00:20
P1 - E a gente sempre começa com você dizendo o seu nome completo, onde você nasceu, em que ano. Você pode falar para a gente, por favor?
R: O meu nome é Mércia Vasconcelos Souto e hoje estou como presidente da Associação Esther Siqueira Tillmann.
00:40
P1 - E onde e quando você nasceu?
R: Eu sou de Paracatu, nasci aqui em Paracatu, exatamente na Fazenda Aldeia e lá fiquei alguns anos, na roça. E aí sou apaixonada por essas coisas que me trazem à memória tudo o que é da roça, então, o artesanato, a tecelagem, a culinária, os doces, de um modo geral. Então, essa bagagem, essa experiência que a gente carrega.
01:18
P1 - Em que mês e ano você nasceu?
R: Eu nasci em 10 de março de 1954. E nasci na Fazenda, com parteira.
01:32
P1 - Mércia, quem deu esse nome para você?
R: Olha, lá em casa, nós somos 11 irmãos e somos cinco mulheres, com cinco mulheres, todas com a letra N. Começou comigo, eu sou a mais velha, mas eu não sei dizer o porquê. Então, são todas com M, Mércia, Márcia, Miriam, Múria e Mênia. E seis homens, tudo com N. Então, tem essa história. Mas o nome, depois eu pesquisei, a palavra Mércia, e é alguma coisa, tipo, negócio clandestino, alguma coisa assim, mas eu não sei o porquê.
02:26
P1 - E os seus pais, os seus avós também são da zona rural? São daqui da cidade? Como é?
R: Os meus avós, todos vêm dessa fazenda, da aldeia. Então, todos, quando compraram, se estabeleceram ali. Meu pai se estabeleceu ali, casou e já faleceu. A minha mãe também é falecida. Mas eles casaram e moraram nessa fazenda por 50 anos. E a gente tem até hoje o local e nos reunimos, os 11 irmãos, até hoje nesse local. Então essas são lembranças mesmo, da gente conhecer as árvores, o percurso do rio, as mangueiras que estão no quintal. Então é toda essa história, e eles é que levantaram, plantaram e cuidaram, e a gente ainda tem esse lugar de refúgio até hoje.
03:36
P2 - E como é que foi essa...
Continuar leitura00:20
P1 - E a gente sempre começa com você dizendo o seu nome completo, onde você nasceu, em que ano. Você pode falar para a gente, por favor?
R: O meu nome é Mércia Vasconcelos Souto e hoje estou como presidente da Associação Esther Siqueira Tillmann.
00:40
P1 - E onde e quando você nasceu?
R: Eu sou de Paracatu, nasci aqui em Paracatu, exatamente na Fazenda Aldeia e lá fiquei alguns anos, na roça. E aí sou apaixonada por essas coisas que me trazem à memória tudo o que é da roça, então, o artesanato, a tecelagem, a culinária, os doces, de um modo geral. Então, essa bagagem, essa experiência que a gente carrega.
01:18
P1 - Em que mês e ano você nasceu?
R: Eu nasci em 10 de março de 1954. E nasci na Fazenda, com parteira.
01:32
P1 - Mércia, quem deu esse nome para você?
R: Olha, lá em casa, nós somos 11 irmãos e somos cinco mulheres, com cinco mulheres, todas com a letra N. Começou comigo, eu sou a mais velha, mas eu não sei dizer o porquê. Então, são todas com M, Mércia, Márcia, Miriam, Múria e Mênia. E seis homens, tudo com N. Então, tem essa história. Mas o nome, depois eu pesquisei, a palavra Mércia, e é alguma coisa, tipo, negócio clandestino, alguma coisa assim, mas eu não sei o porquê.
02:26
P1 - E os seus pais, os seus avós também são da zona rural? São daqui da cidade? Como é?
R: Os meus avós, todos vêm dessa fazenda, da aldeia. Então, todos, quando compraram, se estabeleceram ali. Meu pai se estabeleceu ali, casou e já faleceu. A minha mãe também é falecida. Mas eles casaram e moraram nessa fazenda por 50 anos. E a gente tem até hoje o local e nos reunimos, os 11 irmãos, até hoje nesse local. Então essas são lembranças mesmo, da gente conhecer as árvores, o percurso do rio, as mangueiras que estão no quintal. Então é toda essa história, e eles é que levantaram, plantaram e cuidaram, e a gente ainda tem esse lugar de refúgio até hoje.
