Projeto Mulheres Empreendedoras de Trairi
Entrevista de Michelle Soares Castro
Entrevistada por Bruna Oliveira
Trairi (CE), 05/09/2025
Realizada por Museu da Pessoa
Entrevista n. º: MNB_HV003
Revisada por Bruna Oliveira
P/1 - Michelle, pra começar, eu queria que você dissesse o seu nome completo, a data e onde você nasceu.
R - Meu nome é Michelle Soares Castro, tenho 45 anos, hoje é 5 de setembro de 2025 e eu sou natural de Fortaleza.
(00:00:41)
P/1 - E eu queria saber se sua mãe contou como que foi o dia do seu nascimento.
R - Minha mãe era de Itapipoca, meu pai de Itapajé. Minha mãe saiu para trabalhar em Itapajé, se conheceram lá. Meu pai ia se casar com outra pessoa, segundo o que ela conta meu pai ia se casar com outra pessoa, eles se conheceram, se apaixonaram, digamos que fugiram, porque meu pai ia se casar, estava próximo ao casamento, aí eles fugiram mesmo contra, como sempre, a opinião de minha avó, que ela não queria muito. Aí eles fugiram e assim, um tempo se conheceram, isso e aquilo outro, aí eu nasci. Minha mãe disse que fui para a maternidade, meu pai levou, aí ela não tinha muito leite. Aí o que acontece? Meu pai é alcoólatra, meu pai saiu para comprar este leite, porém não chegou. No outro dia, bêbado, sem leite Aí como sempre, minha mãe sempre se virou Aí pedia a um vizinho, ou pedia dinheiro emprestado, ela também sempre trabalhou por saber a necessidade que tinha, né? Aí ela foi e arrumou o dinheiro, novamente o dinheiro que o meu pai gastou bebendo, e foi e comprou leite pra mim, porque ela não tinha muito leite, segundo ela, né? Antigamente, aí eu... assim, foi mais ou menos o dia que eu nasci.
(00:02:14)
P/1 - Por que você chama Michele?
R - Você sabe? Não sei. Meu nome ia ser Cecília, em homenagem à minha avó. Porque a mãe do meu pai é Cecília. Ele é gêmeo. Ele, meu tio expedito. Minha avó faleceu no parto. Uma coisa que a gente acha, a gente, a família, não sei, acha que devido ao meu...
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Entrevista de Michelle Soares Castro
Entrevistada por Bruna Oliveira
Trairi (CE), 05/09/2025
Realizada por Museu da Pessoa
Entrevista n. º: MNB_HV003
Revisada por Bruna Oliveira
P/1 - Michelle, pra começar, eu queria que você dissesse o seu nome completo, a data e onde você nasceu.
R - Meu nome é Michelle Soares Castro, tenho 45 anos, hoje é 5 de setembro de 2025 e eu sou natural de Fortaleza.
(00:00:41)
P/1 - E eu queria saber se sua mãe contou como que foi o dia do seu nascimento.
R - Minha mãe era de Itapipoca, meu pai de Itapajé. Minha mãe saiu para trabalhar em Itapajé, se conheceram lá. Meu pai ia se casar com outra pessoa, segundo o que ela conta meu pai ia se casar com outra pessoa, eles se conheceram, se apaixonaram, digamos que fugiram, porque meu pai ia se casar, estava próximo ao casamento, aí eles fugiram mesmo contra, como sempre, a opinião de minha avó, que ela não queria muito. Aí eles fugiram e assim, um tempo se conheceram, isso e aquilo outro, aí eu nasci. Minha mãe disse que fui para a maternidade, meu pai levou, aí ela não tinha muito leite. Aí o que acontece? Meu pai é alcoólatra, meu pai saiu para comprar este leite, porém não chegou. No outro dia, bêbado, sem leite Aí como sempre, minha mãe sempre se virou Aí pedia a um vizinho, ou pedia dinheiro emprestado, ela também sempre trabalhou por saber a necessidade que tinha, né? Aí ela foi e arrumou o dinheiro, novamente o dinheiro que o meu pai gastou bebendo, e foi e comprou leite pra mim, porque ela não tinha muito leite, segundo ela, né? Antigamente, aí eu... assim, foi mais ou menos o dia que eu nasci.
(00:02:14)
P/1 - Por que você chama Michele?
R - Você sabe? Não sei. Meu nome ia ser Cecília, em homenagem à minha avó. Porque a mãe do meu pai é Cecília. Ele é gêmeo. Ele, meu tio expedito. Minha avó faleceu no parto. Uma coisa que a gente acha, a gente, a família, não sei, acha que devido ao meu pai, uma das coisas que o leva a beber, porque disseram que quando ele nasceu, Coisa de criança, né? Disseram que deram aguardente pra ela. Aí a gente acha que talvez na cabeça dele tenha ficado isso, aguardente, e ele associou aguardente a álcool, né? Porque é um dos nomes que se tem álcool. Por isso talvez ele beba. E também a questão de associarem, né? Que tu matou tua mãe, né? Sempre querendo ou não, se tem esse... As pessoas comentam, né? O meu pai também devido ser gêmeo, e antigamente, que ele é do 49, as pessoas não tinham muitas condições de família. Meu avô era, e a esposa faleceu, ele só podia ficar com um. Aí ele foi e deu o meu pai. Mas um dos motivos a qual a gente acha, que a gente não sabe, nem ele mesmo, acha qual ele beba por rejeição, por achar que matou a mãe dele. No entanto, ele e meu tio, que meu tio ainda é vivo hoje, meu pai faleceu, tá com 11 anos, eles não comemoram a data do nascimento. Se você chega lá e der um presente a ele, eles não recebem. Eles não gostam. Devido a eles se associarem, tipo, eles terem matado a mãe dele. Eu acho que foi algo que disseram pra eles, que pra eles ficou marcado.
(00:03:59)
P/1 - E seu pai contava isso pra você?
R - Não dessa forma, a gente busca entender alguma coisa ao longo do tempo, acho que foi isso que levou.
00:04:10 P/1 - E como que é o nome da sua mãe e do seu pai?
00:04:13 R - Meu pai se chama José Itamar, não sei o porquê, minha mãe Maria Ossione, só que ela é conhecida como Graça. Também não sei o porquê, mas é coisa de família, né? Isso aquilo outro. Eu acho que graça é porque ele dá risadinha, a pessoa chama ela de graça. Mas a minha avó, que eles também... A minha avó é de Itapipoca. Minha avó e meu avô, da Serra, bem da Serra mesmo. Só pra ter ideia, eles moram, assim, bem alto. Começam a passar... Fizeram estrada pra chegar lá agora, porque se ia só até um determinado lugar. Até Assumpção e o Mulungu. Chegava carro resto, você tinha que ir andando, porque não subia lá. Para completar a época de chuva, o solo é conhecido como barro-louça, que é um barro parecido com pisarra, que desliza muito, até para subir é muito complicado. Pra ter uma ideia, isso é a história que a minha mãe conta, né? Ela conta que um irmão dela faleceu, que como lá é bem íngreme, que é alto, e o solo desliza bastante, aí pra ajudar a subir, eles pegavam um pau pra subir, né? Auxiliar na subida. Aí o irmão dela foi... perfurou o estômago com a vareta e faleceu. Como era muito íngreme, muitos anos atrás, não deu tempo de socorrer e ele faleceu devido a esse acontecido.
(00:05:39)
P/1 - Dizem que lá é bastante frio, né?
R - É. A gente já foi lá, é bem frio ainda mais na época da chuva, é muito bom. Quando chove, devido ao barril, o solo ser meio branco, a água desce branca, tipo cascatas, só que nas serras. É lindo. Tem umas pedras enormes lá. Muito bonito.
(00:06:00)
P/1 - E você ia quando você era pequena?
R - Eu ia... Eu tenho pouca lembrança, mas eu tenho uma lembrança quando minha irmã nova nasceu, era a menorzinha, a mais nova, porque nós fomos quatro lá em casa, aí a gente, nós chegamos aí, aí eu tenho pouca lembrança dessa época. Até porque a gente viajava pouco, porque como era muito criança, quatro crianças, e lá em casa é uma atrás da outra, aí ficava um pouco complicado.
(00:06:26)
P/1 - Mas dessa vez que você foi, quando você era pequena, você lembra como que foi?
R - Não tenho tanta lembrança, porque faz muitos anos, porque a minha irmã mais nova hoje tem 40, ou então eu não tenho tanta lembrança. Eu tenho assim mais da foto que a minha mãe tem, né? Aí a gente lembra, assim, uma vaga lembrança, mas muito pouco mesmo. Eu me lembro muito da gente brincar de um lajeiro, onde a minha avó, minhas tias, lavavam roupa. que era um negócio de pedra, pedra mesmo, natural, tá? Porque devido a serra, né? Aí lá passava a água, a correnteza da água e as pessoas levavam a roupa pra lavar lá. Um pouco distante, devido ao lugar, né? Não tem água e canada, essas coisas. Aí lá eles levavam pra lavar a roupa. Aí a gente ficava tomando banho, as crianças ficavam tomando banho e ela lavando a roupa. E também assim, encostado, tinha um lugar, chama até, eu não recordo, segundo as pessoas contam, que eu tenho essa vaga lembrança, faleceu uma moça lá, aí começou a brotar água. a água entre as pedras, aí associaram a ela, como antigamente as pessoas acreditavam muito nessas coisas, aí por incrível que pareça, aparecia uma grutinha, porque eram as pedras em cima da outra, regional das pedras. Da localidade, se encheu de pedra, aí associaram isso a ela e chamavam gruta da moça lá, que eu não recordo o nome, aí diziam que era isso.
(00:07:58)
P/1 - E como é que era essa época que você se recorda da sua avó lavando roupa lá? Como é que era? Tinha um dia, uma hora específica que ia lavar? Como é que era esse ritual de lavar a roupa?
R - Eu não sei. Assim que eu recordo, elas colocavam na bacia, aquelas bacias de alumínio, colocava a roupa, iam pra lá, cada um com o seu balde. Eu lembro da minha avó, da minha mãe e de uma outra tia minha. E elas iam lavar a roupa. A gente ficava lá brincando na pedra, porque era raso, não era fundo, não tinha tanta profundidade. Aí a gente ficava lá, assim, a coisa, eu não sei, até porque a gente ia a passeio, não era constante, né? Aí, nesse período, aí aproveitava fazer também uma viagem só. Pegavam água no balde, levava, esse certo percurso que não era tão próximo. Aí a gente, como tava lá, apesar de ser criança, cada um pegava seu balde, mas pra ajudar mais, assim, digamos que era mais pra brincar, na realidade, ocupar a criança pra criança não ficar perdida por lá. Outra coisa também que, assim, eu lembro bastante, é... Lá não tinha banheiro. O banheiro, como sempre, de interior, lá é serra, a casa é assim, alta. Nem tanto na frente da casa da minha avó, e como atrás, tem pedras. Pedras grandes, grandes mesmo, sabe? Aí, devido a esse desnível, e também lá não tem água encanada, não tem condições de levar material de construção, aí lá se faziam as necessidades no mato. Aí o banheiro que se tinha era para tomar banho, e era só aquele negócio assim para cobrir as partes, nem dizia, né? No entanto, a gente fazia as necessidades no mato, quando a gente ia. Era muito ruim, desconfortante para a gente. Para mim mesma, criança, eu não gostava, achava meio desconfortável, porque a gente fazia tanto, tinha pouco. perturbando a gente como galinha. Era ruim, não gostavam muito também ter essa lembrança. Eles ficavam em volta. É, meio que fuçando. Se você não ficar... Eles ficavam perturbando a gente. Era bem assim.
(00:10:03)
P/1 - Eu queria que você contasse pra onde que seus pais fugiram quando eles decidiram ficar juntos.
R - Eu não sei assim se, pelo que a minha mãe conta, a família do meu pai foi criado por um tio, um parente da minha avó. Aí teve ele sempre como pai. No entanto, eles chamavam ele de padrinlar. Era filho do meu pai, apesar do meu pai não o chamar de pai. Foi ele que criou e tudo e tal. Ele tinha um amor muito grande pelo meu pai. E mandaram ele para o Pará, para uma irmã do meu pai, que já morava para lá. Aí eles foram para o Pará. Eu não sei se eles foram para São Paulo, porque teve uma época em que o meu pai foi para São Paulo, mas como sempre o meu pai bebia quinetozin, ele sempre findava migrando de volta, porque os parentes não aguentavam ajudar, devido aos problemas que o meu pai causava com o álcool.
(00:11:02)
P/1 - E eu queria que você contasse se você chegou a conviver. Você contou um pouco que você teve contato com a sua avó, mas com todos os seus avós. Quem que você conheceu? A sua avó paterna tinha falecido, né? Mas como é que foi a convivência com os avós, no geral, assim?
R - A minha avó faleceu no parto, né? O meu avô, eu só vim ver ele já depois de mocinha, quando meu pai se separou, né? Que ele é de Itapajé, que quando meu pai se separou ele voltou pra... Itapajé, aí eu fui lá ver meu avô, fui ver meu pai e com lá eu tive. Era assim, não tinha lá essa grande coisa, assim, como é que eu posso dizer, não era bem afetivo devido assim, eu não ter o convívio com ele, eu não tinha tanta proximidade. Sempre tive respeito, né, por ser pai do meu pai, ser meu avô, mas não tinha tanta proximidade. Da minha mãe também, por a gente morar muito em Fortaleza. A gente chegou a visitá-los poucas vezes, né, que nem eu digo, como a família era quatro meninas, só a minha mãe trabalhava, porque o meu pai, devido ao alcoolismo, ele não gerava renda para casa e sempre a minha mãe, a minha mãe não tinha tantas condições para a gente ficar viajando. Então, as poucas vezes que eu coisava, meu... Eu tenho pouco convívio também com meu avô, que meu avô faleceu cedo, né? Aí já um pouco mais com a minha avó, que meu avô, ele morreu de derrame cerebral, né? Ele saiu para trabalhar, aí... Deu a hora do almoço e ele não voltou. Aí a minha avó, preocupada, disse aquilo ou outro, mas digamos, como ele saiu para trabalhar, pode ser que ele tenha tirado direto para voltar mais cedo. Deu uma determinada hora da tarde e ele não voltou. Novamente, né? Aí ficaram preocupados, foram atrás dele e acharam ele caído. Levaram para o hospital, na rede, que antigamente se levava na rede, essas coisas. Aí ele ficou internado uns dias, mas porém faleceu, né? Eu não recordo o ano, mas aí ele faleceu. Minha avó ficou, também não recordo a data, mas aí minha avó já durou um pouco mais. Como sempre, nós mulheres cuidamos um pouco mais. Eu acho que nós somos mais resistentes, não sei por quê, mas... Acho que é a vida que faz a gente tão assim, né?
Aí ela faleceu de leucemia, porque a minha família tem um problema, nós somos portadores de hemofilia, eu digo a gente porque nós mulheres portamos a hemofilia, e os homens eles desenvolvem a hemofilia, é diferente. Aí a minha avó, eu não sei se tem alguma coisa a ver, sei que ela morreu de leucemia que está relacionada a sangue, isso, aquilo, outro. Não é sangue fraco, mas a gente sempre tem anemia devido à hemofilia, a gente tem alguns sangramentos devido a alguns problemas da própria doença causando a gente. Ela morreu de hemofilia, a gente acha que tem algo a ver, não sei, porque a gente não estuda a ciência em si, mas ela morreu de leucemia, mas já é um pouco bem mais tarde, ela já era idosa, isso, aquilo, outro.
P/1 - Chegou a conviver com ela mais?
R - Um pouco, é. Porque, às vezes, ela ia visitar os filhos em Fortaleza, né, que todos são de Fortaleza. Algumas poucas moram em Itapipoca. A metade, digamos, a metade mora em Fortaleza e a metade mora em Itapipoca. Quando ela ia visitar, ela visitava um bocado e ela sempre passava lá em casa, na mãe.
(00:14:22)
P/1 - E tem algum... Antes de perguntar isso, o que sua mãe trabalhava?
R - A minha mãe sempre foi costureira. Eu não sei antes, mas depois, assim, comigo, depois que a gente nasceu, ela sempre foi costureira. Aí ela trabalhou em grandes lojas. Lojas não, é... fábricas em Fortaleza. Na época era Vilejaque, Guararapes, Esplanorde, não lembro das outras, mas assim, ela sempre trabalhou nessas fábricas, né? Ela sempre foi costureira, a vida inteira. Apesar dela ser costureira, eu não era costureira, não sabia de nada de costureira, vinha aprender a costurar aqui.
(00:15:00)
P/1 - E como que isso aconteceu?
