00:17
P1 - Ronaldo, então vamos começar você dizendo o seu nome completo, local e data de nascimento, por favor.
R: Meu nome é Ronaldo Lopes da Silva, conhecido como o popular Ronaldo Planeta. Sou nascido em 1960, 23 de maio de 1960. Estou com 65 anos completos.
00:44
P1 - E você nasceu aqui em Paracatu?
R: Nasci em Vazamor, que é onde o meu pai morava. Vazamor é uma cidadezinha, município de Vazante, uma cidade pequenininha. Meu pai é de lá, natural de lá. Inclusive, eu sou quilombola duplo, né, porque na região do meu pai também existe o projeto quilombolas, há muitos anos. E aqui também existe, hoje eu resido aqui. Minha mãe é daqui e meu pai é de lá, né, então, uniram as raças. E é um prazer, é um prazer fazer parte disso. A minha vida é isso aí que vocês estão vendo.
01:33
P1 - Não, deixa eu só perguntar uma coisa, estou super intrigada. O que é Ronaldo Planeta? O que é isso?
R: Pois é, assim, eu gosto de falar disso, porque o meu ramo sempre foi futebol, né, embora eu seja um cara amador, mas fui um amador tentando ser profissional. Então, acho que, primeiro fui conhecido como jogador de futebol, muitos anos, aqui em Paracatu. E eu lembro que eu estava fazendo um gol, fiz um gol lá no Santana, um gol de, sei lá, de peixinho assim, aí tinha um torcedor, ele se chamava Soari, ele estava na arquibancada, eu fiz um golaço, ele levantou e falou assim: “Nossa, esse gol é de outro planeta!”. E com isso, acabou o jogo, eu saí lá, os torcedores começaram a falar: “Gol de outro planeta! gol de outro planeta!”. E aí, eu diretamente envolvido com o futebol, criou essa identidade aí, Planeta. E hoje, graças a Deus, se você chegar não só em Paracatu, mas na região e falar: “Planeta.” Muita gente sabe identificar quem é. Então, é um prazer ter esse apelido também. Pois é.
02:43
P2 - E eram muitos irmãos lá?
R: Nós somos bastante, né, só que a maioria nasceu aqui em Paracatu. Lá de Vazamor, quando meu...
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P1 - Ronaldo, então vamos começar você dizendo o seu nome completo, local e data de nascimento, por favor.
R: Meu nome é Ronaldo Lopes da Silva, conhecido como o popular Ronaldo Planeta. Sou nascido em 1960, 23 de maio de 1960. Estou com 65 anos completos.
00:44
P1 - E você nasceu aqui em Paracatu?
R: Nasci em Vazamor, que é onde o meu pai morava. Vazamor é uma cidadezinha, município de Vazante, uma cidade pequenininha. Meu pai é de lá, natural de lá. Inclusive, eu sou quilombola duplo, né, porque na região do meu pai também existe o projeto quilombolas, há muitos anos. E aqui também existe, hoje eu resido aqui. Minha mãe é daqui e meu pai é de lá, né, então, uniram as raças. E é um prazer, é um prazer fazer parte disso. A minha vida é isso aí que vocês estão vendo.
01:33
P1 - Não, deixa eu só perguntar uma coisa, estou super intrigada. O que é Ronaldo Planeta? O que é isso?
R: Pois é, assim, eu gosto de falar disso, porque o meu ramo sempre foi futebol, né, embora eu seja um cara amador, mas fui um amador tentando ser profissional. Então, acho que, primeiro fui conhecido como jogador de futebol, muitos anos, aqui em Paracatu. E eu lembro que eu estava fazendo um gol, fiz um gol lá no Santana, um gol de, sei lá, de peixinho assim, aí tinha um torcedor, ele se chamava Soari, ele estava na arquibancada, eu fiz um golaço, ele levantou e falou assim: “Nossa, esse gol é de outro planeta!”. E com isso, acabou o jogo, eu saí lá, os torcedores começaram a falar: “Gol de outro planeta! gol de outro planeta!”. E aí, eu diretamente envolvido com o futebol, criou essa identidade aí, Planeta. E hoje, graças a Deus, se você chegar não só em Paracatu, mas na região e falar: “Planeta.” Muita gente sabe identificar quem é. Então, é um prazer ter esse apelido também. Pois é.
02:43
P2 - E eram muitos irmãos lá?
R: Nós somos bastante, né, só que a maioria nasceu aqui em Paracatu. Lá de Vazamor, quando meu pai mudou para cá, a gente só veio em cinco, o resto são todos daqui. Mas meu pai morreu muito novo, com 42 anos. E acho que quase bateu o recorde, morreu com 42 e conseguiu ter 14 filhos, né. Não é fácil, né? É muita coisa. A gente, ao todo, são oito homens e seis mulheres. Hoje são onze, porque infelizmente Deus levou três das minhas irmãs mais velhas. Mas nós somos onze, todos os onze vivos, né? A minha mãe está aí também com 96 anos já. Lúcida, né. E a minha mãe foi professora também. Lá em Vazamor ela foi diretora de escola, aqui em Paracatu, ela foi professora por 35 anos. Você vê que é uma batalhadora, né. A minha mãe é daquelas que levantava de manhã, cara, ia para a escola dar aula, voltava… O meu pai sempre foi farturento, não foi um cara pobre, trabalhador, mas um cara farturento. Era daqueles caras que tudo que ele plantava, ele colhia, e a minha mãe estava ali sempre junto. Eu vivenciei muita coisa, por exemplo, hoje você vai ali, o arroz já vem prontinho, na minha época, não. O meu pai tinha um monjolo, monjolo que chama, monjolo é uma coisa que tem um braço comprido. Lá tem o pilão, minha mãe botava o arroz ali, ele ficava lá, a água caía nele aqui, ele abaixava, descia, abaixava, descia, e com aquilo ali, estava socando o arroz. Aí com o tempo, a minha mãe pegava aquele arroz, peneirava ali na peneira, tirava a canjiquinha, que às vezes quebrava muito, até sair toda a casca e enchia saco de arroz. E a gente não comprava nada, comia o arroz, era assim, né. Açúcar a gente não usava, porque o meu pai sempre fez rapadura, fazia o café só da rapadura. Eu, inclusive, faço até hoje. É diferenciado o café da rapadura. Então, a vida do meu pai era assim. Gente, a gente imagina o seguinte: o meu pai fazia carne, a carne que a gente comia era a galinha caipira, a carne de porco na lata, que a minha mãe fazia, enchia o chouriço e fazia linguiça. Então, era aquilo ali. Às vezes, a fartura do meu pai, meu pai era pobre, mas era um pobre farturento. Às vezes, as latas estavam cheias de carne, e o porco estava lá no chiqueiro na hora de matar, porque não vendia. Eu lembro de ver as galinhas... Gente, a gente fala aqui, acha que é brinquedo? Mas eu lembro de ver as galinhas bicando a carne do porco no chiqueiro, o toucinho dele escorrendo, assim, porque o porco já não aguentava nem levantar de tão gordo. E o meu pai não podia matar, porque as latas ainda estavam cheias. Então, isso era muita fartura, né. E com isso, o meu pai fazia o queijo, a minha mãe fazia aqueles jacás de biscoito, pão de queijo, bolo, aqueles biscoitões compridos. Isso aí era a coisa que a gente vivenciou sempre. Então, assim, o meu pai era um cara de muita fé, muita fé, porque quando você tem fé, as coisas acontecem, né? Porque eu, com cinco anos, presenciei um canavial do meu pai pegar fogo, e vou falar com vocês, você ver um fogo cortar no meio de um canavial, assim, de dia, com o sol quente, é milagre, é coisa que não acontece, não, só acontece com milagre. E eu lembro de ver o fogo que pegou no canavial do meu pai, eu lembro de ver ele bater o joelho no chão e chamar Nossa Senhora da Luzia, Santa Luzia, para cortar aquele fogo. Você ver o fogo taiando, assim, é coisa de se arrepiar, cara. A gente fala assim, as pessoas não acreditam, mas ele tirou o chapéu e pediu a Santa Luzia para proteger o canavial dele. E você ver o fogo cortando, assim, do canavial, até apagar, isso aí é só vivenciando que pode contar essa história. E eu tive o prazer de vivenciar essa fé do meu pai. Essas coisas acontecem com a gente, assim, no dia a dia, por exemplo, eu também tenho minhas crenças, tenho minhas fés, né. Por exemplo, assim, a gente conta as histórias e as pessoas não acreditam. Eu, se eu tiver, às vezes, você corta de motosserra aqui, aquele farelo vem no seu olho, aí a primeira coisa que você faz é esfregar o olho, né? Eu não, eu cuspo no chão três vezes, aqui com a minha fé, e não ponho a mão, e ele some, meu olho não precisa pôr a mão. Então é a fé que faz acontecer essas coisas. Então eu aprendi isso com o meu pai e a gente vai remando aí, né. Agora a minha vida foi isso aí. Eu me envolvi muito com futebol.