03:36
P2 - E como é que foi essa infância? Porque são 11 irmãos?
R: 11 irmãos.
03:45
P2 - Como é que foi essa infância para essa família desse tamanho? Como é que era o dia a dia?
R: Eu falo assim, que a minha mãe, ela era tão tranquila, calma, ela não tinha muito essa história: “Não pode comer isso. Não pode beber isso. Não pode não sei o quê.” Não, ela era bem tranquila. A turma toda, você vê, juntos eram muito peraltas, são muitas loucuras juntos, desde cortar a bananeira e pular dentro do rio, como forma de descer o rio em cima dessa bananeira, a gente fazia de tudo e era todo mundo junto. Mas já com oito, nove anos, que cada um já era da idade de escola, a gente já tinha que vir. Mas as férias voltavam e era toda aquela farra mesmo, da minha mãe ainda pilar o arroz, de colher o feijão, de fazer tudo isso e ter essa alimentação, o queijo, para essa meninada, para a turma toda.
04:54
P2 - Deveria ser uma festa, né? E como era essa convivência com os irmãos?
R: Até hoje, muito boa! Você sabe assim, da gente não ter nenhuma lembrança de nenhum momento de discussão? Assim, até hoje a gente tem a fazenda, mantém a fazenda de uma forma que todos participam nesta manutenção. Mas tem dia que eu falo assim: “Gente, mas é uma benção mesmo.” Sabe? Porque é todo mundo muito de acordo em tudo que a gente propõe. Eu sou a mais velha, então acabo tendo essa fama de mandar (risos). Então é essa história de decidir o que faz, o que não faz, não sei o quê, acaba a gente fazendo isso, desde a hora que a gente pensa em reunir, do que vai comer e do que vai fazer, a gente acaba resolvendo. E tudo vira festa, pode ser a canjica, o arroz doce, pode ser o pão de queijo, mas é tudo na festa.
06:15
P1 - Mércia, você lembra como foi a mudança da fazenda para cá, para Paracatu, da família, como foi isso?
R: Sim, a gente toda a vida foi muito apegado com a roça e aí o meu pai comprou um terreno que era um bairro que estava começando aqui em Paracatu, ele comprou o terreno, construiu a casa e aí nos trouxe. A minha mãe costurava e ajudava muito nesse sustento com a costura. E ele na fazenda, nas férias a gente ia. Então esse momento de vir realmente foi uma adaptação, assim, complicada para todos nós, porque era muita gente, era muita gente numa casa só. Mas eu já me lembro, por exemplo, do meu penúltimo irmão, de ajudar, das lembranças já do parto em casa, né. Mas a gente tem toda essa lembrança do dia que nasceu cada um e de participar desses momentos.
07:27
P1 - Algum de vocês nasceu em Paracatu, ou todo mundo nasceu lá?
R: Quatro nasceram em Paracatu, dos onze, quatro nasceram em Paracatu, aqui na casa que o papai construiu.
07:45
P1 - E ainda com parteira ou já usando…
R: Os dois primeiros com parteira e os dois últimos já foram no hospital.
07:54
P1 - E seu pai ficava na fazenda e a sua mãe com vocês aqui?
R: Ele ficava aqui, ele ficava na fazenda. Então, assim, imagine quando ficava de férias e ele tinha que levar todo mundo para a fazenda? (risos) A aventura já começava aí, que era um jipe, a capota, e a gente tudo dentro desse carro e tudo na farra. Mas eram assim, muitas lembranças.
08:29
P2 - E todos os seus irmãos frequentaram a escola mais ou menos na mesma época, porque a diferença era pequena, né?
R: Exatamente. O nome da Esther Siqueira Tillmann, é uma homenagem à escola evangélica que ela abriu na época, nessa década de 50 para 60. Então ela abriu essa escola, era uma escola particular, mas de acesso para todos, particular, mas não paga. E nós viemos todos e o meu pai nos colocou nessa escola. Mas com algum tempo ela fechou e os últimos irmãos já estudaram na escola pública. Quando eu já estava com 12 anos, por exemplo, aí eu já fui para a escola pública.