R - Deu a aprender a costurar? Bom, a minha mãe tinha uma maquinazinha em casa, doméstica, isso aqui, logo pra fazer pequenos concertos em casa, né? pra gente, até ajeitar uma roupinha, apesar dela não ter condição, ajeitar o pouco que tinha, pra durar um pouco mais. Aí ela sempre deixava em casa e eu tentava costurar, nunca consegui. E a minha mãe também nunca teve tempo, apesar dela trabalhar fora, e eu acho que também eu não queria, era só pra fazer, mexer nas coisas mesmo. Eu mexia nas cordelas, sempre quebrava uma agulha, porque pra quem sabe, quando a gente aprende, a gente quebra muita agulha, tem que aprender a coisar a linha, coisa que é muito Corriqueiro. Aí a pessoa se zanga de tanto estar ensinando, porque é comum a gente tanto quebrar linha, como quebrar agulha, como a linha sair do coisa. Aí ela não tinha tanta paciência. Até entendo. Hoje eu entendo. Aí, resumindo. Ah, que eu vim começar a trabalhar depois que o meu pai faleceu. Tem uma mulher ali na rua, a Dona Irasema, ela trabalha com fardamento aqui. Ela é muito conhecida aqui na região. A Dona Irasema, ela tem uma coisa de fardamento, é a cadu. Aí meu esposo, ela estava no lugar e meu esposo também, e ouviu ela dizer que precisava de alguém para costurar. Meu esposo foi, opa, minha esposa sabe costurar divinamente bem, a mãe dela é costureira, fez aquela propaganda do nada. Sendo que eu mandava um pontinho e aí assim mirrado. Aí Dona Iracema foi e disse, pô, estraguei ela aqui. Aí eu fui lá, ele falou com ela, né, Michela, não sei o que, Barcelos, mas eu não sei costurar. Ela disse, não, vai lá. Eles sempre me incentivando, sabe? Aí eu peguei e fui lá. Eu com meu pé atrás, sempre desconfiada, né? Aí eu, tu acha que vai? Barcelos, mas eu não sei se é aquilo ou outro. Michela, não tem nada a perder, vai lá. Aí eu fui. Aí ela, a princípio, não sabia, como a gente sabe, quando a gente sabe, a gente sabe que o outro não sabe. Mesmo assim, eu acho que ela viu o potencial, ela viu que eu sabia, que eu levava jeito, como eu digo. Aí ela foi me dar uma oportunidade, eu comecei lá, ela foi me ensinando e eu aprendi. Aí assim, eu comecei. Aí eu fiquei lá, acho que uns três anos e meio para quatro. A gente trabalhava só no fardamento, que era só a blusinha na época, né? Aí eu sempre tive vontade de ficar em casa, trabalhar em casa, porque eu tenho dois filhos pequenos. Aí eu não gostava muito de sair e deixar eles em casa, apesar deles ficarem com a minha sogra, porque na época eu morava vizinha à casa da minha sogra, eles ficavam ali. Mas eu sempre gostei de cuidar, sabe, deles, isso, aquilo, outro. Eu acho que não existe cuidado melhor do que o da mãe. Aí, eu sempre dizia, quando me aparecer a oportunidade, eu compro as máquinas e coisa. Aí, voltando nisso, eu sempre, assim, como eu ficava na Dona Iracema, ela tinha todas as máquinas, né? Tinha a reta, a goleira, a overloque, e eu não sabia nada. Quando eu cheguei, ela me colocou pra trabalhar na chinesinha, que é uma máquina de vagar. Quando ela me colocava para... ela me via com potencial em mim, na realidade, sabe? E eu, com medo, isso, aquilo, outro, eu ficava com determinado medo de ir para... para... para overloque, que ela é um pouco mais ágil, isso, aquilo, outro. Tinha medo, né? Até de esculhambar as roupas. Mesmo assim, ela foi aí, eu... Aí às vezes eu trabalhava lá, horário normal, aí eu vinha pra casa, fazia as coisas bem rápidas, voltava um pouco meia hora mais cedo, então eu ficava um pouquinho lá, aproveitava o pouco horário que eu tinha pra me tentar aprender. Tipo assim, rapaz, eu vou aprender porque uma hora vai me aparecer oportunidade e eu vou trabalhar em casa, porque eu sempre quis trabalhar em casa pra cuidar dos meninos. Aí eu fui aprendendo um pouquinho numa máquina e em outra, eu só não aprendi muito na goleira, porque ela tinha uma pessoa específica para trabalhar na goleira, e ela tinha muito ciúme dessa máquina. Eu até entendo pelo trabalho, pelo caso desse algum problema, seria bem mais caro. Mas tudo bem, a oportunidade que me apareceu, eu fui aprendendo. Aí lá mesmo, eu conheci uma moça, a Rejane, ela trabalhava para uma mulher em Fortaleza, que trazia peça para cá. Aí a Rejane, ela foi... Nessa época, ela tinha ido... Eu conheci ela na Dona Irassema, ela trabalhou lá, só que ela foi pra Fortaleza, porque aqui a gente ganha muito pouco, entendeu? Aí, eu entendo a situação dela, né? Ela era mãe solo, aí ela foi pra Fortaleza. No que ela foi pra Fortaleza, aí ela ficou grávida, porque ela já tinha uma filha, ela ficou grávida novamente e voltou. No que ela voltou, aí ela foi... Não, ela me procurou. Acho que ela me procurou. Não recordo a ordem das coisas. Mas aí eu fui e falei com ela. Que ela voltou a trabalhar com essa mulher que trazia a peça pra cá, né? Até então não sabia, né? Ela tinha comentado, mas eu, assim, não sabia. Um certo medo, né? Que a gente fica com medo, isso, aquilo, outro. Aí eu fui... Também não tinha tanta confiança em mim. Apesar de meu marido sempre dizer, tu consegue, tu pode, isso, aquilo, outro, sabe? Aí, mas eu ficava com... Eu achava que ele só falava, pô... por ser meu esposo, por me incentivar, entendeu? Tipo aquele apoio. Eu acho que na realidade eu também não acreditava tanto em mim. Faltava isso. Mas aí eu sempre disse, quando aparecer a oportunidade, eu vou. Daí a região foi disso. Michelle, eu tô de resguardo, aí vai precisar de alguém pra... Ficar com as minhas peças. Aí, tudo não quer ficar não. Aí ela falou, tudo bem, eu fico Se tu coisar mesmo, eu compro as minhas máquinas Eu disse pra ela, que até então não tinha Aí eu já estava desgostosa da dona Iracema Por algumas questões pessoais entre eu e ela mesmo, né? Aí, no entanto, ela falou comigo, a Netinha que ela pegou peça pra gente Aí eu... Pois eu vou fazer uma coisa Antes de tu... Ela... Ia levar uns dias ainda pra ela... ter neném, né? Aí eu fui e, pois, no domingo, sábado e domingo, que eu não trabalhava, né? Eu fazia as coisas de casa, aí eu levantava um pouco mais cedo, arrumava as coisas de casa, isso, aquilo, outro, e à tarde eu ia pra lá. Aí lá eu trabalhava um pouco nas peças dela, pra me conhecer o tecido, porque era um material totalmente diferente da Dona Iracema. É tecido plano, se chama. Pra quem não conhece, apesar de ser tecido, de ser pano, isso, aquilo, outro, é totalmente diferente, tanto as máquinas, como o trabalho que se dá pra um tecido pra outro. Aí eu ficava lá, eu ajudava ela nas coisinhas pra aprender também. Aí eu perguntei a ela, Regina, e é certo mesmo? Porque se foi, eu compro as minhas máquinas. Porque eu ia comprar pra me pagar com o dinheiro ao qual eu trabalhasse, né? Porque aí eu ia sair da dona iracema. Aí ela, não, Michelle, é certo. Aí foi o que eu fiz. Eu fiz um empréstimo, foi quando eu entrei no Crédio Amigo. Aí eu fiz um empréstimo, que eu precisava de duas máquinas. Eu não tinha cartão de crédito, porque o meu trabalho era avulso, isso, aquilo, outro. Eu sempre tive muito medo de conta. Até por não ter a minha renda ser muito... indeterminada, e não era muito, só era meu esposo que trabalhava na época, aí eu não podia contar com ele, porque o dele já era para casa, então não podia dar um gasto a mais, fazendo conta para a gente pagar. Aí eu fiz um empréstimo, já para pagar, e ele me emprestou o cartão para me comprar outra máquina. Aí uma eu comprei a crédito no cartão dele, e o outro foi com o empréstimo. Eu comprei as duas máquinas e comecei a trabalhar em casa. Foi assim que eu comecei na costura.
(00:22:13)
P/1 - Que ótimo! Eu queria voltar só um pouquinho, antes da gente ir pra parte da costura, que é muito importante, mas eu queria retomar um pouco a sua infância pra gente seguir uma linha, assim, e daí depois a gente volta pra essa primeira, como você aprendeu a costurar, que também é muito importante. Mas eu queria saber o nome das suas irmãs e como que era a escadinha, como é que era a relação quando vocês eram pequenas?
R - Bom, eu sou a mais velha, nós lá em casa somos quatro, eu sou a mais velha, é Michele, Maciel, eu sou do 79, a minha irmã Maciel é do 80, quando a minha irmã nasceu, eu ia fazer um ano ainda, porque a minha mãe me amamentava. E ela achava, naquela época lá atrás, que como ela estava amamentando, o pessoal tinha esse negócio de que quando amamenta, não, a pessoa não engravida, aí ela não tomou anticoncepcional. Aí ela achava que não engravidava porque estava amamentando. No entanto, quando ela descobriu que estava grávida a minha irmã, eu tinha três meses. Aí quando ela nasceu, eu ainda ia fazer três meses. No entanto, ela nasceu no dia 9 do 80 e eu sou do 28 do 79. Aí tem essa pequena diferença, assim, entre nós duas. Nós somos as duas mais velhas. É Michelle, Maciel, tem a Markely, que ela é do 82, e tem a Moniel, que é a mais nova, que é do 85. Aí, de nós, eu e a Marcela, as duas mais velhas, nós somos costureira, que a Marcela também aprendeu, assim, digamos que por necessidade, né, ela também aprendeu, as outras duas não. As outras duas não querem, não gostam, assim, a Markely, ela às vezes até acha, mas ela diz que não tem paciência pra aprender, porque é muita coisa. Aí a gente já até falou com ela, mas ela não quer muito. Já a Monielle, ela não quer, não gosta, a Monielle não gosta de trabalhar em casa, que é a mais nova, né? Ela é mais assim, mais... mais animadinha. Ela não... não tentina. Ela é bem comunicativa, isso, aquilo outro. Ela trabalha com vendas. Eu reconheço que é uma boa área pra ela, porque ela é muito comunicativa, ela conversa muito. Ela é dessas pessoas que fala assim, mulherzinha, não sei o que, sabe? Aí ela se dá bem nessa área.
(00:24:27)
P/1 - E como que era a relação de vocês na infância?
R - Nós... Eu, meus pais... Eu quem cuidava das minhas irmãs. Minha mãe, devido novamente ao alcoolismo, minha mãe precisava trabalhar. Aí ela não tinha condições de pagar alguém pra ficar com a gente. Aí ela... Michelle, você cuida, apesar de eu ser pequena, isso, aquilo, outro... Sempre me foi... Não é que foi imposto, foi colocada a necessidade, obrigou as adaptações a eu ter que aprender, né? Aí eu cuidava das minhas irmãs, mas minha mãe sempre foi responsável, tá? A minha mãe, ela saía cedo, ela deixava o almoço pronto. Quando ela chegava de noite, ela ia fazer feijão, arroz, deixava tudo na geladeira ou sem me preparado. Quando ela podia, quando a gente era mais nova, que eu tenho essa lembrança, Ela deixava alguém só pra cozinhar pra gente. Tipo assim, você vai farrar comida, limpar a casa, mas nós sempre ficamos sozinhas, sabe? Meu pai saía, aí ele fechava a porta, nós tínhamos janela, aí a gente ficava só com a janela aberta, né? No entanto, a gente colocava uma cadeirinha, uma em cima da outra, pra gente alcançar a janela, devido a gente ser pequena, aí a gente ficava revezando. Quem ficava na janela vendo as pessoas do lado de fora, né? Aí, a gente, digamos que, não é que a gente se dava bem, bem, né? A gente tinha nossas brigas, né? Eu e minha irmã, Marcela, a gente brigava muito, a gente, assim, a gente se gostava, mas a gente brigava no murro, assim, a gente se fazia tanto, a gente, como é que eu posso dizer? A gente entrava em atrito por besteiras, sabe? Uma porque uma vestia a roupa da outra. A gente sempre foi assim, não sei te explicar o porquê, sabe? Mas a gente sempre teve essas brigas, mas era uma coisa que era unida. Eu defendia ela, ela me defendia, a gente se ajudava. Quando a gente foi crescendo, a gente foi ficando uma mocinha, a gente saía juntas. E, no entanto, a gente, quando ia curtir, uma sempre cuidava da outra, sabe? A gente sempre uma esperava pela outra, pra chegar junto, caso a gente se separasse na festa, essas coisas assim. Eu e minha irmã, apesar que não tô dizendo da gente brigar muito lá atrás, que a gente brigava por qualquer coisa, sabe? Qualquer coisa. E já a minha irmã Markelle, que nem eu digo a Markelle, a Markelle era só a Markelle. A Markelle era uma menina calma, não saía de casa, sabe? A Markelle só existia, sabe? Por exemplo, eu e a minha irmã Marcella, que nós éramos mais velhas, nós aprontávamos muito, né? Na época, mais de moça isso, aquilo, outro. Aí a gente, na época, apanhava ainda, não é? Ficava de castigo, em cima de milho, de feijão, essas coisas. Meu pai, como a gente brigava muito, meu pai e minha mãe faziam a gente se beijar, pedir desculpa a outra, mas a gente sempre brigava com a outra por besteira, não sei explicar na realidade, sabe? Mas a gente brigava por besteira. Aí meus pais faziam isso. E quando a gente ia apanhar, a coitada da Kel, que a gente chama ela de Kel, Ela sempre se metia. Mãe, não faz isso. Meu pai raramente batia na gente. Geralmente era mais minha mãe. Eu entendo, né, por ter que educar, por passar o dia fora de casa trabalhando, quando chegar a ti, escutar os problemas, né, que... Porque a gente sempre vai enredar que a outra fez de errado, né? Aí ela sempre batia na gente, isso, aquilo, outro, né? Aí a coitadinha se metia. Mãe, tá bom, não faz isso, isso, aquilo, outro, né? Aí que nem eu digo, a Marquel era a boazinha da história, sabe? Isso, aquilo, outro. Aquel, que nem eu digo, Aquel é a pessoa que eu não sei por que teve uma vida meio dificilzinha, bichinha, mas Aquel era Aquel. Já a Moniélia, eu não tenho muita lembrança dela, só me lembro que ela me fazia muita raiva por ser a mais nova em ser aquilo ou outro. Eu nunca me entendi muito com ela, apesar dela ser minha irmã, a gente sempre tem uma certa diferença, não sei o porquê, mas tem. Apesar de nossa história ser mais ligada do que se parece, assim, porque eu acho que coisas que só Deus explica, apesar que, como eu estou dizendo, eu não me lembro muito dela. Por exemplo, quando os meus pais brigavam... Sempre, sempre quem me ajudava era minha irmã Kel, que era mais calminha isso aqui do outro, né? Porque eu, apesar de eu ser só uma criança, eu me metia no meio da confusão deles dois pra ver se... porque meu pai queria bater na minha mãe, meu pai puxava faca pra minha mãe, sabe? Essas coisas assim. Aí eu me metia no meio. Não sei por quê, porque na realidade eu sempre fui franzininha, sabe? Eu era só uma criança, mas eu me metia no meio. Não sei se pro meu pai me escutar um pouco, né? Apesar de eu ser uma criança, que ainda tô dizendo. Ele me escutava um pouco. Aí eu sempre dizia, pai, larga a mãe. Aí, resumindo aqui, para apresentar as meninas. Quando eu pedia uma ajuda, era a Marquel que me ajudava. As outras duas meninas nunca estavam. A minha irmã Moniela, eu não sei se porque ela era mais nova, eu nunca nem a via. Entendeu assim? Aí, geralmente quem me ajudava era a Kel. Nessas confusões, assim. A Moniela, eu não tenho muita lembrança dela. dela na infância. Eu tinha muita raiva dela porque ela, pronto, eu acho que talvez seja essa questão de eu ser a mais velha e ela ser a mais nova. Ela era queridinha, ela sempre ganhava as coisas, eu tinha que entender porque eu era a mais velha. Eu acho que é isso, não sei explicar na realidade o porquê.
(00:29:24)
P/1 - Pensando nessa infância ainda, tem alguma comida, algum cheiro, alguma festa que você lembre com carinho? Tipo, quando eu penso na minha infância, eu lembro disso.
R - Vou falar assim, de eventos. A minha mãe sempre trabalhou em firma, né? Coisa grande assim. E lá ela tinha uns cartões de benefício. Aí dava permissão a gente, aí na época era CESE. É como se... Lá tem piscina, pratica esporte, essas coisas assim. A gente tinha acesso a isso. Aí eu recordo de que a gente... Era raro a gente ir já, porque novamente o alcoolismo sempre atrapalhou lá em casa. Aí era difícil a gente sair, até porque pra sair, por exemplo, toda vida que a gente saia, meu pai sempre tomava uma cervejinha, isso, aquilo, outro, só que na primeira cerveja dele, ele já não parava mais. Aí a gente sempre também, além de não ter muitas condições, a gente também evitava já, a gente não queria sair já pra não dar o pontapé de ele beber. Mas, voltando aqui, aí tinha a gente acessa essas coisas, aí a gente ia pra piscina, né? Aí era um evento assim, um evento, né? Como a gente mal saía de casa, né? A gente ia, ia pra praia poucas vezes, mas a gente ia, né? E...
(00:30:49)
P/1 - E onde que você morava em Fortaleza quando você era pequena?
R - A gente morava num bairro bem periférico, que era... posso voltar um pouco? Da infância, tá bom. Bom, outra coisa que eu recordo também era, por exemplo, meu pai, das poucas vezes a qual ele estava bom, e a gente, quando dava mais ou menor a hora da minha mãe chegar, que era seis horas, seis e meia, né, que o meu pai, ele trabalhava, quando ele trabalhava, Ele era vendedor ambulante, aí ele trabalhava dois, três dias na semana, mas ele ganhava muito bem. Só que devido ao alcoolismo, meu pai trabalhava muito pouco. Nas poucas vezes nas quais ele estava bom, aí o meu pai fazia o quê? Meu pai ficava em casa a maior parte do tempo, ele fazia almoço. Nas poucas vezes nas quais ele estava bom. Aí ele fazia almoço, isso aquilo outro, aí ele botava a gente pra tomar banho, trocar de roupa, nós ficávamos lá fora. Lá fora que eu digo, né, ficava todo mundo assim. Ele fazia uma coisa de chá, geralmente era capim santo, cidreira, de jatobá, chá de jatobá. Aí ele fazia uma jarrinha assim de um litro, aí botava todas nós pra ficar lá fora. bebendo o chá e escutando, na época era até o Forrózão 93, só que antes do Forrózão 93 tinha a oração de São Francisco, no entanto eu aprendi ela, aí devido tanto escutar, tinha a oração de São Francisco, era um momento de reflexão e depois o Forrózão 93. A gente ficava lá fora esperando a minha mãe chegar.
P/1 - Ficava na porta de casa?
R - Pronto, na porta esperando a minha mãe. Nós quatro e meu pai. Ele era bem cuidador, sabe? Quando estava bom. O problema era que dificilmente ele estava bom. Mas ele era bem cuidadoso. Outra coisa que também acontecia, quando ele estava bom, dia de sábado tinha uma feira no Antonio Bezerra, que era perto do lugar onde ele pegava a mercadoria para trabalhar. E quando ele ia pegar a mercadoria para trabalhar, ele saía bem cedinho, de madrugada. Aí quando ele voltava, que ele fazia o percurso lá dele, das entregas dele, que ele vendia mortadela, linguiça, às vezes ele vendia salgado. Ele era um vendedor bom, ele vendia de tudo. Assim, poucas coisas. Tinha o material lá dele. Aí ele passava pela feira, aí ele sempre comprava tamarindo, porque minha irmã gostava muito de tamarindo, apesar de ser doce, a gente chupava ela até pela língua. Eu gosto, não sei se você já experimentou, eu gosto tanto do suco como da fruta. Aí ele trazia tamarindo, aí ele trazia manga, ele trazia as coisas que na feira tinha, né? Aí ele sempre trazia lá pra casa. Aí ele chegava mais ou menos 10, 11 horas, né? Aí a minha mãe já tinha terminado de lavar roupa, tava fazendo comida, e ela tirava o cochilo de tardezinha, depois de fazer as coisas de casa. Aí de tardezinha, às vezes, eles iam brincar. Brincar como? Eles jogavam um baralho ou dominó. E a gente, nós filhas, ficávamos encostados. Eles não deixavam a gente participar nessa hora. Eu acho que porque eles apostavam isso aquilo outro. Mas eu, pelo menos, tenho essa lembrança que eu gostava de ver eles assim, sabe? Não sei se é porque era raro o momento de vê-los assim, sem a confusão. Eu gostava de estar pesada, eu não participava da brincadeira. Entendeu? Aí eu gostava muito, também eu lembro bastante disso. Assim, para mim, é algo bom. Algo de bom, que eu lembro, assim, dos meus pais.
(00:34:03)
P/1 - E você estava me contando, antes da entrevista, que... Isso teve um impacto em você quando você era criança, né?
