00:19
P2 - Pra gente começar mesmo com as perguntas, você, por favor, diz o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento, por favor?
R - Meu nome é Maria Ângela Neto Siqueira de Resende, nasci dia 25 de fevereiro de 1967. E sou natural de Paracatu.
P2 - E seus pais também?
R - Também, meus avós, tanto paternos como maternos.
00:49
P2 - E você lembra o que seus avós faziam aqui quando eles eram jovens?
R - Meu avô, na parte da minha mãe, materno, ele mexia com fazenda, plantava muito marmelo pra vender. A gente toda vida, a família toda, mexeu com farinha, rapadura. Da roça mesmo, que tirava as coisas da roça. Aí, depois o meu pai, porque, assim, teve muitos filhos, aí tinha que vir pra cidade pra estudar. Aí, meu pai construiu uma casa aqui na cidade, veio pra cidade, mas não se desvinculou da roça, continuou na roça também. E ele foi trabalhar em outro emprego, porque ele trabalhava no antigo DNR. Então, ele foi trabalhar, mas continuou na roça, continuou a ir pra roça. A minha mãe… Os meus meninos, eu ainda falo que graças a Deus que os meus meninos pegou muita coisa, assim, da gente fazer farinha na roça, fazer rapadura, tirar alguma coisa dali. Porque eu lembro que as minhas avós, eu acho, eu falo isso, eu acho tão interessante e não vejo que as pessoas hoje têm esse olhar. Eu não sei se você conhece o coco do Indaiá?
P2 - Não.
R - Eles falam, eu acho que em outro estado tem outro nome, mas a gente aqui, tanto é que a fazenda lá do meu pai a gente chamava, chama fazenda região do Indaiá. Esse coco, cortava, partia aquele coco, tirava aquela parte vermelha dele, dava pra galinha, porque a galinha gostava daquilo, eu acho que tinha alguma história com aquilo ali de fazer as galinhas, era bom pra botar, alguma coisa assim. E aí, cortava o coco e tirava um óleo daquele coco, era o óleo que fritava. Eu lembro… Eu tento fazer… Todo mundo gosta do meu biscoito de queijo, meu biscoito frito. Só que lá o...
Continuar leitura00:19
P2 - Pra gente começar mesmo com as perguntas, você, por favor, diz o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento, por favor?
R - Meu nome é Maria Ângela Neto Siqueira de Resende, nasci dia 25 de fevereiro de 1967. E sou natural de Paracatu.
P2 - E seus pais também?
R - Também, meus avós, tanto paternos como maternos.
00:49
P2 - E você lembra o que seus avós faziam aqui quando eles eram jovens?
R - Meu avô, na parte da minha mãe, materno, ele mexia com fazenda, plantava muito marmelo pra vender. A gente toda vida, a família toda, mexeu com farinha, rapadura. Da roça mesmo, que tirava as coisas da roça. Aí, depois o meu pai, porque, assim, teve muitos filhos, aí tinha que vir pra cidade pra estudar. Aí, meu pai construiu uma casa aqui na cidade, veio pra cidade, mas não se desvinculou da roça, continuou na roça também. E ele foi trabalhar em outro emprego, porque ele trabalhava no antigo DNR. Então, ele foi trabalhar, mas continuou na roça, continuou a ir pra roça. A minha mãe… Os meus meninos, eu ainda falo que graças a Deus que os meus meninos pegou muita coisa, assim, da gente fazer farinha na roça, fazer rapadura, tirar alguma coisa dali. Porque eu lembro que as minhas avós, eu acho, eu falo isso, eu acho tão interessante e não vejo que as pessoas hoje têm esse olhar. Eu não sei se você conhece o coco do Indaiá?
P2 - Não.
R - Eles falam, eu acho que em outro estado tem outro nome, mas a gente aqui, tanto é que a fazenda lá do meu pai a gente chamava, chama fazenda região do Indaiá. Esse coco, cortava, partia aquele coco, tirava aquela parte vermelha dele, dava pra galinha, porque a galinha gostava daquilo, eu acho que tinha alguma história com aquilo ali de fazer as galinhas, era bom pra botar, alguma coisa assim. E aí, cortava o coco e tirava um óleo daquele coco, era o óleo que fritava. Eu lembro… Eu tento fazer… Todo mundo gosta do meu biscoito de queijo, meu biscoito frito. Só que lá o gosto era diferente, porque era frito nesse óleo, entendeu? Nesse óleo do coco do indaiá, que tirava, porque dava um trabalhão pra tirar, porque ele socava, colocava ele num pouco d'água, punha no fogo e aí você ia tirando o óleo por cima. Era aquele óleo, então ele dava um sabor totalmente diferente.
