Projeto Diversidade Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Marineusa Plaster Waiandt
Entrevistado por Ian Pereira Silvares e Sofia Tapajós
Santa Maria de Jetibá, 19 de abril de 2026
Código: DCC_HV017
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Entrevista de Marineusa Plaster Waiandt, entrevistada por Ian Pereira Silvares e Sofia Tapajós. Santa Maria de Jetibá, 19 de abril de 2026. Projeto História de Vida, Diversidade Cultural Capixaba. Entrevista número DCC_HV017. Então, primeiramente, muito obrigado por ter aceitado fazer parte do projeto, dar essa entrevista para a gente. E, para começar, eu queria que você falasse seu nome, sua data de nascimento e o local onde você nasceu.
R – Eu sou Marineusa Plaster Waiandt. Nasci no município de Itaguaçu, numa localidade chamada Queira Deus. Mas eu moro em Santa Maria já há mais de 40 anos, praticamente 50 anos. Eu nasci no dia 24 de agosto de 1963.
P/1 – E qual é o nome dos seus pais? O que eles faziam?
R – Meu pai se chamava Fredolino Plaster e minha mãe, Laura Zimmermann Plaster. Os dois eram trabalhadores rurais.
P/1 – O que você lembra da sua infância?
R – Nossa, tanta coisa. As coisas principais, assim, que eu me lembro são as brincadeiras que meus pais faziam comigo em pomerano, as cantigas de roda, as musiquinhas que eles me ensinavam. Mas acho que o mais marcante para mim foi a minha alfabetização, porque eu fui alfabetizada pelo meu pai antes de eu ingressar na escola. Meu pai sentava comigo e brincava com as letras. Então, eu aprendi a ler, mas eu não aprendi a escrever, a arte mecânica de segurar o lápis, de escrever. E quando eu fui para a escola isso era muito dificultoso para mim, porque eu estava bem à frente daquilo que a escola passava, mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia acompanhar, porque eu não conseguia registrar o que era ensinado para mim. E uma coisa também que me chamou muito, muito, atenção na minha infância foi o...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Marineusa Plaster Waiandt
Entrevistado por Ian Pereira Silvares e Sofia Tapajós
Santa Maria de Jetibá, 19 de abril de 2026
Código: DCC_HV017
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Entrevista de Marineusa Plaster Waiandt, entrevistada por Ian Pereira Silvares e Sofia Tapajós. Santa Maria de Jetibá, 19 de abril de 2026. Projeto História de Vida, Diversidade Cultural Capixaba. Entrevista número DCC_HV017. Então, primeiramente, muito obrigado por ter aceitado fazer parte do projeto, dar essa entrevista para a gente. E, para começar, eu queria que você falasse seu nome, sua data de nascimento e o local onde você nasceu.
R – Eu sou Marineusa Plaster Waiandt. Nasci no município de Itaguaçu, numa localidade chamada Queira Deus. Mas eu moro em Santa Maria já há mais de 40 anos, praticamente 50 anos. Eu nasci no dia 24 de agosto de 1963.
P/1 – E qual é o nome dos seus pais? O que eles faziam?
R – Meu pai se chamava Fredolino Plaster e minha mãe, Laura Zimmermann Plaster. Os dois eram trabalhadores rurais.
P/1 – O que você lembra da sua infância?
R – Nossa, tanta coisa. As coisas principais, assim, que eu me lembro são as brincadeiras que meus pais faziam comigo em pomerano, as cantigas de roda, as musiquinhas que eles me ensinavam. Mas acho que o mais marcante para mim foi a minha alfabetização, porque eu fui alfabetizada pelo meu pai antes de eu ingressar na escola. Meu pai sentava comigo e brincava com as letras. Então, eu aprendi a ler, mas eu não aprendi a escrever, a arte mecânica de segurar o lápis, de escrever. E quando eu fui para a escola isso era muito dificultoso para mim, porque eu estava bem à frente daquilo que a escola passava, mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia acompanhar, porque eu não conseguia registrar o que era ensinado para mim. E uma coisa também que me chamou muito, muito, atenção na minha infância foi o fato de falarmos pomerano e a nossa língua não ser aceita na escola, né? A gente era proibido de falar pomerano, a gente não podia se expressar na nossa própria língua, porque, se a gente falasse a nossa língua materna, nós éramos severamente castigados.
P/1 – E como eram essas brincadeiras que os seus pais faziam com vocês? Ou tem alguma cantiga que você lembra que você pode contar para a gente?
P/1 – Sim, lembro [corte na gravação].
P/1 – Então, você lembra de alguma cantiga da sua infância que pode cantar para a gente ou de alguma brincadeira que os seus pais faziam com você?
R – Eu lembro de muitas, mas, assim, o que eu mais faço com as crianças hoje que nos visitam é a brincadeira do Vitabula. Uma brincadeira de roda, onde as crianças ficam em roda e elas precisam procurar o boi branco. A brincadeira é assim [entrevistada descreve a brincadeira em pomerano]. “O boi branco está aí? Não, não, não. Eu preciso dar três voltas até eu encontrar o boi branco. Testa branca, vem comigo”. E aí, a gente vai selecionando as crianças da roda até chegar a última criança. Essa então é o boi branco e aí começa a perseguição, tipo a brincadeira do gato e o rato, onde o boi corre e as demais crianças perseguem essa criança para pegar ela e trazer de volta para a roda. A gente brincava muito. Essa é uma das, assim, que as crianças gostam muito, pelo fato de ser uma brincadeira que traz muito movimento. Mas, assim, eu sei de muitas, muitas brincadeiras.
P/1 – E como era a sua casa nessa época?
R – Ai, a minha primeira casa que eu me lembro, a sala e os quartos, era uma casa de taipa, o chão de madeira, as paredes de estuque, cobertas com tabuinhas de madeira. Mas a cozinha, que ficava atrás da casa, ela não tinha chão, ela era de barro batido, terra batida mesmo. E aí, toda vez que tinha que varrer a casa, tinha que jogar água nela primeiro para abafar a poeira, porque senão ninguém aguentava ficar dentro da casa com a poeira que levantava do chão. Então, isso me chamava muita atenção, porque a mamãe ia e ela jogava água no chão, espirrava água para a poeira não levantar, não subir. Então, são coisas assim. E uma outra coisa que eu me lembro muito eram as nossas brincadeiras dentro da casa. A gente tinha limitações de acesso. Então, por exemplo, o baú era uma coisa sagrada, ninguém podia mexer. E aí, a mamãe estava na cozinha trabalhando, fazendo o almoço e a gente brincando. E aí, quando a gente calçava um tamanco de madeira, que era a coisa mais gostosa do mundo, andar de tamanco de madeira no chão de madeira, o barulho que fazia era maravilhoso. E a gente calçava os tamancos e ia brincando dentro de casa. Aí, de repente, a mamãe parava o trabalho dela e gritava lá da cozinha: “O que é que vocês estão fazendo aí? Não pode ir aí”. E a gente ficava assim: “Mas, mãe, como a senhora sabia que a gente estava lá?”. E ela dizia para a gente: “Ah, porque o tamanco me contou”. E a gente ficava imaginando um tamanco mágico, flutuando pela casa, indo lá contar para a mamãe as nossas artes, mas, na verdade, não tinha tamanco mágico nenhum. Era só o barulho dos nossos passos que a mãe ouvia e sabia onde é que a gente estava brincando. Então, são coisas assim. A gente era um grupo grande, seis irmãos, primos. Então, era maravilhosa essa vida.
P/1 – Falando de tamanco, quais eram os outros objetos que você lembra que eram preciosos da sua casa?
R – Ai, da nossa casa a gente tinha muita foto. Então, as fotos eram… Quando vinha a visita, sentava na sala, ia passando as fotos e contando as histórias daqueles registros. Então, eram fotos de casamento, fotos de viagens que se tinha feito, mas a gente tinha muita coisa importante. Os livros, por exemplo, os livros de história. O papai sentava, lia para a gente histórias de livros e a gente queria muito saber ler também, né? E o fogão à lenha, lembro da minha bisavó, que nasceu na Pomerânia, sentada no fogão à lenha, frente ao fogão à lenha, a gente aos pés dela e ela contando as histórias do nosso povo, contando como foi a viagem vinda para o Brasil, as dificuldades que enfrentaram. Por exemplo, a minha família, quando chegou ao Brasil, ela não teve casa para morar. Eles tiveram que morar no meio da floresta, com lençóis amarrados nos altos das árvores para se proteger das onças e das cobras. Só que aqui é uma região muito fria, tem muita cerração. Então, eles ficavam completamente molhados a noite toda e não conseguiam mais se secar, porque, no meio da floresta, não tinha nem sol para secar as roupas. E a minha bisavó contava que uma manhã a mãe dela, a minha trisavó, no caso, levantou e disse que eles precisavam de procurar um lugar para ficar, para morar, porque não dava mais para morar no relento. E eles saíram então floresta adentro à procura de uma caverna, mas eles não encontraram caverna, porque essa região não tem cavernas. O que eles encontraram no meio da mata foi uma árvore gigantesca, chamada figueira branca ou gameleira, algumas regiões ela é conhecida como gameleira. Essa árvore, ela tem raízes que saem do alto do tronco e vão se expandindo em volta do tronco, criando vãos. A nossa família, ela cobriu as raízes dessas árvores com folhas de palmito, uma palmeira que tem aqui na região. E essa foi a primeira casa da minha família no Brasil. A primeira criança da minha família que nasceu no Brasil nasceu no meio das raízes dessa árvore. Então, são histórias que a minha bisavó contou para mim e são histórias que marcam a vida inteira, como foi, por exemplo, a vinda deles, que eles foram deixados em Santa Leopoldina. De Santa Leopoldina, eles tiveram que pegar os seus pertences e seguir mata adentro até chegar no lugar designado para eles. Então, meu trisavô, com os filhos mais velhos, ia na frente abrindo as picadinhas com foice e com facão e a bisa ficava com as crianças menores esperando com os pertences deles, porque não dava para levar tudo junto. E ela contava do desespero que a mãe dela tinha de ficar ali um dia inteiro esperando até os homens voltarem para buscar eles por causa das onças que rondavam o local. Então, sabe, são histórias que marcam muito a gente. Quando criança, a gente não consegue nem imaginar como era essa vida, né?