09:17
P2 - E todos estudavam na mesma escola? Vocês faziam aquela bagunça todo mundo junto ou era todo mundo tranquilo? Como era?
R: Dava mais ou menos na mesma escola e era um percurso que a gente andava de mais ou menos uma meia hora. E a gente ia e voltava junto para essa escola, porque a gente morava no bairro, no Bairro Novo, em Bela Vista, frequentávamos a escola Antônio Carlos, no centro já. E aí a gente vinha, mas tinha que vir junto e voltar junto. A gente tinha que sair junto e chegar junto, porque um era companhia para o outro, né?
09:51
P2 - Você é a mais velha, né?
R: Das mulheres. E eu tenho um irmão mais velho do que eu.
09:58
P2 - E você era o exemplo, aquela estudiosa?
R: Não, não gostava muito de escola, não (risos). O meu irmão mais velho, sim, esse, sim, uma letra perfeita, ele era um exemplo de filho, assim, até hoje. Mas eu era muito dessa história da casa, de ajudar a minha mãe, de fazer as coisas da casa, de aprender a costurar com a minha mãe, mas na escola eu não era muito apaixonada.
10:35
P1 - Mas você aproveitou as outras coisas que a escola oferece? Que são novos amigos, que são conhecer coisas ou não? Como foi? Foi difícil ou foi fácil a sua adaptação?
R: Interessante que a gente sempre fala isso, a minha mãe e o meu pai nos davam muita autonomia para fazer, para ir e vir, a gente tinha essa autonomia, tinha essa independência para fazer as coisas, para as escolhas. E aí depois eu me casei com 20 anos, fiz faculdade depois que eu casei e comecei a trabalhar como professora. Mas eram as escolhas que o papai e a mamãe, né, acho que eram muitos, cada um tinha que se virar e descobrir.
11:32
P1 - Mas, bom, você disse que não gostava muito da escola, mas foi fazendo, foi seguindo. E na adolescência, como foi?
R: E aí, nessa adolescência, a gente tinha muita atividade em casa, que era lavar roupa na praia, fazer a comida, lavação de vasilha e tirar a água do poço. Então, era uma cisterna que você tinha que puxar a água, pegar essa água, tomar o banho de balde. E a diversão era o pique-esconde e o salve-latinha, na rua de terra, que nem asfalto tinha. Mas a gente tinha muito essa liberdade mesmo de ficar na rua.
12:22
P1- O que é salve-latinha?
R: É uma brincadeira que a gente põe a latinha num lugar e alguém vigia essa latinha. Aí você tem que ir lá e chutar essa latinha, você tinha que alcançar essa latinha de certa forma e alguém estava ali vigiando essa latinha. Então, tinha aquele que salvava a latinha do chute e a gente tinha que usar de tudo quanto era artimanha para fazer isso.
12:59
P2 - Estou rindo porque eu brinquei muito de salve-latinha.
R: Mas eu não tive essa questão de boneca, eu tinha de cozinhadinho, que eu gosto da cozinha. Então, eu tinha essa história do cozinhadinho.
13:14
P1 - Você lembra de alguma amiga, de alguma pessoa mais próxima que você ficou aqui, foi se aproximando? Alguma amiga especial que você fez nesse período de escola, de adolescência?
R: Você sabe que são poucas? Porque era tanta gente (risos). Ficaram algumas amigas que até hoje a gente tem contato, que a gente lembra de alguma coisa, até mesmo da escola, que cria um pouco mais de afinidade, mas são as amigas, assim, poucas, que foram embora, e a gente acaba perdendo o contato, não estão mais, por exemplo, em Paracatu.
14:02
P1 - Como foi o começo da adolescência, saindo, namorando, paquerando, ia em baile? Como era essa vida adolescente para jovem?