04:11
P2 - E isso era na roça do seu pai?
R - Na roça, minha avó, mãe do meu pai. Minha mãe viveu muito isso, a gente viveu muito isso.
P2 - E a sua mãe também era da roça?
R - Minha mãe também era da roça, só que o pai dela tinha outra fazenda perto. Então, foi isso, a nossa vida foi isso.
04:33
P2 - Mas você nasceu aqui na cidade?
R - Eu nasci aqui na cidade. Eu nasci aqui na cidade, mas meus irmãos, a maioria deles nasceram na roça. E o que eu acho muito interessante, que eu estava contando para vocês sobre de onde vem o meu desejo, o gostar de fazer quitandas, que é dessa reza de Santa Cruz, que a gente fazia aquela mesa farta lá na roça, trabalhava três semanas para montar aquela mesa, depois da reza, para todo mundo tomar o café. Eu tenho uma irmã que faleceu na roça e foi enterrada debaixo do cruzeiro da roça. Porque ela era pequenininha, era bebezinha. Então, assim, são histórias da vida que vai fazendo a gente… Vai fazendo a história da gente, né? E eu acho que aqui pro quintal... Eu tento trazer um pouquinho daquilo que eu vivi lá. Por isso que eu gosto tanto, eu me sinto tão feliz de montar uma mesa pra receber as pessoas. Porque eu fui criada assim. E eu ver pessoas ao redor da minha mesa que eu preparei com tanto carinho, aquelas quitandas com tanto carinho, e ver que as pessoas gostam daquele trabalho meu, que gostam daquilo ali, que sentem aconchego, amor, isso pra mim é minha vida.
06:35
P2 - Mas antes de você fazer quitanda, como é que era aqui? A sua infância aqui em Paracatu? Você foi pra escola, você estudou, como é que era?
R - Fui, fui, fui pra escola.
P2 - Como é que era a sua vida?
R - Meu pai, muito presente. Minha mãe, muito presente. Mas eu falo assim, não é igual hoje, gente? Foi muita luta, porque para criar nove filhos, então, assim, foi muita luta. Os filhos maiores ajudavam a gente que era menor.
07:13
P2 - Você tem oito irmãos?
R - Comigo, nove.
P2 - E aí, você foi pra escola aqui?
R - Fui, fui pra escola aqui.
P2 - E como é que era? Que lembrança você tem da escola?
R - Ah, eu tenho... assim, eu casei muito cedo, né? Então, assim, eu tenho muita lembrança boa da escola. Mas, assim, da escola primária, que foi lá no Doutor Sérgio Ilhoa. Então, assim, tem muita, muita na escola estadual Antônio Carlos. Então, assim, pra mim, foi muito bom. Eu acho que se fosse pra mim voltar, eu acho que eu faria… Não me arrependo de nada, sabe? Eu não me arrependo de nada. Eu acho que a vida te dá um limão, você faz uma limonada dele. Eu já vendi quitanda em carro, na rua. Então, assim, eu quero trabalhar, eu quero fazer o que eu gosto, eu quero ser feliz. E isso me deixa feliz. O meu trabalho, o meu ofício, me deixa feliz. Eu acho que é isso.
08:45
P1 - Nesse período da escola, qual é a primeira lembrança que você tem? Ou pelo menos aquela que é mais marcante?
R - Na escola? Deixa eu ver... Ai, gente, é tanta... É tanta coisa. Ah, tá. Deixa eu contar como que era Paracatu. Porque Paracatu não tinha... Sabe onde é a Casa Kinross ali? Ali, só ali, naquele pedaço ali, tinha asfalto, gente, tinha calçada. Então, eu morava no Alto do Córrego, naquela ladeira lá. Lá não tinha, a gente ia pra escola, levava um paninho pra limpar o sapato, pra ir pra escola, a gente levava pra limpar o sapato, pra não ir com o sapato sujo, porque era tudo chão batido.