07:40
P1 - Mas quanto tempo você ficou lá em Vazamor?
R: Ah, eu saí de lá pra cá, eu estava com oito, sete pra oito anos.
07:48
P1 - Aí a família toda veio pra cá?
R: Aí veio tudo. Aí o meu pai comprou isso daqui do meu avô, né, que é uma área de 90 hectares. E o meu pai comprou do meu avô, vendeu tudo que ele tinha lá e veio pra cá. E quando ele chegou, isso aqui estava um matagal só. E o meu pai na luta. Porque hoje é muito fácil o que a gente faz, porque hoje tem os pretextos pra tudo, você tem o motosserra, você tem o trator, né. O meu pai não tinha nada, o meu pai tinha o machado e a carroça. E esse trabalho que a gente faz aqui hoje, que a gente trabalha com quatro pessoas, meu pai trabalhava sozinho. Então quando meu pai chegou aqui era mais ou menos assim, era um matagal danado, pra você chegar aqui, você tinha que vir com facão. Eu lembro do meu pai fazendo trilha aqui, até chegar lá em minha casa, limpando com facão pra passar, porque era um matagal danado.
08:35
P1 - E com quem ele aprendeu a trabalhar assim?
R: Ah, com meu avô, meu avô Gustavão. É, meu avô era um senhor também bastante conhecido na região lá. É que esse cara começava a conversar com você aqui e o dia entrava pra noite e ele continuava conversando. Eu acreditava muito assim, lembro que quebrava o braço, meu avô ia lá nas tabocas que ele tinha, já cortava elas tudo no tamanhinho assim, arrumava elas, já vinha, botava o mastruz, as tabocas em cima de uma faixa, e ali, quando pensava, dava 30, 60 dias, já estava era bom. Então meu pai aprendeu com meu avô. Que também é lá dos Bagres, esse não é do Vazamor, é de uma comunidade que tem encostado em Vazamor que se chama Bagres. Beleza? E a minha vida é isso aí, gente. Eu cresci assim, vendo o meu pai na luta. A minha mãe era mais inteirada, porque minha mãe sempre foi professora, né. E o meu pai, como eu falei com vocês, ele não sabia escrever, não sabia ler, mas era um cara inteligente e todo mundo gostava. E a gente, infelizmente, perdemos ele muito novo, porque teve problema de chagas, na região lá tinha muitas chagas. Mas era um cara excepcional, se você fizer uma pesquisa com quem conheceu, ninguém vai falar um piso dele negativo, só positivamente. Então isso aí é uma coisa que enriquece muito a gente.
10:14
P1 - Era uma família grande, né, Ronaldo. E como é que era o dia-a-dia dessa família, depois que vocês vieram pra cá?
R: Pois é, foi muito difícil, cara. Muito difícil. A minha mãe já veio lecionando, já veio como professora. E o meu pai na luta aqui, trabalhando dia-a-dia, que era um homem muito trabalhador. E a gente foi crescendo. Infelizmente, nós podíamos ter estudado e não estudamos, não foi falta de meus pais querer que a gente estudasse, a gente não estudou, porque acho que no momento tivemos essa falha. Mas não me arrependo também não, porque eu tenho coragem de trabalhar, né. Eu, assim, sou um cara que hoje sou aposentado, nunca trabalhei pra ninguém, sempre trabalhei pra mim. E não tenho vergonha de falar, eu criei meus três filhos, assim, correndo atrás, apitando jogos de segunda a segunda. Eu apitava em tudo que era lugar da região, era na cidade vizinha, Vazante, João Pinheiro, Patos, Unaí, Cristalina, essa cidade toda aí eu apitei. E apitava todos os dias na Kinross, fiquei 20 anos na Kinross, no Jockey Club, no União, os campeonatos da cidade. E eu apitava era simplesmente pra poder botar o alimento na boca dos meus filhos. Tive a oportunidade de ser profissional, não fui por esse motivo, não tive apoio e não tinha condições financeiras de ir. Meu pai não acreditava nisso e meu pai também, nessa época, em 82, meu pai já estava com problema de chagas. E, com isso, eu tive a oportunidade, mas quando surgiu a oportunidade, eu já estava com 35 anos, não consegui. Mas sou um cara que sou concursado pela Federação Mineira, sou concursado pela Federação Paulista de Futebol, né. Tive a felicidade de estar lá no Palestra Itália com vários comandantes, com o Cléber Machado da Rede Globo, com o Falcão, com o Zico, com o Muricy Ramalho, com o Vadão, com o Paulo César. Então eu tive essa felicidade. Mesquita, Aragão, os caras que você vê falarem assim, aquele Muricy Ramalho mesmo, você o vê falar, você fica uma hora e quer ficar mais, porque tudo que o cara fala procede, né. Inteligentíssimo na área de futebol. Então, a minha vida foi isso aí. Criei meus filhos. Eu tive um sonho, sempre sonhei em ter êxito no futebol, e quando eu tive um problema gravíssimo na perna, que eu tive que parar, algumas pessoas me viram e falaram assim: “O planeta aposentou, né? Ele deve tá bem.” Eu me aposentei sem ganhar nada, porque o futebol amador é assim, você aposenta, me aposentei por deficiência física e não ganhei nada, tive que ir para a luta do mesmo jeito, né. E o meu sonho era assim, eu tinha o Rafael que tentou jogar futebol, pensei que ia, depois lesionou o joelho, não foi, né. Mas minha vida sempre foi isso aí, ligada ao esporte. E hoje eu estou aqui, agarrado aqui fazendo rapadura. Casei muito novo. Quando eu me casei, minha esposa tinha 14 anos, tive que emancipar para poder aumentar a idade e tal. Mas não me arrependo, graças a Deus somos felizes, é uma parceira e tanto que eu tenho, é uma companheira, né. Fiquei ali naquele campo do Alto do Açude, que vocês viram ali, por 20 anos, organizando competições lá para dar conta de sustentar a família, né. Até que, (vou contar uma historinha aqui que não tem muito a ver, mas…) até que eu fui candidato a vereador, assim, arrastado, porque eu acho assim, para ser candidato a vereador, você tem que saber o que você quer, saber os seus objetivos. E eu não sabia nada disso, simplesmente eu mexia com muita gente, e as pessoas que estavam no comando achavam que eu tinha que ser candidato, me arrastaram e me colocaram para ser candidato. Inclusive, eu vi o pessoal comentando assim, “Ah, vamos fazer boca de urna.” Eu não sabia o que era boca de urna, você está me entendendo? Então, um cara que é candidato a vereador, que não sabe o que é boca de urna. Quatro anos depois eu fui auxiliar um candidato aqui, que se chama João Macedo, que era candidato e foi vereador, é que eu fui analisar o que era boca de urna. Na casa dele a gente tinha lá 35 veículos abastecidos, 125 pessoas para fazer a boca de urna para ele um dia antes da eleição. Aí eu fui lembrar de mim, quatro anos atrás eu tinha uma bicicleta velha e só eu e mais nada. Aí que eu fui analisar o que era boca de urna. Então, isso aí é falta de conhecimento e eu não tinha.