R - Hoje, ainda também.
P/1 - Como é que era para você, sendo uma criança, lidar com essa situação? Como você via isso na época?
R - Na época, porque assim, eu era muito amiga do meu pai. Porque meu pai reclamava como meu pai bebia, e eu não queria que eles brigassem, e me era imposta a responsabilidade de cuidar das minhas irmãs. Aí era assim, quando meu pai saía para trabalhar, que se desse assim, onze, meia, doze horas, um mais tardar uma hora, meu pai não chegasse, era sinal de que ele ia chegar bêbado. O que que nós fazíamos? pra evitar uma possível confusão dos dois. Até porque a irmã chegava do trabalho, cansada, a gente não queria que eles brigassem. Lógico que ela ia se estressar por ele estar bêbado, né? Que ela espera chegar, ter ajuda, não ter tanta dor de cabeça, já pensava que ia passar do dia cruzado. O que a gente fazia? A gente ajeitava as coisas, que já era imposto pra gente ajeitar as coisas, né? Eu digo assim, posto, porque a gente sabe que todo mundo tem que fazer as coisas dentro de casa, mas como eu sempre fui a mais velha, sou a mais velha, eu tinha que fazer com que as outras fizessem. Aí a gente fazia as coisas, tentava organizar. Quando a gente não sabia a hora, se dessa hora ele não chegasse, nós não sabíamos a hora que ele ia chegar e de que forma ele ia chegar, porque às vezes ele chegava pouco bêbado, entre aspas, e às vezes ele chegava muito bêbado, tipo quase O que a gente fazia, quando ele chegava, a gente botava ele para tomar banho, geralmente eu, né? Botava ele para tomar banho, dava comida a ele, botava ele para dormir, para quando a minha mãe chegasse, nós fechávamos as portas, sabe?
R - Tentávamos não fazer zoada, sabe? Para que ele dormisse e quando a minha mãe chegasse não ter atrito entre eles dois, né? Briga entre eles dois, que era constante, apesar de... da minha mãe... deles não querem, na realidade, né? Mas aí a gente fazia isso para que não houvesse esses atritos, entendeu? Entre eles.
(00:36:20)
P/1 - E você estava contando que ele fazia chá para vocês. De onde que vinha isso? Vocês gostavam de tomar? Ele conhecia?
R - Eu não sei, mas eu não recordo. Ele me contou, mas na época, hoje eu não lembro. Mas eu acho que seja da pessoa que criou ele, porque o pessoal interior tem isso. E eu até gosto de chá. Eu não gosto dessas maravilhas, mas eu gosto de chá. Eu sinto falta de já tomar. Aqui não é muito comum, mas jacideira, capim santo, de vez em quando eu tomo. Não é uso orgânico, porque não tem muito, mas de farmácia mesmo, de mercantil. Mas eu até gosto. Eu acho que devido à influência dele, digamos assim.
P/1 - Que gosto que tem de jatobá?
R - Eu não sei te dizer, eu sei que ele é vermelho, um vermelhinho quase vinho, não muito escuro, depende da intensidade e da quantidade que você bota, mas eu gostava do gosto. Mas eu acho que foi o hábito dele fazer, sempre fazer, eu gostava.
(00:37:20)
P/1 - E você estava contando um pouco também de onde vocês moravam em Fortaleza, que vocês ficavam na frente da casa esperando a mãe. Como é que era a casa e como é que era o bairro naquela época?
00:37:37 R - Quando os meus pais, quando eu nasci, minha mãe morava em um bairro, Jariracema, que é próximo ao que o meu tio ainda mora hoje, que é o irmão dele e gêmeo com ele, que eles sempre foram muito apegados, eles dois. Mas, devido ao alcoolismo, meu pai sempre foi bebendo, como eu digo, meu pai sempre foi bebendo as nossas casas. Aí ele sempre fazia o quê? Ele ia vendendo a casa por uma mais simples, para ter o dinheiro, para comprar alguma coisa, para ter algum recurso, mas, porém, ele bebia. Aí fomos migrando até parar em um bairro bem simples. Não simples, digamos, mas um bairro simples e perigoso, porque nós morávamos, hoje, numa comunidade, né? Bem perigoso, que eu estou te dizendo, né? A gente morava... a gente não morava na rua do Rio, que é... O bairro era o Genibaú, até hoje ele é bem perigoso, mas na rua paralela à qual eu morava, tinha uma rua que era o Rio, que era divisória entre Genibaú e Altamontes, que também é outra região bem perigosa. Só que na época de gangues, tinha muita rivalidade entre o pessoal onde eu morava, que lá se chamava Fumaça na época, hoje eu não sei. e do lado de lá, Altranuntes. Aí, no entanto, esse rio, digamos que era fronteira, aí sempre tinha conflito do pessoal de cá com o pessoal de lá. Aí sempre tinha essas brigas, mas a gente morava numa rua anterior e a gente sempre ouvia o pessoal correr de um lado para o outro, porque o pessoal daqui precisava passar para lá e de lá precisava passar para cá por algum motivo. Aí sempre foi muito perigoso. E a gente morava numa casa bem simples, ela era de tijolo, mas porém de tijolo branco, já tinha construído há muitos anos, estava caindo o reboco já. Aí minha mãe, sempre por trabalhar e o dinheiro ser pouco, ela optava em comer ou em construir e reformar. Como o dinheiro nunca dava, aí a casa ia se deteriorando. Era uma casa baixinha, sabe? Bem complicado. Mas a gente sempre, minha mãe sempre tentou, sabe, assim, fazer com que tentou fazer a gente estudar, para que a gente não saísse, conseguisse sair dali, não se metesse ali naquele barzinho, não se metesse com droga, essas outras coisas que a gente sabe que talvez pudesse acontecer, entendeu?
(00:40:06)
P/1 - E lá era... eu queria saber se você conseguia brincar na rua, como é que era, se você... Tinha essa vontade de brincar na rua?
R - Como sempre, antigamente era bem mais fácil de brincar aqui agora. Apesar dos meus pais deixarem a gente trancar dentro de casa, a gente pulava janela, não era muro, era cerca, a gente afastava os pauzinhos da cerca. Aí a gente passava, porque tinha um beco entre a minha casa e a casa da vizinha, que era a dona Maria. Aí a gente passava e a gente ia brincar na frente, porque tinha uma área, um quintalzinho aberto, né? Na frente, assim, das casas. E a gente brincava, a gente brincava de bola, de bila, de pipa. Era uma brincadeira, assim, de menino, porque a gente brincava de casinha. Aí se juntava, a gente brincava ali na frente, de peão, sabe? Essas coisas assim, a gente pulava as coisas e a gente brincava com os meninos, né? A gente brincava de carimba, eu me lembro muito de brincar de carimba, que eu gostava. Era legal, a gente conseguia se divertir. Aí tinha uma senhorazinha na frente, a Dona Zezé, ela tinha alguns netos, alguns no plural, né? Aquela senhorinha que os netos sempre vão pra lá, né? Aí quando dava de tardezinha na boca da noite, assim, aí a gente sempre ia pra lá brincar de dominó, de baralho, sabe? O apostado era sabáculo, cascudo, essas coisas assim que a gente brincava. A gente brincava de esconde-esconde. Essas brincadeirinhas de antigamente. A gente sempre brincava. Quando faltava energia, todo mundo gritava no meio da rua, fazia zoada. Isso quando a mãe deixava, né? Quando ela não estava em casa, a gente sempre ia por... livre, arbítrio, mas assim a gente fazia, brincava assim. Quando ela estava em casa, a gente pedia, como sempre, determinava o horário para ir e voltar, apesar de ser em frente. Minha mãe sempre tentou fazer com que a gente não coisasse, mas sempre foi uma infância, deu para brincar, apesar de determinadas limitações.
(00:42:00)
P/1 - E você estava contando que, às vezes, você foi desenvolvendo um jeito fechado porque você ia buscar seu pai, às vezes. Isso era na infância ou foi um pouco mais velha?
R - Foi a minha... Assim, eu não sei quando começou. É porque, assim, como a gente morava numa região muito perigosa, a minha mãe, como meu pai, demorava pra vir. E, que nem eu digo, eu me sentia muito mãe do meu pai. Aí eu e minha mãe pediam pra que eu fosse olhar onde ele tava. Aí eu ia, só que eu não só ia, eu ia e ficava, e ficava lá até ele vir embora. Aí era o quê? Um bar. Aí nos bares tinham outros bêbados. Eu como menina, mocinha, isso, aquilo, outro. Aí os homens sempre ofereciam refrigerante, xilíton, coisa assim. Aí você faz o quê? Opa! Não, não quero isso, aquilo, outro. Sabe? A gente se fecha e meio que ignorante, grossa isso, aquilo, outro, pra que não desse permissão dos outros se chegarem, entendeu? Aí eu acho que isso trouxe meio pra minha vida de agora. Eu me sinto um pouco assim, sabe? Eu não sou muito aberta. Oh garota! Ali é Merida, né amor? É minha neta de dois anos. Depois, porque ela é bem espelhucuide, se ele conseguir ficar com ela. Pois é, aí eu me fazia dura, como eu estou dizendo, por causa disso, sabe? E às vezes alguns... o meu pai nunca bebia em casa. Isso ele tinha de muito bom, ele nunca trazia amigos para bebedinho de casa. Mas, como todo bêbado, às vezes vai na casa do outro. Aí quando coisava, minha mãe sempre mandava ele sair, ou até eu mesma, sabe? Que nem eu te digo, eu não sei o porquê. Que nem eu digo, eu não sei se por eu ter sido mãe, que nem eu digo, eu me sentia muito mãe do meu pai. não sei, por cuidar ou por cuidar das minhas irmãs, eu me sentia muito mãe dele. Quando algum amigo dele chegava lá em casa, aí eu dizia, pai, vai para Haculá, sai, né? Que é para ele sair e não ficar lá em casa. Mas ele também fazia isso, sabe? Ele nunca bebia em casa, era muito difícil mesmo ele beber em casa, ele chegava muito bem, como eu estou dizendo. mas ele não ficava muito lá em casa.
Mas não foi uma nem duas vezes. Eu sempre fui buscar meu pai nos bares, caído pelos cantos. Gente, vocês não sabem quantas vezes eu fui buscar meu pai caído pelos cantos. Só que como eu era meninista, as pessoas ainda estavam ajudando, até por eu não aguentar o peso do meu pai. As pessoas carregavam ele até em casa, mas meu pai era esses bêbados de cair no chão. Meu pai saía de casa para trabalhar, meu pai voltava Sem chinelo, sem nada. Nada, nada, nada. Muitas vezes ele trabalhava em uma bicicleta. Ele já chegou a ter moto, mobilete, essas coisas. Só que, como a circunstância... Minha mãe era quem ajudava ele a comprar. Minha mãe comprava uma bicicleta porque era o que ela podia. Ele penhorava a bicicleta, ele perdia a bicicleta, o pessoal tomava. A gente não sabe a real história do que aconteceu. A gente sabe que nem ele lembrava do que tinha acontecido. Aí eu sempre ia buscar ele, caí nos cantos. Cansei de ir. Ele é quem trazia.
(00:45:17)
P/1 - Em que momento que eles se separaram?
R - Eu sempre, apesar de eu gostar muito do meu pai, por eu me sentir mãe do meu pai, eu sempre disse, mãe, se separa do pai. Por quê? Porque meu pai batia na minha mãe, meu pai puxava faca pra minha mãe, e teve um dia que ele atirou na minha mãe. Ele atirou na cabeça da minha mãe. Lá em casa, como eu disse, nós somos quatro. Aí, eu e a Markely, nós estudávamos de noite. Só que nesse dia, como eu digo, Deus sabe o que faz, eu não fui para a escola. Não recordo o motivo, mas eu não fui para a escola. A Markely foi e as minhas duas outras irmãs estavam em casa. como sempre meu pai estava bêbado, aí uma colega minha foi lá em casa, Michele, vamos ali, assim, ô fulana, eu só vou, mas eu tenho que voltar rápido, porque o pai está bêbado, e quando ele chega bêbado assim, geralmente tem confusão em casa, e eu sempre intervia, tentava intervir, né. Aí tá certo, eu saí. Nesse contingente que eu fui, quando eu voltei, aí, aconteceu, né, isso foi minha mãe que contou até, porque eu não estava em casa. Meu pai chegou em casa, aí, Pegou o revólver que ele já trouxe, esse revólver não era dele, segundo ele era do meu tio, que ele pegou sem meu tio ver. Aí foi, chegou em casa, aí pegou e disse assim, ela chamava a minha mãe de graça, graça, hoje nem Deus te salva. E abriu a porta de baixo, né, abriu a porta de baixo assim, graça, hoje nem Deus te salva. Ele mesmo diz que sabe que quem salvou a minha mãe, ele, isso palavras do meu pai, que sabe que quem salvou a minha mãe foi isso que ele falou, ele mesmo diz. Aí ele foi, encostou minha mãe num guarda-roupa que tinha, porque a minha casa era bem estreitinha, só pra ter uma ideia, só cabia uma cama e um guarda-roupa e aquele pequeno espaço pra gente passar. Não tinha parede no meio, era só... só cômodos, né? Não tinha parede separando o quarto, né? Pois é, era uma cama de um lado e o guarda-roupa de outro. Ele encostou minha mãe e o revólver na cabeça da minha mãe. Só que nesse... isso ele abriu a porta da sala, minha mãe estava no quarto. E as minhas duas irmãs, vendo a zoada, a gente sempre ia pra perto da minha mãe pra tentar acudir, né? Pra tentar minimizar alguma zoada. Aí ele foi atirando nas minhas duas irmãs. Atirou numa, aí ela rolou na cama e atirou na outra. Na outra pegou de raspão no joelho. E elas saíram correndo pra dentro, pro quintal. E meu pai saiu, minha mãe veio na direção dele, ele foi pegar pra acudir as meninas, né? Ele foi, pegou, encostou ela no guarda-roupa e encostou a revolver na cabeça dela. Aí foi e atirou. Aí ele foi e correu. Porque ele achou que tinha matado ela até então. Aí minha mãe disse que naquela fração de segundo, ela não sabe quanto tempo foi, passou a mão na cabeça dela e disse, meu Deus, eu morri ou não morri? Porque ela tira na cabeça e todo mundo morre, né? Aí ela passou a mão na cabeça e disse que não viu sangue. Aí ela disse que lembrou das meninas que correram pra dentro. Ela não sabia o que tinha acontecido e correu pra dentro pra curtir as meninas. Porque ele só viu ela atirando, né? Aí a Marciele, minha irmã, que é encostada de mim, já tinha pulado o muro pra casa da vizinha. Aí a minha mãe tentou pular o muro, a minha mãe já tava passando. Aí, Marciele, cadê a Monielle? Aí não sabe. Aí a mãe volta. para ir atrás da Moniel, porque a mãe achava que ela podia estar caída dentro de casa, num desespero, não viu. Aí saiu gritando pela Moniel a minha irmã, que era mais nova. A coitada, na inocência dela, pegou uma bacia de alumínio dentro do banheiro e botou na cabeça, achando que talvez não fosse pegar uma bala nela. Não permitia isso, não passasse, né? Aí a minha mãe pegou ela, ajudou ela a passar, e passaram o muro.
Quando eu venho chegando, aquela confusão, né, na rua, aí disseram, Michele, teve um tiroteio na tua casa. Eu pronto, pai, corri. Aí quando eu corri, a minha mãe já tava na vizinha, isso, aquilo, outro. Nesse dia, nós não dormimos em casa, né, com medo do meu pai voltar. Ele fugiu, e perto da minha casa tinha um matador de boi. um curral lá. Aí, geralmente, quando acontecia alguma coisa, o pessoal corria pra lá, porque era muito escuro, tinha as cores de bois e aquilo outro, e era difícil de achar, né? Aí o pessoal dera a notícia dele pra lá. A gente, com medo, não dormia em casa. Aí, como sempre. A gente, como sempre, não. Eu sempre dizia pra minha mãe, porque de outras vezes que ele coisava nela, eu sempre dizia assim, mãe, separa do pai. Mãe, separa do pai. O que vai acabar acontecendo? Mãe, ele vai bater na... ele vai matar a senhora. E a gente vai acabar na casa de um idoso se vindo de empregados pras pessoas. No mínimo empregada. Isso não é coisa pior com a gente. Eu sempre comentava isso. Apesar de eu gostar do meu pai, de eu saber isso aquilo outro. Mas era por quê? Porque a minha mãe era quem dava suporte pra gente, né? Era a nossa mãe que dava suporte pra gente. Aí eu sempre dizia, sempre dizia, mãe faz isso, faz isso, mãe faz isso, e ela, Michele, eu preciso do teu pai pra cuidar de vocês. Michele, eu preciso do teu pai pra cuidar de vocês. Hoje eu até entendo da presença masculina, né? Apesar de todo o transtorno, mas antigamente a gente tinha muito isso associado à presença masculina, isso aquilo outro, e hoje eu talvez até entenda da questão dos abusos, que ninguém sabe quantos abusos a gente teria sofrido devido lá em casa só ser mulher, né? Talvez tenha ajudado, não sei. Coisas que só o tempo, só Deus sabe, né? Pois é, aí, voltando aqui. Aí quando eu cheguei em casa, eu... Mãe, a mãe vai dar parte do pai. Mãe, a mãe vai dar parte do pai. Não, Michele, não sei o que que tem mais lá. Mãe, a mãe tá esperando o que? Mãe, ele já tentou matar a senhora. O que que vai acontecer com a gente se a senhora tivesse morrido? Aí ela não foi. Eu disse assim, mãe, se a senhora não foi, eu vou pegar as meninas e vou na delegacia do menor. Eu tinha 15 pra 16 anos nessa época. Aí eu disse, se a mãe não foi, eu vou pegar as meninas. Aí eu falei, falei... Aí foi que ela foi dar parte dele. Nessa noite, nós não dormimos em casa. Fomos dormir na casa do antigo, na casa de uma amiga, dividindo as pessoas, porque era muita gente para acusar, né? Aí, resumindo, minha mãe foi dar parte, aí nós não sabíamos cadê meu pai, aí nós falamos, nós não voltamos para casa, acho que nós passamos dois dias fora de casa, não recordo. Com medo, né, do pai voltar. Minha mãe tinha que trabalhar no outro dia e nós ficamos nas casas das pessoas, com medo de voltar para casa. Aí, a gente foi lá pela vizinhança e disse assim, gente, quando o pai aparecer por aqui, vocês avisam pra gente, nós estamos na casa de fulano e tal, quero uma amiga que abrigou a gente, né? Duas ficaram na casa da minha tia e duas foram pra casa da minha amiga. Pra dividir as pessoas. E minha irmã foi trabalhar. Aí disseram, Michele, teu pai tá no canto? Tá. Eu corri, fui a pé, fui a pé na delegacia, que lá era no Conjunto Ceará, que é um pouco distante, assim, mas eu fui, né? Era o que tinha. Eu acho que eu fui correr, não sei se é que eu fui lá e a coisa veio, né? A... Polícia? Sim, a polícia chegou, aí eu fui lá e ele tava num barzinho. Aí chegou lá, levaram ele preso, aí ele ficou preso. Ele passou, eu não recordo quantos dias ele passou, ele ficou preso. Aí o que aconteceu? Eu, né... minha mãe... eu não consigo entender minha mãe. Minha mãe, apesar disso tudo, sabe o que minha mãe fazia? Mandava eu deixar comida pra ele todo dia. Ela tinha que tirar, botar a refeiçãozinha dele, almoço e janta, e eu ia lá deixar. Pra ele, porque na delegacia não tinha, né? A gente tinha que levar, ele estava preso lá. Aí eu ia deixar a comida, assim que eu diga assim, o coração dela é tão assim, sabe? que apesar de todo o mal que ele fez para ela, ela conseguia ter compaixão dele. Não sei dizer o porquê, mas ela fazia isso, e isso refletia na gente. Porque às vezes eu dizia, eu tinha raiva da minha mãe porque ela fazia eu gostar do meu pai, mesmo ele fazendo a gente passar por aquilo tudo. Porque a gente sofria muito. Aí... Atrapalhava o desenvolvimento da gente. Que nem eu digo, a questão de confiar nas pessoas. O medo de se envolver e achar alguém igual a ele, apesar dele ser meu pai. Ele não era um mau pai, ele era um mau marido, sabe? Porque eu não lembro das várias vezes que ele batia na gente, mas isso reflete muito na gente. Eu sou muito desconfiada, apesar de eu viver muito tempo com meu esposo, a gente vive há mais de 26 anos, eu sempre tenho a minha desconfiança, sabe? Eu sei cuidar, eu não sei dar carinho, eu sinto, eu tenho, mas eu tenho uma dificuldade, sabe, do abraço, sabe, do eu te amo, que meu esposo diz, eu te amo, já eu não digo. Eu sinto e eu acho que está relacionada a isso, entendeu?