R: A gente não frequentava baile, a gente não tinha essa coisa, porque desde que nascemos, nascemos dentro da igreja, do evangelho. Então a gente não tinha essa história do baile, de ir para a festa, essas coisas a gente não tinha. Íamos para a igreja e voltávamos da igreja sempre juntos. Conheci o meu namorado, o meu marido hoje, 50 anos de casada, conheci dentro da igreja. Então a gente tinha esse convívio dentro da igreja. E tinha o cinema, para ir ao cinema, o meu irmão tinha que me levar, e ele tinha algumas recomendações: “Você não fica lá conversando com ninguém, você não fica usando o batom vermelho, e eu vou com você.” Então a gente tinha isso, o cinema, a igreja e a escola.
15:19
P1 - Mas ele namorava também?
R: Sim, namorava. Eu comecei a namorar com 14 anos, foi o meu primeiro namorado, com quem casei.
15:30
P2 - Você tem filhos? Quantos filhos?
R: Três filhas, todas casadas. Tenho seis netos e uma neta, e ela sempre diz assim: “Eu sou a única neta da minha avó.” Imagine, né? (risos)
15:50
P2 - Como é a vovó Mércia?
R: Me chamam de Mercinha, desse tamanho, mas me chamam de Mercinha, ou vovoinha, vovó Mercinha, mas é uma babação mesmo, de vó.
16:07
P2 - Aquela que está estragando os netos?
R: Literalmente.
16:15
P2 - E são todos criados da mesma forma que vocês foram? Todo mundo muito junto?
R: Todo mundo junto, na mesma, até hoje. E é interessante, a primeira nasceu dia 27 de julho, a segunda nasceu dia 29 de julho, e a terceira nasceu dia 29 de julho. Então, as três agora, nesse período, encontramos todas, é praxe mesmo, de reunir as três para comemorar. E aí elas falavam assim: “Eu não quero aniversário junto não, porque desde pequena a gente só tinha um aniversário, um único bolo, um único aniversário!” E aí não ganhavam tanto presente, porque você é convidado para ir num aniversário com três crianças, imagina, comprar três presentes de uma vez? Aí elas falam: “Eu quero o meu bolo! Eu quero o meu bolo e eu quero o meu aniversário.”
17:14
P2 - As três moram aqui em Paracatu?
R: Não, uma mora em Brasília, outra mora em Montes Claros e tem uma que mora comigo.
17:25
P2 - E estudaram, e o que elas fazem?
R: A que mora em Brasília gosta da área de beleza, de salão, de cabelo. A de Montes Claros é enfermeira. E a que mora aqui é arquiteta, fez o curso de arquitetura, e trabalha com coordenação de projetos também, dentro da associação, mais próxima de mim.
17:52
P1 - E aí você conta que essa vivência na igreja, com a religião, vem desde os seus pais, dos seus avós e aí continua com as suas filhas e netas. Como é que é essa vida na igreja?
R: Temos muitas lembranças de apresentação na igreja, a gente participava muito do teatro, a igreja toda vida foi uma coisa viva, de música, de cantar, de vários cânticos, hinos e muita apresentação. E tem apresentações até hoje de teatro, que a gente lembra muito, porque a gente participava de tudo isso, tinha essa oportunidade de participar. Então a igreja acabava sendo esse nosso local, até mesmo da cultura, de conhecer, de vivenciar. Então a gente tinha muito essas oportunidades.
18:51
p1 - E as meninas gostam ainda de ir?
R: Gostam, todas elas. Também foi assim, de estar na igreja, de cantar, porque elas têm uma voz muito boa, que puxou do pai. Eu não canto nada, a minha voz é uma taquara rachada, eu sempre falo assim, que eu odeio a minha voz. Mas elas têm voz muito boa, uma toca o violão, a outra toca o teclado, outra faz alguma coisinha assim, e cantam muito bem. A neta toca violão e canta muito bem.
19:25
P1 - E você disse que seu marido também é da igreja, né?
R: Também.
19:26
P1 - Como foi o casamento de vocês, religioso, na igreja? Como é?