15:14
P2 - Mas quando você foi, o que você pensava que era? O que você pensava em fazer como vereador? Como é que era?
R: Se eu tivesse tido a oportunidade, talvez eu teria apoiado a área que eu mexia, que era a área do esporte. Mas eu fiquei assim, tão apaixonado de mexer com várias pessoas, que eu trabalhava na época com 400 atletas ali o tempo todo. E quando eu precisei de 300, 250 votos, eu não fui apoiado. Aquilo, são coisas que, assim, eu vou contar uma coisa de quem eu considero amigo, porque eu não tenho inimigo, mas um amigo meu mesmo, eu lembro que um amigo pediu pra ele, falou assim, (Não vou citar nomes não) mas falou assim: “Vamos votar no Planeta?”. Aí o cara falou assim: “Ah, não! Votar no Planeta?” “Olha, o Planeta falou que se as pessoas não apoiarem ele, ele vai largar de mexer com futebol aqui.” Aí esse amigo meu teve a capacidade de falar que se eu largasse, eu morria de fome, entendeu? Eu fiquei apaixonado, mas também não esqueci, não falei mais nada, larguei de mexer com futebol lá e vim para a luta. Hoje eu montei aqui, eu faço, eu tenho meus campos, eu tenho a minha competição, eu mesmo organizo, eu sou tudo lá. Às vezes os caras falam que eu sou o dono da bola, dono do cartão, do apito e do campo. Então, eu acho que um êxito que eu consegui ter na minha vida foi isso, adquirir as coisas que eu gosto de fazer. Eu tenho prazer em chegar sábado, domingo e eu estar ali com a galera, apitando uma pelada deles lá e fazendo a alegria de todo mundo. E a minha também, que eu sou feliz quando eu estou atuando.
16:58
P1 - Planeta, como é que o esporte entrou na sua vida? Assim, porque você deve ter começado a trabalhar muito cedo, né? Como é que o esporte entrou?
R: Pois é, cara, nós montamos um time aqui que se chamava Milionários, era o Mada Monarca que tomava conta. E aí a gente começou a jogar futebol e fomos, assim, crescendo, crescendo, o nome dos atletas e tal. Aí, de repente, eu comecei a organizar futebol. Nós gostávamos de jogar e o cara parou de organizar, e eu tomei aquela rédea ali e fui organizar, né, cara? Aí no que eu comecei a organizar, as pessoas começaram a valorizar, começaram a gostar, e eu também já comecei apitando ali, descalço, de todo jeito, né, e aprendi a apitar. Lembro que um dia eu estava apitando lá, estavam tendo um problema aí na cidade com o árbitro, que os caras estavam batendo no árbitro aí e tal. Aí eu lembro que o Zé de Aura chegou ali no Alto do Açude e falou: “Planeta, você tem condições de apitar os jogos da cidade?”. Eu falei: “O futebol é uma história só, eu acho que lá não é diferente daqui, não.” E aí ele: “Tem um clássico lá domingo, você vai?”. Eu fui, cara. Fui, cheguei lá, o próprio cara que na época, (vou citar o nome dele aqui, se algum dia ele vir ele vai achar bom) que é o Adilson Torrinha, batia nos árbitros e tal. Aí ele criou problema comigo, e eu sou linha dura, eu sou linha dura, eu disse pra ele que ia advertir, e adverti ele com o cartão amarelo, e acabei tendo que advertir com o vermelho. E ele chegou em mim e disse que ia me esperar lá fora, que eu nunca mais ia expulsar um cara do nível dele, falou comigo assim, que ia me partir todo, falou desse modo. Eu disse pra ele: “Olha, eu aguento dois dias só apanhando, parceiro. Você que sabe.” E aí, o estádio estava cheio, eu lembro que lá no Santana, ele ficou lá em cima na arquibancada, acabou o jogo, como eu fazia de praxe era pegar minhas coisas e ir embora pra minha casa, que eu nunca fui de resenha assim, depois de jogo. Aí eu tô passando, ele desceu a arquibancada, calçado de chuteira, posicionou na minha frente, eu olhei pra ele, ele estendeu a mão e falou assim: “Desculpa aí.” Eu: “Desculpado, irmão.” Dei a volta nele e fui embora. E com isso, eu adquiri o respeito, que até hoje as pessoas me respeitam. Eu tive também um outro caso gravíssimo ali, onde é hoje aquele posto Planalto, onde é a pizzaria hoje, ali tinha um campo de futebol e eu estava apitando um jogo, esse rapaz, não vou citar o nome dele, mas ele ignorou, me ignorou, e eu acabei tendo que dar três advertências, duas advertências nele, e ele chegou em mim e disse que eu nunca mais eu apitaria o jogo, se eu esperasse ele ir na casa dele e voltar, e montou na bicicleta e saiu. E eu fiquei aguardando ali. O irmão dele chegou em mim e falou assim: “Planeta, posso pedir uma coisa?”. Eu falei: “Pode.” “Vai embora. Eu conheço o meu irmão, ele vai chegar e vai atirar em você. Vai embora.” E um dá palpite aqui, outro dá palpite ali, outro dá palpite aqui. Eu olhei o barranco assim, pra ir embora, cara e falei: “Caramba, se eu for embora daqui, acabou o que eu gosto, o futebol vai acabar aqui. Não vou embora, vamos voltar pro jogo.” Chamei os jogadores e a gente voltou pro jogo. Cara, daí uns 20, 15 minutos, olhei na rodovia lá, o cara vinha tocando pedal na bicicleta de cabeça pra baixo, na banguela assim. A hora que o cara posicionou na lateral do campo, que jogou a bicicleta no chão, todos os jogadores que estavam dentro do campo correram, todos. Tinha 21 atletas, correram os 21, só ficou eu. Eu não dei um passo, nem pra trás e nem pra frente. Me posicionei e ele chegou, jogou a bicicleta no chão, sacou uma arma e meteu a arma em mim assim, em distância de 10 metros, eu chegava a ver o bico do revólver fazendo “assim, ó”. E ele dizendo que ia atirar na minha cara, que ia atirar. E acabou não atirando nada. E o irmão dele correu, chamou o pai dele, o pai dele chegou: “Calma, meu filho. Calma, não faz isso, não.” E aí eu fiquei 2 minutos nessa tensão. E nem com isso eu deixei de apitar, porque é o que eu gostava de fazer. Dei uma punição pra ele, ele ficou cinco, seis anos sem jogar futebol. De repente ele veio e me pediu perdão e tal, e tal. Hoje a gente conversa, é amigo e tal, mas foi uma parada dificílima. Mas a minha vida sempre foi isso aí, muita luta, mas sempre com honestidade, né.