(00:53:52)
P/1 - E como é que foi esse momento, desse dia, que foi muito difícil, eu imagino?
R - Era um mix. Para mim, meu pai sempre foi mais um filho do que meu pai. Foram poucos os momentos que eu tive dele ser meu pai. Só para dar uma ideia, eu levava o meu pai para o A.A. Eu me obrigava a ir com o meu pai nas reuniões do A.A. porque ele fazia tratamento, às vezes tomava remédio, às vezes fazia isso, aquilo outro. E eu que o acompanhava. Eu me sentia mais mãe do meu pai. Mas voltando aqui para o momento, foi muito difícil, porque a gente tinha um medo, o que vai acontecer com ele, o que vai acontecer com a gente, o que vai acontecer agora, o incerto, né? Até que nós voltamos para casa, meu pai foi preso, não recordo quanto dia ele passou. Novamente, minha mãe fez sabe o quê? Michele, vai no expedito, que é o irmão do meu pai, e comunica para ele. Eu fui. Porque, como eu era mais velha, minha mãe trabalhava, eu sempre era incubida a resolver as coisas de casa, né? Digamos assim. Aí eu fui... Dispute expeditos. Dispute expeditos, ficou chateada comigo, né? Com a minha mãe. Mas foi lá. Ia arrumar um advogado e conseguiram tirar ele. Nós estávamos... Eu estava em casa, deitada no sofá, minha mãe estava no trabalho. Não recordo quem mais estava em casa, eu recordo da minha... da minha ação. Aí, quando ele chega e abre a porta, eu, pronto, ele vai me matar agora? Porque algumas vezes eu cheguei a brigar com o meu pai. Eu botava as cordas dele pra fora quando ele batia na minha mãe, brigava com a minha mãe. Jogava as cordas pra fora, mandava ele embora porque ele não ia. Sabe? Ele já chegou a puxar a faca pra mim. Sabe? Ele puxava, como eu vejo, se meteram. Aí eu, pronto, ele vai me matar agora. Achei, né? Mas não, ele só chegou, entrou e lá ficou. Aí...
Eu não sei o que foi que a conversa com meus pais tiveram, sei que a minha mãe disse, você pode vender o que quiser vender dentro de casa, mas vai embora. Aí até que ele vendeu tudo, gente. O que ele pode vender, ele tem. Ele vendeu. Diga assim, porque o povo que a gente tinha na geladeira, o botijão, as coisas assim, que dava alguma coisa, ele vendeu e ele foi embora. Foi muito triste pra mim, porque eu gostava dele ser meu pai. Mas foi muito difícil pra mim. Apesar de eu entender, de eu saber que era a melhor coisa pra todo mundo. Aí ele voltou pra Itapajé. Foi quando eles se separaram.
(00:56:33)
P/1 - Como é que era na escola? Desde pequena até essa época da adolescência, você gostava de estudar? Como é que era?
R - Eu tenho poucas lembranças assim também, mas eu gostava. Sempre fui inteligente, sempre gostava. Era obrigada a tirar boas notas, né? Por quê? Porque eu era bolsista. A minha mãe trabalhava em empresas e lá davam bolsas. E a minha mãe conseguia bolsas, né? Aí, como eu era bolsista, eu era obrigada a ter boas notas, porque se não tivesse, eu perdia a bolsa. Aí, eu era obrigada a tirar boas notas, no instante eu estudava, direitista, aquilo outro, pra me conseguir. Eu fiz o meu ensino Fundamental, na época, fundamental, né? E o médio todo até o segundo ano, porque eu parei no segundo ano, que foi mais ou menos o período que meu pai foi embora. Aí eu parei, né? Foi quando eu perdi a bolsa, porque eu... Digamos que meus... minha rebeldia, né? Eu parei nessa época, mas voltando aqui, eu brincava, eu me dandava coisa de adolescente, de coisa mesmo. Eu gostava de estudar, apesar de aprontar isso aqui no outro, de brincar, né? Teve uma época que eu gazeava aula, mas na adolescência ali, sabe? Eu gazeava aula, eu morava perto de um sinal, eu estudava perto de um sinal, a gente pegava carona nos ônibus, o sinal parava, a gente... geralmente era pampa na época, né? Era baixíssimo, isso aqui e o outro. A gente subia, ia andar no centro, ia pro cinema, como sempre, nas americanas, roubar um chocolate com os amigos, né? Sabe? Mas nada demais, assim, sabe? Só essas coisas mesmo de adolescente aí. Aí, menina, eu era bolsista. Quando eu chegava, aí... Eu chegava em casa e a mãe, Michele, que era a diretora da escola, mandava recado pra mãe. Não sei como ela sabia, porque naquela época não tinha celular, mas a mãe sabia. Quando a mãe chegava, Michele, por que não foi pra escola? Mãe, não fui pra escola. Menina, aquela mentira bonita, linda. Mãe, eu fui pra escola, teve isso, isso, aquilo, o outro. Mentira. O nome da diretora era até amazonina. Eu gostava muito dela. Aí ela... a mãe sabia, né? Aí lá vai eu ter que apanhar isso, aquilo, apesar de inventar uma história linda, maravilhosa, mas nunca dava certo. Ela sempre dava sabendo que eu tinha... que eu aprontava na escola, mas digamos que foi normal. Eu era... eu era... eu era... eu tirava boas notas, né? Eu comecei mesmo a apontar depois que o meu pai saiu, que não estou dizendo, eu acho que foi mais uma rebeldia, porque eu meio que culpava a minha mãe, apesar de entender e achar que era o melhor pra... todas nós, eu culpava a minha mãe da separação, né? Porque antigamente, quando eu era mais nova, meu pai dizia que o culpado do meu pai beber era a minha mãe, sabe? Como sempre, né? E eu culpava a ideia. Não é que eu culpava a ideia, como eu não tinha entendimento para as coisas. E com o passar dos anos, eu fui vendo que ela não tinha culpa de nada. Aí eu fui vendo e foi o que eu vi, mas eu terminei o segundo ano do ensino médio, mas foi mais ou menos no período que o pai saiu de casa, um ano acho, quase, que o pai tinha saído de casa. Aí eu meio que... eu ficava chateada com a minha mãe. Tipo assim, tudo é culpa da minha mãe, sabe? Não consigo entender. Eu acho que eu fazia mais pra afetar ela. Hoje eu sei que não é injustiça, que ela não tem culpa de nada, foi o melhor que ela pôs pra nós. Mas eu acho que foi pra isso. Aí eu deixei de estudar no terceiro ano. Eu ainda fui pra escola no terceiro ano. Só que aí eu fui desistir. Zangada com a minha mãe, eu fui desistir de estudar. Tipo assim, eu acho que na minha cabeça eu culpava ela. Tipo assim, eu vou feri-la argando a escola. Idiotice minha. Mas eu concluí o terceiro ano aqui. Depois que eu tive minha menina, eu voltei e fiz o terceiro ano. Eu concluí.
(01:00:22)
P/1 - E você já trabalhava nessa época ou não?
R - Não, não. Quando eu vim pra cá, eu... Quando meu pai saiu de casa, eu nunca trabalhei, assim, nós lá em casa nunca trabalhamos, sempre foi minha mãe, né, até pra gente ser pequena. Quando meu pai saiu de casa, eu tive que tentar, eu não tive, a minha mãe sempre quis que a gente estudasse, ela disse, não, deixa que eu faça o que puder, e se aquilo ou outro. E só que eu achava muito pesada, é uma fase que a gente tá entrando na adolescência, a gente quer algumas coisas, a gente quer sair pra festa, a gente quer uma roupinha, quer outra coisa, e a minha mãe não tinha condições, apesar dela fazer o possível. Aí eu fui trabalhar por conta própria, sem ela saber, saí de casa, arrumei um emprego. Esse emprego, por coincidência, eu coletava dados de pesquisa de... Política, dados política, né? Aí tinha que viajar. Aí eu fui mentir pra mãe e viajei. Eu tinha 16 anos na época. Aí fui viajar.
(01:01:21)
P/1 - Você mentiu o quê? O que você mentiu?
R - Eu não recordo o que eu disse. Eu sei que eu... Eu não recordo exatamente o que eu falei. Eu sei que eu disse que eu ia viajar, que eu ia pro pai, Ancora assim, e fui viajar. Só que eu trabalhava, tipo assim... Lá a empresa que eu coisava, eu entrei por indicação de um colega. Aí eu também me tinha a minha idade, até porque era uma coisa avulsa, não tinha carteira assinada, não tinha nada, era só precisar de alguém para coisar e eu fui. Aí eu fui. Era assim, um dia você estava em trairia, um dia você estava em Itapajé, um dia você estava em tapioca. Tipo gordo de beijé, mais ou menos assim, sabe? Aí eu tinha que pesquisar a quantidade de homens, a quantidade de mulheres, saber uma questão de votos, isso aquilo outro. Era passado uns itens para nós, aí eu chegava na localidade e fazia isso aqui. Aí eu coletava os dados para essa pesquisa de ibope. Aí foi assim que eu comecei, mentindo para ela. Aí depois eu tive que dizer para ela, né?
(01:02:12)
P/1 - E como é que foi esse momento de começar a viajar sozinha, de conhecer outros lugares?
R - Sozinha sim, porque a gente tinha uma equipe, era uma Kombi, tinha o motorista e tinha as pessoas, né, uma equipe. Aí tipo a gente chegava aqui em Trairí, aí uma vai pra sede, outra vai pro Canaã, outra vai, não sei, eles chegavam na própria cidade e pesquisavam, né, aí mandava cada um por coisa. Dá medo, até, porque eu nunca tinha saído de casa, mas como a gente, assim, na adolescência, é ótimo, porque você se sente livre, você se sente dona, sabe? Ai, como eu sou independente, sabe? Essa sensação que lhe causa. Mas dá um pouco de medo também, porque eu era menina, né? Sempre fui magrinha, mignonzinha, morria de medo, sabe? Principalmente quando a gente ia para determinados lugares mais afastados da cidade, Aí dá medo, né? Porque você pegava um mototáxi e vai... Eu tinha um determinado medo, né? De questão de estupra, essas coisas. Até mesmo matar, que a gente não sabe o que acontece, né? Dava medo, sim. Mas, como eu tô dizendo, a gente vai com a cara e a coragem e faz.
(01:03:16)
P/1 - E você lembra o que você fez com o seu primeiro salário?
R - Como sempre, compra roupa, perfumes, uma coisinha simples assim. Eu sempre quis ajudar minha mãe, porque eu via que ela fazia, mas nunca dava também. E eu trabalhei pouco tempo, né? Eu tô dizendo. Até porque a época de política é rápido, passa rápido, né? Aí eu trabalhei numa casa de família, mas não é pra mim. Não é que não é pra mim. É assim, eu não me encaixava direito, sabe? Porque as pessoas pedem uma coisa, cobram outra e pagam outra, totalmente diferente. Então, não era pra mim. Eu trabalhei pouco. Aí... O tempo passou, aí eu fui embora. Eu comentei com meu pai. Depois que eles se separaram, meu pai voltou em casa, né? Ele foi visitar a minha mãe uma ou duas vezes por aí, depois de separado, eu não reclamo. Aí eu disse, pai, se o senhor arrumar um emprego pra mim em Tapajé, eu vou morar com o senhor. Mas só vou se o senhor arrumar um emprego. Até porque eu sabia que como ele bebia, eu não podia contar com ele, né? Então eu tinha que contar comigo. Por isso eu disse, se o senhor arrumar um emprego pra mim, eu vou morar com o senhor. Aí ele foi arrumar um emprego pra mim. Aí eu fui. Aí eu disse, mãe, quem ligou pra mim foi o Macedo, que é meu padrinho. que trabalhava na prefeitura de Itapajé, porque meu pai é de Itapajé, ele voltou para Itapajé, e eu fui trabalhar em Itapajé. Aí, eu expliquei para a mãe, né, que o Macedo ligou para mim, o nome dele é Macedo. Aí, minha mãe foi e arrumou o dinheiro emprestado, aí disse, se for para você trabalhar, beleza, você vai. Ela confiou em mim, mas dessa vez era verdade. Aí lá foi quando eu conheci o Barcelona, o meu esposo. A gente se conheceu. Ele saiu daqui e eu saí de Fortaleza. Nos conhecemos em Itapajé e lá a gente se conheceu e estamos aqui até hoje.
(01:05:09)
P/1 - E como que foi esse encontro de vocês? Como é que vocês se conheceram?
R - Bom, na realidade, foi assim, ele já estava lá, né? Ele era meu chefe, né? Ele chegou lá um tempo, a gente trabalhava com cadastro de PTU. A gente passava de rua em rua e cadastrava a casa. Tipo, essa casa é de alvenaria, essa casa é de taipo, tem piso de cimento, de cerâmica, tem fossa, não tem fossa, tem iluminação na rua, não tem, a casa mede tanto, disso, aquilo, outro. Esses dados, né? Aí ele chegou primeiro porque ele tinha que desenhar o município. Ele literalmente andou o município inteiro desenhando o município no papel. que era lá atrás, certo? Que foi em 1999 que a gente se conheceu, né? Então, não tinha essas coisas, pelo menos para a empresa lá não tinha, não foi passado para, né? Aí ele passava de rua em rua desenhando papel. Aí eu já trabalhava, eu fui trabalhar coletando os dados, né? Ele fez uma visão mais... mais... Ele mapeou, né? Superficial, pronto, ele mapeou. E a gente ia fazer o desenho das casas. Aí eu fui, aí lá quando eu conheci, foi feito uma prova, né? Eu passei na prova, aí teve uma palestra que iam dizer como ia funcionar, o que a gente ia fazer. Aí foi quando eu conheci, que nem eu digo pra ele, eu me encantei com ele, pelos olhos dele, eu até comento pra ele. Não sei o porquê, mas eu acho muito bonito. Os cílios deles, que tem os cílios tão grandão. Aí eu me encantei quando ele entrou na sala, eu vi, eu sentei um pouco mais profundo, quando ele entrou na sala assim, que ele é magro alto, eu recordo muito os olhos dele, eu me encantei pelos olhos dele.
P/1 - Foi amor à primeira vista?
R - Não sei se foi amor à primeira vista, mas eu recordo muito dos olhos dele, sabe? O jeito dele falar, que ele fala muito firme, imponente assim, sabe? A mim foi o que me encantou. Que nem eu digo assim, que beleza é relativo, eu acho isso.
P/1 - E em que momento que vocês decidem vir para o Trairi? Como é que foi essa mudança?
R - Bom, lá a gente, eu trabalhava coletando os dados aqui no outro, né? E ele era, o meu chefe ele ficava na parte de escritório e eu ia para campo. Aí era uma dupla, né? Aí eu tinha uma colega que ela dizia que ficou com ele. mas ninguém tinha nada com ninguém. Ela comentava, e ele dava umas olhadas, como sempre, todo homem, o novinho, o bonitinho, isso, aquilo, o outro, dava em cima de geral, porque o pessoal comentava que ele dava em cima de todo mundo assim. Segundo comentário das pessoas, não vou comentar em detalhes, que isso é só com ele. Mas as pessoas comentavam, e eu, não, estou na minha, não devo nada a ninguém, ele também não deve nada a ninguém, aí ele começou a dar paquerada, e eu também comecei a responder. Só que o meu padrinho, ele trabalhava na prefeitura, ele era secretário de finanças, porque a família do meu pai, na época, era gente do prefeito. Aí, quando o prefeito saía, o meu padrinho ficava, era como se fosse a segunda pessoa do prefeito, era responsável apenas por ir lá dentro. Só que eu sou branca, não gostei muito desse detalhe, mas a realidade era essa. E o meu padrinho, não gostava dele, porque meu esposo é Morena é negro. Aí o meu padrinho dizia assim, Michele, tenha paciência, dá um tempo que a gente vai arrumar um bom partido pra você. Só que eu digo pra você, pra mim a beleza é relativa. E não adianta você ficar com a pessoa com interesse? que eu acho que o amor se constrói, sabe? São diversas coisas que se fazem, você ter afinidade com alguém, não só a beleza externa. Mas a frase era essa, até porque a minha família toda, assim, a família do meu pai são todos brancos, olhos meio azeis, não todo mundo, mas alguns, né? Aí tem um determinado preconceito, eu não gosto muito, eu acho meio relativo, mas que nem eu estou dizendo, pra mim não afetou, eu não liguei, eu achei ele uma pessoa simpática, aí a gente começou, ele começou a paquerar daqui, eu comecei a responder dali, aí a gente me chamou pra sair, a gente foi ficando, foi ficando, até que um dia a gente ficou de folga, aí ele vinha, ele tinha uma irmã em Fortaleza, eu ia pra Fortaleza e ele ia pra irmã dele em Fortaleza, aí nós vinhamos no ônibus junto, porém eu ia pra minha casa e ele pra casa da irmã dele, o que aconteceu? Eu desci primeiro que ele, Aí ele não vou contigo, e desceu na minha parada. Eu não sinho, porque até então, como eu digo pra ele, a gente tinha combinado de a gente só ficar, porque eu não queria nada sério com ninguém, eu só tinha 19 anos, isso, aquilo, outro, né? Aí não tinha nada de compromisso com ninguém, porque eu sempre tive esse negócio de liberdade, eu não gostava de compromisso com ninguém. Não é que eu não gostava, eu não queria ter compromisso com ninguém pra ter que estar dando... Eu não tô nova, eu precisava curtir, né, na realidade. Mas aí foi. Eu desci e ele desceu e ele foi, eu mandando ele embora e ele seguindo, o menino, vai-te embora, porque a minha região era muito perigosa. E ele era daqui, aí eu fiquei com medo, pronto, ele vai descer aqui, vai acontecer alguma coisa, vão dizer que foi eu que mandei matar, que eu matei alguma coisa assim. Aí o menino, tu é doido, vai-te embora, vai pra casa da tua irmã e isso e aquilo. Aí, resumindo, ele seguiu, aí a gente foi lá pra casa, apresentei a mãe, mas a gente já tava ficando, entendeu? Aí foi quando eu apresentei ele pra mãe, mesmo que involuntariamente, mas foi assim que aconteceu. A minha mãe sempre com o coração dela... Minha mãe abriga as pessoas, sabe? Ela não duvidou, aceitou só disso que era pra ele me fazer feliz. Foi a benção dela.