P/2 – Você falou da sua bisavó, você pode falar um pouco mais dela? [corte na gravação] Pode falar mais da sua bisavó?
R – Sim. A minha bisavó, quando ela veio com os pais para o Brasil, ela tinha 4 anos de idade. Então, ela tinha muitas lembranças dessa viagem. Ela falava da fome que eles sentiam, da falta de água, das tempestades que agitavam os navios, né? Ela contava tudo isso, mas o que ela mais contava eram as dificuldades que eles sofreram no Brasil. Por exemplo, eles trouxeram sementes junto para plantar. Só que essas sementes eram sementes da Europa, para ser plantadas num país tropical. Então, algumas não nasceram, outras não se desenvolveram. E também a fome que eles sentiram fez com que eles comessem as sementes que eles trouxeram, porque, quando eles saíram de Santa Leopoldina, eles receberam um punhadinho de farinha, um pedacinho de carne de sol e um pouquinho de feijão. E dali para frente, eles tiveram que se virar. Então, muitas vezes a comida que eles tinham para comer era só um broto de samambaia. Tiravam os brotos de samambaia do sul, que é muito abundante na região, e comiam os brotos de samambaia. E as brincadeiras, né? ela contava muito da região da Pomerânia, como eles brincavam nos porões da casa, que eles tinham que proteger os animais nos porões das casas por causa do frio, que lá fazia muito frio. Ela imaginava que um dia no Brasil fosse fazer frio ainda, né, que o Brasil fosse ter neve como ela tinha visto na infância dela. Eram sempre histórias de vida, né? E também as histórias do folclore pomerano, que eu aprendi. Hoje, eu sei inúmeras histórias que eu aprendi com ela. A fazer, por exemplo, o brote. Quantas vezes, quantas receitas tiveram que ser repetidas para se chegar ao que hoje se tem como o brote tradicional pomerano, porque o brote pomerano é um prato da culinária pomerana brasileira. Não foi trazido da Europa. Eles pegaram as receitas do pão de centeio e transformaram em brote de milho no Brasil [tosse]. Ai, gente, desculpa. A minha garganta não está muito boa. Essas são as histórias do nosso povo. E eu tenho lembranças dela, por exemplo. Eu tenho o avental que ela bordou no meio das raízes da figueira, onde ela viveu. Eu tenho o brinco que ela tinha na orelha quando ela atravessou o Atlântico para vir para o Brasil. Então, são memórias que a gente leva para sempre.
P/1 – E você pode contar alguma dessas histórias folclóricas que você aprendeu com ela?
R – Tem uma que eu gosto muito de contar, que é a Mulher de Prata, mas, aí, essa história foi especialmente contada para mim por causa da minha ousadia. Eu sempre fui uma criança que não tinha medo de nada. Se me dissessem que tinha um bicho papão no quintal, eu ia lá para olhar se era verdade. E os meus pais tinham desespero por causa dessa minha ousadia de não ter medo. Por exemplo, um dia, brincando no meio da plantação, eu usei a lima, a ferramenta de afiar as inchadas do meu pai, para brincar e eu perdi a lima no meio do cafezal. À noite, quando meu pai foi afiar as inchadas, ele não encontrou a lima e me perguntou se eu sabia onde estava. Eu falei que estava no meio do cafezal. E ele falou assim: “Eu devia fazer você ir lá buscar”. E não é que eu fui lá? No meio da noite, subi a montanha e fui buscar a lima no meio do cafezal. E aí, eles entraram em desespero, porque eu poderia ter caído no rio, eu poderia ter sido picada por uma cobra, atacada por um bicho, que não era... era floresta em volta tudo. E aí, eles me contaram a história, minha bisavó, minha avó, minha mãe, meu pai, eles em conjunto me contaram, uma Mulher de Prata. A história da Mulher de Prata dizia que tinha uma jovem pomerana, que ela desejava muito ter um bebê e ela não conseguia engravidar, e, depois de muito tempo, ela teve esse bebê. E esse bebê foi a alegria de toda a comunidade, porque todos se alegraram junto com essa família. E todos queriam ser padrinhos dessa criança, e os pais não conseguiram decidir quem seriam os padrinhos, e por isso não batizaram a criança. A mãe um dia foi para o quintal, limpar o quintal, cuidar do jardim dela, colocou uma cesta no quintal e deixou o bebê lá dentro. Enquanto ela estava lá trabalhando, ela viu uma borboleta muito linda e ela perseguiu essa borboleta para pegar a borboleta, porque ela era encantadora. Enquanto ela fez isso, o bebê dela desapareceu, desapareceu e nunca mais foi encontrado. Eles procuraram durante dias, semanas, e todos se cansaram de procurar, menos a mãe. A mãe continuou procurando até o dia que ela faleceu no alto da montanha e não conseguiu mais voltar de fraqueza. E os meus pais, minhas bisavós, diziam que a mulher continuava procurando o bebê dela. Então, eu não podia sair de casa sozinha de noite, porque, se a mulher me visse, ela ia confundir com o bebê que ela tinha perdido e ia me levar, que era o fantasma da mulher. Eu era tão pequenininha, quando eles me contaram essa história, que eu batia o queixo na janela, do meu tamanhinho. Eu me lembro como hoje, eu na janela da minha casa, olhando para a montanha, onde eles diziam que a Mulher de Prata estava esperando o bebê dela. E quando a lua estava clara, ela batia nas folhas do coqueiro e realmente dava a impressão de que era um vulto, de que era uma mulher. E eu saí uma noite para ir lá e procurar a mulher, porque eu queria dizer para ela que eu não era o bebê dela, que ela precisava parar de procurar, porque o bebê dela tinha virado um anjo. Então, ela tinha que ir para o céu para encontrar o bebê dela lá. Era uma história que eles inventaram para me convencer a ficar dentro de casa e que, de fato, aconteceu o inverso. Eu fui atrás da mulher, procurar a mulher. Eu me arranhei toda nos espinhos do matagal, né? Eu estava toda arranhada, toda ensanguentada quando eles me contaram, mas eu não desisti. E a minha maior decepção foi chegar lá e ver que não era a mulher, que era só uma folha de coqueiro e descobrir que meus pais, meus avós, meus bisavós estavam mentindo para mim. Então, essa foi a minha grande revolta, descobrir que eles mentiam. Então, ali foi que eu descobri que existia mentira, que nem tudo que era dito para mim era verdade.
P/1 – Você falou do brote, né, que é um alimento que é feito por aqui. E você lembra de outras comidas que você comia na época da culinária aqui?
R – Ah, eu lembro muito da sopa de pêssego, que é uma sobremesa. O nhoque de pêssego, ele é doce, agridoce, é delicioso, de ameixa também, banana da terra, muito, muito, bom. Eu lembro do (Rosin Stuta?), que é um pão de Natal. Ele é feito com canela e com frutas cristalizadas. Eu lembro do perfume, do cheiro do pão, quando a minha bisavó fazia esse pão, que ela fazia para a gente sempre em épocas festivas, né? Natal, Páscoa, Pentecoste, aniversários nossos. Sempre tinha esse pão. Ele era o pão da comemoração, da confraternização. Eu me lembro do último pão que ela fez, depois disso ela faleceu. Eu tinha nove anos, o meu irmão tinha sete, a irmãzinha tinha quatro. E ela fez o pão para a gente, a gente sentou na grade do curral e uma das vacas veio e abocanhou o nosso pão e nós perdemos o último pão que a nossa bisa fez para a gente, porque ele foi comido pela vaca, no curral de casa. Então, são memórias, muitas memórias.
P/1 – E vocês mantêm alguma dessas receitas? Você pode falar para a gente como é que é preparada?
R – Sim. Até hoje, nossos pratos são preparados. Inclusive, eu faço cursos e oficinas para ensinar as pessoas mais jovens a fazer esses pratos.
P/2 – Você falou do Natal, como que era essa festa?