P1 - E você teve algum professor que te marcou ou uma professora que te marcou nesse período?
R - Ai, professora, foram tantas... Tá. Teve uma que ela já é falecida, que foi a dona Violeta Macedo. Ela é falecida já.
P1 - E por que ela te marcou tanto?
R - Eu acho que foi porque foi primário, né? O primário, ele, né? E ela era muito amorosa e tudo. Aí, eu acho que é isso.
10:32
P2 - Como é que era a vida, assim, com oito crianças, um casal, aqui em Paracatu? Como é que era a casa de vocês? Era grande? Como é que vocês viviam? Como é que era o dia-a-dia de vocês? Um casal com nove crianças?
R - Nove, nove.
P2 - Você é do meio, mais nova, mais velha?
R - Não, eu sou das mais novas. Abaixo de mim tem dois. Eu peguei ainda uma coisinha assim mais leve, que eu falo assim, mais leve. Porque os mais velhos é que pegaram o barco assim bem apertado. Mas eu ainda fui um pouquinho mais leve, mas eu falo assim, a minha mãe era de uma sabedoria. Eu falo assim, que a minha mãe e o meu pai me deixaram um legado tão grande de honestidade, de amor, de respeito pelas pessoas, de não querer passar por cima de ninguém, sabe? Que antes você ser pobre, mas você ser honesto, mas não vai passar por cima de ninguém, de religião, de amor a Deus sobre todas as coisas. Então, assim… E ela me ensinou a maioria das minhas receitas, todas são dela. Então, assim, que ela veio de antes dela e que trouxe pra mim. Então, assim, eu tenho tanto amor, tanto respeito e honro tanto tudo que ela e meu pai me deixou, porque eu falo assim, não é deixar… “Ah, eu vou deixar terra, eu vou deixar casa, eu vou deixar…” Não, é valores, são os valores que eles nos ensinaram, que eu acho que não tem preço nenhum, nenhum, por mais perrengue que tenha passado com esses nove filhos, mas eles nos ensinaram o que foi mais bonito da vida, foi meu pai e minha mãe, sabe? Eu acho que eles deixaram… Se eles tinham uma missão aqui, eles conseguiram fazer honestamente.
13:19
P2 - E o que vocês faziam? Como era o dia-a-dia dessas pessoas todas?
R - Como que fazia? Todo mundo começou a trabalhar muito cedo. Ninguém ficava sem trabalhar. Ninguém. E tinha que trabalhar dentro de casa. Porque, assim, ela, sempre ela tinha quem ajudasse ela dentro de casa, pessoa de fora que ajudasse. Mas a gente tinha que trabalhar. Você não tinha que ficar esperando aquela pessoa fazer tudo. Você tinha que fazer. Se você não fizesse, você não saía, você não podia brincar. Então, a vida foi assim, foi ensinando que tudo tem seu peso e sua medida. E não era porque eles eram ruins, é porque foi a maneira que eles foram criados e que é a maneira correta de você criar filhos. Na adolescência, a gente acha que não, que tá, nossa, mas tá me oprimindo, né? Eu muitas vezes pensei assim. Mas se você for olhar pra trás, igual eu olho hoje, fala assim, nossa, louvado seja Deus, porque meu pai e minha mãe me criaram assim.
14:52
P2 - E como você se divertia?
R - Era assim, a gente, como diz o outro, trabalhava, mas tinha... Ele tinha… A gente tinha cota nos clubes daqui, que na época era o Jockey, o União. Então, a gente tinha, tinha essas regalias. Mas não era muito fácil, não. Você tinha essas regalias, mas você tinha horário para tudo, você tinha hora de chegar em casa. Se passasse das dez horas, ele ia buscar. Os irmãos mais velhos tinham que te olhar. Então, era cabresto, né?
P2 - E você começou a namorar com que idade?
R - Eu comecei a namorar… Gente, gente, eu comecei a namorar escondido. Foi, eu comecei a namorar escondido.
P2 - Quando foi?
R - Eu comecei a namorar escondido. Escondido.
P2 - Por quê?