21:33
P1 - Isso é importante. Você tem uma relação muito forte com o esporte, mas também são muitos irmãos. Todos eles meio que seguiram pra esse lado, tem essa paixão com o esporte também? Como é que eram vocês assim na juventude?
R: Não, não, não. Eu tive meu irmão mais velho, Bernardo, andou jogando pouco tempo. O Bajojo também jogou, mas pouco tempo. O resto não tem vínculo com nenhum futebol. Mas foi eu mesmo, graças a Deus, foi só eu.
22:04
P2 - E os seus filhos agora?
R: É, os meus filhos agora. O meu filho Rafael sempre teve vínculo com futebol, né. O Anderson sempre gostou de futebol também. E agora estão vindo meus netos aí, que é uma glória de Deus, que acho que agora vai concluir o meu sonho, que é ver eles jogarem futebol. Isso aí vai ser muito bom, graças a Deus.
22:25
P1 - E assim, você é conhecido aqui, por manter essa cultura da rapadura, com toda certeza te acompanhou a vida toda. Como é que você dividia essa relação aí entre a vida, ter que trabalhar, o esporte e essa cultura que você ainda preserva aqui?
R: Pois é, hoje eu acho que a minha vida é uma maravilha, né, cara. Ainda bem que é, né, porque hoje eu já não tenho mais qualidade assim, física pra isso. Mas eu fui corrido, cara, corrido. Eu lembro assim, de eu estar apitando, por exemplo, lá em Cristalina e eu não tinha carro, aí eu saía daqui quatro horas da tarde, correndo, tomava um banho ali, pegava a bicicleta e deixava lá no Zé Correia, ali perto do Itamaraty, pegava o ônibus de cinco horas da tarde ali, cinco e quinze, descia lá em Cristalina, sete horas, quinze para as sete, apitava três jogos, pegava o Novo Horizonte, saindo de Cristalina, onze e meia, meia noite, chegava aqui no Catuí, quinze para as duas, uma e meia da manhã, passava ali, descia no Catuí e vinha embora pra cá de pé. A hora que eu deitava, meu irmão batia na janela: “Planeta, tá na hora.” Porque às quatro e meia da manhã a gente estava descendo pra cá. Então era uma luta! Ali você via que isso não era um dia sim, um dia não, isso era todo dia. O dia que eu não ia em Cristalina era o dia que eu dormia mais cedo, que eu ia pra Kinross, ou então eu ia para o União. E a minha vida era assim. Já teve dia de eu apitar de manhã lá e chegar aqui, apitar aqui ou apitar em Vazante. Então o futebol realmente está na veia, mas aqui quem realmente se envolveu no futebol, foi só eu mesmo, na minha família.
24:25
P2 - Ronaldo me diz uma coisa, você está nesse bairro aqui, São Domingos, que é um bairro bem antigo, bem tradicional aqui, não é? De Paracatu? E é, como você falou, você é quilombola autêntico, né? Como é que é a vida aqui, como é que você participa da vida daqui da comunidade, qual o seu relacionamento, como que se envolve?
R: Eu procuro me relacionar bem com todo mundo, agora assim, eu não sou 100% participativo, é questão de às vezes horário que eles se reúnem, às vezes tempo, mas sempre que posso eu tô presente, gosto de participar, gosto de ajudar. Acho que a comunidade aqui poderia ser muito melhor, em termos de ser quilombola, porque eu acho que hoje é que eles estão acordando, deviam ter acordado 20, 30 anos atrás. Porque aqui era uma família onde todo mundo tinha uma raiz um do outro, “ela é minha prima”, e aí vinha, vinha, vinha. Inclusive, hoje é que as meninas daqui já estão se casando com pessoas de fora, mas de primeiro não, se relacionava só com o povo daqui. E isso acho que era o ponto de partida, né. Hoje já está muito infiltrado, hoje já não é mais aquela comunidade quilombola. Existe a comunidade quilombola, mas existe uma assessoria que chegou aí que não tem nada a ver com a família quilombola, porque aqui a gente era postado em três famílias, que era a família Lopes, a família Ferreira e a família Cotrim. Então essas eram as três famílias que tinha dentro da comunidade, todo mundo era parente dentro dessas três famílias. Hoje não, hoje você chega aí e tem centenas de pessoas que não tem nada a ver com a comunidade, né. Mas infelizmente alguma coisa aconteceu, porque aqui nós tentamos preservar ao máximo. Você pode olhar que dentro da área que é nossa, dentro da área de Dona Cristina só existe o povo da família, nós jamais vendemos lote para quem não seja da família da gente. Mas só que lá, no São Domingos, do outro lado, infelizmente não falaram a mesma língua, então andaram vendendo lote para todo mundo. E veem pessoas... Não é que veem pessoas negativas, tem muitas pessoas boas que vieram, mas também veem pessoas que não somam para a comunidade, principalmente nesse termo aí de questão de ser quilombola. Então eu acho que assim, a comunidade deixou a desejar nesse pé, mas acho que foi falta de comando. Hoje nós temos a Irene que é presidente, talvez se tivesse tido ela uns 20 anos atrás, talvez não teria acontecido isso, né? Mas infelizmente tivemos outros presidentes aí que tinham uma mente diferente, não pensava lá na frente. E também acho assim, hoje tem os recursos para as comunidades quilombolas, a gente sabe que tem, às vezes não chega, mas tem, a gente sabe que tem, né? Quem dera que chegasse 100%. Mas a esperança é que, eu acho meio difícil, mas que voltasse a ser a comunidade que era. Acho que não vai ser fácil acontecer isso, porque hoje eu já estou com medo do município querer municipalizar aqui. E aí já começa a ficar difícil, a gente perde aquela diretriz, perde a rédea das coisas, aquele vínculo familiar que a gente sempre tem aqui.
28:05
P1 - E tem uma associação, então?
