Pode parecer um pouco estranho para algumas pessoas, que ainda mantém certa estereotipia sobre o “ser pescador”, como classe de trabalhadores mentirosos e invencionistas; mas o que vou relatar não é, literalmente, uma estória de pescador, mas sim uma história de um pescador, a minha. É, indubitavelmente, algo muito mais impactante, haja vista que as \\\"estórias de pescador\\\" são entendidas como inverdades, e quando têm algum impacto, é cheio de negativismo, coisas que me deixaram estigmas na pele a na alma. A história de luta pela autoeducação e o sonho de preservação do meio ambiente; tudo o que há por trás do pescador, do poeta e do estudante Manoel Ramos.
A história da minha vida confunde-se com a de outras pessoas em volta do mundo, que também tiveram, literalmente, que tirar as pedras do caminho para poder caminhar. Eu nasci em Belém do Pará, no dia trinta de dezembro de 1970, acredito que não por descuido, mas por cuidado. Meu pai era uma dessas pessoas, embora semialfabetizado fosse, que tinha uma enorme preocupação com a família.
Trabalhava como pescador, mas entre uma “maré grande” ou “águas grandes” e outra fazia “bicos” como vendedor ambulante para ajudar no orçamento familiar, mas para isso teria que comprar seus produtos – roupas e afins – em uma cidade, haja vista que a comunidade não lhe dava essa condição.
Em uma dessas viagens à Belém, levou consigo minha mãe e eu, que resolvi nascer por lá, mas que logo dois meses após o meu nascimento fui trazido de volta pra casa, na Vila de Ajuruteua onde vivo desde então.
Meus pais me ensinaram desde cedo que para aprender a viver a gente tem que treinar todo dia, e depois que aprende a gente tem que continuar treinando para não morrer de repente ou ser surpreendido pelo acaso, principalmente quando se assume a profissão de pescador
Minha vida de pescador começou muito cedo, com apenas doze anos de idade (dou mais detalhes adiante). Em...
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Pode parecer um pouco estranho para algumas pessoas, que ainda mantém certa estereotipia sobre o “ser pescador”, como classe de trabalhadores mentirosos e invencionistas; mas o que vou relatar não é, literalmente, uma estória de pescador, mas sim uma história de um pescador, a minha. É, indubitavelmente, algo muito mais impactante, haja vista que as \\\"estórias de pescador\\\" são entendidas como inverdades, e quando têm algum impacto, é cheio de negativismo, coisas que me deixaram estigmas na pele a na alma. A história de luta pela autoeducação e o sonho de preservação do meio ambiente; tudo o que há por trás do pescador, do poeta e do estudante Manoel Ramos.
A história da minha vida confunde-se com a de outras pessoas em volta do mundo, que também tiveram, literalmente, que tirar as pedras do caminho para poder caminhar. Eu nasci em Belém do Pará, no dia trinta de dezembro de 1970, acredito que não por descuido, mas por cuidado. Meu pai era uma dessas pessoas, embora semialfabetizado fosse, que tinha uma enorme preocupação com a família.
Trabalhava como pescador, mas entre uma “maré grande” ou “águas grandes” e outra fazia “bicos” como vendedor ambulante para ajudar no orçamento familiar, mas para isso teria que comprar seus produtos – roupas e afins – em uma cidade, haja vista que a comunidade não lhe dava essa condição.
Em uma dessas viagens à Belém, levou consigo minha mãe e eu, que resolvi nascer por lá, mas que logo dois meses após o meu nascimento fui trazido de volta pra casa, na Vila de Ajuruteua onde vivo desde então.
Meus pais me ensinaram desde cedo que para aprender a viver a gente tem que treinar todo dia, e depois que aprende a gente tem que continuar treinando para não morrer de repente ou ser surpreendido pelo acaso, principalmente quando se assume a profissão de pescador
Minha vida de pescador começou muito cedo, com apenas doze anos de idade (dou mais detalhes adiante). Em tempos atuais, onde o falso moralismo impera em grande parte da sociedade e ninguém se preocupa em buscar as razões pelas quais milhares de adolescentes, que ao invés de estarem na sala de aula estão trabalhando, e que quando são impedidos por lei de exercer uma profissão, ganham a chance de envolver-se na criminalidade.