R – Ai, o Natal Pomerano é um acontecimento. A primeira coisa que precisa é limpar todo o entorno da casa, a gente limpava o quintal, limpava a estrada. Tudo tinha que estar limpo, arrumado. Depois, ia para dentro de casa, tinha que fazer uma faxina do teto ao chão, da casa inteira. E o Natal era preparado já tempos antes, porque todos os enfeites da árvore de Natal, tudo era feito pela família em conjunto, toda a família participava, as crianças, os idosos, os homens, as mulheres, todos participavam da confecção desses enfeites. E a árvore de Natal era montada no dia 24 de dezembro. Até hoje essa é a tradição pomerana. A gente monta a árvore de Natal no dia 24 de dezembro. E é sempre uma árvore nativa, é um pinheiro que é plantado exatamente para isso. A gente planta, cultiva para cortar no dia de Natal, para servir como árvore de Natal. Só que é um pinheiro que rebrota. Então, todos os anos a gente tem o pinheiro da mesma árvore. Ele nos dá uma árvore todo ano. E aí, depois de montada a árvore de Natal, então, era hora de ir para a igreja, para fazer a celebração na igreja, a gente tinha a programação de Natal, participava do teatro, declamava poemas natalinos. Enquanto a gente estava na igreja, o Papai Noel vinha trazer os presentes, quando a gente chegava em casa, eles estavam debaixo da árvore de Natal. E às vezes o Papai Noel vinha presencialmente entregar os presentes para a gente, mas eram sempre presentes confeccionados pela própria família. Então, eram os carrinhos de madeira, as bonecas de pano. A minha mãe gostava muito de manipular barro, aí, ela fazia as xícaras, as panelinhas de barro, tudo para a gente. Eu não sei quando ela fazia, porque ela conseguia fazer escondido, sem a gente ver, mas, no dia de Natal, estava debaixo da árvore de Natal o nosso presente. Então, sempre era uma surpresa, não era aquela história de “Eu vou escolher”, era aquilo que era possível dar. E muitas vezes eram coisas práticas também, a gente ganhava uma sombrinha. Nossa, ganhar uma sombrinha era um presente fantástico, né? Porque a gente saía no outro dia passeando com a sombrinha aberta, mesmo sem ter chuva. A gente ia simplesmente para abrir e mostrar. Ou às vezes ganhava um prato, uma caneca, então eram coisas que poderiam ser usadas no dia a dia. E sempre tinha celebração familiar. A gente reunia a família toda para fazer uma celebração com cânticos, com orações, porque as famílias pomeranas são muito centradas também na religião.
P/1 – E quais eram as outras festividades, além do Natal, que você lembra?
R – Eu lembro muito do Natal, Páscoa. Páscoa era muito interessante, porque a gente tinha caça aos ovos. Eram ovos de galinhas pintados com marupá. Marupá é uma plantinha aqui nativa da região. Ela tem uma cebola vermelha, e a gente cozinha os ovos com essa cebola, até hoje a gente faz isso, né? A gente cozinha os ovos com essa cebola e, dependendo da casca dos ovos, eles vão adquirindo diferentes tons de vermelho, puxado para o roxo, para o vinho. Então, fica lindo o ninho. A gente preparava um ninho de flores, uma cestinha, uma peneira com flores, e a gente recebia os ovos de galinha nesse ninho, mas sempre alguns ovos eram escondidos no quintal. E a gente passava a manhã de Páscoa inteira procurando os ovos de Páscoa, porque a gente tinha que encontrar todos eles, os pais a gente diziam: “Ó, tem tantos ovos para cada um. Então, vocês vão ter que achar”. E aí, a gente achava todos e depois dividia os ovos entre nós. Às vezes, a gente passava o dia inteiro caçando ovos até encontrar todos. E uma coisa que me lembro muito também era o _____. Na manhã de Páscoa, as famílias saíam com um galho de uma plantinha, geralmente era um cipreste, na Pomerânia era a beta, um galho de beta, mas no Brasil não tinha beta. Então, se usava o cipreste, colhia-se água fresca e saía de casa em casa abençoando as pessoas com aquela água, que se chamava _______, água de Páscoa. Acordava as pessoas salpicando um pouquinho de água nela, principalmente as crianças, porque os adultos já estavam de pé. E aí, a gente tomava café na casa dessa pessoa. Então, sempre era uma família escolhida, e o café da manhã era lá. E a água de Páscoa também era guardada como algo sagrado durante o ano todo. Ela servia para ajudar. Por exemplo, quando tinha conjuntivite, para lavar os olhos, que dizia-se que a água era abençoada e ela curava a conjuntivite.
P/1 – Você comentou um pouco antes sobre a escola. Eu queria que você comentasse um pouco mais do que você lembra da escola, se você gostava de ir, se tinha alguma matéria que você preferia.
R – Eu sempre gostei muito de estudar, principalmente de ler, de ler, de ouvir histórias, eu gostava muito, mas o meu primeiro ano escolar foi muito traumatizante, pelo fato de ser pomerana e a professora não respeitar a gente. Então, ele foi muito traumático para mim. A minha professora simplesmente me abandonou, quando ela viu que eu não tinha coordenação motora para escrever. Ela achou que eu fosse uma retardada e que eu não fosse capaz de aprender. Então, ela me abandonou dentro da sala de aula. Ela não me ajudou de forma nenhuma a adquirir essa habilidade, né, a treinar a coordenação motora. Ela simplesmente me abandonou. E o que eu me lembro muito é que, no final do ano, a gente recebeu uma visita de inspeção. Era uma autoridade municipal que veio para verificar a aprendizagem dos alunos e essa pessoa perguntou se alguém gostaria de ler. Euzinha levantei a mão imediatamente dizendo que eu queria ler. Eu acho que a minha professora deve ter quase tido um infarto naquela hora, porque ela não sabia que eu sabia ler. Ela ainda não tinha se dado conta dentro da sala de aula que eu era alfabetizada e que meu pai tinha me alfabetizado. E a pessoa então me entregou o livro e eu li com entonação, com ritmo, melhor do que todos os outros alunos. Eu ganhei um prêmio, um presente que eles trouxeram, um prêmio, né? Um diploma, era um papel escrito à mão, muito bonito, um diploma de criança alfabetizada. Isso me chamou muito a atenção, porque, a partir daquele momento, eu comecei a ser respeitada, não só pela minha professora, mas também pelos meus colegas. Todos queriam estar comigo, todos me queriam no grupo para fazer as atividades, porque eu conhecia, conseguia. Os meus primeiros quatro anos de escola, eles depois transcorreram tranquilos, porque eu aprendi a falar português na escola, conseguia me comunicar bem e eu sempre tive muita facilidade de escrever. Então, eu conseguia fazer, a tal da redação era o meu forte, conseguia trabalhar isso muito bem. E aí, depois, quando eu terminei a quarta série, eu tive que parar de estudar, porque não tinha escola perto, não tinha como frequentar a escola, mas o meu sonho era continuar os estudos, sempre foi continuar os estudos. E aí, depois, quando o meu irmão terminou a quarta série, ele pôde ir, porque ele era homem. Então, ele poderia pegar o cavalo, andar 20 quilômetros a cavalo para ir para a escola mais próxima, mas eu, enquanto mulher, não podia, porque isso não era aceito pela sociedade da época, que a mulher saísse de casa sozinha, não tinha condições de ficar. Então, quando eu tinha 14 anos, eu consegui uma bolsa de estudo para ir para um internato e, aí, eu fui para o internato para estudar, mas a bolsa de estudo era só para um ano. Eu consegui ficar um ano e, aí, eu tive que voltar para casa de novo, mas, para ter direito para ir para esse internato estudar, eu tive que fazer greve de fome. Eu fiz greve de fome até os meus pais acharem que eu ia morrer de fome, aí, eles me deixaram ir, porque senão eles não deixariam. E aí, quando eu voltei, os meus pais nesse meio tempo, enquanto eu estava no internato, mudaram de Itaguaçu para Santa Maria, e eu voltei então para casa no final do ano, já para Santa Maria, um lugar novo, uma comunidade diferente. E aqui eu me encontrei, porque aqui eu encontrei meu povo, minha história. Aquelas histórias que meus bisavós e meus avós contavam para mim aqui eram reais, eram vividas. As histórias que eles contavam de como eram os casamentos, aqui, eu podia presenciar, eu podia participar. Então, aqui eu me reencontrei, eu reencontrei meu povo, reencontrei minha vida, e aqui a gente tinha uma dificuldade muito grande. A escola da comunidade, ela estava fechada há vários anos por falta de professores. Não tinha professores, porque os professores vinham da Grande Vitória para uma comunidade rural, onde ninguém falava português, não tinha energia elétrica, não tinha saneamento básico, não tinha transporte, não tinha nada. Então, elas eram deixadas aqui e, quando elas conseguiam voltar para Grande Vitória, elas nunca mais retornavam, porque não queriam continuar aqui. E aí, a escola estava fechada há vários anos. Em janeiro de 1979, a comunidade se reuniu, liderada por meu pai, porque eu tinha irmãos que precisavam ir para escola, liderados por meu pai, eles procuraram a prefeitura de Santa Leopoldina, que na época era município de Santa Leopoldina ainda, e exigiram do prefeito a reabertura da escola. E aí, o prefeito marcou uma reunião com a comunidade, ele veio aqui para Alto Santa Maria, então, para realizar essa reunião, a reabertura da escola. E ele devolveu o problema para comunidade, ele disse para comunidade: “Eu pago o professor, mas vocês precisam arranjar o professor, porque eu não tenho professor”. A comunidade só virou para mim e apontou: “Ela é nossa professora”. Eu tinha 15 anos, eu acordei camponesa e fui dormir professora, foi dessa forma. Apenas tendo a quinta série, a comunidade me escolheu como professora da comunidade. E aí, eu comecei a trabalhar, ensinando aquilo que eu sabia para os meus alunos e concomitantemente eu fui estudando, até eu terminar a minha formação depois, mas eu já trabalhava como professora há muitos anos, há mais de 10 anos até eu conseguir concluir a minha formação. E é uma experiência também que se marcou a mim e marcou a comunidade também [corte na gravação].
P/1 – E como era para você dar aula nessa época?