R: Pois é, vindo da fazenda, a gente tinha essa condição muito, muito… era uma condição de quem estava vindo da fazenda. E ele já não tinha o pai nem a mãe na época, e era um provedor também da casa. E como mecânico, também ganhava muito pouco. E aí eu cismei que eu queria casar, e fizemos o casamento na igreja com tudo direitinho. A minha mãe estava com a caçula no braço quando ela me casou. E ela falava: “Mas eu não queria que você casasse. Eu estou te casando com um filho no braço.” A minha irmã tinha 10 meses e eu estava casando. Mas assim, estamos casados até hoje, são 50 anos de casados.
20:24
P1 - Você lembra desse dia?
R: Muito!
20:37
P1 - Como foi?
R: Do pastor que fez o casamento, quem era, o vestido plissado, as flores do cabelo, o meu marido muito alto, assim como você, mas magro, magro, 60 e poucos quilos. Então, assim, é uma lembrança, uma igreja cheia, tinha muita gente, muita gente. O casamento em si foi com muita gente, naquele estilo mesmo de roça, do leitão assado, não sei o quê.
21:12
P1 - E você trabalhava?
R: Não, eu estava só fazendo magistério, estava estudando. Aí eu fiz o magistério, depois que eu casei, aí eu fiz pedagogia.
21:29
P1 - Você estudou, então, depois de casada?
R: Depois de casada que eu fiz faculdade.
21:37
P1 - E você começou a trabalhar com o quê e quando?
R: Eu comecei a trabalhar com 21 anos, um ano depois que eu casei, em 76. E aí já comecei a trabalhar, porque a diretora me viu com a minha filha no colo, com o vestidinho, e ela falou: “Quem fez o vestidinho?”. Eu falei: “Fui eu.” Aí ela falou assim: “Ah, mas eu preciso de alguém para trabalhar na aula de economia doméstica.” (risos) E aí ela me chamou para trabalhar na escola, e aí fiquei.
22:09
P1 - Você lembra o que você fez com o seu primeiro salário?
R: Eu comprei o anel, porque o meu pai não tinha condição de me dar. Eu fui lá e comprei o anel que eu tenho até hoje. E tirei o meu dízimo. Aí eu falei assim: “Esse é o meu compromisso, eu quero comprar meu anel, e eu vou começar a pagar o meu dízimo.” Porque aí eu já tinha o meu salário, e aí eu já podia cumprir.
22:19
P2 - E você trabalhou como professora durante quanto tempo? Foi aqui mesmo, em Paracatu?
R: 27 anos, que eu trabalhei como professora.
22:47
P2 - E você deu aula de quê nesse período?
R: Isso. Aí eu comecei com a economia doméstica, depois eu passei para práticas agrícolas, por causa dessa história de vir da roça, né. O professor foi embora, não tinha quem fizesse, e aí: “Você tem aula de práticas agrícolas para a horta, não sei o quê.” Aí eu falei: “Ah, eu quero.” Aí eu dei aula de práticas agrícolas, depois mudou o currículo, e aí eu fui para a educação religiosa, também ligada, né. Então, eu falo muito assim, que essas experiências de vida, que traz para a gente, é que traz essas oportunidades. E aí, quando eu venho, eu me aposentei, e aí eu falei: “Não, não posso ficar parada, eu vou fazer alguma coisa.” Então eu vou ensinar o que eu aprendi, que era o bordado, o crochê, que a minha avó fazia o crochê, a minha mãe me pôs para costurar, e aí a gente faz de tudo, na hora de fazer os acabamentos, de sentar na máquina para costurar, aí a gente faz tudo isso, mas de toda essa vivência. Eu falo assim: “Como Deus vai providenciando as coisas e vai te usando dentro daquilo que você sabe fazer.” Então, hoje eu agradeço muito, porque minha mãe tinha essa preocupação na criação de filhos, de preparar mesmo para a vida, de coisas básicas mesmo. Eu aprendi a costurar com 12 anos, que minha mãe me pôs para costurar.
24:28
P1 - Então você começou a trabalhar, a fazer esse trabalho, porque você achou que precisava transmitir, passar o que você conhecia para os outros, é isso? E aí você tem algum caso de que você se orgulha, que foi bacana, com alguém que aprendeu, que seguiu?