R - E apanhei. É, gente, eu apanhei, eu apanhei. Pra você ver como era tudo, Mas também não era idade, né? Tá certo. Eu hoje, se for pegar minhas netas namorando na minha idade, eu não aceitava. Não aceito.
16:24
P1 - Eram quantos anos?
R - Uai, eu casei com 16. Eu comecei a namorar o Roberto, eu estava com uns 15. E meu pai confiando em mim, né? Então, não podia, né?
P2 - Onde você conheceu ele?
R - Eu conheci ele, porque assim, meu irmão mais velho saía comigo, me levava para a igreja, e da igreja, falava: nossa, eu quero sair. “Você sai comigo?” “Saio.” “Angela, eu vou te levar. Eu vou te levar, mas você não faz nada de errado, não. Eu vou te levar.” Aí, meu irmão saía e ia conversar com os amigos dele, e eu peguei e conheci o Roberto. Conheci o Roberto dessas saídas, dessas fugidas minha. Aí, eu comecei a namorar com ele, namoramos escondido muito tempo. E ele querendo ir lá em casa. Eu falei: não vai lá não, meu filho. Lá não é fácil de ir, não vai lá não. Não vai, não vai, não mexe com isso não, fica quieto, vamos largar isso quieto. Deixa, deixa, deixa. Aí, meu pai pegou… Ele foi me deixar em casa, porque ele é mais velho que eu, ele é 10 anos mais velho que eu. Aí, ele foi me deixar em casa. Aí, meu pai pegou e me viu chegando em casa de carro. Naquele tempo, você não podia entrar dentro de carro, a gente não podia entrar dentro de carro de namorado. Aí, meu pai foi, me tirou dentro do carro e me bateu. Mas bateu, merecido. Não estava errado, não. Não podia, não podia, tinha que fazer a coisa certa. Aí, descobriu, aí comecei a namorar mesmo. Agora, como diz o outro, agora namorar, deixar, né? Aí pronto. Deixou.
P2 - Foi seu primeiro namorado?
R - Foi. Foi.
18:58
P1 - E vocês estão casados desde então? E vocês têm quantos filhos?
R - Três.
P1 - Que idade?
R - A Fernanda tá com... Quantos anos a Fernanda tem? Deixa eu ver. Eu estou com quase 40 anos de casada. A Fernanda deve estar com 40... Gente, espera aí. Eu não estou sabendo a idade dos meus meninos. Espera aí. Eles cresceram tão depressa. A Fernanda vai fazer 40, eu acho. Uns 38. Porque são assim, um atrás do outro. A Fernanda deve estar com 38, deve ser isso mesmo. O Beto, eu acho que o Beto tem 35. E a Camila deve ter, acho que a Camila fez 31.
P1 - E eles moram aqui mesmo em Paracatu?
R - Não, a Fernanda sim, o Beto sim, que é aqui, que sou eu e minha nora no café aqui, que é a gente que prepara tudo para o café. E a Camila, ela mora em Goiás.
20:41
P1 - E você tem netos também morando aqui então?
R - Tem, tenho quatro netos que moram aqui comigo, que é do meu filho, só tenho esses quatro netos.
P1 - E a avó Maria Ângela cuida dos netinhos do mesmo jeito que ela foi cuidada quando criança?
R - Não, a gente não dá, né? A gente não faz, a gente não cuida assim, né? O tempo mudou, a vida mudou. E vó estraga, né? Vó estraga, né?
21:16
P2 - Maria Ângela, vamos voltar um pouquinho. Quando você casou, você trabalhava?
R - Não, trabalhava não, trabalhava dentro de casa.
P2 - E quando você começou a trabalhar pra fora e ganhar o seu dinheiro?
R - Depois que eu casei. Você fala assim, com quitanda, né? Porque eu nunca trabalhei fora.
P2 - Nunca trabalhou fora?
R - Não, não, não, nunca. Toda a vida eu fiz quitanda e cuidei dos meninos e ia pra roça também, quando precisasse. Mas nunca, nunca trabalhei fora, não.
P2 - E por que você escolheu Quitanda como trabalho?
R - Deixa eu te falar uma coisa. Quitanda agora tem outro valor, mas você sabe que Quitanda, no meu tempo, até discriminação eu já sofri.
22:25
P2 - Por quê?