R: Tem a associação dos moradores, tem a associação dos quilombolas, eles vincularam as duas associações, porque são as mesmas pessoas que estão à frente, né? Aí para não dar muito desgaste, elas vincularam as duas comunidades, as duas associações. E está girando, está fazendo o possível e o impossível, né. Mexer com gente não é fácil. Eu já fui presidente da associação, mas se fosse para eu ser hoje, eu não queria ser, porque é muito desgaste. Mas está em boas mãos também, que é competente. E a vida é isso aí, nós estamos aí na luta. Pois é, gente, então essa questão da rapadura aí, voltando à rapadura, que, assim, Deus faz o mundo e a gente bem globalizados, né? O mundo é feito para todas as áreas, todos os produtos que a gente usufrui deles. Como eu estava falando para a senhora, tem uma região que é boa para uva, tem uma região que é boa para maçã, outra é boa para açaí, imagina se fosse tudo num foco só? Não tinha graça. Então acho que aqui na região, nossa, graças a Deus, ela é a propícia para fazer essa rapadura que a gente faz, não só aqui, como tem outras regiões. A questão de saber fazer a rapadura, eu acho que eu aprendi bem com meu pai a fazer a rapadura, mas eu vou sempre batendo na tecla, a rapadura, a qualidade dela depende 70% da terra, os 30% é o manejo para você fazer, mas se a terra não dá, você não consegue fazer. Estou falando isso aí, porque eu já vivenciei isso daí, eu tenho uma área ali embaixo que ela era muito pedra, tinha um vereador que estava tirando, limpando um açude ali que nós temos de água aqui no bairro, estava sem lugar para desovar esse material, ele pediu, se eu não tinha, eu falei: “Olha, eu tenho uma área lá que dá para a gente pôr.” Ele trouxe para cá, 500 caminhões na época, trouxe trator, arrumou tudo, ficou igual um tapete o trem. Eu falei: “Aqui eu vou fazer um canavial.” E fiz o canavial e não consegui aproveitar nada do canavial, porque a cana não presta, a terra não presta. É interessante um trem desse, eu tive que arrancar todo o canavial e plantar capineira nela, porque você moi a cana aqui, botava no tacho ali, ela ficava uma hora lá no fogo e você não consegue levar ela para a forma, ela tem que tirar no balde, ela não dá ponto, ela fica lá, queima até empretecer, dá um gosto horrível e não dá o ponto. Então, acho que a terra é fundamental. Agora, existe um processo em que a cana para rapadura não aceita adubo. Eu não sou formado em nada, eu fiz o quarto ano primário, mas eu já debati com o técnico Agrícola, e ele protestando que botava um adubo e botava outro. Eu falei: “Qualquer um que você quiser botar, nós vamos apurar os fatos, qualquer um que você botar atrapalha, não aceita. Eu vi no Globo Rural, e o Globo Rural é positivo, correto, só aceita o pó do bagaço, que é esse que a gente tira da cana aqui. Mas isso é coisa de Deus, porque o que você tira da cana, não se desperdiça nada. A folha da cana apodrece lá e ajuda a adubar a terra. A folha, que é a folha da cana, você traz, leva para a ensiladeira, sila, as vacas comem e se mantém durante a seca. A espuma que você tira do tacho, você leva para o porco ali, eles chegam a lamber o chão onde a espuma cai. Então é coisa que não se desperdiça nada, mas é nada, sabe o que é nada? Nada. Então ela é 100% aproveitável. Então é por isso que eu falo com você que ela é abençoada. E assim, é uma purificação, por exemplo, você pega um tacho daquele grande ali, você bota dentro 200 litros de garapa, você pode ir ali e contar as rapaduras que um tacho daquele dá, ele dá 20 rapaduras de 1,1 kg. Aí você imagina, você bota 200 litros e resume em 20. Então a purificação é severa, qualquer produto que você colocar lá, a hora que chegar no ponto da rapadura ela vai repercutir lá no ponto da rapadura, se é salobra, se deu sal, entendeu? Então não pode pôr nada. Então por isso que eu debati com esse técnico agrícola, dizendo pra ele que eu tinha conhecimento, vi meu pai falar disso e fazer isso. E eu faço isso e vou protestar sempre. E toda vez que colocar, vai ter esse problema. Às vezes você compra uma rapadura ali, você morde, parece que tem sal nela, mas não é, é o esterco de gado que as pessoas põem que não pode, é o adubo que põe, é a ureia que põe, é o calcário que se põe pra renovar a terra, a terra não pode pôr nada. Você coloca o bagaço lá hoje e deixa ficar ali dois, três anos no meio da cana, ele vai apodrecendo, depois você vem com o trator e gradea aquilo tudo, mistura aquele bagaço na terra, você pode plantar a cana de novo que ela vai nascer com cada broto que você olha e fala que é benção de Deus. Mas então, isso aí já é conhecimento mesmo.
33:34
P2 - Então, esse conhecimento, esse saber que vem do seu avô, do seu pai, você está passando pra alguém?
R: Uai, assim, eu sou o cara que mais tô à frente, mais tô praticando, mas tem os meninos aí que conhecem também. A gente não é eterno, eu creio que o dia que Deus me levar vai ter outros aí. Nós somos 14, igual eu falei com você, somos 14 irmãos, só sobrou eu e o Bajojo aí, que tá mexendo aqui. Eu tenho três filhos, eu tô vendo o Fabrício ali agora, já tá bem tarimbado na coisa, já dá conta de bater, já dá conta de tirar o ponto, então vai aprendendo. Eu creio que daqui uns 2 anos eu já posso vir pra cá só sentar na cadeira ali. (risos)
34:30
P2 - Mas eles estão aprendendo a cuidar da terra também?
R: Já, já. Fabrício é assim, é um cara positivo, espetacular, né. Eu tenho três filhos e Deus faz as coisas muito corretas, os outros dois, o Anderson mora lá em Manhuaçu, aqui perto de Vitória, e aos 14 anos ele foi pra Brasília e nunca viveu aqui com a gente e tal. O Rafael está indo para o Rio agora também, acompanhar o filho dele que joga futebol. E o Fabrício tá aí, que é meu braço direito, né. Então eu só tenho que agradecer a Deus por isso. Assim, eu fico emocionado de falar.
35:09
P2 - É emocionante mesmo.
R: Mas é assim, Deus faz a vida da gente assim, né, cara. O Fabrício, por exemplo, quando ele saiu para o exército, ele falou comigo assim: “Pai, eu vou e eu volto.” Então é coisa de Deus, porque a gente tá aí na luta.
35:38
P2 - É coisa de Deus com uma ajudinha sua, né?