(01:10:37)
P/1 - E daí vocês se mudam, em que momento que vocês retornam? O Marcelo retorna e você decide acompanhá-lo aqui para o Trairi?
R - Nessa viagem nós voltamos, até porque a gente trabalhava, a gente voltou para Itapajé. Só que como o meu padrinho não gostava muito dele lá, porque eles viviam discutindo a questão de poder, porque assim, essa empresa com a qual o meu esposo trabalhava era contratada da Prefeitura de Itapajé. O Macedo, por não gostar dele, não querer essa aproximação, não sei o porquê, até o que ele disse para mim era isso, para me esperar, mas o que me fez me relacionar com ele não foi por oposição, e sim por achar, ver nele alguma coisa. Então, como eu digo, essa pode ser o destino, porque não tem como eu de Fortaleza e ele de Tapajés, de Trairis, se encontrar lá assim do nada. Eu digo pra ele, nós temos alguma coisa aí que... Vamos estreitar isso aí, vai ser aqui. Pronto. Aí a gente voltou. Aí o Macedo foi, falou alguma coisa lá, não sei com quem. Aí ele foi transferido. O Baceroni foi transferido, a empresa transferiu ele. Aí... mandou ele pra Itapipoca, ele andou alguns municípios, foi pra Itapipoca, foi pra Caucaia e isso e aquilo outro. Aí ele precisava de alguém pra substituir, pra ficar com ele no lugar dele, né? Ele ofereceu um rapaz lá, o nome dele era Joed, trabalhava com a gente, mas porém o Joed ficou com medo, porque era muita responsabilidade e isso e aquilo outro não quis. Aí ele perguntou, tu quer ficar no meu lugar? Aí eu fiquei com medo até então, né, porque eu não conhecia, assim, até então eu não conhecia ele. Eu não conhecia a empresa, né? E o Macedo também, o relacionamento que eu tinha com o Macedo era muito pouco, porque era meu padrinho. Eu, eu fico, precisava do emprego e eu ia ganhar um pouquinho mais, aí eu fico. Aí fui e fiquei no lugar dele, mas eu fiquei pouco tempo, só até terminar o serviço, né? Acho que foi um, dois meses, uma coisa assim, mas porém fiquei. Aí ele foi transferido, aí eu pronto, aí eu achei até então pronto. Ele só me colocou aqui, pronto, acabou. Até porque a gente não tinha nada sério, né, até então. A gente estava só, digamos que, ficando. Apesar de a gente sempre ficar, né... Ficar sim, porque a gente ficava, digamos que, escondido. Mas era um escondido que não era escondido da gente mesmo. Porque todo mundo sabia. Os colegas da gente apresentavam a gente quando via a gente. Sabe? Até ainda fica com fulano, não sei o que. Mas a gente já ficava e a gente dava um diabestado, sabe? Mas aí a gente conseguia andar praça, essas coisas assim. Aí, resumindo, ele foi, saiu, aí pronto. Acabou aqui, né? Ciente que ele... Ninguém tinha nada sério. Aí, nesse contingente, eu morava com o meu pai, né? A gente morava no quartinho, alugado, isso, aquilo, outro. Mais uma vez, meu pai bêbado, isso, aquilo, outro. A gente sempre brigava porque eu comprava as coisas pra dentro de casa. Assim, eu não comprava muito, né? Eu comprava pouco porque eu sabia que ele bebia o que eu compraria. Aí, eu deixava a comida feita, quando eu chegava, meu pai estava bebendo, comendo de tira gosto, a feirinha que eu comprava, minha tia também me ajudava uma cedo também, de vez em quando me dava uma feirinha, que era meu padrinho. Aí, meu pai vendia, trocava por cachaça, sabe? Aí, numa dessas vezes, ele ameaçou, eu estava fazendo macarrão, ele ameaçou de jogar a panela em mim. Aí eu, com medo, aí eu faço quase a mesma coisa, eu vou atrás de alguma coisa pra alugar pra mim, pelo menos pra mim poder dormir direito, porque era muito ruim quando ele tava bêbado, isso aquilo outro, é uma insegurança, você não consegue dormir, isso aquilo outro. Aí eu falei com a minha tia Mira, né, que ela morava pertinho, morava na mesma rua assim, aí eu aluguei uma casa, aí, né, Eu me virei sozinha, né? Fui contar das moedinhas, isso aquilo outro, aí comprei um fogão, eu aluguei uma casa, comprei um fogão. Eu não tinha o dinheiro, porque eu ia receber um pouco mais a frente. Falei com a minha tia, tia, a senhora me empresta o dinheiro para alugar a casa, mas quando eu receber, eu lhe pago. Recebi, paguei, tudo e tal. Nesse contingente, aí eu fui comprar um fogão, eu me lembro que eu só comprei um fogão, eu acho que a minha tia me emprestou um botijão, não recordo, e comprei uma ou duas panelas, Pra mim, só cozinhar mesmo o básico, sabe? Pegar água na minha tia, gelada, porque era bem pertinho, era na mesma rua. Tanto era na mesma rua, a casa que eu aluguei, a casa da minha tia e a casa do meu pai, era tudo próximo. Que também era no interiorzinho de Itapajé, né? Aí nesse contigente, o meu irmão, que eu tenho um irmão mais velho, parte de pai, né? Que quem criou foi minha tia, não foi meu pai, minha tia Mira que criou ele. Aí ele foi morar comigo. Aí a gente dividia as contas. Eu achei até bom pra gente dividir as contas. Aí um certo dia foi, me chega alguém na porta. Quem era? Barcelonio. E eu, o que tu faz aqui? Porque eu senti que ele não voltaria mais, né? Aí pronto. Aí a gente começou, a gente ficou, aí ele voltava pra trabalhar, aí a gente se combinava, às vezes eu ia pra onde ele tava trabalhando, nessa época era em Calcaia, que é uma localidade perto de Fortaleza. Aí a gente ficou assim, um vai pra lá, outro vem pra cá. Até que terminou meu serviço lá, aí eu paguei minhas coisas e quando eu comprei o fogão, eu comprei o fogão já no intuito de deixar pra meu pai, né? Aí eu dei poucas coisas que eu tinha comprado pro meu pai e vim pra Fortaleza, que foi em outubro. Aí eu vim pra Fortaleza. Aí... Parece que dispensaram ele nessa época também, por coincidência. Ou acabou o serviço e ele ia ficar de férias ou coisa assim. Aí ele me convidou pra vir pra cá, que ele vinha em casa. Aí eu falei, tá bom, eu vou contigo. No entanto, eu vou, mas quando eu vim passar uns dias, eu volto pra Fortaleza pra procurar um emprego. Tá tudo certo. Aí nesse contingente eu vim e fiquei grávida. Falei com ele, fiquei grávida. Aí ele perguntou. Ele sempre disse pra mim que não tinha pensamento em vir morar em Fortaleza. E eu também não queria morar aqui. Aí ficou esse impasse. Aí ele disse, se você ficar aqui, tudo bem, mas eu não vou fortalecer isso aqui no outro. Aí eu fui e optei por ficar. Aí foi quando a gente, digamos, se juntou de vez, aí a gente tá aqui até hoje.
(01:16:48)
P/1 - E como é que era Trairi nessa época que você chegou aqui?
R - Pra mim, muito difícil, porque eu não tinha amizades, né, só os colegas dele. Eu sou uma pessoa muito fechada, assim, apesar de eu falar muito, né, estar falando muito, eu não sou muito assim, sabe, aberta, eu não sou muito simpática, que nem eu digo, eu sou fechada, sabe, eu sou desconfiada. Aí, pra mim, tudo era muito difícil, até porque ainda, aí, eu tô num lugar estranho. Ele era muito simpático, muito conhecia todo mundo, sabe, ele era, aí, aí eu ficava, todo mundo, aí eu ficava, será que ele ficou confusão? Aí a gente já ficava cismada em fazer amizade. Além de todo o contexto, a gente ficava meio cismada isso aqui e do outro. Mas não só por isso, porque eu sou cismada mesmo. Aí pra mim era muito difícil. Mas na questão de morar, é muito bom. Aqui é muito calmo, sempre foi muito calmo. Outra coisa que eu achava muito diferente pra mim... Por exemplo, em Fortaleza, se você lavou a roupa, se você deixa no quintal, lá pelo menos onde eu morava, as pessoas pulavam o quintal da gente e roubavam a roupa. na região que eu morava. Quando eu vim pra cá, eu não deixava roupa no quintal. Ele, menina, pode deixar roupa, não tem nada a ver. Hoje a gente deixa isso aquilo ou outro, né? Mas eu tinha... era cismada com tudo. Pra mim, todo mundo ia roubar as coisas, sabe? Essa questão de regionalidade, né? Assim, era muito desconfiável. Eu morria de medo assim de uma pessoa passar na rua, porque na época eu morava lá em cima, porque ele mora... o pai dele mora ali na pista, né? A gente morava do lado da casa dele, né? Que a dona Mercê deu uma partezinha lá pra gente, que eu fiquei grávida. Aí eu falei com ele, pra ele falar com a mãe dele, pra ele ceder um comoduzinho pra gente, pra gente ter a nossa privacidade, até porque eu ia até a Michele, eu gostaria de eu educar ela, né? Aí ele foi ceder pra gente, mas eu via muito isso. E outra coisa que eu vi muito, de muito diferente nele, na família dele sim. Seu Joaquim, que é o pai, e a Dona Messica, que é a mãe, eles... Na época eu achava que eles eram muito entrão, queria dar palpite, isso, aquilo, outro. Hoje eu entendo que é um cuidado com o filho. Mas na época eu achava meio assim, eu me sentia meio invadida, sabe? Eles querem... meio que mandar nele, queria mandar na minha filha, se meter, sabe? Eu achava assim, hoje não, hoje eu entendo. Com o passar do tempo eu fui entendendo, na realidade que não, isso é coisa de família, cuidar de mãe, isso aquilo ou outro, mas é a princípio assim. E também já devido eu não ter tido tanto cuidado, né, tanto caro, porque o Bacelê era muito apegado com a mãe dele, ele era muito, a dona Messias era uma pessoa assim, muito, sabe, cuidadosa, sabe? Eu achava. Era muito, como eu digo para ele, me dava uma determinada... Não digo inveja, que é uma palavra muito pesada, mas eu achava bonito o jeito dele, o Sr. Joaquim. Menino, chama fulano para comer! Menino, cadê esse clã que não apareceu? A Dona Mercê, tudo no mundo sabe chamar meu filho, que ele é o mais novo dos homens. Ela sempre teve um cuidado com ele, ela sempre foi muito apegada a ele. Eu acho. Eu senti muito essa diferença.
(01:19:44)
P/1 - E as praias aqui, essa paisagem, era muito diferente do que você está acostumado em Fortaleza ou não?
R - Como eu te digo, quando as vezes que eu ia para a praia eram poucas, mas totalmente. Aqui você olha, você vê aquele imensidão de mar, de terra, de duna e Fortaleza não, é aquele espaço assim, o mar não que a gente vê que é aquela água imensa, mas até a parte de areia você vê que é totalmente diferente, é um espaço Limitado. Muita barraca na areia, muita mesinha, essas coisas. Aqui não. Parece bem... É mil vezes mais bonito, sabe? É bem natural. É muito bonito, realmente. Eu acho. Muito diferente, muito diferente. Não se compara.
(01:20:32)
P/1 - E a gente tá ouvindo o canto dos pássaros, né? Aqui venta bastante, né? É uma cidade que o vento é super forte. Queria saber se quando você chegou, se você lembra assim, como é que era? Se tinha muito pássaro aqui?
R - Eu morei oito anos lá em cima. Eu vim pra cá, tá com menos, tá com... Dezoito, acho. Aí eu morei lá em cima. Lá em cima não tinha tanto canso de pássaro, porque passa ônibus, passa coisas daquilo outro, a gente não escuta tanto. Aqui pra baixo, não. Já tem bastante árvore, apesar do rapaz criar uns passarinhos ali presos, que eu não gosto. Mas aqui a gente tem passarinho, o pássaro não joga arroz no quintal. Tem soinho que vem no quintal, atrás de goiaba, atrás de caju. Tem... Os passarinhos, tem até beija-flor, teve um que fizeram um ninho aqui assim, só que eles vão embora com o tempo, né? Aí sempre tem passarinho, eu não conheço muito não, tem uns que tem um rabinho coisado, a gente não gosta de prender, a gente joga, corre, bota nas árvores assim e eles vêm comer. Aí o Bacelão que tem uma piscina ali no Quintal, né, porque ele tem problema na coluna, aí ele precisava fazer fisioterapia, aí ele fez um... Uma piscininha pra ele pequenininha, só pra ele fazer exercício mesmo, pra ele, pra ajudar, né? Aí eles vêm tomar banho, ele tem até um vídeozinho gravado do passarinho tomando banho. Assim, a gente acha bonito, é melhor do que tá perdendo os bichinhos. Besteiro de ignorância da gente. Que nem meus cachorros, eu tenho três cachorros e o bichinho vive solto dentro de casa.
(01:22:05)
P/1 - Eu queria que você falasse um pouco como foi se tornar mãe.
R - Bom, a princípio não foi planejado, mas como eu digo, ela... Eu fiz o meu melhor no que eu pude, né? Porque era uma experiência nova. Assim, apesar de eu me sentir mãe do meu pai e das minhas irmãs, ela era a minha filha, nasceu de mim. Então, eu fiz o melhor que eu pude, apesar de não saber, sabe? Uma coisa que eu sempre disse pra ela, uma coisa que eu queria Eu queria ser amiga da minha filha. Por quê? Porque eu queria que a minha mãe tivesse conversado comigo, tivesse me orientado. Eu entendo, a minha mãe foi orientada de uma forma, ela também não tinha tanto tempo, era uma outra época, mas eu... Queria muito isso dela. Por exemplo, eu participava muito das coisas da escola dela, eu sempre ia. Mesmo ela pequena, eu disse assim, Michele, tu quer fazer isso? Porque as pessoas, como ela era muito comunicativa, sabe que ela tinha muito jeito do pai dela, determinada idade. Aí, tu quer fazer isso? Que eu não impunha. Eu disse, você quer fazer isso? Se você for fazer, mas se for fazer, faça direito. Eu sempre disse isso. Se você quiser, faça a sua parte que eu tenho. Tipo assim, se fosse precisar alugar uma roupa, ou levar ela para um ensaio, ou corra assim, eu sempre me predisponho a fazer. Aí, se ela quisesse, eu sempre coisava. Eu sempre... quem alfabetizou ela foi eu, sabe? Quando eu estava grávida dela, eu conversava muito com ela na minha barriga, sabe? que eu não sabia o que ia acontecer. Eu sempre acho que conversa ajudava, né? Sempre achei. Até porque, digamos assim, ia ser um elo meu e dela que era nosso e pronto. Aí eu sempre fiquei assim, apesar de ter muito medo, que a princípio eu não queria ficar aqui porque eu não conhecia, era uma cidade grande, era totalmente diferente, porque aqui é muito calmo, né? Mas é que eu digo, é o melhor pra ela, então vamos tentar, vamos fazer aqui. A gente também não tinha tanta coisa, nem ele, nem eu. Ele é um homem muito bom, esforçado. Apesar de...alimentação é uma questão financeira. Ele também nunca ficou só parado. Quando a gente não tinha alguma coisa... A dona Messia ajudava muita gente. A gente não tinha. A dona Messia é mãe dele. Ela nos dava as coisas. Comida mesmo, na realidade. Quando não tinha, ele ia pescar. Teve um tempo que ele não tinha emprego, ele foi trabalhar de mototáxi. Ele sempre se virou. Ele fazia um bicozinho de pedeira, coisa assim. Até conseguir um emprego.
(01:24:41)
P/1 - E depois você teve mais filhos?
R - Eu não tenho outro filho biológico. Eu tenho um filho sangue-sangue, porque ele é meu sobrinho. Como começou isso? Na minha família, nós temos hemofilia. Por exemplo, eu sou portadora de hemofilia. Por que eu sou portadora de hemofilia? Porque até então eu não sabia. tem histórico de hemofilia na minha família. O que é hemofilia? Hemofilia, nós temos um negocinho dentro do nosso corpo, do nosso sangue, que quando a gente leva uma pancada ou um corte, ele coagula. Quem tem hemofilia, dependendo do grau, que no caso da do meu filho e do meu neto são hemofilia A grave, eles tem menos de 1% de fator de coagulação. Então eles não coagulam o sangue sozinhos, eles precisam de uma determinada medicação para coagular. Dependendo da intensidade da pancada, dependendo do acontecido, eles tomam essa medicação vários dias, é preciso fazer compressa, é preciso uma série de coisas que vai muito do que acontecer. Aí eu sou portadora por quê? Porque hoje meu neto é, então eu tenho certeza que eu sou portadora. Passei para minha filha, que passou para o meu neto e ele desenvolveu. Essa é uma doença que é neodaltônica, só é desenvolvida em homens. Então ela é uma dessas hemofilias. Aí o meu sobrinho, ele tem hemofilia. E minha irmã, que por incrível que pareça, do destino, novamente, O que fez? Que era a irmã que eu menos me dava com ela, assim, eu menos tinha... A gente nunca se deu muito bem. Ela... Teve ele, né? Mãe solo também, precisava trabalhar pra cuidar dele, e ela não confiava porque é uma doença que você precisa ter cuidado com a criança, né? Principalmente na fase de criança, que tem que andar, isso, aquilo ou outro. Pronto. Aí, como eu não trabalhava fora de casa, né? Que eu só tinha a Michele, ficava em casa, ela falou comigo, Michele, cuida de Matheus pra mim. Tudo bem, eu fico com ele, mas eu fico com ele para você trabalhar, não para curtir. Deixa eu contar uma coisa interessante. Por incrível que pareça, novamente, quando ela engravidou dele, como sempre o pai cai fora, ela foi morar com o meu pai. E lá, meu pai, devido a ser alcoólatra, não trabalhava, ela passava necessidade. Aí eu disse, Miquel, vem pra cá, eu sei todas as decisões das quais eu tomo, eu sempre falo com meu esposo, Marcelone, eu posso fazer isso, você está de acordo? Porque é uma coisa que ia pesar no financeiro e no emocional, querendo ou não, a bala. Aí ele concordou de eu trazê-la. Ela já estava grávida e tal. Aí ele foi... Falei com ela, Moniel, vem pra cá que aqui eu te ajudo pelo menos na questão da alimentação. Eu sabia que ela não ia passar fome. Vamos pro bruto. Aí ela foi e veio. Eu não recordo quando ela veio. Sei que ela já estava com a barriga até grande. E ela teve ele em setembro. Mais outra coincidência. A minha menina é do dia 22 de setembro. E Matheus é do dia 19 de setembro. 17 de setembro, desculpa. 17 de setembro. Aí ela veio, teve ele aqui e foi embora em janeiro. Ele já estava com três meses. Foi quando ela foi embora. Aí ela não conseguia trabalhar, esse aqui e o outro. Ela falou comigo, eu fui ficar com ele. Aí eu fui para trabalhar. Aí ela foi. Trouxe ele, né? Aí o Moniel Resumindo, ela não vinha muito visitá-lo, sabe? Aí o tempo foi passando, o tempo foi passando. Aí eu, Monielle, visita Matheus, Monielle, não sei o quê. E o tempo passando e ele foi me chamando de mãe. E a gente sem saber, eu e minha esposa sem saber o que fazer. Ele me chamava de mãe, por a minha filha me chamar de mãe, chamava o Barcelona de pai. E eu sempre comuniquei a ela. Moniel, o que é que eu faço? Porque o Matheus está chamando... Resumindo, o tempo foi passando e aqui ele ficou até os 16 anos. Foi quando ele foi para a fortaleza. Aí, para mim, eu tenho dois filhos. Porque pra mim ele é meu filho, porque fui eu quem cuidei dele, eu quem ensinei as coisas a ele, eu quem eduquei.