R - Da própria família, bem. Porque quitanda, as pessoas não tinham esse olhar que tem pra gastronomia hoje. “Você não estudou, por isso que você está fazendo isso. Porque você não teve estudo. Aí, você não tem outro meio pra ganhar seu dinheiro, você tá fazendo isso.” Isso eu ouvia de quem da família que estudou. E outras pessoas mais. Eu pegava meu carro, eu enchia meu carro de quitanda e parava em uma das melhores escolas daqui de Paracatu, esperando meus filhos saírem e vendendo para todo mundo lá. Então, eu falo para você assim, não tinha esse olhar. E eu vou te falar uma coisa. O primeiro… Eu falo assim que eu tô muito velha pra… Hora que eu vejo, assim, que eu olho pra trás. Porque o primeiro olhar que teve dentro de Paracatu, dentro de Paracatu, pras quitandeiras, foi a Kinross. Ela que olhou pra nós.
24:03
P2 - Como foi isso? O que aconteceu?
R - Foi criado o Integrar, da Kinross. E eu lembro que eu já vendia quitanda e já fazia quitanda nos atrativos, tudo, né? E já fazia quitanda e já fazia café pras pessoas que me contratavam e eu ia, saía daqui cinco horas da manhã pra montar mesa de café na casa das pessoas. Levava as quitandas e montava a mesa. Aí, chegaram pra mim e falaram pra mim, assim: a Kinross tá com o Integrar e vai lançar o livro das Quitandeiras… Foi o primeiro livro de quitandeiras aqui de Paracatu. E aí, queria você e tudo. Tá. Aí, eu fui, participei, aí eles chegaram pra mim e falaram assim… Ainda confiaram em mim, né gente. Porque eu falo, com tanto bifê, confiou em mim, né? Aí, eles pegaram, chegaram pra mim e falaram pra mim assim: só que o coffee break do lançamento, foi na Casa de Cultura. “Vai ser você, você vai fazer.” Eu falei, misericórdia, que responsabilidade, né? Que confiança que eles estão em mim, pra mim fazer esse café deles, né? Eu sei que foi pra muita gente. E eu fiquei assim, sabe? Eu falei, Jesus, Jesus, como que eu vou dar conta? Eu tenho que contratar gente pra me ajudar, porque senão eu não dou conta. Mas peguei, peguei pela fé. Falei, eu vou fazer, né? Eles estão confiando em mim. E aí, foi assim. Tanto é que há pouco tempo atrás foi aniversário do Integrar, e aí eles pegaram e me chamaram pra fazer de novo o café deles. Eu fiquei numa felicidade tão grande, falei: gente, eu venci. Olha, imagina, o primeiro… Eu pensei que eu não ia dar conta e agora esse povo confiando tanto em mim, esse povo me dando mais oportunidade, sabe? Eu falo que eu sou muito grata, eu não esqueço de ninguém que Deus usou como anjo na minha vida. Eu falo que eu não esqueço de ninguém. O chef Eduardo Avelar também, foi uma pessoa que veio, ele veio aqui… Aí, ele veio e eu montei uma mesa pra ele aqui, ele já sabia que eu recebia. Aí, ele pegou e falou sobre, falou assim: gente, Paracatu é a capital das quitandas, cheira a quitanda, vamos fazer o quintais e quitandas. Então, assim, é muita gratidão. A Mariana Cotígio. Todo mundo que Deus usou pra pôr no meu caminho. Deus usou gente demais, usou anjos demais pra pôr no meu caminho.
27:44
P2 - E você considera ser quitandeira uma profissão?
R - Não. E eu falo, eu tenho orgulho do meu ofício. Eu tenho orgulho danado do meu ofício. Eu tenho muito orgulho de ser quitandeira.
P2 - Tem muitas quitandeiras aqui?