R: Lógico, a gente cria os filhos bem criados para isso, eles reconhecerem que alguém tem que cuidar dos pais. E eu acho que o Fabrício é um desses caras que vai tá aí cuidando da gente no futuro. Não é falar que os outros não cuidam, não. Eu tenho três filhos que são maravilhosos, os caras são todos homens, são todos pais de família. Mas eu tô falando de Fabrício, porque é ele que tá com a gente aí, vivenciando comigo, agarrado, um cara que sabe respeitar, trabalhador, se preocupa comigo. Os outros também se preocupam, lógico, mas tem a vida deles. E é isso aí, eu sou feliz com isso. Eu acho que Deus não fez nada de errado na minha vida, só assim, hoje eu fico analisando a gente, eu sou pobre e me orgulho de ser pobre, mas tenho uma vida boa, porque eu já morei de aluguel, por exemplo, onde eu dividia uma casa com duas famílias, tinha um banheiro que tinha que servir a família A e a família B, às vezes, se eu queria ir no banheiro, não podia ir, porque o filho do outro estava usando. Se você chegar na minha casa hoje, juntamente com o meu comércio lá, eu tenho lá oito, 10 banheiros. Então eu acho que é glória, né. E assim, é tudo tirado da unha, do trabalho, né. Então não posso reclamar de nada não, só agradecer. Meus filhos são todos trabalhadores. Anderson foi pra Brasília com 14 anos, hoje você chega lá e tem um apartamento em Águas Claras, um apartamento que custa 2 milhões de reais, tudo adquirido na luta, se formou em administração rodando a distância de uma cidade na outra, quase que de pé, porque ele não tinha nem dinheiro para pagar coletivo. Então é uma luta, né. O Rafael saiu novo pra jogar futebol, jogou no Gama, jogou no Vila em Goiânia, eu vi vários jogos dele no Mané Garrincha, vi lá naquele estádio de Goiânia também e tal. Achei que ia jogar futebol, de repente foi disputar a Taça BH, quebrou a rota do joelho e parou de jogar. Chegou aqui, falou comigo para eu arrumar um serviço pra ele. E eu tinha uma amizade muito boa na Kinross, boa mesmo assim, de ter amigos de frente mesmo, assim, de Ludovico, que era gerente-geral, Luiz Alberto, que era gerente-geral, Rogério Maia, Paulo Gontijo, que é meu amigo assim, de vir na minha casa. E eu lá só fazendo humildemente, comandando o futebol pra eles. Mas por quê? Porque eu levei para o treino a seriedade de um nível, que eu fiquei lá 20 anos, eles queriam me contratar pra ficar lá, ser funcionário da Kinross só pra tomar conta dessa área de esporte. Eu recusei, porque pra mim, eu não nasci pra ficar preso assim. E graças a Deus eu tive a decisão correta, porque eu acho que a minha vida seria isso aqui. Porque eu tive um parente também, que era comandante do Corpo de Bombeiros, engatou pra eu ser do Corpo de Bombeiros. No dia da minha despedida eu vim moer uma cana aqui, naquele engenho ali, e enfiei os dedos aqui, ó, pra vocês verem, o engenho comeu meus dois dedos aqui. Então é história, os dedos caíram dentro da garapa ali, nós íamos tomar a garapa, tínhamos acabado de comer carne de porco lá em casa, então eu acho que poderia ter consequências graves. E paramos por aqui, e aí fui dispensado, não servi nada e tô garrado aqui até hoje, né.
39:15
P1 - E como você acha que você contribui para preservação dessa cultura, tanto dessa coisa da família quilombola, quanto dessa cultura hoje também, aí, da rapadura aqui para Paracatu?
R: Pois é, falando da família quilombola, pelo menos aqui no São Domingos, eu tô notando o seguinte, quem é quilombola está se agrupando, estão participando das reuniões, estão fazendo as coisas acontecerem e os benefícios tão vindo. Mas não é todo mundo que veste a camisa, entendeu? Tem muitos aí que são quilombolas e que não fazem isso acontecer. Então eu acho que isso está melhorando e muito. Com relação a essa cultura aqui da rapadura, hoje eu tô vendo um crescimento enorme, porque a gente hoje já faz parte do tour que é o turismo da cidade, eu já fui convidado para várias palestras no Sebrae pelo motivo da rapadura. Eu acho que hoje, realmente, está evoluindo muito. Eu estou fazendo um trabalho aqui de palestra, que eu gosto de falar muito, eu recebo aqui em torno de 180 crianças semanal, turma aí de 40 crianças por dia, tanto na parte da manhã, quanto na parte da tarde, né, e dou palestra para todas essas crianças. Vejo que está sendo bastante divulgado, porque tem muitas crianças que já vêm naquela curiosidade de ouvir alguma coisa, e a gente passa pra eles, criancinhas pequenas. Outro dia eu fiquei abismado aqui, a hora que eles estavam indo embora, eu tive que dar autógrafo, gente, é brincadeira um trem desse? Dei autógrafo para as crianças que veem aqui participar e visitar o engenho, né. Então, e a gente tem algumas controvérsias, por exemplo, hoje você visita a Casa-Museu dos quilombolas e tem uma taxa que eles pagam, uma taxa de entrevista e eu não fui, assim, a favor disso, “Ah, mas você teria que cobrar para dar uma palestra.” Eu não dou conta de ser assim. E aí eu a situação que eu passei para eles foi o seguinte, eu hoje, criei um rapadurinha eu tenho as formas ali, o ano passado vinham as crianças aqui e eu acabava tendo era prejuízo, além de eu ter que falar muito, eu ainda tinha que partir rapadura pra crianças, porque estava dando água na boca deles, né. Aí eu criei, juntamente com o tour aí, a rapadurinha. Hoje eu fabrico a rapadurinha já. Então quando as crianças vêm aqui, cada criança que chega aqui, já leva a rapadurinha embaladinha pra comer em casa né. Então com isso, estou criando muito espaço. Já vieram pessoas aqui que comeram da rapadurinha na casa deles, nem sabiam, vem, visitam o engenho, acabam gostando e vem outras vezes. Então, acho que é essa divulgação que está tendo. Uma vez eu fiz aqui com aquele da Alterosa, Toledo, né? Toledo. Fiz com ele aqui também. Ele chegou na porta ali, eu falei: “Caramba, já apitei algum jogo desse cara.” Aí eu falei: “Quem é esse cara, bicho?”. Só eu. Eu estava sozinho aqui, no que eu olhei na janela, eu vi o carro do Alterosa: “Caramba, é o carro do Alterosa.” Aí a gente bateu um papo legal também, ele divulgou, depois ele trouxe um time dele do Alterosa pra jogar aqui. Aí eu acabei expulsando o jogador dele, (risos) e ele não achou que foi legal. Então tem isso também, né. (risos) Mas é isso aí, eu acho assim, é importantíssimo essa questão hoje desse movimento que estão fazendo aí em prol da cultura, rural, né? Porque ninguém falava de cultura rural. Hoje ela está crescendo e já está fazendo parte do turismo né. Isso é fundamental! Eu acho que quando eu estava falando aqui, imagina se a nossa comunidade fosse uma comunidade voltada 100% aos quilombolas? A gente realmente poderia ter muita coisa pra oferecer aí, muita coisa pra oferecer. Mas hoje estamos meio termo, né? Vamos ver o futuro aí, o que vai acontecer.
43:55
P2 - Então, mas o senhor falou que muita coisa mudou e que algumas coisas até para melhor, por que mudou? O que causou esse maior interesse e mais procura? O que é que mudou?