R – Na verdade, eu aprendia com os meus alunos, porque tinha tanta coisa que eu não sabia e que eu tinha que ensinar. Então, era um trabalho de pesquisa constante e era muito complicado, porque, além de eu não ter esse conhecimento que eu deveria ter para trabalhar, tinha o problema da proibição da língua. Todos os meus alunos eram pomeranos e ninguém deles falava português. Então, você imagina você entrar dentro de uma sala de aula, ter que alfabetizar 30 alunos, sendo que nenhum deles falava a língua. E aí, eu tive que buscar formas de trabalhar com esses alunos. Só que era terminantemente proibido falar pomerano na sala de aula. E eu passei muita dificuldade, porque as crianças sabiam que eu falava pomerano. Então, é lógico que elas iam falar pomerano comigo, né? E chegou uma época em que eu comecei a ser advertida, primeiro, verbalmente, depois, por escrito e, no final, uma ameaça de cancelamento do contrato mesmo, porque eu não podia falar com os meus alunos pomeranos. Aí, eu fiz um pacto com os meus alunos. Eu pactuei com eles que, enquanto não tivesse ninguém de estranho por perto na escola, eles poderiam falar comigo em pomerano, e eu ia explicar para eles também em pomerano o que a gente estava estudando, mas, se aparecesse alguém estranho, eles não poderiam falar. Então, os alunos se calavam, porque eles tinham dificuldade de falar português, eles se calavam, ninguém respondia, o máximo que eles diziam “sim, não”, mas eles respeitaram o nosso pacto. E foi dessa forma que eu consegui ensinar a eles. Eu pegava todo o conteúdo que eu tinha que ensinar para eles, eu explicava em pomerano e, depois, a gente anotava em português para eles terem também escrito em português aquilo que a gente estudava. Então, eu acho que foi uma experiência muito enriquecedora, porque eu passei a ser respeitada pela comunidade. A comunidade via em mim a pessoa que estava fazendo a transição entre o pomerano e o português de uma forma não arbitrária, mas de uma forma tranquila para que as crianças pudessem aprender uma nova língua sem ter a língua deles desclassificada, menosprezada, porque sempre se dizia assim para gente, também quando eu era aluna, que a língua pomerana era uma língua pobre, que era só um dialetozinho e que não merecia ter um registro. Mas era uma língua falada por um povo inteiro, que tinha uma história inteira, que tem uma gramática e que tem tudo. Então, a gente não conseguia entender por que, perante a língua portuguesa, ela era tão insignificante, se ela era o nosso instrumento de comunicação. E essa transição que a gente conseguiu fazer com a comunidade, então, mudou a visão da comunidade também da escola de ensino de língua portuguesa, porque até 1940, 1938, antes da Segunda Guerra Mundial, antes da Era Vargas, as comunidades pomeranas, elas tinham o seu próprio sistema de ensino. A comunidade se reunia, escolhia uma pessoa da comunidade que tivesse conhecimento e essa pessoa seria o professor. E aí, a gente tinha aulas de língua pomerana, língua alemã, aritmética e conhecimentos gerais. E as crianças frequentavam a escola três vezes por semana. E quando terminavam esses três anos de estudo, era um estudo, um ciclo de três anos, elas tinham capacidade de ir para a lavoura e de usar os conhecimentos adquiridos ali, no plantio, no cultivo da roça, na construção de suas casas. Porque aprendia-se, inclusive, a medir madeira, que é uma das coisas mais complicadas que tem, você pegar uma árvore, medir ela e dizer são tantos metros cúbicos. Não é uma coisa simples. Então, os pomeranos faziam isso tranquilamente, por exemplo, construir uma casa e saber calcular quanta madeira ia precisar, quanta telha ia precisar, tudo. Então, isso era aprendido na escola e era prático. Até 1950, a gente não tinha nenhuma criança pomerana que não fosse alfabetizada. Enquanto o índice de alfabetização no Brasil girava em torno de 60%, todas as crianças pomeranas eram alfabetizadas. E aí, com o fechamento dessas escolas, com a proibição do Estado do ensino do pomerano e do alemão, que tinha que ser português e a comunidade não tinha falantes de português para ensinar, nós tivemos duas gerações de pomeranos não alfabetizados. E isso foi um retrocesso muito, muito, grande. Então, a escola, a comunidade precisou ser conquistada novamente para ela aceitar a língua portuguesa, a escola oficial, como algo bom e benéfico para a comunidade. E a gente, trabalhando dessa forma, conseguiu fazer essa transição.
P/2 – E você lembra a primeira aula que você deu?
R – Sim. A primeira aula que eu dei foi uma conversa com os meus alunos sobre a expectativa deles em relação à escola. Sentei com os meninos e disse assim: “O que vocês esperam aprender?”. E eles foram me dizendo em pomerano e eu fui anotando. E a partir dali, eu desenvolvi o meu projeto de ensino para eles, de ensinar as letras. Por exemplo, de comparar com eles, em pomerano o K, é K mesmo, em português era o CA, que fazia o K, mas o CE não fazia o QUE, fazia o CE. Então, foi alfabetização mesmo. E sempre com histórias que os próprios alunos me traziam. Eu tinha uma brincadeira com eles, que todo dia a criança me trazia uma história. Então, depois, quando eles já estavam alfabetizados, a gente pegava essa história em grupo, a criança contava a história, a gente registrava ela, e eu falava assim: “Agora, nós vamos transformar essa história numa história de língua portuguesa para a gente ler”. E aí, a gente fazia em grupo a tradução e escrevia essa história. E aí, tinha coisas bem interessantes, por exemplo, eu me lembro de um aluno que ele disse para mim que a cobra tinha picado a enxada do pai dele. Eu disse: “Mas como a cobra picou a enxada do seu pai?”. Ele escreveu isso, a cobra picou a enxada do pai. Eu disse: “Mas explica para mim”. Ele falou assim: “Mas o papai estava capinando, ele estava descalço, e a cobra veio e pegou ele aqui atrás no pé”. Ah, tá. Em pomerano, a palavra hack, ela é calcanhar e enxada. Ele não sabia a palavra calcanhar, ele usou a enxada para descrever a picada da cobra no pai dele, né? Então, assim, coisas que a gente, enquanto grupo, foi descobrindo. Então, eu falo assim, a minha maior aprendizagem de vida foi junto com os meus alunos. Depois, eu fui só formalizar aquilo que eles já tinham me ensinado.
P/1 – Para além da escola, da sua casa, quais eram os outros espaços que você habitava nessa época? Quais eram as outras coisas que você fazia?
R – A gente tinha, de lazer, a gente tinha muito pouco. Eram as festas das comunidades religiosas, os casamentos que a gente ia e, muito raramente, a gente fazia um passeio para ir para uma outra comunidade, visitar a família, visitar amigos. Mas o contexto era sempre muito comunitário. A vida social da gente acontecia dentro do grupo pomerano, na comunidade. Então, às vezes, a gente se reunia simplesmente para contar histórias. Na casa de alguém, a gente sentava, esquecia da vida contando história. Então, eram muitas visitas, a gente fazia muitas visitas familiares, visitas domiciliares. Ia para uma casa, para outra, e recebia muitas visitas também. Mas, assim, o contexto maior era a escola, a igreja e as festinhas da comunidade.
P/1 – Você teve que se mudar de Itaguaçu para Santa Maria de Jetibá. E aí, eu queria que você comentasse quais foram as maiores diferenças que você sente do espaço que você vivia antes e daqui.
R – A maior diferença é que em Itaguaçu eu morava numa comunidade de italianos. Pomeranos era só nossa família. Então, lá a gente praticamente não tinha uma convivência social muito grande, principalmente a gente criança, porque em casa a gente falava só pomerano. Então, como que eu ia brincar com as crianças que não falavam pomerano, que falavam português, porque os italianos na época já não falavam mais italiano. Então, era uma convivência muito difícil. Mas quando eu cheguei em Santa Maria, aí tudo muda, porque ali eu tenho a língua, eu tenho a comunidade de contato, eu tenho a história, eu tenho o meu povo. E aí, tudo muda, tudo se torna diferente. Eu sempre falo assim, as minhas maiores referências são de Santa Maria. Itaguaçu foi o lugar que eu nasci, que eu morei um pequeno período da minha vida, mas a minha vida ela foi construída no município de Santa Maria. Ela foi construída aqui nessa comunidade.
P/2 – Tinham pessoas mais velhas em Santa Maria que se tornaram suas referências?
R – Sim, eu sempre tive uma facilidade. Eu acho que a convivência, principalmente com meus bisavós, me fez eu ter um respeito e um carinho muito grande pelas pessoas mais idosas. Então, sempre as minhas referências foram as anciãs da comunidade. Era com elas que eu gostava de ficar, era com elas que eu gostava de conversar, porque elas eram as portadoras das histórias que eu queria saber, porque eu sempre gostei muito de história. Então, se eu queria saber a história, era a anciã que me contava. Se eu queria saber a culinária, era a vovozinha que ela sabia fazer. Então, sempre era muito com elas. E eu, assim, amigas da minha idade, eu tenho pouquíssimas, porque sempre eram pessoas bem mais velhas ou bem mais jovens que eram meus alunos e que depois se tornaram meus amigos. Até hoje eu tenho ex-alunos que são meus grandes amigos.
P/1 – E falando mais hoje em dia, como é para você ser a detentora desse conhecimento? Você que guarda muito dessa memória.