R - Tem, tem muitas. Igual, eu mesmo participo de uma associação de quitandeiras. Então, assim, eu tenho muito orgulho, muito orgulho mesmo da minha profissão. É um ofício abençoado, sabe? Eu falo, falo que hoje… Lá atrás, que eu fui tão discriminada… Se lá eu já tinha orgulho da minha profissão, imagina agora? Olha, eu falo que eu ajudei a levar o Festival Gastronômico pra rua. Eu vi a DESP ser fundada, eu vi a Guias Tur, eu vi o circuito, eu vi tanta coisa, eu vi tanta mudança bonita. Entendeu? E eu ajudei em tudo, eu ajudei no processo todinho, do tombamento do pão de queijo, das quitandas, foi minha receita. Então, assim, eu tenho um baita orgulho de ser quitandeira. O que tentaram tirar de mim, o mérito lá atrás, não conseguiram. Porque hoje, eu falo, que tudo é insistência também. Você tem que insistir, se você acredita, você tem que... Eu acredito. Eu acredito que dias melhores virão. Eu acredito que eu posso ir além. Eu não tenho muita pretensão. “Ah, eu vou montar uma loja, uma big de uma loja, uma padaria.” Não, eu não gosto de muita coisa como conservante, não. Eu quero conservar… Sabe o que eu quero conservar? A minha tradição, eu quero conservar os meus princípios, que é de fazer a coisa artesanal. Eu não gosto nem de amassadeira. Eu tenho um cilindro elétrico porque eu preciso dele para fazer as minhas coisas. É isso que eu acredito, é fazer as coisas sem… Usar o mínimo possível de coisa com conservante. É isso que me dá alegria de viver. E eu acho que esse amor pelo meu ofício é o que me impulsiona a ir pra frente. Tenho planos, mas cabe a Deus me ajudar a executá-los. Mas jamais de mudar meus princípios por dinheiro. Isso eu não vou fazer.
31:05
P2 - Então, o que você acha que o que você faz, de tudo que você faz, o que diz de Paracatu?
R - O que diz de Paracatu?
P2 - De tudo que você faz.
R - Eu acho que Paracatu é pão de queijo, Paracatu é mané pelado, Paracatu é um biscoito bem feito, frito, com aquele queijinho puxando assim, sabe? Isso é Paracatu. Eu acho que Paracatu é isso. É quitanda.
31:50
P1 - E o que você acha que hoje, na sua prática como orgulhosa quitandeira, que contribuição você está trazendo para a cultura nacional?
R - Cultura nacional, aí você falou muita coisa, né? Eu aqui no meu mundinho aqui, nesse mundinho meu, que é o Quintal da Ângela, que é as quitandas. Eu acho que eu tento passar o que me passaram. Sabe? O que me passaram, não me passaram só quitandas. Nessas quitandas, tem amor, tem valores inegociáveis, que eu não vou fazer para você uma coisa mal feita e nem vou te dar de comer uma coisa que eu não comeria. Então, eu acho que eu tento ser isso.
P2 - E você ensina pra alguém?
R - Ensino, ensino. Se a pessoa for lá no Instagram... “Angela, me manda uma receita de queijadinha.” “Angela, me manda... Me ensina aí, Angela.” Ensino. Já ficamos, eu e a Bruna ficamos três meses ensinando umas mães da escola, pelo Consciência e Arte, pela Fundação. Ficamos ensinando umas mães de um bairro mais carente, a gente ficou três meses ensinando. Tudo quanto é oficinas. Aqui a gente dá oficinas. Então, ensino, conhecimento é pra ser passado. Você não pode reter pra você, você tem que passar. Porque senão, como que eu vou ficar? E quem vai ir lá atrás, como que vai fazer?
34:17
P2 - Você tem gente trabalhando com você? Você contrata alguém?
R - Contratamos. Assim..
P2 - Você fala plural, quem são? É você e quem mais?
R - E eu e a Bruna.
P2 - Quem é Bruna?
R - Minha nora. Sou eu e ela, aqui no café. Somos nós duas. E a gente contrata. A gente contrata para limpeza do quintal, porque às vezes é muita coisa, muito corrido e não dá pra gente fazer. Aí, a gente já contrata uma. Aí, a gente contrata ajudante no dia de café. Então, assim, a gente é pequeno, mas a gente, o pouco, a gente vai distribuir nele, né? Vai fazendo alguma coisa com ele, né?
35:08
P2 - Então, além de ser uma coisa que você gosta de fazer, tudo isso é um negócio, certo? Como que você se sente cuidando desse negócio? Tem mais alguém com você que cuida do negócio, ou você que faz tudo, preço, venda?