R: Uai, eu acho que o principal que mudou é, por exemplo, aqui nessa região nós tínhamos, nós aqui, tinha o Seu Antônio Porto, aqui no São Sebastião, tinha o irmão dele, João Porto, ali na Lagoa nós tínhamos várias pessoas que faziam a rapadura, hoje, se você pegar aqui a Lagoa, você vai andar, vai andar, vai andar e não acha quem faz. O Seu Antônio Porto morreu, o Seu João Porto morreu, ficou o Seu Paulo, que era pai de uma nora minha, ele fazia, faleceu. E se você chegar lá hoje, a tenda está lá parada, não tem mais quem faz. Então esse, eu acho que é o foco da coisa, dar continuidade, né. E eu acho que não deram. E com isso, aqui é um lugar que é roça, aqui é roça e cidade ao mesmo tempo, porque a gente está quase que dentro da cidade. Você vê, você sai da cidade, vem aqui no engenho, dentro de 10 minutos, e comprar uma rapadura e voltar, isso é difícil, né? E aqui você consegue fazer isso, o cara dá vontade de comer uma rapadura, ele vem aqui, compra ela e vai embora. Então, acho que aí está criando essa diferença. E por estar diminuindo muito, eu acho que o pessoal está focando muito nisso aqui, nessa cultura aqui. E é interessante, tem criança que chega ali e fala: “Como que uma cana vira rapadura, né?”. A gente acha que não, mas como que uma cana vira rapadura? E outro dia, no que chega uma escola aqui, as crianças estavam fazendo um trabalho na escola com o bagaço da cana, aí a professora… por isso que eu falo com você, tem 20 alunos, 10 que estão ali focados e 10 que não estão prestando atenção. Aí a professora fez uma pergunta para eles: “Qual de vocês tem condições de explicar para o Planeta, o que nós estamos fazendo com o bagaço da cana?”. Aí a criancinha de 10 anos foi me falar que eles estão fazendo o papel do bagaço da cana, o papel. E ele falou: “A gente vai trazer o papel aqui pra você ver.” Eu falei: “Olha, agora eu que estou surpreso, porque eu não sabia que o bagaço da cana se transformaria em papel.” E os meninos já estão fazendo na escola. Então uma coisa vai chamando a outra. E por eles estarem fazendo, assim, estavam nesse período desse estudo lá, isso foi o SESC, eles que trouxeram essas 80 crianças aqui pra gente fazer esse trabalho. E foi interessantíssimo!
46:48
P1 - E hoje, o que que isso tudo representa na sua vida, Planeta?
R: Uai, cara, representa tudo. Assim quando você trabalha que você ganha, assim, hoje isso aqui nos dá um retorno aí mensal de, em média, 18 mil reais mensal, correto? Esses 18 mil reais a gente distribui entre três irmãos, que é aquele, Bajojo que passou, Fabrício, meu menino e eu. Entendeu? Por que? Porque a gente, a hora que a gente pega essa cana pra capinar, é 90 dias capinando, você não vê retorno. Então, o que muda? Parece que se você trabalha todo mês e ganha 6 mil, a hora que dá o final do mês, parece que você está precisando que o dinheiro caia de novo, né? Aqui, você passa uma temporada de 6 meses trabalhando, fazendo a rapadura, cara, a hora que vem a temporada de novo, você ainda tem dinheiro da rapadura, é um trem interessante, ele é abençoado, parece que ele aumenta, entendeu? Então, eu acho que essa é a diferença de a gente estar aqui mexendo com isso. Igual eu comentei com vocês, vou tornar a repetir aqui, eu mexi com ouro, o trem vaporiza. Eu tirava o ouro, dava sexta-feira, você pegava aquela bola de ouro, ia no sábado trocar de manhã, voltava com o bolso cheio de dinheiro, quando é terça-feira você não tem dinheiro nenhum. A hora que o garimpo acabou, a gente não tinha nada, deixou com uma mão atrás e outra na frente, nada, sabe o que que é nada? Até os motores que tinha, que você usava, os donos de oficina vieram buscar para pagar dívidas. Então a cana, isso aqui é abençoado, é diferente, né. Quando a gente parou, você vê que você planta ali, eu plantei uma carroça de muda de cana, busquei lá no Seu João Porto, uma carroça, plantei um quarteirão, nesse quarteirão, se eu quisesse ter isso aqui tudo de canavial, os 90 hectares, eu tinha, né? Então ela é abençoada, ela te dá retorno mesmo.
48:57
P2 - Tudo o senhor aproveita? O senhor não vende nada? Assim, não vende o bagaço, não vende, como o senhor falou, dá para aproveitar?
R: Não, não, não vende nada, tudo aqui é aproveitado aqui, o próprio bagaço aqui, o que não vai para a cana, vai para a ensiladeira para tratar das vacas agora durante a seca. Então ele não desperdiça nada, nada, nada, mesmo. E assim é 100% natural, né? 100% aproveitável e 100% natural. Assim, eu não sei, se eu fizesse uma rapadura daquelas horríveis, que você tinha que amontoar igual amontoa tijolo, se eu estaria falando isso aqui, talvez tem gente que faz, né? Mas, talvez, não é porque ele não dá conta de fazer, é porque talvez a região dele não dá essa qualidade, né? Às vezes o cara só consegue vender ela para o cara fazer pinga. Então, eu não sei se eu faria não. Mas com a aceitação que tem a minha rapadura, que todos os dias tem pessoas que pensam assim: “Putz será que eu levo essa rapadura hoje?”. O outro já está ligando pra levar. Hoje tem cara de comércio que busca rapadura aqui. Então é fundamental. E outra coisa, é o movimento, essa minha irmã que chegou aqui, ela vende 70, 60% da minha rapadura, dia, ela vende por dia, todos os dias ela vende, tem a porcentagem, é uma pessoa que todos os dias me paga ali, R$ 800,00, R$ 900,00, 1.000,00 reais por dia, ela me paga todo dia. Então, ela tem retorno com isso, né? Porque ela traz aqui, eu faço a rapadura de mamão, ela traz o pau do mamão, só o miolo branquinho, aquele trem bem feito, no jeito, traz o leite, ela traz amendoim todo torradinho, já triturado, no ponto, para eu fazer. Todos os dias, dois tachos que eu faço, já é dela. E ela era sofrida, porque ela já vendeu essas rapaduras aqui no tabuleiro, na cabeça. Hoje não, ela tem duas motinhas que ela transporta rapadura para a cidade, hoje ela está vendendo no “zap”, né? Se diz assim? Não tem aquela dificuldade mais. Então acho que até isso é envolvente, você vê que a sua família está focada ali, se envolvendo ali, porque é lucrativo, o trabalho da gente é valorizado, isso é bom demais.
51:34
P1 - E é uma comunidade, né?