E isso aqui é muito, pra mim ele é meu filho, podem dizer o que foi, porque hoje a gente se estranha muito, eu e minha irmã, devido ao Mateus, porque ela tem um determinado ciúme, às vezes ela diz que eu não sou mãe dele, e eu digo que eu sou mãe dele sim, porque fui eu quem ensinei as coisas a ele. Eu quem eduquei, eu quem isso e aquilo outro. Não foi você, você só teve. A gente briga muito nessa questão. Assim, a gente discute, sabe? Discute não porque a gente não se bate de frente, mas toda vez que a gente sai faz que entre nós duas já é relacionado a ele. Mas ele respeita nós duas. E uma coisa que eu sempre, eu nunca neguei pra ele que ele era mãe dela. A gente até brinca que se as pessoas escutarem a história dele, porque ele disse que tem duas mães. Aí se Mateus, pessoal, coisa, acho que tu é... Nós somos lésbicas que somos duas mães, mas... Mas a gente sabe nossa história, sabe? Mas assim, pra mim ele é meu filho.
P/1 - E quantos anos tem a sua filha e ele?
R - A Michele vai fazer 26 e ele vai fazer 22.
P/1 - E ele volta bastante pra cá?
R - Bem, inclusive ele vem amanhã, vem aqui, vem apresentar a namorada dele pra gente. Porque ele tá num novo relacionamento, né, aí a moça lá quer, ele já conhece a família dele, conhece a família, ele conhece a família dela e ela quer conhecer a família dele. Aí ele vai trazer, ele já, ele vinha numa outra vez que ele veio, só que sempre que acontece uma coisa ou outra, porque minha menina acabou de separar e o Matheus não é num bom momento porque a gente tá passando por uma determinada Adaptação, né? É, aí vamos deixar um pouco mais pra frente, só que ela tá cobrando, né? A gente entende, apesar de não ser um bom momento, mas vamos ver lá, né? Que no Rio a gente vai se adaptando e assim mesmo, paciência.
(01:30:13)
P/1 - E me conta, eu queria conversar um pouco sobre a parte da costura, né? Quanto tempo que você tava aqui, já que você encontrou a Dona Iracema e começou a aprender com ela? Faz muito tempo esse momento?
R - Eu conheci com ela depois que meu pai faleceu, até porque eu ficava em casa e eu chorava muito, que não estou dizendo, sabe? Porque o meu pai, ele bebia todo santo dia, todo santo dia ele bebia. Apesar de eu cuidar dele, eu cheguei aí na promotora, eu levei ele pra fazer tratamento no CAPS, mas meu pai sempre disse pra ele e pra gente, pra qualquer um, eu largo o couro da boca, mas não largo de bebê. Ele sempre disse isso. Ele disse que a única coisa que ele não largava na vida era a bebida. A gente não sabe o porquê, mas ele sempre disse isso. Eu tentei de diversas formas. Minha mãe, na época em que ele morava, minha mãe comprava garrafada, dava remédio escondido, dava remédio comprado, feito. Sabe, minha mãe tentou de tudo. Eu aqui, eu levei ele pro CAPS. Eu tentava dar medicação. Também dei medicação escondida a ele. Só que não dá certo, porque essa medicação, ele desmaiava na rua. Aí eu tinha que dizer a ele. Ele não queria tomar medicação. Ou então ele fingia que tomava, botava no bolso. Era uma coisa de história. Sei que do meio... Eu fui na promotoria pra saber se eu podia prender ele dentro de casa. Porque assim, ele saía pra beber, ele arrumava confusão. Era muito... Cansei de chegar a viatura aqui em casa pra mim pegar o pai caído na rua, porque o pessoal denunciava, o pessoal achava que eu deixava ele caído na rua porque eu... Não era, minha gente, eu não podia prender meu pai, sabe? Eu não podia simplesmente botar um cadeado na porta e coisar. Eu fui na promotoria pra saber se eu podia fazer isso, né? Porque aqui em casa, ele ficava nesse quarto da frente, ele tinha um quarto e um banheiro só pra ele. Porque como ele bebe, eu tinha medo de deixar ele com os meus filhos dentro de casa. Então eu deixava o acesso dele, mas eu dava comida a ele, banho nele, Tudo direitinho. Até banho, só para vocês terem uma ideia, meu pai só tomava banho quando eu botava ele para tomar banho à força. Era tão complicado. É pior do que menino. Por isso é que eu me sentia muito mãe do meu pai. Era muito complicado. Comida, ele só comia comida. Ele tinha essa síndrome de que as pessoas iam matar ele, sabe? As pessoas iam envenenar ele. Tinha fulano perseguindo ele. Acho que era essas alucinações. Às vezes ele ficava tão... Não é a palavra que a pessoa fica areado. Ele se areava dentro do próprio quarto, porque tinha uma fechadura por fora e uma fechadura por dentro, porque quando ele estava muito bêbado, eu fechava ele por fora para ele não sair. Mas eu abria todo dia pela manhã, porque eu não podia prender, né? Aí ele fechava por dentro, aí ele ficava areado dentro do quarto, ele não sabia. Aí eu ficava batendo na porta para ele saber, escutar o som para saber onde é que estava, para ele abrir a porta para me dar comida para ele. Porque ele ficava areado dentro do quarto, ele caia dentro do quarto. Menina, era uma coisa, era horrível. Aí ele... tinha o acesso dele separado pra não ter o acesso dentro da minha casa, já por causa dos meus filhos, sabe? E assim, pela costura, né? Sim. Aí foi quando meu pai faleceu, ele saiu, ele saiu, aí ele se perdeu. Eles se ariavam muito, como eu tô te dizendo. Aí ele se ariou, andou, andou, aí... Ele morreu perdido no mato, sabe? Acharam ele... Ele saiu de casa na quarta, Aí eu fui da parte, andei procurando ele pelos matos, por aqui assim, por onde ele andava, isso, aquilo, o outro. Aí fiz o boletim de ocorrência na sexta-feira, que até então ele não tinha chego. Quando foi no domingo, acharam o corpo, uma pessoa morta, né? Ele deitou, estava dormindo, deitou no canto e lá morreu. Acho que pelo tempo sem água, sem comer, né? E faleceu. É, acharam ele lá. Aí eu fui reconhecer e coisou. Fui enterrar ele em Tapajé, né? Aí foi assim que ele faleceu. Meu pai e filho, né? Mas, vamos lá. Aí, nesse período, eu ficava muito triste, sabe? Aquela perda, né? De um filho, de um pai. Assim, o peso de eu nunca ter tido um pai. Aí, eu fui... Quando eu fui trabalhar na Dona Sema. Acho que eu estava com 8, 9 anos, que eu já estava aqui. Aí, eu fui... Fiquei lá, eu fiquei esses três anos e meio pra quatro, aí eu comprei minhas máquinas, aí eu fui trabalhar pra Azélia, eu trabalhava com fardamento, que eu tô dizendo, que é com malha, é um determinativo de tecido. Conheci a Rejane, que me falou, que trabalhava com a mulher de Fortaleza. Eu, Rejane, se tu conhecer essa pessoa, se tu me apontar pra ela, ela quiser que eu trabalhe, eu compro minhas máquinas. Fiz o empréstimo, comprei uma máquina, meu esposo me emprestou o cartão, e compramos a outra máquina. Aí eu comprimia de duas máquinas, a Regiane ficou de resguardo, pegou as peças, falei com a Zélia que trouxe as peças pra mim, que aí já era um outro tipo de tecido, que era viscose, que é tecido plano, que a gente chama. Aí eu fazia short, blusa, vestido, era uma coisa bem mais ampla, só que mudava era o tecido, que é viscose, é outro tipo de tecido. Aí eu comecei a ficar em casa. Menino, a próxima adaptação, por incrível que pareça, é costura, mas é diferente. O tempo é outro. Por exemplo, quando a gente trabalhava, eu trabalhava em Radonho da Sema, eu trabalhava, digamos, período normal, você chegou, saiu de lá, pronto, serviço tá lá, não tem linha, não tem... Quando você trabalha em casa, amor, é muito difícil. É assim, porque além de ser... o tempo de trabalho, você tem que administrar com as coisas de casa, com o trabalho, É bem complicado, mas foi um pouco difícil, mas deu certo. Aí eu fiquei com ela acho que mais ou menos uns três anos, eu acho. Aí eu fui... eu saí dela um pouco antes da pandemia. Foi quando a minha menina foi fazer... minha menina ficou de maiônia quando 18, aí foi fazer faculdade. Aí eu falei com essa senhora que eu trabalhava com ela, aí eu... Dona Zélia, é porque eu fazia um pacote, aí eu ia precisar fazer dois pacotes para pagar a faculdade, porque um era para me ajudar nas coisas de casa e esse outro era especificamente para me pagar a faculdade dela, que a faculdade dela nós temos Fieis, mas não conseguimos passar no Fieis. Aí nós fomos no particular, aí deu certo, a gente conseguiu uma bolsa de 50%, aí vamos lá, encaixamos. Aí eu fui falar com ela para ser certo. Aí eu falei com ela, só que aí, nesse período, ela comprou uma casa. Aí, nesse período de casa, houve lá um problema lá com ela, que ela começou a tirar, assim, ter menos produção. Ela teve que fazer um reajuste, né, aí também quebrou. Quebrou não, diminuiu o coiso dela. Aí ela tirou de mim, porque assim, a justificativa com ela me deu, tá? Não concordo mais. Michelle, tu é a única que tem marido, as outras meninas não têm, então eu cedo as peças pra elas. Eu, mas eu... Eu falei com a senhora que eu ia precisar de... Resumindo, aí eu fui atrás de uma outra pessoa. Aí a Netinha trabalhava com outra pessoa, porque ela sempre arrumava peça pra gente, porque ela é muito conhecida, né? Aí eu... Netinha, quando tu arrumar, eu tô precisando, se tu arrumar, tu me coloca no meio. Aí ela foi arrumar outra pessoa, a gente ficou eu, ela e a Nisa. Aí eu falei com ela para ela arrumar, ela arrumou outra pessoa, aí a Netinha aqui conhece, né? Eu, ela e a Anisa, a gente por coincidência ou não, a gente sempre trabalhou com os mesmos fornecedores. Aí a Netinha foi e arrumou os fornecedores e aí eu comecei a pegar outro pacote, aí eu peguei o da Zélia e peguei o da outra. As meninas com as quais eu trabalhava aqui desse lado, começou com esse buzumzumzum, isso, aquilo, outro, mas eu sempre conseguia dar de conta dos meus dois fornecedores. Ela começou a ficar chateada, O pessoal começava a inventar coisas, isso, aquilo, outro. Aí eu fui, me zaguei com ela também e saí. Aí foi que eu fiquei com ela e conheci Dona Ana, que é com a mulher que eu tô agora. Aí eu tô com a dona Ana no momento. Eu também fazia dois pacotes. Dois pacotes que eu sei... É dois sacos de peças, certo? Eu vou marcar uns vaziões sem peças. É um pouco mais, um pouco menos, mas... Aí eu fazia dois. Só que agora, como eu estou em processo de adaptação, devido a eu estar com dois netos, tenho que dar atenção, tenho que cuidar de casa, tenho que ajudar a minha filha no cuidado dos meninos, eu não estou fazendo só um, com muito esforço, porque a minha neta é muito apegada comigo, sabe? Aí... Eu tô tendo que cuidar dela. Tenho que dar bastante atenção a ela, sabe? Aí a Michele fica mais direcionada a Miguel e eu fico Merida. Mas esse processo de adaptação vai dar tudo certo.
É só uma fase, já já passa. Assim eu comecei na costura e estou na costura. E pretendo ficar na costura, porque é uma coisa que eu gosto. Uma coisa que eu sempre comento com a minha esposa, eu tinha vontade de ter uma fábrica de costura em família. Porque eu acho que a família sabe... Tipo assim, se você arruma um trabalho, dependendo do quê, você chama seu pai, seu irmão, seu marido, seu primo. Eu acho que é isso que a gente tem que fazer aí. Por quê? Porque eu acho que a família tem que ser unida sim. Eu gosto, eu acho bonito. Não sei se é porque minha família não era tão unida, mas eu acho bonito. Eu gostaria de quê? Aí que nem eu digo para a Michele, porque a Michele a princípio, minha filha, ela não queria trabalhar na costura. Ela foi trabalhar por necessidade. Vou explicar como. Eu disse assim, Michele, vamos fazer disso, porque ela foi atrás de emprego aqui, o pessoal só pagava 500 reais, sabe? O máximo que ela arrumou foi 500 reais. Eu disse, Michele, faz disso. Você trabalha aqui em casa, eu ajudo na faculdade, E lhe dou alguma coisa pra você comprar produtos, pra passagem, pra comida, isso aquilo outro. E digamos, a gente já... eu já ia fazer isso, né? Mas o que é que eu fazia? Usar o útil ao agradável pra quê? Pra que ela trabalhasse, tivesse como responsabilidade, né? E afinal, coisão, daí foi assim que ela começou a trabalhar, sabe? Gravando com a câmera 1. Gravando com a câmera 2.
(01:40:01)
P/1 - E ela então, quando ela voltou pra cá, que ela começou a... A sua filha começou a costurar?
R - Não. Foi quando ela foi fazer faculdade. Ela me ajudava assim, ela cortava o etiqueto, cortava a ponta de linha, nada assim com compromisso, certo? Mas eu sempre botava ela pra fazer uma barra, uma coisa assim, mas era tipo assim, eu tô fazendo porque a mãe tá mandando, entendeu? Ela ensacava, ela botava etiqueta, coisa simples assim, que nem eu pedia também meu menino pra fazer, viés... Pra quem entende, sabe o que eu tô falando, quem trabalha com costura, né? São coisas simples, sem muita... Você não precisa saber costurar pra fazer o que eu tô pedindo pra ela fazer. Quando ela foi fazer faculdade, que não te diga, ela foi porque não era, não conseguimos o FIES, ela não passou no FIES, nem o Prouni, nem o FIES. Aí, o negócio é o seguinte, aí eu negociei com ela, você trabalha comigo, que ela foi atrás de emprego pessoal, ela tinha que sair cedo porque ela foi fazer faculdade em Fortaleza, ela tinha que sair daqui quatro horas para pegar o ônibus, ela ia quatro horas da tarde, no ônibus que a prefeitura coisa, e voltava por torno de meia-noite. Aí meia-noite a gente ia esperar ela lá em cima pra ela não descer sozinha. Mas aí voltando, aí foi o que eu disse. Pois faz disso, tu trabalha comigo em vez de tu trabalhar... Porque as pessoas não queriam que ela saísse 4 horas, porque geralmente é 5 horas. E ela só conseguia emprego de R$ 500, isso e aquilo outro. Aí eu falei, faz isso, tu fica aqui, eu pago a tua faculdade, dou dinheiro pra tu comprar os produtos de higiene pessoal, o teu lanche, isso e aquilo outro, e você me ajuda aqui, mas com compromisso. Na sua semana de prova, que você precisa fazer um trabalho, você tem o seu custo, mas você vai ter sua responsabilidade de trabalho. Eu dizia, digamos que eu digo. Eu já ia fazer isso, mas, digamos que eu passei a responsabilidade pra ela, pra ela sentir o peso de gerenciar, de administrar a própria vida, isso e aquilo outro, né, dando um gatilho dela da vida adulta. Aí ela tá certa. Aí foi quando ela, digamos que, começou a costurar, a tica assim, hoje eu sou costureira, né, mas não foi nada assim que ela, tipo assim, é o que eu queria, porque até então ela não queria, né, ela queria ser engenheira civil. Foi a faculdade com ela que começou, que ela Eu não sei se dois anos e meio ou três.
(01:42:15)
P/1 - E você estava falando que seu sonho é ter uma empresa familiar?
R - Eu gostaria bastante, eu sempre tive essa vontade, eu acho legal. Mas é que eu sempre comento para a minha esposa, que é seu sonho, vamos supor que se eu fosse coisar. Eu gostaria de trabalhar na costura, eu não ia costurar, mas eu cortaria porque eu fiz um curso de corte e costura, eu e a Netinha, por coincidência, novamente. fez eu, ela, tinha Dona Irassema, que é a mulher que eu trabalho, nessa época eu trabalhava até lá ainda, foi quando ela viu meu potencial, sabe? Que ela viu que eu, tipo assim, porque eu trabalhava lá na Dona Irassema, aí tinha uma moça lá que ela costura, que ela viu que eu aprendi lá, ela não acreditava muito em mim, aí como eu também não acreditava em mim, aí eu tinha essa insegurança de eu não ia conseguir trabalhar se não fosse lá, eu tinha um determinado medo de sair. Quando eu fiz esse curso, aí ela viu que eu tinha potencial, Porque eu vi o tratamento dela diferente, ela me botou para cortar, eu vi, sabe? Aí ela me botava para cortar lá, eu passei a infestar o tecido, eu já vi ela fazer, mas eu já tinha pedido oportunidade e ela não dava tanta credibilidade. Quando ela viu que eu tinha, ela começou a pedir para me fazer. Eu sabia que ela estava me explorando, mas assim, como eu te digo, ela não ia explorar, que para mim era bom, eu estava aprendendo. Então, nessa hora eu não ligava de estar sendo, sabe, abusada de... das funções, mas como eu queria, eu pretendia, aí foi. Aí sim, aí eu fui voltando pra cá. Aí eu tenho esse sonho, eu gostaria de trabalhar aqui na área de cortes, aquilo outro. Minha irmã é costureira, aí os nossos filhos... A minha outra irmã, mais nova novamente, mas a Dama, entender com ela, ela tem um talento muito bom para vendas, ela ficaria na venda. O meu esposo já ia para a parte de comprar tecido, de linha, que ele é muito bom negociador, que eu nunca vi desse jeito, sabe? E nós íamos adaptando aos nossos outros parentes dentro da empresa, assim eu gostaria bastante. Tipo assim, desculpa. Tipo assim, eu gostaria do começo até as vendas. Teria função pra todo mundo, pra toda família ficar todo mundo unido, todo mundo trabalhando, sabe? Eu acho isso. Gostaria muito. Eu teria até o nome, talvez. Talvez, não sei. Devido a minha neta se chamar Merida, e o filme se chamar Valente, Merida Valente, né? Ou Valente, Merida, não sei mais o nome. Merida Valente, acho mais bonitinho. E o símbolozinho seria um... porque Merida, no filme, ela coisa arco e flecha, e o meu signo é Sagitário, que também é um centauro e arco e flecha. Aí, tipo, o slogan seria, você na mira da moda, algo assim, mais ou menos. Se der certo um dia, quem sabe? Vamos lá. Tamo aí.