R - Tem coisas que se depender de tecnologia, dessas coisas, eu peço ajuda, eu peço ajuda para as minhas filhas. Aí, eu não dou conta não. Mas valores, esses trem, eu mais a Bruna sentamos e olhamos, e precificação, que a gente já fez curso no SEBRAE, de precificação. Mas, é assim. E aí, eu cuido de tudo. Eu cuido do mercado, eu cuido daqui, aí a gente sai. Porque é muito pequeno, né? É muito pequeno o negócio. Então, não dá para você estar pegando muita gente, porque senão, na hora que você vai ver, o lucro não dá. Então, porque é muito pequeno. Mas, eu acho que eu não daria conta de… Eu fico pedindo a Deus, eu tenho fibromialgia, então, assim, a minha cabeça fica ligada no trabalho para mim não sentir dor, porque eu não consegui tomar os antidepressivos. Então, assim, eu não me vejo parar. Eu acho que se eu viver 80, 90, e com agilidade, eu acho que vou estar fazendo minhas quitandas. Entendeu? Eu não me vejo parada. Eu não sou uma pessoa que fica quieta, parada. E eu acho que eu tenho tanto amor, mas tanto amor por esse ofício, pelas massas, pelo toque das massas, de fazer, de ver a pessoa comer. Que eu amo ver uma mesa bonita posta assim e o povo comendo, sabe? Eu acho o máximo. Então, eu acho que eu acho tão bonito isso tudo que eu não me vejo parar. Eu não me vejo parada. Não me vejo largar as quitandas. Eu acho que eu posso ganhar muito dinheiro. Mas eu não me vejo sem fazer quitanda. Eu acho que, mesmo assim, eu seria quitandeira. Sabe? Porque eu amo o que eu faço.
38:19
P2 - Você se mantém com a quitanda, né? Psicologicamente, financeiramente…
R - Ah sim, eu acho que a quitanda me mantém mais emocionalmente. Amor. Não é que eu vivo do passado, mas é porque eu vejo o meu passado na quitanda. Entendeu? Eu acho que é isso, que eu vejo o meu passado na quitanda, eu lembro de lá… Pode ter certeza, que a hora que eu acordo, quatro horas da manhã aqui, pra montar uma mesa bonita aqui, eu tô lembrando de lá. Eu tô lembrando da minha mãe, do meu pai, das minhas avós, minhas tias, do povo todo. Então, isso me move. Não é que eu viva do passado. Porque eu não gosto nem de muita coisa do passado, eu não gosto nem de lembrar, eu já até, como diz o outro, tive amnésia. Mas esse legado me faz um bem. Mas me faz um bem. E eu sei que eu estou fazendo bem para as outras pessoas. Sabe? Eu sei que às vezes tem gente que entra aqui, que come o pão de queijo e fala: nossa, como esse pão de queijo é diferente. Aí, eu vou ensinar a fazer o pão de queijo. Aí, eu falo, outro dia eu até comentei na internet, não sei o que, o povo lá, uma mulher lá, foi fazer um pão de queijo escaldado, aí eu falei: que legal o seu pão de queijo. Mas o nosso é único, aprende a fazer o nosso. O nosso não dá tanto trabalho.
P2 - Qual a diferença?
R - Toda. O nosso é massa fria. Você jogou ali, você amassou, ele tá pronto, você vai provar dele, ele tá pronto. Eu te ensino se você quiser. É super fácil de fazer e fica delicioso, porque você põe muito queijo, e é com polvilho doce, e manteiga de leite, e ovo caipira, e leite da roça. Tem como ficar ruim? Não tem, né? Não tem chance de ficar ruim.
41:09
P2 - E com tudo isso, o que você pensa pro futuro?
R - Eu tô pensando umas coisinhas assim pro futuro. Tá na mão de Deus, que seja feita a vontade dele, que é a dele que prevalece, né? Eu acho que vai vir novidade pro quintal. Mas eu tô esperando. Tô esperando em Deus, se der tudo certo, e eu acredito que vai dar. Aí, eu tô esperando. E ter saúde pra trabalhar e pra fazer meu ofício, que eu acho que é o que mais importa. É fazer o que você gosta, é ser feliz com o que você faz, né? Eu acho que é isso.
41:53
P2 - Não dá pra falar o que você tá esperando.