R – Para mim, é uma honra muito grande. Eu sou reconhecida pelo estado do Espírito Santo como Mestre _______ da Cultura Popular, pelo município de Santa Maria como Mestre da Cultura Pomerana e Mestre da Cultura Popular. Então, eu tenho três títulos de Mestre da Cultura e, para mim, é uma honra muito grande. Eu recebo pessoas toda semana na minha casa para ouvir as minhas histórias. Eu ministro oficinas, cursos de culinária, faço palestras, muitas palestras sobre a cultura pomerana. E hoje eu estou envolvida com o Instituto Memorial Pomerano. Nós criamos o Instituto Memorial Pomerano. Estou hoje na presidência desse instituto. E o objetivo é exatamente esse, preservar a cultura pomerana, manter viva a cultura pomerana e contar e contagiar as novas gerações do valor dessa cultura. Então, para mim, é uma honra, uma honra muito grande. Eu acho que é o lugar que eu me sinto mais à vontade contando histórias. Se eu puder passar um dia inteiro contando histórias, geralmente eu passo. Eu terminei agora há pouco tempo o curso como ministrante do curso Criança Pomerana Alfabetizada. Então, eu trabalhei com professores que estão na sala de aula trabalhando com crianças. Então, foi uma forma de trabalhar com esses professores do que pode ser trabalhado com uma criança dentro da cultura pomerana. E agora, na semana que vem, a gente inicia a licenciatura intercultural pomerana na Universidade Federal do Espírito Santo. Nós conseguimos, enquanto povo tradicional pomerano, um curso de licenciatura Intercultural Pomerana, onde a gente vai ter oito períodos de língua pomerana na universidade para a formação dos nossos professores. E esse é um trabalho nosso enquanto instituto junto com a Universidade Federal e o Ministério da Educação. Inclusive, terça-feira agora, nós vamos receber o Ministério da Educação aqui na Vaia de Sousa para continuar esse diálogo que a gente está tendo pela cultura pomerana.
P/1 – Você falou um pouco da universidade, desse link que vocês estão fazendo, e eu queria te perguntar para você, quando você estudou na universidade, como foi para você esse período?
R – Foi um período muito difícil, porque eu estudei em Colatina. Daqui em Colatina são 108 quilômetros. Então, eu trabalhava das sete da manhã até as quatro da tarde como professora. Eu pegava o transporte, ia para Colatina, estudava até 11 da noite e voltava. Chegava em casa, às vezes, duas horas da manhã, tendo que dormir seis horas, já estar de pé de novo para trabalhar. Então, foi um período muito difícil, mas também de muito aprendizado, porque a sede de saber que eu tinha, eu tinha encontrado a fonte. E para mim foi muito, muito significante, foi muito bom, mas foi muito difícil. Eu lembro que eu estava no sexto período, no final do sexto período, e aí eu estava tão cansada, tão cansada que eu não aguentei mais. Eu cheguei em casa, eu tirei a minha mochila e falei assim: “Eu não volto mais. Eu não aguento mais. Eu fui até onde dava. Eu preciso parar”. E eu parei, meu marido pegou a minha mochila, guardou, ele não disse nada, deixou quietinho. Duas semanas depois, de repente, ele volta com a mochila na mão e me entrega ela, e ele falou assim comigo: “Você já descansou, né? Então, está na hora de você voltar e terminar o que você começou”. Eu fiquei tão envergonhada, porque ele era um simples trabalhador rural, que tinha estudado, ele tinha feito EJA, Educação de Jovens e Adultos. Ele nunca teve oportunidade de ir para escola, porque ele foi um desses filhos da geração que não foi alfabetizada, né? Ele trazer para a minha mochila e dizer: “Vai terminar a sua universidade, porque você precisa. Esse é um sonho que você precisa conquistar”. Peguei a minha mochila e nunca mais falei que eu estava cansada, porque a vergonha foi tanta, eu precisava terminar, e eu, de fato, terminei. E depois, para fazer minha especialização, eu fui para o Rio de Janeiro. Trabalhava a semana inteira, na sexta-feira à noite eu pegava o ônibus, eu ia para a Universidade Grande Rio, estudava sábado e domingo, o dia todo, domingo à noite eu voltava. Na segunda-feira de manhã, eu ia direto para a escola, porque não dava tempo de passar em casa, eu ia direto para o trabalho, para fazer uma especialização. Então, foram, assim, momentos muito difíceis, mas muito gratificantes e de muito aprendizado.
P/2 – O que você estudou na graduação?
R – Eu fiz licenciatura em Língua Portuguesa, Letras.
P/2 – E por que você escolheu esse curso?
R – Porque era o que mais atendia o que eu fazia, não tinha… A gente não tinha opções que tinha hoje, por exemplo, a Pedagogia era para pedagogos, mas eu não queria sair da sala de aula, eu queria permanecer na sala de aula, mas eu também queria uma graduação. Então, naquele momento, Língua Portuguesa era o que mais atendia o que eu precisava. E eu não fiquei satisfeita só com a Língua Portuguesa. Na semana que vem, eu começo a faze Ciências Humanas. Volto para a universidade. Não me contive, quase 70 anos, volto para a universidade para fazer mais um curso. Quero fazer História.
P/1 – Você falou também do seu marido, né, como você estava comentando agora. E eu queria te perguntar, quem é o seu marido? Como foi o casamento de vocês?
R – Meu marido foi Helmut Waiandt, ele é o mentor do projeto Waiand's Huus. A família Weyand é uma família não pomerana, mas uma família de renanos do (Hundstricker?), mas aqui no Brasil, como eles sempre se casaram com mulheres pomeranas e dentro da cultura pomerana a mulher é a responsável pela manutenção cultural, pela difusão da cultura e por ensinar a cultura para os filhos, os Waiandt se tornaram pomeranos. Eles foram apomeranizados no Brasil e hoje eles não falam nem mais a língua renana, falam pomerano e praticam, trabalham a cultura pomerana. Eu conheci o Helmut quando eu tinha 15 anos. Um dos líderes da comunidade, mesmo não sendo alfabetizado, sempre foi aquele que esteve à frente da comunidade que buscou melhorias para a comunidade. Foi uma das pessoas que mais trabalhou para a escola da comunidade e para a frente. E eu conheci ele e contei para ele um dia do meu desejo de continuar os estudos e ele falou assim comigo: “E por que não? Por que você não continua? Por que você tem que parar na quinta série? Você pode continuar. Eu te ajudo”. Mas ele também não tinha conhecimento para me ajudar e a gente se conheceu, se entendeu começamos a namorar. Três anos depois, nós nos casamos, mas, antes de nós casarmos, ele me fez uma promessa. Ele disse para mim se nós nos casarmos: “Eu faço de tudo para que você possa continuar os estudos”. E, de fato, ele fez. Era ele que ficava em casa com os nossos filhos, que cuidava dos nossos filhos enquanto eu ia para Santa Leopoldina para estudar. Eu fiz o projeto Hapront, Habilitação para Professores não Titulados. Era um ensino à distância já daquela época que dava a formação de ensino médio de magistério, para que eu pudesse ter o título de professora, né? E ele sempre foi dessa forma. Quando eu fui fazer a faculdade, foi ele também que ficou com os nossos filhos, que deu todo o suporte para que eu pudesse, porque ele se realizava através das minhas conquistas também. Para ele, também era uma realização ele dizer: “Nossa família tem potencial. Nossa família estuda”. E ele sempre foi aquela pessoa que deu para os nossos filhos a oportunidade de estudar. Então, os nossos filhos hoje são mestres e doutores. São porque eles tiveram um pai que, mesmo sendo alfabetizado depois de adulto, com mais de 30 anos de idade, ele deu suporte para que os filhos pudessem estudar. E o suporte que ele dava era dentro da capacidade dele, por exemplo, ele gostava muito de contar histórias. Ele cuidava dos filhos, levava as crianças para a roça com ele para trabalhar e, para manter os filhos ocupados e entretê-los, ele contava histórias. E aí, com o tempo, ele começou a cobrar dos filhos que eles também contassem histórias. Então, eles começavam a contar histórias, iam contando as histórias que sabia. Só que, quando o repertório acabava, ele foi incentivando os filhos a inventar histórias e os filhos realmente foram inventando histórias. E foi de história em história que eles se tornaram quem eles são hoje. As histórias que eles aprenderam com o pai e que o pai depois incentivou eles a contar adiante.
P/1 – Você fala muito dessa questão da contação de histórias, né, quando você cita todas essas pessoas. E aí, eu queria que você falasse um pouco sobre qual você acha que é a importância dessa contação histórica para os pomeranos.