Chance esta que serve apenas para essa mesma sociedade hipócrita e insana ter como manifestar-se, marginalizando esse adolescente, isso poderia ser considerado um crime. Mas na comunidade de pescadores de Ajuruteua, assim como em muitas outras ao redor do mundo – explico mais adiante – a vida de pescador começava precocemente.
Dos doze aos trinta e oito anos de idade, período em que fui pescador. Um fator preponderante para que se começasse a pescar ainda na adolescência na Vila de Pescadores de Ajuruteua, além do fator cultural, era a falta de outras perspectivas.
A escola local, com grandes dificuldades, como a falta de estrutura e de profissionais capacitados, atendia apenas até a quarta série do já extinto primário, e a grande maioria dos pais não tinham condições financeiras de alocarem seus filhos em escolas na sede do município.
Aprendíamos alguma coisa, graças ao esforço dos professores, que sem nenhuma formação acadêmica se desdobravam entre um turno e outro para tentar provocar em nós o gosto pelo conhecimento.
Outro fator, talvez o crucial, seria a taxa de natalidade que era altíssima, quase todas as famílias eram compostas de mais de sete indivíduos, a minha era composta de catorze pessoas (pai, mãe, eu e mais onze irmãos), isso fazia com que os irmãos mais velhos começassem a trabalhar muito cedo para ajudar no sustento dos mais novos e esse trabalho seria sempre algo mais artesanal, menos técnico – no sentido de conhecimento institucionalizado – restando, diante a prática cultural e espaço geográfico, a pesca. Vale salientar também que a pesca nos leva à um ciclo vicioso, ou seja, quem entra na pesca dificilmente consegue dela sair.
Mesmo sabendo que teria dificuldade, mediante esses fatores, meu sonho era para de pescar e voltar a sala de aula, concluir meus estudos e tentar ser um pescador diferente. Assim, comecei a carregar em minha bagagem de pesca, muitos livros, além do forte desejo de aprender.
O tempo foi se passando e entre uma temporada e outra de pesca, o gosto pela leitura foi aumentando, e aquilo que eu havia tomado como objeto para distração, virou em minha vida, um compromisso e ao invés de um, já iam vários livros para eu estudar, para insatisfação de muitos companheiros que me achavam um louco, embora minha curiosidade pelo saber fosse maior que suas apatias. Já dizia Paulo Freire na obra A importância do ato de ler, livro que também estava entre os que adotei como essenciais para minha vida, pois, “No fundo o ato de estudar, enquanto ato curioso do sujeito diante do mundo é expressão da forma de estar sendo dos seres humanos, como seres sociais, históricos, ser fazedor, transformador, que não apenas sabem, mas sabem que sabem.
Entre os livros que eu costumava levar em minha mochila de pescador, o citado, outros como a pedagogia da autonomia e da libertação, entre outros do autor, estavam autores como Victor Hugo, Miguel de Cervantes, Machado de Assis, Jorge Amado, Ariano Suassuna, Drummond, Clarisse Lispector, enfim, e como literatura é literatura em qualquer lugar e não importa o gênero, entre estes que li estava também o folheto de cordel, que meu pai havia me apresentado bem antes, e que agora com o dinheiro que ganhava na pesca, além de ajudar na compra daquilo que era essencialmente básico, para suprir as necessidades da família, sobrava algum para a compra de livros e investir na minha autoeducação.
Durante os anos em que passei me preparando de barco em barco, para voltar a sala de aula, passei por tudo aquilo que hoje chamamos de Bullyng, preconceito, discriminação, enfim, mas a tudo eu consegui vencer, até um dia da mesma forma como entrei, ou quase da mesma forma, sai da pesca.