(01:44:57)
P/1 - E tem espaço pra todo mundo. Você tava contando que o Matheus também fazia viés?
R - Ele fazia viés, ele cortava ponta de linha, ele cortava etiqueta, coisa simples assim, mas ele também fazia. Aqui em casa, eu sempre boto todo mundo pra trabalhar, porque eu acho que se tá em casa... Mais uma vez eu digo, a família é uma fábrica, gente. Todo mundo come, todo mundo usa a casa, todo mundo faz alguma coisa, porque aqui sempre foi. um lavou coisa, um lavou prato, um lavou isso, isso aqui vou ter distribuído as funções, porque se ficar só pra mim ficar muito pesado. Apesar de eu fazer a maior parte das coisas dentro de casa, mas eu sempre distribuía de acordo com a sua idade, sua adaptação, eu fazia. Eu distribuía. Mas ele é outro que não quer muito, não liga, sabe? Eu disse, Matheus, não é obrigado a saber costurar, não. Tu pode aprender o básico, mas se tu compra uma costura, Como ele mora em Fortaleza, minha irmã Marcelle trabalha com costura, ela tem fornecedores. Tu fala que o fornecedor comprou uns dois, três marcas, pede, bota vir pra trabalhar pra ti, criatura. É uma fonte de renda, homem, deixa de ser mole. Eu comento assim, mas é uma coisa que ele não gosta. Ele faz direito, tá no quarto ano de direito, oitavo semestre. Terminando que vem, se Deus quiser.
(01:46:06)
P/1 - Não é comum ter homens na costura, como é que é isso com ele?
R - O Matheus é uma pessoa muito tranquila, muito calma, ele não liga se você chama dele de A, de B, ele não incomoda muito. Pelo menos não externa, sabe? Ele é bem... tenta ser controlado. Apesar da gente conhecer ele e saber que ele está zangado, ele tenta não fazer com que essas coisas abalem. E eu também sempre ensinei. Gente, isso é besteira. Se você é homem, se você é mulher, se você é o quê? Isso é uma coisa sua, sabe? É besteira da gente. E você pode fazer diversas funções. Não tem gente que costura, costura não, que cozinha, e é função o quê? Antigamente de mulher. Não tem gente que é professor? E por aí vai, tem função também, tem mulher mecânica em todo mundo. É uma coisa que, como eu digo, por exemplo, quando eles foram escolher a faculdade deles, minha mãe dizia assim, mãe, eu vou fazer o quê? Miquel, por mim, eu gostaria de medicina, que eu gostaria, eu tinha o sonho de ser médico, né? Achava bonito. Que nem eu digo pro meu esposo, o que eu vejo na medicina, eu vejo o dom, o talento, a capacidade que você tem de dar, de dar, no caso, eu gostaria de ser obstetra, de trazer a vida, sabe? E de outras... Outra coisa, por exemplo, uma pessoa vai lá e quebra a perna, a pessoa vai lá, digamos que conserta, faz a cirurgia lá, a pessoa volta a andar, levanta de uma cama, quebra a cabeça, sem sequela nenhuma. Olha, um transplante de coração, olha o que você tem na mão, a capacidade de transformar, de dar vida, eu acho muito bonito. ainda mais aqueles que trabalham com amor, que se dedicam realmente, não só o dinheiro. Eu acho muito bonito. Aí voltamos. Eu gostaria de ter sido ginecologista obstetra. Hoje, se eu fosse fazer, eu faria outra coisa, ou psicologia, ou na parte de hematologia, que é ligado mais à hemofilia. E psicologia, porque eu acho que a mente da gente é uma coisa tão complicada, tão complexa, que eu acho que todo mundo deveria estudar um pouco, tipo tem nas escolas, para você até se entender, porque é muito complicado, sabe? Ainda mais hoje, eu acho isso. Eu... assim, aí a Michele disse, Michele, isso tem que ser algo que tu gostes, que tu vá fazer, não só pelo dinheiro. O dinheiro engloba, sim, mas o que adianta você só ganhar dinheiro e não fazer aquilo que você gosta também? Tem que ser um mix. Então, você vê algo que você goste, que você queira. Não porque, ah, eu tô fazendo porque a mãe quis. Não, vai ser você. Do mesmo jeito, o Matheus. Aí foi a orientação que eu dei. Aí optaram, cada um por engenharia civil, que o dela tá parado, e ele direito, que tá no oitavo semestre, terminando no que vem, se Deus quiser, aí dá certo.
(01:49:03)
P/1 - E como é que foi que você encontrou o Mulheres do Nosso Bairro?
R - Foi a Nizia. Ela comentou, eu não sabia, né? Aí ela disse que tinha ganho no ano seguinte, aí ela disse que tinha ganho no ano seguinte, aí ela disse que tinha ganho no ano seguinte, aí ela disse que tinha ganho no ano seguinte, aí ela disse que tinha ganho no ano seguinte, aí ela disse que tinha ganho no ano seguinte, aí ela disse que tinha ganho no ano seguinte, aí ela disse que tinha ganho no ano seguinte, aí ela disse que ganho no ano seguinte, aí ela Quem disse que tinha fez foi até a Michele. ganho Eu, Michele, porque eu não sei mexer em computador, no ano seguinte, aí ela disse que essas coisas, né? Aí eu, Michele. Aí ela foi... Mãe, como é que eu faço? Eu não sei, vai lá ver. Aí ela foi ler, isso, aquilo, o outro, né? Aí mãe tem que contar a sua coisa. Aí eu fui, falava pra ela, ela passou lá no computador. Aí foi assim que eu entrei em contato. Aí foi a Nilza que me repassou as inscrições. No entanto, quando tem, que eu sou coisa nos grupos, né? Eu sempre passo para as meninas aqui perto de casa. Tem uma menina aqui que tinha uma doceria, agora ela foi para o Rio de Janeiro, ela fechou. Algumas mulheres aqui que eu conheço, minhas colegas, a moça aqui da frente, ela vem de lingerie. Eu sempre passo para as meninas, né? Mulheres, né? Que coisa. Eu digo assim, negadora. O coiso pode até ser do marido de vocês, mas nessa hora vocês vão ter que colocar no nome de vocês. Porque pode mesmo que seja o dele, mas que vocês tomem à frente isso aquilo outro, porque Mulheres do Nosso Bairro. Especificamente para mulheres. Então, vamos lá, boa sorte para vocês. Eu repasso para as meninas. Porque do mesmo jeito que eu coiso, ele pode ajudar qualquer outro. E ajuda muito mesmo, realmente, querendo ou não. Aí nunca vai ganhar. Até o princípio. Quando eu fiz, eu fui muito ligamento. Ah, não vai. Gente, não vai dar certo isso aquilo outro. Quando eu passei, quem me deu a notícia foi até a Nizia, porque saía num dia e não tinha saído. Eu tinha olhado e não tinha sido naquele dia que tinham dito, né? Aí a Nizia foi e me ligou. Aí eu fui mesmo, fiquei meio incrédula, né? Aí eu fui olhar. Aí tinha passado. Eu e a Netinha, nós passamos juntas. Porque a Netinha ganhou três vezes. A bicha sortuda, viu? Aí deu certo, a Netinha ganhou três vezes, a Nizia foi a primeira, aí depois foi eu e a Netinha, aí a Netinha ganhou esse ano agora de novo.
(01:50:58)
P/1 - E como é que foi ganhar, ser contemplada?
R - Ah, é bom. A princípio, como eu digo, a gente fica incrédula, não acredita, mas, como eu digo, mais uma vez, foi num período que meu... Foi em 2021, um pouco depois da pandemia, tá na pandemia ainda, né? Tá saindo. Meu filho foi embora em 2020. Ele foi embora. Foi muito difícil. É Deus que manda as coisas pra ajudar a gente, né? Aí eu acredito que foi algo assim que me ajudou. Acredito não. Deus sempre manda as coisas pra ajudar. Além da questão financeira, me ajudou psicologicamente. Por quê? Porque, opa, tem uma outra coisa, vamos tirar o foco daqui, porque eu vivia muito a questão do ninho vazio, né? Apesar da Miquelida dentro de casa, eu era muito apegada a ele porque ele tem hemofilia, eu cuidava muito dele, tinha muito cuidado com ele, tinha medo dele se machucar, acontecer alguma coisa lá em Fortaleza, não sabia como ele ia se ter cuidado. Apesar dele estar morando com a mãe dele, que ele foi morar com a mãe dele de sangue, Minha irmã... Eu tinha muito isso, eu ficava muito, assim, tinha muito medo, muito medo, sabe? Mas aí voltando aqui, né? Aí eu pronto. Aí a gente muda meio que, muda o foco, né? Eu comecei a... O que é que eu vou fazer com o dinheiro? Aí eu comecei a organizar minhas coisas, a ver o que é que eu podia fazer. Aí foi quando eu... Eu fui contemplada. Aí eu fui e comprei duas máquinas. Máquina de costura, né? Fiz o ateliê aqui. Eu comprei uma tábua de corte, ela é pequena, mas cortei, tem uma tesourinha de corte pequena, mas comprei. Aí assim, fui gerenciando o dinheiro que eu cozei, cozei aqui. Eu ia fazer lá atrás, que era um pouquinho maior, mais isso, aquilo, outro. Mas devido a circunstância, minha menina descobriu que tava grávida, aí eu disse, não, vou deixar aqui pra ela, porque quando ela vinha Tava tentando induzir ela, né, pra ela vir. Aí ela fica aqui e eu faço aqui, apesar de ser pequeno, apertado, menorzinho, né, que lá atrás eu tinha mais espaço. Aqui foi o melhor lugar que eu achei. Aí eu fiz aqui. Aí eu já organizei, tipo assim, me concentrei mais, assim, na questão de como administrar o dinheiro contemplado, né, pra distribuir melhor. Aí tirei mais o foco, assim, de Matheus, apesar de sempre preocupar muito com ele.
(01:53:24)
P/1 - E o que mudou nessa carreira como costureira essa contemplação, esse prêmio?
R - O meu ambiente de trabalho, que eu saio de dentro de casa, que é muito estressante. Gente, vocês conhecem o quanto é estressante? A estressante é assim, porque todo mundo gosta de sua casa limpinha e a gente costura. É linha em todo canto, é linha na sala, é linha na cozinha, é linha no sofá, é linha isso, aquilo e o outro. Os tecidos ficam em cima da mesa, isso, aquilo e o outro. E você tendo seu lugarzinho, não. Você bota ali e você sabe que tá meio... organizado, né, até então. Aí ajuda muito nessa questão de organização, né, diminui um pouco o estresse, a organização do ambiente, né, melhora também. Eu, na época, eu tava com uma pessoa, né, a Luana, contratei uma pessoa pra trabalhar comigo, a Rejane, que me coisou a costura, ela trabalhou um tempo comigo, ela veio trabalhar aqui, aí depois ela foi pra Fortaleza, porque ela fica migrando, sabe, pra ir em Fortaleza, pra ir em Fortaleza, aí ela foi pra Fortaleza, aí a Luana veio trabalhar comigo, contratei uma pessoa, né, A Luana ficou comigo mais de um ano, eu acho. Aí ela foi trabalhar, que aqui chegou uma fábrica de lingerie, aí ela fez inscrição lá, aí conseguiu passar e ela foi pra lá, tá lá até hoje.
(01:54:36)
P/1 - A Del Rio.
R - A Del Rio. Aí, eu fiquei, aí que não tô dizendo, aí foi... minha menina, esse negócio da minha menina aí, aí eu fiquei, eu ficava todo tempo esperando ela, isso aqui, o outro, que a gente tentou trazer ela, né? Mas a questão financeira melhora, com certeza. O ambiente, o coiso, você contrata uma pessoa, você ganha mais, você ajuda uma outra pessoa. Aí eu também falava aqui com a minha vizinha, que eu sozinha faço um pacote, dependendo do tempo que eu tenho, eu faço dois. Quando eu trabalhava com a Lona, a gente já fazia dois mais tranquilo, às vezes, só fazia três pacotes. Aí eu pagava o dela, tirava o... A questão de amizade. Pagava o dela, uma pra despesar a casa, outra pra administrar energia, que ajuda na energia, porque pesa nas coisas de casa. Aí eu também falava com a minha vizinha que ela coisava botão, ela fazia trança, porque às vezes as minhas peças faziam isso. Aí eu já ajudava, digamos que ajudava outra pessoa. Pagava ela também para me ajudar nas coisas da costura também. Já ajudava uma outra pessoa. Digamos que dois funcionários.
(01:55:36)
P/1 - E gerando emprego, né? E eu queria saber se impactou você, de alguma forma, aquelas aulas de empreendedorismo que vocês têm acesso durante o programa do Mulheres do Nosso Bairro, o cursinho. Como é que foi ter essas aulas, assistir? Impactou no seu negócio também?
R - Vou ser sincera, a aula é muito boa, eu acho, mas é boa assim mais para quem trabalha com a parte de venda. Isso é a minha opinião, tá? Eu não sei se porque eu já sempre fui bem, bem, bem organizada na questão assim de comprar... Ah, pronto, ajuda você a comprar linha, você saber calcular quanto... o que gastar, sabe? Você sabe direcionar. Isso pra mim, né? Eu acho que ele é bem válido, assim, pra tudo, mas mais pra área de vendas. Ele é bem, bem... É melhor para aquelas pessoas que trabalham na área de vendas, entendeu? A meu ver. Por exemplo, se eu trabalhasse com corte, pra mim já seria mais útil, né? Porque na época não, eu só coiso. É útil sim, porque você aprende a direcionar, sabe? A separar isso, a guardar aquilo, não, isso aqui assim. É válido, lógico, todo aprendizado é válido. Mas eu acho que ele é bem melhor para quem trabalha na área de venda ou então na área de corte. Isso na minha área, certo? Também assim, por exemplo, se eu cortasse o tecido, pra mim também seria bem mais válido que eu ia aprender a calcular, mas como eu estou tendo esse cálculo, não é que não é válido, é válido, mas um pouco menos.
(01:57:08)
P/1 - Você recebe já os cortes prontos, né?
R - Eu recebo tudo cortadinho, só emendo os pedaços pra dar uma roupa. Pronto, é isso. Aí eu só preciso coisa linha, comprar uma peça, separar o da energia, separar o da pessoa que trabalha comigo, sabe? É bem mais... é menor. A administração, pronto. Mas é um trabalho de administradora, né? ajuda bastante na questão de administração, sim.
(01:57:41)
P/1 - E se você pudesse resumir essa participação no Mulheres do Nosso Bairro em uma palavra ou algum sentimento, qual seria essa palavra ou sentimento?
R - Um gratidão, lógico, eu sou muito grata, né, porque é um um dinheiro ao qual eu não teria. Eu não teria comprado minhas máquinas porque eu tinha elas, mas pronto, eu comprei umas máquinas melhores, mais novas. Elas são mais ágeis, ela corta a ponta de linha, por exemplo, já me economiza um pouco na linha. Eu já não preciso de uma pessoa para estar cortando as pontas de linha. Agiliza mais o serviço, por exemplo, de estar cortando a ponta de linha. Ela é um pouco mais silenciosa do que a máquina com a qual eu tinha anterior, entendeu? Ajuda muito nisso, né? A questão da gratidão, né? Obrigada realmente pela questão financeira. E assim, como eu digo, me ajudou muito psicologicamente, sabe? Devido ao momento que eu estava passando, me mudou o foco, sabe? Eu agradeço muito, realmente. Sou muito grata. Tanto a Anisa por ter apontado, né? Porque se ela não fala, eu também nem ia saber. E aí, tipo, se predispor a ajudar as pessoas, principalmente nós mulheres, porque apesar de nós sempre trabalharmos em casa, isso, aquilo, outro, pelo menos pra mim, trabalhar em casa, eu gosto. Eu cuido da casa, eu cuido dos meus filhos agora, dos meus netos, do meu esposo também. Eu gosto de trabalhar em casa, prefiro. Sou muito grata, realmente. Muito obrigada.
(01:59:07)
P/1 - De alguma forma, você se considera uma mulher empreendedora?
R - Sim, eu gostaria mais, sabe? Assim como eu digo, eu gostaria muito que meus meninos quisessem, porque às vezes a gente se sente um pouco assim, sozinha nessa área, sabe? E a gente não tem tanta mão de obra, as pessoas novas hoje não querem mais trabalhar, sabe? É complicado. Mas eu entendo assim, eu gostaria de, quem sabe, um dia engrosar minha fabricazinha, mas vai dar certo. Que nem eu digo para a Miquele, tu nunca esmerida vai querer, tu vai ver, bichinha, tu vai ver. Porque ela só tem dois anos, mas ela fica comigo na máquina. Eu sei que é só para estar mexendo, sabe? Mas ela mexe, ela vê eu fazendo, ela tenta fazer, sabe? Aí eu espero que talvez, quem sabe, como diz no filme, tem lá o terceiro do tapete que a menina rasga, quem sabe esse terceiro vai ser na máquina de costura. Quem sabe? Eu espero.
(01:59:59)
P/1 - Você estava contando que você tem a Merida e o Miguel. Como é que foi se tornar a avó deles?