R: E valoriza a comunidade também. Tanto que hoje, o engenho já faz parte do roteiro, do turismo da cidade, né. Inclusive, quando me roubaram os tachos aqui, eu assim, aqui é um local que a gente recebe todo tipo de gente aqui, e aqui a gente não discrimina ninguém, se a senhora chegar é bem tratada, o malandro chega ali, eu não dou muito assunto, mas se quiser tomar uma garapa: “Fica à vontade.” Então, quando roubaram meus tachos aqui, imagina, a gente abriu a porta da casinha, estavam só os buracos lá, os tachos não estavam, de madrugada, aquilo é um baixo astral danado, um nervosismo danado. Aí, olha o que aconteceu, eu liguei pra um cara ali no Alto do Açude, eu falei: “Rapaz, roubaram minhas coisas aqui.” Ele falou: “Não, eu não acredito não! Nós vamos descobrir quem foi.” Isso era 10 horas da manhã, a hora que deu 01 hora da tarde, eles já estavam com o cara amarrado, o cara que roubou os meus tachos. Você acredita? “Planeta, nós estamos com o cara amarrado, o que você quer que faça com ele?”. Eu falei: “Não quero que faça nada, só quero as minhas coisas de volta.” “Então tá.” Aí pegaram o cara, o cara tinha vendido pra um senhor, não vou citar o nome dele, lá do Paracatuzinho, deu com o cara uma volta de moto lá, “Eu vendi para aquele senhor lá.” Largou o malandro lá amarrado, ele veio cá e me pegou: “Planeta, vamos lá. Planeta, o senhor que comprou é aquele que está sentado ali.” Aí o cara foi embora, eu desci da moto e fui lá. Cheguei e falei: “Boa tarde, senhor!". Ele: “Boa tarde!”. “Como é o seu nome?”. “Fulano de tal.” Eu falei: “Deixa eu falar com o senhor, estou aqui atrás disso, disso e disso.” Eu lembro que o velho estava com um feixe de chave na mão, ele jogou a chave no meu rosto, pegou aqui na minha bochecha, aqui a chave. Aí eu recuei, eu falei: “Caramba!". Aí um amigo meu lá de frente falou assim: “Planeta…” Conheço muito ele. “Planeta, o que é que está acontecendo? Vem cá.” Aí eu fui lá nele, o Kleber, aí ele pegou e falou assim: “Planeta, o que é que está acontecendo?”. Aí eu contei a história pra ele, ele falou assim: “Acho que não, viu, Planeta. Eu vou lá conversar com ele. Ele é amigo meu.” E foi lá, conversou com o velho. Enquanto ele estava conversando, tinha um senhor de lado assim, assobiando pra mim, sabe? Aí eu me aproximei dele e falou assim: “Deixa eu falar com você, esse velho aí não vale nada! Eu vi o caminhão saindo daqui hoje, não era seis horas da manhã, de ferro velho.” Falei: “Tá certo.” Aí o Kleber voltou e falou: “Planeta, você está enganado, não foi ele não.” Falei: “Foi ele sim, Kleber. Eu vou voltar lá de novo.” Cheguei lá, chamei ele e falei: “Deixa eu falar com o senhor, eu não tô aqui no escuro não, o senhor jogou uma chave na minha cara aí agora, dizendo que não mexe com malandro. Eu não tô aqui no escuro não, eu tô com o cara que te vendeu, amarrado, já trouxe ele aqui, ele já identificou o senhor aqui. Eu vim aqui pra tentar resolver a situação, se o senhor não quer resolver eu vou chamar a polícia.” Logo que eu virei as costas ele já me chamou: “Oh, Seu Planeta, vamos resolver aqui.” Eu falei: “Mas resolver o que? O senhor falou comigo aí agora, jogou uma chave na minha cara, falou que o senhor não mexe com malandro.” “Não, o senhor sabe como é que é, a gente às vezes vacila, né? Compra o trem de pessoas que a gente não conhece.” Então, ele tinha comprado. E aí, é que eu estou falando com você, o peso que tem é onde eu quero chegar, o peso que tem você ser de uma comunidade quilombola e você fazer parte da cultura da cidade. Aí eu falei assim: “Pra quem você vendeu meus trens?”. Ele falou assim: “Eu vendi pra aquele…” E me deu uma folhinha. Aí eu liguei lá no cara falei: “Rapaz, você comprou uns tachos de cobre aí, e você sabe que é proibido comprar tacho de cobre. E você arrumou um problemão pra você, porque esses tachos são de uma comunidade quilombola, isso aí faz parte da cultura da cidade, deu uma repercussão negativa aqui que você nem imagina.” O cara falou: “Pelo amor de Deus! Estou mandando de volta.” Estava em Uberlândia já. “Tô mandando de volta pra você amanhã.” Eu falei: “Amanhã é tarde, cara, tem que vir é hoje.” “Não, tô mandando de volta pra você, tô mandando de volta. Pode esperar, daqui 03 ou 04 horas, esse trem está aí.” E veio mesmo, imediato. E eu fiquei lá, fiquei esperando, vim embora, voltei lá depois. A hora que eu voltei lá eu falei com o senhor: “Eles estão mandando meus tachos de volta, eu vou vir aqui buscar, beleza?”. “Beleza.” A hora que eu cheguei lá, rapaz, que eu vi o cara vindo com os tachos dentro de um saco, eles tinham cortado os tachos tudo, sabe? Aí eu fiquei estressado, acabei chamando a polícia, deu BO, prenderam o cara e tal. Depois eu recebi uma ameaça aí, eu fui retirar a queixa, larguei pra lá, porque não estava compensando. Então é isso que eu estou falando com você, hoje é importante você fazer parte da cultura, porque tem um certo processo ali que vai te elevar um pouco, a questão de se fazer parte da cultura, de ser de uma comunidade quilombola.
56:29
P1 - Planeta, já caminhando para o final, o senhor já viveu muita coisa, com toda certeza a gente acredita que o senhor ainda tem muita coisa pra viver, mas qual é o seu sonho hoje?
R: Meu sonho hoje é ir no Maracanã, ver um FlaFlu no Maracanã e ver o Cristian jogando e fazendo gol, que ele sabe fazer gol, ele sabe fazer gol. Ele decidiu agora lá, já na base, mas fez dois gols lá contra o Flamengo, um em Xerém e outro lá na Gávea. Então, eu acho que isso vai acontecer no futuro também. E também ver o meu outro neto, o Lucas, que está lá com o pai dele, com todo sacrifício, separado da mãe, com a outra filha, separado assim, pela distância, simplesmente para atender o que o filho quer fazer, que é jogar futebol. Acho que é fundamental a gente saber e apoiar o que os filhos da gente querem, né? O meu neto, acho que o Cristian lá no Rio, é assim, o que eu posso fazer, eu faço, não deixo de fazer hora nenhuma. Hoje a gente não imaginava nunca que isso poderia acontecer, inclusive como eu vivenciei muito isso aí, desde que o garoto tinha cinco anos, eu já sabia que ele poderia dar frutos, mas a mãe não acreditava. O dia que eu falei com ela que o Cristian tinha passado, que ela tinha que mudar, ela pulou pra trás e falou que não ia de jeito nenhum. Aí eu falei: “Agora, então, pode esquecer tudo.” Dentro de três dias ela resolveu ir e hoje eles estão lá, já vivenciam mais lá do que aqui, tem a casa, já alugou apartamento, tá com a sua casa lá, tranquilo. É mais um lugar que a gente tem que ir. Mas o meu sonho realmente é isso aí, se Deus me der essa graça, tá bom demais.
58:30
P1 - Maravilhoso! E pra fechar, você já deve ter feito isso algumas vezes, deve ter conversado, você gosta de conversar como um bom mineiro, né? Como é que foi contar a sua história pra gente aqui?
R: Uai, cara é sempre bom, né. Primeiro é um prazer conhecer vocês, que sejam bem-vindos que possam vir outras vezes e que Deus possa nos dar saúde pra gente se encontrar novamente, porque a gente não sabe o dia de amanhã. Mas é prazeroso, lógico, receber vocês aqui, em um pedaço do dia, aí bem à vontade, isso é muito importante, né? Bem à vontade. E que Deus ilumine todos nós, que possamos ver aí as graças e o sucesso, não só dos meus netos, dos meus filhos, mas dos filhos de vocês também, dos netos, de toda a família.
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