R – Dentro da cultura pomerana, nós ensinamos os nossos filhos através de história. Nós não contamos uma história simplesmente para contar, mas cada história que a gente conta, ela tem um ensinamento, ela traz um ensinamento. Então, quando a gente conta a história, a gente na verdade está ensinando os nossos filhos alguma coisa. Tem uma história que ela fala do que é realmente importante para a família pomerana. É uma das histórias mais lindas que eu conheço e ela ensina tudo aquilo que de fato é importante para a vida pomerana. Eu sei ela em pomerano e eu posso fazer uma versão para ela em português, se vocês quiserem que eu conte ela. Em português ou pomerano? Eu conto um pedaço dela em pomerano ou posso contar ela toda que ela não é tão longa assim. Ela é uma lenga-lenga. É uma história que, a cada passo que você conta, você vai acrescentando um novo elemento e volta toda ela. Assim [entrevistada canta em pomerano]. A história ela diz o seguinte: “Quando eu era uma menininha, eu queria muito ter uma galinha e todo mundo me perguntava qual era o nome da minha galinha. ______ é o nome da minha galinha. Quando eu tinha uma galinha, eu também queria ter um galo. Todos me perguntavam qual era o nome do meu galo. _____ é o nome do meu galo e ______ é o nome da minha galinha”. A história vai seguindo e acrescentando cada vez mais um elemento. Ela chega ao final onde ela diz assim: “Quando eu tinha um namorado, eu queria muito ter um filho. Todos me perguntavam qual seria o nome dessa criança. Olha pro armário é o nome do meu filho. Bem amado é o meu namorado (Tripatrapa?) é o meu cavalo, (Stripastrol?) é a minha vaca, (Grunzenkopf?) é o meu porco, (Statarat?) é o meu pato, (Vakalkam?) é o meu galo e (Titeriterin?) é o nome da minha galinha”. Qual é o ensinamento dessa história? Tututu é como as mulheres pomeranas chamam as galinhas para alimentá-las. Então, se eu quero uma galinha que se chama (Titeriterin?) é porque eu não quero só uma galinha. Eu quero uma criação de galinhas, porque a galinha era importante pro povo pomerano. Ela trazia o esterco pro plantio, os ovos pro alimento, as penas pros colchões e pros travesseiros, pros cobertores de pena, e a carne pro alimento. Então, a galinha era um animal muito importante para a criação dos pomeranos. Depois da galinha, tinha o galo o nome do galo é (Vakalkam?). (Vakalkam?) é crista bamba, crista que balança. Os pomeranos dizem que os galos de raça são os das cristas grandes. Então, quanto maior a crista do galo, melhor era a raça do galo. Então, o que se queria não era só uma criação de galinhas, era uma criação de galinhas de raça, de fato. Não é à toa que Santa Maria, hoje, é o maior produtor de ovos do Brasil. É por causa dessa tradição pomerana de criar galinhas. Depois da galinha, vem o pato. O nome do pato é Chinatra. Chinatra é o barulho, o burburinho que o pato faz quando ele brinca no lago. Até 1970, a região de Santa Maria não produzia verduras em escala comercial. Toda a verdura plantada era para a subsistência da família e era plantada em volta dos lagos, porque, ao brincar na água e fazer esse burburinho, os patos removiam o lodo que fertilizava as margens dos rios. Então, era importante plantar ali e ter patos no lago. Também, esse brincar na água oxigenava a água e facilitava a criação de peixes. Pomeranos dizem que lago sem pato não tem peixe, de tão importante que o pato é. Depois do pato, vem o porco. O nome do porco é (Grunzenkopf?). (Grunzenkopf?) é o ato do porco de fucinhar a terra, quando ele está solto na terra. Os pomeranos construíam grandes chiqueiros cercados e separavam esses chiqueiros em piquetes. O porco ficava, a cada época, em um piquete. Enquanto ele estava naquele piquete, ele fucinhava e removia toda a terra. Ao mesmo tempo, os restos dos alimentos e o cocô que ele fazia fertilizavam aquele pedaço de terra. E aquele era o melhor espaço para a produção de batata. Então, é ali que se plantava batata. Quando a terra estava pronta para plantar batata, o porco ia para o piquete seguinte e se plantava batata ali. Até ele seguiu todo o chiqueiro, quando chegava no último, a batata estava sendo colhida do primeiro. O porco ia para lá para comer o resto da batata que tinha sobrado, remover toda a terra de novo, porque ele descobria que tinha restos de batata no chão. E o ciclo continuava. Então, esse era o ensinamento. O nome da cabra é (Guldnstrik?). (Guldnstrik?) seria laço de ouro em português. A cabra era tão importante para a família pomerana que ela era considerada o ouro da família, porque a gente mora numa região que não é alto o suficiente em produção de leite. Até hoje nós não somos altos o suficiente em produção de leite. Nosso leite vem de outros municípios. Então, a família que tinha uma cabra, ela tinha alimento para os seus filhos. O nome da vaca é (Stripastrul?). (Stripastrul?) se refere ao barulho da vaca sendo ordenhada, o leite caindo no balde. Quanto maior o barulho, maior a quantidade de leite, melhor era a vaca. Então, se queria uma boa vaca produtora de leite. O nome do cavalo era Tripatrapa. Tripatrapa é o próprio caminhar do cavalo, o trote do cavalo. Imagina você ter que pegar um cavalo para ir para Santa Leopoldina comprar sal. A distância que é. Então, precisava de um cavalo que caminhasse bem. Depois do cavalo vem o namorado. O nome do namorado é Meu Bem Amado. Quem é que não quer um amor na vida? É o que todos procuram. O amor da sua família, dos seus pais, dos seus irmãos e o amor do seu marido, da sua esposa, do seu companheiro, seja ele qual for. E dessa relação de amor, nasce uma criança. E aí, acontece algo muito inusitado. O nome dessa criança é Olha para o Armário. E a gente pensa assim: “Isso é nome que se deu a uma criança?”. De fato, não teria sentido, mas para o pomerano tem muito sentido. Todos os armários de quartos pomerano têm um espelho na parte interna do armário. Quando eu abro o armário, eu enxergo a minha própria imagem. Isso me diz que eu sou importante. Eu sou importante, eu tenho responsabilidade. Essa responsabilidade faz com que eu conte para os outros a minha história e não deixe ela morrer. Quando eu abro o armário da minha vida e conto a minha história para o meu povo, eu não deixo a minha cultura morrer. Nós pomeranos já estamos há 166 anos, quase 167 anos no Brasil, e nós mantemos viva a nossa história e a nossa cultura, porque nós nunca deixamos de abrir os armários da nossa vida e contar a nossa história para os nossos descendentes. E é por isso que a gente está aqui também contando essa história para que mais pessoas saibam dela.
P/2 – Eu queria voltar um pouquinho.
R – Eu acho que vocês fazem um mau negócio me deixando falar [risos].
P/1 – Pelo contrário. A gente veio aqui só para isso.
R – Eu não paro de falar.
P/1 – Queria voltar pro casamento e perguntar do dia do seu casamento, como foi?
R – Eu sempre falo, assim, que ele foi um marco de libertação para mim, porque, a partir do momento que eu me casei com a pessoa que eu me casei, eu pude realizar todos aqueles sonhos que até então não me eram permitidos. Então, para mim, ele foi um marco da minha vida. E assim, o casamento pomerano é uma celebração. Ele não é simplesmente ir para a igreja, casar, fazer um jantar. O casamento pomerano é cheio de rituais. Ele já começa com o ritual, por exemplo, de preparar o mastro da bandeira, de preparar a bandeira, preparar os laços, preparar a cozinha, convidar as pessoas que vão te ajudar na cozinha, preparar os quitutes. O convite de casamento pomerano é um convite totalmente diferente, porque é uma pessoa da família, geralmente irmão mais novo da noiva, ou um sobrinho, ou um primo da noiva, que ele vai fazer sempre um jovem. Ele tem o status de mestre de cerimônia. Ele vai de casa em casa e faz um convite de casamento declamado. Quando ele faz esse convite, ele leva junto uma bebida que ele oferece para o convidado. Se o convidado aceita essa bebida, ele está aceitando o convite de casamento. E a partir do momento que ele aceita o convite de casamento, ele tem o compromisso de participar do casamento. Então, o convidador já vai para os noivos, para a família e vai dizer tantas pessoas aceitaram o convite e estarão presentes. Não ir para o casamento é uma ofensa muito grande, a partir desse momento. Então, esse já é um dos rituais lindíssimos. E aí, depois tem todos os rituais, que é o ritual do quebra-louça, da dança dos noivos, a dança do chapéu, a dança da vassoura, a dança da meia-noite, a dança dos casados, que são rituais que seguem. O casamento pomerano começa, quando foi o meu casamento, ele começou na quinta-feira de manhã com o achamento da bandeira que marca o local do casamento e também marca o seu status de nobreza, porque dentro da cultura pomerana, os noivos no dia do seu casamento são considerados nobres. Então, todos os convidados estão lá para servir os noivos. Essa é a função do convidado. Fazer de tudo para que os noivos sejam nobres naquele dia. Então, o achamento da bandeira identifica o espaço da nobreza e os noivos assumem esse status de nobreza. E aí, depois, todos esses rituais, os copeiros com suas toalhas, com seus gritos característicos, o lugar decorado com flores, com palmas, que é algo único na cultura pomerana. Eu não conheço nenhuma outra cultura que viva o casamento dessa forma. E o casamento termina com a derrubada do mastro da bandeira. São os noivos que derrubam o mastro da bandeira, anunciando para todos que a festividade terminou. Então, ele é um acontecimento. E até hoje acontece assim.
P/1 – Como que era o seu vestido de casamento?
R – O meu vestido era de renda branco, mas com forro azul. Então, ele tinha um tom azulado, ele não era branco total. Mas até hoje ainda, por exemplo, no ritual do quebra-louça, o vestido de noivo é preto, dentro da cultura pomerana. O ritual do quebra-louça, a gente chama de ritual do quebra-louça, mas, na verdade, a tradução seria ritual do barulho, que é a festa do barulho. Os pomeranos acreditavam no passado, antes da cristianização, isso por volta do ano 1000, que a gente tem registro dos primeiros casamentos, dos rituais de barulho. Os pomeranos acreditavam que os jovens não tinham capacidade de lidar sozinhos com o mal. Então, era preciso fazer muito barulho, quebrar muita louça para que o mal fosse vencido. E até hoje ele tem essa conotação. A gente celebra o ritual do quebra-louça quebrando louças com muitos gritos, muitos fogos, muito barulho. Quebram-se as louças durante a cerimônia e depois a comunidade toda dança sobre esses cacos declarando a vitória do bem contra o mal. É a celebração da vitória do bem.