R - O Miguel só tem sete meses e ele só está vivendo comigo. Ela vai fazer três meses ainda. Não é que não sou a avó dele, mas que de Merida tem dois anos. E Merida, como ela estava distante, Eu briguei mais por ter a Merida, né? Porque eu digo assim, eu quero ser vó, Michele. Traz ela pra perto de mim, que eu já... Eu sentia muito falta dos meus filhos, depois que eles foram embora, sabe? Eu fiquei muito desmotivada. Eu, assim, quase não costu... Tinha vontade de parar de costurar, acredita? Que nem diz o outro. Trazem pra psicologia a síndrome do ninho vazio, sabe? Eu me sentia assim, sem motivo, sabe? Pra... Costurar pra quê? Eu vou... Pra quê que eu... Dinheiro pra quê? Pra me comprar o quê? Sabe? Às vezes eu ficava assim, né? Tentava me apegar a alguma coisa, eu sentia muita falta deles comigo, sabe? Que nem eu diga assim... Me fizeram muita falta. E... Merida... Como eu já sentia falta dela, por ela estar longe... E eu queria ser vó. Aí Merida estava distante, porque ela morava em Fortaleza, né? Aí, só que ela estava passando por uma determinada situação e ela não colocava... Não se passava pra gente. E eu achava o quê? Que era simplesmente porque ela não queria. Eu me sentia mamãe. Eu me perguntava o que eu fiz pra minha filha. Não queria estar perto de mim. Eu queria ser vó, sabe? Queria estragar, ver a minha filha assim. Ai, vou dar um pirulito. Pega a minha filha, levar, sabe? Eu queria muito isso. Que não é que Miguel não acusasse, porque Miguel é muito recente, então não deu pra mim passar por isso. Merida não. Eu briguei. Eu quero Merida. Deixa eu ver Merida, sabe? Essas corracinhas, apesar de ela só ter dois anos. Aí eu... Pra mim, eu queria ser vó, sabe? Não sei o porquê, mas eu queria ser vó. Ela era minha neta, eu queria ser vó. Eu queria estar pertinho dela, estragar ela. No entanto, a gente é muito apegada. Não sei se isso vai perdurar, mas a gente é muito apegada, nós duas. Por exemplo, geralmente, pra dormir, eu deito mais ela, sabe? Ela é mais apegadinha comigo. Agora... Miguel gosta muito. Miguel me olha... Ela me olha com um olhar... Só que quando... Pode falar. Ah, minha neta. Aí... Minha menina teve o outro filho dele agora em janeiro. Por coincidência, os dois também são de janeiro. Melida é do dia 22 de janeiro e Miguel é do dia 17, acho que é dia 17... dia 18 de janeiro. Aí eu fui lá cuidar do resguardo dela, só que ela... Não quis, porque eu fui para buscar ela para vir para cá. Ela não quis vir. Resolveu ficar em casa. Eu falei, Michele, eu não posso ficar, porque eu tenho três cachorros e meu esposo trabalha um dia sim e outro não. Para ficar os três dentro de casa, os três vão brigar, porque eu tenho dois machos e eles ficam brigando pelo espaço. E a gente estando em casa, a gente consegue conciliar, né? Aí o que eu fiz? Falei com ela, trouxe o Merida. Aí o Merida ficou comigo, né? De Janeiro para cá, o Merida está comigo. Aí ela ficava comigo, aí pronto. Aí nesse tempo, menina Merida é muito danada. Merida sobe em cima, pronto. Aí eu tive que levar minhas máquinas pra dentro de casa, pra mim ficar olhando ela. Porque se eu ficasse pra cá, ficaria um espaço muito limitado pra ela, não tinha televisão. Aí eu botei minhas máquinas pra dentro de casa, pra mim ficar mais, ter a visão dela, ficar um pouquinho com ela e poder trabalhar. Porque até então, que a mãe dela ficou em Fortaleza, eu trouxe ela pra cá. Aí a Merida sobe em cima de máquina, Merida mexe nas minhas coisas. Menina, ela faz uma bagunça danada, mas eu entendo que é coisa de criança, sabe? Aí assim que foi quando eu comecei a ser a avó, assim, na prática, né? Porque até então eu era só a avó de benção, vó. Oi, vó. Só isso. Aí que pra mim não é a mesma coisa. Tem que estar perturbando a gente um pouquinho. Pelo menos um pouco. Mas eu gosto dela. Apesar dela me dar muito trabalho. Eu gosto muito dela. Que nem eu digo, ela mora no meu coração.
(02:04:05)
P/1 - E me conta como que é o nome dos seus cachorros? O que você gosta deles?
R - Amarok. O meu cachorro mais velho é Amarok. Ele vai fazer 5 anos dia 17 de... Não, dia 19 de setembro, agora. Que nem eu digo, os meus três filhos, o Matheus é dia 17 de setembro, Amarok, que é o meu cachorro pet, ele é do dia 19 de setembro, a Mika ele é dia 22. Eu tenho mais dois, mas já que eu explico. Amarok chegou pra mim no ano que o Matheus foi embora. Como eu digo, eu sentia muita falta dele, isso, aquilo, outro. Mais uma vez eu digo, é Deus encaminhando as coisas, encaixando isso, aquilo, outro. Ele sabia que eu ia ficar sozinha e mandou a Amarok para me preencher o meu ninho vazio. Aí, Matheus foi embora. Aí, no ano seguinte, Michele foi fazer faculdade, né? Que ela foi... Não, Michele já fazia faculdade, porém, ela arrumou um emprego. Aí, eu... Se você vai estudar aqui, eu disse a ela que ela trabalhava comigo. Você só sai daqui pra trabalhar na sua área. Ela arrumou um emprego pra ela em engenharia civil, em escritório, isso aquilo outro, só que era em Fortaleza. Aí, ela foi. Morava na minha mãe, trabalhava pra... ficou pra lá, né? Porque ela tava fazendo faculdade e... Trabalhava. Aí não dava pra ficar. O horário não dava. Não dava certo dela ficar indo e voltando todo dia. Porque quando ela só fazia faculdade, ela ia e voltava todo dia. Ela ficou pra lá e eu fiquei sozinha. Aí a Marok chegou no ano que o Matheus foi embora. Aí que foi 2020. Aí pronto. A Marok foi aquela minha válvula de escape. Mais uma válvula de escape, né? Que eu coisei. Aí eu me apeguei muito nele. Porque eu digo pra ele, pra mim ele é um filho. A Marok dorme comigo na cama. A Marok, se ele estivesse aqui, ele estava no pé da gente, sabe? Se a gente tiver doente, se a gente estiver triste, gente, é impressionante como ele fica no pé da gente, sabe? Os meus dois netos, Miguel só tem seis meses. Ele, engraçado, ele não machuca Miguel. Merida agarra ele. Amarok, que é um cachorro, assim, ele gosta, ele chega perto de você, ele lhe cheira todo dia, mas ele não gosta que você passe a mão nele. Ele gosta de chegar isso aqui no outro. Merida agarra ele, ele não morde Merida, não sei como. Ele não morde Merida e ele não gosta muito do toque, assim, sabe? Você passa a mão nele, isso aqui, no outro, nada demais. Aí eu acho impressionante como ele cuida, sabe? Ele tem isso, ele é um cachorro assim, ele é agressivo, que nem eu estou dizendo assim, ele tem uma determinada agressividade nele, mas ele não machuca a gente, ele brinca com a gente, ele deita com a gente, sabe? Mas ele não é desses de morder, sabe? Eu não consigo entender, a Maró que eu digo, a Maró que é a Maró. É o meu filho do coração, meu filho pet, eu adoro. E os outros dois, é Sandy e Júnior. Sandy e Júnior porque eles são irmãos. Eles apareceram na minha vida, eles vão fazer três anos, eles só estão comigo, fez dois anos. Eles são de outubro, eu não sei qual é o dia, porque eles não são meus, não eram meus. E eles chegaram na minha vida em agosto, dia 8 de agosto, de dois anos atrás, em 2023. Eles eram Aqui, vizinhos não eram meus, né? E os donos dele amarravam o bichinho no quintal, o bichinho pegava chuva, o bichinho apanhava. Aí, eu não gostava de ver os grunhidos do bichinho chorando, me doí os ouvidos. Começou assim, eles eram pequenininhos. A mãe dele vivia amarrada no fundo do quintal, sem casinha nem nada. Eu ficava indignada, de raiva, porque eu tratava Amarok, eu não gostava de ver o dono dele tratando ele daquele jeito, que a bichinha ficava amarrada no quintal. Ela chegou um ano depois de Amarok, na casa dessa pessoa. Aí, eles, eles ficam, eu... A cachorra se perdeu, os cachorros, quando é novinho, com, acho que é 45 dias, você tem que dar remédio para a verme. Eu não recordo quase qual é a data. Tem uns dias aí que a gente tem que dar remédio para a verme. E os bichinhos se perderam no mato. Sandy estava muito mole, eles não tinham esse nome. A gente foi que apelidou eles de Sandy e Júnior. Aí eles ficaram, aí a dona deles, fulano, tu não viu Os cachorros não, não. Aí o Barcelos vai atrás dele no mato. Cachorro anda pelo mato, né? E aqui tudo é mato. É cerco e é mato. Aí o Barcelos foi e ela tava caidinha, Sandy, né? Júnior tava molinho, mas já andava. E Sandy já cambaleando isso aquilo ou outro. Aí o Barcelos foi na rua, comprou remédio pra verme. Aí deu pra dona dele, a dona dele deu. Aí eles ficaram assim. Na época eu dava cuscuz pra Maró, um mingauzinho de cuscuz. Aí, porque ele nunca foi muito fã de ração, não sei o porquê. Aí ele comia, né? Aí eu fui firmar o migalzinho pra ele fininho, pra eles, aí botava no dedinho e ela começou a lamber. Aí, resumindo, a gente foi e conseguiu, eles não morreram, porque a gente achava que eles iam morrer. Aí eles não morreram. Aí a gente ficava aqui, eles não eram presos, eles eram soltos. Só que os donos deles, eles sempre vinham pra cá, sempre vinham pra cá, que era a cerca, eles passavam pelo quintal. E o bastão, ele não quer esses cachorros aqui, que eu vou me apegar aos cachorros. Bastão, ele não quer esses cachorros aqui, que eu vou me apegar aos cachorros. E eu ia querer pra mim, porque os donos não atacavam eles. Aí, eles começaram a comer as galinhas do dono. Aí o dono zangado prendia o bichinho. Aí o bichinho começava a passar a noite toda engrunida. Aí o Barcelos ia lá e soltava ele de noite. Aí eles iam pra cá e dormiam aqui na Alpendre, né? Principalmente quando chovia, o bichinho ficava na chuva e vinha chorar. Eu chorava tanto com pena deles, mas os cachorros não eram meus.
Aí eu disse: “Barcelos, toma esses cachorros, pede os cachorros ao dono.” E o Barcelos, a princípio, não queria, né? Resumindo, no frigir dos ovos, aí foi, foi, foi, foi. Aí eu fui pedir os cachorros, aí... Os cachorros viviam aqui. Sempre que dava certo, nós roubávamos os cachorros pra nós. Meio que assim, né? Nós chamávamos eles pra cá, falávamos com o dono. Eles passavam o dia lá com a gente. Eu dava comida a eles todo dia. Quando eu ia fazer comida pra Amarok, eu fazia comida pra eles, sabe? Eu pedia pra eles ficarem aqui devido à chuva, porque o bicho ficava na chuva. Aí, de que nem eu digo, eles adotaram a gente. Aí a gente não sabia do que chamava ele, porque o nome deles era outro. Aí a gente chamou de Sandy e Júnior, porque eles eram os dois irmãos. Aí o Barcelos botou o nome deles de Sandy e Júnior e eu comecei a chamar ele de Júnior. Sandy e Júnior. Aí eu fui botar... Barcelos, eu botei os cachorros pra dentro. Eu fui botar os cachorros pra dentro, diga lá pro dom deles. Aí eu fui botar eles pra dentro, aí eles ficaram aqui. Aí estão aqui até hoje, aí são meus três cachorros. Aí eu gosto deles. Tô achando ruim a questão de eu conseguir castrar Sandy e agora castrei Júnior. Tá com uma semana que eu castrei Júnior. Porque eu até então não ia castrar. Mas a gente tava começando a brigar Sandy e Amarok e Júnior devido à disputa de espaço. Mas aí castrei Junho, aí eu vou ver se... Não sei se eu ainda castrei Amarok. Que a Amarok é mais calminha. Junho late pra Amarok. Junho é quem implica... Junho chegou depois. Pois é. Junho é quem fica implicando com Amarok, ele nem liga pra ele. Nem Junior. Mas é assim mesmo. Mas eu gosto de todos os três. Mas não vou mentir, eu tenho um apego muito grande com a Amarok. Porque Amarok eu peguei desde pequenininho.
(02:10:50)
P/1 - E qual que é a coisa mais importante pra você hoje?
R - Hoje? Eu penso muito nos meus filhos, sabe? É um conjunto de coisas, na realidade, não é uma coisa importante. A minha família em si, sabe? Porque eu acho que hoje em dia tá tão difícil. A família em si, se manter uma família, as pessoas hoje não dão mais peso, sabe? A importância de uma família, de um pai e de uma mãe, sabe? Não que os meus filhos não deem, eles são muito, só assim, eles nos respeitam, eles falam conosco. Mas é tão difícil que nem eu digo assim, às vezes eu converso com os meus filhos. A gente educa os filhos da gente, mas o mundo tá tão de uma forma, as pessoas não respeitam, Essa questão de um filho obedecer. Hoje você não vê uma pessoa dar benção ao pai, benção à mãe, sabe? E as pessoas que veem isso ficam zombando, sabe? É como se fosse... Sei lá, é estranho para as pessoas hoje em dia ter um pai e uma mãe. Eu me preocupo muito com eles, do mundo a qual... Porque não é que eles sejam frágeis e doces, sabe? Mas que o mundo está tão de um jeito que você... Fica difícil você sobreviver a esse meio tão, sabe? Não sei explicar direito. Os meus netos, não sei o que passar para eles. Às vezes, a gente se pergunta o que fazer, como fazer. Realmente eu não sei, mas pra mim é a família. É a família em si. Filho, neto, marido. Mesmo não tendo tanto convívio assim, os irmãos, isso, aquilo, outro, sabe? Eu acho que, quando eu te digo assim, não sei se é porque eu queria trabalhar em família, eu acho bonito essa questão de família, uma família unida, eu acho legal. Apesar de eu não ser muito amiga das minhas irmãs, isso, aquilo, outro, a gente se respeita, né? Ainda mais eu, por ser a mais velha, minhas irmãs me respeitam, mas... Tá muito difícil hoje em dia, sabe? Essa divergência, né? Acho que esse mundo, sei lá, tá muito complicado os dias atuais hoje, sabe?
Porque, assim que eu comento, meu filho, meu filho tá em Fortaleza e a região que a minha mãe mora não é lá essas coisas. Tem droga no pé da candela, falando assim, né? E é tão... É tão fácil assim, as pessoas, os amigos, isso aquilo outro oferece, sabe? E se torna tão carenta, tão idiota, não quer. Ele não bebe, não fuma, sabe? Isso aquilo outro. Meu esposo também não bebe, não fuma. Eu agradeço muito esse exemplo meu esposo ter dado isso a ele, sabe? Eu acho que ele copia do pai dele, porque ele não é pai biológico. Assim, pra nós ele é nosso filho, não importa se é de sangue, se é do que for, mas pra mim ele é nosso filho, o exemplo que meu esposo deu. E agradeço também a ele, sabe, por ele ter sido um bom pai, ter me ajudado a criar ele, ter dado um bom exemplo, sabe, agradeço muito. Agradeço. A forma de falar, né? Agradeço porque ele poderia não ter sido, ele poderia não ter aceito o Matheus, né? Sabe? E ele me ajudou muito com o Matheus, porque eu precisava muito de direção das coisas do Matheus, né? Ele ficava com o Michele, que... Ele podia não ter ligado, e ele fez o papel de pai, entendeu? Que nem eu digo pra ele, por exemplo, hoje em dia, ele vai ser o pai da minha neta, porque minha neta não vai ter um pai presente, né? Mas, que nem eu digo, é vô pai, né? Aí, ele vai ser o pai, que nem eu digo, ele é o homem da minha família todinha, por quê? Porque minhas irmãs não têm marido, elas têm um filho de cada pai, sabe? Porque cada uma tem dois, três filhos, então cada uma é de pai diferente. E que nem eu digo pra ele, ele não sei o porquê assim, novamente, o porquê não, Ele é o único homem da minha família, porque ele tá há 26 anos na minha família. Ele é o único que tá esse tempo todinho, porque minhas irmãs, e até minha mãe, arrumou companheiros que não estão mais lá, entendeu?
Não é que cargo, mas que é tão difícil se manter que é mais fácil dizer, sai. Eu quero ser isso, eu quero... Não sei na realidade o que eu falo por mim, mas eu agradeço muito, sabe? Não sei se eu, se ele ou se Deus, que nem eu digo é o conjunto, nem eu digo que as coisas não são feitas de uma coisa só, mas... Obrigada também, Barcelona.
(02:15:03)
P/1 - Eu queria saber se você quer acrescentar alguma coisa que eu não tenha perguntado.
R - Não sei. Gostaria de agradecer a minha mãe. Apesar de tudo que ela passou. Se não tivesse sido o esforço dela, talvez eu não fosse quem eu sou hoje. Porque eu me sinto... Eu me vejo uma pessoa determinada, sabe? Agradeço o esforço dela e por ela ter passado a questão de trabalhar mesmo com sono. Mas é porque ela me deu, sabe, de ser uma pessoa forte, que eu me acho uma pessoa forte. Eu não estou tão forte, não estou tão determinada mesmo em algumas coisas, mas eu sei que eu sou. Eu gostaria também de agradecer Barcelona, que eu digo, de ter me ajudado com os meus filhos, com o meu pai, que ele me ajudou muito com o meu pai. Preta e Luz. Deus quiser ele ajudar com os nossos netos, que ele vai ser o exemplo de pai para os nossos netos. E os meus filhos. Gostaria muito que Que eles fossem felizes, independente de com quem, ou aonde, ou que eles sejam. Eu só gostaria que eles fossem felizes, sabe? Que eles tenham... Não sei. Consigam fazer uma boa escolha para eles e quem convê do lado deles, independente de sexo, de lugar, de pessoas e quantos, não sei. Eu só gostaria que eles fossem felizes, realmente. É bom. E gostaria também de que eles não largassem de nós, eu e o pai dele. Mas sem obrigação, mas que fosse de coração.
(02:16:44)
P/1 - Queria saber, hoje a gente contou um pouco da sua história. Você me contou, a gente registrou. Queria saber como que foi esse momento para você, de poder relembrar a sua história.
R - Não sabia que eu tinha tanto para falar, pensei que fosse gaguejar muito. E eu ficar me perguntando o que eu vou falar. Eu não tenho nada assim de grande coisa para falar. Mas assim, a gente não é só tristeza. A gente é de momentos, né? E tudo a gente transforma. E também é bom, como eu estou dizendo, espero que vejam, às vezes a gente fala coisas que às vezes a gente não fala no cotidiano, né? Na questão do agradecer, por exemplo. Meu marido me cobra muito isso. Está sendo bom relembrar, realmente se emocionar e ver que a gente tem história. A gente pode construir história. Espero que esse... não estou num momento muito fácil, mas que eu sei que vai passar. Que amanhã seja bem melhor do que hoje. Vai dar certo.
(02:17:58)
P/1 - Michelle, em meu nome, em nome do Saulo, do Gabriel, principalmente em nome do Museu da Pessoa, eu agradeço pela confiança que você teve na gente de poder registrar esse momento, essa história sua. Muito obrigada.
R - Obrigada também, Bruna, Saulo, Gabriel. Espero que dê uma boa história realmente. Muito, muito.
P/1 - Eu já.
R - Muito obrigada. Obrigada também.
[Fim da Entrevista]
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