R: É sempre aquela história de estar na igreja, e eu falo assim, que ir para a igreja, sentar no banco e assistir à pregação, um louvor, é lindo, não tem nada melhor, você senta e fica ali, mas eu falo assim, você como cristão, e você ter que viver com um propósito, porque Deus não nos colocou aqui à toa, tem um propósito para cada um de nós. E aí eu falava assim: “Gente, eu tenho que fazer alguma coisa, eu não posso ficar aqui assim.” E aí, conversando com algumas mulheres da igreja, uma fazia o crochê, a outra fazia o bordado, a outra fazia o lanchinho que levava, e aí nós íamos para o bairro, sentávamos lá numa sala com a telha Brasilit, e ficávamos ali trocando essas experiências e contando essas histórias, e começamos assim esse trabalho. Mas eu realmente assim, eu sempre fui muito mais de coordenar, de inventar as modas, porque eu faço, eu faço um pouquinho do crochê, um pouquinho do bordado, gosto do ponto cruz e gosto da costura, mas toda a vida fui dessa questão de ficar inventando. Tanto é que aí começou essa ideia: “Ah, não, Mércia, você tem que buscar os parceiros.” “Ah, mas o que é isso? Como é que eu faço isso? Não, não vou mexer com isso, não. A gente só quer mesmo trocar a experiência, um pouquinho do que a gente sabe.”
“Não, não, tem que fazer isso. Tem a empresa Kinross e tem um programa que apoia esse tipo de trabalho.” E eu falava assim: “Ah, não, vai dar muito trabalho, não sei o quê.” E aí todo mundo insistindo, insistindo. E aí alguém inscreveu o projeto, participamos do projeto, e aí fomos escolhidos. E aí ficamos nessa parceria, que para a associação, que deu vida, deu perna, para a gente ser o que é hoje, foi através do Programa Integrar. Então veio o apoio, que foi o primeiro projeto, o projeto Borboleta. E a gente sempre fala do projeto Borboleta, porque a ideia da transformação, de deixar de ser lagarta para virar borboleta, a gente chama muito, a gente fala muito delas, das borboletas coloridas, cada uma do seu jeito, da sua forma. E aí nós tínhamos essas aulas do bordado, da pintura e do crochê, que a gente tem até hoje, que é o nosso projeto piloto, vamos dizer assim, da Associação. E aí vieram essas parcerias, essa orientação em questão da gestão, de o que fazer, onde buscar essas parcerias. E aí entendemos que era um processo que a prefeitura, através da assistência social, podia participar desses projetos. E a gente sempre trabalhou com foco de mulheres para a geração de emprego e renda, sempre nessa ideia de que você tem que saber fazer alguma coisinha para aumentar a sua renda. Então sempre trabalhamos nessa área, nessa atuação. E aí foram aparecendo os novos projetos, aí a gente não precisava mais buscar esses projetos, porque vieram os projetos. E assim, quando nós éramos solicitados para desenvolver o projeto, a gente falava assim: “Aí meu Deus do céu, mas é mesmo, agora a gente não precisa mais ir atrás, agora está todo mundo pedindo.” Mas tivemos um tempo, mais de 12 anos, pela Kinross, onde nós pegamos essa estrutura toda de associação, de entender todo esse processo, de ter o nosso primeiro computador, o nosso primeiro celular, a nossa primeira câmera fotográfica, essa coisa toda. E hoje estamos aí, hoje a gente tem mais de dez projetos que a gente desenvolve, mas sempre nessa área de emprego e renda.
29:21
P1 - E você emprega pessoas aqui também, na associação? Tem empregado também?