R - Hã?
P2 - Não dá pra falar o que você tá esperando ainda?
R - Não, eu sou assim. Eu sou assim. Não tem muita... Eu acho que eu já estou conseguindo tanta coisa. Vocês mesmo aqui. Que dia que eu pensava, lá atrás. Que um dia, Museu da Pessoa. Gente, eu estou muito importante. Eu estou muito importante. Que dia que eu pensava, quitandeira, né? Que dia que eu pensava que eu ia entrar em tantos lugares que eu entrei? Então, assim, eu já, sabe? Vamos deixar a coisa acontecer. Eu já consegui tanta coisa, assim, tanto reconhecimento, que eu pensava que eu nunca ia ter. Porque a gente não pensa, as coisas vão acontecendo. Eu não pensava que eu ia ter esse reconhecimento todo. Porque os meus ancestrais não tinham, se saísse com um tabuleiro vendendo quitanda na rua, ninguém nem olhava. Mal olhava pra elas. Era nada, era ninguém. Realidade. Era essa a realidade. Então hoje, você ser convidada pra, né? Uai, é… Valeu lá atrás o que elas passaram. Valeu! Valeu!
43:59
P1 - E como está essa experiência? A gente já entendeu que quitanda é a sua vida, quitanda é a sua história, ela te mantém inteira. E como é que está sendo essa experiência de contar essa história toda pra gente aqui e pra quem ainda vai assistir essa entrevista?
R - É minha vida, né, gente? É reconhecimento, né? É reconhecimento de um trabalho, de uma vida. É igual eu te falei, valores que vão me enriquecer para a vida inteira. Eu achei bonitinho, outro dia, a Laura, minha neta, chegou pra mim e falou assim: eu não sei qual que é, gente, de coisas que eu não sei. Ela falou assim: ó vó, a senhora vó, tá no maior... Ai, como é que chama o trem, gente? Eu não sei. Não sei se é site que fala, se é… É um trem, eu acho que vocês sabem qual que é, que fala das pessoas, que fala dos lugares. Aí, ela falou: vó, tá falando da senhora, vó. Tá falando do quintal, vó. Eu falei: Laura, mas quem me colocou aí? Falei desse jeito pra ela. “Vó, mas tá falando da senhora, tá falando da história da senhora.”
Ela falou, gente, eu não sei, eu não lembro, porque eu não sou ligada muito nesses trem. Aí, ela chegou toda feliz, e ela ainda disse que falou, falou: é minha avó e minha mãe, que é do quintal. Aí, assim, eu achei tão bonitinho, que eu falei: nossa, tá vendo onde que eu cheguei? Né? Então, assim, eu não sei como é que é isso, como funciona, ou quem pôs, ou coisa. Mas eu agradeço muito meus antepassados. Eu falo, as mulheres desta família que foram guerreiras e que não deixaram perder e que trouxeram esse ensinamento pra mim. Eu acho que é isso que vale. E que eu tenha discernimento para não deixar isso perder. Porque o que vale é isso na vida. É deixar esses valores. Porque a gente vai ser passageiro, a gente vai passar. Mas e quem vai vir? Para quem que eu vou deixar? Eu acho que é isso que vale. É igual eu tava falando pra vocês sobre a Mariana Cotijo. Eu acho tão bonito, eu gosto tanto de gente assim… Não tem nada que ela faça, se ela lembrar se for alguma receita minha, ela vai lá e dá o crédito. Quintal da Ângela. Eu acho isso de uma humildade tão grande, de um respeito tão grande pela pessoa, não é? Eu fico tão satisfeita, eu falo com ela. Eu sou apaixonada por ela. E ela é uma menina assim, ela é nova e é uma menina assim, que vem com esse legado todo das quitandas, né? Ela vem, ela briga, ela tá, ela… Eu falo assim, Deus me apresentou com as quitandas, gente boa demais, gente. Eu só tenho que agradecer. Eu agradeço as quitandas que me trouxeram aqui.
48:23
P2 - Você quer falar mais alguma coisa?
R - Eu só quero agradecer vocês. E vou esquentar lá o forno pra mim servir um pão de queijo quentinho. Tá?
P2 - Obrigada. Muito obrigada.
R - Eu só tenho a agradecer.
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