P/1 – Falando um pouco mais sobre o trabalho que você faz de manter essa cultura pomerana viva aqui. Eu queria que você falasse também um pouco sobre o espaço, onde a gente está, como ele funciona.
R – Ah, sim. Nós estamos dentro de uma casa pomerana. Essa casa aqui foi construída em 1940. Então, ela tem já bastante anos. É uma casa construída de madeira e as paredes são de estuque, que são treliças de madeira com barro batido. Foi construída pelo meu sogro, ele viveu aqui dentro. Então, meu marido nasceu dentro dessa casa, os irmãos deles todos nasceram dentro dessa casa. O meu casamento aconteceu dentro da sala dessa casa. O velório do meu sogro foi dentro da sala dessa casa, a minha sogra, porque a casa pomerana, a sala da casa pomerana é o espaço de convivência social. Então, todos os acontecimentos da família acontecem dentro da casa. E hoje a gente abre a casa para contar a história do nosso povo. A gente recebe grupos previamente agendados e esses grupos, então, são recebidos com o convite de casamento pomerano declamado. Quando eles saem do ônibus, a gente os recebe com esse convite, com a bebida e convida eles a viver um dia pomerano com a gente. Depois, a gente faz a comida tradicional desse ritual do quebra-louça, oferece para os nossos visitantes e a gente conclui a visita fazendo a encenação desse ritual do barulho com a participação do grupo e conhece a estrutura da casa e conta a história da casa e do que tem na casa. E aí, varia muito de grupos. Por exemplo, quando são grupos de professores, eles se interessam mais pelo espaço dos livros, dos documentos. Já quando são crianças, a cadeira de balanço, a vovó sentada contando a história da vida, contando as histórias, as lendas, as parlendas do nosso povo é que chamam a atenção. Então, isso depende muito do grupo que a gente recebe.
P/2 – De onde veio essa ideia do memorial?
R – Na verdade, quando eu me aposentei em 2013, eu entrei meio que num processo de... Sei lá, até hoje eu não consigo identificar. Eu trabalhei a minha vida inteira fora. Passava final de semana com a família e feriados, férias. Eu não tinha uma convivência familiar diária com os meus filhos, com o meu marido. Quando eu me aposentei, eu meio que enlouqueci em casa, porque eu queria que a vida continuasse ser aquela loucura minha sempre. E a minha família não entrava no mesmo ritmo. O ritmo era diferente. Com dois meses de aposentada, meus filhos chegaram para mim e disseram: “Mãe, vai arrumar o que fazer, porque você está doida e nós estamos endoidando junto. A gente não aguenta esse seu ritmo. Vai arrumar o que fazer”. E aí, eu recebi um convite da prefeitura para integrar um circuito turístico. Era o caminho... não lembro como é que era. Um caminho pomerano de turismo. E a proposta feita para mim é que eu abrisse uma agroindústria. E eu realmente pensei na agroindústria. Comecei a fazer geleias, picles, bolos, tortas, pães, mas aquilo era um estresse tão grande, porque eu não consigo viver rotina. Para mim, cada dia é um novo dia para ser vivido de uma forma nova. Eu trabalhei como professora 34 anos da minha vida e eu nunca repeti uma aula. O assunto podia ser mesmo, a turma podia ser mesma, mas a aula era outra, porque eu tinha essa necessidade de não me repetir. Até hoje eu sou assim. E aí, a agroindústria era exatamente aquilo. Levantar de manhã, cozinhar, limpar, lavar, guardar, e todo dia a mesma coisa. E eu cheguei uma hora para secretária de Cultura e falei com ela: “Não é para mim. Tô fechando. Não consigo viver assim”. E aí, ela propôs que eu fizesse uma consultoria com o Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas]. E eu recebi na propriedade um consultor do Sebrae, que foi o diferencial na minha vida. Ele chegou e eu esperei ele aqui, porque não tinha aquele caminho que vocês chegaram hoje embaixo. O caminho dava aqui e daqui. Era uma estradinha aqui para lá. As pessoas chegavam aqui e achavam que a casa aqui estava fechada. Não tinha ninguém em casa e voltavam. Não tinham a noção de que a gente morava ali e precisava de ir ali. Aí, eu vim esperar a pessoa aqui. Quando essa pessoa saiu do carro, ele olhou para casa e falou assim: “De quem é essa casa? Quem mora nela?”, “Não, essa casa é minha, mas não mora ninguém nela, não. Ela está fechada. É uma casa para guardar entulho, tranqueira. Aquilo que você não quer que ninguém veja era enfiado aqui dentro”. Ele falou assim comigo: “Eu quero conhecer a casa”, “Não dá para entrar. Está cheio de entulho”. Ele falou assim: “Vou entrar mesmo assim”. Ele entrou e falou assim: “Nossa, o espaço é muito bom. Uma casa completamente em bom estado, preservada. Tira o que tem aqui dentro. Limpa essa casa. Daqui duas semanas, eu volto aqui e a gente conversa”. Mas o meu marido e eu começamos a esvaziar a casa. Tiramos tudo dela. As paredes estavam sujas, feias, arranhadas. A gente pegou, comprou cal. Caiamos as paredes, porque ela não é pintada, ela é caiada. Só que, enquanto a gente fazia esse processo, a gente começou a observar a casa. E a casa, uma casa vazia, principalmente uma casa antiga, é algo muito deprimente. A gente se sentia deprimido de entrar dentro da casa. Aí, nós começamos: “Ah, mas lá em casa tem aquele imóvel tal que a gente não usa. É antigo. Vamos trazer para cá? Vamos fazer uma decoração na casa?”. E a gente foi trazendo os objetos que a gente tinha para cá. Quando ele voltou duas semanas depois, ele entrou dentro de casa e ele já ficou surpreendido, porque tinha um monte de coisa dentro de casa. Ele foi perguntando e eu fui contando a história. O que era? Por que era? De onde vinha? Como era usado? Por que era pomerano e não era de outra cultura? Quando nós terminamos a visita para casa, ele falou assim: “Pois é, então eu estou indo embora”. Eu falei assim: “Como assim? Você não veio para cá para me dar uma solução pro meu espaço? Você me disse que você vai embora?”. Ele falou assim: “Você já fez o dever de casa. Você já tem o espaço. Abre as portas e faz com o público que te visita o que você fez comigo. Conta a história do seu povo. Esse é o seu negócio. Esse é o seu legado”. E foi assim que a gente começou. E com o tempo a gente só recebia aqui, só contava a história aqui. E aí, a gente contava a história dos pratos, como eram os pratos, como era a comida e as pessoas começavam: “Mas eu quero provar. Eu quero provar, eu quero sentir esse gosto. Onde que eu consigo?”. E a gente não tem na cidade ninguém, nenhum restaurante que forneça comida pomerana. E aí, a gente começou então a marcar com os grupos e a também fazer a comida típica pomerana para receber esses grupos. E foi assim que a gente começou.
P/1 – Queria fazer uma pergunta sobre a questão do acervo da casa. O que vocês têm? O que vocês mostram? O que a galera mais fica curiosa de ver aqui dentro?
R – A gente tem hoje na casa mais de 700 objetos. E assim, não são todos da nossa família, porque a comunidade, quando ela percebeu o que a gente estava fazendo, como a gente estava fazendo, a gente contando a história, nós começamos a receber objetos da própria comunidade. As pessoas mais idosas chegavam para gente com o objeto e diziam assim: “Você pode guardar para mim? Porque na minha casa não tem mais espaço, não tem mais lugar para guardar isso”. E aí, a gente foi adquirindo coisas e foi trazendo. O que chama muita atenção é o relógio. O relógio de parede chama muita atenção. Os rádios, crianças, o telefone, o gravador, o rádio, porque não faz mais parte da vida. As pessoas, por exemplo, ligadas à educação, professores, pesquisadores que a gente recebe muito, que chama muita atenção são os documentos, os livros. E as pessoas em geral, por exemplo, a cama, o colchão de palha, o cobertor de pena de ganso, os bordados, a história de cada objeto que a gente tem chama muita atenção. As gamelas de madeira, né? Os pomeranos não tinham vasilhas. Então, eles esculpiram as próprias madeiras e transformaram em objetos de uso. Isso chama muita atenção das pessoas.
P/2 – Queria perguntar um pouco agora dos seus filhos. O que você sente que mudou na sua vida quando você virou mãe?
R – Acho que é a continuidade, aquilo que eu falei antes da história. É a continuidade da sua existência, né, a continuidade. As conquistas também. Ver o filho da gente conquistar um diploma, conquistar um futuro, né? Ser pessoas decentes, ser pessoas capazes. É uma sensação de dever cumprido enquanto mãe. E os meus filhos sempre são tudo para mim. Do meu lado, por exemplo, eu sou uma pessoa que tenho dificuldade de administrar minhas próprias contas, então são meus filhos que administram. Eu tenho dificuldade de, por exemplo, decorar número de documentos. Os meus filhos que fazem isso para mim. Questões digitais também. Eu tenho limitações para trabalhar com redes sociais, para trabalhar com notebook e tal. Então, eu sempre preciso da ajuda deles. Então, eu vejo assim que é uma extensão, um legado. A minha filha, por exemplo, ela tem 22 anos, mas hoje ela conta toda a história do memorial da mesma forma que eu conto, né? Então, isso para a gente é sempre, é dignificante. Você ver que seus filhos são pessoas dignas, são pessoas capazes e que valorizam a história da gente também, né?