R: É interessante assim, quando você falou da questão da experiência, da mudança de vida, a nossa primeira aluna de bordado, a professora falava assim: Mércia, se eu não der conta de ensinar a Dona Catarina a fazer esse bordado, eu vou largar, porque se eu sou professora e não consigo ensinar o que eu sei, então não sou uma professora.” Eu falei: “Dona Vilma, às vezes, a senhora propor um outro bordado, às vezes dá certo.” E aí ela propôs um outro tipo de bordado livre, a gente, na verdade, descobriu que ela tinha um problema de visão para contar os pontinhos do ponto cruz, e aí veio essa questão de conseguir o óculos, mudar o bordado, o foco para o outro bordado, que a professora sabia também fazer muito bem, faz até hoje muito bem, é perfeita como professora de bordado. E a Catarina depois virou professora, então depois ela é que ensinava, organizadíssima, a caixa de bordado, os panos, tudo organizado. Então é uma história muito linda que a gente tem, até ela já contou essa história dela várias vezes. Mas aí depois ela se aposentou, teve alguns problemas de coluna, e hoje ela borda muito pouco, faz muito pouco. Mas são experiências incríveis de colchas de retalho, de colchas que foram bordadas, acrescentou o crochê trabalhando nessa colcha. Então são tantas histórias assim, sabe, de mudança de vida mesmo. Agora, recentemente, a gente tem uma história de uma menina que veio do Nordeste, que perdeu a mãe, que perdeu a avó, e ela veio acompanhando o marido para trabalhar, e ela com depressão, e aí falaram com ela: “Não, vai lá fazer o bordado.” E aí ela veio e se identificou com o crochê, e hoje ela fica conosco lá na outra loja, ela hoje nos auxilia. Aí chega lá, e eu falei assim: “Mas Andréia, tudo organizadinho.” E ela tem um senso de organização, sabe. E aí ela conta a história dela e fala assim: “Dona Mércia, mas isso aqui salvou a minha vida! A senhora não sabe como é que era. Como é que eu vou voltar para o Nordeste, se eu não tenho minha mãe, eu não tenho minha avó, meu marido trabalha aqui, mas eu aqui desse jeito?”. Então, assim, são histórias incríveis, muita história, nossa, muitas.
32:16
P1 - E como é que você vê essa sua contribuição aqui para a Paracatu ser o que é? Você acha que compõe uma característica de Paracatu? Como é que você vê, assim, você inserida aqui em Paracatu, contribuindo para a Paracatu ser reconhecida?
R: A minha mãe tinha muito essa, assim, o que você faz você não precisa, sabe? Eu sei da importância, principalmente da associação hoje, no bairro, a mudança de vida e tudo, mas é uma coisa que eu sinto que foi a minha obrigação, Deus me deu esses dons, me deu a oportunidade. Eu falo muito com elas assim: “Vocês acham que vocês é quem recebem o que ganham? Não!”. Nossa, eu já aprendi tanto, eu já ganhei tanto, é um privilégio. Eu falo assim: “Gente, isso é um privilégio poder estar aqui com vocês, ouvir a história de cada uma.” Então, eu sei do que eu posso fazer como pessoa, ali, ouvindo cada uma, mas não sou muito de… (risos) A gente sabe que é importante, mas...
33:52
P2 - Mércia, você tem noção de quantas vidas você transformou por meio desse projeto?
R: Muitas borboletas, muitas borboletas, muitas. Mas aí vai passando o filme de cada vida, de cada mulher, das suas histórias, que hoje a gente encontra com os filhos, e aí elas viram para o filho e falam: “Olha, mas aqui é que a mamãe aprendeu, estava com ela, foi dona Mércia e tal.” Então, são muitas, muitas borboletas, muitas voando por aí.
34:47
P1 - O que te trouxe hoje você a fazer essa passagem, essa olhada na sua vida? O que você sentiu?
R: Hoje eu sinto assim, que eu já meio que cumpri o meu papel. Sempre eu viro e falo assim: “Não, gente, eu tenho que dar uma parada.” Porque realmente assim, são muitos projetos, e você tenta fazer da melhor forma possível, porque eu vejo assim, não é só o meu nome que está em jogo, é o nome da igreja que está em jogo, porque é uma associação sempre ligada à igreja, sempre a igreja teve como parceira hoje no Alto do Açude, o local onde funciona a igreja, os apoios que a gente tem mais diretos. Então a gente tem essa preocupação, mas eu já tenho também essa ideia de que temos que substituir, que eu vou ter que ir. Eu falo assim: “Eu queria ficar aqui (risos), eu quero ficar aqui. Se eu ficar aqui, para mim está ótimo!”. Porque são muitas, muitas responsabilidades e eu tenho 71, então a cabeça, a gente entende que, por mais que você procure estar lá na frente, enxergar a necessidade do outro, mas você começa a ter essas limitações. E eu tenho que ter essa noção, que uma hora…, mas eu ainda dirijo o carro, vou para onde eu quero, da forma que puder, mas...
