pra gente ir assim para o mato, acho que não, não é é bicho de sete cabeças assim para o cara não aprender logo.
Porque aprende. O negócio do mato é aprender não a ter medo. Né? Porque o resto é para andar, para esperar, não ser nervoso, porque às vezes tem um camarada que vai... Quando vê um bicho rondando, já pensa que é outra coisa, aí tem vezes que eu tô aqui no mato quando eu escuto um bicho assim, se tem alguém perto, eu já digo: - ó é um tatu ou então uma paca, tá pisando um veado tem que escutar, saber. Mas é desse jeito, isso daí não tem como ensinar. Até não vai não, ali o cara vendo fazer, ele vai se ligar também. Não é isso?
[01:02:13]
P/2 - A sua companheira. Ela se tornou mateira. Ela começou a ser mateira do seu lado. Indo no mato com você?
R - É foi comigo, dizendo ela foi comigo. E é que nem eu terminei de dizer, mulher quando dá para ser medrosa, ela tem aquela vontade de ir no mato, gosta do mato, mas só que é ali uma cola, que é até um perigo para quem está no mato, principalmente à noite, porque ela é uma se ela tá, tem aqui a rede e eu vou, vejo alguma coisa mexendo e eu vou sair, quando penso que não, quando eu vou me virar, é a hora que eu tô com a espingarda já quase no jeito, né? E ela tá ali perto, o cara leva aquele susto. Mas, não é assim? Ah, não fica assim, só não, se eu sair meio metro, ela tá ali junto. Por isso que eu digo que mulher é para essas coisas, não dá não.
[01:03:32]
P/2 - Você aprendeu as primeiras suas experiências com a própria família?
R - É, meu irmão. Meu irmão que morava aqui, ele ia para o mato e eu nunca, querendo ir, ele não deixava. Até que um dia foi e me levou. Pronto, acabou. Aí foi a vez que eu fui só, digo, vou para o mato só, foi o dia que eu matei um quilo de ouro, que foi uma paca. Foi o primeiro bicho, eu acho que a todos caçador, quando assim que está começando, quando mata um bicho, eu acho que fica alegre demais. Fica.
[01:04:24]
P/1 - Você acha que hoje assim, o Sr. contribui e de que forma a natureza?
R - Contribuir eu? Deixa eu ver aqui, eu assim, a melhor forma que eu posso contribuir com a natureza é preservando ela e fazer o que é necessário para ver ela crescer, não diminuir.
[01:05:02]
P/2 - Quais as maiores ações para a preservação da natureza que você acha que deve ser aplicada hoje?
R - Rapaz, a melhor coisa para a gente ter a nossa natureza intacta em pé é justamente fazer o que é necessário como não estar destruindo? Cortando madeiras, pau aí para só por cortar mesmo. Se for uma precisão... que aqui e acolá, tem umas madeiras que a gente olha lá, a gente vai precisar, no caso, vamos fazer um barraco, a gente vai cortar ali uma madeira só para fazer aquilo dali. Mas no mais, que nem eu vejo, o cara atira, tá (tiro) num pé de pau para experimentar, ali é uma besteira, com o tempo ele morre. Sabia disso, né? Com o tempo morre porque tem espingarda, que é o bicho. É assim para mim, preservar assim, desse jeito. Não agredir a natureza.
[01:06:26]
P/2 - Na nossa região, qual a maior degradação que você acha que hoje está acontecendo?
R - Veneno? Pode olhar que aí a maioria dessas matas aí, Ó a castanha aqui dava muita castanha, né? Hoje em dia, ano passado, ano atrasado e ano passado não deu castanha. Esse ano, olhe lá, se não vai ser do mesmo jeito. Porque esses venenos estão acabando aí, principalmente agora, né? Estão botando veneno com esse tal de drone. E acaba, tem umas partes de açaí aí que tá amarelo, tudo bem amarelo assim. Eu acho que tu vê, quando tu vai aí para o 30, aí a gente vê aqueles pés que carregava que só. Hoje em dia tu vê então tudo, só as palhas, não tem açaí. Pois é...
[01:07:44]
P/2 - A maior degradação hoje é o agrotóxico?
R - É.
[01:07:47]
P/2 - Pulverizado por drones?
R - Por drone, eu para mim é porque acabou esse desmatamento aqui de derrubar madeira, derrubar, fazer coisa. Acabou. Bom, o que a gente vê, né, que a gente está vendo aqui, a não ser que tenha umas para lá que escondido, porque na maior parte é só escondido mesmo essas derrubadas é escondido, não tem como acabar assim não. Mas só que aqui deu uma diminuída boa o negócio de desmatamento. As coisas agora. Só que esses venenos com o tempo, aí não vai dar fruto mais não. Não é à toa que as araras estão vindo para cá, para a rua. Por que você já tinha visto alguma arara assim na rua? Para cá? e mansinha, sentada assim. Pois é, não via não e hoje em dia estão. Ali, aonde é que está sendo o hospital? Lá naquele pé de Almendra lá fica assim de arara, mas arara mesmo, não essas ____ é Arara grande mesmo. Por conta de veneno, moço.
[01:09:42]
P/1 - O Sandro, hoje é para ti, quais são as coisas mais importantes que tem?
R - As coisas mais importantes, rapaz, é minha saúde, a saúde da minha mãe. Minha mãe estando aqui junto comigo, tá bom demais.
[01:10:05]
P/1 - O senhor gostaria de acrescentar mais alguma coisa assim durante sua história?
R - Não. Até porque contei quase tudo. Ou tudo mesmo?
[01:10:18]
P/1 - Como foi pro senhor contar sua história?
R - Muito bom. Achei bom demais.
[01:10:30]
P/2 - Sandro, a gente do Museu da Pessoa queremos agradecer pela entrevista, pela disponibilidade. Obrigado por ter tirado esse tempo para a nossa entrevista, pra gente. Foi muito bom ouvir sua história, aprender também sobre suas experiências das florestas e a gente agradece muito, viu?
R - Beleza? Não, aí é assim, cada vez mais a gente vai aprendendo mais, eu, como dizer, não sei ainda de quase nada, mas o pouco que eu sei tá bom demais, porque nunca ninguém aprende assim. Sempre tem alguma coisa pra compartilhar.
[01:11:15]
P/2 - Obrigado, Sandro.
R - Falou.
[Fim da Entrevista]
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