Quando consegui desprender do circulo vicioso da pesca, também por motivos de saúde, depois de vinte e seis anos, tive a impressão de que tudo acabara para mim, tudo o que tinha em nível de escolarização resumia – se a quarta série, tudo que sabia era pescar, e agora não podia mais.
. Depois de dois anos sem trabalho a escola da comunidade me recebeu, desta vez, como funcionário, seria vigia e começava a partir daquele momento a saga do pescador de letras, para começar ministrei algumas oficinas, de cordel, na escola Domingos de Sousa Melo, na Vila de Ajuruteua, onde descobri minha verdadeira vocação para a docência.
Na escola fui descoberto, como poeta de cordel, pelos professores que me deram total apoio na área da escrita e me incentivara a voltar a estudar. Na verdade, voltar a estudar não sei se seria a expressão correta. Eu já tinha tanto conhecimento dos livros que o que eu precisava não era de estudos, mas de certificação. Fiz um concurso público municipal, onde muitos subestimaram o meu conhecimento e viram, depois com espanto, eu ser aprovado.
Desse modo, com emprego fixo, resolvi voltar a estudar, dois anos consecutivos pela Escola Radiofônica de Bragança (SERB), onde conseguir certificado a nível fundamental. Em 2013, fiz o ENEM pela primeira vez, sem ensino médio, resolvi usar as boas notas para certificação a nível médio pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará. No ano seguinte fiz a prova do Enem e novamente fui aprovado e costumo dizer que não precisei estudar o nível médio para chegar a tão almejada Universidade Federal do Pará, UFPA.
Quando comecei o curso de Letras nesta Instituição Federal de Ensino, tive um pouco de dificuldade, um pouco de vergonha no princípio sobre como os meus colegas de classe iriam me receber, haja vista que eu era o ais velhos entre eles, depois tive um pouco de problemas com relação a assimilação de conteúdo, e de acompanhamento da turma, talvez pelo fato de nunca ter cursado o Ensino Médio, mas aos poucos fui adquirindo confiança, da mesma forma que tentava passar aos colegas e aprender com eles.
A universidade, o curso de Letras me trouxeram uma série de altos níveis de conhecimentos, superando minhas expectativas. Fiz enormes amizades, com discentes e docentes, desta e de outras Faculdades, vivi momentos que ficaram marcados em minha mente, cada disciplina terminada significava uma batalha vencida com sucesso.
em 2019, terminei o curso de Letras e em 2021, em plena pandemia do novo corona vírus, entre para o Mestrado, concluindo em 2023. ainda não trablho como professor, sou concursado como auxiliar de serviços gerais e o sistema, que sabemos ser politiqueiro e mau, ainda não me deu outra oportunidade, talvez por estar já velho ou por ter em meu curriculo a pecha de pescador.
Concluindo, hoje sou Licenciado em Letras, Lingua Portuguesa, Mestre em Linguagens e Saberes na Amazônia, pela Universidade Federal do Pará. Especialista em Gestão Escolar e Língua Portuguesa Literatura e Artes, pela Facuminas. Além disso, sou membro imortal da Academia de Letras do Brasil – seccional de Bragança – Pará, cadeira 19. Membro imortal do CONINTER, cadeira 96. Membro imortal da Academia Virtual de Letras, cadeira 29, e membro imortal do Instituto Histórico e Geográfico de Bragança, cadeira 12. Tudo isso, graças a educação, a persistência e resistência, e quando ouço jovens querendo desistir da vida por serem vitimas de preconceito, bullyng ou coisa parecida, conto um pouco dessa minha história, aliás, faço isso frequentemente nas escolas, universidades e comunidades em geral, para que gere algum incentivo. fiz tudo isso ganhando apenas um salario minimo, pela profissão que ainda exerço. Eu sou Manoel de Souza Ramos, o poeta pescador. moro na vila de Ajuruteua, no nordeste do estado do Pará e essa é minha história, a história de um pescador.
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