P/1 – E o que vocês costumam fazer juntos?
R – Ai, a gente passeia, a gente viaja, a gente trabalha, por exemplo. A gente está sempre junto. Eu tenho dois filhos que são marceneiros. Então, geralmente quando eles estão desenvolvendo projetos, que eles mesmos projetam os móveis, o que eles fazem, né? Eles chegam e falam assim: “Estou pensando isso dessa forma, o que você acha disso?”. Então, assim, de opinar e de viajar, por exemplo. Eu e o meu filho, nós fomos para a Alemanha ano passado, tivemos uma aventura europeia que foi muito legal. E está sempre junto, por exemplo. Eu já vi que umas quatro ou cinco vezes eles vieram até ali: “Minha mamãe está sobrevivendo” [risos]. É sempre assim, eu tenho três filhos que ainda moram comigo, dois são casados e três moram comigo ainda. São três filhos biológicos e dois adotivos. Quando o meu filho biológico mais novo tinha 16 anos, eu adotei dois bebês. Então, é uma diferença de geração. Meus netos têm a mesma idade que os meus filhos adotivos.
P/1 – Como você comentou da viagem para a Alemanha, eu queria que você falasse o que você achou, como é que foi essa viagem.
R – Nós fomos para a Alemanha para apresentar um trabalho. Em 2025, início de 2025, nós descobrimos uma universidade de Munique que teria um evento chamado Lusitanistentag. Dia Lusitano, numa universidade alemã. E ali, era direcionado para pesquisadores e professores que contavam experiências de crianças alemãs, de crianças de outras línguas, tendo contato com a língua alemã. E aí, a gente olhou assim para o outro, eu, meu filho e uma colega nossa: “Como assim? Crianças de outras origens tendo experiência do contato com a língua alemã. E a nossa experiência enquanto povo pomerano sendo obrigados a serem alfabetizados na língua portuguesa? Por que não contar essa história?”. A gente se inscreveu e o nosso trabalho foi selecionado, foi aprovado e nós fomos para Munique para apresentar o trabalho. E aí, a gente aproveitou para conhecer um pouquinho da Europa, mais a região de Frankfurt até Munique, as cidades medievais lá que são lindas e maravilhosas. E assim, foi fantástico, né? Você entrar num castelo, você descobrir que ali um dia viveu um rei, viveu uma rainha, viveu um príncipe. Você entrar num castelo, por exemplo, e se deparar com um barril de vinho de 250 mil litros de vinho. E você pensa assim: mas como um cidadão no mundo precisa de 250 mil litros de vinho? E aí, a gente foi atrás da história, né? Por que um barril tão grande? É porque a região era produtora de vinho e o imposto era pago em vinho. Então, o rei precisava de um barril que comportasse todo o imposto que ele recolhia. Então, sabe, são histórias fantásticas. E são cidades maravilhosas. Foi uma experiência muito, muito boa. E volto para lá ano que vem, mas para a região de onde vieram os pomeranos. Dessa vez, a gente não conseguiu visitar, né? Porque a maior parte da Pomerânia hoje pertence à Polônia. 80% do território pomerano hoje pertence à Polônia e não à Alemanha.
P/1 – E nessa primeira viagem, o que você mais gostou de ter conhecido lá?
R – Ai, as cidades históricas. Eu sou apaixonada por história. Então, você andar numa rua, você sabe essa rua que já tem mil anos que as pessoas caminham nela. Essas construções foram feitas há mil anos. A gente conseguiu visitar até ruínas romanas da época do nascimento de Jesus, né, antes do nascimento de Cristo, então há mais de dois mil anos. Então, isso é fantástico. Eu acho que assim... Mas o que mais me chamou a atenção, que eu fiquei sem reação mesmo, foi uma praça onde tem uma estátua de uma bruxa sendo queimada na fogueira. E eu tive um pressentimento, uma sensação assim de que eu já tinha vivido aquilo. Não sei como, não sei como explicar, mas aquilo para mim era tão real como se eu já tivesse vivido aquilo em uma outra vida. Então, aquilo assim, para mim, eu acho que foi uma experiência que eu não consigo descrever. Mas o resto é tudo maravilhoso, né? Por exemplo, eu fui para a Alemanha, como eu gosto de história, eu estudei a história de todos os locais para onde eu ia. E também de todos os pratos. E aí, eu fui para a Alemanha para comparar o que eu faço aqui na minha casa com aquilo que era lá. Então, eu ia lá. Hoje, eu vou comer o Schnitzel. Eu quero saber se o Schnitzel aqui da Alemanha é igual ao Schnitzel que eu faço. Spätzle é igual? Então, eu já fui assim, com o sentido de comparar mesmo, né? E assim, a gente teve experiências maravilhosas. Por exemplo, visitar a Biblioteca Fantástica da Alemanha foi maravilhoso. Uma biblioteca onde tem livros do mundo inteiro. Tem uma estante de livros de cada país do mundo. E nós conseguimos colocar também os nossos livros pomeranos em uma estante dessa. Então, isso foi assim… Eu, Marineusa, pomerana, historiadora, contadora de história, colocar livros nossos nessa prateleira foi algo que a gente não consegue nem descrever.
P/2 – Marineusa, quais são os desafios da cultura pomerana?
R – Eu acho que pelo fato de a gente ter passado muito tempo ouvindo que a cultura pomerana é pobre, que a cultura pomerana é insignificante, que é vergonhoso falar pomerano, a gente tem muitas pessoas que deixaram de acreditar na cultura. Então, o nosso maior desafio hoje é reencantar as nossas crianças com a nossa cultura. Esse reencantamento está sendo às vezes desafiador, porque a gente ao mesmo tempo que nós temos as nossas histórias, nós temos as tecnologias que são tão fáceis. Então, hoje você pega um celular, você conhece o mundo inteiro. Então, às vezes o que é da gente, o que é prático, o que é do nosso dia a dia, ele não é mais tão encantador como aquilo que se vê de fora. Então, esse encantamento, ele está sendo um pouco desafiador para a gente, mas é muito gostoso, porque, quando você senta com a criança, você conta a história para ela, ela quer ouvir de novo, ela quer ouvir mais. Então, só que a gente, para ter esse acesso às crianças, às vezes é mais difícil.
P/2 – E o que é indispensável nesse reencantamento?
R – São as nossas histórias, o falar pomerano, a língua pomerano, ela é indispensável. Contar a história em português, ela não tem o mesmo encanto que ela tem em pomerano. A melodia da língua é diferente, o ritmo da língua é diferente, então você pode contar a história na língua que você quiser, mas a língua, a linguagem original, ela é sempre mais encantadora. Então, esse encantamento, por mais que a gente conte as nossas histórias em outras línguas, a gente nunca vai conseguir encantar da mesma forma que a gente encanta quando conta na própria língua.
P/2 – E o que a língua pomerana te ensinou?
R – Tudo. Tudo. Todas as histórias, toda a minha vida, tudo está baseado... Para vocês terem uma ideia, pelo fato do pomerano ser a nossa língua materna, não acontece só comigo, acontece com todos os pomeranos, a gente pensa em pomerano e automaticamente faz uma versão para o português do nosso pensamento pomerano. Então, às vezes, eu não sei se vocês repararam que a gente dá aquela paradinha básica, é porque falta a palavra na língua portuguesa para dizer aquilo que a gente quer dizer, às vezes a expressão exata para transmitir aquilo que a gente pensa em pomerano. Então, pensar em uma língua e se expressar em outra às vezes é desafiador, é complicado.
P/1 – Como que é seu dia a dia hoje?
R – Ai, meu dia a dia é ensinar, ensinar meus filhos, ensinar meus netos, ensinar as outras pessoas que estão perto, sempre contar as histórias de novo, as lutas sociais das quais a gente não abre mão, das políticas públicas próprias para o pomerano que são desafiadoras. Então, são muitas viagens, são muitos encontros, muitas reuniões, uma agenda muito extensa.
P/2 – E quais seus sonhos para o futuro?
R – Que daqui a 100 anos ainda tenha pomeranos contando a nossa história.
P/2 – O que você achou de contar essa história hoje?
R – Ai, é a coisa que eu mais gosto de fazer. É a coisa que eu mais gosto de fazer, contar a história.
P/2 – Tem mais alguma história que você queira contar para a gente em pomerano ou em português?
R – Contei tantas já. Tem umas que eu gosto de fazer com as criancinhas, bem pequenininhas, crianças de colo. É o primeiro encantamento, é brincadeira com as mãos. A gente tem essa aqui, ó [entrevistada recita em pomerano]. Ela diz o seguinte, “Nós moemos o fubá no moinho do vovô, para este, para este, para este, para este. Este eu jogo fora para o gato também se alimentar”. Então, você faz isso com a criança, ela pede de novo, de novo, de novo, porque é gostoso, é melodioso, e enterte a criança. Então, quando a gente faz, por exemplo, tardes culturais, rodas de conversa que tem criança, a gente sempre separa o momento para fazer isso com as crianças.
P/2 – Tem alguma coisa que a gente não perguntou, mas que você gostaria de falar?
R – Acho que não. Tem muita coisa, mas a história pomerana não se conta em horas, nem em dias. A gente precisa meses e anos para contar.
P/2 – Agradecer muito o seu tempo.
R – Nós é que agradecemos. Foi muito bom falar com vocês.
P/2 – Foi ótimo.
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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