36:55
P1 - Mas você já está fazendo alguma coisa para fazer essa passagem, ou ainda é desejo, é um dia?
R: Não, eu tenho algumas pessoas, então hoje a gente tem um advogado que nos ajuda muito nisso, nessa orientação, e a gente tem algumas pessoas que já nos acompanham há muitos anos dentro da associação, e que a gente entende que são pessoas que vão conseguir fazer isso. Mas o coração ainda está...
37:36
P2 - E aos 71 anos, qual é o sonho da Mércia?
R: Uma sede própria. (risos) Uma sede própria, que nós não temos essa sede própria. Isso que eu falo, que a gente sempre procurou fazer um trabalho aqui e ali, e a gente sem muita, sabe? Aí hoje você vê, poxa vida, a gente tem todo esse contexto, então esse aqui é cedido pela Secretaria de Cultura, a outra casa cedida pela Assistência Social, o outro espaço cedido pela Igreja, o Alto do Açude cedido pela Igreja, mas a gente não tem um local de referência. Então eu acho que esse espaço, nosso, para um centro de produção, a gente tem hoje o curso de costura, que são várias máquinas, são umas 40 máquinas, a gente precisa desse centro de produção. Agora vamos começar uma fábrica de fralda, que nós fomos procuradas para desenvolver essa fábrica de fraldas geriátricas. Então eu vejo que a gente precisa dessa estrutura para colocar tudo isso como centro de produção, e aí sim você tem onde ter pessoas que podem trabalhar e que podem ser beneficiadas, não só financeiramente, mas também com o próprio produto. Então o meu sonho hoje é esse, uma sede própria e um centro de produção, porque a gente ainda continua, pode continuar aqui, ali, mas esse centro de produção é muito..., mas estamos correndo atrás, estamos de olho, estamos de olho no terreno, a gente já está aí. (risos)
39:37
P2 - Então em breve a gente vai ter novidades.
R: Se Deus quiser! Deus já deu tantas coisas que a gente fica até constrangida, ah senhor! Mas esse terreno a gente foi lá, olhou, namorou, e aí eu falei: “É esse daqui!”. Aí fui lá, entreguei o pedido e estamos aqui aguardando. Mas se Deus quiser! Esse é o meu sonho. Acho que aí sim. Aí eu não quero construir, eu não gosto de construção, aí é problema, aí você arranja um problema para quem fica: “Agora se vira, você constrói.”
40:21
P2 - Mércia, e como é que está essa experiência de contar a sua história para esse povo que chegou aqui assim do nada? Como é que está essa experiência de contar a sua história para esse povo que chegou assim, de hora para outra?
R: Eu gosto muito dessa conversa assim, e eu vejo que realmente eu gosto, eu consigo fazer isso. Mas eu fico assim, sonhando, e tem muita gente, a gente descobre que tem muita gente aí com esse olhar para a necessidade do outro, para a vida do outro, sabe, a gente descobre que tem pessoas assim, e a gente fica feliz com isso. Eu tenho várias coordenadoras, porque cada projeto tem uma coordenadora, e uma delas, por exemplo, é advogada, e ela fala assim: “Mércia, eu fico encantada, dá um sentido novo para a minha vida fazer esse trabalho, de te ver sonhando, buscando, querendo.” Então eu vejo assim, que são legados que ficam, que fazem sentido para a vida da gente.
41:24
P1 - Então agradecemos esse seu tempo, essa história maravilhosa que você cedeu aqui para o Museu da Pessoa, para a cidade de Paracatu, porque também ela vai voltar para a cidade. E muito obrigada!
R: Nada. Eu é que agradeço.
42:04
P1 - Vai enriquecer o nosso acervo, o acervo do Museu e o acervo de história de Paracatu. E a gente faz um trabalho junto com os professores, para também conhecerem a história das pessoas daqui. Então, certamente, a sua também vai ser uma referência para os professores.
R: Graças a Deus por tudo.
42:28
P1 - Muito obrigada.
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